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terça-feira, 7 de agosto de 2012

ADRENALINA (1996)


Na segunda metade dos anos 1990, eu estava completamente viciado naqueles jogos de tiro em primeira pessoa para computador. Em 1996 ninguém tinha internet ainda, e os PCs domésticos eram aqueles velhos 486 e Pentium 5, com capacidade de processamento bem menor que as máquinas de hoje. E ainda que os jogos do gênero tenham evoluído bastante nesses quase 20 anos, confesso que prefiro a simplicidade daqueles dos anos 90, que não exigiam que o jogador tivesse que decorar 30 comandos no teclado para poder andar e atirar nos inimigos.

Comecei jogando o clássico Wolfenstein 3D, que a galera da época conhecia como WOLF3D porque era esse o comando executável que você digitava no DOS para rodar o jogo (algo que parecerá aramaico para a geração leite-com-pêra que já pegou computador com Windows). Mas o jogo do gênero pelo qual eu me apaixonei foi Doom. Nada do que veio depois, pelo menos na minha modesta opinião, conseguiu superar as horas de diversão com jogabilidade simples que o velho Doom me proporcionou.


Então, num belo dia entre 1996-97, lá estava eu conferindo os lançamentos em vídeo na locadora quando me deparo com ADRENALINA, uma fita com essa capinha que você vê aí em cima. O filme era estrelado por Christopher Lambert e pela gostosa que tinha feito a alienígena peladona em "A Experiência" no ano anterior, Natasha Henstridge - como as filmagens de ADRENALINA também aconteceram em 1995, eu desconfio que ele foi gravado antes que o dinheirudo "A Experiência", mas isso não vem ao caso.

Levei a fita para casa mais pelo Lambert, pela Natasha e pelo resumo no verso da capa do que pelo diretor: o infame Albert Pyun, que, à época, dirigia de quatro a seis filmes baratos POR ANO para abastecer as locadoras ao redor do mundo. Por exemplo: só em 1996, o ano de ADRENALINA, ele também lançou "Ravenhawk - Instinto Assassino", "Omega Doom - A Maldição", e as partes 3 e 4 de sua franquia "Nêmesis", essas filmadas ao mesmo tempo e com a mesma equipe.


Naquela noite, no conforto de meu lar, assisti ADRENALINA no meu velho videocassete. E é claro que era a típica produção pobretona fimada às pressas por Pyun para lançamento nas locadoras (embora tenha sido exibido nos cinemas em alguns países, inclusive no Brasil). Mas havia algo mais ali: pela primeira vez eu percebi como o clima do jogo Doom poderia ser adaptado para os cinemas.

Não, o roteiro de ADRENALINA não tem nada a ver com Doom: no jogo, você está numa estação espacial enfrentando criaturas vindas do inferno, enquanto no filme, que se passa num futuro hoje passado (2007), policiais caçam uma criatura monstruosa dentro das ruínas de um velho presídio.


Mas vendo aquelas andanças dos (poucos) personagens com lanternas e armas sempre em punho pelos corredores escuros do filme, eu comecei a sentir aquele mesmo clima de quando jogava Doom, igualmente perambulando por corredores escuros com arma em punho e à espera de que a qualquer momento um monstro horrível saltasse das sombras.

Talvez uma coisa não tenha nada a ver com a outra, e peço desculpas pela longa introdução, mas sempre que eu penso nele ou revejo ADRENALINA, é inevitável pensar também em Doom. E provavelmente não tenha sido essa sua intenção, talvez ele nunca tenha jogado Doom na vida, mas Pyun conseguiu chegar muito mais perto do clima do jogo do que aquele filme "oficial" pavoroso lançado quase 10 anos depois, "Doom - A Porta do Inferno", dirigido pelo péssimo Andrzej Bartkowiak!


Também escrito por Pyun, ADRENALINA foi filmado no Leste Europeu (externas na Croácia e na Bósnia, internas num estúdio da Eslováquia) para baratear custos, e realmente aparenta ter custado menos que um salário mínimo, já que a trama toda se desenrola nos corredores escuros de um prédio em ruínas - e, salvo uma pequena mudança aqui e ali, os atores parecem estar SEMPRE NO MESMO CORREDOR ESCURO!

