WebsiteVoice

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

CASSINO ROYALE (1954)


Fazia um bom tempo que não se falava tanto em James Bond quanto nesses últimos dias e semanas. É um tal de "50 anos de 007" pra cá, novo filme do "James Bourne" Daniel Craig pra lá, e, como sempre, pouquíssimos jornalistas (e blogueiros) foram a fundo e lembraram de citar que a estreia de Bond nas telas na verdade foi há 58 anos, e não 50. Ainda que, nesse caso, as telas fossem as "telinhas" dos televisores norte-americanos, e não as telonas dos cinemas mundiais.

Pois foi com CASSINO ROYALE, adaptação do livro de Ian Fleming para um episódio do seriado de TV "Climax!", que nosso amado espião mulherengo e mortal ganhou sua primeira versão "live action", e isso lá em 1954, quando Sean Connery ainda era um mero figurante no cinema inglês e Daniel Craig sequer tinha nascido (o que aconteceria apenas 14 anos depois, em 1968).


O livro "Cassino Royale" é a primeira aventura literária do espião inglês James Bond, do Serviço Secreto de Inteligência (MI6), cujo nome de código, "007", significa que tem licença para matar. Foi publicado no Reino Unido em abril de 1953 e logo virou um sucesso de vendas. Mas o mesmo não aconteceu nos Estados Unidos, onde a obra foi publicada no ano seguinte, com uma recepção bem tímida e meras 4.000 cópias vendidas em um ano inteiro.

Entretanto, o autor Fleming já pensava grande. Em 1954, Bond já estava em seu segundo livro ("Viva e Deixe Morrer"), e seu criador teve inúmeras reuniões com produtores para tentar levar o personagem ao cinema, onde acreditava que ele teria um grande futuro (pense num visionário).

Infelizmente, ninguém queria bancar um filme de 007 naquela época, e imagine o arrependimento dessas pessoas se pudessem ver o futuro. Os únicos interessados no espião eram os executivos de um canal de TV norte-americano, a CBS. Eles produziam um seriado chamado "Climax Mystery Theater", ou simplesmente "Climax!", que consistia em episódios de no máximo 50 minutos, contando histórias de espionagem e suspense representadas ao vivo (isso mesmo, AO VIVO!).

"Climax!" estreou em 7 de outubro de 1954 com "The Long Goodbye", baseado num livro de Raymond Chandler, e já nesse primeiro episódio aconteceu um furo que entrou para os anais da história da TV ao vivo mundial: no meio da trama, o ator Tristram Coffin, que interpretava um cadáver, simplesmente levantou-se e caminhou para fora do cenário, ignorando que ainda estava dentro do ângulo da câmera, para a surpresa dos telespectadores!


Duas semanas depois, em 24 de outubro de 1954, seria exibido o terceiro episódio do seriado e a primeira aventura de James Bond fora dos livros de Ian Fleming (além, é claro, da primeira das três adaptações de "Cassino Royale", que depois foi transformado em comédia em 1967 e em "reboot" da franquia 007 em 2006).

Diz a lenda que Fleming recebeu apenas mil dólares pelos direitos de adaptação de James Bond para a TV, e nem podia reclamar porque o agente secreto sequer era um personagem popular nos Estados Unidos, onde o livro "Cassino Royale" não foi um sucesso de vendas como na Inglaterra - ironicamente, na abertura do episódio, o apresentador William Lundigan mentia que a aventura era baseada num "grande best-seller"!


Coube a dois roteiristas, Anthony Ellis e Charles Bennett, a honra de ser os primeiros a adaptar os feitos de 007. Enquanto Ellis era, à época, um nome de pouca expressão (e nem alçou maiores voos depois), Bennett era um veterano (nascido em 1899!) especializado em histórias de mistério e suspense, tendo escrito vários roteiros para os primeiros filmes de Alfred Hitchcock (como "Os 39 Degraus" e a primeira versão de "O Homem que Sabia Demais").

Já a direção de CASSINO ROYALE ficou a cargo de William H. Brown Jr., que havia dirigido o episódio de estreia do seriado "Climax!" e também não tem grandes créditos depois deste.


Quando se fala em CASSINO ROYALE, convém não pensar naquele "Duro de Matar no Cassino Royale" dirigido por Martin Campbell em 2006. O livro de Fleming, com aquele ar de pulp fiction de rodoviária, conta uma história bastante simples de espionagem, bem diferente da adaptação à la "Jason Bourne" feita no século 21.

Na trama do livro, o agente 007 James Bond recebe a aparentemente simples missão de jogar bacará contra Le Chiffre, o contador de uma organização terrorista conhecida como Smersh, que é viciado em jogo, mas aposta usando o dinheiro dos seus empregadores. Se Bond ganhar de Le Chiffre, o vilão será automaticamente eliminado pela sua própria organização por ter perdido o dinheiro destinado a operações terroristas e compra de armas.


O espião vai até o Cassino Royale-Les-Eaux, no norte da França, acompanhado pela agente Vesper Lynd. Após uma dramática partida, Bond consegue limpar os 8 milhões de francos de Le Chiffre, mas o vilão reage sequestrando Vesper e torturando 007 de maneira brutal, batendo inúmeras vezes em seus testículos (num trecho que chega a doer no leitor, muito bem representado no filme de 2006). O herói é salvo na hora H por um assassino da Smersh, que foi enviado justamente para eliminar o falido Le Chiffre.

Na conclusão do livro, Bond se apaixonava por Vesper e cogitava até abandonar o Serviço Secreto para casar-se com a agente e levar uma vida normal. Só que a moça cometia suicídio, deixando um bilhete em que explica que estava sendo chantageada e fazia jogo duplo para a Smersh. O último parágrafo da aventura é genial e mostra um 007 muito menos apaixonadinho do que aquele do filme com Daniel Craig: após contar aos seus superiores sobre a traição de Vesper, Bond completa, friamente: "Mas tudo bem, a vagabunda já está morta".


Como o leitor pode perceber, o livro de Fleming não tem nenhum 007 pedreiro fazendo "le parkour" e explodindo tudo que encontra pelo caminho, e é esse mesmo clima do livro que se vê nessa primeira adaptação de Bond para a TV norte-americana. Embora, claro, com uma série de modificações e simplificações, até para adequar a violenta trama de espionagem de Fleming para o formato televisivo (pior: formato televisivo AO VIVO).

Mas a maior das liberdades poéticas tomadas pelos roteiristas Ellis e Bennett foi que, para tornar James Bond mais simpático aos olhos do espectador norte-americano, ele deixou de ser um espião do Serviço Secreto Britânico para transformar-se num agente ianque (!!!) da fictícia Combined Intelligence Agency (uma alusão nada sutil à CIA), e interpretado por um ator californiano, Barry Nelson ("O Iluminado").


Como o formato de TV ao vivo não permitia muita movimentação ou cenas de ação elaboradas, CASSINO ROYALE se passa unicamente no interior do hotel-cassino que dá nome ao filme, e a narrativa é dividida em três atos separados por intervalos comerciais.

No primeiro ato, o agente norte-americano (hehehe) James Bond chega ao Cassino Royale e encontra seu contato, Clarence Leiter (Michael Pate). Clarence é a versão televisiva de Felix Leiter, que nos livros é um agente da CIA (e nos filme seguintes também). O irônico é que, aqui, ele trocou de papéis com o herói: Bond passa a ser o americano da CIA, e Leiter o agente inglês! Os dois conversam sobre a missão do herói (vencer Le Chiffre na mesa de jogo) e sobre as regras do bacará, até para que os espectadores não ficassem boiando, já que o jogo não é tão popular nas Américas quanto é na Europa.


No segundo ato transcorre o jogo de bacará propriamente dito, mas a adaptação para a TV falha em passar a sensação de urgência e de tensão do livro, melhor representada no filme de 2006. Após um início desanimador, Bond vence a partida e limpa Le Chiffre, ganhando um cheque milionário da direção do cassino.

Finalmente, no terceiro e último ato, o herói é aprisionado pelo vilão e por seus homens, que o torturam para descobrir onde ele escondeu o tal cheque. Como o esmagamento de testículos não iria ficar muito bem na TV, Bond sofre outra tortura nada agradável: as unhas dos seus pés são arrancadas com alicate - off-screen, é lógico. Le Chiffre acaba encontrando o cheque, mas a essa altura o agente já conseguiu se soltar e pode tranquilamente atirar em seus agressores. Fim do episódio.


Com um James Bond despido de suas principais características e pouco atuante na maior parte da história, a melhor coisa de CASSINO ROYALE é o vilão Le Chiffre, interpretado pelo sempre eficiente Peter Lorre. Por coincidência, isso de o vilão roubar a cena do herói é algo que se repetiria em várias aventuras posteriores da série 007 no cinema.

Eternamente marcado por seu papel no clássico "M, O Vampiro de Dusseldorf", Lorre compõe um vilão ameaçador de voz irritante e olhar psicótico. Curioso é que Le Chiffre, o primeiro vilão de uma aventura literária de Bond, também foi o primeiro inimigo de 007 nas telas, e Lorre o primeiro ator a interpretá-lo (Orson Welles e Mads Mikkelsen fariam o mesmo vilão em 1967 e 2006). Para não confundir o espectador com excesso de informação, Le Chiffre aqui é simplesmente um espião inimigo russo, sem que seja feita nenhuma referência à organização Smersh.


