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quinta-feira, 8 de novembro de 2012

TERROR EM LOVE CITY (1986)

 

Eu nunca fui um grande fã de animes (filmes de animação produzidos ao estilo japonês) ou de mangás (as histórias em quadrinhos japonesas). Mas dois filmes que marcaram a minha juventude são justamente animes adaptados de mangás: "Akira" (1988), de Katsuhiro Otomo, que considero uma obra-prima, e "Ai City" (ou "Ai Shitî", no original), de Kôichi Mashimo, que foi produzido dois anos antes, mas tem muitos elementos em comum com "Akira" - e talvez por isso mesmo eu goste tanto dos dois.

"Akira" é bastante popular aqui no Brasil, e recentemente ganhou uma respeitável edição de colecionador numa caixa metálica com 2 DVDs. Já "Ai City" caiu na obscuridade, e pouquíssimas pessoas que não eram moleques na década de 80 (como era esse que vos escreve) vão lembrar que o desenho foi lançado em vídeo nas nossas locadoras com o título TERROR EM LOVE CITY, lá por meados de 1987.


Peço licença aos leitores para dividir com vocês como redescobri TERROR EM LOVE CITY depois de mais de 20 anos da primeira vez que vi: eu conhecia o título nacional da animação, mas não o original ("Ai City"), então não tinha nem como pesquisar maiores informações sobre ela na internet. Pois eis que ano passado (2011) entrei numa videolocadora em São Paulo que estava se desfazendo das suas últimas fitas VHS, e no meio delas estava TERROR EM LOVE CITY. Emocionado, comprei na mesma hora. Custou apenas um real, mas não me importaria em pagar 50 por esse autêntico pedaço da minha infância.

O incrível é que mais de 20 anos se passaram desde aquela primeira e única vez que eu tinha visto o filme, mas ainda tinha diversas imagens da animação gravadas de maneira bem nítida em minha mente, como as enormes cabeças que surgem no meio de uma estrada e levantam voo, ou os violentos combates entre heróis e vilões com fantásticos poderes telepáticos, ou ainda o vilão que é um anãozinho no controle de um gigantesco corpo robótico, quase como uma versão cyberpunk do Master Blaster de "Mad Max Além da Cúpula do Trovão"!


Outra coisa que me lembrava muito bem é que, quando moleque, eu não tinha entendido patavinas da trama do filme, mas mesmo assim fiquei embasbacado com a ação e com o visual "futurista" do desenho. Pois vejam só: agora, mais de 20 anos depois, continuo sem entender patavinas de TERROR EM LOVE CITY, talvez porque a dublagem nacional tenha sido mal-feita, ou talvez porque o roteiro de Hideki Sonoda simplesmente não faça nenhum sentido, tentando condensar num único filme de 1h20min informação suficiente para uma série inteira com cinco ou seis episódios!

Mas o que importa é que o negócio continua cumprindo seu papel: desde que comprei a fita, eu já revi o desenho umas duas ou três vezes, e, mesmo sem ter certeza se entendi ou não a história, continuo ficando embasbacado com a ação e com o visual! E como tem muito marmanjão igualzinho a mim por aí (descobri que o cineasta capixaba Rodrigo Aragão, diretor de "Mangue Negro" e "A Noite do Chupacabras", é outro grande fã do filme), eis aqui um justo resgate dessa pérola esquecida.


Vamos começar com duas coisas curiosas sobre a fita lançada aqui no Brasil pela WR Filmes. A primeira é um ponto positivo: o filme surpreendentemente chegou ao mercado nacional numa cópia em seu formato original; ou seja, em widescreen, com as famigeradas barras pretas em cima e embaixo da tela, que não eram comuns nos tempos do VHS, e que muita gente simplesmente odiava, autorizando as distribuidoras a cortar as laterais da imagem para chegar ao famigerado formato "tela cheia".

A outra curiosidade é um ponto negativo: os distribuidores nacionais resolveram cortar toda a sequência de créditos iniciais, eliminando assim qualquer informação que permitisse ao espectador pesquisar maiores detalhes sobre a produção (como o título original ou o nome dos realizadores). Sem a abertura, o filme começa bem no meio da ação, e o dublador anuncia o título TERROR EM LOVE CITY sem que nenhum título apareça escrito na tela!


Por sinal, eis uma das grandes qualidades dessa animação: a história já começa a mil por hora, sem apresentar os personagens e sem dar maiores explicações (e buscar explicações é algo inútil, conforme veremos em seguida). Sem nenhum letreiro informativo ou narração que apresente a época e o lugar em que se passa a história, já encontramos nossos personagens principais num carro em alta velocidade, sendo perseguidos por velozes motocicletas pelas ruas desertas e escuras do que parece ser uma cidade futurista não-identificada.

No caso, os personagens principais são Kei (pronúncia gringa da letra "K"), um rapaz que possui destruidores poderes psíquicos; Ai (pronúncia gringa da letra "I"), sua filha pequena dotada de poderes ainda maiores; Reiden Yoshioka, um ex-policial beberrão que agora trabalha como detetive particular, e um esquisito gato com reações humanas que parece ter saído de algum desenho dos Estúdios Disney.


Como eu escrevi dois parágrafos atrás, o roteiro de Sonoda não se preocupa em dar muito "background", então o espectador nunca fica sabendo como diabos esses personagens acabaram dentro daquele carro em movimento, ou como se encontraram. Porque, pelos diálogos, fica evidente que Reiden não faz a menor ideia de quem sejam Kei, Ai e o gato mutante; então como é que eles acabaram todos juntos no meio de uma perseguição, afinal? E como o detetive foi se meter nessa história de super-humanos e poderes psíquicos se é "apenas" um homem normal?

