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domingo, 9 de setembro de 2012

DESEJO DE MATAR 3 (1985)


"Desejo de Matar 2" foi a primeira produção da Cannon Films com um grande astro (Charles Bronson) e também um sucesso de bilheteria, enchendo os produtores israelenses Golan e Globus de dinheiro e reputação para tocar outros projetos. Ao mesmo tempo em que produziam filmes de ação baratos estrelados por Chuck Norris, Lou Ferrigno, Robert Ginty e Michael Dudikoff, os dois primos tentavam ganhar Oscars contratando diretores consagrados, como Jean-Luc Godard, John Frankenheimer e John Huston, para tocar projetos mais "artísticos". Esses sempre naufragaram nas bilheterias, enquanto os filmes de ação continuavam dando retorno financeiro. E como em time que está ganhando não se mexe, a Cannon decidiu iniciar uma duradoura parceria com Charles Bronson, que inevitavelmente levou a um DESEJO DE MATAR 3.

Até hoje, toda vez que eu revejo DESEJO DE MATAR 3, fico imaginando a cara dos espectadores que tinham curtido as Partes 1 e 2 ao sair de uma sessão do terceiro filme na época do seu lançamento, lá em 1985. Porque se o original de 1974 era uma história policial séria sobre um homem que liberta sua fúria exterminando marginais na rua, e a segunda parte, de 1982, mostrava o mesmo homem comum vingando-se dos responsáveis pela morte da filha, DESEJO DE MATAR 3 não tem a menor vergonha na cara e parte direto para a avacalhação: o vigilante Paul Kersey agora é representado como uma máquina de matar incansável e indestrutível estilo "O Exterminador do Futuro", que sai às ruas baleando, metralhando e explodindo delinquentes como se estivesse jogando videogame!


Algumas fontes alegam que a terceira aventura cinematográfica de Kersey foi diretamente influenciada por dois exagerados e barulhentos filmes de ação lançados no mesmo ano de 1985: "Rambo 2 - A Missão", onde Sylvester Stallone massacra 70 inimigos viecongues e russos, e "Comando para Matar", onde Arnold Schwarzenegger bateu todos os recordes de violência cinematográfica e exterminou 96 pessoas (!!!) on-screen.

Mas a verdade é que DESEJO DE MATAR 3 começou a ser filmado em abril de 1985, antes do lançamento destes dois filmes, e portanto já trazia uma avantajada contagem de cadáveres sem ser influenciado por Stallone e Schwarzenegger, provavelmente motivada por outras produções baratas da Cannon lançadas no ano anterior, como "Braddock - O Super Comando" (1984), em que Chuck Norris mata 63 soldados vietcongues, ou "A Vingança do Ninja" (1983) e seus mais de 50 cadáveres.


Consta, também, que a Cannon Films queria aproveitar a publicidade gratuita gerada por um vigilante da vida real: em dezembro de 1984, como Charles Bronson tinha feito dez anos antes em "Desejo de Matar", Bernhard Hugo Goetz atirou em quatro supostos assaltantes dentro de um trem do metrô de Nova York.

Goetz foi chamado de "Subway Vigilante" pela mídia, e a imprensa e a população da cidade ficaram divididas entre glorificar ou condenar sua ação, já que o homem foi imortalizado como um exemplo de reação extrema do cidadão diante da violência urbana de Nova York na época. O vigilante da vida real entregou-se à polícia e foi a julgamento, ficou preso durante oito meses e até hoje é figura popular nos Estados Unidos.


Charles Bronson desta vez não pestanejou para voltar ao papel de Paul Kersey pela terceira vez, enquanto o diretor inglês Michael Winner, responsável pelas Partes 1 e 2, só retornou à série porque sua carreira outra vez estava em baixa. Seus dois projetos pós-"Desejo de Matar 2" ("A Perversa", de 1983, e o horror "Scream for Help, de 1984, que quase não chegou aos cinemas) foram grandes fracassos de bilheteria, e ele precisava de um novo hit para continuar na ativa.

Provavelmente com certa má vontade por estar fazendo a mesma coisa pela terceira vez, Winner não se preocupou em manter o tom mais sério e realista dos dois filmes anteriores. Pelo contrário, chutou o pau da barraca e investiu no exagero e na ação absurda. Se nas Partes 1 e 2, somadas, o número de mortos mal chegava a 30, em DESEJO DE MATAR 3 o herói e os vilões exterminam mais que o dobro disso, numa aventura impossível de levar a sério!


E é exatamente aí que reside o charme da coisa toda. Se tivéssemos que analisar o filme friamente como obra cinematográfica, o bagulho provavelmente ganharia nota zero com seu roteiro inexistente, situações forçadas, violência gratuita e direção precária. Por outro lado, DESEJO DE MATAR 3 é divertidíssimo exatamente por causa desses defeitos, e você está lendo o FILMES PARA DOIDOS, e não o Cinequanon ou a Contracampo. É impossível não rolar de rir ao ver Bronson, com 63 anos de idade, aniquilando inimigos com 40 anos a menos sem sequer suar!

Embora goste muito MESMO de "Desejo de Matar", confesso que meu preferido da série é esse terceiro filme. Até tenho esse pôster de cinema (com Bronson apontando sua pistola Wildey) emoldurado na minha parede, com muito orgulho. Mas acho que o cartaz que melhor reflete o clima da terceira aventura de Kersey é o usado na Europa (ao lado), que traz Bronson disparando uma metralhadora de grosso calibre com a munição enrolada ao corpo, como se fosse uma versão geriátrica de Rambo ou Braddock! Portanto, é indispensável assistir DESEJO DE MATAR 3 como se fosse uma aventura independente, sem nenhuma relação com as duas anteriores, ou a decepção será inevitável.