Além do James Bond ianque e do "Clarence Leiter" inglês, uma outra personagem bastante modificada em relação à sua contraparte literária é Vesper Lynd, primeiro interesse romântico de 007 no livro, e que aqui foi substituída por uma agente do Serviço Secreto Francês chamada Valerie Mathis - talvez uma referência a René Mathis, que no livro era um agente francês que não aparece nessa adaptação para a TV.

A honra de ser a primeira Bond Girl coube à mexicana Linda Christian, mas sua personagem tem pouco ou nada em comum com a Vesper Lynd do livro, sendo representada apenas como uma ex-namorada de Bond que agora é amante de Le Chiffre (na verdade, uma agente infiltrada para monitorar os passos do vilão). Bond e Valerie ficam juntos no final, ignorando a conclusão trágica do livro.


CASSINO ROYALE não é, nem com muita boa vontade, um bom filme, e nem sequer uma apresentação digna de James Bond como "herói de ação". A julgar por essa sua estreia televisiva, ninguém jamais poderia imaginar que em apenas oito anos (com "007 Contra o Satânico Dr. No", de 1962) teria origem uma das franquias mais famosas e lucrativas da história do cinema.

E é claro que, por não ser um episódio "oficial" da série iniciada com "O Satânico Dr. No", esse aqui também não tem nenhum dos elementos que tornaram 007 famoso no cinema: o imortal tema musical de John Barry, a vinheta animada com Bond disparando contra o espectador, a famosa apresentação "Bond, James Bond", os gadgets que o espião usa para se safar das enrascadas, e nem sequer o "martini mexido, mas não batido".

Mas o curioso é que a abertura do seriado "Climax!" lembra um pouco a famosa vinheta do "cano de revólver apontado contra Bond", quando o ponto de vista da câmera "entra" por dentro da lente de uma câmera de TV para apresentar o elenco e o título da série (imagens abaixo). Parece que a qualquer momento vai aparecer Barry Nelson caminhando e atirar contra o espectador, como fariam os Bonds depois dele! Vai ser visionário assim lá na PQP!


Mesmo com as inúmeras limitações narrativas impostas pelo formato televisivo (AO VIVO, lembrando mais uma vez), CASSINO ROYALE até tenta criar algumas situações de suspense e perigo - esporádicas, é verdade, mas ainda assim presentes. O episódio já começa, vejam só, com Bond escapando por pouco de um atentado a tiros na entrada do Cassino Royale. Parece que a história toda será nessa pegada, mas infelizmente o foco logo recai sobre a chatíssima partida de bacará.

O máximo de "excitação" que o espectador vê a partir de então é o herói sendo ameaçado por uma "bengala-espingarda" pressionada nas suas costas por um dos capangas de Le Chiffre, e depois apenas a conclusão com a tortura e vingança de Bond. A narrativa é ancorada nos diálogos entre os personagens, que tentam passar urgência e tensão através de telefonemas e ordens dadas sem muita convicção. É pouco para o personagem que viraria praticamente um exemplo de ação e emoção nos filmes posteriores, mas vamos combinar que o livro de Ian Fleming também não era exatamente movimentado e emocionante.


Fechando um olho para a narrativa televisiva típica da época, o grande defeito de CASSINO ROYALE, ainda mais considerando o que viria depois, é o Bond de Barry Nelson. Ele em nada, mas nada mesmo, lembra o personagem literário ou suas futuras encarnações cinematográficas. Com cabelo escovinha e um smoking barato, falta-lhe o charme, a ousadia e até a ironia ao enfrentar o perigo. Nelson representa Bond como se fosse um cowboy, ou mesmo um detetive daqueles filmes classe B da época, disparando frases prontas e engraçadinhas ao invés de tiros - quando Leiter pergunta se ele era o sujeito em quem atiraram na entrada do cassino, Bond responde: "Não, eu sou o sujeito que erraram".

Também não ajuda o fato de o roteiro dar mais destaque às supostas habilidades de Bond como jogador de cartas do que à sua "licença para matar" (que sequer é citada). Não que habilidades específicas sejam importantes nesse caso (e não eram no livro ou na adaptação de 2006), pois o bacará é um jogo mais de sorte do que de técnica - o próprio herói explica que "é como qualquer jogo: você não pode perder". Para piorar, Bond é várias vezes chamado de "Jimmy" Bond, porque os americanos adoram esses apelidos diminutivos engraçadinhos!


Enfim, eu sempre achei bastante curioso o argumento do livro de Fleming, que coloca um super-espião para enfrentar um vilão perigosíssimo não com a força bruta, nem com a astúcia, mas sim com a pura sorte num jogo de cartas! O problema é que CASSINO ROYALE nunca consegue convencer o espectador da importância desta partida (a adaptação de 2006 foi muito mais eficiente nesse sentido), e a dita cuja acaba sendo só isso mesmo, uma enfadonha partida de cartas cujas regras o espectador sequer entende direito.

Se Jimmy Bond e Le Chiffre parecem tensos na mesa, essa tensão nunca se estende ao espectador, e por isso é questionável o porquê de uma história dessas ter sido adaptada para um seriado supostamente especializado em tramas de suspense!


Mesmo assim, parece que CASSINO ROYALE teve audiência e repercussão suficientes para que a CBS contratasse Ian Fleming para escrever outras histórias do agente "Jimmy" Bond para o seriado. Só que, apesar de o autor ter escrito uns 30 roteiros, eles acabaram nunca sendo filmados, e o próprio Fleming reutilizou os argumentos em alguns dos seus livros posteriores.

Um tanto insatisfeito com o tratamento dado ao personagem pela TV norte-americana, e pelo pouco-caso com as outras aventuras que escreveu, Fleming continuou batendo de porta em porta de produtores, até finalmente conseguir vender seu peixe para Albert R. Broccoli e Harry Saltzman, que fizeram "O Satânico Dr. No" oito anos depois. O sucesso estrondoso desse "novo" 007, interpretado com muito mais charme e cinismo pelo escocês Sean Connery, mandou o Jimmy Bond de Barry Nelson direto para a obscuridade.


Mas antes de enfrentar o Dr. No no cinema, James Bond atacou também nos quadrinhos, mais especificamente em aventuras divididas em tiras diárias publicadas no jornal Daily Express (imagem acima). E a primeira aventura adaptada para este formato foi novamente "Cassino Royale", cujas tiras foram publicadas entre julho e dezembro de 1958, com texto de Anthony Hern e desenhos de John McLusky.

Entre essa pioneira e a estreia de "O Satânico Dr. No" nos cinemas em 1962, outras dez aventuras de 007 viraram tiras de quadrinhos (inclusive "Dr. No", publicada em 1960), e mais seriam produzidas até o final da década de 70.


Já o seriado "Climax!" teve vida longa e chegou a quatro temporadas, encerrando em junho de 1958. Pelo menos dois cineastas famosos tiveram suas primeiras experiências nesta série: John Frankenheimer, que dirigiu 26 episódios entre 1955 e 56, e Arthur Hiller ("Love Story"), responsável por dois episódios.

Se nenhum dos outros roteiros de Fleming chegou a ser adaptado, "Climax!" pelo menos contou com roteiristas como Rod Serling e Gore Vidal no seu quadro de roteiristas, e com a participação de atores do calibre de Vincent Price, Lon Chaney Jr., John Carradine, Lee Marvin, Boris Karloff, Charlton Heston, John Cassavetes, Henry Silva, Vera Miles e até uma jovem Betsy Palmer, que décadas depois ficaria imortalizada como a mãe de um certo Jason na série "Sexta-feira 13".


Infelizmente, como aconteceu com boa parte do material dos primórdios da TV, os episódios de "Climax!" foram considerados perdidos, e CASSINO ROYALE é um dos poucos que foi salvo da obscuridade após anos de investigações feitas por colecionadores - uma missão tão complexa que seria digna do próprio 007, mas não do fracotão Jimmy Bond!

No fim, das três versões já produzidas para o livro de Ian Fleming, confesso que a minha preferida é a comédia débil mental de 1967. Talvez pelo elenco de astros, talvez pela zona total que é aquele filme, talvez pela quantidade de musas do cinema de outra época, talvez pelo clima de gozação geral com a franquia, talvez simplesmente porque eu seja um débil mental. Eu até gostei do "Cassino Royale" de 2006, mas o filme cai muito nas revisões.


Até porque já torrou o saco essa onda de "hiper-realismo" no cinema, com Batman realista, Bond realista e o caralho a quatro. A graça de 007 é justamente o absurdo, o exagero e o clima de história em quadrinhos das suas aventuras (algo exclusivo do cinema, que não existia nos livros de Ian Fleming). Transformá-lo num espião "mais humano" e sem os absurdos é o mesmo que fazer um novo "Porky's" sem mulher pelada, ou um novo "Sexta-feira 13" sem mortes.

E vale registrar que o maior beneficiado com a existência desse CASSINO ROYALE de 1954 é o Daniel Craig. Afinal, graças ao descaracterizado e sem graça Bond de Barry Nelson, o dele passa a ser apenas o segundo pior 007 do cinema, e não "o" pior.


Veja CASSINO ROYALE na íntegra!


*******************************************************
Climax! Presents Casino Royale (1954, EUA)
Direção: William H. Brown Jr.
Elenco: Barry Nelson, Peter Lorre, Linda Christian,
Michael Pate, Eugene Borden, William Lundigan,
Jean Del Val e Gene Roth.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

ZOMBIETHON - A HORA DOS ZUMBIS (1986)


Naqueles hoje longínquos anos 80, quando você tinha que depender da boa vontade das distribuidoras para que os filmes chegassem aos cinemas e videolocadoras brasileiras, a vida de cinéfilo não era nada fácil. Para fãs de horror, então, era um verdadeiro pesadelo: clássicos essenciais, como "O Massacre da Serra Elétrica" e "Zombie - O Despertar dos Mortos", só saíram em vídeo por aqui quase 20 anos depois de seu lançamento original!