Como todas as produções barateiras filmadas por aqueles lados, vários atores secundários e figurantes foram contratados por lá mesmo, conforme você percebe pela fisionomia e pelo forte sotaque do pessoal. Isso quando não foram visivelmente dublados. Porque os caras simplesmente não ambientaram a história no Leste Europeu para simplificar é algo que foge à minha compreensão.


Nossa história se passa no então futuro de 2007. Uma guerra química fez com que um vírus mortal se espalhasse pela Europa, mas isso nunca é satisfatoriamente explicado - só se sabe que a doença é mortal. Os europeus começaram a emigrar para os Estados Unidos em busca de salvação, e os norte-americanos foram obrigados a construir campos de quarentena que acabaram se transformando em cidades, e onde violentos conflitos explodem a todo momento. Ou, pelo menos, é o que nos conta a narração nos cinco minutos iniciais. Pode esquecer tudo a partir de então, pois já não faz mais diferença.

Estamos num desses campos de quarentena, em Boston, e Natasha Henstridge interpreta Delon, uma policial novata que está tentando tirar o filho pequeno (e doente) desse inferno e enviá-lo para a segurança da cidade descontaminada. Antes que isso aconteça, porém, ela é designada para uma "missão de rotina": investigar estranhos gritos vindos de um prédio em ruínas perto da zona de confronto.


Delon e seu parceiro Volker (Xavier Declie) vão até o edifício condenado, mergulhado na escuridão porque não há eletricidade, e encontram uma sala repleta de cadáveres mutilados. Volker é atacado por um tenebroso mutante que escapou do laboratório e está contaminado com um vírus ainda mais mortal. Delon escapa, mas não encontra mais a saída por aqueles corredores escuros. Desesperada, pede reforços pelo rádio.

É quando entra em ação o bambambam do departamento: o ultra-condecorado policial interpretado por Christopher Lambert, que, pelo menos que eu me lembre, nunca é chamado pelo nome, mas nos créditos finais é identificado como "Lemieux". Ele e os parceiros Cuzo (Norbert Weisser, ator habitual nos filmes de Pyun) e Wocek (Elizabeth Barondes) encontram Delon, mas, ao invés de todo mundo se mandar logo daquele prédio escuro e prestes a desmoronar, resolvem juntar forças para enfrentar o mutante. Claro que dá merda...


Pelo restante do filme, nossos quatro únicos protagonistas ficam zanzando pelos corredores com suas lanternas e armas em punho, à procura de um monstrengo que pode estar escondido em qualquer canto escuro, pronto para pular sobre eles.

Paralelamente, uma equipe militar comandada por Sterns (Andrew Divoff, o Djinn da série "Wishmaster") recebe a missão de localizar e matar o mesmo mutante, já que o vírus em sua corrente sanguínea irá atingir um nível crítico e o monstro pode contaminar o resto do mundo com uma praga mortal - ou algo do gênero. Sterns e seus homens, vestidos com roupas anti-contaminação amarelas e portando armas de grosso calibre, entram nas mesmas ruínas, mas o mutante revela-se um adversário muito mais perigoso do que parece.


ADRENALINA tem todos as qualidades e problemas de uma produção de baixíssimo orçamento. Entre os pontos positivos estão o roteiro enxuto e sem frescura; o filme nunca tenta ser mais do que é, e se limita a mostrar a caçada ao mutante e a subsequente transformação dos caçadores em caça pelo vilão.

Se o mesmíssimo roteiro fosse transformado numa grande produção de Hollywood, os caras certamente iam dar um jeito de tornar tudo mais complexo, aumentando o número de personagens para morrer, quintuplicando a ação e as explosões, os efeitos de maquiagem, e explicando tintim por tintim a origem do mutante, a sua fuga do laboratório até a prisão em ruínas, etc etc etc.


Trabalhando com merreca, e provavelmente um cronograma de filmagens bastante apertado, Pyun não podia se dar a esse luxo e fez o que dava. ADRENALINA é um filme barato, e isso está na tela. Para o bem ou para o mal.