Desista: o roteiro não explica como se deu o encontro nem porquê. É como se você estivesse assistindo uma minissérie a partir do segundo capítulo e o primeiro nunca mais será reprisado, então você precisa pegar a história já andando e tentar entendê-la. No caso, aqui, nossos heróis começam sua aventura fugindo de motoqueiros malvados liderados por outra telepata, a bela K2 (cujo nome foi traduzido simplesmente como "Kate" na versão brasileira). A moça é tão poderosa que pilota sua motocicleta com a força da mente, sem sequer segurar o guidão.


Enquanto transcorre a perseguição, o diálogo entre Kei e Reiden dá as primeiras pistas para que o espectador entenda um mínimo sobre o que está acontecendo: no universo futurista do filme, existe uma organização criminosa chamada "Fraud", que, por meio de experimentos (ilegais?), está criando "super-humanos" ao amplificar seus poderes telepáticos em laboratório.

Kei e Ai eram cobaias da Fraud, mas escaparam dos laboratórios da organização e agora são perseguidos pelos seus soldados, incluindo K2 - que, conforme o nome original evidencia, deve ser uma versão "revista e melhorada" do próprio Kei.


Se parece simples lendo assim, saiba que assistindo o desenho animado pela primeira vez não é tão fácil de entender. Até porque a dublagem nacional traduz o nome da organização criminosa literalmente, como "Fraude", e seus membros como "Fraudulentos" (!!!).

E a primeira vez em que Kei cita Fraude e Fraudulentos numa mesma frase, você precisa se segurar para não rir - aliás, quem foi o engraçadinho que achou que "Fraude" era um bom nome para uma organização criminosa, se sequer é discreto? Isso lembra aquela piada sobre a placa escrita "QG Secreto do Serviço de Inteligência de Portugal" na frente do prédio do QG Secreto do Serviço de Inteligência de Portugal...


Voltando à ação: os motociclistas malvados são explodidos ao bater num caminhão-tanque, e Kei e K2 lutam usando seus poderes psíquicos. Essa cena é brilhante porque já dá o tom da coisa: os guerreiros telepáticos de TERROR EM LOVE CITY, batizados "Headmeters" no original, exibem num mostrador digital luminoso em suas testas (!!!) o nível do seu poder mental. Quanto maior o número na testa, maior a força psíquica do indivíduo - mais ou menos como se os Scanners de David Cronenberg fossem personagens de um videogame 8 bits!

O que K2 não sabe é que Kei, originalmente um "Headmeter" fraquinho que mal atinge o nível 5, tornou-se uma espécie de super-paranormal graças à sua associação com Ai, e agora consegue elevar seu poder ao infinito!!! Ao fazer isso, ele detona K2 e rasga o horizonte da cidade (não tente entender, é preciso ver para crer!), abrindo um portal para outra dimensão que suga a inimiga. Mais tarde, K2 voltará desmemoriada graças à "surra telepática" que levou, e passará a lutar do lado dos bonzinhos.


Tudo isso acontece nos primeiros cinco minutos de TERROR EM LOVE CITY, e deve ter detonado o cérebro de vários moleques inocentes, como este que vos escreve, graças à sua ação desenfreada, violência explícita e nudez (K2 fica completamente nua ao ser atingida pela onda de "poder mental" de Kei!!!). E a coisa só fica mais e mais exagerada e movimentada a partir de então.

Logo descobrimos que a Fraud é liderada por Lee, um vilão que tem o rosto coberto por uma máscara metálica, e que é tão fodão que nem se dá ao trabalho de caminhar: ele levita para lá e para cá usando seus poderes psíquicos! Nunca fica muito claro (hehehe) o que exatamente a Fraud quer com a menina Ai, mas é atrás dela que Lee e seus "Fraudulentos" estão, e azar de quem ficar pelo caminho.


Mas há um outro problema que ameaça ambos os lados do confronto: Lai Lou Chin, um antigo aliado de Lee, e que agora é um dissidente da Fraud e também quer pôr suas mãos em Ai. O sujeito tem aquele visual "Master Blaster" que citei no começo da resenha: ele é um velho anãozinho que fica o tempo inteiro submerso dentro de uma espécie de aquário na "cabeça" de um gigantesco corpo mecânico que controla por telepatia (acima)! Sério, o que será que tem na água que esses japas tomam?

Lee e Lai Lou Chin começam a brigar para ver quem pega Ai primeiro, com direito às tais cabeças gigantes que brotam do asfalto (uma das cenas mais geniais do filme, e que acabou estampada na capinha da fita brasileira), sangrentos duelos entre paranormais, robôs gigantes e o bizarro "romance" entre a desmemoriada K2 e o beberrão Reiden - que, coitado, é o único ser humano "normal" na trama, sem nenhum poder especial além de um revólver de pouquíssima utilidade!


Quando parece que a história não pode ficar mais confusa e complexa, eis que o roteiro apresenta uma nova ameaça à integridade física de heróis e vilões: uma substância identificada (ao menos na dublagem brasileira) como bio-poluição, que se espalha como um câncer pelo corpo dos humanos e os transforma em monstros gosmentos que se alimentam de DNA (!!!).