Claro, eram outros tempos, e ninguém imaginava que um dia fosse existir algo como a internet, e com ela a capacidade de poder baixar em poucas horas qualquer filme - inclusive um que acabou de estrear nos cinemas, às vezes meia hora após sua primeira exibição!!! E como na década de 80 isso era ficção científica, muitos cinéfilos (inclusive eu) tiveram seu primeiro contato com obras de Jess Franco, Lucio Fulci, Riccardo Freda e Jean Rollin graças a uma bizarra produção chamada ZOMBIETHON - A HORA DOS ZUMBIS, lançada em nossas locadoras pela extinta Top Tape.


ZOMBIETHON é uma daquelas doideiras que o mercado de VHS de vinte-e-poucos anos atrás permitia: não é exatamente um filme, mas sim uma colagem de imagens de sete produções obscuras, quase todas europeias (italianas e francesas), sobre mortos-vivos. Verdade seja dita, alguns desses filmes sequer têm mortos-vivos, mas foram incluídos na coletânea de qualquer jeito!

O desavisado que fosse seduzido pela (linda) arte da capa nem imaginava o que estava por assistir. O título mais ou menos entrega que se trata de uma maratona de filmes de zumbis (Zombie + Marathon = Zombiethon... Dã!!!), mas a maneira como é apresentada esta "maratona" é simplesmente hilária: as "melhores cenas" dos sete filmes são exibidas no esquema "corte seco", com saltos na trilha sonora e tudo mais, e o editor deixou algumas partes que não são exatamente "melhores cenas" e tampouco têm zumbis, mas mostram bastante mulher pelada (como Olga Karlatos banhando-se em "Zombie", abaixo).


No filme, não há nenhuma informação relevante que identifique para o espectador quem fez, quem produziu ou quem aparece nessas sete produções selecionadas, além da cartela de título de cada uma delas - e, nesse caso, com o título em inglês, o que certamente deve ter dado um nó na cabeça de muito cinéfilo naqueles tempos pré-IMDB, quando as fontes de pesquisa sobre cinema eram escassas e incompletas.

Para tornar tudo ainda mais excêntrico, pequenas vinhetas envolvendo zumbis e garotas gostosas foram filmadas em Super-VHS por Ken Dixon, e esses trechos foram inseridos para separar uma colagem de cenas alheias da outra. Se é difícil de entender lendo, ver a bagaça é uma experiência muito mais surreal!


As produções "homenageadas" com a reutilização de suas melhores cenas são, em ordem de exibição: "Zombie" (Itália, 1979), de Lucio Fulci; "Zombie Lake" (França, 1981), de Jean Rollin; "Oasis of the Zombies" (França, 1982), de Jess Franco; "Murder Obsession / Follia Omicida" (Itália/França, 1981), de Riccardo Freda; "La Vie Amoureuse de L'Homme Invisible" (França/Espanha, 1970), de Pierre Chevalier; "A Virgin Among the Living Dead" (França/Itália, 1973), de Jess Franco, e "The Astro-Zombies" (EUA, 1968), de Ted V. Mikels.

O IMDB informa que também aparecem cenas do clássico "White Zombie", de 1932, mas não vi nada nem remotamente parecido com "White Zombie" nessa colagem, então deve ter sido delírio do site.


Analisando a seleção, o digníssimo leitor do FILMES PARA DOIDOS pode até questionar os critérios para a escolha. Seriam essas as obras mais representativas da cinematografia morta-vivente? Cadê os filmes de George A. Romero? Ou, para ficar só nos europeus, cadê os mortos cegos do espanhol Amando de Ossorio? E os outros filmes de zumbis dirigidos pelo Fulci ("Pavor na Cidade dos Zumbis", "A Casa do Cemitério" e "The Beyond")? E "Let The Sleeping Corpses Lie", de Jorge Grau? E as trasheiras tipo "Hell of the Living Dead", do Bruno Mattei, e "Nightmare City", do Umberto Lenzi? E por que pegaram o pior filme de zumbis do Rollin ao invés do seu muito superior "The Grapes of Death"?

A verdade é que não houve seleção alguma, muito menos um mínimo de bom senso. ZOMBIETHON foi produzido para lançamento em VHS pela Wizard Video, uma pequena distribuidora norte-americana que pertencia, veja você, ao mítico produtor classe B Charles Band! A Wizard começou suas atividades em 1981, e foi a responsável por colocar no mercado dos Estados Unidos as fitas seladas de "O Massacre da Serra Elétrica", "A Vingança de Jennifer", "Zombie" e muitos outros clássicos do horror.


Assim, esta "coletânea" simplesmente traz cenas de filmes cujos direitos de distribuição pertenciam a Band e sua pequena companhia, e não exatamente as obras mais famosas ou representativas envolvendo mortos-vivos, como o espectador desavisado pode ser levado a crer pela proposta. E não, eu não sei se os direitos de distribuição autorizavam a empresa a remontar filmes alheios.

O que sei é que a Wizard Video foi responsável por diversas outras picaretagens do mesmo nível. Em 1985, por exemplo, a empresa lançou um "filme" chamado "Prisioneiras da Ilha Selvagem", que nada mais é do que uma remontagem de duas produções ítalo-espanholas obscuras do começo da década ("Escape From Hell" e "Orinoco: Prigioniere del Sesso", ambas dirigidas por Edoardo Mulargia), com mais cinco minutos de cenas originais no começo e no final, filmadas nos Estados Unidos e sem relação alguma com o resto, onde aparecem atores conhecidos como Linda Blair e o mágico-humorista Penn Jillette!


Enfim, Band e a Wizard Video logo perceberam que era rápido e lucrativo investir em "coletâneas temáticas" contendo as supostas melhores cenas dos filmes que distribuía (no juízo deles mesmos, é claro). Desse jeito, era muito fácil ter um novo longa-metragem completinho para vender às locadoras, geralmente filmando uns cinco minutinhos de cenas novas para costurar as outras já prontas.

E isso também acabava funcionando como marketing: quem assistia uma dessas coletâneas e gostava das cenas de algum dos filmes apresentados, depois voltava à locadora em busca da fita deste filme, e Band e cia. lucravam ainda mais! Simples e eficiente, não? Ah, se essas pessoas soubessem que um dia teríamos YouTube para conferir as melhores cenas dos filmes...


Além de ZOMBIETHON, a Wizard Video produziu outras três coletâneas: "The Best of Sex and Violence", de 1981, com cenas de "Armadilha Para Turistas", "A Vingança de Jennifer" e filmes eróticos softcore; "Famous T & A", de 1982, um suposto "documentário" mostrando cenas com atrizes famosas nuas (como Ursula Andress em "A Montanha dos Canibais", Claudia Cardinale, Nastassja Kinski e outras musas), e finalmente "Filmgore", de 1983, dessa vez compilando mortes sangrentas tiradas de "Banquete de Sangue", "O Massacre da Serra Elétrica", "O Assassino da Furadeira" e outras produções alheias.

ZOMBIETHON foi a última aposta da Wizard nesse estilo, já em 1986, quando a companhia ia mal das pernas (ela encerrou suas atividades no final daquela década). Não é nenhuma surpresa o fato de as quatro coletâneas serem creditadas ao mesmo responsável: Ken Dixon.


Em sua filmografia como diretor, Dixon tem apenas duas produções bem obscuras feitas nos anos 70, antes de jogar-se de cabeça na realização dessas antologias de melhores cenas para a Wizard Video. Talvez como uma espécie de compensação, Charles Band depois foi produtor executivo do último longa dirigido por Dixon, o inacreditável "Rebelião nas Galáxias", de 1987 - esse totalmente filmado por ele, sem cenas alheias costuradas no meio. Desde então, Ken Dixon mergulhou de volta na obscuridade.

O curioso é que o sujeito demonstra certo talento nas vinhetas que filmou para ZOMBIETHON. Percebe-se, inclusive, que Dixon se inspirou na obra de alguns dos diretores "homenageados", como Franco e Rollin, já que suas cenas se resumem a belas garotas em trajes sumários ou fetichistas (tipo roupinha de colegial) sendo perseguidas por zumbis e correndo para buscar abrigo num cinema, igualmente povoado por mortos-vivos, e onde está sendo exibida a tal maratona de filmes de gênero.


Não há nenhum desenvolvimento de personagens ou de suas ações nessas vinhetas e elas só servem mesmo como uma maneira criativa de dividir as cenas dos outros filmes para não virar bagunça, já que estas são a grande atração de ZOMBIETHON. Logo, as garotas perseguidas sequer têm nomes (nos créditos, são identificadas simplesmente como "Zombie Magnets"), e os mortos-vivos também pipocam do nada, sem muita justificativa.

Mesmo assim, alguns momentos são bem divertidos, principalmente os que se passam no cinema - como aquele em que o projecionista zumbi corta o próprio dedo ao invés do pedaço do rolo de filme; ou o morto-vivo que arranca a cabeça do cadáver muito mais alto sentado na sua frente, que está atrapalhando a sua visão!


