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sábado, 21 de janeiro de 2012

REBELDES DA ACADEMIA (1980)


(Esta resenha é dedicada ao Raphael Fernandes, editor responsável - ou seria irresponsável? - por publicar a revista Mad no Brasil atualmente, pela Editora Mythos)

Fazer comédia parece fácil, mas só parece. Se você não prestar muita atenção a aspectos como roteiro e timing das piadas, vai acabar com um daqueles filmes em que apenas os realizadores parecem estar se divertindo pra caramba. Tipo a maioria das "comédias" do Will Ferrel e do Jack Black, ou 99% da produção do gênero no Brasil pós-Retomada - ou alguém realmente vê alguma graça nos longas do Casseta & Planeta e na série "Se Eu Fosse Você"?

Se um dia alguém quiser escrever uma cartilha sobre o que NÃO se deve fazer na hora de produzir uma comédia, eu sugiro usar REBELDES DA ACADEMIA como exemplo prático, talvez até colocando o DVD do filme como brinde na cartilha, já que esta é uma das "comédias" menos engraçadas já feitas.

E sabe o que é mais irônico? É que ela foi produzida por uma das mais brilhantes revistas humorísticas do mundo, a Mad!!!


Tudo começou com o estrondoso sucesso da comédia "Clube dos Cafajestes" (1978), dirigida por John Landis. Nos Estados Unidos, o filme se chama "National Lampoon's Animal House", e a National Lampoon era uma outra revista de humor concorrente da Mad, bastante popular nos anos 70.

Ao contrário do que se pensa, a revista não teve grande envolvimento na produção, e o fato de seu nome aparecer no título era apenas uma jogada de marketing, algo do tipo "National Lampoon apresenta...". Vários outros filmes trariam o nome da revista no título a partir de então, como a série "Férias Frustradas", que no original era "National Lampoon's Vacation"


"Clube dos Cafajestes" custou 3 milhões de dólares e rendeu 141 milhões só nas bilheterias norte-americanas. Logo, outros estúdios resolveram produzir comédias "apadrinhadas" por revistas humorísticas para ver se o raio caía duas vezes no mesmo lugar.

Era questão de tempo para que a Mad entrasse na jogada. Fundada em 1952 e publicada ininterruptamente desde então nos Estados Unidos, a Mad era a mais bem-sucedida das revistas do gênero no país - fez bastante sucesso também no Brasil, onde chegou na década de 70, ao contrário da National Lampoon, que nunca deu as caras por aqui.


A Warner entrou em contato com Bill Gaines, editor norte-americano da revista, pedindo que "emprestasse" seu título para uma comédia nonsense, para tentar faturar em cima do sucesso de "Clube dos Cafajestes". Tinha tudo para dar certo. Mas não deu.

Escrito por dois sujeitos vindos da TV, Tom Patchett (criador do seriado "ALF, o Eteimoso") e Jay Tarses, REBELDES DA ACADEMIA conta a história de quatro garotos-problema enviados por suas famílias para a Academia Militar Sheldon R. Weinberg.


Eles são Chooch (Ralph Macchio, molecão e em sua estréia no cinema), o filho de um mafioso; Hash (Tommy Citera), um garoto árabe e cleptomaníaco; Ike (Wendell Brown), jovem negro filho de um tele-evangelista, e que está se relacionando com a madrasta, e Oliver (Hutch Parker), filho de um importante político que concorre à reeleição, e que resolve mandar o garoto para o quartel na expectativa de que ele pare de criar problemas que ameacem sua candidatura.

Na academia, o quarteto vai comer o pão que o diabo amassou nas mãos do Major Vaughn Liceman (Ron Leibman, de "Matadouro Cinco"), aquele típico comandante sádico, embora atrapalhado, que gosta de transformar a vida dos recrutas num inferno - espécie de embrião para o Comandante Harris da série "Loucademia de Polícia".