E depois que você já desistiu de entender o que se passa e espera que pelo menos o final jogue um pouco de luz sobre a história toda, TERROR EM LOVE CITY termina com uma conclusão sem pé nem cabeça, um daqueles "finais circulares" que fazem a trama voltar ao ponto de partida, mas sem nenhuma mínima explicação sobre o que aconteceu e o porquê daquele desfecho! Como já escrevi, muito moleque deve ter ficado com danos permanentes no cérebro graças a essa animação...

O engraçado é que os próprios personagens do filme fazem piada com o fato de a história ser tão confusa. Quando Reiden pede a Kei que "explique direitinho" porque eles estão sendo perseguidos pela Fraud, Ai responde: "Nem explicando o senhor entende!". Mais adiante, no meio de uma pancadaria, Kei fala para um ainda confuso Reiden: "A explicação fica para depois, vamos fugir daqui!". É claro que a tal explicação nunca vem, ao menos para o espectador...


Alguns flashbacks interrompem a narrativa para tentar explicar o mínimo sobre o passado dos personagens. Descobrimos, por exemplo, que Kei e Ai não são pai e filha, mas algo bem mais complicado: Ai é um clone 10 anos mais jovem de Etsuko, grande amor de Kei, que também foi cobaia nas experiências da Fraud, mas morreu no processo. Ao descobrir sobre o clone, o rapaz resolveu adotar Ai como filha e ajudá-la a fugir do laboratório e da perseguição da Fraud.

(Essa cena também explica os nomes dos personagens, já que descobrimos que Kei é o experimento 308-K, por isso o nome "K", e Ai é a cobaia 307-I, por isso se chama "I"!)


Já um outro flashback mais confunde do que explica: nela vemos vários dos personagens, heróis e vilões, como cientistas de cara limpa, sem seus implantes biônicos ou corpos robóticos, e aparentemente todos são amigos, dando a entender que a história inteira pode estar se passando numa dimensão paralela ou num mundo artifícial criado por esses cientistas, estilo "Matrix", onde Ai seria a única pessoa "real"! Quer saber? Nem tente entender!

Há uma possível explicação para o fato de a história de TERROR EM LOVE CITY ser tão confusa: o roteiro foi baseado num mangá criado por Shuho Itabashi, e publicado entre 1983 e 1984 no Japão (capa de uma das revistas ao lado). Não consegui encontrar os gibis para ler, mas um artigo na Wikipedia dá mais detalhes sobre a trama e sobre os personagens originais dos quadrinhos, o que ajuda a encontrar um pouco mais de sentido na adaptação cinematográfica.

Embora o roteiro da animação tenha deixado de fora muita coisa do mangá (como a esposa de Reiden, Akemi, que fica enciumada com a paixão platônica da "ex-vilã" K2), o básico das motivações dos heróis e vilões entrou no filme, ainda que de maneira bem simplificada. O mangá também esclarece porque Lee e a Fraud querem Ai: eles acreditam que a menina é uma criatura lendária conhecida como "Trigger", capaz de amplificar o poder dos paranormais ao seu redor (o que ela realmente faz com Kei). Talvez o mangá também explique melhor a criatura de bio-poluição que aparece na conclusão e o que diabos significa aquele "final circular"...


Mesmo que TERROR EM LOVE CITY me deixe com um nó no cérebro toda vez que revejo, eu continuo gostando muito do filme. Não só pela nostalgia, mas principalmente pelo charme dessa aventura cyberpunk, que parece ter forte influência do cinema de horror classe B dos anos 80, incluindo a violência explícita obrigatória nas produções daquela década.

Há uma cena fantástica em que Lee mostra a extensão dos seus poderes mentais explodindo a cabeça de um criado humanóide e espalhando o cérebro da vítima pelo rosto da sua secretária! O monstro gosmento e cheio de tentáculos que absorve suas vítimas para roubar-lhes o DNA também rende uns momentos bem escabrosos, com imagens dignas de filmes como "Do Além" e "O Enigma do Outro Mundo".


E dá para pescar algumas referências diretas a filmes de ficção científica, como as cabeças gigantes que lembram "Zardoz", de John Boorman, ou um letreiro anunciando a emissora de TV "THX-1138", que também é o nome do primeiro longa-metragem de George Lucas.

Além das referências, existe algo de muito engraçado nos diálogos rebuscados, cheios de baboseiras pseudo-científicas que fazem pouco ou nenhum sentido, e que rendem pérolas do tipo "Aponte essa arma para mim novamente e eu acabo até mesmo com suas células", ou "Tenho 83,5% de certeza". O fator trash rende até um momento impagável quando, durante uma luta de Kei com vários inimigos da Fraud, toca um pop-rock bem fuleiro com letra em inglês, cujo refrão anuncia: "He's our man / He's a special man / He's a psychic fighter"!!!


Enfim, TERROR EM LOVE CITY é muito, mas muito legal! Poucas coisas são tão anos 80 quanto guerreiros psíquicos cujo nível de poder aparece num mostrador digital luminoso em suas testas (no estilo daqueles velhos relógios digitais da Casio)! Poucas coisas, também, são tão anos 80 quando batalhas entre telepatas que soltam raios e rajadas elétricas ao som de pop-rock! Por fim, poucas coisas são tão anos 80 quanto o visual cyberpunk absolutamente caricatural dos personagens e cenários aqui representados, com destaque para o imponente arranha-céu de centenas de andares que é o quartel-general da Fraud, e que se projeta muitos metros acima dos prédios "comuns".

A verdade é que você esquece rapidinho que a história não faz o menor sentido graças à ação, às lutas absurdas e exageradas, à arte "futurista" da animação, e principalmente graças à excentricidade dos personagens - eis que, lá pelas tantas, K2 inexplicavelmente se veste como uma coelhinha da Playboy (!!!), com orelhas de pelúcia e até rabinho!!!