As maquiagens de Joe Reader e David Lady se resumem a umas máscaras imóveis e inexpressivas, que parecem ter sido compradas numa loja de fantasias de Halloween. Lá pelas tantas, aparece até um absurdo e injustificável "zumbi futurista" (!!!), mais para robô do que para morto-vivo, e cujo traje deve ser sobra de algum filme bagaceiro de ficção científica, reaproveitado aqui para cortar despesas.

Posso estar sendo generoso demais, mas Dixon às vezes até mostra um pouco de potencial para fazer seu próprio filme de zumbis, como no momento em que um morto-vivo emerge da areia da praia (cena provavelmente inspirada em "Oasis of the Zombies", de Jess Franco). Os efeitos bagaceiros não ajudam, mas mesmo assim o diretor tentou criar algum clima. Será que ele tinha pretensões de fazer o seu próprio zombie movie? Ficou só no sonho mesmo.


O bizarro da coisa toda é que como ZOMBIETHON não traz nenhuma informação sobre as pessoas responsáveis pelas cenas dos filmes exibidos, e foi lançado numa época em que fontes de pesquisa eram bem limitadas, muita gente pode ter pensado que o próprio Ken Dixon foi o responsável por tudo. Até porque o único crédito que aparece é "Produced and directed by Ken Dixon", tirando o mérito de Fulci, Franco, Rollin e dos outros!

Outro detalhe que prejudicava a pesquisa posterior: foram usadas as cenas dubladas em inglês (escondendo a língua original e a procedência dos filmes), e as cartelas com títulos norte-americanos, alguns bem alternativos. Muita gente deve ter suado para encontrar "Murder Obsession / Follia Omicida", pois aqui o filme de Freda foi rebatizado apenas como "Fear"; já "La Vie Amoureuse de L'Homme Invisible" aparece como "The Invisible Dead"!


Como já escrevi lá em cima, o maior problema da bagaça é que, num filme chamado ZOMBIETHON, pouquíssimas das obras "homenageadas" realmente são sobre zumbis e mortos-vivos. Inclusive algumas só aparecem porque eram distribuídas pela Wizard Video e a empresa queria divulgá-las, mesmo penando para forçar uma ligação mínima com o tema da coletânea.

Mortos-vivos MESMO, só em "Zombie", "Zombie Lake" e "Oasis of the Zombies". Nas cenas de "Murder Obsession" vemos um único zumbi perseguindo uma moça seminua no que parece ser uma cena de pesadelo, mas a falta de cadáveres ambulantes é compensada por violentos assassinatos com machado e motosserra. "La Vie Amoureuse de L'Homme Invisible" é sobre um homem-gorila invisível (fotos abaixo), e o mais perto de um morto-vivo aparece quando um casal vai roubar uma sepultura. Já "The Astro-Zombies" é sobre um alienígena assassino e um cientista louco interpretado por John Carradine, e totalmente "zumbi free".


Porém o caso mais curioso é o de "A Virgin Among the Living Dead": o filme original, dirigido por Franco, chamava-se "Christina, Princesse de L'Érotisme" e não tinha zumbis, puxando mais para o terror gótico e para o erotismo softcore. Alguns anos depois, o produtor Marius Lesoeur, da Eurociné (que detinha os direitos sobre a obra), pagou uma graninha para que Jean Rollin filmasse, num único dia, 20 minutos de cenas com mortos-vivos, que foram incluídas na montagem original para que o filme pudesse ser relançado nos cinemas com o nome "A Virgin Among the Living Dead"!!!

Como são essas cenas (tosquíssimas) filmadas por Rollin que aparecem em ZOMBIETHON, cabe ao diretor francês, e não a Jess Franco, a "honra" de estar representado por duas obras diferentes na coletânea da Wizard Video (suas cenas bastardas para "A Virgin Among the Living Dead" e suas cenas oficiais para "Zombie Lake").


Se nos Estados Unidos estas antologias da Wizard funcionavam para atiçar a curiosidade do espectador e levá-lo às videolocadoras em busca dos filmes completos, aqui no Brasil ZOMBIETHON teve um papel ainda mais importante e fundamental: durante uns 15 anos, pelo menos, essa seleção de melhores cenas era a única maneira de os fãs de horror conhecerem as produções apresentadas, pois nenhuma delas foi lançada em vídeo no país - e a maioria permanece inédita até hoje, em DVD.

Tenho um carinho especial por ZOMBIETHON justamente por causa disso: foi graças a ele que vi, pela primeira vez, as fantásticas imagens do "Zombie" de Fulci, especialmente a luta aquática do zumbi com o tubarão e a violenta imagem do olho de Olga Karlatos sendo perfurado num pedaço de madeira (fotos abaixo). Aí depois você saía atrás dos filmes completos e não os encontrava, o que era bastante frustrante. Por outro lado, quem poderia prever que logo teríamos internet e download de alta velocidade à nossa disposição?


Hoje, produções tipo ZOMBIETHON valem somente pela nostalgia. Se em 1986 era muito difícil você encontrar os filmes "homenageados", hoje você pode comprar ou baixar tranquilamente edições luxuosas em DVD e blu-ray, com imagem e som remasterizados e em widescreen. Alguns dos filmes inclusive foram lançados em DVD no Brasil ("Zombie" pela Works e "Oasis of the Zombies" e "Zombie Lake" pela Vinny Filmes, todos em edições bem pobrinhas e indignas).

Assim, não tem mais muito propósito você ver uma bagaça como essa, que além de não trazer os filmes na íntegra, ainda traz versões porcas, com imagem ruim, dublagem em inglês e formato em tela cheia que corta as laterais. Sem contar que os FINAIS de alguns dos filmes são mostrados, estragando a surpresa de quem não viu as obras completas. Se em 1986 você não tinha muita opção além disso, hoje já tem - e muitas. Portanto, ZOMBIETHON só serve mesmo para aliviar aqueles ataques de saudosismo, quando você quer se lembrar de como eram os tempos do VHS.


Por outro lado, se em teoria o que vemos aqui são as "grandes cenas" dos filmes escolhidos (algo em torno de 5 a 15 minutos por obra homenageada, dependendo da quantidade de zumbis em cada uma delas), ZOMBIETHON pode ser uma boa alternativa para você sacar as melhores partes de bombas como "Zombie Lake" e "The Astro-Zombies", poupando seus neurônios da triste experiência de encarar os filmes inteiros!

PS: Além dessas antologias de "melhores cenas" e das remontagens picaretas de filmes alheios, a Wizard Video também foi uma das primeiras companhias a se aventurar no desenvolvimento de jogos para Atari baseados em filmes - nesse caso, filmes de horror! Inclusive foi a Wizard que fez os clássicos jogos inspirados em "Halloween" e em "O Massacre da Serra Elétrica", e que na época eram proibidos para menores de 18 anos! Mas isso é assunto para outra postagem...


*******************************************************
Zombiethon (1986, EUA)
Direção: Ken Dixon (e, não-creditados, Lucio Fulci,
Jean Rollin, Jess Franco, Riccardo Freda, Pierre
Chevalier e Ted V. Mikels)
Elenco: Karrene Janyl Caudle, Tracy Burton, Paula
Singleton, Janelle Lewis, Randolph Roehbling e
Chuck Spero (além do elenco original dos sete filmes
apresentados).


*****

Essa postagem foi uma justa e tardia forma para divulgar a Mostra Spaghetti Zombies 2.0, que desde a semana passada está apresentando os mortos-vivos do cinema de horror italiano aqui em São Paulo (cartaz genial ao lado, criado por Leopoldo Tauffenbach).

O evento foi realizado pela primeira vez em Recife pelo meu amigo Osvaldo Neto, do blog Vá e Veja, e recebeu uma edição "revista e ampliada" aqui em São Paulo com a colaboração de Eduardo Santana, diretor do CineFantasy.

Boa parte do filé mignon já foi servida, mas ainda serão exibidas maravilhas como "A Terceira Porta do Inferno", de Claudio Fragasso (sexta, 26/10, 16 horas), "Nightmare City", de Umberto Lenzi (sexta, 26/10, 18 horas), "Hell of the Living Dead", de Bruno Mattei (sábado, 27/10, 16 horas), e o inacreditável e hilário "Le Notti del Terrore", de Andrea Bianchi, lançado em VHS no Brasil como "A Noite dos Mortos-Vivos" (sábado, 27/10, 18 horas). Tudo com entrada franca, na Biblioteca Viriato Corrêa (Rua Sena Madureira, 298 / Perto do Metrô Vila Mariana).