Como todos sabemos, limitações orçamentárias geralmente obrigam os realizadores a usar a criatividade. Pyun não é exatamente o mais talentoso dos diretores, mas seu trabalho aqui é honesto e quase sempre eficiente. Ele mostra pouco o mutante para não entregar a maquiagem barata, e limita as cenas de ação porque não tem dinheiro para grandes efeitos. Mas volta-e-meia se sai com uns rompantes de inventividade que merecem elogios.


Uma das grandes cenas do filme acompanha o drama de dois dos policiais enquanto eles estão sob intenso fogo do mutante - que roubou a pistola de uma das suas vítimas. Em momento claramente inspirado na cena do sniper de "Nascido para Matar", de Stanley Kubrick, o vilão fica sadicamente atirando nas pernas e nos braços das suas vítimas, que não conseguem fugir dali porque levam um novo tiro a cada tentativa de levantar-se. É talvez o ponto alto de ADRENALINA, com a câmera "atingindo" os atores como se fosse as balas de revólver!

Outro belo trabalho de câmera é a cena inicial do filme, em que uma policial percorre o laboratório-hospital após a fuga do mutante. Trata-se de uma longa cena aparentemente sem cortes, em que a câmera assume o ponto de vista da policial enquanto ela percorre um corredor repleto de cadáveres e sangue. Certo, a câmera como ponto de vista do personagem não era exatamente novidade na época, mas é interessante como Pyun arquitetou uma longa e tensa cena em primeira pessoa numa aventura de baixo orçamento - um momento que, mais uma vez, remete aos jogos estilo Doom!


E há uma surpresa bem-vinda para quem esperava pura rotina: o herói interpretado por Lambert na verdade não é tão fodão quanto parece e se dá mal lá pela metade do filme, precisando da ajuda da novata Natasha para escapar vivo da fuzarca! Por isso, quem espera uma aventura com Lambert chutando traseiros pode se decepcionar.

Já a pobreza da produção torna a coisa toda mais divertida - embora o humor seja involuntário. Claro, é preciso fechar um olho para curtir o filme, porque está na cara que ele custou uma merreca (um espectador acostumado aos blockbusters de Hollywood não vai passar dos primeiros cinco minutos).


Os principais problemas de ADRENALINA decorrem da pobreza generalizada. Por exemplo, como engolir que a história se passa em Boston se os caras não tinham dinheiro sequer para mudar a inscrição "Policia" nas viaturas e nos coletes dos policias para "Police"? Não sei se "policia", sem acento, é croata ou espanhol, mas só iria funcionar se Pyun conseguisse nos convencer de que, no futuro, os imigrantes mexicanos dominaram os Estados Unidos!

Também chega a ser engraçado o fato de ninguém decidir sair daquele maldito prédio em ruínas e incendiá-lo ou explodi-lo para matar o mutante de uma vez. Não, eles preferem perder-se no labirinto de corredores escuros para virar alvo fácil do vilão. E o que dizer do "hospital de quarentena de segurança máxima" com janelas abertas e sem grades (foto abaixo), por onde os contaminados poderiam fugir a qualquer momento?


Por falar em furos de roteiro, a heroína interpretada por Natasha tem uma chance claríssima de matar o mutante logo no começo do filme, mas surta e deixa o vilão escapar. Sim, se ela tivesse atirado teríamos um curta ao invés de um longa-metragem, mas é o tipo de cena que poderia ter sido feita de outra forma. Até porque ficamos com a maior raiva da nossa protagonista pelo restante do filme, e o fato de ela ser novata não justifica a burrada!

Mas tudo bem, eu geralmente prefiro essas aventuras de fundo de quintal que vão direto ao assunto e divertem do que a maioria dos pretensiosos blockbusters que Hollywood produz hoje. E sim, prefiro rever um ADRENALINA do que um "Avatar". Porque, de alguma forma inexplicável, consigo aceitar um mutante mal-maquiado zanzando por um prédio em ruínas muito melhor do que Smurfs gigantes perambulando por um cenário feito por computador durante três intermináveis horas.


Uma curiosidade para fechar a resenha: ADRENALINA tem duas versões, como diversos filmes de Pyun. A versão lançada no Brasil em VHS e DVD é o corte norte-americano, que tem apenas 77 minutos (!!!) e é muito mais direto ao assunto: aquela longa cena inicial com a câmera percorrendo o hospital foi cortada e a trama já começa praticamente dentro do prédio em ruínas, onde várias cenas também foram diminuídas para agilizar a ação.