Embora seja relativamente desconhecido, TERROR EM LOVE CITY também tem muito em comum com outras produções mais famosas da mesma época. Por exemplo, o visual dos vilões Lee e Lai Lou Chin é muito parecido com o do Destruidor e de Krang, dois inimigos das Tartarugas Ninja nos quadrinhos e desenhos animados (com a diferença de que Krang foi criado para a série animada em 1987, um ano depois desse anime japonês).

Outros elementos, visuais e narrativos, lembram muito "Akira", da sequência de perseguição com motos velozes na auto-estrada aos duelos entre paranormais, da organização secreta que faz experiências para criar soldados com poderes psíquicos à bizarra criatura gosmenta que aparece no ato final. Embora a adaptação para o cinema seja de 1988, o mangá "Akira" era publicado desde 1982, e deve ter inspirado tanto o mangá "Ai City" quanto TERROR EM LOVE CITY.


Tudo somado, eu recomendo TERROR EM LOVE CITY com louvor, mesmo para aqueles que não morrem de amores por desenhos animados japoneses, seja pelo traço característico ou pela ação estilizada dessas produções.

Mas, descontando o fato de ser uma animação japonesa, o que temos aqui é um autêntico "Filme para Doidos", com um roteiro sem pé nem cabeça que troca explicações por ação, violência explícita e nudez, e com um montão de personagens legais tanto do lado dos heróis quanto dos vilões.


Quando o filme acaba, você pode até estar totalmente perdido e confuso com o que viu, mas dificilmente não ficou fascinado com o universo de "Ai City" a ponto de lamentar que não tenham sido produzidas outras animações ou histórias com os mesmos personagens. Com a devida imaginação, você pode até encarar TERROR EM LOVE CITY como uma espécie de "prequel" para o maravilhoso "Akira".

E, como curiosidade final, tanto o diretor Mashimo quanto o roteirista Sonoda continuam na ativa, principalmente este último, que escreveu episódios do desenho "Pokemón" e alguns dos longas baseados nessa série animada, além de - pasmem! - ter feito uma pequena participação especial como ator em... "The Toxic Avenger 2", da Troma!


Como escrevi, eu não sou muito fã e tampouco um grande conhecedor de animes. Pode ser que hoje existam coisas semelhantes ou bem melhores que TERROR EM LOVE CITY, provavelmente mais sangrentas e complexas também - e já li um montão de resenhas negativas sobre este anime pela internet.

Mas o que importa é que essa obscuridade foi uma das tantas que teve um papel fundamental na minha formação como cinéfilo "alternativo", naqueles saudosos tempos em que você podia entrar numa videolocadora e topar com um tesouro como a fita desse filme. Rever a velha VHS da WR Filmes tem um sabor de nostalgia e ao mesmo tempo de tristeza, porque remete a um tempo bom que não volta mais.

Cena de abertura de TERROR EM LOVE CITY
(cortada do VHS nacional)



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Ai City / Ai Shitî (1986, Japão)
Direção: Kôichi Mashimo
Com as vozes de: Miyuki Ueda, Hirotaka Suzuoki, Yûji Ueda,
Nachi Nozawa, Mami Koyama e Kiyoshi Kobayashi.


* E a quem interessar possa, eis a capinha do VHS brasileiro do filme (clique para ampliar).

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

PAGANINI (1989)


Um velho ditado diz que "De médico e de louco, todo mundo tem um pouco". Não sei quanto de médico tinha o ator alemão Klaus Kinski, mas, em seus 65 anos de vida e 40 de carreira, ele provou inúmeras vezes que tinha muito de louco. Kinski era uma daquelas figuras excêntricas, megalomaníacas e fora de controle cuja presença magnética roubava a cena de qualquer filme em que aparecesse (como Marlon Brando e, guardadas as devidas proporções, o malucão Gary Busey).

O problema era controlar o sujeito. Chamar Kinski de excêntrico foi generosidade minha: o alemão era doido mesmo, e doido varrido, daqueles que é melhor sair da frente quando surta. Nos mais de 130 filmes que fez, não foram poucos os que saiu brigado com diretores, atores e equipe técnica (às vezes até chegando às agressões físicas); não foram poucos, também, os filmes em que se recusou a ser dirigido, fazendo o que lhe desse na telha, e azar do diretor ou dos atores que contracenavam com ele.


Para dar uma ideia da loucura do indivíduo, o próprio Klaus espalhou a fofoca (mantida viva até hoje) de que teria transado com sua filha, a bela Nastassja Kinski, quando ela tinha apenas 12 anos. A história só foi desmentida tempos depois, quando descobriu-se que a moça perdeu a virgindade com o namorado Roman "Curte uma Novinha" Polanski, quando tinha 15 anos de idade! Mas muita gente ainda acredita na mentira espalhada pelo próprio Klaus de que foi o pai quem primeiro papou a filha.

Nem mesmo o respeitado cineasta alemão Werner Herzog, que era amigo de Kinski e chegou a viver com ele numa mesma casa, conseguiu colocar o descontrolado astro nos eixos. Herzog o "dirigiu" em cinco filmes ("Aguirre, A Cólera dos Deuses", "Woyzeck", "Nosferatu", "Fitzcarraldo" e "Cobra Verde"), mas o relacionamento entre a dupla foi tão dramático que gerou o documentário "Klaus Kinski - Meu Melhor Inimigo", que o diretor lançou em 1998, sete anos depois da morte do problemático ator em 1991, por ataque cardíaco (humor negro: nem o coração aguentava mais as doideiras do velho Klaus!).