Antes de mais nada, esqueça que REBELDES DA ACADEMIA se passa numa academia militar. Diferente da já citada franquia "Loucademia de Polícia", em que a ambientação justificava as piadas com o modo de vida militar e o duro treinamento dos cadetes, aqui tanto faz o fato de a trama se passar num quartel, considerando que raríssimas vezes o roteiro se aproveita do cenário - a mesma trama poderia se passar numa faculdade de engenharia ou num campo de treinamento de terroristas do Al-Qaeda sem grandes modificações.

Acompanhe: ao invés de criar piadas sobre o rigor da rotina militar, a exemplo do que filmes como "Recrutas da Pesada" e "Loucademia de Combate" fariam alguns anos depois, REBELDES DA ACADEMIA prefere enfocar o conflito de um dos jovens (Oliver) com o Major Liceman, que inexplicavelmente se apaixona pela namorada do garoto, Candy (a gracinha Stacey Nelkin, de "Halloween 3"). Claro, numa daquelas forçadas de barra tremendas de roteiro ruim, Candy também foi enviada para uma escola militar feminina, e que fica a apenas alguns metros daquela que o namoradinho frequenta!


Só para dar uma ideia do nível geral das piadas, a academia também tem um professor gay de dança (Tom Poston) e uma professora gostosa (a Sra. Ringo Starr Barbara Bach, de "A Ilha dos Homens-Peixe") que leciona sobre armamentos usando expressões de duplo sentido que envergonhariam até a equipe de roteiristas do programa Zorra Total. Peraí: professor gay de dança e professora gostosa de armamentos numa academia militar??? Pois é...

Ah, quase esqueci de comentar que o diretor do local é o Comandante Causeway (Ian Wolfe, de "THX 1138"), um velhote que sempre solta um sonoro e fedorento peido toda vez que aparece em cena. Deu para sacar o nível das "piadas"? Nem colocando uma claque estilo Chaves alguém riria dessas coisas!


Além da dupla de roteiristas, um dos grandes culpados por esta catástrofe é o diretor Robert Downey, pai de um certo Robert Downey Jr. (o próprio Homem de Ferro). Downey Pai nunca foi um cineasta brilhante, mas em REBELDES DA ACADEMIA ele se superou: com sua mão pesada e falta de ritmo, o sujeito consegue estragar até as poucas piadas que PODERIAM ter ficado engraçadas!

Uma coisa que nem Downey Pai e nem os roteiristas Patchett e Tarses entenderam é que o humor da revista Mad era essencialmente visual e nonsense, e não tanto verbal. Infelizmente, não é o que se vê no filme, que abusa dos trocadilhos intraduzíveis (o nome "Hash", por exemplo, é uma gíria em inglês para maconha) e expressões de duplo sentido no nível do Pânico na TV.


Produções posteriores roteirizadas e dirigidas pelo trio Jim Abrahams e David e Jerry Zucker, como "Apertem os Cintos, O Piloto Sumiu", "Top Secret" e "Corra que a Polícia Vem Aí!", fazem este tipo de humor nonsense estilo revista Mad de maneira muito mais eficiente, tanto que seria mais fácil aceitar um "Mad Magazine Presents Top Secret" do que esta patuscada aqui...

Algumas raras piadas visuais em REBELDES DA ACADEMIA, só para dar uma ideia: a banda que canta num baile na academia (não pergunte...) é tão desafinada que quebra todos os vidros no recinto e até o próprio quadro do filme; as aparições do vilanesco Major Liceman são sempre precedidas de uma sonora ventania e pelos acordes de "Gimme Danger", de Iggy Pop & The Stooges; e o cachorro de Liceman também usa farda militar, num plágio descarado do cão do Sargento Tainha nos quadrinhos do Recruta Zero! Risadas amarelas ecoam pela sala de cinema ou da casa.


O Major Liceman também tem o irritante hábito de fazer os recrutas repetirem dezenas de vezes a mesma resposta gritando "Say it again! Say it again!", e isso deveria ser engraçado. Pelo menos na cabeça dos realizadores.

