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quinta-feira, 11 de outubro de 2012

SILK - SEDOSA E MORTÍFERA (1986) e SILK 2 - A DESFORRA (1989)


1986 foi um ano em que a testosterona atingiu níveis absurdos nos filmes de ação norte-americanos: tivemos "Stallone Cobra", "Jogo Bruto" (com Schwarzenegger), "Comando Delta" (com Chuck Norris), "Retroceder Nunca, Render-se Jamais" (com Van Damme como vilão russo em início de carreira), "A Vingança de 1 Predador" (com Michael Dudikoff), "Encurralado em Las Vegas" (com Burt Reynolds), e até "Top Gun" e toda aquela tensão homoerótica entre Tom Cruise e Val Kilmer.

Enquanto isso, lá nas Filipinas, o prolífico diretor e produtor Cirio H. Santiago resolveu ir na contramão e fazer um filme de ação estrelado não por um brucutu musculoso ou barbudo bom de tiro, mas sim por uma mulher. Nesse caso, uma mulher-machona que não levava desaforo para casa e sentava o ferro na bandidagem. Assim surgiu Jenny Sleighton, apelidada de "Silk" (seda) por ser menina, mas muito mais valentona e implacável que seus colegas homens de delegacia.

A personagem estrelou no cinema em SILK, de 1986, filme que, no Brasil, ganhou o inacreditável subtítulo "Sedosa e Mortífera" (putz, "Sedosa"?!?). Foi, então, interpretada por Cec Verrell, perfeita no papel de policial machona. Porém a aventura de estreia de Silk não era lá essas coisas, e valia mais pela atriz e pela personagem, não pelo resultado final. Santiago corrigiu isso com uma continuação, SILK 2 - A DESFORRA, realizada três anos depois (1989), e com a deusa Monique Gabrielle substituindo Cec Verrell no papel-título. A sequência é bem mais divertida que o original, mas a verdade é que os cartazes de ambos, com as heroínas armadas e de sutiã, são melhores que os filmes em si.

Como nem um, nem outro filme merece sua própria resenha, o FILMES PARA DOIDOS ressuscita aqui suas trabalhosas Sessões Duplas (a última foi em março!) com um olhar sobre original e continuação. Cec Verrell ou Monique Gabrielle? Tanto faz: as duas foram um verdadeiro colírio naqueles tempos em que os brucutus anabolizados e sem camisa dominavam o gênero ação...


SILK - SEDOSA E MORTÍFERA (1986)


Claro que pode ser apenas uma coincidência, mas SILK - SEDOSA E MORTÍFERA (e vamos esquecer esse estúpido subtítulo brasileiro a partir de agora) saiu no ano seguinte à estreia do seriado de TV "Lady Blue". A série criada por David Gerber começou a ser exibida em abril de 1985 e teve apenas uma temporada, com 13 episódios, mas bastou para ganhar uma legião de fãs, apresentando como heroína uma policial ruiva e valentona chamada Katy Mahoney (interpretada por Jamie Rose).

A personagem, que patrulhava as ruas de Chicago armada com uma Magnum .357, foi criada como uma versão feminina de Dirty Harry, e por isso Katy chegou a ser apelidade de "Dirty Harriet" e "Skirty Harry" (Dirty Harry de saia) na época da exibição do seriado - que foi bem popular também no Brasil, onde era exibido pela Globo com o título "Dama de Ouro".


Pois Jenny "Silk" Sleighton, a personagem criada pelo roteirista Frederick Bailey e pelo diretor/produtor Cirio H. Santiago, não é muito diferente de Katy Mahoney, nem seu filme de estreia é muito diferente de um episódio do seriado "Lady Blue/Dama de Ouro".

E esse é um dos diversos pontos fracos dessa aventura: parece que estamos vendo o piloto de uma série de TV que não deu certo, e não um filme - muito menos um filme de Cirio Santiago, conhecido por realizar aventuras toscas e baratas, mas muito divertidas e movimentadas.


Silk é uma policial, a melhor e mais machona da polícia de Honolulu, no Havaí, muito melhor e mais machona até do que o Magnum de Tom Selleck, cuja base de operações também ficava no Havaí (embora Selleck realmente tenha filmado no Havaí, enquanto Santiago e sua trupe ficaram nas Filipinas).

A frase no cartaz apresentava Silk como "A one-woman vice squad. Tough as nails. Smooth as Silk" (Uma mulher que vale por uma delegacia inteira. Durona como pregos. Suave como seda). E já percebemos isso desde a cena inicial, em que ela chega ao local onde está acontecendo um assalto com reféns e, sem pensar duas vezes, sai passando fogo na bandidagem enquanto seus parceiros "homens" ficam com medinho de se machucar no tiroteio.



Novamente, eu não sei exatamente quais foram as "inspirações" do diretor Santiago, mas a entrada em cena da heroína lembra muito a forma como George Pan Cosmatos apresentou o personagem-título de "Stallone Cobra", colocando-o para resolver um assalto com reféns em que os bandidos, claro, se dão muito mal.