Sem muita preocupação em explicar o que aconteceu com o arquiteto Paul Kersey após os acontecimentos de "Desejo de Matar 2", o fiapo de história desta terceira parte já começa com nosso herói num ônibus com destino a Nova York - de onde ele foi praticamente expulso pela lei no final do primeiro filme. A única coisa que o roteiro se preocupa em esclarecer é que nosso herói pretende encontrar Charley (Francis Drake), um amigo dos tempos da Guerra da Coréia.

O problema é que o velho Charley não estará vivo para dar as boas-vindas ao amigo vigilante. Ele vive num bairro pobre que é a verdadeira filial do inferno, dominado por uma gangue de punks que faz os marginais dos dois primeiros filmes parecerem escoteiros. Enquanto Kersey está desembarcando na rodoviária, alguns dos punks invadem o apartamento de Charley e arrebentam o velhote. Quando o vigilante finalmente chega ao local, já encontra o amigão à beira da morte. E bem na hora, sempre atrasada, a polícia aparece e prende Kersey como suspeito do crime.


Quando o "suspeito" é levado para a delegacia, se identifica como Kimball (mesmo nome falso que usou para alugar um quarto de hotel na Parte 2) para que não descubram seu passado. Mas o inspetor Shriker (o eterno careca Ed Lauter) reconhece o vigilante que agiu na cidade 10 anos antes.

O tira joga Kersey numa cela repleta de marginais - onde ele toma e dá porrada -, somente para poder chantageá-lo: vai aliviar o lado do vigilante, com a condição que ele volte para o bairro onde seu amigo foi morto e ajude a fazer uma limpeza "por baixo dos panos" na bandidagem, pois a coisa está tão violenta naqueles lados que até a polícia tem medo dos marginais!


E não sem motivo: o tal bairro faz as favelas dos filmes "Cidade de Deus" e "Tropa de Elite" parecerem um lugar tranquilo para se viver. Punks armados fazem a maior algazarra dia e noite, agredindo velhinhos, invadindo apartamentos, estuprando mulheres e botando para correr qualquer policial que chegue perto dos limites do bairro - tem até uma cena hilária em que os marginais apedrejam uma viatura que tenta entrar no local e nenhum dos policiais faz nada em represália!

Ou seja, o lugar é uma verdadeira terra de ninguém, e eu não consigo entender porque Shriker não envia logo uma tropa de choque fortemente armada para dar um jeito na situação ao invés de um decrépito vigilante na terceira idade! Claro, em algum momento do filme o policial alega que nunca consegue provas para colocar os punks atrás das grades pelos meios "convencionais", mas isso é simplesmente ridículo, porque os vilões agem abertamente à luz do dia, e só o episódio do apedrejamento da viatura já poderia render um bom tempo na cadeia!

Porém, ineficaz como toda polícia cinematográfica, a de DESEJO DE MATAR 3 só entra no bairro para confiscar o revólver com o qual um dos pobres velhinhos pretendia se defender dos punks; os marginais podem continuar roubando e matando livremente!


O que importa é que Kersey se muda para o apartamento do amigo morto e atrai a simpatia de outros moradores do local, quase todos velhinhos à mercê da bandidagem - entre eles, um veterano da Segunda Guerra Mundial chamado Bennett, interpretado pelo ator de respeito (até fazer esse filme, claro) Martin Balsam.

Ao invés de partir direto para o ataque, o vigilante prefere provocar os bandidos com iscas. Por exemplo: ele aluga um carro somente para que alguns marginais quebrem os vidros para roubar o rádio do veículo. Aí Kersey aparece e desenrola-se um dos muitos diálogos hilariantes do filme:

Paul Kersey: Qual é o problema?
Punk 1: O quê?
Paul Kersey: Qual é o problema com o carro?
Punk 2: Estamos roubando o carro. Por quê?
Paul Kersey: Porque é o MEU carro!
BANG! BANG!



O vigilante também usa suas habilidades como arquiteto para construir armadilhas para proteger seu apartamento e o dos vizinhos, como uma tábua cheia de pregos colocada debaixo de uma janela por onde os invasores costumam entrar. Motivados pelas ações do herói, os moradores decentes do bairro (cerca de 3% das pessoas que lá vivem, pelo que parece) também começam a reagir à brutalidade dos bandidos.

O problema é que os punks têm um líder: um psicopata chamado Fraker (Gavan O'Herlihy, de "Superman 3"). Herói e vilão se conhecem na rápida passagem do vigilante pela cadeia nova-iorquina, e, antes de sair, Fraker anuncia: "Vou matar uma velhinha em sua homenagem". O cara é o estereótipo do vilão fodão, a verdadeira encarnação da maldade, e o inimigo mais cruel de todos os cinco filmes da série. Preocupado com as ações do vigilante e com a reação dos moradores, Fraker chama reforços de uma gangue de motoqueiros das redondezas e inicia uma guerra civil no bairro, que culmina no i-na-cre-di-tá-vel ato final de DESEJO DE MATAR 3!


Certo, você até engole Chuck Norris matando 63 vietcongues no meio da selva ou Schwarzenegger chacinando 96 mercenários numa ilha qualquer longe da civilização. Mas é impossível não rolar de rir quando Charles Bronson, um velhinho com 63 anos de idade, sai correndo pelas ruas do bairro em guerra exterminando moleques com tiros de metralhadora e pistola, como se estivesse de volta aos seus tempos da Guerra da Coréia - ou então num daqueles jogos de tiro dos fliperamas!

Nada pode preparar o espectador para o momento em que Kersey e Shriker (o comandante da polícia, lembra?) esquecem qualquer convenção, lei ou noção de civilidade e correm lado a lado disparando tiros nos marginais, como se estivessem em pleno Velho Oeste! Também é de chorar de rir a reação dos moradores do bairro durante a guerra civil, quando grupos de velhinhos, donas-de-casa e até crianças (!!!) saem às ruas com armas de fogo, baleando bandidos desarmados e caídos ao chão, e depois dando pulos de alegria pela carnificina!