Talvez alguém possa considerar um ponto positivo o fato de o filme não ter medo de ser "politicamente incorreto". Há piadas bem fortes (para os padrões atuais) sobre negros, árabes e homossexuais, uma tirada envolvendo um aborto forçado e ainda a sugestão de um romance entre a professora gostosa e um dos garotos, Ike. Mas o mau gosto não salva o conjunto.


No roteiro, inclusive, a relação entre Ike e a professora era ainda mais erotizada, com direito a cenas de nudez (quando o garoto espiava a mulher tomando banho) e sexo. Mas essa subtrama foi cortada quando os produtores acharam que era pegar pesado demais!

Assim, REBELDES DA ACADEMIA é um daqueles exemplos constrangedores de comédia em que você ri mais da vergonha alheia, da falta de graça e do filme em si do que das piadas - até porque raríssimas piadas são realmente novas, chegando-se ao cúmulo de mostrar um homem travestido com roupas íntimas femininas como se fosse a coisa mais engraçada do mundo.


Enfim, o resultado é tão ruim, mas TÃO ruim, que um dos atores principais, Ron Leibman, exigiu que seu nome fosse retirado dos créditos, prevendo o fiasco que seria quando a bomba chegasse aos cinemas. Curiosamente, ele não fez a mesma coisa com o igualmente constrangedor "Rhinestone - Um Brilho na Noite", de Bob Clark!

Os próprios editores da Mad ficaram tão desencantados quando o filme estreou que publicaram um editorial na revista desculpando-se com seus leitores pelo fiasco da obra - e, diz a lenda, o editor Bill Gaines respondeu pessoalmente a cada carta enviada que reclamasse da qualidade do filme.


Além disso, Gaines pagou caro (30 mil dólares, à época) para eliminar toda e qualquer referência à revista no filme e no seu material de divulgação quando ele fosse lançado em VHS ou exibido na televisão.

Porque, originalmente, REBELDES DA ACADEMIA se chamava "Mad Magazine Presents Up the Academy", na linha de "National Lampoon's Animal House", mas acabou só "Up the Academy" no vídeo. As aparições do mascote da revista, Alfred E. Neuman (aquele garotinho sardento e banguela, que ganha vida com efeitos de maquiagem do mestre Rick Baker!), também foram retiradas da edição.

Em entrevista publicada em 1983, Bill Gaines tentou justificar a ruindade do filme. Segundo ele, a Warner enviou para a redação da revista um roteiro ruim para um filme que teria o nome "Mad apresenta" no título.


Gaines e sua equipe recusaram e o próprio time de redatores da revista escreveu um roteiro para o filme, mas dessa vez foram os produtores que não gostaram. No final, a Warner fez um remendão com ideias de um e de outro roteiro, mas sem acatar as várias sugestões feitas posteriormente pela equipe da Mad.

"Paguei 30 mil para a Warner tirar o nome da Mad das versões para o mercado doméstico, e foram 30 mil bem investidos!", declarou Gaines nesta entrevista. Demonstrando humildade, a Mad também publicou uma das suas populares sátiras de filmes com o próprio REBELDES DA ACADEMIA (veja abaixo), fazendo graça da ruindade da obra, e em apenas duas páginas (a sátira termina com uma troca de bilhetes entre os desenhistas e o editor, reclamando que o filme era péssimo demais até para ser satirizado!).


Como sempre acontece com produções tão ruins e problemáticas, REBELDES DA ACADEMIA ganhou um ar de "filme de culto", com débeis mentais promovendo sessões justamente para espinafrar a falta de graça do negócio.

Nos anos 1990, depois da morte do editor Gaines, a Warner colocou de volta todas as referências à Mad para exibições do filme na TV a cabo e no seu relançamento em DVD. O pobre Gaines deve estar se revirando no túmulo...


Agora, se há algo de bom em REBELDES DA ACADEMIA é a sua trilha sonora. Inclusive a trilha é tão boa que chega a ser ofensivo que tenha sido utilizada num filme tão ruim. Começa já com a ótima música dos créditos iniciais, "Kicking Up A Fuss", do Blow-Up (clique para ouvir), repetida até cansar ao longo do filme; tem o já citado The Stooges, mais "Night Theme" (Iggy Pop), "X Offender" e "One Way Or Another" (Blondie), "Yes Sir, No Sir" (The Kinks), "Street Hassle" (Lou Reed), "Bad Reputation" (Sammy Hagar), entre outras. Ou seja, a bagaça vale mais pela música do que por qualquer outra coisa!