Como o Marion Cobretti de Stallone, Silk inclusive aparece usando óculos escuros espelhados e luvinha preta de couro, numa coincidência muito suspeita - a não ser que Santiago quisesse intencionalmente apresentar Silk como uma versão feminina do personagem de Stallone (cujo filme saiu também em 1986).


A trama principal começa quando Silk e seus colegas frustram uma negociação de drogas, que se revela a ponta do iceberg para uma quadrilha maior e muito mais poderosa, especializada em comprar identidades de pessoas que morreram fora de hospitais para revendê-las a mafiosos asiáticos que querem entrar nos Estados Unidos com um nome falso, mas "background" verdadeiro.

Lendo assim parece simples, mas o roteiro de Frederick Bailey é caótico e impossível de seguir, com tantas idas, vindas e reviravoltas que lá pelas tantas o espectador até desiste de tentar entender o que se passa. Assim, a história se arrasta desinteressante e os 84 minutos parecem durar três horas. 



Geralmente eficiente na realização de aventuras com pouco ou nenhum dinheiro, o diretor Santiago parece ter pegado no sono e deixado a câmera ligada, visto que não há nenhuma grande cena entre os diversos tiroteios, explosões e pancadarias, muito menos algo memorável que já não tivesse sido visto (e melhor) nas aventuras baratas da Cannon Films, por exemplo.

E olhe que a heróica personagem-título aparece com armas de todos os calibres (pistola automática, revólver, metralhadora, espingarda...) e até distribui uns golpes de karatê aqui e acolá. É até engraçada a cena em que ela dá porrada em cinco caras muito maiores e mais fortes.


O grande problema é que a ação é clichê e pouco inspirada. O momento mais interessante acaba ficando para o final, quando Silk impede a fuga do grande chefe da organização explodindo seu avião a tiros de metralhadora durante a decolagem - num momento que coloca a moça entre os grandes heróis de ação que já explodiram aeronaves a tiros, como Mark Gregory em "Fuga do Bronx" ou Steven Seagal em "Rede de Corrupção".

(O próprio Santiago reaproveitou a ideia sete anos depois no superior "Fast Gun - Na Mira de uma Arma", de 1993, em cuja conclusão Rick Hill também explode um avião em plena decolagem, mas nesse caso usando um simples revólver calibre 38!)


Se há um motivo para ver SILK, este se chama Cec Verrell. A atriz de beleza exótica estreou no cinema dois anos antes, num papel minúsculo como prostituta anônima em "Runaway - Fora de Controle", mas já chamava a atenção para o talento das suas... como dizer... glândulas mamárias despidas. Ela exibiu os mesmos atributos posteriormente em "Hell Comes to Frogtown" (1988), e também num daqueles vídeos com sexo softcore produzidos pela Playboy americana.

Misteriosamente, isso não acontece em SILK: os peitos de Cec, e da sua heroína, ficam o tempo inteiro escondidinhos, e ela sequer aparece de sutiã segurando um revólver, como na enganosa arte do pôster! Não deixa de ser um lástima, ainda mais para quem conhece a obra do filipino Santiago e sempre espera uma cena gratuita de sexo e nudez em seus filmes - afinal, é o mesmo homem que colocou Jeannie Bell para lutar pelada em "TNT Jackson"!!! Mas, aqui, o velho Cirio desperdiçou a bela Cec, que mostrou os peitos em filmes bem piores e mais baratos, e abandonou o cinema em 2001.


A tradicional cena de nudez faz falta em SILK não só porque seu público-alvo é formado por tarados que esperam ver a mocinha pelada (considerando o currículo de Cirio H. Santiago e da própria atriz), mas principalmente porque seria um raro momento em que a policial durona e indestrutível mostraria sua feminilidade e seu lado humano - mais ou menos como o cavaleiro medieval quando tira a armadura.

Afinal, durante o filme inteiro ela é representada como uma heroína indestrutível, uma espécie de Dirty Harry ou Stallone Cobra com peitos; mostrá-los seria uma bela forma de assumir-se como uma mulher forte que não faz feio na comparação com esses heróis machões. (Ou então eu que queria MUITO ver os peitos da Cec Verrell e estou aqui tergiversando para tentar disfarçar o fato de querer ver a atriz pelada!)


Para não ser injusto, até tem uma rápida cena de sexo entre Silk e seu parceiro/namoradinho, Tom (Bill McLaughlin), mas que não mostra nada e é bem frustrante. Sendo assim, sem Cec Verrell pelada, sem cenas gratuitas de sexo e sem cenas de ação interessantes, o que sobra para se ver em SILK?

Eu responderia "nada", mas a verdade é que, mesmo vestida, Cec está ótima no papel principal, e sua personagem machorra pouquíssimo feminina (vestida como homem, sem os esperados decotes ou saias curtas, e sempre com o cabelinho curto penteado para trás com gel) poderia ser uma das grandes heroínas sapatas da história do cinema, se não fosse o affair com o colega (homem) de polícia.


Mas mulheres fortes e interessantes como heroínas eram tão raras lá em 1986 (embora fosse o ano de "Aliens, O Resgate") que Silk até ganha certo charme e originalidade.

