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segunda-feira, 29 de outubro de 2012

CASSINO ROYALE (1954)


Fazia um bom tempo que não se falava tanto em James Bond quanto nesses últimos dias e semanas. É um tal de "50 anos de 007" pra cá, novo filme do "James Bourne" Daniel Craig pra lá, e, como sempre, pouquíssimos jornalistas (e blogueiros) foram a fundo e lembraram de citar que a estreia de Bond nas telas na verdade foi há 58 anos, e não 50. Ainda que, nesse caso, as telas fossem as "telinhas" dos televisores norte-americanos, e não as telonas dos cinemas mundiais.

Pois foi com CASSINO ROYALE, adaptação do livro de Ian Fleming para um episódio do seriado de TV "Climax!", que nosso amado espião mulherengo e mortal ganhou sua primeira versão "live action", e isso lá em 1954, quando Sean Connery ainda era um mero figurante no cinema inglês e Daniel Craig sequer tinha nascido (o que aconteceria apenas 14 anos depois, em 1968).


O livro "Cassino Royale" é a primeira aventura literária do espião inglês James Bond, do Serviço Secreto de Inteligência (MI6), cujo nome de código, "007", significa que tem licença para matar. Foi publicado no Reino Unido em abril de 1953 e logo virou um sucesso de vendas. Mas o mesmo não aconteceu nos Estados Unidos, onde a obra foi publicada no ano seguinte, com uma recepção bem tímida e meras 4.000 cópias vendidas em um ano inteiro.

Entretanto, o autor Fleming já pensava grande. Em 1954, Bond já estava em seu segundo livro ("Viva e Deixe Morrer"), e seu criador teve inúmeras reuniões com produtores para tentar levar o personagem ao cinema, onde acreditava que ele teria um grande futuro (pense num visionário).

Infelizmente, ninguém queria bancar um filme de 007 naquela época, e imagine o arrependimento dessas pessoas se pudessem ver o futuro. Os únicos interessados no espião eram os executivos de um canal de TV norte-americano, a CBS. Eles produziam um seriado chamado "Climax Mystery Theater", ou simplesmente "Climax!", que consistia em episódios de no máximo 50 minutos, contando histórias de espionagem e suspense representadas ao vivo (isso mesmo, AO VIVO!).

"Climax!" estreou em 7 de outubro de 1954 com "The Long Goodbye", baseado num livro de Raymond Chandler, e já nesse primeiro episódio aconteceu um furo que entrou para os anais da história da TV ao vivo mundial: no meio da trama, o ator Tristram Coffin, que interpretava um cadáver, simplesmente levantou-se e caminhou para fora do cenário, ignorando que ainda estava dentro do ângulo da câmera, para a surpresa dos telespectadores!


Duas semanas depois, em 24 de outubro de 1954, seria exibido o terceiro episódio do seriado e a primeira aventura de James Bond fora dos livros de Ian Fleming (além, é claro, da primeira das três adaptações de "Cassino Royale", que depois foi transformado em comédia em 1967 e em "reboot" da franquia 007 em 2006).

Diz a lenda que Fleming recebeu apenas mil dólares pelos direitos de adaptação de James Bond para a TV, e nem podia reclamar porque o agente secreto sequer era um personagem popular nos Estados Unidos, onde o livro "Cassino Royale" não foi um sucesso de vendas como na Inglaterra - ironicamente, na abertura do episódio, o apresentador William Lundigan mentia que a aventura era baseada num "grande best-seller"!


Coube a dois roteiristas, Anthony Ellis e Charles Bennett, a honra de ser os primeiros a adaptar os feitos de 007. Enquanto Ellis era, à época, um nome de pouca expressão (e nem alçou maiores voos depois), Bennett era um veterano (nascido em 1899!) especializado em histórias de mistério e suspense, tendo escrito vários roteiros para os primeiros filmes de Alfred Hitchcock (como "Os 39 Degraus" e a primeira versão de "O Homem que Sabia Demais").

Já a direção de CASSINO ROYALE ficou a cargo de William H. Brown Jr., que havia dirigido o episódio de estreia do seriado "Climax!" e também não tem grandes créditos depois deste.


Quando se fala em CASSINO ROYALE, convém não pensar naquele "Duro de Matar no Cassino Royale" dirigido por Martin Campbell em 2006. O livro de Fleming, com aquele ar de pulp fiction de rodoviária, conta uma história bastante simples de espionagem, bem diferente da adaptação à la "Jason Bourne" feita no século 21.

Na trama do livro, o agente 007 James Bond recebe a aparentemente simples missão de jogar bacará contra Le Chiffre, o contador de uma organização terrorista conhecida como Smersh, que é viciado em jogo, mas aposta usando o dinheiro dos seus empregadores. Se Bond ganhar de Le Chiffre, o vilão será automaticamente eliminado pela sua própria organização por ter perdido o dinheiro destinado a operações terroristas e compra de armas.