Se a National Lampoon continua "apresentando" filmes até hoje (alguns tão ruins quanto REBELDES DA ACADEMIA, ou piores!), o pessoal da Mad aprendeu a lição e nunca mais emprestou seu nome para nenhuma outra presepada do gênero, embora tenham produzido o seriado televisivo "MADtv" (uma espécie de TV Pirata lá dos EUA) entre 1995 e 2009.


Para dar uma ideia de como o episódio maculou a imagem da revista, imagine um equivalente aqui no Brasil: "Chiclete com Banana Apresenta Muita Calma Nessa Hora", ou "Geraldão Apresenta Os Normais 2". Não é de cortar os pulsos?

Por tudo isso, torna-se irônica uma das imagens mais populares do mascote da Mad, Alfred Neuman, que é aquela em que ele se questiona: "Eu, me preocupar?". Bem, caro Neuman, no caso da ruindade de REBELDES DA ACADEMIA e do estrago que isso provocou na imagem da sua revista, eu me preocuparia sim. E muito!

"Say it again!"

"Say it again!"

"Say it again!!!"


PS: Um Robert Downey Jr. ainda moleque faz uma ponta como um dos garotos que joga futebol com a turma da academia lá pela metade do filme.

Trailer de REBELDES DA ACADEMIA



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Mad Magazine Presents Up the Academy (1980, EUA)
Direção: Robert Downey
Elenco: Ralph Macchio, Wendell Brown, Tommy Citera,
Hutch Parker, Ron Leibman, Barbara Bach, Ian Wolfe,
Tom Poston, Stacey Nelkin e Antonio Fargas.

domingo, 15 de janeiro de 2012

ORGIA DA MORTE (1965)


No começo dos anos 1960, o produtor de cinema búlgaro Stephen C. Apostolof resolveu tentar a sorte no mercado de cinema sexploitation de Hollywood. Foi quando seu amigo e diretor de fotografia William C. Thompson disse que conhecia alguém especializado em fazer filmes baratos e rápidos. Seu nome: Edward D. Wood Jr. Ou simplesmente Ed Wood.

Thompson, que tinha sido diretor de fotografia de quase todos os filmes de Wood (inclusive os famigerados "Plan 9 From Outer Space" e "Glen or Glenda?"), marcou um almoço para que Apostolof e Ed se conhecessem, num restaurante que costumava reunir a nata do cinema em Los Angeles. Imaginem a surpresa do búlgaro quando Wood apresentou-se vestindo suéter angorá, saia acima dos joelhos, peruca loira e bigode!


Foi dessa forma meio torta (e definitivamente engraçada) que Apostolof e Wood se conheceram e iniciaram uma bizarra parceria: o primeiro produzia e dirigia a preço de banana, o segundo escrevia roteiros escalafobéticos com temáticas cada vez mais absurdas. E o primeiro trabalho da dupla foi o inacreditável ORGIA DA MORTE - tradução brasileira infeliz para "Orgy of the Dead", ou "Orgia dos Mortos".

ORGIA DA MORTE pode ser definido como a mais porca desculpa da história do cinema para se fazer um longa-metragem. Também pode ser definido como um dos roteiros mais estúpidos e sem propósito já "escritos" por Wood, pior até do que o já célebre "Plan 9" (que pelo menos tinha algo próximo de uma narrativa, algo que não existe aqui).


Além disso, o projeto é uma das mais esdrúxulas reuniões de "talentos" (ou "desprovidos de..."), juntando num mesmo balaio strippers, o pseudo-médium Criswell (!!!) e dois manés com fantasias de carnaval de lobisomem e múmia! ]

E sabe o quê? Por tudo isso, o filme é divertidíssimo de tão tosco e sem-vergonha - mais um autêntico "Filme para Doidos" em sua mais pura essência!


