WebsiteVoice

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

DESEJO DE MATAR (1974)


Eu devo ser muito sortudo ou muito prevenido, mas em trinta e poucos anos de vida só fui assaltado uma única vez. E nem foi em São Paulo, onde vivo desde 2009, mas, acreditem ou não, na minha pacata cidadezinha natal de 25 mil habitantes lá no Rio Grande do Sul! Eu voltava para casa por uma rua deserta, lá pelas oito da noite, quando quatro adolescentes me cercaram e atacaram à traição, com socos e um "mata-leão" para não poder reagir. Tudo isso para roubar minha carteira com míseros 20 reais e todos os documentos. Eram quatro jovens fumadores de crack bastante conhecidos na cidade, envolvidos em vários crimes semelhantes, então fui dar queixa na delegacia e na mesma noite estavam todos presos. Como dois deles tinham menos de 18 anos, ambos cumpriram aquela pena ridícula no abrigo para menores infratores e logo estavam de volta às ruas.

A verdade é que, naquela noite, eles não me roubaram apenas 20 reais, mas também a sensação de falsa segurança que eu tinha até então. E isso, amigos, não é algo que você consegue de volta. Eu sabia que tinha passado barato (podiam ter me batido muito mais, ou roubado muito mais), mas mesmo assim, durante dias, me senti humilhado e injustiçado. Porque aqueles moleques que me agrediram e me roubaram já estavam em liberdade. Porque quando eu tinha a mesma idade que eles, já trabalhava. E apesar de ser um cara pacato e que odeia a violência fora da ficção, foi inevitável: durante pelo menos uma semana, eu quis arduamente que aqueles quatro marginais morressem. Não só por mim, mas também para evitar que outras pessoas passassem pela mesma experiência ou por algo pior, já que os rapazes estavam livres para continuar cometendo delitos e dificilmente seriam detidos pela "justiça". E se eu tivesse um revólver na mão, provavelmente teria feito o serviço por conta própria!


Não quero aqui fazer apologia à pena de morte (a qual não defendo) nem à justiça pelas próprias mãos (a qual defendo menos ainda). Esta introdução foi apenas para tentar explicar como a vítima de crimes passa do medo ao sentimento de vingança muito rápido. E nem precisa já ter sido assaltado ou agredido - quem nunca leu/viu a notícia sobre um crime escabroso e pensou consigo mesmo: "Tem que matar quem faz uma coisa dessas!"? É por isso que tanta gente se identifica até hoje com o personagem de Charles Bronson em DESEJO DE MATAR, uma pequena obra-prima do cinema policial dos anos 70, e também uma produção polêmica que deu muito o que falar na época, e permanece gerando discussão hoje.

Tudo começou com um escritor que viveu um momento de fúria bem parecido com o meu quando fui assaltado. Numa madrugada de 1971, ao deixar uma festa em Nova York, Brian Garfield descobriu que o teto do seu conversível tinha sido aberto à faca por ladrões que roubaram o rádio do veículo. Numa entrevista, Garfield relatou: "Eu sabia que eles não tinham feito nenhum dano irremediável, mas minha primeira impressão diante do ato foi que os meus limites haviam sido violados, minha propriedade invadida. 'Eles não têm esse direito, eu vou matar esses filhos da puta!'. Foi um incidente trivial, mas ficou na memória por causa daquele momento em que regredi a um comportamento primitivo. Aí eu pensei: e se alguém realmente fizesse isso - matasse os filhos da puta? Foi pensando nisso que escrevi 'Death Wish'".


O livro "Death Wish" chegou às livrarias norte-americanas em 1972. Contava a história de Paul Benjamin, um contador obeso cuja esposa e filha são atacadas por assaltantes. A esposa morre vitimada pelas agressões, e a filha, estuprada durante o assalto, fica em estado catatônico, traumatizada pela violência sofrida. Sem encontrar conforto na polícia ou na justiça, Benjamin resolve fazer justiça com as próprias mãos: armado com um revólver calibre 32, o outrora pacato contador varre as ruas de bandidos, traficantes e gangues de adolescentes. Como resultado, as taxas criminais caem e o vigilante vira herói para a população e para a própria polícia. No final aberto do livro, Paul Benjamin continuava à solta, porém cada vez mais fora de controle e sanguinário, tanto quanto os marginais que combatia.

A obra não fez grande sucesso, mas chamou a atenção de dois pequenos produtores de cinema, Hal Landers e Bobby Roberts, que compraram os direitos de adaptação no mesmo ano de 1972. O filme, entretanto, sairia apenas dois anos depois, em 1974, transformando-se imediatamente num sucesso de bilheteria.


Quando DESEJO DE MATAR chegou aos cinemas, o tema da justiça pelas próprias mãos não era mais tão novo, tendo aparecido inúmeras vezes principalmente em filmes de faroeste e horror. Dois exemplos clássicos são "Sob o Domínio do Medo" (1971), de Sam Peckinpah, e o sangrento "Last House on the Left" (1972), de Wes Craven, o primeiro sobre um pacato matemático que se vinga dos abusos sofridos pelos valentões de uma cidade, e o segundo sobre um casal de meia-idade dando o troco nos bandidos que estupraram e mataram sua filha adolescente.