Confesso que adoro ler/ouvir sobre o inferno que era fazer qualquer coisa com Klaus Kinski. Seu nome eventualmente é trazido à tona quando eu converso com diretores estrangeiros em festivais de cinema. No Fantaspoa de 2010, o cineasta italiano Luigi Cozzi me contou como ajudou os produtores de "Nosferatu em Veneza" a terminarem o filme: três diretores já tinham brigado com o astro Kinski e sido demitidos até então (Maurizio Lucidi, Pasquale Squitieri e Mario Caiano), e o produtor Augusto Caminito estava filmando ele mesmo antes de pedir uma ajudinha a Cozzi para tentar controlar o ator!

Já no Fantaspoa deste ano (2012), foi a vez do americano David Schmoeller narrar suas desventuras tentando dirigir Kinski em "Perversão Assassina" (a dramática relação entre os dois rendeu até um curta dirigido por Schmoeller, "Please Kill Mr. Kinski", que você pode e deve ver clicando aqui).

E se dirigir um louco já era complicado, imagine o que aconteceria se o louco dirigisse a si próprio. Pior: se o louco estrelasse um projeto totalmente autoral que ele também escreveu e editou! O resultado, senhoras e senhores, é PAGANINI (também conhecido por aí como "Kinski's Paganini"), um dos filmes mais doidos em que eu já tive a oportunidade de colocar os olhos - e, portanto, a obra perfeita para um blog chamado FILMES PARA DOIDOS!


Para quem não sabe, Niccolò Paganini foi um brilhante compositor e violinista italiano que viveu entre 1782 e 1840. O cara era tão foda nas cordas que seu violino parecia encantado, e logo começaram a surgir várias lendas urbanas sobre a origem do seu talento. A mais famosa, que sobrevive até hoje, é a de que Paganini teria vendido a alma ao Diabo em troca do sucesso, e que as cordas do seu violino seriam feitas das vísceras de uma amante sacrificada para o Capeta!

Com pacto ou sem, o violinista entrou para a história não apenas pelo talento como músico, mas também pela vida mundana como colecionador de amantes, geralmente meninas menores de idade, as suas preferidas. Entre suas conquistas mais célebres, consta que pegou até a irmã de Napoleão Bonaparte, Marianna-Elisa Bonaparte!!!


Mas o excesso de putaria logo cobraria seu preço: no fim da vida, Paganini praticamente definhava devido aos sintomas de sífilis e tuberculose (duas doenças que, na época, não tinham cura, e levavam o paciente a um sofrimento horrível). Quando ele morreu, a Igreja Católica proibiu que fosse enterrado em solo sagrado devido à sua vida mundana e à velha lenda do pacto com o demônio.

A vida sui generis de Paganini é um filme pronto para ser filmado. E assim fizeram realizadores de vários lugares do mundo, em pelo menos uma dezena de produções para o cinema e para a TV. Uma das primeiras foi feita na Alemanha em 1923, com ninguém menos que Conrad Veidt, um dos grandes atores de sua geração (protagonista de clássicos como "O Gabinete do Dr. Caligari" e "O Homem que Ri"), no papel do satânico violinista.


Uma nova cinebiografia do violinista era o projeto dos sonhos de Klaus Kinski há pelo menos uma década. Até porque o ator acreditava piamente ser uma espécie de reencarnação de Paganini (!!!). Ele encheu o saco do parceiro Werner Herzog durante anos para que ele dirigisse PAGANINI.

Diante da recusa do cineasta, que jurou que eles jamais trabalhariam juntos depois de tudo que Klaus aprontou durante as filmagens de "Cobra Verde", o próprio ator resolveu mergulhar de cabeça no seu sonho - ou seria pesadelo?


Surpreendentemente, Kinski conseguiu convencer o produtor italiano Augusto Caminito a bancar seu projeto. Lembra de Caminito? Ele já tinha sofrido o pão que o diabo amassou anos antes ao produzir "Nosferatu em Veneza", aquele filme em que três diretores foram demitidos por culpa do ator, e que o próprio produtor teve que terminar com a ajuda de Luigi Cozzi!

Enfim, qualquer pessoa em sã consciência fugiria correndo ao invés de encarar a produção de uma obra totalmente envisionada e desenvolvida por um louco, mas Caminito resolveu pagar para ver - e, a julgar pela beleza da recriação de época, também investiu uma bela grana no projeto. Talvez esperasse algo no nível de "Amadeus", a maravilhosa cinebiografia de Mozart que Milos Forman dirigiu anos antes; quem sabe até esperava que o PAGANINI de Kinski também lhe rendesse alguns Oscars, como aconteceu com "Amadeus"...


Bem, eu vou ser franco e direto com vocês: se tivesse que analisar PAGANINI como o filme que é, como cinema em si, a obra certamente receberia nota zero. Porque há problemas gigantescos, sobre os quais falaremos em seguida. Resumidamente, o resultado da megalomania de Kinski está longe de ser um bom filme - longe até de ser um FILME, já que, apresentando um mínimo de coesão narrativa, o resultado lembra mais uma colagem de imagens aleatórias do que uma narrativa cinematográfica.

Só que este também é um daqueles casos raros em que o artista responsável e a história por trás do projeto são melhores e mais interessantes do que a obra em si. Por menos que eu estivesse gostando de PAGANINI (e em vários momentos me questionei porque estava vendo essa bagaça), eu simplesmente não conseguia desgrudar os olhos da tela. Porque a cada cena, a cada take, ficava pensando menos na trama inexistente do filme e mais no que Kinski estaria aprontando nos bastidores, na hora de filmar aquilo tudo!