Embora tenha sido dirigido e produzido por Apostolof (espertamente escondido atrás do pseudônimo "A.C. Stephen"), ORGIA DA MORTE é puro Ed Wood. Tudo que caracteriza o cinema do célebre cineasta aparece no filme: os erros grosseiros de continuidade (dia vira noite e depois vira dia novamente), o elenco habitual de Wood (Criswell e uma dublê de Vampira, recrutada quando a original pulou fora do projeto!) e os diálogos ridículos sendo declamados com empolgação shakesperiana pelos "atores".

É muito fácil e rápido falar sobre a "trama", porque, na verdade, ela não existe: a exemplo de "Plan 9" e "Night of the Ghouls", duas obras anteriores escritas e dirigidas por Wood, ORGIA DA MORTE começa com um close na fuça de Criswell, que "acorda" dentro de um caixão e levanta-se para o seu tradicional discurso sem pé nem cabeça (algo que José Mojica Marins copiaria posteriormente nas aberturas dos filmes do Zé do Caixão).


Visivelmente lendo textos escritos em cartazes ou cartões atrás da câmera (perceba os movimentos dos olhos, que ele nem tenta disfarçar), e com a maior cara de encachaçado, o ator-apresentador anuncia: "Eu sou Criswell. Durante anos, tenho dito coisas quase inacreditáveis, relatado o irreal e mostrado que ele é mais do que um fato. Agora vou contar uma história sem limites, tão surpreendente que alguns de vocês podem até desmaiar. Esta é a história de pessoas na hora do crepúsculo. Uma vez humanos, agora monstros, presos entre a vida e a morte. Monstros para sentir pena, monstros para desprezar. Uma noite de assombrações, que renascem das profundezas do mundo".

(E Wood é tão sem-vergonha que simplesmente reproduziu o mesmo discurso inicial do mesmo Criswell em um filme anterior, "Night of the Ghouls", cujo título inclusive é citado na última frase proferida pelo personagem!!!)


Corta para o carro do nosso casal de protagonistas, e você sabe que está vendo um legítimo filme de Ed Wood (embora ele não seja o diretor aqui) quando os planos gerais foram filmados à luz do dia e os planos médios dos atores na escuridão da noite!!!

Nossos "heróis" são o casal Bob (William Bates, no primeiro de seus dois filmes) e Shirley (Pat Barrington, que a partir de então se transformaria numa estrelinha do cinema sexploitation). Ele é um escritor de histórias de horror em busca de um velho cemitério onde pretende conseguir inspiração (não pergunte...); ela é uma ruivinha deliciosa, mas infelizmente chata e resmunguenta.


Antes que a ação comece, segue-se um diálogo hilário entre o casal:
- Visitar um cemitério numa noite como essa deve dar muitas ideias para uma boa história de horror.
- Mas tem tantas coisas boas para escrever, Bob.
- É claro que tem, e eu tentei todas elas. Peças de teatro, histórias de amor, westerns...
- Mas histórias de horror? Por que histórias de horror?
- Shirley, eu escrevi durante anos sem conseguir vender uma única palavra. Meus monstros me fizeram bem. Você acha que devo desistir deles para escrever sobre árvores, cachorros ou margaridas?


(Inclusive percebe-se algo de auto-biográfico no personagem de Bob, já que o próprio Ed Wood fez tudo isso - peças teatrais, romances, westerns... -, mas acabou mais lembrado pela sua "contribuição" ao cinema fantástico, escrevendo e dirigindo histórias de horror e ficção científica.)


Perto dali, num velho cemitério abandonado (que conveniente!), o Imperador das Trevas (Criswell, quem mais?) desperta do túmulo ao lado de sua amada/criada, a Princesa das Trevas (quanta inspiração, Wood!), vivida pela deliciosa Fawn Silver. Nos créditos, a moça aparece batizada como "Black Ghoul".

