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segunda-feira, 1 de outubro de 2012

FRITZ THE CAT (1972)


Foi a grande piada do mês (setembro/2012): o deputado federal Protógenes Queiroz (PC do B/SP), também delegado da Polícia Federal, levou o filho Juan para o cinema para ver a comédia de humor negro "Ted", dirigida por Seth McFarlane. O filme é recomendado para maiores de 16 anos, e o pequeno Juan tem apenas 11, mas isso não vem ao caso. O que vem ao caso é que Protógenes ficou chocado com o que viu na tela (um ursinho de pelúcia usando drogas e envolvendo-se com prostitutas), e, como todo "bastião da moral e dos bons costumes", julgou que os demais brasileiros não tinham inteligência e discernimento para entender a "mensagem" do filme. Tentou, portanto, proibir sua exibição no país. E só por causa de uma comédia sobre um ursinho tarado e maconheiro...

"Acionarei os meios legais, a fim de impedir q o lixo o filme infanto-juvenil TED seja exibido nacionalmente e apurar responsabilidades"; "Não poderia ser liberado nem para 16 nem para 18 anos. Esse filme não pode ser liberado para idade nenhuma. Não deve ser veiculado em cinemas"; "#foraFilmeTED das telas do cinema brasileiro. Não aceitamos mais esses enlatados culturais americanos no Brasil"; "Fiquei chocado e indignado com esse filme. Ele passa a mensagem de que quem consome drogas, não trabalha e não estuda é feliz". Essas foram apenas algumas das asneiras ditas pelo deputado, esquecendo-se, talvez, que proibir/censurar um filme não é papel do Estado, mas sim lutar para defender toda a liberdade de expressão, e que gosto pessoal não é justificativa para vetar a exibição, apresentação, exposição e publicação de nada. Se bem que isso, no Brasil, é cada vez mais comum, e o lamentável episódio Protógenes x "Ted" é apenas mais um no país que proibiu o lançamento comercial de "A Serbian Film" ano passado (2011), alegando que incitava a pedofilia, e que quer impedir a circulação dos livros clássicos de Monteiro Lobato nas escolas por julgar que são "racistas".


Portanto, nossa postagem de hoje é uma homenagem a todos os censores travestidos de políticos, e também uma sugestão de filme para o deputado Protógenes ver com seu filho numa próxima "Sessão Família". Trata-se de FRITZ THE CAT, escrito e dirigido por Ralph Bakshi em 1972. Afinal, se o nobre político pensou que "Ted" era um filme-família só por ter um ursinho de pelúcia no pôster (sem se informar sobre seu conteúdo ou classificação etária), que mal poderia haver num desenho animado estrelado por um simpático gatinho, não é mesmo?

Bem, a verdade é que FRITZ THE CAT entrou para a história do cinema como o primeiro desenho animado a receber certificação X (proibido para menores de 18 anos, a mesma dos pornôs) nos cinemas norte-americanos. Não exatamente por ser um filme pornográfico - há insinuações de sexo entre os personagens, mas sem mostrar putaria explícita ou penetração -, e sim pela trama repleta de violência explícita, consumo de drogas e uma moral bem duvidosa (para dizer o mínimo), coisas que certamente deixariam nosso famoso deputado censor de cabelos em pé...


FRITZ THE CAT é a versão "live action" de um famoso personagem dos quadrinhos, criado por Robert Crumb. Vale ressaltar que o Gato Fritz não era um personagem infantil, tampouco tinha revista com seu nome nas bancas: o felino malandro estrelava quadrinhos underground, produzidos de maneira independente, e por isso mesmo isentos das restrições impostas aos gibis "comerciais" (em relação ao uso de sexo, violência, palavrões e escatologia).

Em outras palavras, Fritz e seus colegas do underground podiam fazer o que bem entendessem (ou o que seus autores dementes quisessem), e azar do leitor "sensível", já que eram quadrinhos definitivamente para adultos - inclusive pelo seu texto mais rebuscado, que propunha crítica social e conflitos internos dos bichinhos humanizados.


O Gato Fritz foi criado por Crumb em 1959, mas suas primeiras histórias seriam publicadas apenas em 1965, nas páginas da revista norte-americana Help!, que pertencia ao mesmo editor da lendária Mad, Harvey Kurtzman. Fritz the Cat era algo original no cenário da HQ porque juntava o velho (bichinhos fofinhos falando, agindo e se vestindo como gente) com o "novo" (sexo, violência e contracultura nas tramas nada infantis).

Na maioria de suas histórias, Fritz aparece como um universitário e poeta fracassado perdido em meio à cena hippie e rodeado por outros personagens animais que não passam de estereótipos ou caricaturas dos seres humanos - os policiais são porcos, os negros são corvos, uma mulher superficial é representada como uma égua, e por aí vai.


FRITZ THE CAT, o filme, surgiu da associação do animador nova-iorquino Ralph Bakshi com o produtor Steve Krantz. Foi esse último que teve a ideia de fazer a adaptação: em 1969, ele comprou um livro com as histórias de Robert Crumb, ficou maravilhado e resolveu que transformaria o material num desenho animado para adultos.

A negociação com o autor não foi exatamente tranquila, conforme explicarei mais adiante, mas Crumb acabou dando sinal verde e Bakshi ficou responsável pela adaptação. Ao invés de criar uma história original, ele preferiu juntar três velhas HQs de Fritz, formando uma única aventura longa, porém tomando algumas liberdades poéticas aqui e acolá que enfureceram tanto Crumb quanto seus fãs mais radicais.