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

As primeiras (e provavelmente únicas) resenhas curtinhas para cinéfilos impacientes de 2012

V/H/S (2012, EUA. Dir: Matt Bettinelli-Olpin, David Bruckner, Tyler Gillett, Justin Martinez, Glenn McQuaid, Joe Swanberg, Chad Villella, Ti West e Adam Wingard)
A proposta de "V/H/S" é simplesmente genial: trata-se de uma coletânea de histórias curtas de horror que funciona como uma espécie de apresentação, ao grande público, de alguns dos talentos da nova geração do horror, ao mesmo tempo em que rende uma nostálgica homenagem ao formato do VHS - justificando os episódios estilo "found footage", gravados com câmeras amadoras. Infelizmente, o resultado final não poderia ser mais decepcionante e desconjuntado. Duas historinhas são bem legais: a primeira, de David Bruckner (diretor do excelente "O Sinal"), sobre jovens que topam com uma assustadora criatura depois de uma balada, e a terceira, de Glenn McQuaid (do divertido "Eu Vendo os Mortos"), que é uma bela brincadeira com o gênero slasher (não por acaso, o episódio se chama "Tuesday The 17th"!!!), sobre um misterioso assassino sobrenatural que fica invisível estilo Predador, e só pode ser captado por câmeras de vídeo. As duas também são as únicas em que se justifica o uso da "câmera amadora" o tempo inteiro pelos personagens, portanto percebe-se que houve um cuidado maior na concepção da narrativa. Infelizmente, todo o restante da coletânea vai do razoável ao muito ruim, incluindo a grande história que amarra o filme todo (sobre ladrões procurando uma fita VHS numa casa bem suspeita habitada apenas por um defunto bem suspeito). O pior episódio, disparado, é o segundo, sobre um casal em sua segunda lua-de-mel, ironicamente dirigido por um dos nomes mais celebrados entre os novatos, e que eu particularmente acho insuportável: Ti West ("The House of the Devil"). Além de os outros episódios não conseguirem convencer o espectador de que  os personagens têm motivo para ficar segurando a câmera ligada o tempo todo, eles ainda envolvem absurdos injustificáveis, como uma gravação de Skype via webcam que acabou... numa fita VHS? Aham, tá bom. E se o placar Histórias Fracas 4 x 2 Histórias Boas já não fosse frustrante o suficiente, fica claro para o espectador que, enquanto alguns diretores estão se empenhando para mostrar serviço, outros estão fazendo a coisa de qualquer jeito, sem respeitar sequer a proposta do formato em VHS, como se fosse apenas uma brincadeira entre amigos. Isso é visível principalmente no episódio de West e na "grande história" dos ladrões (dirigida por QUATRO caras, Bettinelli-Olpin, Gillett, Martinez e Villella!). Essa sequer tem uma conclusão ou justificativa para ser a "ligação" entre os outros episódios, e se resume a mostrar os sujeitos zanzando pela casa com as câmeras sempre ligadas - mesmo quando estão assistindo fitas na TV! "V/H/S" é um filme que não justifica o "hype", e cujo conjunto é bem decepcionante. Por isso, se era para ser uma espécie de apresentação da nova geração do horror, acho que não podemos esperar boa coisa no gênero pelos próximos anos... 


OS VINGADORES (The Avengers, 2012, EUA. Dir: Joss Whedon)
Agora que baixou a poeira do mega-lançamento nos cinemas e da luta titânica entre os fãs da Marvel e os da DC (por causa do terceiro filme do Batman, que saiu logo depois), nada como avaliar "Os Vingadores" pelo que ele realmente é: um filme de super-heróis bobo, divertido e barulhento, mas longe de ser genial, espetacular ou sequer memorável. Eu o vi na estreia (27/04/2012), e hoje, apenas seis meses depois, pensando no que escrever, juro que não lembro de quase nada do filme além da já antológica cena em que Hulk dá um couro em Loki. Mas isso são só uns 20 segundos num filme de 145 minutos. Afinal, o que acontece no resto? Não lembro! Ok, eu lembro o básico da trama (rasa) e de algumas cenas de ação, mas já não consigo mais lembrar por exemplo quem luta com quem e porquê - há várias "lutinhas" entre os personagens mais famosões, para justificar tanto super-herói num mesmo filme. Isso me fez pensar menos em "Os Vingadores" e mais em como os blockbusters de hoje carecem de originalidade e de carisma. Na infância, quando eu vi "Superman - O Filme", as cenas ficaram na minha memória por anos; o mesmo aconteceu com filmes tipo "Os Caçadores da Arca Perdida" e "Star Wars". Terá Hollywood desaprendido a fazer filmes-pipoca, considerando que eles gastam meio bilhão de dólares para fazer um filme e em alguns poucos meses você nem lembra mais o que viu, de tão pasteurizado e desprovido de alma que era o produto? Bem, falando/escrevendo assim pode parecer que achei "Os Vingadores" ruim, mas não achei, eu gostei da experiência e me diverti durante suas 2h25min. Até pensei que não ia funcionar juntar tantos heróis interessantes numa mesma aventura, mas os mais conhecidos (Homem de Ferro, Capitão América, Hulk e Thor) conseguiram sua cota de tempo em cena e pelo menos alguma contribuição importante/relevante para a história, enquanto a Viúva Negra ganhou até mais espaço no filme do que a personagem merecia - algo que é justificável apenas porque se trata da gostosona Scarlett Johansson numa roupa colante em um filme que praticamente só tem personagens masculinos! Quanto aos outros personagens (Gavião Arqueiro, Nick Fury, o vilão Loki, o cientista interpretado por Stellan Skarsgard), não há o que falar: não são personagens, mas sim bonequinhos inexpressivos jogados na narrativa, alguns sem nenhum carisma (tipo Loki, um vilão que sequer é ameaçador), outros pagando o maior mico (tipo o Gavião Arqueiro, relegado a capanga do vilão na maior parte do filme). E sim, "Os Vingadores" também tem efeitos especiais de encher os olhos e as melhores lutas e explosões que Hollywood pode produzir. Mas não vou mentir que achei tudo isso bem repetitivo, e que gostei mais da interação e da química entre os heróis como "super-grupo": as piadinhas do Homem de Ferro com o Hulk e o Capitão América, os diálogos espirituosos em que eles ironizam sua própria condição de "super", e até as lutinhas entre eles, lembrando aquelas aventuras descartáveis e bobonas dos quadrinhos, tipo "Secret Wars". A verdade é que eu devo estar ficando velho, pois o filme me pareceu muito longo com seus 145 minutos (pelo menos 30 a mais do que precisava). E pensar que o diretor Whedon pretende lançar uma "director's cut" com três horas de duração! Talvez "Os Vingadores" ficasse melhor como dois filmes independentes, o primeiro mostrando a união dos heróis como equipe, e o segundo com a invasão alienígena que ocupa todo o ato final aqui. Mas a moda hoje é ser megalomaníaco e abraçar o mundo num filme só. Sim, "Os Vingadores" funciona muito bem numa tela de cinema (principalmente se for Imax), e cumpre seu papel como diversão escapista. Mas desaparece da memória logo em seguida, e é difícil não bocejar depois da 95ª explosão em CGI. "E roteiro pra quê?", perguntará em uníssono a molecada extasiada com as lutas, explosões e com seus heróis todos reunidos na telona. Nesse caso, com certeza, o errado (e o chato) sou eu.


O ENIGMA DE OUTRO MUNDO (The Thing, 2011, EUA. Dir: Matthijs van Heijningen Jr.)
Em um momento do novo "O Enigma do Outro Mundo", que é uma prequel mostrando fatos anteriores ao clássico dirigido por John Carpenter em 1982, um sujeito crava um machado na parede para cortar no meio um tentáculo da "Coisa", e faz menção de arrancá-lo para continuar o serviço, mas a mocinha Mary Elizabeth Winstead ordena: "Não! Deixe isso aí!". Confesso que me peguei pensando no porquê do pedido (medo de contaminação pelo sangue da criatura no machado, talvez?), até perceber que o personagem só deixa o machado cravado na parede porque no filme de 1982 Kurt Russell encontra um machado cravado na parede na base norueguesa destruída!!! E é esse o tipo de imbecilidade que você verá no filme, uma desculpa patética para fazer um longa-metragem ("Vamos mostrar o que aconteceu aos noruegueses antes do filme do Carpenter"). Ora, eu já sei o que aconteceu aos noruegueses antes do filme do Carpenter: eles morreram todos! Portanto, essa é uma daquelas "pré-continuações" que já dão o tiro no pé desde a concepção, pois não há nenhuma tensão ou suspense quando você sabe que todos os personagens devem morrer no final, e sem fazer nada que comprometa os fatos mostrados no filme de 1982! Mas, vá lá, o troço até poderia ser razoavelmente divertido para os fãs do "Enigma do Outro Mundo" de Carpenter, pois os realizadores poderiam brincar, por exemplo, com a identidade do cadáver encontrado por McReady com a garganta e os pulsos cortados, ou a proveniência da criatura com duas cabeças encontrada queimada do lado de fora da base norueguesa no filme de 1982. Só que aí vem mais uma prova da incompetência do diretor van Heijningen e dos roteiristas dessa bomba: eles não conseguem criar momentos memoráveis nem mesmo a partir desses fatos marcantes da obra de Carpenter - o cara navalhado, por exemplo, sequer é um dos personagens principais, e sim um anônimo qualquer. A favor do diretor, conta a produção boa que recria o interior da base, como vista no filme de Carpenter, nos mínimos detalhes, e o fato de realmente usarem atores noruegueses feios e barbudos no elenco, ao contrário de jovens bobalhões (embora a escalação de Mary Elizabeth Winstead seja muito dura de engolir). Só que fica nisso: a história falha em criar qualquer suspense, tensão ou aquela sensação de paranóia do "Quem é a Coisa?"; os personagens não têm carisma e é até difícil diferenciá-los um do outro; cenas marcantes do filme de 1982 são recriadas sem convencer (por exemplo: o exame de sangue, uma das grandes cenas de horror de todos os tempos, aqui vira um patético exame dentário), e as "transformações" da Coisa em CGI são de lascar. Enquanto no filme de Carpenter as mutações aconteciam lenta e dolorosamente, com efeitos práticos que até hoje convencem, aqui a Coisa se revela em segundos graças à computação gráfica, e sem sangue ou gosma que chega para satisfazer os fãs do original. Sem contar que os bonequinhos em CGI são bisonhos (parece que a qualquer momento vai entrar aquele tosquíssimo Escorpião-Rei de "O Retorno da Múmia" para fazer companhia à Coisa). Enfim, é uma bomba daquelas, mas eu não esperava outra coisa. Triste é ver comentários da molecada nos fóruns internet afora, postando coisas do tipo "Ah, agora sim eu entendi o que acontece no filme original". Sério: haverá alguma cura instantânea para a burrice da geração atual, ou estaremos condenados a legar o mundo aos imbecis?