Pelo figurino e pelo estilo, o cinéfilo com um mínimo de conhecimento da obra de Wood vai perceber que o papel da moça foi escrito para Maila Nurmi, na época popular como a personagem Vampira, com a qual apresentava filmes de horror na TV. Vampira havia trabalhado com Ed em "Plan 9" e sabiamente pulou fora desse filme aqui, mas os produtores resolveram criar uma personagem semelhante para deixar bem claro que a intenção inicial era ter Vampira no elenco!


(Mais um adendo: sabe-se que Maila processou Cassandra Peterson anos depois, alegando que a personagem desta, a popular Elvira, era um plágio de Vampira. Ora, quem devia ter processado Cassandra era a pobre Fawn Silver, pois Elvira é uma cópia cuspida e escarrada da "Black Ghoul" de ORGIA DA MORTE, no traje, no penteado e até nos peitões!!!)

Voltando ao filme: de tempos em tempos, em noites de lua cheia, o Imperador das Trevas sai do túmulo para julgar as "almas condenadas" dos recém-falecidos, obrigadas a humilhar-se diante dele para sua diversão e satisfação.


No papel parece bonito; na prática, o que veremos pelos próximos 60 minutos são meninas entrando e saindo de um cenário fuleiro imitando cemitério para fazer shows de strip-tease (!!!); esporadicamente, cansado de ver peitos balançando, o Imperador das Trevas ordena que seus súditos torturem algumas delas, mas são cenas fuleiras e sem nenhum valor sádico ou masoquista.

Sim, e você leu corretamente: apenas "almas condenadas" de MENINAS são julgadas durante o filme e obrigadas a dançar e tirar a roupa diante do Imperador e da Princesa das Trevas. O personagem de Criswell justifica isso rispidamente - "E quem quer ver um homem dançar?" -, uma explicação com a qual eu concordo plenamente.


Quando o carro de Bob e Shirley capota na estrada (não havia dinheiro para filmar o desastre, então quem "capota" é a câmera, girando várias vezes para simular o acidente), eles são aprisionados pelas forças do mal e obrigados a acompanhar a dancinha das strippers até o restante do filme, quando a Princesa das Trevas pretende sacrificá-los para a sua própria diversão (aparentemente, ela não curte strip-teases como o seu mestre).

É impossível o leitor ter uma ideia da pobreza e do absurdo de ORGIA DA MORTE sem realmente ver o filme. O argumento não passa disso (casal aprisionado é obrigado a assistir terríveis shows de strip-tease de "almas condenadas" - todas elas gostosas e peitudas, claro!), e deve haver uns 20 ou 30 diálogos O FILME INTEIRO, com o restante da narrativa sendo preenchida pelas mulheres nuas dançando e sacudindo os peitos, ao som de uma trilha sonora que é impossível de definir, de tão "excêntrica"!!!


A obra se encaixa num subgênero do sexploitation conhecido como "nudie-cuties", ou simplesmente "nudies". Realizados antes da popularização dos pornôs softcore e (posteriormente) hardcore, os nudies limitavam-se a mostrar mulheres nuas, mas em tal quantidade que a história ficava em segundo, até terceiro plano - histórias que se passavam em campos nudistas, por exemplo, eram bem comuns e livraram o diretor ou roteirista de pensar numa justificativa para pelar a mulherada.

ORGIA DA MORTE é por aí: após filmar 10 minutinhos que servem apenas como desculpa narrativa, os realizadores devem ter percorrido todas as casas de "shows adultos" da região em busca de strippers que trabalhassem por miséria.


São 10 números de dança ao longo do filme, e as caracterizações das moças são simplesmente hilárias: elas aparecem vestidas como índias, espanholas, havaianas e lá pelas tantas aparece uma fantasiada de gatinho (!!!), que tira a roupa enquanto toma chicotadas de um dos servos do Imperador das Trevas!!!

Menos mal que todas as meninas são gostosas pra caramba, e se os showzinhos ficam no limite entre o cômico e o brochante, pelo menos a variedade de peitos (grandes, pequenos, firmes, caídos...) garante a atenção do público masculino.