O filme começa com uma legenda ("The 1960's"), e assume sua localização geográfica como sendo Nova York (algo que não acontecia nos quadrinhos). Fritz e dois amigos vão ao parque com violões na tentativa de faturar umas gatinhas através da música, mas descobrem que outros desocupados estão usando a mesma ideia. O "herói" precisa improvisar e fingir-se de poeta maldito para levar três universitárias desmioladas para a cama - ou melhor, para dentro de uma banheira, já que vai até o apartamento de um amigo e lá está rolando uma festinha cheia de hippies fumando maconha por todos os cantos.

Após uma rápida sessão de sexo grupal com as moças na banheira, Fritz é obrigado a fugir com a chegada de dois policiais atrapalhados (um deles dublado pelo próprio diretor-roteirista Bakshi). Ele então resolve abandonar os estudos, queimando seus livros (e, consequentemente, toda a fraternidade onde morava), e a partir disso pula de uma aventura maluca para a outra, provocando uma revolta popular no Harlem (famoso bairro negro de Nova York), caindo na estrada com a namorada Winston e, finalmente, sendo recrutado por um grupo revolucionário que pretende praticar atos terroristas para derrubar o governo!


O roteiro dividido em esquetes é talvez a maior qualidade e o maior problema de FRITZ THE CAT. Qualidade porque o personagem não teria fôlego para uma única aventura longa, visto que mesmo em sua encarnação dos quadrinhos sempre participou de histórias curtas - seria tipo o que aconteceu com Garfield no cinema décadas depois, quando o gato astro de tiras curtinhas nos quadrinhos demonstrou não ter fôlego para protagonizar uma única história longa.

Por outro lado, a adaptação das histórias de Crumb foi feita por Bakshi de maneira meio caótica (ou "de qualquer jeito", como se diz), deixando de fora alguns elementos e explicações importantes e adicionando certas bobagens que não têm muito a ver com o universo do Gato Fritz - quase todas as contribuições originais de Bakshi à trama são de lascar, o que talvez tenha enfurecido tanto Crumb quanto seus fãs.


Essa meia dúzia de momentos soltos improvisados pelo diretor-roteirista incluem funcionários de uma obra reclamando sobre os jovens daquela época, antes de dar uma mijada do alto do prédio em construção diretamente na cabeça de um hippie, e Fritz fugindo da polícia para dentro de uma sinagoga, onde ao mesmo tempo acontecem as piadas mais fracas do filme e uma das inserções mais engraçadas feitas por Bakshi (ao ver os judeus ortodoxos na sinagoga, um dos policiais burros diz: "Cabelos compridos? Usando batas? É uma festa hippie!").

Bakshi também quintuplicou a violência, que não era exatamente uma característica das historinhas do Gato Fritz. A cena da revolta popular no Harlem inclui um momento em que um amigo de Fritz, o corvo Duke, é morto com um sangrento tiro em câmera lenta. A metáfora para representar a vida do pássaro se esvaindo - bolas de sinuca entrando lentamente na caçapa, já que o personagem gostava de jogar bilhar - rende um dos momentos mais marcantes do filme.


Bakshi também colocou mais violência onde não havia. Na subtrama em que Fritz entra para o grupo revolucionário, por exemplo, há um momento em que Harriet, a égua namorada de um coelho usuário de heroína, é agredida e estuprada pelos terroristas. Na HQ, era um momento até engraçado, que evoluía para um "estupro" coletivo (pense em humor negro). No filme, vira uma cena cruel em que a pobre quadrúpede é espancada com golpes de corrente que lhe tiram um montão de sangue!

Outra liberdade poética do diretor-roteirista foi a absurda cena envolvendo um caipira dirigindo um caminhão de galinhas. Furioso com o cacarejar incessante das penosas, o sujeito simplesmente pega um pedaço de pau e espanca todas as aves até a morte, num daqueles momentos de humor negro em que o espectador acaba rindo de nervoso, mas na verdade se pega questionando o que o criador daquela piada teria na cabeça.


O importante é que, descontando essas poucas inserções de Bakshi, o estilo de desenho e os roteiros de Crumb estão todos em FRITZ THE CAT. A primeira parte do filme, em que o gato tenta seduzir garotinhas com música e depois finge-se de poeta sofredor para levá-las até o banheiro (e à banheira), foi tirada quase na íntegra da história "Fritz the Cat". O momento em que o universitário Fritz queima seus livros, vai para o Harlem, provoca uma revolta popular dos negros contra a polícia e depois cai na estrada com a Winston saíram diretamente de "Fritz Bugs Out" (no Brasil, "Fritz Cai Fora"). Finalmente, o ato final do filme, em que o gato se envolve com os terroristas, vem de "Fritz the No-Good" (no Brasil, "Fritz, O Inútil").

Bakshi faz, sim, algumas alterações aqui e ali, e inclusive os terroristas no último ato do filme foram transformados em vilões assustadores, enquanto na HQ Crumb tinha optado por uma visão mais ingênua e engraçada, com aqueles típicos revolucionários de botequim usando frases-feitas como "A máquina do establishment será arruinada" (esta inclusive é uma das grandes reclamações de Crumb sobre o filme). Mas, em linhas gerais, FRITZ THE CAT é uma adaptação bem decente da HQ, inclusive com o espírito dos quadrinhos de Crumb.


Se como adaptação é relativamente fiel, como filme o buraco é mais embaixo. Afinal, conforme eu escrevi ali em cima, ao unir as três histórias diferentes e escritas em períodos diferentes, Bakshi não conseguiu criar a linearidade que seu filme pretende mostrar. As três histórias adaptadas aconteciam num espaço de muitos anos, em que o próprio Fritz mudou junto com seu autor (durante os acontecimentos de "Fritz the No-Good", por exemplo, o gato já estava casado e com um filho pequeno!), enquanto no filme todas as suas aventuras acontecem no intervalo de alguns dias.