A diferença de DESEJO DE MATAR para várias histórias semelhantes contadas até então é que é mais fácil identificar-se com o personagem de Bronson. Ele interpreta Paul Kersey (não Benjamin, como no livro, porque havia um ator muito popular chamado justamente Paul Benjamin naquela época), um pacato arquiteto de Nova York que dá o troco na marginália depois do violento ataque à sua família. Mas ele não sai em busca de vingança contra os homens diretamente responsáveis pelo crime; pelo contrário, Kersey nunca os encontra. Furioso com o fato de os cidadãos honestos serem prisioneiros numa sociedade dominada pelos marginais, o outrora pacato arquiteto torna-se um justiceiro que passa fogo em todo e qualquer bandido que encontre pela frente, punindo o crime em geral.


O filme começa com Kersey passando férias com a esposa, Joanna (Hope Lange), no Havaí. O clima paradisíaco e pacífico do litoral é repentimente quebrado quando os personagens voltam para a deprimente Nova York da época, representada como uma verdadeira selva de pedra dominada pelo crime. Tanto que, na volta ao emprego, Kersey recebe de um colega as "estatísticas" do dia em matéria de roubos e homicídios. "Como é voltar do paraíso para o campo de batalha?", pergunta o colega de trabalho. Mas Kersey é um cara humanitário, acredita na polícia e defende os menos favorecidos. Isso até se tornar ele próprio uma vítima do caos.

Certo dia, um trio de jovens marginais invade a casa do arquiteto, num condomínio residencial de bom nível. Além de espancar violentamente a esposa de Kersey, ainda estupram sua filha, Carol (Kathleen Tolan), numa cena brutal e realista que provocou escândalo na época de lançamento do filme.


Kersey está no trabalho e recebe um telefonema do genro, Jack Toby (Steven Keats, de "Fúria Silenciosa", que cometeu suicídio em 1994), avisando sobre a agressão. Ao chegar no hospital, descobre que a esposa morreu em consequência das agressões e que a filha ficou em estado catatônico, incapaz de superar o trauma do estupro. Ela é internada num manicômio, fazendo com que a vida perfeita de Kersey desmorone subitamente.

Mas não é neste momento que o protagonista se transforma num vingador sanguinário. Muito pelo contrário: numa abordagem bastante realista da trama, ele continua agindo como uma pessoa normal que acredita nos meios "oficiais", procurando a polícia para saber detalhes sobre a caçada aos criminosos, chorando muito ao lembrar da esposa (principalmente ao receber, pelo correio, as fotos reveladas da viagem ao Havaí) e tentando encontrar um meio de reconstruir sua vida.


Não demora para o arquiteto perceber que é inútil esperar pela polícia. Afinal, o próprio detetive que investiga o caso diz que é muito difícil que os bandidos sejam localizados. Para fugir da sensação de impotência, Kersey aceita uma viagem de trabalho ao Arizona, para supervisionar um projeto habitacional.

É na cidade de Tucson, que nasce o lado vingador do protagonista. Ele descobre que ali todos andam armados e as taxas de criminalidade são mínimas. Também visita uma típica cidade do Velho Oeste e assiste a uma encenação em que um xerife dá cabo de vários bandidos. Finalmente, é levado a um clube de tiro, onde pega numa arma pela primeira vez depois da Guerra da Coréia (em que serviu como pacifista e opositor ao conflito). Antes de voltar para casa, Kersey ganha um revólver calibre 32 do seu cliente do Arizona, e é quando ele se sente um verdadeiro "xerife" disposto a fazer justiça pela lei do revólver.


A partir de então, começa a andar sozinho - e armado - pelas ruas de Nova York, à noite, dando mole para a bandidagem. Quando é abordado por um assaltante, reage dando-lhe um tiro certeiro na barriga. Kersey foge assustado, volta para casa e, chocado com o próprio ato, vomita de asco. Depois daquilo, Paul Kersey nunca mais será o mesmo.

O protagonista se sente cada vez melhor ao matar marginais aleatoriamente pelas ruas da cidade. E o roteiro deixa isso bem claro quando, após algumas saídas noturnas e algumas sessões de tiro ao alvo em delinquentes, Kersey volta a ser um homem feliz e confiante, como se somente o sangue dos criminosos pudesse trazer a paz a alguém que sofreu uma perda como a dele.


Em pouco tempo, o "vigilante", como é batizado pela imprensa, se transforma num exemplo para os nova-iorquinos, que esperavam por alguma solução para a alta criminalidade da cidade. O ato solitário de Kersey faz com que os cidadãos também reajam e façam justiça com as próprias mãos.

Mas as ações do vigilante acabam se transformando numa ameaça política. O prefeito da cidade descobre que a criminalidade baixou em quase 50% desde que o arquiteto iniciou sua guerra contra o crime. Como não pode incentivar a justiça individual, e nem criar um mártir com a prisão do vigilante, ele exige que o detetive Frank Ochoa (Vincent Gardenia) identifique o justiceiro e "expulse-o da cidade".