Na Europa, foi lançada uma versão mais longa, com 94 minutos, que tem mais "história" do que a anteriormente citada, incluindo um momento em que Delon encontra uma espécie de "toca" do vilão, com recordações de quando ele era humano, e uma conclusão significativamente diferente.

Embore eu goste de várias coisas dessa versão mais longa (como a já citada cena inicial em primeira pessoa), acho que uma história tão fraquinha quanto essa funciona melhor em 77 minutos e sem tanta enrolação. Em todo caso, recomendo ver as duas se você também é fã de aventuras de baixo ou nenhum orçamento.


E é uma pena que ninguém tenha pensado em Albert Pyun e ADRENALINA quando o projeto de levar Doom aos cinemas começou a ganhar corpo. Até porque Doom é o tipo de coisa que funcionaria muito melhor no universo do baixo orçamento - fico imaginando como seria uma adaptação produzida por Roger Corman, ou Charles Band.

Para encerrar, acho que ficou mais do que evidente, mas não custa reforçar: fique longe, muito longe desse filme se o seu ideal de diversão for algo muito diferente de ver Christopher Lambert e Natasha Henstridge perseguindo um mutante assassino num prédio em ruínas bósnio-croata num filme classe Z dirigido por Albert Pyun. Porque a coisa não vai muito além disso.


Aí o leitor do FILMES PARA DOIDOS pode querer questionar: "Mas Felipe, você realmente está dizendo que GOSTA de um filme em que dois ou três atores ficam caminhando por corredores escuros durante mais de uma hora?".

Aí eu respondo: um dos maiores classicos do cinema "cult-cabeça" de todos os tempos é exatamente isso, dois ou três atores caminhando por corredores escuros com medo de algo que pode ou não pular sobre eles a qualquer momento. Estou falando de "Stalker" (1979), do russo Andrey Tarkovskiy (um dos cineastas mais chatos da história).

A diferença é que no filme de Pyun os caras perambulam por corredores vazios durante uma hora, enquanto no do Tarkovskiy (muito mais respeitado, é claro, embora seja um porre!), a agonia dura quase três horas. E não tem nenhum mutante assassino esperando na escuridão para atacar os personagens. E nem o Christopher Lambert. E nem a Natasha Henstridge.

Na boa? Fico com o filme do Pyun!


PS 1: O dublê Craig Davis interpretou o mutante assassino. Logo depois, ele foi para Hollywood e começou a trabalhar nas equipes de dublês de vários filmes de super-heróis: "Batman & Robin", a trilogia "Homem-Aranha" de Sam Raimi, "Hellboy" e "Capitão América: O Primeiro Vingador", entre outros blockbusters. Nada mal para quem começou sua carreira como vilão de um filme furreca filmado no Leste Europeu...

PS 2: Não há nenhuma explicação plausível para a palavra em inglês "Adrenaline" ter sido escrita errada no título original (sem o "E"), mas vá saber o que se passa na cabeça de Albert Pyun...

Trailer de ADRENALINA



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Adrenalin: Fear the Rush (1996, EUA)
Direção: Albert Pyun
Elenco: Christopher Lambert, Natasha Henstridge, Norbert
Weisser, Elizabeth Barondes, Xavier Declie, Craig Davis,
Nicholas Guest e Andrew Divoff.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

LIQUID SKY (1982)


São raros os filmes que você ama apaixonadamente ou odeia profundamente, e não consigo pensar em exemplo melhor do clichê "ame ou odeie" do que LIQUID SKY, uma bizarríssima produção independente do começo dos anos 1980. Já tive a oportunidade de conversar sobre ele com vários amigos, cinéfilos ou não, e a opinião é sempre para o céu ou para o inferno: ou o cara adora, ou diz que foi o pior filme que viu na vida.

Não há meio-termo nem mesmo nas resenhas encontradas internet afora: você não vê ninguém dizendo que achou o filme "mais ou menos", ou "bonzinho"; é ou paixão arrebatadora ou fúria virulenta!


O que posso dizer é que LIQUID SKY realmente merece esse rótulo do "ame ou odeie". E embora eu esteja do lado dos apaixonados, entendo perfeitamente sempre que alguém diz que odiou - e nunca, jamais, tento fazê-lo mudar de ideia. Ame ou odeie, entretanto, a experiência de ver LIQUID SKY é única e nunca vi nada sequer parecido com esse filme.

Para sintetizá-lo numa única frase, e assim você pode parar de ler a resenha e procurar pelo filme para ver se ama ou odeia, vou pegar emprestada a definição de uma crítica escrita lá em 1982, quando a obra chegou aos cinemas: "The funniest, craziest, dirtiest, most perversely beautiful science-fiction movie ever made". Ou, em bom português, "o mais divertido, maluco, sujo e perversamente bonito filme de ficção científica já realizado".


É por aí? É. Principalmente na parte do "craziest", considerando que o filme traz um pouco de tudo: OVNIs, cientistas loucos, drogas, sexo, estupro, lesbianismo, androginia, assassinatos e até uma rápida insinuação de necrofilia! Só que é muito fácil se desiludir com LIQUID SKY, especialmente se você não estiver preparado para o que vem pela frente. Embora a trama envolva discos voadores e alienígenas, o filme passa longe de ser uma ficção científica "padrão", e quem for assistir esperando por isso quebrará a cara.

Afinal, mais que uma história de ficção científica, LIQUID SKY é um retrato multi-colorido e psicodélico do universo junkie/pós-punk/new wave da Nova York do começo dos anos 80. A música, os clubes "alternativos", o jeito de agir, falar, se vestir e se comportar, tudo remete àquele período e local específico, de maneira que o filme pode ser visto praticamente como um documento histórico da época.


Trata-se da história de Margaret (Anne Carlisle), uma modelo new wave bissexual que vive numa cobertura em Manhattan com a namorada traficante, Adrian (Paula E. Sheppard, de "Comunhão", aqui em seu segundo e último trabalho). Certa noite, enquanto as duas participam de um desfile de moda, um disco voador de dimensões reduzidas - mais ou menos do tamanho das modernas antenas de TV por assinatura - pousa exatamente no teto do apartamento das moças.

Logo descobriremos que o alienígena no interior da nave (nunca mostrado ao espectador) está na Terra em busca de um alimento ou droga rara em seu planeta: a substância produzida pelo cérebro humano no momento do orgasmo, que, para o ET, tem o mesmo efeito da heroína para os humanos!


Mesmo tendo uma parceira fixa, Margaret leva uma vida sexual bastante intensa com homens e mulheres - embora, ironicamente, nunca consiga atingir o orgasmo. E é claro que o alienígena vai aproveitar a rotina devassa da modelo para conseguir seu alimento/droga, com um "pequeno" efeito colateral: o "doador" da substância morre na hora do gozo!

Pode parecer simples na essência, mas, acredite, LIQUID SKY é aquele tipo de filme sem-noção que parece gritar "cult movie!" em cada frame. Outros personagens começam a entrar e sair da trama, envolvendo-se com Margaret e seu alienígena junkie. O mais importante deles é Johann Hoffman (Otto Von Wernherr), um cientista alemão que vem seguindo o disco voador e chega a Nova York em busca de um contato imediato de qualquer grau.


No início, Johann vasculha a cidade do alto do Empire State com seu potente telescópio até descobrir onde está o pequeno OVNI. Quando seu único amigo nos Estados Unidos lhe deixa na mão, ele precisa pedir a ajuda de uma moradora do prédio em frente para usar seu apartamento e vigiar as ações do alienígena.

A tal moradora é Sylvia (Susan Doukas), uma produtora de TV que passa a noite inteira tentando seduzir o alemão enquanto ele se limita a vigiar o alien e os assassinatos cometidos por ele - uma situação que muitos críticos da época compararam com "Janela Indiscreta", de Hitchcock, talvez com certo exagero.


Perto dali, também vive o casal Katherine (Elaine C. Grove) e Paul (Stanley Knap). Ele é um escritor fracassado que afoga as mágoas em heroína, apesar dos protestos da esposa. Aos 10 minutos do filme, Paul é o responsável por justificar o título ao explicar que "liquid sky" (céu líquido) era uma gíria oitentista para a droga.