A própria Pat Barrington aparece num segundo papel, com cabelo loiro, e, graças ao milagre da edição, dança diante dela mesma. Em cena chupinhada de "007 Contra Goldfinger", a dançarina é castigada por sua "ambição" (não pergunte...), sendo mergulhada num caldeirão com ouro derretido, de onde sai com o corpo todo dourado!

As outras delícias em cena são Mickey Jines, Barbara Nordin, Bunny Glaser, Nadejda Klein, Coleen O'Brien, Lorali Hart (aka Texas Starr), Rene De Beau, Stephanie Jones e Dene Starnes. A Princesa das Trevas Fawn Silver infelizmente não tira a roupa.


A "carreira" das moças não foi muito adiante (pelo menos fora das casas de strip-tease), mas duas viraram celebridades cult com o tempo: os peitões de Lorali/Texas Starr foram motivo de piada em dois filmes da série "Corra que a Polícia Vem Aí!" e motivo de punheta no pornô "Mature Women"; já a búlgara Nadejda continuou fazendo filmes, e em 2011 foi ressuscitada com um pequeno papel em "Mega Python vs. Gatoroid"!

Além de Criswell, da clone de Vampira, do casal de "mortais" e das strippers, ORGIA DA MORTE também conta com dois tosquíssimos monstros que aparecem como servos do Imperador das Trevas - um lobisomem e uma múmia.


Ambos funcionam como "alívio cômico", fazendo piadinhas e comentários sem graça entre as dancinhas, mas podiam até ficar de boca fechada, pois seu figurino pobretão já garante as risadas naturalmente - com destaque para o lobisomem que, em certo momento, levanta a cabeça e exibe ao espectador o pescoço limpinho do ator, onde o maquiador esqueceu de colar pêlos...

Na conclusão da "trama", a luz do sol chega para salvar Bob e Shirley de um triste destino. Os raios solares transformam todas as assombrações em esqueletos, e é curioso como Apostolof repete um erro grosseiro que Wood havia feito em "Plan 9": quando Criswell se dissolve, resta apenas um esqueleto com a capa que o personagem vestia, como se ele estivesse pelado por baixo da capa!!!


Outra referência a "Plan 9" é o fato de Criswell entrar em cena segurando a capa em frente ao rosto, como fazia o dublê de Bela Lugosi em "Plan 9" (lembre-se que ele precisava esconder o rosto por não ser nada parecido com o falecido ator!).

Acredito até que Wood escreveu o personagem do Imperador das Trevas pensando no já falecido Lugosi para o papel. Até porque Criswell veste uma capa originalmente usada por Lugosi em "Bud Abbott Lou Costello Meet Frankenstein" (1948).


De dancinha em dancinha, de peitos desnudos em peitos desnudos, surgem aqueles hilários diálogos que somente Ed Wood sabe escrever. Como Criswell questionando a presença de Bob e Shirley no cemitério: "Vivos onde apenas os mortos deveriam estar?". Ou esta acachapante conversa entre o casal amarrado e prestes a morrer:

Uma bela hora para discutir a relação



Nos créditos iniciais, Ed Wood aparece como autor do roteiro "baseado em seu livro 'Orgy of the Dead'"! E eu confesso que sempre fiquei me perguntando como poderia haver um livro disso, considerando que 80% do filme são meninas tirando a roupa.

Recentemente, descobri que "Orgy of the Dead", o livro, foi publicado na mesma época em que o filme chegou aos cinemas, numa espécie de "venda casada", e na verdade não é uma novelização da trama de ORGIA DA MORTE, mas sim uma coletânea de contos de Wood (incluindo os famosos "The Night the Banshee Cried" e "The Final Curtain").

No caso, os contos ocupam, no livro, o espaço que as dancinhas ocupam no filme. A primeira edição tinha prefácio assinado por Forrest J. Ackerman, como você pode ver na reprodução da capa ao lado (e eu definitivamente compraria um livro com essa capa e esse título!).

O diretor Apostolof trabalharia com roteiros de Wood em diversos outros filmes, progressivamente piores, como "Drop Out Wife" (1972) e "The Beach Bunnies" (1976).