DESEJO DE MATAR é um filmaço do começo ao fim, com uma narrativa lenta que se preocupa em não criar soluções bobas ou fáceis. Não é um filme de ação, como as quatro continuações que teve anos depois, nem tem grandes tiroteios, explosões ou correrias. Pelo contrário, o lado vingador e justiceiro de Paul Kersey só aflora depois dos primeiros 45 minutos de projeção, quando ele atira em seu primeiro criminoso. Até então, a transformação de um ser humano civilizado e humanista num assassino a sangue frio é lenta e gradual, com destaque para um momento hilário em que Kersey enche uma meia com moedas para agredir marginais desarmados na rua!

É interessante notar que Paul Kersey, neste filme, não é exatamente um herói, mas sim um anti-herói. Ele atira em criminosos armados apenas com canivetes ou atinge-os pelas costas quando tentam escapar. Além disso, o próprio Kersey provoca a bandidagem ao zanzar por lugares inseguros à noite, praticamente atraindo suas vítimas para a morte, numa execução premeditada que torna seu vigilante menos heróico e mais sanguinário.


Obviamente, ninguém deixará de torcer pelo personagem, ainda mais depois de testemunhar a brutal cena de violência contra sua família, e principalmente nesses tempos atuais em que a bandidagem impera - o espectador aplaude Paul Kersey como recentemente também aplaudiu o Capitão Nascimento de "Tropa de Elite".

Mas DESEJO DE MATAR nunca glorifica as ações do vigilante. Revendo-o recentemente, não pude deixar de perceber que Paul Kersey é representado praticamente como um psicopata, um homem comum que perdeu a razão na viagem ao Arizona e imaginou estar vivendo dentro de uma história do Velho Oeste, onde, como xerife, pode fazer justiça com seu revólver e defender a cidade dos malfeitores.


Em pelo menos dois momentos do filme ele demonstra estar vivendo numa fantasia de faroeste: quando pede para um marginal "sacar a arma", como num duelo para ver quem é o pistoleiro mais rápido, e quando é convidado pelo detetive Ochoa a deixar a cidade, e responde com um "Ao pôr-do-sol?", lembrando os velhos filmes de bangue-bangue.

Em pelo menos dois momentos, também, o roteiro questiona o conceito de "civilizado": quando Kersey sugere à esposa que transem na praia, durante a viagem ao Havaí, ela responde que não porque eles são civilizados; quando ele pergunta ao genro que nome dar às pessoas que, "diante de uma situação ameaçadora, não fazem nada e simplesmente correm e se escondem", o rapaz responde da mesma forma: "Civilizado?". Seria Kersey um selvagem ou os "civilizados" é que estão errados?


Além disso, repare que o "desejo de matar" do protagonista logo se transforma numa verdadeira sede de sangue, pois mesmo sendo vigiado pela polícia, Kersey dá um jeito de sair escondido do seu apartamento para matar mais bandidos pelas ruas - como se a execução dos marginais fosse uma droga em que o outrora pacato arquiteto está viciado!

Finalmente, a conclusão irônica deixa bem claro que as ações do vigilante não vão parar tão cedo: apesar de "convidado" a se retirar de Nova York, Kersey continuará matando bandidos numa nova cidade, atitude representada pela fantástica cena em que o protagonista aponta os dedos, formando um revólver imaginário, para um grupo de desordeiros. São pequenas pérolas de um filme que eu, particularmente, considero genial.


O elenco de DESEJO DE MATAR está repleto de atores que ficariam mais conhecidos nos anos seguintes, como o ator, diretor, roteirista e músico Christopher Guest, aqui em sua terceira aparição no cinema como o policial que encontra o vigilante ferido no final; Olympia Dukakis (Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante por "O Feitiço da Lua" em 1988) como outra policial, e o diretor e roteirista John Herzfeld (que dirigiu, entre outros, "15 Minutos", com Robert DeNiro), como um dos bandidos mortos por Kersey no metrô.

Mas o mais impressionante é constatar que dois astros da atualidade fizeram sua estreia no cinema, ainda muito jovens, interpretando bandidos no fime. Um deles é Jeff Goldblum (à esquerda na primeira foto abaixo), que tinha apenas 22 anos e aparece mostrando a bunda como um dos criminosos que ataca a família de Kersey.

O outro, que não ganhou crédito pela participação, é ninguém menos que Denzel Washington (!!!), à época um moleque de 19 anos. Ele surge em cena apenas por alguns segundos, vestindo uma jaqueta preta e acompanhado de outros dois marginais (à direita na segunda foto abaixo). Ao contrário de Goldblum, que escapa ileso, Washington logo toma um pipoco de Kersey. Bela maneira de estrear no cinema: sendo morto por Charles Bronson!


No livro "Bronson's Loose! - The Making of the 'Death Wish' Films", o pesquisador Paul Talbot conta a complicada trajetória para transformar DESEJO DE MATAR em filme. Depois de comprar os direitos sobre o livro de Brian Garfield em 1972, os produtores Landers e Roberts contrataram o roteirista Wendell Mayes (do filme-catástrofe "O Destino do Poseidon") para escrever a adaptação, que seguia fielmente a trama do livro. O roteiro ficou pronto no mesmo ano e os produtores tentaram oferecê-lo a todos os grandes estúdios, mas a maioria recusou com medo da trama polêmica.