Por último, mas não menos importante, temos um modelo junkie chamado Jimmy, que vive uma relação de amor e ódio com Margaret - é seu rival nas passarelas, mas ao mesmo tempo nutre um amor platônico pela garota. O irônico de tudo é que Jimmy é interpretado pela mesma Anne Carlisle que faz a própria Margaret (veja as imagens abaixo), num toque de gênio do filme. E, graças à magia da montagem, Anne contracena e até transa com ela mesma em algumas cenas, algo que hoje seria feito facilmente com CGI.


Uma das coisas mais curiosas de LIQUID SKY é que esses personagens aparentemente tão diferentes estão ligados uns aos outros e em algum momento do filme irão se encontrar. Por exemplo, Jimmy é filho de Sylvia e Paul compra sua heroína de Adrian; já o único amigo norte-americano do cientista alemão é Owen (Bob Brady), professor de teatro que calha de ser ex-amante de Margaret!!!

Mas o que, afinal, torna LIQUID SKY um filme tão único e diferente? Ufa, isso vai ser cansativo...


Para começo de conversa, esta produção independente de apenas 500 mil dólares foi dirigida por um emigrante soviético, Slava Tsukerman. Em plena Guerra Fria entre URSS e EUA, Slava foi o primeiro russo a escrever, produzir e dirigir um longa-metragem nos Estados Unidos, com uma equipe formada por mais três soviéticos: sua esposa Nina V. Kerova, co-produtora e co-roteirista (também faz uma ponta como designer); o diretor de fotografia Yuri Neyman e o operador de câmera Oleg Chichilnitsky.

Após uma bem-sucedida carreira como diretor de programas de TV e comerciais na extinta União Soviética, Slava abandonou o país e o regime comunista em 1972 e foi viver em Israel; quatro anos depois, em 1976, mudou-se para Nova York, onde começou a preparar um roteiro de ficção científica, que eventualmente transformou-se em LIQUID SKY exatos dez anos depois de sua saída da URSS.


Fica difícil acreditar que atrás da câmera está um cara que passou 33 anos da sua vida em pleno Regime Comunista quando o espectador constata a maneira bastante particular com que o filme retrata um universo e um comportamento tipicamente norte-americanos - e também suas gírias e a cultura daquele momento.

Talvez a responsável por essa mágica seja a atriz Anne Carlisle, que também assina como terceira roteirista e teria ajudado na criação do universo new wave de LIQUID SKY - em entrevista da época, ela revela que Margaret é uma personagem auto-biográfica.

Anne também era uma musa new wave no começo da década de 80, e usava seu visual andrógino para ter relações com homens e mulheres, como Margaret faz no filme. Personagem e atriz também vieram de uma cidade pequena e careta, e despirocaram ao mergulhar no universo cultural "alternativo" da cidade grande.


Tentando explicar como o filme ficou do jeito que é, o diretor Slava saiu-se com uma explicação mirabolante numa entrevista daquela época: "O filme foi construído como uma combinação de mitos contemporâneos - discos voadores, cientistas alemães, invasores do espaço, sexo, violência, drogas. Desde os tempos de Hoffmann, as fábulas são construídas com uma combinação de mitos contemporâneos. LIQUID SKY é uma anti-fábula, e Margaret uma anti-Cinderela. Seu príncipe encantado era um advogado com quem poderia viver feliz para sempre na sua cidade-natal, mas que não lhe interessa. No final, seu príncipe vem de outro planeta".

Não sei se a descrição do diretor faz muita justiça ao resultado final do filme. O próprio resumo da trama não dá a menor pista do que realmente é LIQUID SKY, para quem nunca assistiu.


Eu lembro de ter lido pela primeira vez sobre ele no velho Guia de Vídeos Nova Cultural, no final dos anos 80, quando ainda era moleque. Nunca encontrei a fita do filme (uma das tantas raridades do nosso mercado de VHS), e só fui vê-lo há alguns anos, já adulto. Foi um verdadeiro choque, porque nesses quase 25 anos entre "querendo ver" e "finalmente ver", eu imaginei umas 20 formas diferentes de como LIQUID SKY seria, quando na verdade ele é o oposto de todas elas!