Um aspecto curioso do filme é a abordagem da "persona" de Niccolò Paganini: ao invés de cair no óbvio e enfocar aquela crença popular do pacto com o Diabo, Kinski preferiu centrar o foco num Paganini mais humano. Porém - e aí está o toque genial da adaptação -, o Paganini de Kinski é representado como se fosse um ídolo do rock, uma espécie de Mick Jagger do século 19, pegando todas as gatinhas só por causa da sua música e da sua performance, e com um séquito de "groupies" prontas para abrir as pernas ao primeiro acorde do seu violino!

Tem até uma cena grosseira e hilária em que Paganini está recebendo sexo oral de uma menina de joelhos, enquanto várias outras garotinhas observam pela janela e uma delas comenta: "Queria que fosse eu!".


PAGANINI faz um recorte ousado, enfocando os últimos anos da vida do músico, mas sem se preocupar em explicar coisa alguma da sua vida pregressa, como se todo mundo já fosse ao cinema sabendo todos os detalhes da vida e da carreira do violinista.

O filme começa com o músico na cama, à beira da morte, recebendo a visita de um emissário da Igreja, o padre Caffarelli (Bernard Blier), que foi enviado para tentar convertê-lo no leito de morte. Achille, filho do violinista, expulsa o sacerdote do recinto, e então Paganini começa a relembrar seus "melhores momentos" em flashback.


Já seria naturalmente difícil separar Paganini de Kinski, considerando que ambos foram artistas geniais marcados pela excesso de excentricidade e pelas histórias escabrosas espalhadas de boca em boca (se no século 19 todo mundo acreditava que Paganini tinha vendido a alma, no século 20 e até hoje todo mundo acredita que Kinski comeu a própria filha!).

Ambos também eram viciados em sexo com predileção por ninfetinhas, e o velho Klaus fez questão de escalar sua própria esposa na época, Debora Caprioglio, e seu próprio filho, Nikolai Kinski, para os papéis da mulher e do filho de Paganini, Antonia Bianchi e Achille! Esse nepotismo torna ainda mais difícil separar Niccolò de Klaus.


O restante do filme faz pouco ou nenhum sentido, e basicamente consiste numa série de imagens dos anos de glória do violinista. "Eu não sou jovem e nem bonito. Sou feio e pervertido. Mas quando as mulheres escutam a voz do meu violino, elas não hesitam em trocar seus maridos por mim", anuncia Kinski/Paganini.

E é só isso que veremos durante a maior parte do filme: como o violinista pulava de uma conquista para a outra, numa desculpa para que o filme apresente incontáveis cenas de sexo softcore às raias do explícito (digamos que Kinski realmente aproveitou essa sua experiência como diretor, roteirista e astro!).


A bem da verdade, existem duas rápidas cenas de sexo que podem ser consideradas pornográficas, X-Rated mesmo: na primeira, Klaus mergulha de língua na perereca cabeluda de uma figurante, e a câmera dá um close que confirma que o ator está com a boca na botija e tirando uma casquinha da moça; a outra mostra uma garota se masturbando na cama enquanto escuta a música de Paganini, com direito a dedinho entrando e saindo daquele lugar.

Os dois momentos são bem mais gráficos do que seria necessário, mas quem seria corajoso o suficiente para questionar o diretor E astro Klaus Kinski? Há ainda uma terceira cena em que ele aparece comendo uma figurante de quatro, e, embora não vejamos a penetração, fica bem evidente que "aquilo" está dentro "daquela", até pelas caras e bocas do casal!


Sendo PAGANINI o primeiro trabalho do astro alemão como diretor e roteirista (primeiro e único, já que ele morreu pouco depois), é possível identificar um pouquinho de vários cineastas com quem ele trabalhara e que devem tê-lo influenciado, de Herzog a Jess Franco (este último nas cenas de sexo no limite do pornográfico, mas sempre muito bonitas plasticamente).

Kinski também tomou umas decisões criativas corajosas que valorizam a obra, como ao filmar todas as cenas usando apenas luz natural (o Sol nas externas e a luz de velas e lampiões nas internas), a exemplo de Stanley Kubrick em "Barry Lyndon". Graças a esse recurso, a cena em que Paganini se apresenta num enorme tratro, iluminado apenas por lampiões, ficou lindíssima, com méritos para o diretor de fotografia Pier Luigi Santi.


O problema é que qualidade técnica não salva filme, e, como diz um velho ditado, se quisesse ver apenas fotografia bonita, eu comprava um livro do Sebastião Salgado. Não demora para PAGANINI tornar-se enfadonho pela ausência de roteiro, já que a narrativa confusa simplesmente vai saltando de uma cena a outra sem nada para guiá-las ou para costurar as imagens.

Sim, há alguns momentos bem interessantes, como aquele em que o velho Paganini vê um moleque tocando violino na rua e sendo ignorado pelas pessoas que passam. Talvez lembrando da sua própria infância humilde, o violinista toma o instrumento do garoto e começa um concerto maravilhoso no meio da rua, que reúne uma pequena multidão, de quem Paganini recolhe dinheiro para dar à criança.


A cena final, em que um Paganini vencido pela tuberculose literalmente toca violino até a morte, esvaindo-se em sangue no processo, também é maravilhosa, e provavelmente a parte mais marcante do filme.