A United Artists foi a única a interessar-se pela ideia. Num primeiro projeto, o filme seria dirigido por Sidney Lumet, que queria fazê-lo em preto-e-branco e com Jack Lemmon no papel principal. Mas o diretor logo abandonou o barco para fazer "Serpico" (1973), e a United Artists também pulou fora. Assim, o roteiro de DESEJO DE MATAR acabou nas mãos do produtor italiano Dino De Laurentiis e do diretor inglês Michael Winner.


A dificuldade, então, passou a ser encontrar um astro para o filme. Henry Fonda, um dos primeiros nomes cogitados para o papel, recusou após ler o roteiro e taxá-lo de "repulsivo". Steve McQueen, Frank Sinatra e até Clint Eastwood também teriam recusado o papel. Winner resolveu chamar Charles Bronson, com quem já tinha feito três filmes, incluindo o ótimo "Assassino a Preço Fixo" (1972).

À época, Bronson tinha sido nomeado, pela Hollywood Foreign Press Association, o "astro número 1 do cinema mundial", pois fazia o maior sucesso na Europa, em filmes como "O Passageiro da Chuva" e "Sol Vermelho". Mas o sucesso não se repetia nos EUA, onde as obras que estrelava eram exibidas sem grande alarde, ou nem chegavam aos cinemas.


O livro de Talbot conta uma história divertida sobre o momento em que o astro foi convidado a fazer DESEJO DE MATAR. Depois de ler o roteiro, Bronson teria dito a Winner: "Eu gostaria de fazer isso". O diretor perguntou: "O quê, o filme?". E o ator emendou: "Não, atirar em marginais!".

Mas, na verdade, Bronson tinha medo de estrelar DESEJO DE MATAR, pois seu agente, Paul Kohner, argumentava que o filme tratava de uma tema muito perigoso. "Ele [Kohner] me advertiu de que o filme poderia levar as pessoas a pensar que era correto fazer justiça pelas próprias mãos. Mas, para mim, era o mesmo tema de muitos dos meus outros filmes: que a violência não faz sentido porque apenas traz mais violência. Eu não queria fazer porque achava que o papel cairia melhor para alguém como Dustin Hoffman. Mas o diretor Michael Winner insistiu para que eu fizesse o personagem", disse o astro, numa entrevista de 1974.


Quando Bronson finalmente aceitou estrelar DESEJO DE MATAR, Winner chamou seu colaborador de longa data Gerald Wilson para fazer algumas mudanças não-creditadas no velho roteiro de Mayes; afinal, era preciso "encaixar" o astro, à época com 52 anos de idade, no papel principal. Entre outras alterações, o personagem deixou de ser contador para virar arquiteto, e o excesso de violência, quem diria, foi atenuado - no roteiro original, o vigilante sempre atirava na cabeça das vítimas para certificar-se de suas mortes!

Nem o roteiro de Mayes, nem o livro de Garfield descreviam o ataque à esposa e à filha do protagonista. Mas Winner optou por mostrar a violência e a humilhação sofridas pelas mulheres por temer que, caso contrário, o espectador repudiasse o "desejo de matar" de Bronson: "Achei que era preciso motivar o público a odiar essas pessoas [os bandidos], a querer que morressem. Era preciso mostrar o ataque para que o espectador simpatizasse com Bronson quando ele começa a sair para as ruas para matar bandidos".


Outra mudança gigantesca foi na conclusão: na primeira versão do roteiro, o vigilante enfrentava os mesmos bandidos que atacaram sua família no começo do filme, mas acabava sendo morto por um deles. O detetive Ochoa encontrava o cadáver do vigilante e se apossava da arma usada por Kersey, considerando usá-la ele mesmo para continuar o trabalho do anti-herói!

Winner e Wilson resolveram deixar o vigilante vivo no final, mas a icônica cena em que Kersey aponta seu "revólver" feito com os dedos para os arruaceiros foi improvisada na hora das filmagens, provocando polêmica até no set de filmagens: o produtor De Laurentiis e o próprio Bronson achavam aquilo muito amoral, pois demonstrava que Kersey gostava de matar e continuaria fazendo vítimas. A cena acabou sendo filmada praticamente à força, quando o ator desistiu de discutir com Winner e fez a famosa "pistola de dedos" para a câmera.


Ainda segundo o livro "Bronson's Loose!", De Laurentiis cogitou mudar o título "Death Wish" para "The Sidewalk Vigilante" poucos meses antes do lançamento nos cinemas, mas resolveu manter DESEJO DE MATAR na expectativa de que atraísse também os fãs de horror! O filme estreou em Nova York em 24 de julho de 1974, com sala lotada.

A possibilidade de que o público pudesse condenar as ações do vigilante caiu por terra logo na primeira cena em que Bronson mata um assaltante: os espectadores simplesmente levantaram das cadeiras e começaram a aplaudir de pé, conforme lembrou o produtor Roberts em entrevista ao livro de Paul Talbot.

Logo, as reações pró-vigilante do público começaram a assustar os envolvidos no projeto. Depois de uma semana de exibição, e passando em apenas dois cinemas, DESEJO DE MATAR atraiu mais de 40.000 espectadores. Estes viam na tela uma resposta para a violência urbana que não encontravam no trabalho da polícia no "mundo real". Brian Garfield, autor do livro que deu origem ao filme, lembrou assustado que, na sessão de cinema em que estava, as pessoas vibravam e aplaudiam quando Bronson começava a matar bandidos, e o homem ao seu lado chegou a gritar: "Isso, mate esse filho da puta!", salivando de excitação pela execução sumária dos marginais.