Se o filme original buscava criar um debate sobre o vigilantismo e a segunda parte ainda censurava bem de leve as ações do personagem de Bronson, cada minuto de DESEJO DE MATAR 3 é uma ode à beleza da matança e da justiça pelas próprias mãos, uma apologia descarada da máxima "Bandido bom é bandido morto", buscando convencer o espectador de que a paz só é possível se todos os marginais forem implacavelmente exterminados.

Legítimo fascista da Era Reagan, o Kersey de DESEJO DE MATAR 3 chega a comparar os criminosos a baratas, dizendo algo como: "Temos que eliminar todas as baratas, senão não adianta nada!". Hoje, o filme poderia tanto ser usado como vídeo institucional obrigatório para as polícias de São Paulo e do Rio de Janeiro, quanto como filme de horror para organizações que defendem os direitos humanos (principalmente quando Shriker diz a Kersey: "Eu sou a Lei, e isso significa que posso violar seus direitos civis", antes de dar um murro na cara do velhinho algemado!!!).


Evidentemente que um filme com esse teor tinha tudo para provocar uma polêmica daquelas, mas DESEJO DE MATAR 3 jamais se leva a sério para tanto. É o completo oposto, por exemplo, do original: se naquele você pesava as ações do vigilante e ficava questionando se ele estava certo ou não em sua cruzada solitária contra o crime, aqui você obviamente se pega torcendo por Bronson e vibrando quando explode a Terceira Guerra Mundial no ato final!

A cena que melhor sintetiza a moral questionável do filme é aquela em que Kersey enfrenta um ladrão de bolsas chamado Giggler ("Risadinha", na tradução brasileira), interpretado por Kirk Taylor. Sabendo por uma experiência anterior que jamais conseguiria alcançar o meliante na corrida, pois ele é muito mais jovem e veloz, o herói prepara uma armadilha: sai à noite para comprar picolé levando uma câmera Nikon a tiracolo (!!!) e fingindo-se de bobo.


Giggler aproveita o deslize do velhote, rouba a câmera e sai correndo e rindo, como costuma fazer. E aí Kersey, julgando que o roubo de uma câmera fotográfica é suficiente para sentenciar o bandido com a pena de morte, simplesmente saca uma pistola para matar elefantes (!!!) e, sem sequer cogitar uma perseguição, dispara um tiro pelas costas do marginal, que abre um rombo do tamanho de uma bola de futebol no seu peito!

(Vale destacar que a pistola em si é a grande estrela de DESEJO DE MATAR 3 depois de Bronson: trata-se de uma Wildey calibre 475 Magnum, cujo disparo realmente pode matar elefantes! A arma leva o nome de seu criador, Wildey Moore, que até hoje garante que as vendas da pistola triplicam sempre que o filme é reprisado na TV!)


Se esta cena da execução do bandido com arma de matar elefantes já não fosse hilária por si só, de tão absurda e amoral (o pobre Giggler sequer usa um revólver ou mesmo canivete para ameaçar a integridade física do herói, ele apenas rouba sua câmera e sai correndo!), Kersey ainda se afasta deixando a câmera nas mãos do cadáver estatelado, porque o que ele queria era matar o ladrão e a isca usada já não tem mais qualquer importância.

Enquanto isso, os "cidadãos de bem" correm até a janela para aplaudir e vibrar pela execução covarde de Giggler. Uma velha dona-de-casa não se impressiona com o cadáver mutilado, mas sim comemora aos gritos: "É o marginal que roubou minha bolsa na semana passada! Está morto! Viva!!!". Já na cena seguinte, a reação dos punks à execução é ainda mais hilária. Cabisbaixos e revoltados, os vilões protestam: "Eles mataram o Giggler, cara! Eles não tinham esse direito!".

(A execução do "Risadinha" rendeu uma brincadeira muito criativa na internet: o curta "The Lonely Death of The Giggler", de Rodney Ascher, que você pode e DEVE ver clicando aqui)


Em seu livro "Bronson's Loose! - The Making of the 'Death Wish' Films", o pesquisador Paul Talbot explica o complicado processo de criação desta comédia involuntária chamada DESEJO DE MATAR 3. Em 1984, quando a Cannon anunciou a realização do terceiro filme, contratou o roteirista Don Jacoby ("Trovão Azul") para escrever a aventura. Mais conhecido pelo trabalho em filmes de ficção científica (escreveu "Projeto Filadélfia" e, depois, "Força Sinistra" e "Invasores de Marte" para a Cannon), Jacoby enganou os produtores apresentando basicamente uma refilmagem disfarçada de "Exterminador 2", outra aventura sobre justiça com as próprias mãos que Golan e Globus haviam produzido naquele mesmo ano. E ninguém percebeu!

Só que a história que transformava Kersey numa espécie de Rambo urbano contra uma gangue de punks não agradou ao astro Bronson, que ameaçou pular fora do projeto. Os produtores chamaram Gail Morgan Hickman para escrever um novo roteiro. Hickman era conhecido na época por ter emplacado seu roteiro de "Sem Medo da Morte" (1976), a terceira aventura de Dirty Harry, quanto tinha apenas 24 anos de idade. Ele escreveu três diferentes argumentos para DESEJO DE MATAR 3, cada um deles com sete a oito páginas, e apresentou as sugestões ao astro.


Mas eis que Bronson simplesmente resolveu voltar atrás e filmar o roteiro antigo de Jacoby sobre a guerra do vigilante contra os punks! Imagine, então, a qualidade dos novos argumentos escritos por Hickman. Aliás, nem precisa imaginar: basta assistir "Desejo de Matar 4", cujo roteiro é dele!

As filmagens aconteceram em Nova York e, em sua maioria, em Londres (!!!), onde saía mais barato. Com pouquíssimos diálogos e uma expressão de desgosto, está mais do que na cara que Bronson fez o filme de má vontade e sem nenhum empenho.

Para piorar, passava os dias reclamando da dificuldade para correr e do som dos tiros de festim das armas que disparava, que estaria machucando seus ouvidos. Coisas da idade: se no filme Bronson era um justiceiro incansável e indestrutível, na vida real não passava de um velhote ranzinza.