Só que Bakshi cortou coisas necessárias para que os não-iniciados na obra de Crumb entendessem o que se passa. Quando a gata idealista Winston entra em cena procurando pelo "herói", quem leu a HQ sabe que ela é um velho caso romântico de Fritz, mas para quem está vendo o filme esta informação não é passada em momento algum. Ao mesmo tempo, Winston diz que Fritz devia parar de perder tempo com "garotas como Charlene", um outro caso romântico do gato que apareceu no começo da HQ "Fritz Bugs Out". Como Charlene não aparece no filme, nem seu nome sequer é citado anteriormente, o diálogo torna-se completamente desnecessário!


Mas, no geral, confesso que gosto MUITO de FRITZ THE CAT, não tanto pelo conjunto da obra, mas por seus momentos isolados. É preciso levar em consideração que, hoje, é muito fácil rir de coisas como o Movimento Hippie, mas tanto os quadrinhos de Crumb quanto o filme de Bakshi tiraram sarro disso na época em que a coisa estava no auge.

E é curioso ver como muitas piadas do filme (e dos quadrinhos) continuam atualíssimas até hoje. Como quando três patricinhas branquelas ficam se desmanchando em elogios a um corvo (o negro, no universo de Fritz), usando frases como "Black is so much groovier". Na HQ original, havia até um diálogo em que um dos amigos de Fritz dizia: "É sempre assim, é só aparecer um negão!".


Outro momento divertido são as frases revolucionárias-clichê com que Fritz, um gato branco, universitário e de classe média alta, acende uma revolta popular no Harlem, gritando chavões como "São eles que mantêm os poderosos no poder", referindo-se à polícia.

Contribuindo com o lado politicamente incorreto de FRITZ THE CAT, há também o fato do simpático gatinho não ser flor que se cheire. Pelo contrário, Fritz é um universitário vagabundo que não frequenta as aulas porque sonha em viver como poeta, que adora fumar maconha e que quer comer todas as mulheres (fêmeas) que cruzam seu caminho. Em resumo, o Gato Fritz vai de encontro ao que o deputado Protógenes reclamou sobre "Ted" (que passa a mensagem de que quem consome drogas, não trabalha e não estuda é feliz), só que 40 anos antes!!!


FRITZ THE CAT foi um projeto difícil de tirar do papel. Quando Krantz e Bakshi resolveram que iriam adaptar a HQ, foram procurar Crumb em San Francisco, mas o autor não queria ressuscitar um personagem que, para ele, já tinha sido deixado de lado há anos. Crumb alegava que o Gato Fritz era seu personagem mais antigo e fora de moda, e que ele estava fazendo coisas mais atuais naquele momento.

A negociação entre a dupla e Crump foi nebulosa, e cada uma das partes envolvidas tem sua própria versão dos acontecimentos. Segundo o autor, ele nunca aprovou a adaptação para o cinema nem nunca assinou um contrato; por isso, o artista chegou a ameaçar os realizadores com processo judicial para que tirassem seu nome dos créditos do filme, depois que viu e não gostou.


O produtor Krantz, por outro lado, disse que recebeu um contrato assinado por Crumb pelo correio, e que pagou 12.500 dólares pelos direitos do personagem. Claro que, passados 40 anos, é difícil saber quem está certo e quem está errado, mas acho difícil acreditar que Krantz produziria um filme sem ter pelo menos um documento do autor permitindo o uso de sua obra.

(Para quem quiser saber mais sobre o complicado processo de transformar o Gato Fritz em filme, e as brigas entre realizadores e Robert Crumb, recomendo esse gigantesco artigo de Michael Barrier chamado "The Filming of Fritz the Cat", que foi originalmente publicado na revista Funnyworld em 1972 e está disponível na íntegra aqui.)


Um segundo problema foi com o financiamento do filme. Até porque, no começo dos anos 70, quando se falava em desenho animado no cinema todo mundo pensava nas produções inofensivas dos Estúdios Disney. Animações politicamente incorretas e com teor adulto não eram comuns como, hoje, "The Simpsons" e "Uma Família da Pesada".

Portanto, quando Bakshi e Krantz tentaram conseguir grana com a Warner Bros., e exibiram um pequeno trecho concluído de FRITZ THE CAT (justamente a cena do Harlem), os executivos ficaram pasmos. Em uma entrevista recente, o diretor Bakshi disse que vai lembrar para sempre da cara dos sujeitos ao final da exibição. Eles queriam cortar todo o erotismo do filme, fazer mudanças na história e chamar famosos para dublar os personagens. Com a recusa da dupla de realizadores, a Warner pulou fora e FRITZ THE CAT acabou sendo distribuído pela Cinemation Industries, uma pequena distribuidora de filmes exploitation.


Na estreia, mais problemas: a Motion Picture Association of America (MPAA), órgão que regula a classificação etária dos filmes nos Estados Unidos, encasquetou com o conteúdo adulto de FRITZ THE CAT e tascou-lhe um "X-Rated", ou seja, "proibido para menores de 18 anos".

Claro que já existiam desenhos animados pornográficos explícitos na época, coisa que FRITZ THE CAT não era. Um dos meus preferidos, "Eveready Harton in Buried Treasure", é de 1929! A diferença é que esses filmes não eram submetidos à MPAA para receber classificação (já eram produzidos exclusivamente para os cinemas adultos ou para exibições clandestinas). Por isso, oficialmente, o desenho do Gato Fritz foi a primeira animação a ter essa "honra".


O produtor Krantz até brigou com a MPAA para tentar baixar a classificação, pois sabia que a tarja X-Rated significava a morte comercial do seu filme. Ele alegava que sexo entre animais não podia ser considerado pornografia (!!!), mas esse nem era o ponto: as várias cenas de sexo em FRITZ THE CAT não são explícitas, não mostram penetração, portanto não podem ser consideradas "X-Rated".

Demorou algum tempo para que as pessoas percebessem que FRITZ THE CAT não era um filme pornográfico (o que certamente decepcionou parte do público), e até o Festival de Cannes de 1972 se rendeu e exibiu o filme na sua programação. Em entrevista recente, Bakshi declarou: "Hoje eles fazem em 'The Simpsons' tudo aquilo pelo que ganhamos um 'X' com FRITZ THE CAT".


No fim, a controvérsia acabou rendendo frutos: o distribuidor, especialista em exploitation e em publicidade, colocou uma frase gigante no pôster do filme, "We're not rated X for nothin', baby!", tentando atrair a curiosidade dos pervertidos interessados em ver bichinhos fofinhos transando.

Funcionou, e até hoje FRITZ THE CAT é o desenho animado independente mais lucrativo da história: mesmo tendo custado apenas 850 mil dólares, e mesmo com um lançamento bastante limitado por causa da certificação X-Rated, o filme rendeu mais de 100 milhões de dólares nas bilheterias mundiais!


Pode ter sido um sucesso comercial, mas Robert Crumb odiou. Ele assistiu o filme em fevereiro de 1972, quando estava em Los Angeles, acompanhado de outros desenhistas do underground. Seu relato sobre a adaptação (tirado do artigo supracitado de Michael Barrier): "Ele [Bakshi] me perguntou o que eu tinha achado, e eu apenas dei de ombros. Eu não sabia o que dizer. Então disse que não gostei do que ele tinha feito com a cena dos revolucionários, que aquilo me deixou puto, como ele mudou e transformou em algo que não era o que eu queria dizer. É um filme estranho, um reflexo da confusão de Ralph Bakshi. Existe algo de muito reprimido nele, algo muito mais esquisito que o meu material. É apenas esquisito, mas não engraçado".

Enfim, Crumb ficou tão puto com FRITZ THE CAT que, ainda em 1972, resolveu publicar uma nova história em quadrinhos do Gato Fritz, algo que não fazia há anos. E seria a última: o autor preferiu matar o seu personagem, com um picador de gelo cravado na cabeça por uma ex-namorada possessiva, a deixá-lo vivo para aparecer em novos filmes. A história de 15 páginas chama-se "Fritz The Cat Superstar", e tira sarro do mundo do cinema - tem até um momento em que Fritz encontra-se com produtores de cinema inescrupulosos chamados... Steve e Ralph! Qualquer semelhança com a realidade NÃO é mera coincidência...


Depois de FRITZ THE CAT, Ralph Bakshi partiu para outros projetos, mas raramente saiu da área de animação. Escreveu e dirigiu vários longas de animação, sendo que o mais famoso deles é uma ambiciosa adaptação de "O Senhor dos Anéis" produzida em 1978, com 132 minutos de duração e cobrindo a história do primeiro livro e parte do segundo. O filme contava até com vozes famosas (John Hurt dublou Aragorn e Anthony Daniels, o C3PO de "Star Wars", emprestou sua voz a Legolas), e era para ser a primeira parte de uma trilogia, mas não convenceu e ficou só no primeiro filme mesmo, deixando a aventura incompleta até Peter Jackson fazer sua versão "live action" da obra mais de duas décadas depois.

Bakshi também foi o responsável por "American Pop" (1981), desenho animado sobre uma família de músicos, que virou cult por causa da trilha sonora (com Bob Dylan, Jimi Hendrix, Lou Reed, Sex Pistols e outros), e por "Fire and Ice" (1983), animação de espada e magia lançada na esteira do sucesso de "Conan, O Bárbaro". Em 1992, ele tentou fazer uma sensual mistura de filme com desenho animado estilo "Uma Cilada para Roger Rabbit", e o resultado foi o bizarro "Mundo Proibido", com Kim Basinger como a personagem de quadrinhos que seduz seu criador (o ainda desconhecido Brad Pitt também aparece no filme). Bakshi não faz nada novo desde 1997.


De qualquer maneira, a morte de Fritz pelas mãos de Robert Crumb (e da ex-namorada possessiva com o picador de gelo) não poupou o personagem de aparecer em uma continuação. E das ruins! Em 1974, o mesmo produtor Steve Krantz fez "The Nine Lives of Fritz the Cat", em cujo material de divulgação até sacaneava o próprio Crumb: "Fritz may have lost one of his lives in the comics, but in his new movie, he has eight more lives left to go!".

Ralph Bakshi pulou fora do projeto, que desta vez foi dirigido por Robert Taylor, e o roteiro não tem nada a ver com os quadrinhos de Crumb, embora aproveite o início da HQ "Fritz the No-Good" (o gato sendo aporrinhado pela esposa). O resultado é um filme péssimo em que nada se salva, e sem a menor graça - que deve ter feito o próprio Robert Crumb parar de implicar com FRITZ THE CAT ao constatar algo realmente ruim estrelado pelo seu personagem...

PS: Destaque para a "participação especial" da silhueta de três famosos personagens Disney (Pato Donald, Mickey e Minnie), aplaudindo a intervenção do exército norte-americano no Harlem. Não bastassem todos os problemas enfrentados pelos realizadores, um processo de Walt Disney certamente fecharia com chave de ouro a lendária odisséia para realização desta animação. Mas isso milagrosamente não aconteceu.


Trailer de FRITZ THE CAT



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Fritz The Cat (1972, EUA)
Direção: Ralph Bakshi
Com as vozes de Skip Hinnant, Rosetta LeNoire,
John McCurry, Judy Engles, Phil Seuling, Mary Dean,
Charles Spidar e Ralph Bakshi.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Felipe M. Guerra entrevista...


Sempre que participo do Fantaspoa - Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre, eu prefiro investir meu tempo conversando com os diretores participantes ao invés de assistir três ou quatro filmes por dia, como fazem muitos espectadores. No deste ano, resolvi ampliar a experiência da troca de ideias com os cineastas para um público maior, usando minha velha câmera mini-DV para gravar entrevistas com os caras que fizeram os filmes que eu mais gostei.

É uma tentativa de valorizar o trabalho desses cineastas iniciantes e quem sabe torná-los mais conhecidos no Brasil. Até porque alguns deles estavam lançando seu primeiro filme no Fantaspoa, e talvez amanhã sejam grandes nomes do gênero, e aí ficará relativamente mais difícil entrevistá-los.

Nos vídeos abaixo, o leitor do FILMES PARA DOIDOS pode conferir minhas entrevistas com os cineastas norte-americanos Todd E. Freeman ("Cell Count") e Zack Parker ("Scalene"); com o canadense Casey Walker ("A Little Bit Zombie"); o inglês Alex Chandon ("Inbred"); o argentino Nicolás Goldbart ("Fase 7"), e o espanhol Tirso Calero ("Carne Cruda").

Já falei rapidamente aqui no blog sobre o quanto gostei dos seus filmes, e nessas entrevistas o leitor poderá conhecer mais sobre as obras (com cenas dos filmes, inclusive) e sobre os próprios realizadores, que falam sobre suas influências, referências e o cinema fantástico moderno. Para poupá-los do meu inglês horrível e do meu "portunhol", substituí as perguntas que fiz por legendas com os temas discutidos.

Sei que nem todos gostam de ver entrevistas em vídeo, e eu mesmo prefiro as entrevistas transcritas (por escrito). Mas reserve um tempinho para ver e ouvir o que esses caras têm a dizer. Afinal, eles podem ser os Stuart Gordons, John Carpenters e David Cronenbergs de amanhã.


Entrevista com Alex Chandon
 

 
Entrevista com Nicolás Goldbart
 

 
Entrevista com Casey Walker
 

 
Entrevista com Todd E. Freeman
 

 
Entrevista com Tirso Calero
 

 
Entrevista com Zack Parker
 

terça-feira, 18 de setembro de 2012

NINJA THUNDERBOLT (1985)


Como é que um blog pode se chamar FILMES PARA DOIDOS se nenhuma das suas 284 postagens fala sobre Godfrey Ho? Mea culpa. Portanto, a postagem de hoje pretende corrigir esta injustiça e finalmente analisar uma obra de Ho, este célebre mestre oriental da picaretagem que alguns pesquisadores chamam de "Ed Wood de Hong-Kong", e cujo conjunto da obra já seria motivo suficiente para que ele fosse eleito santo padroeiro do blog, e não apenas um simples homenageado.

O IMDB informa que Godfrey Ho dirigiu 121 filmes. Mas não se engane: é bem provável que ele tenha feito o dobro disso, já que muitos dos seus trabalhos mais antigos simplesmente desapareceram, ou então foram assinados com pseudônimos e ninguém consegue provar a "autoria" de Ho. Ainda segundo o IMDB, o diretor usou nada menos de 50 nomes falsos ao longo de sua carreira, assinando tralhas como Bruce Lambert, Kurt Spielberg, Raymond Woo e até o muito apropriado "Ed Woo" (!!!), entre outros.


Uma rápida biografia: depois de ter estudado cinema em Hong-Kong e no Canadá, Ho foi assistente do respeitado cineasta Cheh Chang em diversas das suas obras, incluindo a co-produção Ocidente (Hammer) e Oriente (Shaw Brothers) "The Legend of the 7 Golden Vampires", que foi co-dirigida por Chang.

A partir do final dos anos 70, ele uniu-se aos produtores Tomas Tang e Joseph Lai para dirigir uma cacetada de filmes de artes marciais na Coréia do Sul (onde os custos eram menores).


O ponto de virada na carreira do "Ed Wood oriental" foi na década de 80. Tudo graças a uma aventura produzida pela Cannon Films, "Ninja, A Máquina Assassina", com o italiano Franco Nero no papel de um ninja ocidental. O filme era ruim de doer, mas estava faturando bem até nos cinemas orientais!

O produtor Joseph Lai, velho amigo de Ho, tinha fundado sua própria empresa (IFD Films & Arts), ficou admirado com o sucesso do filme com o ninja italiano e sugeriu a Godfrey que aproveitassem a febre rodando várias aventuras barateiras a preço de banana, e igualmente estreladas por um ninja ocidental. Até segunda ordem (ou seja, até que a filmografia de Godfrey Ho seja devidamente investigada e atualizada), o filme que abriu a bem-sucedida "série ninja" de Ho e Lai foi NINJA THUNDERBOLT, atual objeto de nossa análise.


Para o papel que foi de Franco Nero em "Ninja, A Máquina Assassina", a dupla decidiu chamar outro ator que, apesar de ter nascido nos Estados Unidos, fazia muito mais sucesso em westerns e policiais italianos: Richard Harrison. O motivo da escolha do ator não foi pelos dotes interpretativos (bastante limitados) e muito menos por ele saber lutar ou mover-se como um ninja (não sabia nenhum dos dois), mas apenas porque Harrison era fisicamente parecido com Franco Nero!!!

Harrison e Ho haviam se conhecido anos antes no set de "Marco Polo" (1975), um épico dirigido por Cheh Chang (de quem Godfrey era assistente, lembra?). Consta que o ator ficou impressionado com a animação daquele jovem que sonhava em ser cineasta, e por isso não pensou duas vezes em participar do seu filme de ninja por um cachê bem menor que o usual. Harrison não fazia ideia de como iria se arrepender por isso depois...


Ho e Lai agora tinham um "astro" parecido com Franco Nero e a ideia de uma aventura com ninjas. Só faltava um, digamos, pequeno detalhe: Joseph Lai não tinha dinheiro para produzir UM FILME INTEIRO. Resolveram, então, usar uma estratégia que já era comum nas suas velhas produções de artes marciais: comprar os negativos de filmes incompletos, ou de filmes antigos que não fizeram muito sucesso por lá, e reeditar essas obras, inserindo na narrativa as novas cenas com ninjas filmadas por Godfrey Ho!

E não importava se o filme em questão era um drama, um horror, uma comédia ou um policial: eles sempre davam um jeito de encaixar cenas com ninjas, geralmente no começo e no final, só para justificar os novos títulos estapafúrdios com que rebatizavam as produções - coisas como "Ninja Terminator", "Diamond Ninja Force", "Golden Ninja Warrior" e este NINJA THUNDERBOLT.


A essa altura, o leitor do FILMES PARA DOIDOS deve estar se perguntando como é que os sujeitos faziam tamanha picaretagem sem sofrer nenhum processo judicial. A resposta é simples: antes de tudo, vamos lembrar que os tempos eram outros e esse tipo de "liberdade poética" era bem comum.

Tomemos como exemplo o lendário produtor norte-americano Roger Corman. Nos anos 60, ele adquiriu os direitos de um filme russo de ficção científica chamado "Planeta Bur" (1962), de Pavel Klushantsev. Como não pegava bem lançar um filme russo nos cinemas americanos em plena Guerra Fria, Corman simplesmente dublou os atores em inglês, batizou-os com pseudônimos norte-americanos e chamou dois jovens diretores para filmar cenas adicionais. Assim, a partir de um único filme ("Planeta Bur") ele lançou dois, "O Planeta Pré-Histórico" (1965) e "Viagem ao Planeta das Mulheres Selvagens" (1968). Como curiosidade, os "jovens diretores" que filmaram cenas adicionais para ambos foram, respectivamente, Curtis Harrington e Peter Bogdanovich, que passariam a ser cineastas respeitados anos depois!


Além disso, é preciso lembrar que tanto essa malandragem de Corman quanto as picaretagens de Ho (e outros tantos caras-de-pau) eram feitas a partir de pequenas produções praticamente desconhecidas mesmo no seu país de origem, então imagine no mercado ocidental.

E as aventuras com ninjas da IFD Films & Arts eram feitas exclusivamente para os cinemas e videolocadoras dos Estados Unidos, e não para exibição no Oriente, onde algum espertinho poderia reconhecer o filme "remontado" pela dupla.


Claro que ninguém podia imaginar que, no futuro, existiria internet, DVD e gente com muito tempo nas mãos para ficar pesquisando essas coisas. Se antes os filmes de ninja de Ho eram assistidos apenas por frequentadores de cinemas baratos, que não costumavam perceber a diferença entre uma aventura oriental e outra, hoje existem fãs que pesquisam as obras e as assistem várias vezes para perceber os enxertos e montagens - como este que vos escreve!

NINJA THUNDERBOLT, a aventura que teve a "honra" de abrir o pacote ninja da IFD Films & Arts, foi montado a partir de uma pequena co-produção Hong Kong/Taiwan/Japão chamada "Zhi Zun Shen Tou", também conhecida como "The Ninja and the Thief" e "To Catch a Thief", e dirigida por Tommy Lee Gam Ming em 1984.


Embora Ho tenha produzido muitos filmes a partir de obras inacabadas, "The Ninja and the Thief" estava pronto e tinha começo, meio e fim. Contava a história de Shima (Yasuaki Kurata), um mestre ninja contratado para roubar uma valiosa estátua de jade com forma de cavalo. Um detetive da polícia (Don Wong) e uma investigadora da agência de seguros (Yin Su-li) unem-se para descobrir o paradeiro da relíquia e descobrem que o roubo foi planejado pelo seu próprio dono da estátua, que estava tentando embolsar a grana do seguro.

"The Ninja and the Thief" era uma aventura barata, mas bem divertida e repleta de cenas de ação malucas, incluindo a formidável perseguição do herói por ninjas brandindo espadas e equilibrando-se sobre... patins?!? Sim, patins. Pare tudo que estiver fazendo agora e assista esse momento mágico da sétima arte (um dia você ainda vai me agradecer por isso):

Rollerskating Ninjas!!!


E, caso você não tenha ligado o nome à pessoa, o protagonista Don Wong é o mesmo que, dez anos antes, teve a honra incomensurável de dar um cacete em ninguém menos que CHUCK NORRIS quando eles interpretaram herói e vilão, respectivamente, em "Massacre em São Francisco"!!!

(Sempre lembrando que Don Wong e um tal de Bruce Lee foram os únicos heróis cinematográficos a dar um cacete no mito Chuck Norris, o que desde já coloca o menos célebre Wong no mesmo patamar de lenda do falecido Lee.)


Tudo muito bom, tudo muito bem, mas Godfrey Ho ainda precisava transformar "The Ninja and the Thief" num veículo para o ninja ocidental interpretado por Richard Harrison. E a maneira encontrada por ele foi hilária, e bem típica de Ed Wood: simplesmente filmou uns 10 minutos de cenas adicionais em que Richard Harrison interpreta um sujeito chamado... hã... "Richard". No caso, Richard Lohman, um super-mestre ninja que também é o "superintendente da Divisão de Crimes Graves" da polícia.

É claro que Joseph Lai não ia gastar dinheiro contratando Don Wong ou algum dos outros atores de "The Ninja and the Thief" para filmar cenas adicionais com Harrison. Portanto, o galã só "interage" com os outros atores graças ao milagre da montagem. Por exemplo, nós nunca vemos Don Wong e Richard Harrison dividindo o mesmo quadro, apenas um frame de um "falando" com o outro, e então o frame do outro "respondendo" ao primeiro. Dê uma olhada nas imagens abaixo para entender melhor como funciona:

Cena original de "The Ninja and the Thief"



Cena remontada de NINJA THUNDERBOLT


Simples, não? É picaretagem? Sim, e da grossa. Por outro lado, esse tipo de montagem exige um sujeito bastante criativo (e cara-de-pau, claro), para fazer com que as cenas adicionais casem com o material pré-gravado e já finalizado. E a redublagem dos diálogos também precisa fazer sentido, óbvio.

O interessante é que NINJA THUNDERBOLT traz um dos melhores trabalhos de edição da dupla Ho/Lai (a montagem foi assinada por Wong Ming-Lam). O espectador desavisado nem percebe à primeira vista que, na verdade, está assistindo a dois filmes diferentes cujos atores nunca interagem no mesmo quadro, algo que outras produções posteriores de Ho e Lai já deixam bem mais evidente.


Se "The Ninja and the Thief" já iniciava com Shima realizando o roubo, em NINJA THUNDERBOLT temos uma nova introdução filmada por Ho, uma cerimônia do "Império Ninja" (não tente entender) em que é repassada a filosofia e o rígido código de honra dos guerreiros mascarados.

Richard Harrison está ali no meio, em traje de ninja e com rímel debaixo do olho para deixá-lo "puxadinho" (assim as pessoas não vão estranhar quando mais tarde ele for substituído por um dublê oriental que SABE LUTAR, mas tem olho puxado natural, nas cenas de ação). Na mesma cerimônia está o personagem de Yasuaki Kurata em "The Ninja and the Thief". Como? Ora, Ho simplesmente pegou uns takes dele em primeiro plano no outro filme e inseriu na montagem como se ele estivesse participando da reunião!


Segue-se a trama usual de "The Ninja and the Thief", com participações pontuais de Harrison aqui e ali, só para justificar seu nome enorme no pôster do filme e o fato de os créditos iniciais trazerem um "Estrelando Richard Harrison". Os nomes dos personagens também foram mudados: o herói Wang Lee virou apenas Wong, e o vilão, que se chamava Chen, foi rebatizado "Jackal Chan"!!!

Descontando o momento em que, como superior de Don Wong, ele encarrega o herói de investigar o roubo da estátua, e alguns telefonemas dele para Wong, Harrison nunca participa diretamente da trama de "The Ninja and the Thief", mas volta na conclusão enfrentando um outro ninja, uma mulher, que não tem nada a ver com o resto da história!


Ainda entre as cenas adicionais filmadas por Ho e enxertadas em "The Ninja and the Thief", existe um momento completamente aleatório em que um dos amigos de Harrison (com o qual ele tinha enchido a cara momentos antes) é morto pela ninja-mulher com, acredite se quiser, uma fita cassete arremessada no seu peito como se fosse shuriken!!!

A fita contém uma gravação, uma mensagem para Harrison que tenta dar algum sentido à trama, dizendo que ele traiu o "Império Ninja" (por estar caçando Shima, um dos seus "irmãos") e por isso irá morrer. Bravo!


NINJA THUNDERBOLT até pode ter certo interesse para quem gosta do cinema de ação oriental, principalmente pelas cenas originais de "The Ninja and the Thief", que incluem diversas lutas entre Don Wong e uma cacetada de figurantes (e uma luta final muito boa entre Wong, Yin Su-li e o vilão Kurata). As cenas com ninjas filmadas por Ho e incluídas na montagem não são tãooooo marcantes assim, mas, vá lá, quebram o galho.

Na verdade, o filme será muito mais apreciado por admiradores de cinema ruim e de trash movies, e não só pela montagem picareta de Ho e pelas cenas sem sentido com Richard Harrison, mas também porque "The Ninja and the Thief", originalmente, já era um trashão daqueles!


Além da hilária cena com os ninjas de patins perseguindo o herói, que virou hit no YouTube, "The Ninja and the Thief" provoca algumas boas gargalhadas graças à pobreza mais do que visível da produção. A "casa" do herói Wong, por exemplo, é um quarto de motel, e dos mais vagabundos, já que a porta da frente dá diretamente para o banheiro e para o quarto, e ninguém fez muita questão de esconder o painel cheio de botões (para ligar o som, para ligar o ar condicionado) na cabeceira da cama!

Também há umas cenas completamente sem-noção QUE JÁ ESTAVAM LÁ antes de Ho meter a mão no filme. Minha preferida é aquela em que o herói assusta sua esposa usando uma máscara de monstro; posteriormente, quando um vilão igualmente mascarado invade a "casa", a moça acredita ser seu marido zoando e se dá mal - num hilário reaproveitamento da velha fábula do menino que gritava "Lobo! Lobo!".


Tommy Lee Gam Ming, o diretor original dessa bagaça, também não era o mais inteligente dos cineastas. Pois eis que o sujeito filma uma perseguição de carros em que heróis e vilões dirigem carros brancos praticamente iguais (!!!), e você nunca sabe quem é quem no meio do corre-corre! Aliás, "corre-corre" em partes, porque todas as cenas de perseguição são filmadas em velocidade normal e depois "aceleradas" na montagem, o que fica absurdamente falso.

E o que dizer do momento em que a mocinha da companhia de seguros está numa cabine telefônica que é atravessada por um carro em alta velocidade dirigido pelos caras maus? Quando você pensa que a garota morreu, eis que na cena seguinte ela aparece pendurada no capô do veículo em alta velocidade, ainda segurando o telefone na mão e sem um único arranhão (tá, para não ser injusto, uma das meias-calças dela está furada, assim não fica tão absurdo).


Se Godfrey Ho era o "Ed Wood de Hong-Kong", então Tommy Lee era o Bruno Mattei de lá, pois seu filme original está repleto de bobagens e erros de continuidade. Embora Shima roube a estátua de jade à noite, por exemplo, no momento em que ele sai do prédio já é dia com sol a pino (e não, ele não levou mais de 10 minutos para abrir o cofre).

O diretor também parece meio na dúvida entre o tipo de filme que quer fazer, pois há uma quantidade considerável de nudez (feminina e também masculina, com direito a pinto mole balançando), e umas loooooongas cenas de sexo simulado completamente deslocadas da narrativa (incluindo uma ameaça de 69!), como se alguém tivesse gravado putaria da extinta Sexta Sexy numa fita onde já havia um filme de ninja gravado três dias antes na Sessão Kickboxer.

(Que fique registrado: o original "The Ninja and the Thief" tinha ainda mais cenas de sacanagem, que foram cortadas para acomodar as novas cenas de ninjas com Richard Harrison. Tanto a obra de Tommy Lee quanto a remontagem de Godfrey Ho duram 88 minutos.)


O interessante é que Godfrey Ho manteve esse estilo sem-noção, e os cerca de 10 minutos adicionais que filmou para fazer NINJA THUNDERBOLT estão imbuídos do mesmo espírito "Que se foda!" do original "The Ninja and the Thief". Há, por exemplo, uma cena em que Harrison prende um traficante num parque, e que não tem nada a ver com a trama principal - lembre-se, ele não podia participar diretamente da outra trama porque ela faz parte de um filme já pronto, mas precisava aparecer fazendo alguma coisa!

Pois eis que o traficante guarda uns 15 baseados dentro da boca (!!!), de onde só os retira quando aparece algum comprador. É um negócio tão inacreditável que só vendo para acreditar, além de um verdadeiro desrespeito ao consumidor: não é porque seu negócio é ilegal que você deve agir com tamanha falta de higiene, vendendo baseados molhados e babados!


Continuando nessa linha "tão ruim que fica bom", o mestre ninja Harrison tem uma espécie de armário mágico em sua casa, pois toda vez que abre a porta do dito-cujo uma luz branca super-forte sai de lá de dentro. A luz parece emanar da espada ninja mágica usada pelo personagem.

Por sinal, os ninjas de Godfrey Ho fazem aquele estilo "magos cheios de truques", pois além da super-habilidade na espada, eles também vestem seus trajes ninjas magicamente em um segundo, bastando para isso jogar uma bomba de fumaça no chão!


NINJA THUNDERBOLT pode não convencer muito como filme de ação, mas é hilário como comédia involuntária, e ainda melhor para você assistir agora, depois de ler essa resenha, pois irá prestar mais atenção nas cenas adicionais enxertadas e em como o "mestre ninja Richard Harrison" jamais interage com os personagens da trama principal.

Curioso é que a cópia lançada em DVD no Brasil, pela Califórnia Filmes, faz jus à ruindade da obra e torna tudo ainda mais trash: além da qualidade ruim da imagem (obviamente ripada de VHS) e da capinha com uma imagem feia super-ampliada até ficar quadriculada, a Califórnia lançou uma versão DUBLADA EM ITALIANO! E poucas coisas são mais esquisitas do que ver ninjas falando italiano num filme produzido em Hong-Kong e com legendas em português - parece até aquela música dos Titãs!


Quando NINJA THUNDERBOLT começou a dar certo retorno financeiro nos cinemas ocidentais, o produtor Joseph Lai percebeu que seu insólito "jeitinho" de fazer filmes podia render ainda mais. Sempre com Godfrey Ho na direção (embora Lai assumisse o cargo às vezes para desafogar o parceiro), a IFD Films & Arts lançou mais umas 20 aventuras com ninjas produzidas a partir de material de terceiros, muitas delas com Richard Harrison repetindo seu papel de mestre ninja ocidental.

Aí veio a malandragem-mor, sobre a qual pretendo me aprofundar em futuras postagens: Lai contratou Harrison para fazer apenas três filmes (já contando NINJA THUNDERBOLT), mas pediu que Ho gravasse o maior número possível de cenas aleatórias com o ator vestido de ninja e interagindo com personagens inexistentes.

Dessa maneira, os "três filmes" acabaram se transformando em nada mais nada menos que 25 FILMES, e sempre reaproveitando as mesmas "cenas aleatórias" com Harrison! Isso levou o ator norte-americano a abandonar o cinema, desiludido por ter seu nome associado a tamanha quantidade de podreiras (embora volta-e-meia ele reapareça em pequenas participações).


Já Godfrey Ho, quem diria, aposentou-se do ramo para virar professor de cinema (!!!) na Hong Kong Film Academy! Exato: o "Ed Wood de Hong-Kong" hoje ensina seus segredos e divide suas habilidades com a nova geração do cinema oriental. Talvez em breve tenhamos uma nova febre de filmes de ninja direto para locação.

E, se bobear, com aquelas mesmas velhas cenas filmadas com Richard Harrison...

PS: Os créditos iniciais informam que Jackie Chan foi coadjuvante no filme. Não vi ninguém sequer parecido com o astro mesmo entre os figurantes, mas a Califórnia Filmes comprou a ideia e tascou o nome "Jackie Chan" em letras garrafais na capinha do DVD nacional. O máximo que NINJA THUNDERBOLT traz é o personagem chamado "Jackal Chan", então deve ser mais uma picaretagem da dupla Ho/Lai, já que outras obras deles, como "Ninja - O Protetor", também anunciam enganosamente a presença de Jackie Chan.

Trailer de NINJA THUNDERBOLT



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Ninja Thunderbolt (1985, Hong-Kong / Taiwan)
Direção: Godfrey Ho (e Tommy Lee Gam Ming)
Elenco: Richard Harrison, Don Wong, Yasuaki Kurata,
Yin Su-li, Cheng Fu-Hung, Lee Fat-Yuen, Wong Chi-Wai
e mais um monte de desconhecidos.