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segunda-feira, 11 de junho de 2012

COMANDO EXPLÍCITO (1986)


O panorama do cinema paulistano no começo dos anos 80 era desanimador: sem receber recursos da Embrafilme (que financiava os "intelectuais" de sempre para fazer filmes que ninguém queria ver), e gastando cada vez mais naqueles tempos de inflação galopante, muitos cineastas preferiram trocar a tela grande pela TV e pela publicidade.

Para os que continuaram remando contra a maré, a solução era investir no cinema pornográfico, um filão lucrativo iniciado no país com "Coisas Eróticas", de Rafaelle Rossi, alguns anos antes. Afinal, as produções eram baratas, não exigiam grande refinamento (pelo contrário, era possível até reaproveitar cenas de um filme em outro, principalmente os closes de pintos entrando em orifícios diversos) e havia um público pagante fiel, ávido por ver sacanagem na telona antes da popularização do videocassete - e algumas décadas antes da febre da pornografia via internet.


Diversos cineastas "sérios" começaram a filmar tchatchaca-na-butchaca para pagar as contas e tentar juntar dinheiro para voltar a fazer produções "normais", entre eles José Mojica Marins, Jean Garrett e Antônio Meliande. Mas enquanto a maioria usava pseudônimos para minimizar a vergonha de estar filmando sacanagem, teve um diretor que nunca escondeu o nome de batismo ao fazer pornôs - e ficou com a carreira estigmatizada por causa disso.

Estamos falando de Alfredo Sternheim. Jornalista, crítico de cinema e escritor (é autor de, entre outros, o obrigatório "Cinema da Boca - Dicionário de Diretores"), ele começou sua carreira cinematográfica como assistente de direção de Walter Hugo Khouri. Depois de fazer alguns curtas próprios, estreou como diretor de longas com "Paixão na Praia" (1970).


Como muitos cineastas da sua geração, Alfredo viu-se obrigado a filmar pornôs a partir de 1983, quando fez "Sexo em Grupo" e nem se preocupou em usar nome falso para não ser reconhecido. Daí em diante até 1988, quando encerrou sua carreira, ele fez mais de dez filmes com sexo explícito, a maioria em parceria com o também cineasta Juan Bajon e pela produtora deste, a Galápagos.

Entretanto, em 1986, Sternheim assinou dois pornôs para uma outra produtora, a Danek Produções Cinematográficas. Consta que foi uma experiência difícil, pois os sujeitos não entendiam nada de cinema e queriam gastar muito pouco em suas produções.

Assim, a exemplo do que cineastas italianos como Joe D'Amato e Bruno Mattei faziam com frequência, o cineasta brasileiro rodou os dois filmes pornográficos para a produtora ao mesmo tempo, com a mesma equipe técnica e o mesmo elenco. Um foi "Orgia Familiar"; o outro, COMANDO EXPLÍCITO.


Esquecido na maioria das filmografias de Alfredo Sternheim (não consta, por exemplo, no IMDB), COMANDO EXPLÍCITO segue por uma vertente popular do cinema X-Rated nacional: a união de sexo e violência, comum nas obras de diretores como Sady Baby, Fauzi Mansur e Rubens Prado, e que bebe da fonte dos "roughies" produzidos no exterior na década de 70 (os também chamados "filmes de estupro", como "Wet Wilderness" e "Forced Entry"). Logo, o filme inclui situações pesadas como o marido obrigado a assistir ao estupro da própria esposa por dois marginais.

O título, por sua vez, parece fazer referência ao sucesso de bilheteria da época, "Comando para Matar", de Arnold Schwarzenegger, já que não há nenhum "comando" no filme. (Só para dar uma ideia, Rubens Prado, outro diretor conhecido na Boca, lançou no mesmo ano um pornô com título parecido, "Comando dos Sádicos".)


Produzido por Nissen e Sander Danek, COMANDO EXPLÍCITO acompanha a história de Sandra, uma menina virgem por quem um perigoso bandido se apaixona. Quando ele se declara e a garota recusa seu amor (pois já tem namorado), o bandidão junta os comparsas e invade o apartamento da amada, no bairro chique de Higienópolis, tomando toda a família como refém.

Além da mãe (interpretada por uma tal de "Beth Boop") e da empregada gostosona, três ninfetinhas amigas da garota estão dormindo no apartamento, abrindo a brecha (e as pernas) para o festival de "estupros" que domina a narrativa.


E se escrevo a palavra "estupro" entre aspas é porque, a exemplo do já resenhado por aqui "Wet Wilderness", as vítimas jamais esboçam qualquer reação humana e realista diante da violência sexual. Pelo contrário: depois de alguns poucos protestos, entregam-se com prazer às fodas com os marginais, inclusive fazendo múltiplas posições sexuais, isso quando não estão dando beijos na boca e chupadas nos "estupradores". Essas levam bem a sério aquela máxima popular de que “se o estupro é inevitável, relaxe e aproveite”...

Há algumas caras conhecidas no elenco: Rubens Pignatari ("A Menina e o Estuprador") interpreta o pai de Sandra, enquanto Antônio Rodi, grande comedor da Boca do Lixo (participou dos dois pornôs do Mojica, "24 Horas de Sexo Explícito" e "48 Horas de Sexo Alucinante"), é o estuprador apaixonado - dublado pelo mesmo dublador que emprestava a voz a Sady Baby!


Diferente de alguns colegas de profissão, que baixaram totalmente o nível ao ingressar na direção de pornôs, Sternheim manteve certo requinte mesmo ao filmar roteiros ruins como este (escrito pelo produtor Sander Danek). É diferente assistir um hardcore da Boca do Lixo feito de qualquer jeito e um filme como este, dirigido por alguém que sabe filmar e tem noção de ritmo, fotografia e enquadramento - repare na trepada dentro de uma sauna, em que estratégicos jatos de vapor tentam esconder a penetração explícita para dar um ar mais erótico ao sexo.

As inúmeras cenas pornográficas de COMANDO EXPLÍCITO se desenrolam ao som de música clássica, o que nem sempre "fecha" direitinho com as imagens exibidas (fica até meio confuso acompanhar um "estupro" ao som de uma trilha lírica e quase romântica).


Por outro lado, isso revela um cuidado maior do diretor pelo material, mesmo que este não lhe favoreça. Em depoimento ao livro sobre a sua obra publicado pela Coleção Aplauso, Sternheim inclusive lembrou que alguns exibidores o consideravam muito intelectual e não queriam passar seus filmes nos cinemas “do povão”!

Uma estupidez, já que diretores como o já citado Rubens Prado colocavam até músicas de Saint-Preux sobre as fodas em filmes tipo "Sexo Erótico na Ilha do Gavião".


Em sua resenha de COMANDO EXPLÍCITO para a revista virtual Zingu, Matheus Trunk escreveu que Sternheim teve sérios problemas durante as filmagens, já que o produtor do filme era dono de um açougue e não tinha muita intimidade com o meio.

Teve até um acontecimento grave nos bastidores: enquanto atuava como referência para um ator que disparava seu revólver "contra a câmera", o diretor foi atingido no pescoço por um estilhaço da bala com pólvora seca utilizada no lugar do habitual tiro de festim. Foi um ferimento de raspão, mas que poderia ter sido fatal.


Como era tradicional nos pornôs da Boca, o elenco está repleto das caras feias e das barangas de costume. Embora volta-e-meia apareçam umas mulheres mais ajeitadinhas, como as estrelas do pornô nacional Lia Soul e Priscila Presley, também desfilam pela tela uns jaburus que seriam recusados até para o elenco dos pornôs do Mojica!

Um dos diferenciais de COMANDO EXPLÍCITO é a relação entre o bandido "in love" e sua vítima. Ao invés de partir para o vale-tudo que se espera de um filme pornô da Boca do Lixo, Sternheim mostra o personagem de Antônio Rodi como um homem apaixonado e respeitoso, que, embora obcecado pela menina virgem e disposto a tudo para tê-la, não tenta forçar nada, mostrando-se um autêntico "gentleman" na maior parte do tempo - embora tenha a garota amarrada e vestindo apenas um baby-doll à sua disposição.


O mesmo não se pode dizer do personagem do namorado de Sandra: embora o filme tente vendê-lo como um sujeito apaixonado e romântico, o típico cavaleiro de armadura pronto para salvar sua princesa em perigo, o rapaz aparece o tempo todo disparando frases de pedreiro como "Onde esse cabacinho for, eu vou", ou "Sou gamado no cuzinho da Sandra"!!!