Por isso, chega a ser absurdo o fato de inventarem um interesse romântico para o personagem com idade suficiente para ser sua filha, e não sua namorada! A honra coube à bonitinha Deborah Raffin, que tinha 31 anos (metade da idade de Bronson!!!), e interpreta a defensora pública Kathryn Davis. A moça se apaixona pelo velhote da maneira mais improvável possível, e depois de duas rápidas conversas eles já estão na cama!

Como tudo que vem fácil vai fácil, Kathryn logo se transforma em vítima de Fraker e sua turma, pois, como se sabe, qualquer pessoa diretamente ligada a Paul Kersey acaba morrendo em pouquíssimo tempo, principalmente esposas e namoradas. (Tá, a personagem de Jill Ireland escapou viva no final de "Desejo de Matar 2", mas apenas porque acabou o romance com o vigilante. E ela morreu NA VIDA REAL!)


Tudo isso faz parte das muitas bobagens que o roteiro de Jacoby vai empilhando ao longo dos 92 minutos de DESEJO DE MATAR 3. Um outro momento fantástico acontece quando Bennett (o coroa interpretado por Martin Balsam, lembra?) aparece com duas metralhadoras de grosso calibre dos tempos da Guerra da Coréia. Acredite se quiser, mas o velhote simplesmente levou para casa duas metralhadoras e um montão de munição como lembrança da guerra, e ninguém deu pela falta das armas!!!

Finalmente, não posso deixar de citar a cena inacreditável que acontece depois que a vizinha latina de Kersey passa pela sessão coletiva de estupro tradicional da série (embora aqui menos explícita que de costume). Após a agressão, a moça é levada para o hospital. Kersey e o marido da vítima vão até lá e um médico explica, sem a menor sensibilidade, que a mulher morreu. "Mas como? Pelo telefone me disseram que ela tinha apenas um braço quebrado!", questiona o herói, e o médico responde: "O braço foi torcido com muita gravidade e coágulos de sangue chegaram ao seu coração". Mas não era mais fácil mostrar logo os bandidos matando a mulher do que inventar esta forçada reviravolta?


Talvez com vergonha de um roteiro tão cretino, o autor Jacoby pediu para esconder-se atrás do pseudônimo "Michael Edmonds". Segundo ele, foi porque o diretor Winner mudou tanto o seu roteiro na hora da filmagem que ele não reconhecia mais seu trabalho no resultado final do filme. Tá bom...

Consta que algumas cenas do roteiro original foram até suavizadas por Winner. O estupro acima citado, por exemplo, terminava violentamente: o roteiro pedia que Giggler quebrasse o braço da vítima on-screen, mas a cena sequer foi filmada. Outro momento mais forte que acabou sendo cortado acontecia quando Kersey estava na cadeia e testemunhava, segundo o roteiro de Jacoby, dois marginais estuprando um rapaz indefeso sobre um colchão imundo!


Só que os cortes não evitaram problemas para os produtores. Quando o filme foi enviado à famigerada Motion Picture Association of America (MPAA), o órgão norte-americano que regula a classificação etária dos lançamentos em cinema, os censores já estavam enfurecidos graças aos exageros perpetrados por Winner e cia. nas duas aventuras anteriores de Paul Kersey.

A MPAA queria classificar DESEJO DE MATAR 3 como "X" (mesma classificação dos filmes pornográficos, que significa proibido para menores de 18 anos), por causa do excesso de violência. Aí aconteceu um episódio divertido, narrado no livro "Bronson's Loose!": Winner foi discutir a questão com os censores, alegando que "Rambo 2 - A Missão", classificado com "R" (menores de 17 podem assistir acompanhados dos pais), tinha tantas mortes quanto no seu filme, ou mais. Para seu espanto, uma das diretoras da MPAA justificou que a maioria dos mortos em "Rambo 2" eram vietcongues, então não havia problema!


Além de Lauter e Balsam, dois outros atores conhecidos integram o elenco dessa presepada. A vítima do estupro desta vez é a inglesa Marina Sirtis, ironicamente interpretando uma personagem latina! Marina ficaria famosa a partir de 1987 como Deanna Troi no seriado "Jornada nas Estrelas: A Nova Geração", mas paga peitinho em DESEJO DE MATAR 3 e em quase todos os filmes que fez até então - entre eles, "A Perversa", do próprio Winner, e "Visão Fatal" (1984), do grego Nico Mastorakis.

O outro coadjuvante famoso é Alex Winter, aqui em seu segundo trabalho no cinema como o bandido Hermosa, que praticamente não tem falas. O rapaz também ficaria mais conhecido a partir de 1987, primeiro com "Os Garotos Perdidos", e depois fazendo dupla com um jovem Keanu Reeves como o Bill da série "Bill & Ted"!


Um dos poucos detalhes inspirados no roteiro de Don Jacoby é que fica claro, desde o início, que Paul Kersey abandonou seu trabalho de arquiteto para virar vigilante em tempo integral após "Desejo de Matar 2". Ele volta a Nova York armado como se fosse um xerifão do Velho Oeste, e Shriker informa o espectador de que o herói andou bastante ocupado depois dos acontecimentos mostrados na Parte 2, tendo matado marginais em outras cidades por onde passou.

Além disso, Kersey passa o filme inteiro encomendando armas poderosíssimas PELO CORREIO. Pistolas e até um lançador de foguetes anti-tanque (!!!) chegam confortavelmente e sem qualquer burocracia ou problema legal na caixa postal alugada pelo vigilante na agência de correio do bairro, sem que nunca se explique de onde elas vêm, de onde Kersey, um arquiteto que nem exerce a atividade, tira o dinheiro para pagar e, principalmente, COMO UMA BAZUCA PODE SER ENVIADA PELO CORREIO? Só podemos supor que o personagem conseguiu apoio "de cima" para continuar suas atividades como vigilante, mas o roteiro não se preocupa em elucidar nada neste sentido.