SAND SHARKS (2012, EUA. Dir: Mark Atkins)
Ok, caso o título não tenha deixado isso bem claro, "Sand Sharks" é um filme sobre uma rara espécie de tubarões que não vive/ataca na água, mas sim em terra firme! É o tipo de trama absurda e idiota que, nas mãos certas, poderia render um trashão engraçadíssimo, cheio de situações insólitas, mortes criativas, sangue e mulher pelada. Mas veja bem: "nas mãos certas". Não foi o que aconteceu aqui. E enquanto eu agonizava vendo essa bobagem, me peguei pensando em inúmeras soluções simples que poderiam ter feito "Sand Sharks" ficar legal, ou pelo menos divertido. Tipo uma cena em que os policiais gritassem "Entrem na água!" para o pessoal na praia, satirizando o clássico alerta de "Saiam da água!" da franquia "Tubarão". Ou mais situações curiosas envolvendo os tubarões que atacam em terra firme, já que estas são completamente sub-aproveitadas - e quando você tem tubarões que atacam em terra firme e não consegue aproveitá-los decentemente, é porque devia estar trabalhando como pedreiro ou atendente de lanchonete. Pois é assim: "Sand Sharks" tem uma única piada e não sabe como explorá-la. O primeiro ataque de um tubarão que sai da areia até surpreende o espectador pelo inusitado. Mas e depois? Não tem "depois": a piada simplesmente é repetida várias e várias vezes até cansar, porque os realizadores não têm capacidade de criar situações interessantes em cima do material! Não basta ter Brooke Hogan, a filha do Hulk Hogan, no papel principal para ser "cult", tem que oferecer algo diferente ao espectador. O engraçado é que se você mentalmente trocar "areia" por "água", vai perceber que "Sand Sharks" é exatamente igual a qualquer um desses filmes genéricos sobre tubarões assassinos, mudando apenas a ambientação para o lado de cá da praia, mas sem nunca explorar a capacidade de os bichos se locomoverem na areia. E antes que apareça alguém reclamando que levei o filme muito a sério, esclareço: não levei. A questão aqui é o filme ser divertido, original e de a piada funcionar, ou "não" para tudo isso. Talvez até pudesse funcionar com mais gore, nudez gratuita e essas coisas todas que valorizavam os filmes cretinos com monstros assassinos do passado. Mas não tem nem um peitinho de fora, enquanto o sangue é mantido num nível baixíssimo, com duas ceninhas mais elaboradas na parte final, e os efeitos, claro, são todos produzidos por computação gráfica tosquíssima. Eu já escrevi que quase todos esses filmes com monstros malucos feitos hoje (esse, "Sharktopus", "Mega Shark vs Giant Octopus"...) ficariam muito melhores como trailers falsos do que como longas, porque a criatividade da ideia maluca não se sustenta por um filme inteiro. É triste, mas os caras que fazem essas bombas não conseguem sequer criar situações legais com tubarões que atacam em terra firme! Aí eu pergunto: por que será que é tão difícil fazer um novo "Piranha 2 - Assassinas Voadoras", ou um novo "Humanoids From the Deep" nos dias de hoje? Talvez porque os realizadores são muito acomodados e acham que criar um monstro legal, ou ter a filha do Hulk Hogan no elenco, já faz valer o filme inteiro. Não, não faz, e tranqueiras como essa são o melhor argumento para comprovar minha afirmação.


SOB O DOMÍNIO DO MEDO (Straw Dogs, 2011, EUA. Dir: Rod Lurie)
Remakes: se não pode vencê-los, junte-se a eles! Mas se há uma coisa pior do que refilmagens desnecessárias (e quase todas as realizadas na última década foram desnecessárias), são as refilmagens feitas por pessoas que não entenderam o original e deturparam completamente o seu significado. Por exemplo, Zack Snyder não entendeu que o "Dawn of the Dead" de Romero era, acima de tudo, uma história sobre isolamento e crítica social, e transformou-o num simples filme de ação com zumbis. Agora é a vez de Rod Lurie destruir "Sob o Domínio do Medo", um dos grandes clássicos de um grande diretor, Sam Peckinpah. Ele até mantém certa fidelidade ao contar a história de um pacato roteirista de cinema (matemático, no original) às voltas com valentões na pequena cidade para onde se muda com a esposa. O problema é que o novo "Sob o Domínio do Medo" é um daqueles remakes cena a cena, repetindo até diálogos e ângulos de câmera do original, mas se acovarda justamente no ponto-chave do clássico de Peckinpah: no filme de 1971, quando a mulher do protagonista (interpretada por Susan George) era estuprada por um dos valentões, seu ex-namorado na juventude, ELA GOSTAVA DISSO! Interpretem como quiserem, seja pelo ditado popular do "Se o estupro é inevitável, relaxe e aproveite", seja por um viés machista (tipo "Ela finalmente encontrou um macho de verdade!"), mas é assim que acontece. É óbvio que neste remake um burocrata como Rod Lurie não faria nada sequer parecido. Assim, o estupro de Kate Bosworth é realmente um momento de violência do qual a garota não tira nenhum proveito (e, óbvio, sem mostrar peitinhos e sem a mesma crueza da mesma cena no filme original). Tudo que acontece a partir de então é relevante, porque você percebe que o diretor e também roteirista mudou a grande cena do filme de Peckinpah. E quando o protagonista James Marsden (substituindo Dustin Hoffman) despiroca na conclusão e começa a matar os bullies, a "vingança" não tem o mesmo sentido do filme de 1971. Sem contar que se você vai "atualizar" um filme desses sem quintuplicar a violência, não existe nenhuma razão do remake existir. É o que faz o cabeça-de-bagre Lurie: as cenas são idênticas às do filme de Peckinpah, nem mais nem menos sangrentas, tirando sequer a novidade de vermos efeitos mais elaborados e exagerados nas mortes - como Alexandre Aja fez ao refilmar "Quadrilha de Sádicos". Para piorar, tudo que Lurie acrescenta à trama é para piorá-la, como os diálogos expositivos que explicam o que são "straw dogs", a mudança de comportamento do protagonista e até um ridículo paralelo entre o sítio à residência do casal e a resistência dos russos em Stalingrado, durante a Segunda Guerra Mundial! Assim, quando os créditos finais finalmente começaram a subir, a única coisa em que eu pensava era: "Por quê?". Serve, porém, como constatação de como o cinema se acovardou num período de 40 anos, entre o original e esta refilmagem sofrível.


AMERICAN PIE - O REENCONTRO (American Reunion, 2012, EUA. Dir: Jon Hurwitz e Hayden Schlossberg)
Eu gosto muito de "American Pie", o primeirão de 1999, porque ele tem umas tiradas fantásticas: o looser Jim, interpretado por Jason Biggs, é o que mais perto chega de catar a gostosona do colégio, a intercambista europeia Nadia, interpretada pela deliciosa Shannon Elizabeth, enquanto Finch, o garoto fracote (Eddie Kaye Thomas) que sofre bullying do sem-noção Stifler (Seann William Scott), vinga-se à altura transando com a mãe do inimigo. Mas aí vieram duas continuações bem fracas e outras ainda piores feitas direto para DVD e sem os mesmos personagens, e tudo isso pareceu enfraquecer aquela comédia adolescente bem realizada lá de 1999. O anúncio de um retorno da turma original 13 anos depois me deixou com boas expectativas. Afinal, eu sempre quis ver um novo "Porky's" ou "Clube dos Cafajestes" com aqueles mesmos personagens mais velhos e ainda aprontando. Infelizmente, "American Pie - O Reencontro" fica só na nostalgia e nas boas intenções. Para os fãs do primeiro filme, até que é divertido ver os mesmos atores e atrizes mais de dez anos depois, alguns estragados pela ação do tempo (como Shannon Elizabeth e, principalmente, Tara Reid, que aparece embagulhada). Pena que ficou nisso, no "reencontro", sem que se criassem novas e interessantes situações para jogar esses personagens. Pior: como todas as comédias da última década, esta também é irritantemente moralista. O legal do primeiro "American Pie" é que ele não tinha medo de pegar mais pesado. Tudo que veio depois caiu na vala do "romantiquinho", pregando a fidelidade, condenando a traição, o sexo casual e as trapalhadas sexuais tão comuns naquelas comédias dos anos 80, tipo "O Último Americano Virgem" e o já citado "Porky's". Nas continuações de "American Pie", tudo isso é representado como algo errado e passível de punição. Na minha ingenuidade, pensei que talvez esse novo filme corrigisse algumas bobagens das sequências. Por exemplo, teria Jim alguma nova chance com Nadia depois do filme original? Ora, é claro que não! Afinal, vivemos na era do politicamente correto! Situações como a da jovem vizinha gostosa que dá em cima de Jim só existem para demonstrar que "sexo casual é errado" e que "o amor está acima de tudo". Parece que o pessoal tem medo de dar "maus exemplos" nos filmes atuais, sendo que os personagens de "Porky's" e de outras comédias semelhantes dos anos 80 jamais deixariam passar a vizinha gostosa! Sem o apelo da sacanagem sem compromisso que era tão legal no filme original e sem piadas novas, "American Pie - O Reencontro" ainda consegue a façanha de estragar as piadas velhas: pois eis que Stifler agora dá o troco em Finch transando com a mãe dele, acabando assim com a única coisa em que o garoto franzino tinha conseguido vencer o eterno rival! Para completar a sucessão de equívocos, o roteiro dá um espaço muito grande ao pai de Jim, interpretado por Eugene Levy, mas esse é o tipo de personagem que só funciona em aparições esparsas, e não tem fôlego para segurar cenas inteiras, como acontece aqui. O filme até tem um outro momento divertido, e o pôster que reúne a galera toda nas mesmas posições do cartaz original de 1999 foi bem bolado, como diria o Silvio Santos. Mas, no final, fica aquela impressão de que "American Pie - O Reencontro" não tem nada a dizer, e só existe para resgatar - e dar uma rara oportunidade de trabalho - a um grupo de ex-jovens atores que não funcionou muito bem (ou nada bem, no caso de alguns) fora da franquia.