A polêmica estendeu-se aos jornais e revistas, onde críticos de cinema destilavam seu horror pelo filme e pela apologia da justiça pelas próprias mãos. No jornal The New York Times, o crítico Vincent Canby iniciou uma cruzada pessoal anti-DESEJO DE MATAR, taxando-o de irresponsável: "Sua mensagem é simples: Mate. Tente. Você vai gostar", escreveu Canby em reportagem da época.

Em poucas semanas, DESEJO DE MATAR era o assunto mais comentado nos Estados Unidos. Os jornalistas começaram a questionar espectadores e os próprios realizadores do filme sobre o tema. Ao mesmo The New York Times, De Laurenttis tentou tirar o corpo fora: "Não vejo o filme como um convite para que as pessoas saiam às ruas com armas, mas sim como um pedido para que as autoridades resolvam o problema da violência urbana, e rápido". Bronson, mais polêmico, disse que acreditava na lei, mas que buscaria vingança contra alguém que atacasse sua família. Já o rival de Kersey no filme, Vincent Gardenia, foi incisivo: "Eu não aprovo o vigilantismo, mas também não aprovo que os marginais levem a melhor".


De todo modo, o monstro já havia escapado do controle: a modesta produção de US$ 3 milhões rendeu mais de 22 milhões de dólares só nos cinemas norte-americanos. Tornou-se o primeiro blockbuster de Charles Bronson nos Estados Unidos. O sucesso foi tão grande que distribuidores correram atrás de antigos filmes que Bronson fez na Europa e que não tinham sido exibidos nos Estados Unidos ainda, como o italiano "Città Violenta" e o francês "Cold Sweat" (ambos de 1970), para finalmente colocá-los em cartaz em sessão dupla com DESEJO DE MATAR.

Já a United Artists, provavelmente arrependida por ter deixado passar a galinha dos ovos de ouro, relançou nos cinemas o velho filme "Assassino a Preço Fixo" com um novo título, "King of Killers" (Rei dos Assassinos), e uma nova campanha de marketing que tentava transformar o assassino profissional vivido por Bronson em vigilante!


Ironicamente, se antes ninguém queria filmar DESEJO DE MATAR, após o sucesso de bilheteria todo mundo queria produzir seu próprio filme de vigilante. Entre as várias imitações surgidas estão "O Vingador Anônimo" (1974), de Enzo G. Castellari; "Ato de Vingança" (1974), de Bob Kelljan; "Vingador Implacável" (1975), de Edward Dmytryk; "Vigilante Force" (1976), de George Armitage; "Lipstick - A Violentada" (1976), de Lamont Johnson; "The Big Racket" (1976), também de Castellari; "Rolling Thunder - A Outra Face da Violência" (1977), de John Flynn; "O Exterminador" (1980), de James Glickenhaus, e "Ms. 45/Sedução e Vingança" (1981), de Abel Ferrara, entre outros.

Era só questão de tempo para o vigilante original, Paul Kersey, voltar para limpar as ruas da bandidagem. Mas demorou sete anos até convencerem Michael Winner e Charles Bronson a voltarem para um sequência, "Desejo de Matar 2", de 1982, já tratando o anti-herói do primeiro filme como uma figura heróica e já apelando para os tiroteios exagerados e explosões que o espectador da década de 80 pedia. A partir daí, foram feitos mais três filmes, cada vez mais exagerados e absurdos, e divertidos de certo modo. Mas o único digno da palavra "filmaço" é o original, até hoje polêmico e atualíssimo.


Uma das únicas pessoas insatisfeitas com DESEJO DE MATAR foi o autor do livro que inspirou o filme, Brian Garfield. Na época - e mais recentemente no livro de Paul Talbot sobre a série -, ele sempre fez questão de dizer que não gostou do filme, da escalação de Bronson para o papel principal e nem da direção de Winner. No livro, ele inclusive cita uma discussão que teve com o diretor na época das filmagens, porque em algumas cenas aparecem freiras caminhando pela calçada (fotos acima) e Garfield queria saber o motivo. "Winner me disse que eram símbolos. Eu perguntei o que exatamente simbolizavam, e ele respondeu: 'Nada, são apenas símbolos!'", lembrou o escritor.

O próprio Winner respondeu furiosamente quando questionado por Paul Talbot sobre a opinião de Garfield: "O livro 'Death Wish' era sobre um cara que saía matando bandidos. Depois ele reclamou que fizemos um filme violento e terrível a partir do livro. Ora, o que ele pensa que escreveu? Branca de Neve? Seu livro vendeu apenas três cópias, e todas para a mãe dele. Ele é um idiota!".


Brigas à parte, DESEJO DE MATAR realmente provocou reações perigosas nos meses e anos que se seguiram ao seu lançamento, como temiam os realizadores e os críticos do filme. O livro "Bronson's Loose!" cita algumas delas: em Redondo Beach (Califórnia), um homem carregando uma TV foi confundido com um ladrão e linchado pela população, que alegava ter se inspirado nas ações de Paul Kersey; o problema é que o homem era o próprio dono da TV e estava levando o aparelho para o conserto! Já em Chicago, um motorista de ônibus matou um assaltante desarmado e também disse ter tirado a inspiração do filme.

E quanto àqueles quatro marginais que me assaltaram, e que eu citei no começo do texto, lembra? Bem, é claro que eu nunca virei vigilante fora dos meus delírios de vingança, portanto eles saíram ilesos. E pelo menos um deles, ainda menor de idade, envolveu-se em outros dois assaltos em que duas vítimas foram mortas a tiros. Será que essas pobres vítimas estariam vivas hoje caso eu tivesse encarnado Paul Kersey durante os meus dias de fúria pós-assalto? Mas, por outro lado, se eu tivesse justiçado o "de menor" antes que ele efetivamente tivesse cometido um homicídio, o assassino da história não seria eu?

Nem tudo é preto e branco quando a gente toma a justiça nas próprias mãos, e DESEJO DE MATAR deixa isso bem claro para quem souber interpretar...


FICHA CRIMINAL:
* Pessoas ligadas a Kersey agredidas: esposa (morta) e filha (estuprada)
* Armas usadas pelo vigilante: revólver Colt Police Positive .32, meia cheia de moedas
* Contagem de cadáveres: 11 (Kersey 10 x 1 Marginais)

Trailer de DESEJO DE MATAR



*******************************************************
Death Wish (1974, EUA)
Direção: Michael Winner
Elenco: Charles Bronson, Vincent Gardenia, Hope Lange,
Steven Keats, William Redfield, Stuart Margolin, Jeff Goldblum,
Christopher Guest e Kathleen Tolan.

sábado, 1 de setembro de 2012

ESTE É SLEDGE (1995)


Nesta sexta-feira, 31 de agosto de 2012, estreou no Brasil o aguardado "Os Mercenários 2". Se o filme original já pretendia ser o sonho realizado de todo cinéfilo que cresceu vendo os filmes de ação dos anos 80, este novo é a própria visão do paraíso para o mesmo público-alvo, reunindo numa mesma aventura os astros da época do VHS Sylvester Stallone, Dolph Lundgren, Chuck Norris, Jean-Claude Van Damme, Bruce Willis e Arnold Schwarzenegger, além de alguns destaques da nova geração - Jason Statham, Jet Li, Terry Crews, Randy Couture e Scott Adkins.

Como eu ainda não vi "Os Mercenários 2", e como todos os outros sites e blogs de cinema vão estar falando exaustivamente sobre ele agora e pelos próximos dias, preferi aproveitar a atualização de hoje para fazer uma homenagem diferente ao cinema de ação dos anos 80, resgatando uma comédia obscura que é ao mesmo tempo sátira e homenagem aos astros e filmes deste período. Trata-se de ESTE É SLEDGE, produção de 2005 que até saiu em DVD no Brasil, mas quase ninguém viu.


ESTE É SLEDGE (título original "Sledge: The Untold Story", ou "Confessions of an Action Star") é um "mockumentary" (falso documentário) no estilo daqueles episódios da série "E! True Hollywood Story" (que contam a trajetória e as fofocas da carreira de grandes astros), narrando a trajetória de um fictício astro de ação chamado Frank Sledge (David Leith, também roteirista), e sua carreira repleta de altos e baixos.

Na infância, o pequeno Sledge estudou dança na escola da professora Samantha Jones (Lin Shaye); já crescido, foi trabalhar como dançarino num clube das mulheres, onde acabou sendo descoberto por um produtor de filmes de baixo orçamento. A partir de então, o falso documentário acompanha o caminho do rapaz da obscuridade ao estrelato, sua transformação de jovem humilde em estrelinha de cinema problemática, a dura experiência com as superproduções hollywoodianas e seus diretores e produtores, a decadência e, finalmente, uma segunda chance no mundo do cinema.


Tanto o astro e roteirista Leith quanto o diretor Brad Martin têm conhecimento de causa para brincar com o assunto. Martin atua como dublê em Hollywood desde 1990; Leith faz o mesmo desde 95. Nesse período, foram testemunhas oculares de como o "Sistema" funciona por dentro, e também puderam acompanhar de perto a fase decadente de pelo menos um astro de filmes de ação - o belga Jean-Claude Van Damme, de quem Leith foi dublê nos péssimos "Replicante", "A Irmandade" e "Hell".

Usando este "conhecimento de causa" sobre os bastidores dos filmes de ação de Hollywood, a dupla fez não apenas uma comédia satírica sobre a ascenção e queda de um astro de filmes de ação, mas principalmente uma hilária retrospectiva do próprio gênero e de suas peculiaridades e talentos da metade dos anos 80 até o começo do século 21 (lembre-se que o ano de produção é 2005).


Assim, ESTE É SLEDGE se transforma numa divertidíssima brincadeira de cinéfilo, destinada principalmente aos fãs de filme de ação, pois satiriza várias fases históricas do gênero, começando pelas produções classe B direto para VHS da Cannon Films e pelas aventuras tipo "Rambo" (anos 80), passando pelo sucesso de lutadores de artes marciais que não sabiam atuar, como Steven Seagal e Van Damme, e pela febre de filmes ocidentais que imitavam as pancadarias orientais (anos 90), até chegar às produções caras e repletas de efeitos especiais do final do século ("Matrix").