E não pense que o filme fica nesse lance psicológico e de amor proibido. Na maior parte do tempo, COMANDO EXPLÍCITO é um legítimo pornô brasileiro da década de 80, e, como tal, trash até a medula. Quem já viu alguns pornôs da Boca do Lixo sabe que hoje eles funcionam melhor como comédias involuntárias do que propriamente pelo erotismo – se é que algum dia eles já funcionaram nesse departamento, considerando a feiúra dos atores e atrizes que participavam dessas presepadas.


Embora tente soar mais sério e “intelectual” (hehehe) durante a maior parte do tempo, COMANDO EXPLÍCITO também tem várias tiradas hilárias e situações absurdamente cômicas. Um momento antológico: ao entrar na cozinha e perceber que seus colegas já comeram todo o rango preparado pela doméstica, um dos bandidos emenda: "Já comeram tudo? Então vou comer a empregada mesmo!". Dito e feito: o rapaz encosta a moça na mesma mesa em que os companheiros fazem a digestão e manda bala!

Outro momento trash envolve o ataque dos bandidos a uma sauna, antes da invasão ao apartamento da família. É "dia delas", e somente mulheres podem entrar. Ao encontrarem um montão de garotas nuas (a maioria feias de dar medo!), os criminosos começam uma daquelas orgias caligulescas dignas de Sady Baby, em que as "estupradas" passam do protesto ao prazer em questão de segundos.


Aliás, vale lembrar que o crime é planejado pela quadrilha enquanto os marginais estão sentados numa mesa de bar tomando umas geladas. E falam sobre o roubo sem se preocupar em disfarçar. Aos diabos com a discrição, não é mesmo?

No fim, COMANDO EXPLÍCITO pode até ser mais bem acabado e melhor dirigido que a maioria dos pornôs da Boca, mas esse “excesso de qualidade” (assim mesmo, entre aspas) se revela um ponto negativo no conjunto, pois o resultado é muito menos divertido que as absurdas peripécias pornográficas de malucos sem-noção como Sady Baby ou Rubens Prado.


Pode, entretanto, ser uma bela introdução (ui!) para quem não conhece o ciclo pornô oitentista da Boca do Lixo e quer começar seu aprendizado por algum lugar. Também funciona como registro histórico de uma triste página da nossa trajetória cinematográfica, quando diretores competentes tiveram que render-se à putaria para conseguir “sobreviver” no mercado.

Alfredo Sternheim é um desses “heróis”, mas nunca teve vergonha dos filmes pornôs que fazia – por pior que fossem – e assinou todos eles com seu nome de batismo. Pagou o preço com o fim da sua carreira, mas suas obras continuam por aí, à espera de uma revisão com olhar menos preconceituoso.


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Comando Explícito (1986, Brasil)
Direção: Alfredo Sternheim
Elenco: Antônio Rodi, Lia Soul, Rubens Pignatari,
Beth Boop, Priscila Presley, Andréia Araújo, Francisco
Viana, Wagner Maciel e Cristina Gomes.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Os filmes que eu vi no Fantaspoa - Parte 2

FASE 7 (Phase 7, 2011, Argentina. Dir: Nicolás Goldbart)
Imagine "REC" sem aqueles infectados que se transformam em zumbis/demônios; assim é "Fase 7", mais um filmaço vindo dos nossos vizinhos da Argentina, e um dos melhores que vi no Fantaspoa este ano. Inspirado no pânico provocado pelo surto de Gripe A anos atrás, o diretor-roteirista Nicolás Goldbart recria o início de "REC" sem sequer ter visto o filme espanhol, conforme garantiu: um velho edifício é colocado em quarentena pelos órgãos de saúde quando verifica-se um caso de uma gripe raríssima e mortal entre os moradores. Não há os zumbis-demônios de "REC", mas não demora para uma atmosfera de paranóia tomar conta dos residentes, que começam a lutar entre si para proteger suas famílias (por medo de que os vizinhos estejam infectados), ou simplesmente por egoísmo (para roubar víveres que estão em falta em casa). A situação evolui drasticamente até iniciar-se uma pequena guerra entre os andares do condomínio, quando entra em cena um malucão que durante anos vinha se preparando para um futuro apocalipse. Mas o mais legal de "Fase 7" é que, apesar do que o resumo da trama possa indicar, o filme tem uma pegada de humor negro e não busca ser tão sério quanto, por exemplo, "O Exército do Extermínio", de George A. Romero (uma das inspirações do diretor). Até porque o protagonista é um bonachão interpretado pelo astro argentino Daniel Hendler, ótimo no papel de um sujeito normal e covarde obrigado a se transformar em "herói" para proteger a esposa grávida. Um dos momentos mais hilários envolve a tentativa de dois sujeitos de pegar um terceiro numa emboscada sem perceber que um espelho na parede denuncia suas posições. E a trilha sonora é confessadamente inspirada em John Carpenter, o que torna o filme um deleite para os fãs do gênero. Com tantas qualidades, "Fase 7" também é um belo argumento de que ainda existem boas histórias para serem contadas a partir de argumentos batidos, dependendo apenas da criatividade dos realizadores. E Goldbart só comete uma pequena falha, que é a de esquecer a personagem da esposa grávida na segunda metade da trama. Fora isso, seu filme funciona que é uma beleza - e merecia ser mais conhecido.


RAIVA (Kalevet, 2010, Israel. Dir: Aharon Keshales e Navot Papushado)
Esta curiosa mistura de horror e comédia de humor negro vinda de Israel (!!!) é uma bela opção para quem acha que já viu de tudo e gosta de ser surpreendido. A trama começa como centenas de outras produções do gênero: um grupo de jovens pega um atalho errado, acaba numa reserva ambiental abandonada e descobre que há um psicopata à solta. Aí você começa a se ajeitar na poltrona, esperando pela tradicional enxurrada de clichês com uma sensação de "E lá vamos nós de novo". E é exatamente aí que "Raiva" começa a surpreender: o tal psicopata some da narrativa, vários outros personagens entram em cena (como um guarda florestal e uma dupla de policiais bananas), e o inesperado toma conta do filme. Movidos pela raiva do título, amigos se tornam inimigos mortais, desconhecidos se matam por puro acaso ou por uma simples interpretação equivocada ("Ah, pensei que ele fosse o psicopata!"), e torna-se completamente impossível prever para onde a história se encaminha - ou, mais especificamente, quem sobreviverá ao festival de mal-entendidos, se é que alguém escapará vivo! No fim, "Raiva" pode ser descrito como uma mórbida comédia de erros parecida com os melhores trabalhos dos Irmãos Coen, como "Gosto de Sangue" e "Fargo", em que os personagens cometem as maiores idiotices e o espectador se pega rindo de nervoso diante da estupidez geralmente seguida de violência. E os diretores-roteiristas Keshales e Papushado não poupam seus protagonistas: uma das grandes cenas, bastante incômoda inclusive, mostra um cadáver recente sendo enterrado enquanto a mensagem na caixa de recados do seu telefone celular anuncia que ele vai ser pai! Uma ótima recomendação para quem gosta de ver clichês sendo contornados com criatividade, muito sangue e algumas saborosas gargalhadas.


ESCALENO (Scalene, 2011, EUA. Dir: Zack Parker)
O que mais impressiona em "Escaleno", este pequeno grande filme dirigido e co-escrito por Zack Parker, é a sua simplicidade: conta-se uma mesma história a partir de três pontos de vista diferentes, e somente no terceiro e último ato percebemos que a coisa pode não ser como pensávamos que era lá no começo. Não é exatamente uma ideia original, mas a forma como ela é executada é que funciona bem: os três personagens centrais (uma mãe super-protetora, seu filho problemático e a adolescente que aceita a tarefa de cuidar do rapaz) são simbolizados por cores bem marcantes, e a transição de um "ponto de vista" para outro é assinalado pelo uso dessas cores em figurinos, cenários e objetos de cena. É um artifício muito melhor utilizado por Parker aqui do que, por exemplo, no pretensioso "Vermelho, Branco e Azul", de Simon Rumley, que também enfoca diferentes personagens usando três cores, mas de uma forma muito mais pedante. Com uma impressionante atuação de Hanna Hall (que estava péssima como irmã de Michael Myers no "Halloween" de Rob Zombie), "Escaleno" não é exatamente um filme de horror; está mais para um drama pesado, embora a surpresa da mudança de ponto de vista da metade para o final torne-o atraente também para quem gosta de thrillers e histórias de mistério. Também serve como impressionante demonstração de domínio da câmera pelo novato Parker, que usa takes longos e momentos de silêncio sem ser chato ou abusar do recurso, além de diferentes artifícios narrativos, da última cena no começo do filme à câmera assumindo a visão em primeira pessoa de um dos personagens. Sem contar que sempre é bom ouvir um cineasta iniciante, que fez um filme usando cores como elemento principal da narrativa, dizer que conhece o trabalho do italiano Mario Bava - conhecido justamente pela marcante fotografia multi-colorida dos seus clássicos. Vale a pena acompanhar os futuros trabalhos do cara.