DESEJO DE MATAR 3 acabou sendo celebrado, desde a época do seu lançamento, como uma autêntica pérola trash, levando o público às gargalhadas nas salas de cinema. E foi ganhando um número de fãs cada vez maior com o passar dos anos. No livro "Bronson's Loose!", o diretor Winner disse que aprova o culto "tão ruim que é bom" que sua obra recebeu: "Eu acho um filme muito divertido, e muito melhor que o segundo".

Bronson, por outro lado, nunca gostou deste terceiro filme. Numa entrevista da época ao jornal Los Angeles Daily News, o astro disse taxou-o de "péssimo e ridículo, muito violento e sem necessidade de ser tão violento". Ele também brigou feio com Winner, acusando o diretor de ter filmado várias cenas sanguinolentas, que não existiam no roteiro, quando o ator não estava no set. Este episódio encerrou a longa parceria entre Bronson e Winner, que fizeram seis filmes juntos, mas nunca mais voltariam a trabalhar um com o outro - o que levou à substituição do cineasta inglês nas duas continuações seguintes da série.


E como lembra tanto um videogame pela sua estética "corra e atire", DESEJO DE MATAR 3 foi o único filme da série a virar, vejam só, um jogo de videogame! A empresa Gremlin Graphics transformou a violenta aventura de Kersey num jogo de 8-bits para os computadores ZX Spectrum e Commodore 64.

"Você é Bronson em 'Death Wish 3'...", dizia a publicidade do game (ao lado; clique para ampliar), e a dinâmica do jogo consistia em correr e atirar nos inimigos com uma variedade de armas.

Como não poderia deixar de ser, "Death Wish 3 - The Videogame" foi considerado um dos jogos mais sangrentos da época, pois o jogador podia matar civis inocentes (embora perdesse pontos sempre que fizesse isso, ao contrário dos jogos atuais tipo "GTA") e também usar a arma mais poderosa, o lançador de mísseis, para transformar os bandidos num montinho fumegante de pedacinhos vermelhos!

A verdade é que DESEJO DE MATAR 3 é aquele tipo de filme sobre o qual é inútil falar muito. A graça da coisa reside em assistir e reassistir o festival de bobagens, de violência explícita, de exageros e absurdos. De testemunhar um herói de 63 anos correndo e matando moleques, enquanto prédios e carros explodem ao seu redor.

DESEJO DE MATAR 3 é, em suma, a epítome do cinema divertido de tão ruim, e um tipo de filme que definitivamente não se faz mais. Nesses tempos de "Velozes e Furiosos" e "Os Mercenários" com sua câmera epilética, onde está a Cannon Films quando precisamos tanto dela para dar umas boas gargalhadas?



PS: Embora a trilha sonora deste terceiro filme seja creditada a Jimmy Page, o roqueiro inglês nunca compôs novas músicas. Tudo que os produtores fizeram foi reaproveitar e rearranjar algumas das canções compostas para a trilha de "Desejo de Matar 2", economizando assim uns belos trocados!


FICHA CRIMINAL:
* Pessoas ligadas a Kersey agredidas: namorada (morta), amigo (morto), vizinha (estuprada e morta), vizinho (espancado)
* Armas usadas pelo vigilante: pistola Wildey .475 Magnum, revólver Colt Cobra .38, metralhadora Browning M1919 .30, lançador de foguetes anti-tanque, armadilhas diversas
* Contagem de cadáveres: 83!!! (Kersey 49 x 16 Marginais x 18 Shriker/Rodriguez/Polícia/Outros moradores)

Trailer de DESEJO DE MATAR 3



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Death Wish 3 (1985, EUA)
Direção: Michael Winner
Elenco: Charles Bronson, Deborah Raffin, Ed Lauter, Martin
Balsam, Gavan O'Herlihy, Kirk Taylor, Alex Winter, Ricco Ross,
Marina Sirtis, Barbie Wilde e Sandy Grizzle.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

DESEJO DE MATAR 2 (1982)


Depois de estrear nos cinemas em 1974, "Desejo de Matar" demonstrou-se não apenas um filmaço e um sucesso de bilheteria, mas também um trabalho polêmico que provocou acaloradas discussões sobre vigilantismo e justiça pelas próprias mãos - inclusive ações individuais no "mundo real" de pessoas que se diziam influenciadas pelo que o personagem de Charles Bronson fazia no filme. Um dos que repudiaram a "mensagem" do filme de Michael Winner foi Brian Garfield, ironicamente o autor do livro "Death Wish", que deu origem a "Desejo de Matar"!

Garfield sempre disse que seu livro não era um libelo pró-vigilantismo, e que no final o personagem se tornava um assassino tão sanguinário quanto os bandidos que exterminava. Ao perceber que o público que ia aos cinemas ver "Desejo de Matar" estava APLAUDINDO as ações do vigilante, o autor resolveu escrever uma continuação de "Death Wish", chamada "Death Sentence". Este novo livro, publicado em 1975, traz uma reviravolta na carreira do vigilante Paul Benjamin: ele se muda de Nova York para Chicago, descobre que há um imitador matando bandidos e até inocentes pelas ruas e, chocado, resolve se aposentar e perseguir o outro vigilante. Ninguém deu muita bola para o livro. Paul Kersey, a adaptação cinematográfica de Paul Benjamin, era muito mais forte no imaginário popular.


E logo uma nova década se iniciava, e com ela aventuras cada vez mais violentas e exageradas estreavam nos cinemas. O espectador pedia por um novo tipo de justiceiro, ainda mais sanguinário e cruel que aquele apresentado anos antes em "Desejo de Matar". E, como Garfield previu no livro "Death Sentence", começava a era dos "imitadores" do vigilante, gente ainda mais violenta e sanguinária, como os anti-heróis mostrados nos filmes "O Exterminador" (1980) e "Ms. 45/Sedução e Vingança" (1981), entre outros. Será que o velho Kersey teria cacife para rivalizar com essa molecada?