Com referências diretas a estes astros e filmes, a comédia arranca mais de uma sonora gargalhada de quem, como eu, acompanhou de perto o mesmo período.


Por exemplo, a carreira de Sledge começa quando ele é convidado a estrelar o filme fictício "Bloodfight 2", uma óbvia brincadeira com "Bloodsport", um dos primeiros filmes de Van Damme (no Brasil, "O Grande Dragão Branco"). O problema é que ele é contratado justamente para substituir o astro do "Bloodfight" original, Jason Everstrong, que não quis voltar na continuação. Para justificar o ator diferente interpretando o mesmo personagem, os roteiristas apenas inventam uma frase em que um personagem do filme fictício olha para o herói e diz: "Jesus, olha só... Você parece uma pessoa completamente diferente!".

Este episódio permite inclusive que os realizadores façam uma brincadeira complexa que somente os fãs das antigas irão entender: Jason Everstrong, o astro de "Bloodfight" substituído na continuação, é interpretado por Daniel Bernhardt (imagem abaixo); na vida real, foi o próprio Bernhardt quem substituiu Van Damme nas três sequências fuleiras de "O Grande Dragão Branco!


Com o sucesso inesperado de "Bloodfight 2", Sledge começa a fazer filmes de ação com produção melhorzinha e adota um novo estilo, com roupas pretas e rabinho-de-cavalo. Chega o momento de ESTE É SLEDGE satirizar Steven Seagal.

Os filmes fictícios seguintes estrelados pelo jovem ator são "Bellow the Law" (Abaixo da Lei), uma brincadeira com "Above the Law"/"Nico - Acima da Lei"; "Out for Vengeance", que satiriza "Out for Justice"/"Fúria Mortal", e "Under Attack", sacanagem com "Under Siege"/"Força em Alerta". Os cartazes dos filmes de mentirinha são produções exatas da arte original das produções estreladas por Seagal, apenas com "David Sledge" no lugar do ator real!


Trata-se de uma das melhores partes de ESTE É SLEDGE, pois é quando a comédia sacaneia direto a figura de Steven Seagal, considerado um sujeito insuportável e arrogante por quase todo mundo que já trabalhou com ele.

Seguindo os passos dele, Sledge também começa a maltratar as equipes dos filmes e até seus colegas de trabalho - tipo Sean Young e Eric Roberts, interpretando eles mesmos, e com quem Sledge contracena em "Bellow the Law" e "Out for Vengeance". Fico imaginando se Seagal sabe da existência deste filme, pois deve ter ficado muito puto com as brincadeiras com a sua carreira.


A partir de então, Sledge é alçado à condição de grande astro do cinema de ação e começa a enfrentar problemas com drogas e bebedeiras (como Van Damme), e também com um "engordamento" descontrolado (como Seagal), porque não consegue parar de comer nos intervalos das gravações.

Já na condição de astro problemático, ele é chamado para o papel-título de "Jimbo" (uma brincadeira com "Rambo 2 - A MIssão)", onde contracena com Angelina Jolie e Ernie Hudson no papel de Coronel Trautman (com direito ao clássico diálogo do "Vocês vão precisar de muitos sacos para cadáveres"). O problema é que Sledge sequer consegue ficar consciente para filmar, devido a abuso de álcool - o que também rende algumas belas piadas, como quando o diretor do filme fictício aproveita que o astro está inconsciente para filmar uma cena em que seu personagem é torturado!


Decadente e desempregado, Sledge começa a frequentar os Alcoólicos Anônimos, e só consegue emprego como entregador de pizza. Sua chance de voltar ao estrelato é um convite para atuar como policial branco às voltas com uma policial oriental (Kelly Hu) numa comédia de aventura chamada "Traffic Jam", uma brincadeira com "Rush Hour"/"A Hora do Rush", de Brett Ratner.

Este episódio brinca com a febre do cinema "oriental" em Hollywood, quando os estúdios descobriram os filmes de ação de Hong-Kong e passaram a tentar imitá-los, porém sem preparar seus astros e estrelas devidamente para encarar os malabarismos realizados no Oriente. Sledge enfrenta vários problemas com as cenas de lutas de "Traffic Jam" e acaba sendo despedido; ele e Kelly Hu são substituídos por Chris Tucker e Jackie Chan, e o filme se transforma em "A Hora do Rush"!

Diretores novatos que não sabem dirigir filmes de ação, como Ratner em "A Hora do Rush", também são sacaneados nessa parte da comédia, e o próprio é "homenageado" com a presença de um Brett RaDner interpretado por Steven Roy.


Finalmente, a volta por cima de Sledge acontece quando ele é chamado para estrelar uma ficção científica cheia de pancadaria sobre um sujeito que descobre que a realidade é uma ilusão controlada por um supercomputador. "Matrix"? Exatamente. Só que o nome do filme fictício é mais didático: "Computer Generated Environment That Enslaves Us" (ou "Ambiente Gerado por Computador que nos Escraviza"!!!).

A tiração de sarro com "Matrix" é uma das piadas mais geniais de ESTE É SLEDGE, porque aqui o pseudo-"Matrix" não é exatamente um filme de ação, como o estrelado por Keanu Reeves em 1999, mas sim um MUSICAL! E ver o herói DANÇANDO em "bullet time" ao lado de cópias do Agente Smith é de chorar de rir, conforme você pode ver no vídeo abaixo:

"Matrix" - O Musical!



Além da tiração de sarro com filmes e estrelas, ESTE É SLEDGE traz uma carta na manga: a presença de diversos atores e atrizes REAIS interpretando "eles mesmos", e dando depoimentos sobre Sledge e sobre como foi atuar ao lado dele em seus filmes fictícios. Considerando que esta é uma produção barata e praticamente obscura, o elenco de celebridades em participações especiais é de cair o queixo: Angelina Jolie, Sean Young, Eric Roberts, Carrie-Anne Moss, Kelly Hu, Ernie Hudson, Richard Lewis, Debbie Allen, Jason George e Hugo Weaving.

Alguns deles não contribuem apenas com seus depoimentos, mas também aparecem contracenando com Sledge nos seus filmes fictícios. E como Martin e Leith trabalharam como dublês em produções de toda essa gente, fica meio óbvio que eles devem ter aparecido nesta comédia como um favor para amigos. (O IMDB informa que Ben Stiller também aparece num dos filmes falsos, mas confesso que não o reconheci.)


Outras duas caras conhecidas para quem cresceu vendo filmes de ação dos anos 80-90 são a de Gerald Okamura e Al Leong, ambos repetindo, nas aventuras fictícias estreladas por Sledge, os papéis que fizeram em muitas produções de verdade - respectivamente, o velho mestre que ensina artes marciais ao jovem pupilo e o sádico torturador oriental (Leong praticamente repete o papel que fez em "Máquina Mortífera").

E se brincar com atores, diretores (um tal de "John Hu" aparece lá pelas tantas) e filmes já não fosse mérito suficiente, ESTE É SLEDGE ainda tem coragem de apresentar Eric Roberts e Richard Lewis brincando com suas próprias imagens de atores problemáticos envolvidos com abuso de álcool e drogas - Lewis inclusive aparece nas cenas do grupo de Alcoólicos Anônimos frequentado por Sledge.


Pelo conjunto, e principalmente pelos realizadores demonstrarem conhecimento do assunto que estão satirizando, o filme fica degraus acima das sátiras cinematográficas feitas no mesmo período e hoje, como a série "Todo Mundo em Pânico" (que tenta maquiar a falta de graça com piadas escatológicas) e as comédias desmioladas realizadas pela dupla Jason Friedberg e Aaron Seltzer (como "Os Vampiros que se Mordam"), que acham que, para fazer graça, basta imitar as cenas de filmes famosos com outros atores.

Mas eu não diria que ESTE É SLEDGE é um filme para todos os públicos. Como comédia, e não sátira cinematográfica, ele não funciona tão bem e não é engraçado; como sátira do mundo do cinema, e com um recorte bem específico (os filmes de ação), exige que o espectador faça a lição de casa para entender do que os realizadores estão brincando, ou mesmo do que estão falando.


Embora as gozações com "Rambo 2" e "Matrix" sejam mais óbvias para o público em geral, outras não são. Por exemplo, a cena ultra-gay em que Rocky e Apollo correm na praia em "Rocky 3" é recriada aqui numa montagem (sacaneando também "Flashdance" e "Footloose"!) em que Sledge e seu amigos e professor de dança Glenn (Nathan Lee Graham) correm na praia, e a música diz "Rocky had Apollo/And I have got Glenn/That's something so inspiring about/A sweating black man". Mas é claro que isso dificilmente terá graça para quem não lembrar ou não souber que estão tirando sarro de "Rocky 3"!

Da mesma forma, ver Sledge imitando os trejeitos de Van Damme e Steven Seagal é algo que exige um mínimo de conhecimento sobre ambos e sobre o cinema de ação da época (que exigia, por exemplo, que um astro bonitão mostrasse a bunda em algum momento do filme, como Van Damme fez algumas vezes), caso contrário a piada passará em branco.


Tudo considerado, ESTE É SLEDGE é um divertido mockumentary que eu recomendo apenas ao seleto leitor de FILMES PARA DOIDOS, e principalmente para todos aqueles que cresceram vendo as produções da Cannon Films, Steven Seagal, Van Damme, Stallone e cia.

Esta comédia pode até ser um belo aperitivo ou complemento para ver antes ou depois de "Os Mercenários 2" e lembrar de como o cinema de ação mudou (para pior, creio) em pouco mais de 30 anos.

PS: A seguir, o FILMES PARA DOIDOS começará sua nova maratona, dessa vez com atualizações dia sim, dia não cobrindo as cinco aventuras da série "Desejo de Matar". Até lá!

Trailer de ESTE É SLEDGE



*****************************************************************
Sledge: The Untold Story (2005, EUA)
Direção: Brad Martin
Elenco: David Leitch, Nathan Lee Graham, Angelina Jolie,
Sean Young, Eric Roberts, Carrie-Anne Moss, Kelly Hu,
Gerard Okamura, Ernie Hudson e J.B. Ghuman Jr.