Cada vez mais miserável, Ed entregou-se ao alcoolismo e fez um último trabalho como cineasta, o pornô "Necromania", em 1971. Ele morreu de ataque cardíaco em 1978; Apostolof faleceu recentemente, em 2005.

Alguns anos antes de falecer, Apostolof gravou uma entrevista falando sobre ORGIA DA MORTE, e explicou que seu sonho era fazer uma continuação contemporânea do filme (!!!), em que pretendia explicar detalhes do original, como a relação entre a múmia e o lobisomem (palavras do próprio diretor). A história se passaria no futuro, no ano 3000 (!!!), e teria menos shows de strip-tease e mais narrativa.


(In)Felizmente, ele morreu sem realizar seu sonho, mas deixou como legado esse impressionante trash movie, um daqueles filmes inacreditáveis e charmosos exatamente pela ruindade.

Considerando que quase não há história nem diálogos, eu recomendo exibições de ORGIA DA MORTE em telões ao fundo de shows de rock (as imagens casariam perfeitamente com um show da banda Damn Laser Vampires, por exemplo), ou em bares com temática de rock e cinema fantástico, como o (atualmente fechado) Astronete em São Paulo.


Mas uma qualidade do filme eu preciso ressaltar: mesmo com a ruindade generalizada em todos os departamentos, o uso de cores vivas nas cenas ("In shocking SEXICOLOR", anunciava o pôster de cinema) é impressionante, lembrando a fotografia nas obras de diretores italianos como Mario Bava e Dario Argento - especialmente o vermelho, sempre presente em detalhes do figurino ou da maquiagem das meninas, e no cabelo de Shirley.

Já o restante irá apetecer apenas aos fãs de sacanagem (embora as dancinhas de topless sejam bem inocentes para os padrões atuais) e de trash movies. Não sem motivo, outro notório diretor de tralhas esteve envolvido na produção: Ted V. Mikels (responsável por "The Astro-Zombies"!!!) assumiu o cargo de assistente de direção que pertencia a Ed Wood, quando Apostolof expulsou o roteirista do set por encher a cara durante as filmagens!


Por tudo isso, e já me estendi demais, ORGIA DA MORTE é um daqueles filmes cujo fascínio é difícil de explicar.

Você pode até odiar a si mesmo enquanto estiver assistindo essa porcaria, pode até acionar a tecla Fast Foward incontáveis vezes até os créditos finais começarem a subir, mas com certeza se pegará pensando nas imagens (e nas bobagens) nos dias seguintes, até surgir uma incrível vontade de rever, nem que seja para mostrar para os amigos, para eles rirem junto.

Portanto, prepare-se para ser hipnotizado por ORGIA DA MORTE você também - ou, no mínimo, curtir oitenta e poucos minutos de mulheres gostosas fazendo strip-tease sem a necessidade de gastar grana num puteiro!

UPDATE: Hugo Malavolta, leitor contumaz do FILMES PARA DOIDOS e enciclopédia viva sobre cinema mundial, acaba de enviar para o meu e-mail duas incríveis fotos dos bastidores das filmagens dessa tralha. Não sei de onde ele tirou, mas não duvidaria se Hugo tivesse participado das gravações em pessoa. A primeira mostra a gostosa da Pat Barrington sendo pintada de dourado para a cena chupada de "Goldfinger"; na segunda podemos ver o diretor de fotografia Robert Caramico em ação. Valeu, Malavolta!



Melhores momentos de ORGIA DA MORTE



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Orgy of the Dead (1965, EUA)
Direção: A.C. Stephen (aka Stephen C. Apostolof)
Elenco: Criswell, Fawn Silver, Pat Barrington,
William Bates, Mickey Jines, Bunny Glaser,
Nadejda Klein e Texas Starr (aka Lorali Hart).


* A quem interessar possa, esta foi a capinha (feia pra caralho!) do filme quando lançado em VHS no Brasil pela famigerada Continental, reconhecidamente uma das piores distribuidoras do país: