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domingo, 17 de abril de 2011

"Peitos e pintos saindo da tela!": Um dossiê quase completo sobre filmes de sacanagem em 3-D


(Dica: Se você tiver um daqueles velhos óculos 3-D de papelão em casa, aproveite para ver as fotos desse texto em terceira dimensão!!!)

Na atualização da semana passada do FILMES PARA DOIDOS, falei sobre o filme X-Rated "Princesa Orgasma e a Cama Mágica", e aproveitei para fazer uma das minhas tradicionais críticas aos jornalistas culturais brasileiros da atualidade. Desta vez, foi por causa da desinformação dos sujeitos: eles divulgaram que uns produtores chineses estão fazendo AGORA o suposto "primeiro filme pornô 3-D da história do cinema", ao invés de pesquisar e saber que isso (sacanagem tridimensional) não é mais novidade.

Bem, ironicamente, o tiro saiu pela culatra: ao mesmo tempo em que eu xingava os caras pela sua costumeira desinformação (porque eles compraram a ideia de que o pornô 3-D chinês era o primeiro sem nem ao menos pesquisar), EU MESMO caí no erro de afirmar que "Princesa Orgasma..." era o primeiro pornô 3-D da história. Não, não é. Mea culpa.


Quem me alertou para o fato foi o super-cinéfilo e enciclopédia viva sobre assuntos cinematográficos obscuros Hugo Malavolta, da Fundação Malavolta Archives. Segundo ele, já havia pornô 3-D desde a década de 70, embora desde os anos 1960 os caras façam filme de sacanagem com efeitos em três dimensões - nesse caso, apenas peitos sacudindo "para fora da tela", sem mostrar aquele troço entrando naquela coisa...

Chocado e envergonhado com meu próprio erro de informação, e para compensar os distintos leitores do FILMES PARA DOIDOS, passei os últimos dias preparando este dossiê sobre pornografia em 3-D, fruto de madrugadas insones de pesquisa profunda e também da análise de um extenso material sobre o assunto que o próprio Hugo me mandou.


Espero que esse dossiê fique como referência, já que há pouquíssimas fontes (para não dizer nenhuma) sobre o tema na internet. No futuro, quando aqueles jornalistazinhos preguiçosos pesquisarem "pornô 3-D" no Google, vão inevitavelmente cair aqui e se informar direitinho, para parar de escrever merda nos grandes jornais e portais de internet do país.

Mais uma vez, o trabalho sujo e pesado eu já fiz DE GRÁTIS para quem tiver interesse e quiser se informar. Agora é esperar que esses jornalistas de quinta categoria parem de escrever e publicar besteira - e que pelo menos me deem o devido crédito caso citem esse material!


BREVE INTRODUÇÃO AO 3-D
Não pretendo esgotar o assunto, que é muito vasto e ao mesmo tempo muito xarope. Também não vou entrar em muitos detalhes técnicos sobre como funciona o 3-D ou sobre as diversas tecnologias desenvolvidas para dar a impressão das três dimensões. Quem quiser saber mais sobre isso pode pesquisar diretamente no site que é uma verdadeira bíblia de referência sobre o tema, o 3D Revolution.

Mas o que interessa é o seguinte: se você pensa que o 3-D no cinema começou só agora, através de filmes como "Avatar", saiba que as primeiras experiências com o processo começaram ainda no século 19!

Na época, um inglês chamado William Friese-Greene buscou o efeito através de uma técnica simples conhecida como "estereoscopia": duas imagens iguais eram projetadas lado a lado na tela, e, através de um aparelho colocado sobre os olhos (o estereoscópico), o cérebro do espectador "fundia" as imagens, gerando uma sensação de profundidade. Óbvio que ainda era um sistema bem arcaico...

Em 1915, um dos pioneiros do cinema narrativo norte-americano, Edwin S Porter, fez a primeira projeção em 3-D no formato como o sistema ficaria popular: com o público usando óculos de lentes coloridas. Porter, entretanto, não exibiu um filme, mas sim algumas cenas soltas apenas para testar. Com isso, a atriz do cinema mudo Marie Doro, que aparecia nestes fragmentos, tornou-se a primeira estrela a aparecer em três dimensões nas telas!


Em 27 de setembro de 1922 (portanto há quase 90 anos), estreou em Los Angeles aquele que é considerado o primeiro filme 3-D da história: o dramalhão "The Power of Love". Dirigido por Nat G. Deverich e Harry K. Fairall, era mudo e em preto-e-branco, mas as imagens já traziam faixas na cor vermelho e verde que, com o uso dos óculos especiais (com lentes azul e vermelho), davam a impressão de profundidade.

Para conseguir este efeito, dois pedaços iguais de filme eram projetados AO MESMO TEMPO um sobre o outro, exigindo o uso de dois projetores e muita atenção do projecionista para obter uma perfeita sincronia entre as imagens separadas.

Como o filme hoje está perdido, ninguém sabe exatamente como era o processo pioneiro concebido por Harry K. Fairhall e Robert F. Elder, e usado nessa única produção: pesquisadores acreditam que eles usaram filtros coloridos na hora da projeção, mas também podem ter pintado manualmente cada fotograma para criar o efeito 3-D!

Vários realizadores tentaram aprimorar o uso das três dimensões nos anos seguintes. Já foram encontrados até filmes de propaganda nazista em 3-D, supostamente filmados por volta de 1936!

Mas a Era de Ouro do 3-D no cinema começou em 1952, ainda no sistema dois projetores e duas imagens iguais sendo projetadas ao mesmo tempo uma sobre a outra. Acontece que a TV estava roubando o público das salas de cinema, e os distribuidores tinham que inventar algo novo que a televisão não pudesse oferecer. Resolveram apostar nos filmes em três dimensões.


O filme que iniciou a febre do 3-D na década de 50 foi "Bwana Devil" (1952), dirigido por Arch Oboler e estrelado por Robert Stack. Os críticos sentaram o pau, mas o público correu para os cinemas para ver trens saindo da tela e leões pulando para "dar o bote" no público.

"Bwana Devil" fez tanto sucesso que os grandes estúdios começaram a ver o potencial da brincadeira e resolveram produzir seus próprios filmes em terceira dimensão, lançando obras como "Museu de Cera" (1953), com Vincent Price, "Disque M Para Matar", de Alfred Hitchcock, e "O Monstro da Lagoa Negra" (1954, foto abaixo), entre outros.


Entretanto, apesar do aparente sucesso de público, os filmes em 3-D não tiveram vida longa na época, principalmente pelas dificuldades técnicas que o sistema exigia - como a projeção de dois rolos de negativo em perfeita sincronia para que o efeito funcionasse.

Os proprietários de cinema começaram a perder o interesse por causa da dificuldade de projeção, e o último grande filme em três dimensões do período foi "A Revanche do Monstro" (continuação de "O Monstro da Lagoa Negra"), que estreou em 1955.

Somente nos anos 60 o 3-D ganharia uma forma de exibição mais viável, quando surgiram diferentes técnicas que gravavam as duas imagens num único pedaço de negativo, projetado através de uma lente especial - eliminando, assim, aquele trabalhão de usar dois projetores e exibir duas tiras de filmes ao mesmo tempo e em sincronia.

Vários realizadores criaram e patentearam seus próprios sistemas de projeção em três dimensões, com nomes pomposos como Space-Vision 3D, Stereovision e Quadravision 4-D (!!!), mas sempre usando os já tradicionais óculos de papelão com uma lente vermelha e outra azul. Alguns desses sistemas eram "pega-trouxa" e não tinham nada de tridimensional, provocando apenas dor nos olhos (quando não na cabeça) do espectador.


Infelizmente, o 3-D já estava marginalizado àquela altura, e acabou relegado a produções baratas de horror ou mulher pelada, ou então as duas coisas juntas - o melhor exemplo é o clássico "Andy Warhol's Flesh for Frankenstein", de Paul Morrisey, repleto de tripas, peitos e pintos em três dimensões, como mostra a foto acima, da cena em que os órgãos internos de Udo Kier saíam da tela diretamente para cima do público!

Mas o sistema ganhou uma inesperada sobrevida na década de 80, e a culpa foi de um western spaghetti chamado "Comin' at Ya!", que estreou em 1981 e foi totalmente filmado em 3-D.

Uma espécie de refilmagem disfarçada de "Blindman" (1971), o filme italiano foi dirigido por Ferdinando Baldi e tinha no elenco Tony Anthony e Victoria Abril.

Não havia nenhuma novidade na obra além de espingardas apontadas para a fuça do espectador (foto abaixo) e bolinhas de sabão que saíam da tela graças ao "milagre" das três dimensões, mas mesmo assim o público comprou a ideia e correu para os cinemas, achando tudo aquilo muito divertido - à época, começava a febre do home vídeo graças ao VHS.


"Comin' at Ya!" fez tanto sucesso que produtores independentes começaram a bancar novas produções baratas em 3-D. Charles Band, por exemplo, produziu e dirigiu o horror "Parasite" (1982), com uma jovem Demi Moore no elenco, e a ficção científica bagaceira "Metalstorm: The Destruction of Jared-Syn" (1983).

Os grandes estúdios entraram na jogada e começaram a lançar os terceiros filmes de franquias consagradas em três dimensões, para poder usar "3-D" no título. São dessa época "Sexta-feira 13 - Parte 3" (1982, foto abaixo), "Tubarão 3-D" e "Amityville 3-D" (ambos de 1983). Todos eram lançados em vídeo em formato comum, e portanto perdiam a letra D do título. Taglines como "Uma nova dimensão em terror" viraram clichê.


Só que o público logo cansou da brincadeira - outra vez, diga-se de passagem. Afinal, na maior parte desses filmes, o 3-D era uma mera desculpa para ficar jogando coisas contra a câmera (e contra o espectador), sendo que essas cenas perdiam completamente a razão de existir quando o filme era posteriormente lançado em vídeo ou exibido na TV sem as três dimensões.

O formato só voltaria com força mais recentemente, no século 21, já com uma técnica mais moderna e em alta definição, sendo utilizado como arma de combate à pirataria de filmes pela internet (mais ou menos como foi uma alternativa contra a popularização da TV lá nos anos 1950 e contra o avanço do home vídeo nos anos 1980).

Porém, salvo raras exceções (como "Avatar" e "Resident Evil 4", que têm efeitos mais elaborados em três dimensões), a maior parte dos filmes em 3-D da atualidade são umas picaretagens bem parecidas com as de antigamente, com meia dúzia de coisas atiradas contra a câmera e nada muito além disso para justificar o alto preço do ingresso (mais caro quando o filme é em 3-D).



MULHERES PELADAS TRIDIMENSIONAIS
Não duvide do seguinte: no exato momento em que alguém disse "Inventei uma maneira de projetar filmes em três dimensões", um outro alguém, bem sem-vergonha, pensou "Então vou ter que dar um jeito de filmar uma trepada com esse sistema"!

Claro que demorou um pouco para que isso se concretizasse. Afinal, a popularização do cinema pornô hardcore só se deu a partir dos anos 1970. Antes disso, o máximo de ousadia em matéria de sacanagem eram inocentes filmes sobre nudismo ou comédias eróticas cheias de mulheres nuas (conhecidas popularmente como "nudies"), além de pornôs softcore onde a trepada era apenas insinuada, mas a penetração não aparecia em detalhes como nos pornôs hardcore.

Uma das primeiras produções de sacanagem a explorar a nudez feminina (e apenas isso) em três dimensões foi a comédia "Adam and Six Eves", de John Wallis, sobre um garimpeiro que se perde no deserto e encontra seis gatas peitudas (Gabrielle Benett, Marianne Bennett, Shelly Forbes, Leigh Sands, Lorraine Sheldon e Barbara Stanley) para minimizar o seu sofrimento.

Apenas algumas cenas de mulher pelada foram filmadas em 3-D; o restante era no formato tradicional, em 2-D mesmo. "Adam and Six Eves" foi gravado em 1960, mas não conseguiu lançamento comercial, provavelmente pela dificuldade em encontrar cinemas interessados em exibir filmes 3-D na época. Só chegou aos cinemas dois anos depois, em 1962, mas passou em formato "normal", sem os efeitos em três dimensões - mesmo assim, o pôster dizia: "Veja as seis Evas juntarem-se a você na plateia!".

Sendo assim, um dos primeiros filmes rodados em 3-D e exibidos em 3-D deve ser "The Bellboy and the Playgirls", comédia erótica que chegou aos cinemas norte-americanos em 1962. Hoje, a obra é mais conhecida por ter sido um dos primeiros trabalhos de um jovem estudante de Cinema chamado FRANCIS FORD COPPOLA!

Pois antes de "Sombras do Terror" (1963) e "Dementia 13" (mesmo ano, e “oficialmente” seu primeiro filme), Coppola foi chamado por um distribuidor para “melhorar” um velho filme alemão de 1958, chamado "Mit Eva fing die Sünde an" e originalmente dirigido por Fritz Umgelter.

Era comum, naqueles tempos, que distribuidores picaretas relançassem um mesmo filme estrangeiro duas ou três vezes, cortando ou adicionando cenas, mudando o título e o cartaz. Como não havia internet e IMDB, muita gente acabava vendo o mesmo filme duas vezes sem saber.

A pedido do tal distribuidor, Coppola filmou diversas cenas coloridas, em 35mm e em 3-D (o filme original alemão era em 16mm e em preto-e-branco!!!), com Don Kenney, a coelhinha da Playboy June Wilkinson (conhecida por, digamos, seus fartos atributos peitorais) e algumas outras anônimas peitudas que basicamente apenas sacudiam os melões para a câmera.

Estas cenas foram adicionadas na montagem do filme alemão e deram origem a "The Bellboy and the Playgirls", sobre o "bellboy" (carregador de malas) de um hotel que vive espionando as belas garotas que se hospedam no local - neste caso, modelos de lingerie nas cenas coloridas feitas por Coppola! O cartaz do filme traz uma frase que é um primor de marketing: "O 3-D coloca a garota no seu colo!".

Ainda em 1962, temos um outro exemplo de picaretagem fílmica: o nudie inglês "Paradisio" foi filmado por H. Haile Chace em preto-e-branco e "2-D", em várias partes da Europa (Alemanha, França, Itália, Áustria, Inglaterra, e em cada país era uma equipe diferente que filmava...).

Conta a história de um cientista (Arthur Howard) que utiliza um óculos especial de Raio-X para poder enxergar por baixo da roupa das mulheres (um ano antes de "O Homem dos Olhos de Raio-X", de Roger Corman).

Inofensivo, "Paradisio" tinha apenas umas cenas de mulher pelada aqui e ali. Mas os realizadores não conseguiram distribuição, então resolveram vender todo o material filmado, sem editar, para o produtor norte-americano Jack H. Harris, conhecido por financiar filmes baratos de horror (inclusive um tal de "A Bolha", de 1958...).

Vendo potencial na sacanagem e na moda das três dimensões, Harris filmou algumas novas cenas nos EUA, coloridas e em 3-D, a exemplo do que Coppola fez com "The Bellboy and the Playgirls". Segundo algumas fontes, entre estas cenas havia até sexo não-explícito. O cartaz vendia a proposta: "Tudo, mas TUDO MESMO, sai da tela em sua direção!".

"Paradisio" foi um inesperado sucesso de bilheteria nos EUA e no Japão. E, quem sabe, até inspirou os japas a fazerem seu próprio filme de sacanagem em 3-D. Pois em 1967, na terra do sol nascente, Kōji Seki dirigiu "Hentaima", ou "Perverted Criminal" (lançado em alguns países como "Abnormal Criminal").

Algumas fontes informam que é o primeiro filme em 3-D produzido no Japão, e também o primeiro filme da história com cenas de sexo em três dimensões (embora outras fontes indiquem que o pioneiro foi Jack Harris com suas cenas de sacanagem enxertadas em "Paradisio").

"Hentaima" é um pink film - nome dado aos filmes eróticos japoneses dos anos 60-70, que, por causa da forte censura no país, usavam de muita criatividade para esconder mais do que mostrar. O diretor Seki era um especialista nesse subgênero, e fez filmes como "Molester Invisible Man" (1977) e "Abnormal Sex Crimes" (1969).

A história acompanha um psicopata (Shūhei Mutō) que estupra e mata mulheres, muitas vezes praticando até necrofilia. A maior parte do filme é em preto-e-branco, mas as cenas de sexo e assassinato são em cores e com efeitos em 3-D!

Como "Hentaima" é uma produção obscura e provavelmente foi mal-lançado no resto do mundo, a fama de "primeiro filme com cenas de sexo em três dimensões" acabou ficando com o norte-americano "The Stewardesses" (1969), escrito e dirigido por Allan Silliphant aka Al Silliman Jr.

Mostrando a vida sexual de um grupo de bonitas aeromoças (entre elas, Christina Hart, Angelique de Moline e Donna Stanley), e com muitos peitinhos e bundas em 3-D, "The Stewardesses" não tinha sexo explícito, apenas umas trepadas simuladas que não mostravam muita coisa.

Mesmo assim, para os padrões da época, ganhou certificação X (só adultos podiam entrar nos cinemas), e por causa disso só era exibido em alguns poucos cinemas exclusivamente para adultos - daquele tipo bem mal frequentado.

Foi aí que aconteceu um fenômeno até hoje inexplicável: o filme virou um campeão de bilheteria tão grande que os produtores resolveram tirá-lo de cartaz e cortar algumas cenas mais "ousadas" para conseguir uma censura mais baixa e poder lançá-lo em mais cinemas.


Novas cenas foram filmadas, dando origem a pelo menos QUATRO montagens diferentes, com mais ou menos sexo (inclusive uma versão reeditada em 1981 que teve cenas de sexo explícito enxertadas)!!!

Assim, "The Stewardesses" ficou anos em cartaz pelos Estados Unidos, foi o sexto filme mais lucrativo do ano de 1971 e fez uma verdadeira fortuna: custou apenas 100 mil dólares e arrecadou mais de 30 MILHÕES nos cinemas! Segundo algumas fontes, se os valores fossem atualizados pela inflação, este pornô softcore continuaria sendo o filme em 3-D mais lucrativo de todos os tempos, batendo até mesmo "Avatar" na relação custo-benefício!!!