Embora trate de alienígenas e discos voadores, o cult movie de Slava está mais para o climão de "Blade Runner", também de 1982, do que para dois outros filmes sobre alienígenas feitos no mesmo ano, "ET - O Extraterrestre" e "O Enigma do Outro Mundo".


Em comum com o clássico de Ridley Scott, LIQUID SKY também traz uma metrópole anos 80 com cara de futurista, noturna e repleta de neon; ao contrário de "Blade Runner", porém, LIQUID SKY não é "dark", mas sim exageradamente colorido em roupas, cenários, maquiagens e cabelos.

A verdade é que a obra vale menos pela trama do alienígena (que fica em segundo, até terceiro plano) e mais pelo recorte sócio-cultural. Ele é muito mais um "drug movie", com seus personagens consumindo heroína e cocaína tão normalmente quanto bebem um copo d'água; e é ainda mais um painel do cenário cultural e comportamental daquela década.


Eu até entendo quando alguém me diz que odiou LIQUID SKY, porque seu visual e formato narrativo são muito esquisitos mesmo nos dias de hoje, quando o espectador já está acostumado até com filmes narrados fora da ordem cronológica ou de trás para frente.

A montagem de Sharyn L. Ross e do diretor Slava é algo difícil de digerir na primeira vez em que se assiste, e eu confesso que me senti perdido em alguns momentos - uma reassistida posterior deixou a narrativa mais clara. Acontece que eles ficam intercalando pedaços de cenas diferentes antes que uma ou outra termine.


Vou dar um exemplo: temos dois grupos de personagens conversando em lugares diferentes; ao invés de terminar o diálogo entre um grupo para passar ao outro, Sharyn e Slava invadem um diálogo com pedaços do outro.

Assim, um grupo de personagens está conversando e o filme corta para o outro grupo conversando, depois volta para o primeiro na mesma conversa, depois volta para o segundo, e assim sucessivamente, de maneira que o espectador nunca sabe se uma cena realmente terminou ou se o diretor vai voltar a ela em alguns minutos. Até mesmo o estupro de uma das personagens foi editado em paralelo com takes do cientista alemão chegando nos Estados Unidos, algo sem nenhuma relação com o crime em si!


Uma bela maneira de testemunhar essa incômoda montagem paralela é assistir os cinco minutos iniciais no vídeo abaixo - até porque este é um belo teste para você saber se vai aguentar ver o filme inteiro ou não, pois o resto dele é todo nessa mesma pegada.

Repare como a cena dentro do apartamento de Adrian e Margaret corta de repente para um night club, mas depois volta para o apartamento, e a música num lugar e em outro é completamente diferente - a impressão de "corte seco" chega a gerar uma sensação de estranhamento e incômodo no espectador!

Cena inicial de LIQUID SKY



Um outro elemento "amar ou odiar" é a trilha sonora de Brenda I. Hutchinson, Clive Smith e, mais uma vez, Slava Tsukerman (que, pelo jeito, estava realmente determinado a fazer um "filme de autor", participando de todas as etapas do processo).

Ao invés de usar a música punk ou new wave que se ouvia naquele momento, o trio optou por uma estridente e repetitiva, porém impressionante, trilha eletrônica composta com sintetizador (incluindo até versões para composições barrocas de Carl Orff e Heinrich!). A coisa é tão doida que já ouvi e li comentários tanto idolatrando quanto abominando a música - que eu, em particular, acho estranhamente hipnotizante. Quer baixar a trilha para julgar por si mesmo? Então clique aqui!


LIQUID SKY transformou-se em febre já na época do seu lançamento. Entre 1982 e 84, você não era um sujeito descolado se não tivesse visto pelo menos uma vez. Por isso, a pequena produção de 500 mil dólares ficou por até três anos passando direto em alguns cinemas dos Estados Unidos, além de ganhar prêmios em vários festivais de cinema fantástico.

Ironicamente, se LIQUID SKY tornou-se um filme cultuado até hoje, a carreira dos seus envolvidos não teve muito futuro. Saudado como grande promessa na época, o russo Slava não fez mais nada pelas próximas duas décadas. Ele alega que passou esse tempo todo tentando tirar do papel um ambicioso roteiro de ficção científica de sua própria autoria - David Cronenberg seria um dos interessados em dirigir -, mas nunca conseguiu encontrar um produtor para bancá-lo. Slava só voltou a dirigir em 2000, e desde então só fez dois filmes e um documentário. O último deles é "Perestroika", de 2009. Nenhum dos trabalhos posteriores teve a mesma repercussão do seu filme de estréia nos EUA.


O mesmo aconteceu com a estrela e "musa new wave" Anne Carlisle. Ela chegou a aparecer na Playboy em 1984 sob a manchete "Cult Queen", e, mesmo que ela mostre os peitos e a perereca nas fotos (coisa que não faz no filme), o ensaio apenas comprova aquela esquisita beleza andrógina que a moça já tinha exibido em LIQUID SKY.

Anne apareceu "mais normal" em "Inocência Fatal", de Larry Cohen, e fez pequenos papéis em "Procura-se Susan Desesperadamente" e "Crocodilo Dundee". Quando o new wave saiu da moda, a moça também sumiu do mapa. Seu último trabalho no cinema é de 1990, e em 1987 ela assinou uma novelização do roteiro de LIQUID SKY, hoje praticamente impossível de achar.


Os outros atores também despencaram direto para a obscuridade, mas um caso curioso é o de Paula E. Sheppard (a traficante Adrian), uma jovem e talentosa atriz que já havia roubado a cena seis anos antes interpretando a pequena irmã de Brooke Shields no horror "Comunhão". Pois a moça literalmente desapareceu depois desse seu segundo e último filme, e um fã chegou a criar uma home page sobre a curta carreira da atriz, porém sem conseguir descobrir maiores informações do seu paradeiro atual.

Ok, concordamos que LIQUID SKY é um filme esquisito. Mas podemos dizer também que está à frente do seu tempo? Considerando que os figurinos e maquiagens escalafobéticas usados pelos personagens aparecem, hoje, como elementos futurísticos nos clipes da Lady Gaga, talvez Slava e sua trupe estivessem mesmo uns 30 anos adiantados!


O filme também ficou tão marcado na cultura popular que podemos perceber sua influência em diversas outras produções, ainda que involuntariamente: em "O Milagre Veio do Espaço", produzido por Steven Spielberg, a nave dos visitantes alienígenas que pousa num velho edifício é tão pequena quanto a do extraterrestre de LIQUID SKY; já a aventura "O Grande Anjo Negro" mostra Dolph Lundgren caçando um alien que mata humanos injetando-lhes heroína para alimentar-se de uma substância produzida pela droga nos seus cérebros!

Bem, eu já perdi a conta de quantas vezes usei as expressões "estranho", "maluco" e "bizarro" nesta longa resenha, mas não consigo encontrar outra forma de descrever LIQUID SKY sem usar essas palavras. E talvez aí resida o grande charme desse cult movie por excelência: ele me lembra a clássica revista em quadrinhos Heavy Metal, cujas histórias chamavam a atenção mais pelo visual, pela arte e pela doideira do que propriamente pelas tramas narradas.


É por isso que, ame ou odeie no final, ver LIQUID SKY pela primeira vez, sem saber exatamente o que vem pela frente, é um verdadeiro choque para o espectador. Mas, ame ou odeie, também é impossível ficar indiferente.

Portanto, minha dica para quem ainda não viu é: experimente. Afinal, este é aquele tipo de filme doido e único que você encontra poucas vezes durante a sua vida de cinéfilo - e, a julgar pela pasteurização das produções atuais, vai encontrar cada vez menos. Quem não gostou vai continuar não gostando, mas aqui eu não estou tentando converter ninguém.

Uma coisa, porém, é inegável: nesses tempos de blockbusters bilionários desprovidos de alma, originalidade e talento, em que naves alienígenas cada vez maiores e mais destrutivas arrasam a Terra em cenas típicas de videogame, dá a maior saudade do disco voador em miniatura daquele ET junkie de LIQUID SKY...

Trailer de LIQUID SKY



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Liquid Sky (1982, EUA)
Direção: Slava Tsukerman
Elenco: Anne Carlisle, Paula E. Sheppard, Susan Doukas,
Otto von Wernherr, Bob Brady, Elaine C. Grove, Stanley
Knapp, Jack Adalist e Nina V. Kerova.