Para diretor, produtor e astro do filme original, respectivamente Michael Winner, Dino De Laurentiis e Charles Bronson, Kersey estava morto e enterrado. Mas você não pode deixar um bom vigilante fora de combate. Neste caso, uma dupla de produtores israelenses pretendia contratar os serviços de Kersey para enfrentar os vigilantes concorrentes com mais estilo.


É claro que estamos falando dos primos Menahem Golan e Yoram Globus. Os famigerados israelenses tinham uma pequena produtora de filmes em seu país de origem nos anos 60, mas decidiram investir no mercado norte-americano a partir de 1979, abrindo a Cannon Group Inc., ou simplesmente Cannon Films, em Nova York. Era uma empresa para produção e distribuição de obras de baixo orçamento.

Depois de bancar sucessos classe B como o horror "Schizoid" e a comédia "Happy Hooker Vai a Hollywood" (ambos de 1980), Golan e Globus resolveram financiar sua primeira superprodução com um grande astro: DESEJO DE MATAR 2. O italiano De Laurentiis tinha os direitos sobre o personagem Paul Kersey, mas vendeu-os por US$ 150 mil para a Cannon. Safado que só ele, o italiano produziu ao mesmo tempo o seu próprio filme de vigilante, "Vingança Final".


Com os direitos obtidos, a Cannon Films correu atrás dos outros envolvidos no filme original. Inicialmente, Menahen Golan queria dirigir a sequência, mas Bronson, então com 61 anos de idade, disse que só faria o filme se o diretor Michael Winner também voltasse. Não duvido que o astro viu o trashíssimo "Ninja - A Máquina Assassina", que Golan dirigiu em 1981, e pensou consigo mesmo: "Não serei dirigido pelo cara que fez essa bomba!".

Winner, por sua vez, sempre jurou que jamais faria um DESEJO DE MATAR 2. Mas os anos depois do filme original foram de muito azar para o inglês: primeiro, ele recusou ofertas para dirigir "Tubarão" e "A Profecia"; depois, os projetos em que se envolveu tiveram pouca ou nenhuma repercussão (incluindo a comédia "Won Ton Ton: The Dog Who Saved Hollywood", um retumbante fracasso de bilheteria). O sujeito precisava desesperadamente de um sucesso, e por isso engoliu o orgulho e voltou para dirigir uma nova aventura de Paul Kersey, um produto que podia até não ser original, mas representava apelo popular garantido.


Com Winner e Bronson de volta às suas posições, parecia que nada podia dar errado. Infelizmente, DESEJO DE MATAR 2 jamais esconde o fato de ser o produto de uma época que exigia mais exagero e ação absurda e menos realismo. A continuação tem explosões, rajadas de metralhadora e muito mais correria e quebra-quebra - tudo que o original NÃO tinha -, enquanto o inteligente debate pró ou anti-vigilantismo fica em segundo, até terceiro plano.

O "mérito" é todo do roteiro de David Engelbach, reconhecido no meio trash como diretor/roteirista de um dos piores filmes de todos os tempos, "América 3000". Pois Engelbach modificou toda a essência do vigilante Kersey: se no filme de 1974 ele era um justiceiro quase psicopata que matava bandidos sem jamais encontrar os responsáveis pela tragédia na sua família (a morte da esposa e o estupro da filha), nesta sequência Kersey é representado como um sujeito mais centrado e com um plano de vingança bem específico.


Considerando o nível que a série tomaria a partir de então, e o nível das dezenas de imitações surgidas no rastro do sucesso do original, DESEJO DE MATAR 2 pelo menos tenta dar um mínimo de continuidade à trama do primeiro filme (seu maior trunfo, talvez o único), resgatando vários personagens do original: além do próprio Kersey, reaparecem sua filha Carol (agora interpretada por Robin Sherwood, de "Armadilha para Turistas") e o policial nova-iorquino Frank Ochoa (Vincent Gardenia), que perseguia o vigilante no original.

Rodado em 1981 e lançado em 82, oito anos após o primeiro filme, DESEJO DE MATAR 2 mostra o arquiteto Paul Kersey (Bronson) vivendo em Los Angeles alguns anos depois dos eventos do original (alguém fala em "dois anos"). Ele agora é um homem mudado, que aposentou sua vida de vigilante e tem um novo amor, a jornalista Geri Nichols (Jill Ireland, esposa de Bronson na vida real, e cuja participação no filme foi uma exigência do astro).


Sua filha Carol, que continua internada se recuperando do estupro sofrido no filme original, também parece estar melhorando e já começa a falar suas primeiras palavras. Nenhuma menção é feita ao marido dela no original, Jack (interpretado por Steven Keats), mas presume-se que o casal tenha se divorciado.

Certo dia, enquanto passeia no parque com Geri e Carol, o arquiteto tem um encontro nada agradável com uma quadrilha de punks formada por Nirvana (Thomas F. Duffy), Stomper (Kevyn Major Howard), Jiver (Stuart K. Robinson), Punkcut (E. Lamont Johnson) e Cutter (Laurence Fishburne, antes da fama!).


Os marginais roubam a carteira do arquiteto, ele persegue um deles e enche o sujeito de pancadas, mas sai de mãos vazias. Os criminosos então armam um plano de vingança contra o velhote esquentadinho. Graças à carteira de motorista de Kersey, eles descobrem seu endereço e partem para dar o troco.

Pai e filha estão fora na hora da invasão da casa, e o quinteto encontra por lá apenas a pobre empregada doméstica latina Rosario (Silvana Gallardo, esposa do mito Billy Drago!). Sem ter culpa de nada, a chicana enfrenta uma nauseante e longa sessão de estupro grupal, cena chocante que faz o ataque do filme original parecer produção da Disney.