REPO CHICK (2009, EUA. Dir: Alex Cox)
Curto e grosso: "Repo Man - A Onda Punk" (1984) é um dos meus filmes preferidos de todos os tempos, uma história aloprada sobre punks, ladrões de carro e alienígenas, que a Globo passava em plena Sessão da Tarde naquela época desmiolada conhecida como "anos 80". Pois eis que mais recentemente o diretor-roteirista Alex Cox resolveu voltar a um dos seus trabalhos mais famosos com "Repo Chick", uma espécie de atualização/continuação de "Repo Man". Não sei o que aconteceu com Cox nestes 25 anos que separam o original desse novo filme - talvez ele tenha abusado das drogas e ficou com sequelas cerebrais graves. Fato é que "Repo Chick" é uma bomba de proporções monumentais, o tipo de coisa que você não acredita que foi dirigida pelo mesmo responsável por filmaços como "Repo Man" e "Walker - Uma Aventura na Nicarágua". As intenções de Cox até que são boas: se em 1984 ele tirou onda com os punks, aqui faz o mesmo com as playboyzinhas mimadas estilo Paris Hilton e com os reality shows. A trama se passa num futuro indeterminado, e a protagonista é a riquinha Pixxi (Jaclyn Jonet), que descobre que foi deserdada pela família e precisa trabalhar como "repo woman" para sobreviver, recuperando os carros dos proprietários que não pagam as prestações, como Emilio Estevez fazia no original. Para onde quer que vá, Pixxi é seguida por um séquito de amigos puxa-sacos e por um câmera que registra seu dia-a-dia para um programa de TV. Um de seus trabalhos é recuperar um trem (?!?) que, na verdade, faz parte do plano de um grupo de terroristas que planeja um atentado ao presidente dos Estados Unidos. Na linha do que os Irmãos Wachowski fizeram em "Speed Racer", "Repo Chick" tem os atores atuando 100% do tempo diante de uma tela verde, onde na pós-produção foram adicionados cenários e veículos feitos totalmente por computador. Oito atores de "Repo Man" aparecem interpretando outros personagens, e certamente Cox achou que isso e o título bastariam para divertir todos os fãs do filme de 1984. Só que passa longe disso: o filme é uma bagunça, um caos sem desenvolvimento de roteiro ou interação entre os personagens. E é estúpido, como se só a equipe envolvida estivesse achando graça naquilo (talvez nem mesmo eles). A história não leva a lugar nenhum, e mesmo o "charme" do mundo de mentirinha criado por computador logo perde a graça pela artificialidade. Muito fã de Alex Cox comprou a proposta, alegando que o filme é vazio e sem graça "de propósito", porque enfoca uma sociedade que também é assim (mais ou menos a mesma desculpa que deram os fãs do recente "Cosmopolis", de David Cronenberg). Comigo não colou. E, tudo considerado, "Repo Chick" é um verdadeiro insulto aos fãs de "Repo Man" - ironicamente, feito pelo mesmo realizador daquele filme, o que coloca Alex Cox no seleto grupinho de diretores que estragaram a própria criação, ao lado de George Lucas (com os novos "Star Wars") e os Irmãos Wachowski (com as sequências de "Matrix"). Esperemos que sossegue e não invente de fazer sequências de "A Caminho do Inferno" e "Walker"!


GOD BLESS AMERICA (2011, EUA. Dir: Bobcat Goldthwait)
Quem diria que Bobcat Goldthwait, o Zed das Partes 2 a 4 de "Loucademia de Polícia", acabaria escrevendo e dirigindo uma das comédias de humor negro mais inspiradas dos últimos anos? Pois eis "God Bless America", uma mistura curiosa de filmes tão díspares quanto "Um Dia de Fúria", "Clube da Luta" e "Assassinos por Natureza", que brinca com a ideia do sociopata que reside dentro de todos nós. Afinal, quem nunca pensou em dar um soco no Faustão ou no Galvão Bueno para eles calarem a boca, ou em torturas atrozes para os mal-educados que falam alto e atendem o celular no cinema? Pois Frank, o personagem interpretado por Joel Murray nesse filme, é exatamente assim: um sujeito cansado dessas mazelas do dia-a-dia e do "emburrecimento" da sociedade moderna. "Por que ter uma civilização se já não temos interesse em sermos civilizados?", questiona, numa das grandes frases do filme. Odiado pela ex-esposa e pela filha, demitido do emprego somente por ter gentilmente mandado flores a uma colega de trabalho, e diagnosticado com um tumor no cérebro que lhe matará em poucos meses, Frank resolve passar seus últimos dias sobre a terra dando liberdade ao seu "sociopata interior", matando pseudo-celebridades, patricinhas mimadas, pessoas que estacionam na vaga para deficientes, jovens que falam alto no cinema, e todos esses alvos em potencial que todos nós também buscaríamos num "dia de fúria" (ainda que, para a maioria, só em pensamento). Ele é acompanhado por uma adolescente maluquinha (Tara Lynne Barr), igualmente enjoada com a idiotice reinante ao seu redor, e que pretende ajudar Frank a tornar o mundo um lugar mais "agradável". Sem medo de abordar um tema polêmico, e de ser cruel e politicamente incorreto numa época muito chata com isso, "God Bless America" nunca pisa no freio, nunca faz juízos de valor e nunca regenera seus personagens, adoráveis psicopatas com quem o público surpreendentemente simpatiza desde o início (pois, ao contrário dos dementes de "Assassinos por Natureza", eles são gente como a gente). Joel Murray, um ator que eu nunca tinha percebido até então, faz um trabalho fantástico, e o roteiro de Goldthwait lhe dá diversos "discursos" memoráveis, como quando ele diz que queria inventar um celular que explodisse quando seu usuário discasse para o número de programas de TV como "American Idol" ou "Big Brother". O filme perde um pouquinho a força no ato final, até porque é aquela típica comédia de uma piada só, e não há muito para onde ir depois da primeira dúzia de assassinatos. Mas é impossível não rir dos diálogos inspirados, como aquele em que Frank chama sua parceira de "Juno", citando o filme de Jason Reitman, e ela, ofendida, começa a detonar a obra! Aprovadíssimo, e uma ótima maneira de aliviar a fúria do dia-a-dia causada por moleques que falam no cinema, gente ouvindo funk sem fone de ouvido no metrô, motoristas que não param na faixa de segurança, etc etc etc...


BLITZ (2011, Inglaterra/França/EUA. Dir: Elliott Lester)
Alô, refilmadores obsessivos: se um dia vocês cogitarem fazer um remake de "Perseguidor Implacável", a primeira aventura do personagem Dirty Harry, saibam que já não é mais necessário. Afinal, esse "Blitz" é uma ótima refilmagem "não-oficial" do filme de Don Siegel, sem Dirty Harry (o herói aqui é um policial chamado Tom Brant, e o filme se passa em Londres), mas seguindo fielmente a história do policial durão que persegue um psicopata com sede de sangue que acaba protegido pelas leis - até que o herói resolve tomar a justiça nas próprias mãos. Jason Statham é o protagonista, mas não se engane: esse é um policial sério, pesado e violento, mais realista que a média recente, e bem diferente daquelas aventuras epiléticas e "videoclípticas" que o ator inglês se especializou em fazer. Também é anos-luz melhor do que tranqueiras como a refilmagem de "Assassino a Preço Fixo", que o pobre Statham estrelou no mesmo ano de 2011. Em "Blitz", Statham representa um policial que caminha sobre a tênue linha entre o herói e o anti-herói, já que tem um prazer sádico em arrebentar bandidos (na primeira cena do filme, ele espanca violentamente um grupo de ladrões de carro usando um taco de madeira, e, sim, há "excesso de força"). Quando Brant é escalado para investigar os crimes do serial killer Blitz, que se diverte matando policiais pelas ruas de Londres, fica óbvio desde o início que vai dar merda, pois o "herói" é tão violento quanto o vilão - e, para piorar, uma das vítimas do assassino era um amigão de longa data do policial. Infelizmente, o roteiro de Nathan Parker (baseado em um livro de Ken Bruen) desperdiça uma de suas melhores coisas, o policial homossexual interpretado por Paddy Considine, com quem obviamente o herói durão vai viver uma relação complexa de parceria, entre o ódio e o respeito. Mas é ótimo ver um filme policial moderno mais sério e sem medo de ousar, que não é ancorado apenas nos tiroteios e explosões. E o personagem de Statham é muito bom, daquele tipo com quem você simpatiza e discorda praticamente ao mesmo tempo (numa cena divertidíssima, ele agride e humilha um informante em busca de grana fácil). A conclusão violenta segue os passos de "Perseguidor Implacável", sem medo de parecer fascista nesses tempos tão xaropes. Na soma dos fatores, um filme bem acima da média das tranqueiras modernas, e também bem acima da média das produções que Jason Statham vem estrelando.