Até porque a caracterização "machona" de Silk e a interpretação pouco feminina de Cec realmente convencem o espectador de que aquela é uma policial valentona verdadeira, que poderia trocar tiros ao lado de Dirty Harry sem medo de quebrar as unhas ou borrar a maquiagem, ao contrário da Katy Mahoney de "Dama de Ouro" e da substituta de Cec na Parte 2, conforme veremos a seguir...



SILK 2 - A DESFORRA (1989)


A continuação de "Silk", lançada apenas três anos depois do original, é tão melhor em tudo em relação ao primeiro filme que chega a ser irônico o fato de ter o mesmo diretor, Cirio H. Santiago (também produtor), no comando.

Alguém pode dizer que o velho Cirio conseguiu consertar tudo aquilo que não funcionava na aventura de estreia da policial Jenny "Silk" Sleighton. Ou, talvez, quem melhorou a coisa toda foi o produtor executivo Roger Corman. Mas a verdade é que os dois filmes são tão diferentes que ele bem que poderia ter colocado outro título ao invés de SILK 2.


A primeira mudança para melhor em relação ao original é que a "machona" Cec Verrell dançou e Silk agora é interpretada pela deusa dos filmes B Monique Gabrielle, uma das mulheres mais perfeitas do cinema barato dos anos 80-90, dona de um daqueles corpões que a natureza devia ser proibida de macular com os efeitos da idade.

Ora, se no primeiro filme Cec transformou Silk numa policial durona e quase sapatona, com cabelinho curto e roupas de homem, em SILK 2 Monique assume sua feminilidade e gostosura, empresta sensualidade ao papel e inclusive aparece pelada três vezes, com direito a banho com nudez frontal, talvez como um bônus pela sua antecessora ter regulado para mostrar ao menos um peitinho no original.



A segunda mudança, e a mais importante depois da escalação de Monique como estrela, é a mudança do roteirista. Robert King, que assume o posto ocupado por Frederick Bailey lá em 1986, já tinha escrito uma divertida bobagem produzida por Roger Corman ("O Ninho do Terror", sobre baratas mutantes assassinas), e aparentemente não levou esta segunda aventura da policial gostosona tão a sério quanto seu antecessor.

Além disso, tudo que faltava em "Silk" - ação, sangue e mulher pelada - aparece em SILK 2, e só a primeira cena, antes dos créditos iniciais, já é mais divertida que todo o filme original!


A introdução envolve o ataque de terroristas árabes à embaixada israelense em Honolulu. Eles já mataram alguns reféns e ameaçam continuar o banho de sangue caso a polícia não atenda às suas exigências. Aí Silk entra em ação e mata todo mundo, naquele velho estilo Stallone Cobra ou Dirty Harry. Quando o tradicional oficial superior chato pergunta "O que você queria provar, Silk?", a moça responde: "Que o crime não compensa!". Ta-da: corta para os créditos iniciais e o espectador já está com um sorrisão no rosto.

(Só para constar: nesta cena inicial, que dura meros 3min45s, sete pessoas são mortas, uma delas com a cabeça explodida por um tiro, num efeito fuleiro que é simplesmente de rolar de rir!)



Depois do resgate na embaixada, SILK 2 envereda por uma trama policial bem bobinha: quatro pergaminhos de valor inestimável estão sendo transferidos para um museu de arte oriental em Kona (no Havaí). Durante a escala em Honolulu, eles são roubados e substituídos por falsificações.

O sargento Chris (Bon Vibar), que é parceiro de Silk na polícia e está para se aposentar, e alertado sobre o roubo por um velho amigo colecionador de obras de arte, e se compromete a recuperar os pergaminhos originais. Mas acaba sendo sequestrado e morto pelos vilões, liderados pelo próprio proprietário do museu em Kona, o ambicioso Hancock Gish (Jan Merlin), que pretende lucrar duplamente - ficando com os originais e acionando o seguro pelo "roubo".

É óbvio que Silk gostava muito do seu parceiro e não vai deixar a conta em aberto. Com a ajuda de uma turista americana (Maria Claire) e de um pesquisador de antiguidades com cara de surfista (Peter Nelson), a policial viaja a Kona para dar um fim nas atividades ilegais de Gish e sua gangue.


Com sua graça e beleza, Monique Gabrielle com certeza enfeita o filme, mas não convence em momento algum como policial durona. Nesse aspecto, perde feio para a Silk de Cec Verrell, que realmente parecia uma policial e realmente parecia durona. Monique, por outro lado, parece o que é na vida real: uma gostosa fingindo ser policial, e nada mais.

A coitadinha não convence lutando, atirando e nem tentando parecer valente ou ameaçadora. A bem da verdade, ela não consegue nem segurar as armas direito... Mas e daí? É a Monique Gabrielle, caramba! E ela continuaria uma gracinha mesmo se estivesse segurando a arma ao contrário.



A grande cena de SILK 2 acontece quando a heroína está totalmente desprotegida e indefesa tomando banho, e um bandido invade sua casa para matá-la. Cirio Santiago adora filmar gostosas lutando peladas, como eu já escrevi lá em cima, mas aqui dá uma chance para a protagonista cobrir sua nudez com um roupão. O que, claro, não funciona muito bem na prática: seus peitos "escapam" enquanto ela dá chutes e socos no meliante, "para a nossa alegriaaaaaaaa"!!!

E se não convence como policial durona, ou como qualquer espécie de policial, pelo menos Monique se esforça para que SILK 2 não caia na chatice da aventura anterior, correndo, lutando, dando tiros de revólver, escopeta e metralhadora, e tudo sem desmanchar o penteado!


Se como aventura classe B (até C) já diverte o espectador menos exigente, SILK 2 também rende umas boas gargalhadas pelo fator trash, pois o orçamento de salário mínimo da produção salta aos olhos o tempo inteiro.

O interior de um avião em pleno voo é um cenário tão ou mais falso que a cabine da aeronave de Ed Wood em "Plan 9 From Outer Space", e um prédio que explode é substituído por uma miniatura tão fuleira que deve ter sido feita originalmente por um dos netos de Cirio Santiago para a aula de artes da escola!



Também tem uma cena em que um bandido acelera seu carro contra a policial, e a heroína responde dando uma voadora que atravessa o pára-brisa do carro e mata o motorista. Já vimos coisa parecida antes (Chuck Norris fez em "Os Bons Se Vestem de Negro", por exemplo), mas a cena é tão mal-feita aqui, e com um dublê tão óbvio no lugar de Monique Gabrielle, que tive que voltar umas cinco vezes para ver de novo!

Para completar o pacote, o roteiro de King ainda reserva um montão de clichês (como o clássico "Don't die on me!!!" segurando um moribundo nos braços, ou o momento em que alguém entra num táxi e diz "Siga aquele carro"), e outra tonelada de bobagens, tipo a pulseira com três diamantes que Chris dá de presente para Silk, "um para cada ano que trabalhamos juntos". Pulseira de diamantes para a parceira? Mas como paga bem essa polícia de Honolulu, hein?


Infelizmente, Silk nunca voltou para uma terceira aventura, embora Cirio Santiago tenha continuado a produzir filmes com policiais gostosas e peladas - tipo "Anjo da Destruição", com Maria Ford, melhor que os dois "Silk" juntos, e que em breve também terá sua resenha aqui no FILMES PARA DOIDOS.

Considerando que outras franquias de baixo orçamento produzidas por Cirio e Roger Corman chegaram muito mais longe (tipo a série "Bloodfist - Punhos de Sangue", com Don "The Dragon" Wilson, que teve OITO aventuras!!!), bem que a dupla poderia ter investido em outras histórias de Jenny "Silk" Sleighton, talvez chamando uma gostosa diferente por sequência, tipo Michelle Bauer para estrelar "Silk 3", Julie Strain para "Silk 4", e quem sabe uma mulher que realmente saiba lutar, tipo Cynthia Rothrock, para "Silk 5 - O Desafio Final". Sonhar não custa nada.


É uma pena, também, que os "crossovers" do mundos dos quadrinhos (encontros de personagens de gibis ou editoras diferentes, tipo "Marvel Vs. DC") não sejam tão comuns no mundo do cinema. Já imaginou um encontro entre Silk e o policial Marion Cobretti, de "Stallone Cobra"? Ia faltar bandido no mundo.

Como curiosidade final, veja abaixo outras artes para pôster e capinha de VHS de ambos os filmes, igualmente bem melhores que as produções em si, e com direito a uma curiosa censura recebida pelo pôster de SILK 2 no Egito, onde o desenho original que mostrava Monique Gabrielle apenas de sutiã de calcinha ganhou roupas para cobrir sua "semi-nudez" (clique na imagem para ampliar).


Mas vale destacar que, apesar de suas duas aventuras bem fraquinhas, Silk já tem um lugarzinho reservado no panteão das heroínas cinematográficas. Afinal, são raríssimos os filmes ocidentais estrelados por mulheres policiais, geralmente relegadas ao papel de alívio cômico em aventuras estreladas por homens, tipo Rene Russo em "Máquina Mortífera 3".

Isso não acontece no Oriente, onde há dezenas, talvez centenas de filmes policiais estrelados por gatinhas. Talvez seja uma espécie de fetiche para eles. E ninguém pode censurá-los: se Cec Verrell e Monique Gabrielle fossem policiais de verdade, muito marmanjo ia fazer fila para ser preso por elas por desacato à autoridade...


Trailer de SILK - SEDOSA E MORTÍFERA


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Silk (1986, EUA/Filipinas)
Direção: Cirio H. Santiago
Elenco: Cec Verrell, Bill McLaughlin, Bill Kipp,
Joe Mari Avellana, Frederick Bailey, Nick
Nicholson e Sam Lombardo.

Silk 2 (1989, EUA/Filipinas)
Direção: Cirio H. Santiago
Elenco: Monique Gabrielle, Peter Nelson,
Jan Merlin, Maria Claire, Ken Metcalfe, Bon
Vibar e Joe Mari Avellana.

sábado, 6 de outubro de 2012

O ÚLTIMO CÃO DE GUERRA (1979)


O nome "Tony Vieira" não significa nada para as novas gerações de cinéfilos, muito menos para aqueles espectadores metidos a besta que acham que agora é que o cinema brasileiro está bom. Entretanto, num período de pouco mais de 10 anos, Tony (o "nome artístico" do mineiro Maury de Oliveira Queiróz) foi um dos mais bem-sucedidos produtores de filmes de ação baratos da Boca do Lixo, daquele tipo bem popularesco, econômico e que dava dinheiro nas bilheterias, com a cor, a cara, o cheiro e o linguajar do povão.

Entre o início da década de 70 e a metade dos anos 80, o homem produziu, dirigiu e estrelou cerca de 15 filmes, policiais ou faroestes que geralmente reaproveitavam os mesmos elencos, locações e figurinos. Investia pouco e lucrava bastante, numa época em que as salas de cinema ficavam na rua e estavam sempre lotadas, muito antes do surgimento do "cinéfilo de shopping" e dos ingressos custando mais de 20 reais.


Eu sempre digo que para fazer esses filmes de hoje, sobre miséria no Nordeste ou violência urbana nas favelas cariocas, é muito fácil: você liga a câmera e a coisa toda já está mais ou menos pronta. Difícil era fazer os filmes que Tony Vieira fazia, transformando cidades do interior de São Paulo/Minas Gerais em cenários de bangue-bangue. Queria ver se essa molecada que faz cinema hoje conseguiria produzir algo como O ÚLTIMO CÃO DE GUERRA, uma das mais escalafobéticas produções do Chuck Norris brasileiro: trata-se de um filme de ação sobre mercenários brasileiros que enfrentam nazistas (???) no interior do Paraguai!

A trama absurda foi escrita por Rajá de Aragão (que também era diretor na Boca, além de um dos principais colaboradores de Tony). O cinema de ação norte-americano, claro, foi a grande inspiração para a dupla, mas incrivelmente os inúmeros tiroteios, explosões e acrobacias dos heróis foram filmados ANTES de grandes produções gringas como "Braddock - O Super Comando" (1984) e "Rambo 2 - A Missão" (1985). Acredite ou não, O ÚLTIMO CÃO DE GUERRA é de 1979, e já traz elementos que depois apareceriam nos filmes de Chuck Norris e Stallone, produzidos com dez, vinte vezes mais dinheiro!


O ÚLTIMO CÃO DE GUERRA se passa "em época e país imprecisos", como explica a sinopse oficial, mas foi filmado na fronteira com o Paraguai. A história não tem muita lógica e é tocada na base do "Foda-se; se colar, colou". Se alguém dublasse isso em inglês, podia muito bem passar por aventura classe B norte-americana; ou, pelo menos, por aquelas imitações das aventuras B norte-americanas produzidas pelos italianos ou filipinos!

Eis que, nessa "época e país imprecisos", existe um oficial nazista chamado General Zog (interpretado por Francisco Assis Soares). Será que o nome foi inspirado no maléfico General Zod, aquele inimigo do Superman nos quadrinhos? Nesse caso, o roteirista Rajá devia ser um ávido leitor das HQs do herói, pois o filme em que aparecia o General Zod (interpretado por Terence Stamp), "Superman 2", saiu apenas um ano depois, em 1980.


O "nosso" General Zog conseguiu reunir um pelotão sob seu comando e montou um campo de concentração onde aprisiona não judeus, mas sim as filhas gostosas dos fazendeiros da região - lembre-se que essa é uma produção da Boca do Lixo, e como tal precisa entregar a cota de nudez que o espectador da época esperava. Os nazistas sequestram as moças para fazer experimentos de fertilização tentando criar uma raça superior. Na prática, as moças seminuas são abusadas e torturadas durante a maior parte do filme, o que lembra tanto aquelas produções sensacionalistas com vilões nazistas (os "nazisploitations") quanto os filmes WIP ("Women in Prison", ou Mulheres na Prisão), ambos bastante populares no período.

Zog tem dois asseclas: o violento Tenente Sparago (Itagiba Carneiro) e a cientista Nicole (Renée Casemart), a única que parece ser realmente alemã, e fala sempre com sotaque carregado, embora vez por outra solte alguma expressão francesa, tipo mon cherry. Nas "horas vagas", quando não está colocando em prática as experiências para criar a raça superior, Zog obriga a cientista a torturar as prisioneiras, em testes dignos do Dr. Mengele para descobrir, por exemplo, quanto tempo uma paciente suporta uma cirurgia sem anestesia antes de morrer.


Só que o reinado de terror dos nazistas paraguaios está para terminar: os fazendeiros das cercanias, pais das moças sequestradas, resolvem contratar uma dupla de mercenários para acertar o placar com os vilões e resgatar as garotas. Porque diabos eles não procuram a polícia ou o Exército Brasileiro é algo que o roteiro não se preocupa em explicar decentemente. De qualquer maneira, entram em cena os mercenários mais improváveis do cinema de ação universal: Jô (Tony Vieira) e Gato (Heitor Gaiotti).

Pensa comigo: quem foi o sem-noção que inventou um herói durão, bom de tiro e pegador chamado... Jô? Isso parece mais apelido carinhoso do que um nome que provoque temor nos bandidos. Imagina o vilão dizendo: "Oh não, o Jô está vindo me pegar". Porra, não funciona! Sem contar que remete ao mala do Jô Soares, então toda hora você fica pensando que o barrigudo vai invadir o filme e não deixar mais ninguém falar!


A entrada em cena de... hã... Jô... é hilária: um helicóptero pousa numa clareira e dele sai Tony Vieira vestindo uniforme camuflado, com uma metralhadora a tiracolo, um capacete antigão que parece ter sido roubado de um museu da Segunda Guerra Mundial e óculos escuros espelhados daquele tipo usado por motorista de ônibus. Não é nenhum Braddock ou Rambo, mas certamente é muito engraçado!

Jô (hehehe) aceita a missão de acabar com os nazistas, mas não para salvar os pobres fazendeiros, nem para resgatar as pobres meninas aprisionadas, e muito menos pelo dinheiro: o que o nosso herói quer é acertar as contas com o Tenente Sparago, com quem "trabalhou" no passado e não recebeu o pagamento justo. Pois ao invés de resolver a questão num Tribunal de Pequenas Causas, Jô (hehehe) resolve pegar sua metralhadora e, no processo, dar uma mão aos fazendeiros e acabar com a nazistada paraguaia.


Forma-se, então, um improvável grupo de resgate com Gato (o alívio cômico, sempre falando bobagem), Jô (o herói sério e quietão, sempre mandando Gato calar a boca) e Beto (Elden Ribeiro), um dos homens do vilarejo, convocado para guiar os mercenários até o campo de concentração.

Enquanto isso, no tal campo de concentração, os vilões estão tendo seus próprios problemas: a Dra. Nicole está arrependida de torturar e matar pobres garotas seminuas, e pretende abandonar o grupo. Mas sua própria filha Zeida (Cristina Kristner), devidamente convertida à "causa", cagueta a mãe, que é fuzilada na sua frente por traição. Só que aí a pequena delatora percebe que seus "companheiros" não são flor que se cheire e foge do campo de concentração, aliando-se ao grupo de mercenários para dar um fim na ameaça nazista.


Se não deu para perceber só pelo resumo da trama, O ÚLTIMO CÃO DE GUERRA é um daqueles filmes inacreditáveis, hilários, que se tornam obrigatórios pela sua ingenuidade e criatividade.

Como escrevi lá em cima, fazer filme de favela e Nordeste é fácil, pois cenários e personagens já existem; quero ver é ter coragem de fazer uma aventura de guerra com mercenários lutando contra nazistas, e no Brasil! Por si só, já é um motivo mais do que suficiente para recomendar a obra: este é o melhor filme brasileiro sobre mercenários contra nazistas paraguaios de todos os tempos!


O título já entrega a inspiração de Rajá e Tony: "Selvagens Cães de Guerra" (The Wild Geese), uma bem-sucedida aventura lançada no ano anterior (1978), dirigida por Andrew V. McLaglen e estrelada por Richard Burton, Roger Moore e Richard Harris. Os realizadores provavelmente tentaram forçar uma relação inexistente com o filme gringo, para que o espectador desavisado pensasse estar vendo uma continuação ou nova aventura dos "Cães de Guerra" importados.

(O engraçado é que esta picaretagem brasileira saiu seis anos ANTES da continuação oficial de "The Wild Geese", lançada apenas em 1985, e batizada por aqui como "Caçado pelos Cães de Guerra".)


Óbvio que qualquer comparação entre O ÚLTIMO CÃO DE GUERRA e os "Cães de Guerra" estrangeiros é injusta. Afinal, Tony Vieira e sua turma fizeram o filme nacional com uma merreca de orçamento, o que transparece nos efeitos simplórios dos tiros e explosões, nos cenários e na reutilização de figurantes para dar a impressão de que o pelotão nazista é muito maior do que na verdade era - tem figurante que morre umas seis vezes até o final do filme.

O roteiro de Rajá dispensa os diálogos rebuscados e floreados dos "Cães de Guerra" importados em prol de expressões chulas, palavrões e conversas simplesmente inacreditáveis entre nossos "herói" Jô (hehehe) e seu parceiro Gato. Isso responde por 60% da diversão no filme de Tony, já que é impossível não pegar-se rindo sozinho do festival de bobajada.


Os diálogos fuleiros também fazem de O ÚLTIMO CÃO DE GUERRA um filme único em comparação aos enlatados estrangeiros que ele homenageia/emula/copia. Por exemplo, em várias aventuras de ontem e de hoje, você certamente já viu o herói ou seu companheiro cair em alguma armadilha daquelas que deixam o sujeito pendurado de cabeça para baixo.

Isso também acontece aqui, com o personagem de Gaiotti. É a reação do sujeito que faz a diferença, já que você jamais esperaria ver Braddock ou Rambo gritando algo como: "Será que tem algum rio aqui por perto? Acho que me caguei todo!". E não, não é no sentido figurado: na cena seguinte, Gaiotti realmente aparece lavando a bunda dentro de um rio! Braddock e Rambo nunca cagaram nas calças, por isso O ÚLTIMO CÃO DE GUERRA é muito mais divertido.


Você também não espera que uma aventura gringa traga um diálogo como este, em que um dos fazendeiros explica a Gato sobre as experiências genéticas dos nazistas:
- Teve um cara com essa mesma ideia, e por causa disso ele quase botou fogo no mundo.
- Hitler. Adolph Hitler.
- É esse mesmo o filho da puta!

O mesmo Gaiotti tem uma reação inacreditável a uma cena de sexo entre Jô (hehehe) e a nazista convertida a mercenária Zeida: "Muito bonito... Eu me fodendo com os pernilongos, e você deitando e rolando nesse contra-filé!". (Nesse momento, visualize uma projeção mental de Sandra Anneberg e seu famoso "Que deselegante".)


A tal cena de sexo é fantástica e responde por um daqueles momentos absurdos e gratuitos que só estão no filme para cumprir a cota de sexo e mulher pelada esperada numa produção da Boca. Pois eis que Jô (hehehe) e Zeida começam a transar sem que haja qualquer preliminar, qualquer menção de atração física, uma piscadinha ou olhadela sensual, um diálogo maroto... Nada!

Os personagens se conhecem, mal falam seus nomes um para o outro, e na cena seguinte já estão rolando pelados dentro de um rio! Caramba, por que nunca acontece um troço desses comigo? O Jô (hehehe) é tão fodão que nem precisou lançar uma cantada elaborada, fingir que concordava com os gostos de Zeida ou sequer pagar flores ou um jantarzinho antes. O cara é mestre!


Por falar em fodão, Rajá criou todo tipo de diálogo absurdo para justificar a "fodãozice" de Jô (hehehe) e para transformá-lo numa espécie de "super-mercenário". Todos os outros personagens, heróis e vilões, passam o tempo todo falando maravilhas sobre o herói, mesmo que na prática não vejamos nada de tão espetacular. Gato, por exemplo, lança um "Lembra daquele dia no Vietnã, Jô?", enquanto o vilão Sparago informa ao general que Jô (hehehe) "esteve na Angola, na Argélia e no Vietnã". Braddock e Rambo são meros principiantes perto do "nosso" cão de guerra...

E já que estamos falando em diálogos, lá pelas tantas o General Zog larga um discurso tão sem pé nem cabeça que estou até agora na dúvida se o roteirista Rajá fez de propósito, para deixar bem claro que o vilão era maluco, ou ele mesmo era maluco e escreveu o texto a sério. É algo assim: "A próxima etapa é a infiltração em toda a América Latina. A terceira etapa será a conquista da Austrália e de todo o Continenta Africano. A Europa não nos interessa, porque está em decomposição física e mental". Epa, peraí: os caras são nazistas e não querem conquistar a Alemanha, que fica na Europa, preferindo a África e a Austrália? Mas que espécie de prioridades são essas? Porra, Austrália??? Bem, mas o que esperar de supostos nazistas que tratam uns aos outros por "camaradas", como se fossem comunistas?


Como bom trashão que é, O ÚLTIMO CÃO DE GUERRA também está repleto de momentos hilários. Ao toparem com um campo minado, por exemplo, os heróis simplesmente detonam as minas terrestres rolando um tronco de árvore sobre elas - como se uma única mina não tivesse poder de fogo suficiente para explodir o tronco em pedacinhos!

Sem contar que a missão de resgate é um autêntico fiasco, pois os vilões retaliam matando quase todos os fazendeiros que contrataram os mercenários (!!!), e praticamente todas as garotas aprisionadas perdem a vida na fuga. Ou seja, teria sido até melhor se continuassem presas no campo de concentração, e não sobrou nenhuma família viva para comemorar o fim do pesadelo!

Na última cena, Tony até é cruel o suficiente para mostrar os bebês ainda vivos no berçário da base nazista agora destruída; pois as pobres crianças, que eram resultado dos experimentos genéticos dos nazistas, certamente morrerão abandonadas à própria sorte, já que não tem mais ninguém vivo num raio de muitos quilômetros, e o campo de concentração estava em chamas quando os heróis saíram de lá...


As prisioneiras dos nazistas, vale o registro, são interpretadas por musas da Boca do Lixo, como a deusa loira Arlete Moreira (de "Os Trapalhões na Guerra dos Planetas") e a futura estrela pornô Débora Muniz (de "A Quinta Dimensão do Sexo"). Christina Kristner, que interpreta Zeida, também é uma gracinha, e ainda faz o gênero "girls with guns", enfrentando os vilões de igual para igual com uma metralhadora nas mãos.

Outros nomes conhecidos da Boca que integram a equipe técnica são José "Índio" Lopes, como responsável pelos efeitos especiais com uma pequena participação no filme (hilária, pois envolve assédio sexual gay), e Afonso Brazza como eletricista. Esse último tornaria-se herdeiro direto de Tony Vieira, pois, com a morte do cineasta mineiro, ficou com sua mulher Claudete Joubert e produziu, dirigiu e estrelou várias aventuras baratas em vídeo. Como aconteceu com Tony, Brazza morreu na miséria.


Infelizmente, O ÚLTIMO CÃO DE GUERRA pertence àquela saudosa categoria de filmes que os cineastas brasileiros modernos não têm mais interesse em fazer, pois são muito "populares" e "comerciais" para o gosto deles. Infelizmente, também, tornou-se artigo raro, que só circula por aí numa cópia horrível (como você pode ver pela qualidade das imagens capturadas) tirada de um velho VHS castelhano, com legendas em espanhol e tudo mais. Se bobear, os negativos originais já se perderam para sempre, o que é uma lástima.

Nesses tempos em que os diretores brazucas estão muito preocupados fazendo tratados de sociologia para pensar na diversão do povão, é triste constatar que nunca mais veremos um herói popular, como o mercenário Jô (hehehe), enfrentando nazistas paraguaios, muito menos comunistas argentinos, e muito menos ainda fascistas uruguaios.

E, assim, o título do filme se revela tristemente poético: Tony foi, realmente, o "último cão de guerra", e hoje temos que nos contentar com uns poodles de madame tipo Thiago Lacerda em "Segurança Nacional" ou Aílton Carmo em "Besouro"...

Bons tempos: estreia do filme num cinema de rua de São Paulo

Por último, mas não menos importante, descobri um fã ilustre de O ÚLTIMO CÃO DE GUERRA quando estive em Palmitos, interior de Santa Catarina, filmando um documentário ano passado: trata-se do cineasta independente Petter Baiestorf (foto abaixo), que gentilmente atendeu meu pedido de escrever suas memórias sobre o filme de Tony Vieira, que ele viu na infância. Eu sempre acho o máximo essas recordações de uma época ingênua em que as produções brasileiras rodavam o país e chegavam às menores cidades em condições bem improvisadas, algo que remete ao maravilhoso "Cinema Paradiso". Isso criou uma legião de adoradores de cinema do tipo mais puro, não aqueles mequetrefes que leem a Ilustrada ou a Cahiers du Cinéma e saem papagaiando frases prontas por aí. Com vocês, as memórias de Petter Baiestorf:

"Não lembro o ano exato, nem que idade eu tinha, mas foi entre 8 e 10 anos. Como eu fazia todos os anos em minhas férias escolares, me mandei prá casa de minha vó que ficava numa estância hidromineral chamada Ilha Redonda. Tinha piscinas, sorvete, diversões, árvores com frutas para colher e comer, primos para brincar e até um pequeno cinema improvisado (as cadeiras eram de palha e a tela era um enorme lençol branco). Naquele ano cheguei na casa da minha vó e o dono do cinema improvisado estava anunciando um filme de guerra chamado 'O Último Cão de Guerra', somente para maiores de 18 anos. Fui até minha vó e comecei a encher o saco em tempo integral para ir ao cinema. Como sempre conseguia o que queria através da insistência, foi fácil dobrar a velha e logo estava na fila com minha vó me 'cuidando'. Na hora de entrar o dono do cinema me achou jovem demais, mas minha vó (possivelmente já irritada comigo e meu objetivo de ver o filme de qualquer modo) resmungou com o cara e entramos.


Começa o filme e me deparo com um filme de guerra diferente, algo que até então eu nunca tinha visto. Prisão de mulheres, milhares de mulheres nuas, pelos reluzentes nas bucetas (que visão maravilhosa), torturas sangrentas, cenas com blasfêmias, diálogos hilários que não tinha em filmes de Hollywood, cenários sujos, sangue, tudo que um filme precisa ter! Porra, fiquei fascinado com aquele universo fantástico do Tony Vieira (que só vim a saber anos depois quem era) sorvendo tudo extasiado. Revi o filme duas décadas depois, já adulto, e continua uma tranqueira adorável. As cenas com torturas são bem ingênuas e mal filmadas, mas para um moleque de 8 anos eram perfeitas. 

Depois desta sessão de cinema com 'O Último Cão de Guerra' comecei a descobrir o cinema vagabundo mundial, comecei a descobrir o que era a Boca do Lixo paulista com suas produções maravilhosas de filmes sujos e sexuais, onde as pessoas falavam palavrões, trepavam e suavam, bem distante daquele cinema limpinho e sem graça dos americanos. O que mais um moleque poderia querer nos anos 80 além de sexo e violência sem noção? Naquele dia senti que as portas do paraíso haviam se aberto para mim."

PS: A atriz Christina Kristner, que descambou daqui direto para a obscuridade, foi brutalmente assassinada no México, país em que vivia há dez anos, em 2011. O caso praticamente não repercutiu aqui no Brasil, mas foi bastante polêmico por lá graças à extrema crueldade do assassino, que esquartejou o cadáver da brasileira e espalhou os pedaços pela cidade! O nome verdadeiro de Christina era Matilde Christina Arré Verri, e ela passa a engrossar a triste galeria de ex-musas do cinema brasileiro que tiveram um fim trágico e/ou violento. Para quem se interessar em saber mais, uma das poucas notícias do crime em português pode ser lida aqui.


Lobby cards de O ÚLTIMO CÃO DE GUERRA


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O Último Cão de Guerra (1979, Brasil)
Direção: Tony Vieira
Elenco: Tony, Heitor Gaiotti, Christina Kristner, Itagiba
Carneiro, Arlete Moreira, Francisco Assis Soares, Elden
Ribeiro, Renée Casemart e Débora Muniz.