Só que esses fragmentos ficam perdidos na montagem, e há pouquíssimos diálogos que expliquem quem são os personagens e quais são as suas motivações. Durante 80% do tempo, só sabemos sobre o personagem principal o que vozes em off comentam sobre imagens aleatórias e closes de Kinski! O resultado é um verdadeiro videoclipe de uma hora e meia, com as belíssimas composições de Paganini ganhando vida no violino de Salvatore Accardo, o responsável pela trilha sonora.


O alemão também exagera na megalomania. Além de sua carranca estar em praticamente cada frame, ele usa o filme inteiro como uma desculpa para auto-promover a si próprio como grande artista e grande comedor de mulheres, com direito a incontáveis cenas em que alguma garota começa a gemer ou acariciar as partes íntimas enquanto escuta o violino do músico!!!

PAGANINI inclusive me lembrou a única piada decente do filme "As Férias de Mr. Bean", de Steve Bendelack. A comédia é muito sem-graça, mas tem um momento inspirado envolvendo um cineasta cult chamado Carson Clay (interpretado por Willem Dafoe) apresentando seu novo filme no Festival de Cannes. O tal filme consiste em takes do próprio Clay caminhando em câmera lenta e filosofando em off. Não acredito que os roteiristas de "As Férias de Mr. Bean" tenham assistido PAGANINI, mas o filme falso estrelado por um diretor narcisista lembra muito, muito MESMO, este trabalho de Klaus Kinski...


No fim, PAGANINI é um filme caótico sobre o próprio Klaus Kinski, e não sobre Niccolò Paganini. A câmera registra um louco completamente fora de controle - mas, ainda assim, um louco que era um ator soberbo e que tinha uma presença hipnótica nas telas. E é preciso admirar muito o seu trabalho para aguentar essa prova de fogo, pois o alemão doido aparece em 99% do filme!

Claro que o fato de o próprio Klaus ser o montador explica porque somos bombardeados com tantas imagens longas e repetitivas dele mesmo. Ele devia gostar muito da própria carranca, pois é tão grande a quantidade de cenas em câmera lenta que mostram apenas Kinski caminhando em direção à câmera, ou closes do ator pensando e olhando para o infinito, que PAGANINI é um belo estudo de caso para alguma aula de Psicologia sobre narcisismo.

E o problema é que o filme não se sustenta só com esses takes da belíssima face do velho Klaus (sim, isso foi uma ironia). A história começa e termina sem que saibamos quem, afinal, foi Niccolò Paganini, pois o roteiro jamais se aprofunda no personagem. Tudo que sabemos é que ele é um grande violonista e um grande pegador, além de pai dedicado. Todo o resto precisamos supor, ou pesquisar por conta própria depois de ver o filme.


Embora o filho do violinista ocupe um tempo considerável da narrativa, sua esposa Antonia entra e sai da história de maneira tão rápida que nunca entendemos direito quem ela é ou o que está fazendo ali, como Paganini a conheceu e porque a abandonou. Ela parece existir apenas para justificar a existência do filho do músico - ou, talvez, porque Kinski prometeu um papel à mulher para compensar todas as figurantes que traçou durante o filme!

Outros personagens que gravitam ao redor de Paganini na trama tampouco ganham qualquer desenvolvimento. As meninas que o violinista seduz são todas anônimas, jamais identificadas, e só descobri que a linda Eva Grimaldi ("Black Cobra") interpretava a famosa irmã de Napoleão porque vi isso no IMDB - no filme, ela nunca é identificada como tal, e acho que seu nome sequer é citado!

Volta-e-meia surge alguma cara conhecida, como a do mímico Marcel Marceau, ou a carranca do matusalém do cinema italiano Feodor Chaliapin Jr., porém, novamente, eles não têm tempo suficiente em cena para fazer qualquer coisa. Os holofotes estão unicamente sob Kinski, e que se danem todos os outros!


Sim, o velho Klaus era um ator fantástico, e isso não se discute. Talvez até viesse a ser um grande cineasta se tivesse feito outros filmes e aprendido a lidar um pouquinho melhor com as outras pessoas da equipe. Mas julgando por esse primeiro e único trabalho, fica bem claro que ele era um fiasco como roteirista e principalmente como editor.

Em algumas cenas, a câmera sacode ou se move abruptamente mais do que necessário, como se o diretor de fotografia estivesse buscando o enquadramento ou preparando-se pra mover a câmera de lugar, e Kinski inexplicavelmente deixou esses pedaços na montagem!


E tem um montão de sequências que se arrastaaaaaaaaaaaaaam até não poder mais, naquelas típicas "punheteações artísticas" que farão os fãs de Andrei Tarkovsky e Theo Angelopoulos terem orgasmos de satisfação. Por exemplo, depois dos três minutos em que a câmera fica fixa em Paganini/Kinski comendo um pedaço de queijo, bebendo vinho e olhando silenciosamente para o infinito, você praticamente implora: "Tá bom, tá bom, será que dá para seguir em frente?".

Também me incomodaram os loooooooongos minutos de câmera fixa em que Paganini/Kinski fica fazendo carinho no rosto do filho (na ficção e na vida real), porque parece que a qualquer momento o maluco vai beijar o garoto na boca - o que felizmente não acontece, e se aconteceu ficou no chão da sala de edição!