PUPPET MASTER - AXIS OF EVIL (2010, EUA. Dir: David DeCoteau)
A melhor coisa desse nono capítulo oficial da franquia "Puppet Master" é o início, em que o diretor DeCoteau recria justamente a cena inicial do primeiro filme da série (lançado aqui como "Bonecos da Morte", e dirigido por David Schmoeller em 1989), mostrando o suicídio do "mestre dos brinquedos" Andre Toulon em um hotel no litoral da Califórnia, antes de ser preso por oficiais nazistas que estavam indo buscá-lo. DeCoteau mescla imagens filmadas por Schmoeller lá em 1989 com outras gravadas em 2010, num belo trabalho de edição - embora substitua os dois figurantes com cara de alemães, que interpretavam os nazistas no original, por dois rapazes na faixa dos vinte e poucos anos! Infelizmente, a lista de "melhores coisas" acaba por aí, pois "Puppet Master - Axis of Evil" tem uma ideia mais ambiciosa que o seu orçamento permite desenvolver. A trama se desenrola durante a Segunda Guerra Mundial: o jovem Danny Coogan, que trabalha no tal hotel do litoral, encontra um baú escondido com os bonecos reanimados de Toulon, e resolve usá-los para lutar contra a ameaça nazista e japonesa. Como argumento é lindo, mas o que vemos na tela é meia dúzia de figurantes representando nazistas e japoneses, morrendo mortes sem nenhuma criatividade, e com uns efeitinhos bem toscos, que conseguem ser inferiores àqueles em stop-motion produzidos nos primeiros filmes da série, lá no começo dos anos 90! Como é possível uma franquia cair tanto de qualidade? Boa pergunta, mas já faz um bom tempo que as continuações da série não prestam e são lançadas apenas como caça-níqueis. O curioso é que o mesmo DeCoteau dirigiu um dos melhores filmes da franquia, o terceiro ("A Volta do Mestre dos Brinquedos", no Brasil), que também se passava durante a Segunda Guerra Mundial, e mostrava justamente Toulon lutando contra os nazistas com seus bonecos. Bem, parece que o diretor desaprendeu tudo de lá para cá, mas vamos combinar que o roteiro de August White não ajuda e que o orçamento do filme deve ser menor que o de muito videozinho de YouTube. O filme também apresenta um novo bonequinho, em formato de ninja, mas não faz muita coisa com ele - parece ser apenas uma desculpa para o produtor Charles Band ter mais um brinquedo para vender. E, fechando com chave de merda, a história sequer se conclui: é preciso esperar pelo próximo filme, o décimo (!!!) da série, "Puppet Master X: Axis Rising", lançado neste ano (2012). Será que ainda pode piorar mais?


A INVENÇÃO DE HUGO CABRET (Hugo, 2011, EUA. Dir: Martin Scorsese)
Ah, Scorsese dos velhos e bons tempos, cadê você? Como é que um cara que fez "Taxi Driver", "Depois de Horas" e "Os Bons Companheiros" hoje vive dessas parcerias fuleiras com o Leonardo DiCaprio, um remake prolixo ("Os Infiltrados"), um falso terror B ("Ilha do Medo") em que não sobra nada quando você tira música e fotografia, e, agora, essa vergonha-alheia chamada "A Invenção de Hugo Cabret"? O curioso é que todo mundo falou maravilhas de "Hugo". Maravilhas mesmo - teve até quem chamasse de obra-prima. E eu me esforcei para gostar, mas não consegui. Ou estou ficando muito exigente para filmes novos, ou o conceito de "obra-prima" anda sendo muito mal-utilizado. Não li o livro de Brian Selznick que deu origem ao filme, mas talvez lá tenha funcionado melhor a fábula envolvendo meninos órfãos, autômatos incompletos e o pioneiro dos efeitos especiais no cinema Georges Méliès. Só sei que no filme essa mistureba não funciona: o drama do pequeno Hugo, um órfão que vive na estação de trem parisiense, nunca convence, sua amizade com a filha adotiva de Méliès passa em brancas nuvens, e o mistério do autômato, que o garoto tenta resolver teimosamente na primeira metade da narrativa, parece ter caído de pára-quedas na história. O filme só funciona quando enfoca o passado de Méliès, recriando a filmagem de algumas de suas obras, e termina nostálgico com a figura do pesquisador de cinema apaixonado pela obra do diretor, e que o resgata da obscuridade. Infelizmente, estas cenas estão separadas por todas as outras já citadas, e ainda pelo caricatural Sacha Baron Cohen no papel do agente da estação, sempre perseguindo Hugo em cenas dignas de comédia-pastelão, mas sem o mesmo charme e sem nenhuma graça. O resultado é um filme visualmente maravilhoso, só que naquele estilo "Bonitinho, mas ordinário". A trama não leva a lugar nenhum, apesar de prometer uma grande aventura e/ou jornada do pequeno Hugo que simplesmente não existe. O resultado é um híbrido bem estranho, com dramalhão do mais rasteiro, toques de fantasia e ficção científica, romance, fábula infantil e a homenagem a um pioneiro do cinema num mesmo balaio! Nada me tira da cabeça que o roteiro deveria ter passado a borracha em todo o resto e enfocado apenas a vida e a carreira de Méliès, como Tim Burton fez com Ed Wood no excelente filme homônimo. Teria muita história para contar, e ficaria mais interessante que atirar para todos os lados, como aconteceu aqui. Para piorar, percebe-se claramente o desconforto de Scorsese dirigindo uma aventura "infantil", já que ele não sabe dosar os ingredientes e acaba sendo infantil demais para os adultos e complexo demais para a garotada. Também dirige no piloto automático: o filme está repleto de cenas RUINS de doer, como o flashback que mostra a morte do pai de Hugo (interpretado por Jude Law, em participação-relâmpago). Aquilo é tão rápido, gratuito e mal-filmado que parece que decidiram de última hora fazer a cena e mandaram o office-boy do estúdio filmar. Além de Jude Law, outro que aparece sem dizer a que veio é Christopher Lee. Para o leitor ter uma ideia, só lembrei que ele estava no filme porque vi isso agora no IMDB. Caramba, mas que tipo de diretor desperdiça uma lenda viva como Christopher Lee? Não vou dizer que "A Invenção de Hugo Cabret" é uma bomba completa porque as cenas com e sobre Méliès são ótimas, e o momento da exibição de "Viagem à Lua" é emocionante mesmo - tanto que até destoa do resto do filme. O grande problema é que Méliès não é o personagem principal, e sim o chatíssimo Hugo. Uma pena e um desperdício. E estou até agora me perguntando qual é a tal da "Invenção de Hugo Cabret", se o moleque pentelho não inventa (ou faz) absolutamente nada durante o filme inteiro!


NIGHT OF THE LIVING DEAD 3D - RE-ANIMATION (2012, EUA. Dir: Jeff Broadstreet)
Um filme de zumbis com Jeffrey Combs, o Dr. Herbert West de "Reanimator", e com a palavra "Re-Animation" no título, para não deixar dúvidas de que a intenção era atrair os fãs deste clássico dos anos 80. Caí na armadilha: já era tarde demais quando eu descobri que essa bomba é uma "pré-continuação" (mais uma!) do pavoroso "A Noite dos Mortos-Vivos 3D", cometida pelo mesmo diretor Jeff Broadstreet. Eu nem vi esse "original", e certamente não veria esse também se soubesse antes do que se tratava, mas o DVD estava rolando e pensei naquela velha máxima da Marta Suplicy, do "Relaxa e goza". Qual nada: depois de 10 atrozes minutos "disso", comecei a avançar o filme com o FF para ver se pelo menos melhorava no finalzinho, e se o Combs apareceria lutando contra zumbis "Herbert West style". Não, não melhora. Não, não luta. E, acredite se quiser, o negócio fica chato até quando "assistido" em fast foward x16! Sabe-se lá quem foi o cabeça-de-bagre que viu necessidade de explicar o que vem antes da trama de "A Noite dos Mortos-Vivos", mas é basicamente o que tentam fazer aqui (com a velha história da "contaminação por produtos químicos", é claro). Só que fica num bla-bla-bla infernal, com a contaminação contida numa agência funerária pertencente a Gerald Tovar Jr., personagem interpretado por Sid Haig em "A Noite dos Mortos-Vivos 3D" e por Andrew Divoff aqui. Nada acontece até os 55 minutos, e o que acontece a partir disso (a fuga dos zumbis somente na área da funerária, porque isso aqui é uma "prequel" e a trama não pode modificar os fatos mostrados no outro filme) tampouco vale o sacrifício. Os únicos 10 ou 15 minutos que vi em velocidade normal me deram náusea de tanta ruindade e amadorismo, principalmente a longa e inacreditável cena em que alguns jovens funcionários da funerária fumam maconha e têm alucinações (porque maconha provoca alucinação, sabe como é...). Fazem parte do programa mortes em CGI, maquiagens toscas e o desperdício de alguns atores conhecidos da série B (como Scott Thomson, da série "Loucademia de Polícia", e Denice Duff, da série "Subspecies"), em mais um filme ruim de zumbis igualzinho às centenas de outros filmes ruins de zumbis já feitos. Parabéns, pessoal: vocês conseguiram estragar um filme de mortos-vivos com o Jeffrey Combs e com "Re-Animation" no título!