Um outro filme erótico de 1969, que de certa forma foi ofuscado pelo sucesso de "The Stewardesses", é "Swingtail", de Dave Shane. Algumas fontes indicam que esta produção era, originalmente, pornô (com sexo explícito), mas as versões atualmente em circulação ficam no território do softcore.

O filme mostra um produtor de cinema que resolve filmar as fantasias sexuais da sua namorada (interpretada por Alice Noland), e estas são exibidas com efeitos tridimensionais. Muitos espectadores devem ter ficado frustrados com a frase exagerada no cartaz ("Você é parte da ação!"), já que não é para tanto...

Com a chegada da década de 70, as produções softcore foram ficando, digamos, mais liberais, mais calientes. O sucesso de pornôs explícitos como "Garganta Profunda" e "Atrás da Porta Verde" (ambos de 1972) levou vários produtores a explorarem o sexo hardcore - inclusive em 3-D.

Antes, para economizar, eles resolveram simplesmente enxertar closes de penetração (com outros atores e atrizes) em filmes eróticos que já estavam prontos, para capitalizar em cima do sucesso de "Garganta Profunda" e cia.

Uma das produções originalmente softcores que virou hardcore à força é "A Touch of Sweden" (aka "The Chamber-Mades"), produção norte-americana de 1971 dirigida por Joseph F. Robertson e estrelada pela voluptuosa estrelinha sueca Uschi Digard, no papel de uma enfermeira européia fazendo turismo sexual pelos Estados Unidos.

Originalmente, "A Touch of Sweden" ficava apenas nos peitos e bundas em 3-D; alguns anos depois, os distribuidores enxertaram umas cenas hardcore com outros atores, mudaram o nome do filme para "Pastries" e o relançaram sem nenhum efeito de três dimensões, mas com putaria explícita.

"Prison Girls", de 1972, é um dos únicos (se não o único) filmes WIP em 3-D. Foi dirigido pelo especialista no subgênero "mulheres na prisão" Tom DeSimone, que depois assinaria vários pornôs hardcore para o público gay com o pseudônimo "Lancer Brooks" (além do slasher "Noite Infernal", com Linda Blair, em 1981).

Não há sexo explícito em "Prison Girls", apenas o tradicional sexo simulado e os peitos e bundas em 3-D (nesse caso, também os peitões da sueca Uschi Digard, uma das grandes musas da sacanagem tridimensional!).

Ainda no terreno do softcore temos "Three Dimensions of Greta", considerado o primeiro filme em 3-D produzido na Inglaterra (e inexplicavelmente relançado posteriormente com o título "FOUR Dimensions of Greta"!!!).

Com direção de Pete Walker e estrelado por mais uma deusa sueca, Leena Skoog, o filme narra a busca de um repórter alemão (Tristan Rogers) por uma jovem que desapareceu, a tal Greta do título.

Durante a "investigação", como se fosse uma versão erótica de "Cidadão Kane", o herói ouve diversos depoimentos sobre a vida devassa da garota, apresentados em flashbacks em preto-e-branco e em 3-D (o resto do filme é colorido e "normal").

Com direito, como é habitual, a muitos peitos saindo da tela em direção do espectador, além de vários outros objetos que são praticamente esfregados na lente da câmera para justificar o uso do efeito tridimensional, inclusive uma banana sensualmente oferecida por Greta, como você pode ver na foto abaixo.


Para fechar a sessão "softcore" desse dossiê, chegamos à famosa comédia erótica alemã "Liebe in Drei Dimensionen" (1973), ou "Love in 3-D", como ficou conhecido nos Estados Unidos. Esta produção dirigida por Walter Boos merece o status de clássico só por reunir um fantástico elenco de gostosas européias, como Ingrid Steeger, Elisabeth Volkmann e a musa sexploitation Christina Lindberg (de "Thriller - A Cruel Picture").


Há divergências, entre as várias fontes consultadas, sobre o tipo de sexo presente no filme. Algumas acreditam que ele foi concebido originalmente como filme erótico e depois teve cenas hardcore adicionadas na edição (com outros atores e atrizes trepando); outras defendem que era X-Rated desde o início. De qualquer forma, hoje pode ser encontrado em torrents nas versões 3-D e normal, com ou sem hardcore - a que eu vi não tinha sexo explícito.

Uma das grandes qualidades de "Love in 3-D" é que o diretor Boos tem plena consciência do uso "divertido", digamos, dos efeitos tridimensionais, enchendo o filme com cenas em que as atrizes literalmente esfregam os peitões ou bundas na lente da câmera - e, consequentemente, no rosto do espectador. Pode-se dizer que ele foi um dos poucos que entendeu para que realmente serve a combinação 3-D + sacanagem.



A TERCEIRA DIMENSÃO DO SEXO
Como vimos, até então tivemos um montão de produções eróticas em 3-D, algumas das quais tiveram cenas de sexo explícito adicionadas DEPOIS por distribuidores inescrupulosos. Nesses termos, qual é, afinal, o primeiro pornô hardcore produzido ORIGINALMENTE em 3-D???

Bem... Até que surjam novas informações (alô, Hugo Malavolta!), tudo leva a crer que a "honra" pertence a "Ram Rod", um obscuro PORNÔ GAY de 1973!!! Tão obscuro, diga-se, que não tem nem cadastro no IMDB. Sendo assim, não se sabe quem dirigiu ou quem produziu. O que rola pela internet são recortes de jornais da época com a publicidade de cinema e até uma crítica do filme.


A propaganda vendeu "Ram Rod" como "The World's First Male 3-D", enquanto a crítica informa que o filme consiste em quatro cenas homossexuais protagonizadas por George Payne, Bruce Morgan, Ray Jackson, John Traynor e Allen Sarefield. O título da crítica lembra manchetes do extinto Notícias Populares: "Pintos em 3-D não ajudam se o filme for ruim"!!!

Ainda nesta crítica, o jornalista faz questão de nos informar que, em determinada cena, o ator "mira a câmera" e o resultado vem contra o espectador em três dimensões!!! Ou seja, o tipo de coisa que faria a plateia hetero abaixar a cabeça ou tentar desviar, mas justamente o efeito que se espera em um pornô 3-D, ora pois!


Só para constar, existem pelo menos mais dois filmes hardcore gays com pintos e gozadas tridimensionais: "Heavy Equipment" (1977), e "Manhold" (1978), dirigido pelo mesmo cara (David E. Durston) que fez o violento filme de horror "I Drink Your Blood" oito anos antes!!! Ironicamente, ambos trazem, na divulgação, a frase "The first gay film in 3-D"...


Entrando no terreno dos pornôs hetero, no ano seguinte temos "The Playmates in Deep Vision 3-D" (1974), dirigido por Stephen Gibson com o pseudônimo "Pierre La France".

Também produtor, Gibson percebeu o potencial do sexo tridimensional como chamariz de público, desenvolveu um sistema próprio de filmagem (que batizou de "DeepVision") e assinou outros pornôs com cenas em 3-D (softcore e hardcore) nos anos seguintes: "Black Lolita" aka "Wildcat Women" (1975), "Hard Candy" aka "Lollipop Girls" aka "M 3-D - The Movie" (1976) e "Hot Skin" aka "Blonde Emmanuelle in 3-D" (1977).

"The Playmates..." traz várias figurinhas carimbadas no ramo de sacanagem da época, como Becky Sharpe e Rene Bond, e, como é de praxe, existe em diferentes versões, com mais ou menos sexo, dependendo do ano e do cinema em que foi (re)lançado. A trama segue os passos de uma jornalista que estuda o comportamento sexual de casais e solteiros, mero pretexto para peitos e pintos em três dimensões.


Em "Hard Candy", uma fábrica de doces é salva da falência graças à invenção de um pirulito com propriedades afrodisíacas. No cartaz desse filme já se faz notar a picaretagem engana-trouxa, com a gigantesca chamada "Wide Screen Color 3-Dimension Super 70mm Stereo", quando na verdade o filme foi feito em 35mm e com som mono!!!

Finalmente, "Hot Skin" ou "Blonde Emmanuelle in 3-D" é mais conhecido por este segundo título, tendo inclusive uma impagável tagline no pôster: "She is back! She is blonde! She's in 3-D!".

É óbvio que o filme de Gibson (dessa fez usando o pseudônimo "Giorgio Ferrari") não tem nada a ver com a série "Emmanuelle" oficial, mas curiosamente os realizadores desta franquia renderam-se às três dimensões alguns anos depois, em 1984, quando lançaram "Emmanuelle IV" em 3-D!!!

A atriz pornô Serena interpreta a "Blonde Emanuelle", e o elenco ainda conta com o famoso John Holmes (imortalizado pelo tamanho do seu pinto, e fico até com medo de imaginar isso em 3-D!!!) e com a musa tridimensional Uschi Digard (sim, de novo!).

Lançado em 1976, "Funk" seria apenas uma compilação de cenas hardcore em 3-D com os casais Nikki Hilton, Alex Mann, Alan Marlow e Annie Sprinkle, e foi produzido mais para testar um novo sistema, o "Super Touch 3-D", criado pelo diretor, roteirista e produtor Michael Findlay (usando o pseudônimo "Jullian Marsh").

Se você não ligou o nome à pessoa, Findlay era figurinha carimbada no círculo exploitation do período, tendo produzido e dirigido, entre outros, o infame "Snuff", que durante anos foi considerado um filme maldito com uma suposta cena real de morte (a alcunha "snuff movie" para esse tipo de obra surgiu por causa dessa lenda urbana, mas não, a cena não era real).

O cinéfilo Hugo lembra que a carreira de Findlay encerrou prematuramente antes que ele pudesse explorar melhor seu sistema 3-D (usado em apenas outras duas produções além de "Funk"): no ano seguinte (1977), ele foi um dos passageiros mortos na queda de um helicóptero em Nova York! Mas sua viúva, Roberta Findlay, continuou dirigindo filmes baratos (e geralmente ruins) até o final da década de 80.

Em 1977, a dupla Daniel L. Symmes e Joseph Tebber dirigiu "The Starlets", pornô hardcore sobre as aventuras sexuais dos frequentadores de um bordel em Hollywood. O filme tem no elenco John Leslie, Spring Finlay, Laurien Dominique e Monique Cardin.

Bem, esqueça tudo que você leu até agora: para algumas das fontes consultadas, "The Starlets" é o primeiro filme pornô hardcore, com cenas de penetração e tudo mais, produzido originalmente em 3-D, e o resto é resto.

Inclusive "The Starlets" ficou famoso quando Alvin "Al" Goldstein, redator da revista pornográfica Screw, escreveu: "É tão real que eu me senti como se estivesse traindo a minha esposa!". hahahahaha.


E é inútil seguir em frente... Tem tanto pornô em 3-D entre o final da década de 70 e a metade dos anos 80 que é incompreensível o fato de NINGUÉM nunca ter analisado o fenômeno a fundo - e chega a ser vergonhoso que a imprensa ainda caia no conto do suposto "primeiro pornô 3-D do mundo" que está sendo feito AGORA!

Só para continuar citando títulos mais conhecidos, temos ainda "The Capitol Hill Girls" (1977), de William J. Condon, sobre prostituição e chantagem em Washington, filmado com um suposto novo sistema chamado "LazerVision".

Temos o pornô francês "Le Pensionnat des Petites Salopes" (1982), lançado no resto do mundo com o título "Ménage à Trois", e que se notabiliza pela direção de Pierre B. Reinhard. Se não caiu a ficha, é o mesmo diretor do horror trash "A Revanche dos Mortos-vivos" (1987), provavelmente o único filme de zumbis com mortas-vivas lésbicas e semi-decompostas que estupram suas vítimas antes de matar!!!

Temos o pornô alemão "Supergirls for Love" (1983), dirigido por Walter Molitor, e que, segundo o especialista Hugo, chegou aos cinemas brasileiros com o título "Mulheres que Fazem em Terceira Dimensão" - e vá saber se passou em 3-D ou não...

Temos ainda "Mud Madness", pornô com... Ron Jeremy (e você consegue imaginar a pança do Ron Jeremy em três dimensões?!?), e "Sexcalibur", de Dinin Dicimino, um pornô "capa-e-espada" igualmente em 3-D, ambos produzidos e lançados em 1983.

Quando o interesse pelos efeitos tridimensionais perdeu a força, e os filmes pornográficos deixaram de ser produzidos em película para dar lugar à praticidade do videotape, foi necessário criar um novo sistema de 3-D.


Foi assim que surgiu o "pulfritch 3-D", gerado por computador e que cria uma imagem multiplicada como aquela de "Princesa Orgasma e a Cama Mágica". Descobri, também graças à ajuda do Hugo Malavolta, que os óculos 3-D tradicionais (com lente azul e vermelha) NÃO funcionam com essa técnica, que requer um outro óculos especial.

Muitas produções pornô feitas direto para o mercado de vídeo usaram o pulfritch além de "Princesa Orgasma...", como "Girls: Wet & Wild in 3-D", de 1993.


CONCLUSÃO (OU "INCONCLUSÃO"?)
Chego ao fim desse longo artigo com muitas dúvidas. Afinal, qual é o VERDADEIRO primeiro filme pornô em 3-D da história do cinema? Provavelmente nunca saberemos.

Filmes pornô eram (ainda são?) praticamente descartáveis nos anos 70-80: depois de um tempo máximo de exibição nos cinemas, os negativos voltavam para os distribuidores ou produtores e não raras vezes iam direto para o lixo. Muita coisa se perdeu e sua existência só é conhecida através de anúncios em jornais e reportagens de revistas. Outras provavelmente estão esquecidas para sempre.

O enciclopédico Hugo Malavolta questiona se o pornô gay "Ram Rod" foi mesmo o primeiro X-Rated 3-D: segundo ele, há grandes chances de a "honra" ser de "Secrets of Ecstasy '72", feito um ano antes, e mais uma daquelas produções obscuras sem ficha no IMDB e sem referências sobre elenco e equipe técnica.

"Ecstasy '72" era um falso documentário sobre sexualidade, de um subgênero que ficou conhecido como "white coater". Eram filmes sensacionalistas, produzidos principalmente nos EUA e na Suécia entre as décadas de 60 e 70, que geralmente traziam cenas de sacanagem, às vezes sexo explícito. Mas sempre com o pretexto de ser um "documentário sério" sobre sexualidade, inclusive com narração de um "médico" (obviamente um ator). Por causa desse suposto objetivo "educativo", esses filmes de putaria conseguiam exibição nos cinemas, mesmo quando pornôs hardcore ainda eram proibidos.

Pois algumas fontes alegam que "Ecstasy' 72" tinha algumas cenas de sexo explícito em 3-D no meio do material "educativo", e isso bastaria para dar-lhe a alcunha de "primeiro X-Rated tridimensional". Em todo caso, como tanto ele quanto "Ram Rod" estão atualmente perdidos e na obscuridade, provavelmente jamais saberemos de quem foi a honra de ser o primeirão.

E se não chegamos a uma conclusão nessa história toda, sempre é bom lembrar que os jornalistas e pesquisadores de hoje têm sua parcela de culpa em toda essa confusão. Afinal, eles compram uma jogada de marketing barata ("Estamos fazendo o primeiro pornô 3-D da história aqui na China!") e não vão atrás de pesquisar a história verdadeira.

Confesso que caí nesse mesmo comodismo ao escrever sobre o "Princesa Orgasma...". Já havia X-Rated tridimensional pelo menos 20 anos antes dele.

O problema é: se você ficar 15 minutos no Google fazendo buscas como "first 3-D porn", invariavelmente vai cair nas mesmas reportagens sobre o tal filme que estão fazendo agora. Tudo que veio antes é simplesmente ignorado, inclusive em sites gringos!

É inacreditável e é triste, mas a história está sendo esquecida, e a nova geração de jornalistas e pesquisadores parece não fazer muita questão de resgatá-la.

Este dossiê que você leu (ou só olhou as figuras) foi fruto do trabalho de uma semana de pesquisa praticamente braçal em sites sobre o assunto "3-D", porque o Google nem sempre nos dá tudo de mão beijada; e, claro, com a preciosa colaboração do distinto Hugo Malavolta, esta inesgotável banco de dados sobre o cinema mundial.

Deixo, portanto, esse dossiê - incompleto, muito provavelmente; inconclusivo, com certeza - para que o próximo interessado que fizer uma busca no Google descubra que, sim, tivemos filmes pornôs em 3-D antes de 2011, mesmo que toda a imprensa brasileira (mundial?) diga o contrário.

terça-feira, 12 de abril de 2011

PRINCESA ORGASMA E A CAMA MÁGICA (1993)


(Esta resenha é dedicada à fiel leitora Daniela Monteiro, uma bela garota que aprecia filmes pornográficos e, ao contrário da maioria das mulheres, não tem vergonha de admitir!)

Tendo trabalhado como jornalista por 16 anos, uma das coisas que mais me deixa puto é o jornalismo cultural desinformado que se pratica hoje. Porque foi só uma produtora chinesa começar a gravar um filme pornográfico utilizando a mesma técnica com que James Cameron fez "Avatar" que a nossa imprensa saiu alardeando as maravilhas do "primeiro filme pornô 3-D de todos os tempos"!!!

Não foram só um ou dois, quase todos caíram na conversa: jornais como O Globo e Folha de São Paulo, e até o Portal Terra. Quando eu comecei a trabalhar em jornal, em 1992, não havia internet. Se você precisava pesquisar algo, tinha que recorrer à memória dos mais velhos, aos livros ou às gigantescas enciclopédias Barsa. Hoje, com um click e alguns minutos no Google, você tem um universo inteiro à sua disposição. E mesmo assim os coiós que escrevem para os jornais e portais de hoje não perdem seu tempo pesquisando para saber que não, o tal filme chinês NÃO É o "primeiro filme pornô 3-D de todos os tempos"...


Pois bastaria uma simples pesquisa no Google para chegar a PRINCESA ORGASMA E A CAMA MÁGICA, uma produção X-Rated filmada em vídeo em 1993 pelo veterano da pornografia Anthony Spinelli (falecido em 2000). No negócio desde 1971, e com mais de cem filmes pornô no currículo, foi Spinelli quem fez o primeiro filme X-Rated 3-D do cinema, quase 20 anos atrás - quando estava com, acredite ou não, 66 anos de idade!

(Mas aí, graças à desinformação da nossa imprensa, quem passa por mentiroso é você! Lembro que um professor da faculdade comentava a informação que lera nos jornais sobre o "primeiro pornô 3-D", e, quando eu retruquei dizendo que já havia um feito em 1993, o cara me olhou com tal expressão de incredulidade que era como se eu tivesse dito que a Terra era quadrada!)


(Aliás, só para comprovar que o negócio é mais antigo do que pensam esses jornalistas desinformados de hoje, 20 anos ANTES do filme do Spinelli, em 1973, o alemão Walter Boos dirigiu "Liebe in Drei Dimensionen" - "Love in 3-D", no restante do mundo -, uma comédia erótica originalmente sem sexo explícito mas que já trazia sacanagem em três dimensões, inclusive os peitões da musa sueca Christina Lindberg!!!)

(E justiça seja feita: um dos poucos a não embarcar na onda de desinformação foi o blog Mondo Cane, do meu amigo Gio Mendes, que também desenterrou esse pornô esquecido dos anos 90, como você pode ver clicando no link acima.)


Mas voltemos à PRINCESA ORGASMA E A CAMA MÁGICA: qual a sensação de ver um pornô em 3-D afinal? Você realmente vê "os troços" saindo da tela em sua direção? Calma lá... Como escrever resenha de filme de putaria é algo que não rende, permitam-me antes contar minhas memórias relacionadas ao tal filme.

Foi entre 1998 e 1999 que o DVD começou a chegar com força no Brasil. Deslumbradas, as videolocadoras viam ali o futuro, principalmente na forma de estocar os filmes (você podia colocar 3 DVDs no espaço ocupado por um único estojo de VHS), e passaram a se desfazer de seus acervos de fitas. Muita coisa foi direto para o lixo, acabando com fitas raras do nosso mercado de VHS.


Quando a fúria homicida de jogar fitas fora chegou às locadoras da minha cidadezinha, eu tentei comprar (por um ou dois reais, geralmente) a maioria dos títulos raros e/ou desconhecidos, que sabia que jamais seriam lançados em DVD, ou pelo menos não tão cedo. PRINCESA ORGASMA... veio junto com um pacote de 200 fitas que comprei da locadora de um amigo (hoje falida). Quando descobri que aquilo era um "pornô 3-D", imediatamente esqueci das outras 199.

Claro que o óculos de lente azul e vermelha que originalmente acompanhava a fita já tinha ido para o beleléu, então eu tentei assistir com um que tinha em casa. Lembro que, enquanto o filme começava, eu tinha as mesmas perguntas que vocês: será que peitos e pintos vão sair da tela em minha direção? Será que devo me abaixar na hora do gozo tridimensional?


Foi com muita frustração, portanto, que percebi que PRINCESA ORGASMA... era um engodo: o 3-D do filme não funcionava, pelo menos não com os óculos tradicionais. Será que tinha um outro tipo de óculos específico para os efeitos usados pela produção? Duvido. Parece mais picaretagem mesmo.

Além disso, não é o filme todo que é em 3-D, apenas algumas poucas cenas esparsas em meio aos 70 minutos. Por exemplo: o casal está em meio ao seu rala-e-rola normal em "2-D", de repente pipocam umas cenas bizarras em que os corpos se multiplicam em três ou seis, como você vê na foto abaixo. Parece mais algum tipo de videoarte, ou o resultado de uma gravação pirata que deu errado. Não consegui ver nada de tridimensional nessas cenas borradas, mas, novamente, talvez a culpa seja do óculos...


E quando não são as trepadas borradas, a única amostra de 3-D são maçãs e vibradores produzidos por computação gráfica que ficam voando sobre a cena, algo que mais irrita do que diverte. Baseado nisso, e na ineficácia do sistema (pelo menos com os óculos tradicionais, volto a ressaltar), o que me lembro lá do longínquo 1998 ou 1999 é que minha primeira experiência com pornô em três dimensões foi bem frustrante!

Seja como for, aproveitando a comoção do falso primeiro pornô 3-D chinês, resolvi rever PRINCESA ORGASMA... há alguns dias por pura nostalgia, dessa vez numa versão ripada em DVD da minha velha fita, que ainda guardo com todo amor e carinho (principalmente porque é a prova da imbecilidade dos jornalistas citados no começo dessa resenha).

Dessa vez eu vi sem óculos algum, e ainda tentei encontrar qualidades que redimissem a película. Mas não as encontrei. Além de um pornô 3-D ruim, PRINCESA ORGASMA... também é fraquinho em duas dimensões!


O filme começa com um letreiro que corre ao estilo "Star Wars" (inclusive com um cenário espacial no fundo), explicando a "história" da Princesa Orgasma e sua Cama Mágica (dã!), que teria o poder de aumentar o apetite sexual das pessoas que se deitassem nela. Mas a princesa perdeu sua cama há muitos anos, e desde então tenta reencontrá-la. Misteriosamente, o título do filme grafa errado o nome da personagem principal (como "Princesa ORGASMIA"), mas no pôster e no IMDB o que aparece é "Princesa ORGASMA").

Corta para a veterana do pornô Nina Hartley, então com 34 anos e carinha (e corpinho) de 24, entrando no que parece ser um antiquário, acompanhada pela amiga Holly Ryder (atriz pornô mais novinha, da geração anos 90). A dupla passa por uma cama antiga (adivinhe...) e analisa algumas peças, quando então Nina solta a pérola: "Quem diria que havia vida antes dos Beatles...".


Ela explica que está procurando por uma cama com visual retrô para decorar sua nova casa, e Holly aponta para a gigantesca cama pela qual elas haviam acabado de passar absurdamente sem perceber. As moças se deitam nela para "testar" e, repentinamente, maçãs e bananas com formato fálico começam a voar pela tela, nos primeiros "efeitos 3-D" do filme.

Aí começa a putaria, e, como irá acontecer em cada cena de sexo explícito a partir de então, a tal cama mágica fica girando, atrapalhando a visão do espectador do fuc-fuc - principalmente porque em vários momentos a ação fica obstruída por vasos e outros objetos de cena! Não sei se deu tontura nos atores transar sobre uma cama que gira, mas no espectador certamente dá!


Depois de um 69 que parece durar uma eternidade, Nina saca um strap-on para comer Holly de quatro. E por mais que isso seja um maldito filme pornô e ninguém deva reparar na lógica, juro que fiquei me perguntando de onde diabos saiu aquele strap-on! Será que ela leva o negócio sempre consigo na bolsa, para o caso de algum ataque extremo de lesbianismo enquanto está fora de casa?

Quando a colação de velcro termina, finalmente aparece a tal Princesa Orgasma, na (bela) forma da atriz holandesa Deidre Holland, brincando com um daqueles globos de raio laser. Ela fala um monte de abobrinha sobre como transou com vikings e príncipes na sua adorada cama, nuns diálogos desconexos que deveriam ter sido cortados da edição - até porque qualquer tentativa de "contar uma história" se esvai logo em seguida.


Corta para outro veterano do pornô, Joey "Bigodinho" Silvera, com a bela ruiva Alyssa Jarreau num quarto, diante da mesma cama antiga da cena anterior. Pelos diálogos do casal, eles estão ajudando a "personagem" de Nina a arrumar os móveis recém-comprados em sua nova casa. Mas é claro que logo deitam na cama mágica e recomeça a putaria.

É nessa primeira cena de sexo hetero que você percebe que o "potencial" do 3-D não é usado da maneira como deveria. Os efeitos tridimensionais (que "borram" os atores, como expliquei antes) aparecem apenas em planos gerais da foda, e se isso realmente proporcionava alguma sensação de profundidade, por outro lado não devia ter graça nenhuma.

Afinal, o que eu queria ver eram planos de detalhe dos peitos sacudindo pertinho da minha cara em 3-D! Ou ficar aterrorizado com a possibilidade da gozada tridimensional sair da TV e me atingir. Mas nenhum dos closes foi filmado em 3-D. E aquela maldita cama nunca pára de girar, atrapalhando até a experiência de "acompanhar" a trepada!


A Princesa Orgasma volta para mais um pouco de besteirol e então o filme se rende ao sexo pelo sexo, esquecendo qualquer pretensão de contar historinha. Rolam mais duas cenas sem relação com os personagens anteriores ou mesmo com a cama (!!!), entre Buck Adams, Debi Diamond, Jon Dough e Deidre, e o bom dessas cenas é que pelo menos não tem a "cama mágica" girando e dá para VER o que está acontecendo.

Na cena final, há até uma tentativa de "fechar" a historinha, quando a personagem de Nina sonha que está fazendo sexo com Holly e um outro cara. Ela então acorda e descobre que foi tudo um sonho! Ou não. The end.


Tá, e aí? A cama mágica não era a cama mágica mesmo? Ou a Princesa Orgasma cansou de assistir as trepadas em sua amada cama e cancelou seus poderes afrodisíacos? Ou os caras não conseguiram pensar num final minimamente interessante e saíram com a primeira bobagem que passou por suas cabeças? Escolha sua resposta...

PRINCESA ORGASMA E A CAMA MÁGICA é frustrante como experiência 3-D, e na maior parte do tempo também como pornô "normal" (aquela maldita cama giratória...).

O que salva são as duas trepadas "comuns" no meio, filmadas à moda antiga, sem mil-e-um picotes na edição e sem câmera sacudindo toda hora. Sexo sem frescura, sem posições acrobáticas, razoavelmente excitante porque são coisas que o cara pode fazer com a patroa em casa.


Além disso, os atores e atrizes são pessoas "comuns", gente como a gente, sem aqueles estereótipos de "pitboy tatuado" ou "loira siliconada" que infestam o pornô moderno. Essas duas cenas salvam o filme, mas sempre que a "cama mágica" entra em cena e começa a girar, a coisa vai pro beleléu!

O filme fica, assim, como curiosidade de uma época em que as produções pornográficas tentavam ousar e chamar a atenção através de gimmicks como o 3-D (mesmo que, nesse caso, a ferramenta seja utilizada de forma bem picareta).

PRINCESA ORGASMA... também vale como registro das façanhas de vários veteranos do X-Rated norte-americano, gente que passou décadas dando ou comendo. Acompanhe: Joey Silvera, que tem 60 anos, "atuou" em inacreditáveis 946 pornôs (!!!); John Dough, falecido aos 44 anos em 2006, fez 871 filmes (incluindo "The World's Luckiest Man", em 1997, quando transou com 101 mulheres!!!); Nina Hartley, hoje com 52 anos, fez 549 filmes; Buck Adams, que morreu em 2008 com 53 anos, apareceu em 406 filmes; e Debi Diamond, atualmente com 46 anos, fez 380 pornôs.


E sabe o que é mais curioso? Mesmo quarentões, cinquentões ou sessentões, Joey, Nina e Debi continuam "atuando". Provavelmente Jon e Buck também estariam na ativa se não tivessem morrido (certamente satisfeitíssimos com a vida que levaram)...

Fica, então, a sugestão: bem que podiam reunir o que restou do elenco original num remake de PRINCESA ORGASMA E A CAMA MÁGICA. Dessa vez REALMENTE em 3-D, com peitos e pintos saindo da tela, como deve ser!

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Princesa Orgasma e a Cama Mágica (Princess
Orgasma and the Magic Bed, 1993, EUA)

Direção: Anthony Spinelli
Elenco: Nina Hartley, Deidre Holland, Jon Dough,
Joey Silvera, Buck Adams, Holly Ryder, Alyssa
Jarreau e Debi Diamond.