Quando Kersey finalmente volta para casa com Carol, é cercado pelos marginais e tenta reagir, mas apanha e cai desacordado. Rosario é morta com golpes de pé-de-cabra na cabeça e os agressores fogem levando a filha, acreditando que Kersey está morto.

Chega a vez da garota sofrer um desagradável momento déja vu, sendo violentada pela segunda vez por marginais. A diferença é a conclusão: aproveitando um momento de distração dos agressores, Carol foge e salta por uma janela, mas infelizmente morre empalada numa cerca com pontas de ferro! Pense numa pessoa azarada: a pobre mocinha foi penetrada de duas maneiras diferentes, e nenhuma delas agradável...

(Por sinal, a cena do empalamento na cerca lembra as mortes de "A Profecia", filme de Richard Donner cuja direção foi originalmente oferecida a Winner, que recusou.)


Enquanto isso, Kersey acorda, descobre o cadáver da empregada, a polícia chega com notícias da filha, e ele resolve que não irá confiar no sistema judiciário. Uma vez mais, sairá às ruas armado para vingar-se dos bandidos que destruíram sua vida. Mas lembre-se, agora estamos nos anos 80 e não há tempo para enrolação: ao contrário de "Desejo de Matar", que levava muito tempo para mostrar o protagonista tornando-se justiceiro, aqui ele não tem muitas dúvidas ou conflitos internos, e após uma sequência fuleira de uns 40 segundos em que corta lenha trincando os dentes de raiva, já está de volta à ativa!

O plano do vigilante é hilário de tão simplório: ele compra algumas roupas velhas num brechó e instala-se num hotel de quinta categoria com nome falso, para enrolar Geri (que não conhece seu passado) e ganhar mais liberdade de circular à noite pelo bairro mais pobre de Los Angeles. Embora a cidade seja a segunda mais populosa dos Estados Unidos, com perto de 18 milhões de habitantes, o herói dá sorte e, após duas ou três noites zanzando por ali (sem nunca ser importunado por outros marginais), identifica facilmente os seus alvos - que, por conveniências de roteiro, estão sempre dando bobeira e chamando a atenção pelas ruas! Claro que Kersey sempre os reconhece de primeira assim que bate o olho neles, apesar de só tê-los visto uma vez na vida, e muito rapidamente.


Quando criminosos começam a aparecer repletos de pipocos pelas ruas de L.A., a notícia de que há um vigilante à solta acaba chegando à prefeitura de Nova York, que agora tem um pepino nas mãos. Afinal, se Kersey for preso, ele pode contar que foi "convidado a se retirar" da cidade anos atrás ao invés de julgado pelos seus crimes.

Por isso, o detetive Ochoa, o mesmo que "resolveu a situação" em Nova York no final do primeiro filme, é enviado a Los Angeles para tentar consertar as coisas pela segunda vez. E logo a nova namorada de Kersey também começará a suspeitar da vida dupla do arquiteto.


Pode até não parecer à primeira vista para quem não assistiu os filmes, mas DESEJO DE MATAR 2 é radicalmente diferente do original. Enquanto em "Desejo de Matar" Kersey jamais conseguia agarrar os agressores de sua esposa e sua filha, mas exterminava criminosos em geral pelas ruas de Nova York apenas pela sensação de conforto que isso lhe dava (não muito diferente de um psicopata sanguinário), nesta segunda aventura o vigilante já é alçado ao papel de herói com alvo definido (os bandidos que mataram sua filha) e "código de honra".

O roteirista Engelbach não deve ter entendido muito bem o filme de 1974, pois aqui o vigilante não parece se importar com os outros criminosos que circulam ao seu redor e que não fazem parte do seu plano de vingança. Isso fica bem evidente na cena em que o herói encontra seu primeiro alvo numa reunião com um grupo de traficantes, mas pede que os demais bandidos abandonem o recinto e continuem a traficar e matar longe dali, ao invés de passar fogo em todos. Kersey até mata uns marginais aleatórios, amigos dos seus alvos, quando eles sacam as armas primeiro, mas no geral alivia o lado da bandidagem.


Seguindo os "novos tempos", DESEJO DE MATAR 2 também é estupidamente mais violento e sangrento que o primeiro, a começar pelas cenas detalhadas de estupro e a própria duração estendida da agressão contra as mulheres. Além disso, os buracos de bala são extremamente gráficos.

Infelizmente, o roteiro se rende a soluções muito estúpidas e inverossímeis, e não apenas na forma facinha como o herói encontra seus desafetos: Kersey também consegue, sem nenhum problema, uma aparelhagem de rádio para poder acompanhar a frequência dos carros da polícia, e, no cúmulo do absurdo, disfarça-se de médico para invadir o hospital onde um de seus alvos está internado, e ninguém desconfia de nada. Perto do clima mais realista do original, essas forçadas de barra da continuação são constrangedoras.


E se o espectador vibrava e aplaudia com as ações do vigilante no primeiro filme, é claro que mais uma vez será levado a torcer por Paul Kersey em DESEJO DE MATAR 2. Até porque o personagem agora é representado como uma pessoa bem mais simpática e menos sanguinária do que no original, até por estar vivendo um novo caso amoroso.

O arquiteto não tem mais problemas com alcoolismo, está sempre sorrindo e dispara até umas piadinhas infames quando mata seus desafetos. O momento mais antológico caontece quando ele encontra um dos marginais com um crucifixo no pescoço:
- Você acredita em Jesus?
- Sim.
- Então vai encontrar-se com ele.
BANG!



O roteiro tosco de Engelbach também não abre muito espaço para questionamentos sobre a justiça pelas próprias mãos, como fazia o original. O máximo que consegue é nos créditos iniciais, reproduzindo diferentes comentários de rádio e TV sobre o aumento da violência nas ruas de Los Angeles, e na cena em que Geri entrevista um político contrário à pena de morte, e ele questiona: "Qual a utilidade de matarmos o acusado de matar alguém para tentar provar que matar é errado?".

O problema é que, depois desta inteligente constatação, Kersey continua livre e matando sem dó nem piedade. O filme nem sequer questiona suas ações (pelo contrário, as glorifica), e assim a frase anti-pena de morte mais parece uma ironia jogada ao léupor um político almofadinha que não conhece a "realidade das ruas". Até porque a mensagem incentivando a justiça pelas próprias mãos aqui é muito mais forte e direta do que no primeiro filme.


Mesmo assim, DESEJO DE MATAR 2 é o último filme da série a tentar seguir uma proposta um pouquinho mais realista. A partir da terceira parte, as continuações transformariam o personagem de Paul Kersey num justiceiro invencível que usa metralhadoras e até lançadores de mísseis para matar dezenas de criminosos, como se fosse uma versão envelhecida de Stallone ou Chuck Norris!

Muita gente inclusive prefere pensar que a saga do vigilante termina aqui, e que os filmes seguintes são aventuras que se passam num "universo alternativo".


Um destaque de DESEJO DE MATAR 2 é a fantástica trilha sonora de Jimmy "Led Zeppelin" Page. Originalmente, a Cannon queria contratar Isaac Hayes para fazer uma trilha com uma pegada estilo "Shaft", mas Winner recusou e convidou seu vizinho de mansão em Londres, Page, para compor algo mais radical.

Injustamente, o músico foi indicado para o Framboesa de Ouro (o prêmio para os piores do cinema) de Pior Trilha Sonora em 1983! O troféu ficou com "Romance Pirata", e uma prova de que os responsáveis pelo Framboesa estavam loucos (ou ruins de ouvido) naquele ano é o fato de que a trilha de Ennio Morricone para "O Enigma do Outro Mundo" também concorria entre as piores!


Apesar de mudar (para pior) a fórmula do original, DESEJO DE MATAR 2 repetiu o sucesso: teria custado US$ 8 milhões segundo a Cannon Films (mas há quem diga que o total foi de 3 milhões, sendo que 1,5 milhão foi só para o salário do ator principal), e faturou mais de 45 milhões de verdinhas pelo mundo, até porque já se vivia a febre do videocassete, e o nome de Charles Bronson sempre foi muito popular nas videolocadoras.

Repetiu, também, a malhação pelos críticos e jornalistas, que acharam ainda mais pérfida a forma como Winner faz com que o público torça pelo vigilante ao colocá-lo matando os responsáveis diretos pela sua tragédia, e ao representar essa tragédia em detalhes absurdamente gráficos para que nenhum espectador deixe de torcer pela morte dos vilões.


O popular crítico Roger Ebert fez uma crítica "especial" do filme, avaliando-o sem dar nenhuma estrelinha. Geralmente, a cotação mais baixa que ele usava era de meia estrelinha, mas Ebert justificou: "Nenhuma estrela é a distinção que reservo apenas aos filmes mais ineptos artisticamente e mais moralmente repugnantes". Ouch!

E não ficou só na mídia impressa: num programa de entrevistas da TV inglesa, o diretor Winner quase foi crucificado diante das câmeras pelos jornalistas Derek Hobson e Ann Raeburn, ela própria uma vítima confessa de estupro. Vale a pena ver a "entrevista" (ou seria tribunal da inquisição?) no vídeo abaixo, que termina com Ann desejando que Winner seja sodomizado!

"Espero que você seja sodomizado em breve!"



Particularmente, eu também sempre achei a cena de estupro de DESEJO DE MATAR 2 mais chocante (e longa) do que seria necessário para justificar a fúria do protagonista (e do espectador), e a ênfase no sofrimento das mulheres violentadas acaba sendo um tiro no pé dado pelo diretor. Porque quando Bronson sai à caça dos responsáveis, todos eles são mortos muito rapidamente (confortavelmente até, se preferirem), sem sofrer nem 1% do que suas vítimas sofreram.

Neste aspecto, Kersey bem que podia ter aprendido uma ou duas coisinhas com Salu, o personagem interpretado por Tony Vieira no filme brasileiro "Tortura Cruel - Fêmeas Violentadas" (1980), que é uma versão tupiniquim de "Desejo de Matar". Pois enquanto o vigilante gringo dá um alívio às suas vítimas matando-as rapidamente com tiros certeiros, Salu castiga os estupradores das suas irmãs fazendo-os sofrer o crime na própria pele, e literalmente - um deles é até sodomizado por Satã, aquele gigante que foi guarda-costas do Zé do Caixão.

Olho por olho, dente por dente, fiofó por fiofó...


PS 1: "Death Sentence", a continuação oficial do livro "Death Wish" escrita por Brian Garfield, virou um filme bem meia-boca em 2007, "Sentença de Morte", dirigido por James Wan e estrelado por Kevin Bacon. Ironicamente, a trama do livro foi toda descartada em prol de um remake disfarçado de "Desejo de Matar"!

PS 2: "Vingança Final" ("Fighting Back" no original), o filme sobre vigilantismo que Dino de Laurentiis produziu para rivalizar com DESEJO DE MATAR 2, é muito melhor que a continuação das aventuras de Paul Kersey, com direção segura de Lewis Teague e uma ótima interpretação de Tom Skerritt (que parece uma versão mais jovem de Charles Bronson). Infelizmente, o filme até hoje não foi relançado em DVD.


FICHA CRIMINAL:
* Pessoas ligadas a Kersey agredidas: filha e empregada (ambas estupradas e mortas)
* Armas usadas pelo vigilante: pistola Beretta 85 .380, pistola M1911A1
* Contagem de cadáveres: 16 (Kersey 10 x 6 Marginais)

Trailer de DESEJO DE MATAR 2



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Death Wish 2 (1982, EUA)
Direção: Michael Winner
Elenco: Charles Bronson, Jill Ireland, Vincent Gardenia, Ben Frank,
Anthony Franciosa, Robin Sherwood, Silvana Gallardo, J.D. Cannon,
Laurence Fishburne e Charles Cyphers.