O abuso de cenas desnecessárias em câmera lenta também depõe contra Klaus como diretor e editor, principalmente depois do vigésimo ou trigésimo take de cavalos galopando em câmera lenta em parcos 90 minutos de filme. Isso parece até confirmar uma suspeita paixão equestre do alemão, pois não passam três minutos de filme sem que surja uma carruagem puxada por cavalos galopando em câmera lenta. Lá pelas tantas, o sem-noção filma até um cavalo "perpetuando a espécie" com uma égua enquanto uma moça assiste e se masturba, em mais um momento que parece ter sido inspirado por Jess Franco (ou pelos pornôs com cavalos que o Juan Bajon fez na Boca do Lixo, que Kinski não deve ter visto, mas pelo jeito iria adorar...).

Para quem gosta de "drinking games" cinematográficos, PAGANINI é uma bela desculpa para encher a cara: basta tomar um dose de cachaça, tequila ou vodka a cada câmera lenta, ou então a cada momento em que cavalos aparecem em cena. Só não recomendo unir os dois temas, pois aí o resultado será coma alcoólico ainda nos 15 primeiros minutos do filme!


Agora chegou aquele momento da resenha em que o leitor começa a me perguntar: "Mas vem cá, o que você viu de tão fantástico neste filme então, se até agora praticamente só enumerou defeitos nele?".

Aí é que está, amiguinhos: o que me deixou embasbacado com PAGANINI é exatamente a entrega total de Klaus Kinski ao filme, não só no papel-título, mas também como diretor. Eu acho que seria justíssimo colocar PAGANINI como sinônimo, no dicionário, para a expressão francesa "tour-de-force" - usada nas artes para definir "um esforço excepcional, que ultrapassa o ótimo; quando alguém faz algo que dificilmente vá ser feito igual por outra pessoa".


Porque isso, amiguinhos, é PAGANINI: Kinski completamente doido, mas com controle total sobre um filme, sem um diretor com quem brigar ou um roteirista para questionar. Porque dessa vez, pela única vez em toda a sua carreira cinematográfica, é ele quem está fazendo tudo. E há uma beleza nessa força da natureza chamada Klaus Kinski, nesse ser humano fora de controle registrado no ápice da sua loucura, que é até difícil de explicar.

Mas, basicamente, eu via cada cena imaginando o que o alemão teria aprontado antes e depois da sua filmagem. Fiquei pensando em como ele deve ter abusado das atrizes com quem aparece fazendo sexo teoricamente simulado (o making-of que acompanha o DVD do filme mostra que ele repetiu aquela cena explícita de sexo oral pelo menos umas seis vezes, e sempre metendo a boca - e a língua - na botija!).


Enfim, fiquei visualizando Klaus berrando, gesticulando, enlouquecendo ao final de cada take, e sua equipe com medo do que ele faria a seguir. Muitas dessas doideiras estão registradas nos noventa e poucos minutos do filme, como na cena em que Kinski/Paganini fica segurando um candelabro sobre uma moça adormecida, e a cera quente das velas está visivelmente pingando sobre a atriz, que mesmo assim tenta ficar imóvel para não estragar o take!!!

Mas a maioria fica para a imaginação do espectador, e essa é a beleza do filme. Imagino que quem esteve lá, acompanhando o gênio louco e psicopata em ação, deve ter muitas histórias inacreditáveis para contar. E aposto que tudo que aconteceu por trás das câmeras foi infinitamente mais interessante que o filme pronto e editado.


É óbvio que, nesses termos, PAGANINI não é um filme para o público em geral, conforme o produtor Augusto Caminito deve ter percebido depois da sua desastrosa estreia no Festival de Cannes de 1990 - quando Kinski, claro, discutiu aos berros com jornalistas, gritando-lhes todo tipo de insultos quando eles "ousaram" criticar o filme que tinham acabado de ver.

O sonho de ter um novo "Amadeus" nas mãos terminou cedo, e Caminito optou por reeditar a obra sem o consentimento do realizador, cortando 14 minutos (incluindo as cenas mais calientes de sexo) e alterando a ordem de algumas cenas para um lançamento bastante limitado em alguns cinemas da Itália e da França. Recentemente, as duas versões foram lançadas em DVD lá na Europa.


Assim, o único trabalho verdadeiramente autoral de Klaus Kinski jamais chegou a um grande público - e nem deveria, já que 95% da humanidade vai desistir do filme ainda nos primeiros 10 minutos. Pois, para mim, é justamente aí que reside o charme da obra. PAGANINI é um "Filme Para Doidos" por excelência, aquele tipo de produção que sequer pode ser chamada de cult porque os cults não são malucos o suficiente para gostar disso.

E Klaus Kinski se entregou tanto a esse seu primeiro e único trabalho como "tudo" (astro, roteirista, diretor e editor) que depois abandonou o cinema. Talvez para evitar as piadinhas de todo mundo que ele infernizou em sua carreira como ator, principalmente diretores louquinhos para dizer algo como "Você me acusava de não saber dirigir e fez AQUILO?". Ou, talvez, porque depois de PAGANINI ele julgou não ter mais nada a dizer/fazer. Assim, o ator alemão morreu em sua casa, na Califórnia, em 23 de novembro de 1991. Foi cremado e teve suas cinzas jogadas no oceano, talvez porque nem os vermes aguentassem o sujeito.

Louco ou gênio incompreendido? A julgar por esse seu único trabalho como "autor", eu diria que ele foi um doido varrido genial, e deixou PAGANINI como epitáfio.

Trailer de PAGANINI



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Paganini (1989, Itália)
Direção: Klaus Kinski
Elenco: Klaus Kinski, Debora Caprioglio, Nikolai Kinski,
Dalila Di Lazzaro, Tosca D'Aquino, Eva Grimaldi, Bernard Blier,
Marcel Marceau e Feodor Chaliapin Jr.