CARNE CRUA (Carne Cruda, 2012, Espanha. Dir: Tirso Calero)
Duas divertidas comédias exibidas no Fantaspoa 2012 deram um novo olhar sobre temas já explorados "ad nauseam": enquanto o canadense "A Little Bit Zombie" (veja abaixo) buscou uma abordagem diferente dos filmes de zumbis (assunto que já está até ficando chato), o espanhol "Carne Crua" brinca com aquelas produções italianas sobre canibalismo, com citações abertas a "Cannibal Holocaust" e a reverência do diretor-roteirista Tirso Calero a mestres como Lucio Fulci e Mario Bava. A narrativa lembra muito a linguagem televisiva (o diretor trabalha na TV espanhola), numa comédia fanfarrona que conta a história de dois casais que topam com uma seita secreta de canibais na visita a um acampamento de férias abandonado. O protagonista é mordido por um deles e, algo como zumbi, começa a manifestar um desejo irresistível de provar carne humana - um novo hábito que gerará muitas confusões. O próprio Tirso declarou que seu filme foi feito exclusivamente para os fãs do gênero, os únicos que saberão captar o humor referencial e até metalinguístico (um dos personagens chega a cogitar seu retorno numa continuação, piada que até eu usei em "Entrei em Pânico ao Saber o que Vocês Fizeram na Sexta-feira 13 do Verão Passado"). Realmente, imagino que o espectador "comum" não pegará piadas como a participação especial do diretor espanhol Nacho Vigalondo, tentando vender a "última casa à esquerda na colina que tem olhos" (brincando com os títulos originais de "Aniversário Macabro" e "Quadrilha de Sádicos", de Wes Craven). Mas há algo de universal nas piadas calcadas em mulher pelada, baixaria e violência exagerada, que provavelmente funcionarão também com outros públicos - embora eu, particularmente, tenha curtido o filme por identificar-me com o tipo de humor escrachado e referencial do realizador.


UM POUQUINHO ZUMBI (A Little Bit Zombie, 2012, Canadá. Dir: Casey Walker)
O que "Tucker & Dale Enfrentam o Mal" fez pelos filmes sobre "caipiras psicopatas" anos atrás, o divertido "Um Pouquinho Zumbi" faz agora pelos filmes sobre mortos-vivos comedores de cérebros. Ok, eu vou confessar aos nobres leitores que já fui um apaixonado por filmes de zumbis, mas hoje não posso mais nem ouvir falar do assunto, tal a quantidade de produções do gênero (extremamente repetitivas e pouco originais) lançadas todo ano. Não é o caso aqui: com um roteiro inspiradíssimo em mãos (assinado por Christopher Bond e Trevor Martin), o diretor Walker realizou uma comédia despretensiosa com um pé na fantasia (graças à insólita dupla de caçadores de zumbis guiados por uma... bola de cristal!) e, o que importa, ENGRAÇADÍSSIMA! A trama acompanha dois casais passando o final de semana numa casa de campo. Um dos rapazes - um pateta que está prestes a se casar - é infectado por um vírus-zumbi e começa a manifestar bizarro gosto culinário por cérebros, preferencialmente frescos. Mas sua noiva, que não quer desmarcar o casamento nem que tenha que entrar na igreja com o noivo putrefato, resolve ajudá-lo a adaptar-se à "nova condição". Segue-se um festival de piadas de rolar de rir, como o ataque do protagonista "meio-zumbi" à mascote da noiva (um inocente coelhinho). E o veterano Stephen McHattie (o Coruja original de "Watchmen") rouba toda cena em que aparece como o troglodita caçador de zumbis. "Um Pouquinho Zumbi" guarda certas semelhanças com outro filme independente chamado "The Revenant" (2009), em que um morto-vivo de primeira viagem também precisava lidar com sua nova condição. Mas narra a história parecida com frescor e originalidade. O que me faz pensar: por que diabos continuam fazendo vinte filmes de zumbis iguais uns aos outros todo ano (incluindo personagens que precisam aprender que morto-vivo só morre com tiro na cabeça), se ainda é possível enfocar novas olhares sobre um mesmo tema, como vemos aqui? Um filme que mereceria um grande lançamento comercial.


VINGANÇA SEM LIMITES (The Girl from the Naked Eye, 2012, EUA. Dir: David Ren)
Esta aventura simples e divertida, que parece uma mistura de "Sin City" e "Drive" com os filmes de pancadaria made in Hong-Kong, foi outra das simpáticas surpresas do festival. Jake é um motorista calado e valentão (hmmm, onde já vi isso antes?), que transporta prostitutas de um cabaré local para seus programas, zelando também pela segurança das garotas. Quando uma delas é assassinada, e justamente aquela por quem o herói era apaixonado, a porrada rola solta numa sangrenta busca por vingança. O filme surpreende com sua atmosfera ora noir, ora comicamente exagerada e cartunesca, lembrando história em quadrinhos (tanto que o filme começa e termina com uma revista abrindo e se fechando, como se fosse uma legítima "pulp fiction" de ação barata). E o herói Jason Yee, também roteirista, luta pra caramba - anos atrás ele já tinha dirigido, escrito e estrelado (!!!) a aventura "Dragão Negro", que passou batida. Por sinal, uma das melhores coisas de "Vingança Sem Limites" é que as cenas de pancadaria são filmadas como deve ser: câmera imóvel em planos mais abertos, permitindo que o espectador enxergue (e entenda) o que se passa. A grande cena do filme é uma recriação de um plano-sequência de "Oldboy", em que o protagonista lutava contra vários oponentes ao longo de um corredor, sempre seguido pela câmera. Arrisco afirmar que a homenagem feita aqui ficou bem melhor que a cena original, com o pau comendo ao som de "Bolero", de Ravel - numa união perfeita de imagem e som. O resultado é uma aventura bem-realizada e sem frescura, que talvez só peque na insistência em tentar soar "moderninha" ao copiar os filmes que Guy Ritchie e Tarantino faziam nos anos 90 (e que já não são "modernos" há mais de uma década). Os personagens excêntricos com diálogos engraçadinhos parecem ter fugido do universo de "Snatch" ou "Pulp Fiction", algo que hoje pode até soar meio jurássico. Perdoando esse defeito (que para alguns pode até passar como qualidade), o filme funciona que é uma beleza. E não tem câmera tremida nas lutas. Precisa de mais algum argumento? Não leve a sério, divirta-se e olho vivo para reconhecer as pequenas participações da musa pornô Sasha Grey e da ex-Lolita Dominique Swain.


O INFERNO (El Infierno, 2010, México. Dir: Luis Estrada)
Você já viu "O Inferno" antes, só que ele se chamava "Traffic", "Scarface", "Profissão de Risco"... Há bem pouco de novo na história de um chicano que volta miserável ao seu país, depois de anos trabalhando como ilegal nos EUA, e precisa virar capanga de um poderoso traficante de drogas para conseguir viver. Seu irmão mais novo teve o mesmo destino alguns anos antes, mas acabou crivado de balas, portanto nosso protagonista herda não apenas a profissão e a esposa do finado (uma prostituta de bordel barato), mas também o provável mesmo destino. Considerando a falta de novidades na tradicional historinha de ascensão e queda de um bandido, é questionável a longa duração desse filme, que torna-se um tanto repetitivo ao longo de suas quase 2h30min de projeção. Mesmo assim, "O Inferno" não é nem um pouco desprezível e consegue manter-se um tantinho acima da média ao desmistificar o "trabalho" dos traficantes de drogas, usando um bizarro humor negro para retratar a sangrenta rotina dos criminosos - como na cena em que o protagonista e um colega dissolvem um cadáver em ácido às gargalhadas, e ao som de uma música festiva, como se aquela fosse uma tarefa corriqueira do dia-a-dia! Lembrando um Tarantino mexicano, o diretor-roteirista Luis Estrada põe seus traficantes e assassinos frios para falar bobagem e discutir amenidades, além de resgatar atores outrora conhecidos do cinema mexicano (como Mario Almada e Isela Vega) em pequenas participações. Só não pense estar diante de uma comédia; pelo contrário, Estrada às vezes pega pesado em cenas brutais que têm o impacto de um soco no estômago, como a execução de um informante com serra elétrica, numa citação mais do que escancarada a "Scarface". Ou o final irônico, em que praticamente todas as instituições sociais (Família, Igreja, Políticos, Forças Armadas) são chacinadas de uma única vez. Para quem não se assustar com a longa duração (que nunca se justifica, pois o filme podia tranquilamente ter uns 40 minutos a menos), é um passatempo divertido, engraçado e sanguinolento, que aborda um problema social sério - o narcotráfico nas pequenas cidades da fronteira mexicana - sem soar chato e pedante como uma aula de sociologia (ou como 90% das produções brasileiras sobre o mesmo tema).


ALUCARDOS - RETRATO DE UM VAMPIRO (Alucardos, 2010, México. Dir: Ulises Guzmán)
Misturando documentário e ficção através de imagens belíssimas, o mexicano Guzmán conta aqui os bastidores de um clássico do cinema de lá - "Alucarda" (1978), de Juan López Moctezuma -, a partir de duas linhas narrativas: a vida sui generis do seu diretor e a impressionante história real de Manolo e Lalo, dois amigos tão obcecados por "Alucarda" que chegaram a sequestrar Moctezuma do sanatório onde ele estava internado para ouvir do próprio cineasta o seu relato pessoal sobre a realização da obra. Para melhor apreciar ambos os temas, porém, é necessário ter um mínimo de conhecimento sobre "Alucarda", já que o filme é mencionado durante 80% do tempo - e a exibição de cenas-chave com os respectivos comentários pode estragar a surpresa de quem ainda não viu. "Alucardos" acaba sofrendo um pouco com o excesso de informação, já que tanto a trajetória bizarra de Moctezuma quanto a obsessão da dupla de fãs pela obra do diretor são histórias reais igualmente interessantes e renderiam seus próprios filmes separadamente. E como ambas são contadas de maneira intercalada - pulando o tempo inteiro do diretor para os fãs e então de volta para o primeiro, e assim sucessivamente -, às vezes a narrativa parece perder um pouco o foco. Mas fãs de horror em geral têm a obrigação de conhecer, seja pelas hilárias histórias dos bastidores de "Alucarda" e anedotas sobre a carreira do seu diretor, seja pelo amor incondicional de Manolo e Lalo pelo seu filme preferido - uma paixão cinéfila de emocionar.


CENTOPÉIA HUMANA 2 (The Human Centipede II - Full Sequence, 2011, Holanda. Dir: Tom Six)
O pior filme que vi no Festival, ao lado do patético "Shiver". Só para deixar claro desde o início: eu realmente achei o primeiro filme bem legal. Lá, o diretor-roteirista Tom Six teve uma ideia extremamente escrota, mas executou-a com certa elegância e muita sutileza - e acho que a situação ficou mais tensa e asquerosa dessa forma apenas sugerida. Aí chega o segundo filme e Six joga a sutileza no lixo, com direito a uma quantidade absurda de grosserias por minuto. Claro, para alguns espectadores é JUSTAMENTE ISSO que interessa, bem como a capacidade do sujeito conseguir ser mais e mais ofensivo. Para mim, soou menos como filme e mais como uma provocação infantil do diretor para aqueles que reclamaram que o primeiro não era tão explícito ("Ah é? Agora vocês vão ver!"). O resultado é um autêntico tiro no pé: as cenas que deveriam ser chocantes são apenas engraçadas, o exagero torna tudo ridículo, e a melhor ideia (a questão da metalinguagem, já que o psicopata aqui é obcecado pelo primeiro filme) é esquecida em segundos - até porque o título em si é uma armadilha, e o diretor precisa mostrar uma "centopéia humana" para não parecer propaganda enganosa, embora o mais interessante dessa continuação seja a forma como o filme original afetou o vilão, e não propriamente a criação do "bicho"! Isso sem contar a pretensão "artística" de filmar em preto-e-branco, algo sem qualquer justificativa, ou o final dúbio que permite pelo menos duas interpretações completamente diferentes - e ambas bem embaraçosas. Six sequer tem um roteiro para desenvolver, e prefere catalogar um asqueroso festival de agressões e mutilações perpetradas por um vilão gordo e escroto. Os personagens das vítimas não têm nomes ou prévia apresentação, e a maioria nem ao menos tem diálogos! Até as intermináveis continuações de "Sexta-feira 13" tinham mais história para contar. E confesso que também saí da sessão vendo "Centopéia Humana 2" como o ponto mais baixo que o cinema "comercial" já atingiu - e, sinceramente, se alguém quiser bater esse recorde, eu não estarei lá para ver. Os defensores de Six e dessa bobagem de mau gosto alegam que sua principal "qualidade" (tá certo...) é justamente a falta de vergonha na cara do diretor e a maneira como ele não se importa em pegar cada vez mais pesado (tipo o sexo anal com arame farpado enrolado no pinto). Tudo bem, só que esse argumento também autoriza qualquer um a fazer qualquer coisa. Confesso que esse não é o meu tipo de filme: eu gosto de um mínimo de narrativa e de propósito, não de uma mera sequência de tortura e morte, como a mostrada aqui. E Six já anunciou um terceiro filme para breve. Vem cá, cara, não está na hora de mudar de assunto, não?

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Os filmes que eu vi no Fantaspoa - Parte 1

INATO (Inbred, 2011, Reino Unido. Dir: Alex Chandon)
Uma das grandes surpresas do Fantaspoa 2012, e que eu ia deixar passar se não fosse a recomendação do Cristian Verardi. Para ir direto ao assunto, este aqui é o grande filme sobre caipiras psicopatas que o Rob Zombie tentou fazer duas vezes (com "A Casa dos Mil Corpos" e "Rejeitados Pelo Diabo"), mas cagou fora da panela. Já o diretor inglês Alex Chandon dá uma aula de conhecimento do tema e do gênero, citando uma infinidade de filmes dos anos 70-80 ao contar a história de quatro jovens problemáticos levados por seus tutores até uma cidadezinha da região rural da Inglaterra. Era para ser um final de semana de diversão, mas no momento em que o pessoal da cidade grande cruza com os caipiras, começa um banho de sangue que remete a clássicos como "Amargo Pesadelo", "O Massacre da Serra Elétrica" e "2.000 Maniacs". A exemplo dos clássicos citados, a história tem um desenvolvimento lento na primeira parte, descambando para o horror explícito apenas da metade para o final. E tome sangue, mutilações e tripas em cenas gráficas e exageradas (a câmera nunca desvia do alvo), produzidas ora com efeitos práticos (aleluia!), ora com uma ajudinha de retoques digitais. E é um caso raro em que a computação gráfica ajuda ao invés de comprometer: a lenta decapitação de um sujeito a golpes de cutelo é digna de figurar entre os melhores momentos do gênero desta década! Felizmente, "Inato" não é sério e pesado como as produções que reverencia, e Chandon prefere entregar um humor negro crudelíssimo, inclusive com uma asquerosa "homenagem" ao modismo do cinema 3-D. No fim, essa pérola é mais uma prova de que os estúdios não entendem porra nenhuma, pois funcionaria muito melhor como refilmagem de "2.000 Maniacs" do que aquele lamentável remake oficial feito pelo Tim Sullivan em 2005. Também demonstra a notável evolução do diretor Chandon num período de dez anos, considerando que ele foi o sujeito responsável pelo péssimo "Nascido do Inferno" (2001), aquele terror podreira estrelado pelo roqueiro poser Dani Filth. É uma evolução praticamente da água para o vinho, e eu espero MESMO que Chandon continue fazendo filmes de horror tão divertidos, descerebrados e sanguinolentos quanto este. E vê se aprende uma ou duas coisas com "Inato" antes de fazer um novo filme sobre caipiras psicopatas, Rob Zombie!


CELL COUNT (2012, EUA. Dir: Todd E. Freeman)
Em um lugar e em uma época não-identificados, um marido desesperado aceita submeter sua esposa acometida por doença terminal a um misterioso tratamento revolucionário que promete a cura instantânea. Mas, como estamos numa história confessadamente inspirada na obra do canadense David Cronenberg, é claro que a tal cura logo vai se revelar bem mais perigosa do que a doença... "Cell Count" foi o filme de encerramento do Fantaspoa 2012, e teve sua estréia mundial no festival gaúcho, o que criou um ar de forte expectativa pela obra do diretor-roteirista Todd E. Freeman (um sujeito muito simpático que participou do festival desde o primeiro dia). Apesar das referências explícitas a Cronenberg e a "O Enigma do Outro Mundo", o horror médico-científico orquestrado pelo jovem cineasta lembrou-me muito mais o filme australiano "Corrosão - Ameaça em Seu Corpo", de Philip Brophy, com o qual tem em comum a narrativa fragmentada que vai empilhando efeitos repulsivos de mutações dos personagens - todos submetidos à "cura" e mantidos em quarentena num laboratório de segurança máxima. Algumas cenas são visualmente impactantes, como a do sujeito que tem a cabeça toda coberta por uma segunda pele e vira uma criatura asquerosa (em destaque na arte do pôster). Freeman também acerta em fugir dos clichês, e mantém o espectador entre interessado e incomodado ao não explicar direito o que está acontecendo. Infelizmente, "Cell Count" tem uma conclusão de certa forma decepcionante, anunciando que a história continuará em uma futura Parte 2. Como nada é resolvido e não há sequer algo parecido com um desfecho - pelo contrário, a ação é interrompida literalmente no meio! -, não deixa de ser injusto com a audiência, a exemplo do que já havia feito, anos atrás, o filme espanhol "O Legado Valdemar" (que também parava na melhor parte e obrigava o espectador a esperar pela Parte 2). É algo tão brochante quanto coito interrompido. Mas, entre erros e acertos, o negócio agora é esperar (à força) pela conclusão da trama, já que Freeman promete que "Cell Count 2" será completamente diferente do primeiro e uma mistura de "Aliens - O Resgate" e "Mad Max 2". E, conversando com o sujeito, percebe-se claramente que ele usou este primeiro filme para apresentar as ideias que pretende desenvolver de maneira mais ambiciosa no próximo filme. Certamente estarei no cinema quando estrear.


A ESCALA DA AGRESSÃO (The Aggression Scale, 2012, EUA. Dir: Steven C. Miller)
Se "Esqueceram de Mim" tivesse sido dirigido por Wes Craven, o resultado seria algo bem próximo desse "A Escala da Agressão" - outra das boas surpresas do Festival. A trama é simples e vai direto ao assunto sem enrolação: Ray Wise (em participação minúscula) é um chefão do crime que manda um grupo de capangas truculentos atrás de um traidor que roubou seu dinheiro. Vários inocentes são mortos brutalmente, até que os bandidos chegam ao verdadeiro responsável. Só que eles também encontram um obstáculo inesperado: um garotinho problemático que começa a combater os sádicos criminosos de igual para igual, com muita esperteza e armadilhas cada vez mais tenebrosas. A "versão malvada" de Macaulay Culkin é Owen (Ryan Hartwig), um pequeno diabinho que faria a órfã do filme homônimo mijar nas fraldas de medo. E, felizmente, o roteiro de Ben Powell não tenta inflar o "heroísmo" do garoto e nem esconder o fato de que, na verdade, ele é um verdadeiro psicopata mirim, mais ou menos como se o Michael Myers moleque deixasse a série "Halloween" para invadir um outro filme. O diretor Miller não poupa na violência e na brutalidade (em cenas com participação direta da criança, sem frescura), de maneira que não fica absurdo quando os experientes bandidões (incluindo o gigante Derek Mears, o Jason do remake de "Sexta-feira 13") começam a ficar com medo do moleque. Uma curiosidade (e também uma bela surpresa) é a participação de um envelhecido Dana Ashbrook, ator medíocre que, aqui, está muito bem como Lloyd, o líder dos capangas, e quem mais sofre nas mãos do garoto. Temos, assim, dois atores do seriado "Twin Peaks" no mesmo filme: o pai (Wise) e o namorado (Ashbrook) de Laura Palmer. Despretensioso, sem lero-lero, rápido e rasteiro, "A Escala da Agressão" é um belo argumento para ficar de olho no trabalho de Steven C. Miller, que já havia chamado a atenção com o independente "Automaton Transfusion" e está terminando de filmar o remake de "Natal Sangrento" (com Malcolm McDowell no elenco!).


CALIBRE 9 (2011, França. Dir: Jean-Christian Tassy)
A estréia cinematográfica do diretor-roteirista francês Jean-Christian Tassy é uma aventura tão absurda e tão estúpida que, em vários momentos da projeção, eu realmente comecei a me questionar porque diabos estava assistindo aquilo. É necessário desligar o cérebro para poder engolir melhor a história de um burocrata do governo, Yann (Laurent Collombert), transformado da noite para o dia em super-assassino invencível quando encontra uma pistola possuída pela alma de uma prostituta assassinada!!! Não, você não leu errado: o cara encontra uma arma que contém a alma de uma mulher, e ela não apenas conversa o tempo inteiro com o herói (!!!), mas também pode obrigá-lo a fazer coisas, no estilo daquela velha comédia "Um Espírito Baixou em Mim". Esse "pequeno detalhe" fantasioso serviria para transformar "Calibre 9" em uma absurda comédia de humor negro, caso seus realizadores não levassem a piada muito a sério durante a maior parte do filme. E as cenas de ação são bem convencionais, resumindo-se ao mira-atira-faz sangue jorrar. Tudo embalado com uma irritante embalagem "moderninha" de cortes ultra-rápidos, câmera sacolejante, filtros coloridos e efeitos visuais de todos os tipos e tamanhos, remetendo a um videoclipe grosseiro de alguma banda do momento. Mas quem conseguir abstrair tudo isso encontrará um filminho razoavelmente divertido para tardes chuvosas, e que começa a ficar melhor na metade final, quando o diretor perde completamente a vergonha na cara e vai deixando a coisa cada vez mais exagerada - com direito a um tiroteio em que o vilão metralha, sem dó nem piedade, dezenas de vítimas inocentes, incluindo garotinhos que brincam num parque infantil! E o herói interpretado por Collombert até que funciona, lembrando muitas vezes uma cópia pobretona de Jason Statham na série "Carga Explosiva", com a mesma careca e o mesmo terninho sujo de sangue. Para públicos específicos, que não se importem com a imbecilidade da proposta (arma falante? pfffff...).


PEQUENOS MONSTROS (Little Monsters, 2012, EUA. Dir: David Schmoeller)
O retorno de David Schmoeller depois de 14 anos sem fazer um filme para cinema é uma bela surpresa. Para quem não lembra, o sujeito tem um passado repleto de preciosidades do horror barato feitas para as produtoras Empire e Full Moon, de Charles Band (entre elas, "Armadilha Para Turistas", "Bonecos da Morte" e "Catacumbas"). Em seu retorno às telas, ele preferiu explorar a maldade humana em uma produção mais séria e dramática a fazer outro horror barato e sanguinolento. A história de dois garotos de 10 anos que matam um menino de 3 anos sem motivo algum é inspirada num chocante episódio real, o assassinato do menino James Bulger, acontecido em Londres no começo dos anos 90. Schmoeller pula os detalhes macabros do crime e muda a localização da história para os EUA, dando assim a sua própria versão do que teria acontecido aos dois pequenos assassinos quando eles atingiram a maioridade e foram libertados da prisão com identidades falsas e novas famílias adotivas. A reintegração à sociedade não é tão simples, e um dos rapazes decide procurar pelo ex-colega de crime para "acertar as contas". Paralelamente, o roteiro critica o circo da mídia sensacionalista, na pele de dois repórteres de tablóide que recebem a missão de descobrir e revelar as novas identidades dos "pequenos monstros". A produção é barata até para os padrões de Schmoeller, que revelou não ter pagado nenhum dos atores - a maioria em seu primeiro filme. O diretor também não escapa de alguns clichês, como o garoto malvado que aparece sempre fumando e que exagera nos trejeitos de psicopata. E não dá a devida atenção a um personagem interessante: o homem que caça os dois rapazes com a intenção de matá-los para "tranquilizar" a opinião pública. Descontando esses defeitos, "Pequenos Monstros" é uma mistura eficiente de suspense e drama, curiosa também por resgatar um episódio trágico que estava quase esquecido, e com uma conclusão irônica que não faz nenhum julgamento. Pode até não ser o filme que se esperava do mesmo David Schmoeller que dirigiu "Armadilha Para Turistas" e "Bonecos da Morte", mas é um retorno bem decente ao cinema depois de mais de uma década de curtas e produções para a TV.


SHIVER (2011, EUA. Dir: Julian Richards)
Indiscutivelmente um dos piores filmes do Fantaspoa 2012, "Shiver" é uma produção extremamente convencional que narra, pela enésima vez, a história de um terrível assassino obcecado por uma jovem vítima, e que passa o restante do tempo de projeção enganando a polícia e perseguindo a pobre coitada. Ou seja, uma trama trivial mais apropriada para o Supercine do que para as salas de cinema. Só que o resultado consegue ser ainda pior graças ao roteiro do produtor Robert D. Weinbach (baseado num livro de Brian Harper), praticamente uma coletânea de todos os clichês mais batidos do gênero - do assassino que se disfarça de policial até o cobertor colocado nas costas da vítima que escapou de um ataque (e eu realmente queria saber se, na vida real, a polícia norte-americana distribui cobertores para as vítimas de crimes!). Parece que não pode piorar, mas a coisa só vai ladeira abaixo: o serial killer, auto-intitulado "The Griffon", é interpretado pelo australiano John Jarratt (o vilão de "Wolf Creek"), mas não tem como acreditar que um velhinho como ele possa fazer tanto estrago, com direito a uma cena final parecida com o ataque de Schwarzenegger à delegacia em "O Exterminador do Futuro". Isso sem contar que o vilão é tão chato que poderia matar suas vítimas de tédio. Já a mocinha em perigo é interpretada por Danielle Harris, que enfrentou Michael Myers quatro vezes (duas na série original e duas nos remakes de Rob Zombie), mas pelo visto não aprendeu nada, pois tem 200 chances de fugir e/ou matar o vilão, mas sempre as desperdiça. E, para arrematar, temos a presença de dois veteranos do cinema classe B, Casper Van Dien e Rae Dawn Chong (!!!), mas eles passam pelo filme como mero enfeite, sem fazer absolutamente nada que justifique suas presenças. "Shiver" é, portanto, um filme constrangedor, e a presença do próprio produtor e roteirista Weinbach no Fantaspoa tornou tudo mais surreal, pois ele falava do filme como se fosse a oitava maravilha do mundo! A direção do inglês Julian Richards ("The Last Horror Movie") é convencional, e algumas poucas cenas bastante violentas (como a vítima que tem o pescoço brutalmente cortado pelo vilão com um garrote) não salvam o projeto do fiasco. Não consegue nem mesmo ser divertido de tão ruim: é apenas ruim, e totalmente deslocado no tempo, já que talvez conseguisse atrair alguma atenção se fosse feito vinte anos atrás, na época de "O Silêncio dos Inocentes", e não hoje, depois de dezenas (quiçá centenas) de filmes idênticos sobre serial killers à solta...


A MEMÓRIA DO MORTO (La Memoria del Muerto, 2012, Argentina. Dir: Valentín Javier Diment)
Já virou clichê dizer que o cinema argentino está dando uma surra no cinema brasileiro. Quando o assunto é cinema fantástico, então, a surra passa a ser um autêntico linchamento: infelizmente ainda vai demorar um bom tempo para que o Brasil consiga produzir algo no nível de "A Memória do Morto", esta surpreendente fábula de horror dos hermanos, que cita desde o cinema europeu (no uso das cores em cenários e figurinos) até "Evil Dead" (nos frenéticos movimentos de câmera). O roteiro conta a história de uma viúva que reúne um grupo de amigos para honrar a memória do seu recentemente falecido marido, num casarão perdido no meio do nada. Quando a noite cai, ela confessa que tudo faz parte de um diabólico plano para trazê-lo de volta à vida. A partir de então, os convivas não podem mais sair da casa, pois serão atacados pela força diabólica que cerca o local, mas tampouco estão seguros lá dentro, onde começam a ser brutalmente assassinados um a um. A melhor coisa do filme é que ele escapa de ser apenas mais um slasher ao mergulhar personagens e espectadores num clima opressivo de pesadelo, fazendo uso de uma direção de arte fascinante que lembra muito os filmes de Guillermo del Toro. Numa das melhores cenas, aparece até uma pequena fantasminha sem olhos que é bem parecida com aquele famoso monstrengo de "O Labirinto do Fauno". E os hermanos não economizam na violência, promovendo um banho de sangue que inclui até cabeça decepada com serra elétrica! Para completar, a conclusão fecha o filme com chave-de-ouro, num final que não apenas é surpreendente, mas também tragicamente irônico. Resumindo: uma obra a ser conhecida - e lembrada com pesar toda vez que um novo "filme de horror brasileiro" chegar aos cinemas ou ao circuito alternativo. Dá até uma tristeza lembrar que ainda vai demorar bastante para atingirmos o nível de excelência demonstrado pelo diretor Diment e sua trupe aqui em "A Memória do Morto"...


PRAGA ZUMBI: REVOLUÇÃO TÓXICA (Plaga Zombie: Revolución Tóxica, 2011, Argentina. Dir: Pablo Parés, Hernán Sáez e Paulo Soria)
E se as produções profissionais made in Argentina já nos dão um baile (vide acima), o que dizer dos filmes independentes? Esse "Praga Zumbi" teoricamente é uma brincadeira feita por amigos no fundo do quintal e com alguns poucos trocados, mas parece superprodução hollywoodiana perto da maioria dos "independentes" brazucas. Trata-se da terceira parte de uma série de filmes de baixíssimo orçamento que começaram a ser produzidos pela mesma turma de amigos lá no começo dos anos 90 (o primeiro ainda filmado em VHS!). A diferença é que agora a produção é um pouquinho mais profissional, embora mantenha as piadas infames e escatológicas no nível das obras da Troma. A história começa exatamente onde a segunda parte (feita em 2001!!!) terminou, com o trio de heróis Max Giggs, Bill Johnson e John West descobrindo que os zumbis que invadiram sua cidade são, na verdade, hospedeiros de criaturas alienígenas. Agora, eles precisam destruir a nave-mãe que sobrevoa o local e impedir que os aliens dominem o mundo, utilizando para isso um "zumbi de Tróia" (!!!) com o bucho cheio de pólvora. O fiapo de história é mera desculpa para um festival de trapalhadas e gore cômico à la "Fome Animal". As piadas nem sempre funcionam, mas divesas delas são hilárias, como o agente do FBI que passa o filme sendo atacado e perdendo partes do corpo, ou a relação afetiva de um dos heróis com o "zumbi de Tróia". Talvez o filme seja longo demais (e os ataques de zumbis começam a ficar repetitivos e arrastados na segunda metade), mas é impossível não se surpreender com a qualidade do que é, na essência, uma produção independente e amadora. Destaque também para a fabulosa sequência musical, quando os heróis e os zumbis param tudo para dançar e cantar (e a musiquinha é daquelas grudentas, que o espectador se pega assobiando semanas depois de ter visto o filme). Uma grande bobagem, mas divertida e bem produzida, além de realizada com visível paixão.


THE ROAD (2011, Filipinas. Dir: Yam Laranas)
Um daqueles casos clássicos de "bonitinho, mas ordinário", esse curioso horror filipino conta uma história dividida em três partes interligadas. Começa na atualidade (no caso, em 2008), quando três jovens que roubam o carro dos pais de um deles se perdem numa estrada deserta e são assombrados por fantasmas. A partir daí, a trama começa a voltar no tempo para mostrar episódios acontecidos em 1998 e em 1988, e que explicam o porquê das assombrações da primeira parte, envolvendo um caso de desaparecimento nunca resolvido pela polícia. Segundo o diretor Laranas, que esteve no Fantaspoa, o roteiro foi baseado num crime real acontecido nas Filipinas e que também nunca foi resolvido pela polícia. O grande problema de "The Road" é que o filme é belissimamente fotografado (bonitinho), mas burocrático, sem surpresas e desprovido de emoção em seu desenvolvimento (ordinário). Além disso, nunca assusta ou surpreende o espectador, embora tente fazer isso várias vezes. A primeira história, principalmente, é tenebrosa no mau sentido, com uma quantidade absurda de clichês somada ao comportamente debilóide dos personagens. Já as outras duas eliminam um pouco o elemento sobrenatural para explicar os crimes que geraram a "maldição" e a própria infância e motivação do assassino, um dos pontos altos do filme, mas daí já é tarde demais para conseguir salvar o resultado final. A impressão que dá é que o diretor se perdeu nas curvas, podia ter enxugado o roteiro e enfocado a situação de uma outra maneira. Sem contar que o último episódio é tão melhor dirigido que os outros dois que até parece um outro cineasta comandando a câmera. No conjunto, um filme bem realizado tecnicamente, mas enfadonho e repetitivo (até tirei duas sonecas lá pela metade). E será particularmente irritante para quem já viu mais de um filme oriental sobre fantasminhas vingativos (tipo a franquia "Ju-On").


BAD ASS (2012, EUA. Dir: Craig Moss)
A grande piada de "Machete", de Robert Rodriguez, era colocar o feioso Danny Trejo, mais conhecido pelos seus papéis de vilão, como protagonista. Infelizmente, a brincadeira não passou disso e o resultado foi bem abaixo da média. Agora, "Bad Ass" repete o mesmo erro e também se demonstra um filme de uma piada só. Trejo interpreta Frank Vega, um veterano do Vietnã que, aos sessenta e poucos anos de idade, dá uma surra em dois neonazistas num ônibus e vira herói popular da noite para o dia graças ao YouTube. O mais bizarro é que o episódio foi baseado numa história verdadeira: em 2010, um coroa fortão de 67 anos chamado Thomas Bruso, usando uma impagável camiseta onde lia-se "I Am a Motherfucker", deu uma sova daquelas num rapaz negro que procurava confusão durante uma viagem de ônibus. O vídeo da surra, gravado com um celular, virou febre no YouTube (acompanhe toda a história do caso e da sua repercussão aqui). "Bad Ass" até é divertido e interessante em seus primeiros 20 minutos, quando enfoca o episódio real e a inacreditável transformação de Vega em herói do bairro. Sem contar que é curioso o fato de um filme basear-se num vídeo de sucesso do YouTube! Mas logo o diretor-roteirista Craig Moss perde a mão e transforma a história em mais um "Desejo de Matar" genérico e sem grandes ousadias ou reviravoltas. E nem dava para esperar coisa melhor de um cara que dirigiu duas comédias absurdamente ruins (uma delas é "A Saga Molusco: Anoitecer"!). As cenas de ação não empolgam, o roteiro é ridículo e cheio de furos (o que um velhote sem-teto faz com um pendrive contendo informações secretas envolvendo o prefeito da cidade?) e bons atores, como Ron Pearlman, fazem apenas participações especiais de poucos minutos. Tirando uma ou outra cena mais inspirada, como o sangrento interrogatório em que a mão do sujeito é colocada no triturador de lixo, o resultado é uma aventura burocrática que até diverte, mas some da memória tão logo os créditos finais começam a subir. Uma pena, considerando que, com um bom diretor e um bom roteiro, poderíamos ter uma curiosa variação de "Gran Torino" ou "Harry Brown", outras duas aventuras recentes com heróis geriátricos. Como não é o caso de bom diretor e de bom roteiro, até mesmo a idade avançada do herói é esquecida em poucos minutos! E se Trejo até se sai bem como protagonista, infelizmente "Bad Ass" cai nas mesmas armadilhas de "Machete" - e nosso herói novamente não aparece catando a mocinha bonita!

segunda-feira, 30 de abril de 2012

LUNAR COP - O VINGADOR (1995)


(Esta é a terceira resenha de aventura pós-apocalíptica em sequência, depois dos textos sobre "Cyborg - O Dragão do Futuro" e "Condição de Defesa". Será que o medo do 2012 está se manifestando inconscientemente aqui no FILMES PARA DOIDOS?)

Bastante popular na década de 80, o ciclo de aventuras pós-apocalípticas copiando "Mad Max 2" teve uma sobrevida nos anos 1990, quando várias pequenas distribuidoras/produtoras, como Nu Image e PM Entertainment Group, desovaram inúmeras produções desse naipe nas locadoras, no finzinho da Era de Ouro do VHS. Eram títulos como "Fronteira de Aço" (1995, com Joe Lara) e "Cold Harvest - No Limite da Vingança" (1999, com Gary Daniels), entre outros produzidos a toque de caixa.


No meio de muita coisa divertida e de muita coisa ruim, a Nu Image saiu-se com uma pequena preciosidade chamada LUNAR COP. Cá entre nós: quem em sã consciência não ficaria doido para ver uma aventura classe C direct-to-video com o nome de "Policial Lunar"? (Descontando, é claro, aqueles cinéfilos chatos que só querem saber dos novos filmes de Woody Allen, Almodovar e Lars Von Trier.)

Mas calma que não fica só no título fantástico: para dar a todos vocês ainda mais tesão de ver o filme, ele é estrelado pelo decadente Michael Paré, aquele "quase-astro" dos anos 80 (de "Ruas de Fogo" e "Projeto Filadélfia") que jogou sua carreira fora e passou a estrelar essas produções mambembes - além de, mais recentemente, virar coadjuvante de luxo em quase todos os filmes do alemão Uwe Boll!


Epa, mas calma aí que eu ainda não terminei: se Paré é o astro, o "Policial Lunar" do título original, adivinha quem é o grande vilão? Uma dica: nove em cada dez aventuras baratas dos anos 90 traziam o cara como bandidão, e não é o Danny Trejo nem o Richard Lynch. Acertou quem respondeu Billy Drago, em performance doidona como "bad guy" (e eu realmente queria um pouco daquilo que o ator tomou antes de gravar suas cenas nesse filme, porque ele parece completamente maluco!).

E quando você acha que já está bom demais, e morrendo de vontade de assistir LUNAR COP, eis que vem o golpe de misericórdia: o diretor dessa balbúrdia é ninguém menos que Boaz Davidson, um dos sócios da Nu Image, mas também diretor de comédias adolescentes clássicas ("Lemon Popsicle" e sua refilmagem, "O Último Americano Virgem")!


Com toda essa "gente boa" envolvida, mais o fato de ser uma aventura pós-apocalíptica rodada com alguns trocados (orçamento de US$ 4 milhões, segundo o IMDB), LUNAR COP é simplesmente obrigatório para admiradores desse cinema tosco e sem-noção que era produzido para consumo rápido e descartável em nossas locadoras, gerando filmes que hoje são bem mais divertidos do que muito blockbuster bilionário.

Escrito por Terrence Paré (que provavelmente é irmão do astro Michael), o filme começa, claro, na Lua. E por Lua entenda uma paisagem desértica qualquer que foi filmada em preto-e-branco para parecer a paisagem lunar. Alguma vegetação "vaza" volta-e-meia no cenário lunar, mas e daí? Certamente é muito mais barato do que filmar na própria Lua!


Estamos no ano de 2050, e a câmera de Davidson mostra a estação lunar onde vivem os seres humanos que sobreviveram a um desastre ambiental na Terra. A tal estação, claro, é uma maquete das mais fuleiras filmada sobre uma mesa coberta de areia e com uma foto do espaço no fundo.

Dentro da base lunar (pffff...), um personagem não perde tempo em explicar toda a trama, através de um daqueles discursos que começam com um "Como todos sabem...", e então passa a um diálogo expositivo para situar o espectador.

Descobrimos, então, que passaram-se 27 anos desde o "Big Burn" - a destruição da Terra pelo Sol depois do desaparecimento da camada de ozônio. O pessoal da elite conseguiu sobreviver à tragédia indo para a tal base lunar, enquanto os pobres coitados que ficaram na Terra passaram a viver de maneira bárbara num mundo desértico, à la "Mad Max 2".


Descobrimos, também, que os ricaços que vivem na Lua criaram uma fórmula secreta chamada Amaranth, para provocar uma reação química nas nuvens e fazer com que volte a chover. Eles pretendem usar esse negócio para forçar a superfície terrestre a "renascer". Mas membros de um grupo terrorista atacam a base e roubam a fórmula, levando-a para a Terra.

(Pausa: engraçado que, em pleno ano 2050, os sujeitos ainda utilizem armas de fogo de grosso calibre e granadas, mesmo numa estação lunar. Aliás, eu me cagaria de medo de dar tiros e explodir granadas num lugar com atmosfera pressurizada, onde um único buraquinho na parede pode ser necessário para matar todo mundo!)


Preocupados com o destino do tal Amaranth, os governantes da Lua (pffff...) resolvem mandar seu melhor homem para a Terra em busca da fórmula. E o designado para a missão é o policial lunar Joe Brody (Paré, claro!). Esquecem eles, talvez, que a Terra tem uma superfície de 510 mihões de quilômetros quadrados (não faço ideia de quanto isso representa, mas é grande pra caramba!!!), e que um único policial lunar pode demorar séculos para encontrar algo ali - a verdadeira agulha no palheiro.

Bem, talvez houvesse um rastreador no recipiente do Amaranth ou algo do gênero, mas o que importa é que Brody pousa na Terra no exato local para onde os terroristas levaram a fórmula. E, sem qualquer explicação lógica, na cena seguinte à sua saída da Lua, o herói já aparece na Terra dirigindo uma motocicleta (que não se sabe de onde saiu) pelo mundo devastado e desértico!


E é justo no momento em que Paré chega à Terra que LUNAR COP transforma-se numa aventura "mad-maxiana" genérica, com nosso herói esquecendo a missão de reaver o Amaranth para defender uma aldeia de honestos fazendeiros sobreviventes do apocalipse, que vem sofrendo ataques dos bandidos comandados por Kay (Billy Drago, é claro!).

Resumindo: é uma espécie de "Mad Max 2" misturado com "Sete Homens e um Destino" (nesse caso, "Um Único Homem e um Destino") ou "Os Brutos Também Amam" (e pelo menos Joe Brody mata muito mais gente do que o Shane!).


Uma mistura que nem ao menos é criativa, pois além de já existirem inúmeros filmes com trama semelhante, o próprio Paré interpretou O MESMO PERSONAGEM e com A MESMA MOTIVAÇÃO em outra aventura pós-apocalíptica bem mais divertida feita anos antes, "Era da Destruição" (1988).

E por falar em brutos que amam, é claro que o herói logo irá se apaixonar por uma das terrestres, Thora (a linda Walker Brandt, vista mais tarde no ótimo slasher "Malevolence").


O confronto de Brody e seus amigos fazendeiros com os punks malvados de Kay é o ponto alto de LUNAR COP: o herói ensina a galera a se defender (novamente, como em "Sete Homens e um Destino", mas com seis homens a menos), e eles criam armadilhas hilárias como melancias explosivas repletas de pregos (!!!), que, infelizmente, são usadas numa única ceninha.

Quando você acha que a conclusão está próxima, eis que LUNAR COP reserva ainda um terceiro ato que é simplesmente hilário: a elite lunar fica putinha pelo fato de seu melhor policial apoiar os "bárbaros" da Terra devastada e manda um cyborg para eliminá-lo. Aí, o "Mad Max 2" + "Sete Homens e um Destino" ganha uma terceira influência: "O Exterminador do Futuro". É quando Brody e Thora são implacavelmente perseguidos por um fortão com metade do rosto "normal" e metade cibernético (à la Schwarzenegger em "Terminator").


O detalhe é que a maquiagem é tão ruim que parece que o pobre ator está com a cara cheia de merda (no estilo dos zumbis do hilário "Nightmare City", do Umberto Lenzi). Mais tarde, seu rosto todo ficará "deformado", menos a região ao redor dos olhos e o seu pescoço, que pelo visto os maquaidores esqueceram de retocar!!!

LUNAR COP é impossível de levar a sério, e hilário da primeira à última cena - se não pelo seu roteiro frouxo e cheio de furos, ao menos pela sua pobreza e tosquice. Cenários e figurinos são de chorar de rir (Thora, por exemplo, veste-se como se fosse uma princesa da Idade Média!), e é interessante como os bárbaros da Terra devastada não parecem lutar por água ou gasolina, como em "Mad Max 2" e suas cópias; pelo contrário, água e gasolina são usados à vontade durante todo o filme, o que me leva a crer que os vilões são apenas uns xaropes sem nada para fazer além de atacar pobres fazendeiros!


Por falar em cenários, o filme se passa quase totalmente ao ar livre quando o herói chega na Terra (as filmagens foram no Deserto da Namíbia), e as poucas cenas internas reaproveitam cenários e figurinos de uma aventura anterior também dirigida por Boaz Davidson, "American Cyborg - O Exterminador de Aço" (1993) - que, por coincidência, também tem um cyborg indestrutível perseguindo o herói Joe Lara!!!

O mais divertido de LUNAR COP é como ele surpreende mais e mais o espectador: você acha que o pior já passou, mas aí o diretor Boaz Davidson avacalha com uma bobagem ainda maior e mais divertida.


No meio da luta entre bonzinhos e vilões, por exemplo, um moleque da aldeia encarna Macaulay Culkin e dá um couro num dos bandidos como se estivesse em "Esqueceram de Mim Parte 12" - com direito ao movimento da mão seguido de "Yes!" que o Culkin sempre fazia!

Já as cenas envolvendo o cyborg conseguem ser ainda piores do que as "Shocking Dark", do italiano rei da picaretagem Bruno Mattei. Espere só para ver a cena em que o inimigo metálico misteriosamente enterra-se na areia COM MOTO E TUDO (!!!), apenas para sair de repente de debaixo da terra e dar um susto no herói! Tipo, é algo tão sem lógica que você fica se questionando o porquê de terem filmado isso - e deixado no corte final.


Mas não posso ser injusto com Billy Drago: seu vilão histérico também é muito legal, principalmente quando, durante o ataque à aldeia, pinta seu rosto com tinta colorida como se fosse, sei lá, um índio apache ou um figurante de "Coração Valente". Drago sai na porrada com Paré numa luta até bem coreografada, e o IMDB informa que o pobre Billy machucou-se de verdade no quebra-pau.

No fim, o roteiro do outro Paré reserva uma revelação-surpresa que é simplesmente o fim da picada - e uma cópia barata de "Blade Runner", adicionando ainda mais um filme conhecido à mistura bizarra feita pelo roteirista. Não sei se era para ser um desfecho dramático, mas eu sinceramente me peguei rindo alto e sozinho no sofá!


Se você é fã daquelas cópias toscas de "Mad Max 2" feitas nos anos 80 (como "Stryker - O Sobrevivente", do filipino Cirio H. Santiago), não deixe de dar uma chance a LUNAR COP. Principalmente porque o filme não é só trasheira e também se segura pela ação, incluindo uma contagem de cadáveres que chega às raias dos 100 mortos - muito mais do que Paré matou no fracassado "Execução Sumária", por exemplo.

Aliás, Michael Paré pode ser um dos piores atores do universo (não consegui perceber uma simples mudança de expressão nele durante o filme todo), mas mesmo assim está foda demais como o "policial lunar" Joe Brody, sempre vestido de preto, sempre pilotando velozmente a sua moto e sempre metendo chumbo nos bandidos com uma espingarda enorme. Ele não faz feio como clone de Mad Max, e também não é difícil acreditar que seu herói conseguiria sobreviver num mundo pós-apocalíptico.


No Brasil, LUNAR COP foi lançado em vídeo bem na fase de transição entre VHS e DVD. Mas a distribuidora nacional não foi esperta o suficiente para perceber que um dos grandes charmes dessa aventura trash era o título, e preferiu adotar um título genérico, "O Vingador", embora o herói não se vingue de ninguém durante o filme.

Para piorar, já existiam vários "O Vingador" nas prateleiras das locadoras, como "Raven" (1996) e "Murphy's Law" (1986), este com Charles Bronson.


E embora essa seja apenas uma obra de ficção (mal-)escrita por um parente do Michael Paré, anote aí a data de 2023 como possível ano para o tal "Big Burn". Considerando que a camada de ozônio realmente está mais esburacada que o roteiro desse filme, vai que Davidson e o outro Paré foram visionários e previram nosso futuro?

Bem, se for o caso, fica a dica: melhor continuar na Terra desértica com os "bárbaros", mas ao mesmo tempo acompanhado de gatinhas tipo a Walker Brandt, do que numa estação espacial tosca na Lua, onde todo mundo se veste como se estivesse num episódio da série clássica de "Jornada nas Estrelas" e as únicas mulheres são umas cyborgs bem vadias reservadas apenas ao pessoal mais endinheirado...

Trailer de LUNAR COP
 


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Lunar Cop / Solar Force (1995, EUA) 
Direção: Boaz Davidson Elenco: Michael Paré, Billy Drago, 
Walker Brandt, Robin Smith, Gavin Van Der Berg, Wilson Dunster, 
Ron Smerczak, Greg Latter e David Sherwood.