O espião vai até o Cassino Royale-Les-Eaux, no norte da França, acompanhado pela agente Vesper Lynd. Após uma dramática partida, Bond consegue limpar os 8 milhões de francos de Le Chiffre, mas o vilão reage sequestrando Vesper e torturando 007 de maneira brutal, batendo inúmeras vezes em seus testículos (num trecho que chega a doer no leitor, muito bem representado no filme de 2006). O herói é salvo na hora H por um assassino da Smersh, que foi enviado justamente para eliminar o falido Le Chiffre.

Na conclusão do livro, Bond se apaixonava por Vesper e cogitava até abandonar o Serviço Secreto para casar-se com a agente e levar uma vida normal. Só que a moça cometia suicídio, deixando um bilhete em que explica que estava sendo chantageada e fazia jogo duplo para a Smersh. O último parágrafo da aventura é genial e mostra um 007 muito menos apaixonadinho do que aquele do filme com Daniel Craig: após contar aos seus superiores sobre a traição de Vesper, Bond completa, friamente: "Mas tudo bem, a vagabunda já está morta".


Como o leitor pode perceber, o livro de Fleming não tem nenhum 007 pedreiro fazendo "le parkour" e explodindo tudo que encontra pelo caminho, e é esse mesmo clima do livro que se vê nessa primeira adaptação de Bond para a TV norte-americana. Embora, claro, com uma série de modificações e simplificações, até para adequar a violenta trama de espionagem de Fleming para o formato televisivo (pior: formato televisivo AO VIVO).

Mas a maior das liberdades poéticas tomadas pelos roteiristas Ellis e Bennett foi que, para tornar James Bond mais simpático aos olhos do espectador norte-americano, ele deixou de ser um espião do Serviço Secreto Britânico para transformar-se num agente ianque (!!!) da fictícia Combined Intelligence Agency (uma alusão nada sutil à CIA), e interpretado por um ator californiano, Barry Nelson ("O Iluminado").


Como o formato de TV ao vivo não permitia muita movimentação ou cenas de ação elaboradas, CASSINO ROYALE se passa unicamente no interior do hotel-cassino que dá nome ao filme, e a narrativa é dividida em três atos separados por intervalos comerciais.

No primeiro ato, o agente norte-americano (hehehe) James Bond chega ao Cassino Royale e encontra seu contato, Clarence Leiter (Michael Pate). Clarence é a versão televisiva de Felix Leiter, que nos livros é um agente da CIA (e nos filme seguintes também). O irônico é que, aqui, ele trocou de papéis com o herói: Bond passa a ser o americano da CIA, e Leiter o agente inglês! Os dois conversam sobre a missão do herói (vencer Le Chiffre na mesa de jogo) e sobre as regras do bacará, até para que os espectadores não ficassem boiando, já que o jogo não é tão popular nas Américas quanto é na Europa.


No segundo ato transcorre o jogo de bacará propriamente dito, mas a adaptação para a TV falha em passar a sensação de urgência e de tensão do livro, melhor representada no filme de 2006. Após um início desanimador, Bond vence a partida e limpa Le Chiffre, ganhando um cheque milionário da direção do cassino.

Finalmente, no terceiro e último ato, o herói é aprisionado pelo vilão e por seus homens, que o torturam para descobrir onde ele escondeu o tal cheque. Como o esmagamento de testículos não iria ficar muito bem na TV, Bond sofre outra tortura nada agradável: as unhas dos seus pés são arrancadas com alicate - off-screen, é lógico. Le Chiffre acaba encontrando o cheque, mas a essa altura o agente já conseguiu se soltar e pode tranquilamente atirar em seus agressores. Fim do episódio.


Com um James Bond despido de suas principais características e pouco atuante na maior parte da história, a melhor coisa de CASSINO ROYALE é o vilão Le Chiffre, interpretado pelo sempre eficiente Peter Lorre. Por coincidência, isso de o vilão roubar a cena do herói é algo que se repetiria em várias aventuras posteriores da série 007 no cinema.

Eternamente marcado por seu papel no clássico "M, O Vampiro de Dusseldorf", Lorre compõe um vilão ameaçador de voz irritante e olhar psicótico. Curioso é que Le Chiffre, o primeiro vilão de uma aventura literária de Bond, também foi o primeiro inimigo de 007 nas telas, e Lorre o primeiro ator a interpretá-lo (Orson Welles e Mads Mikkelsen fariam o mesmo vilão em 1967 e 2006). Para não confundir o espectador com excesso de informação, Le Chiffre aqui é simplesmente um espião inimigo russo, sem que seja feita nenhuma referência à organização Smersh.


Além do James Bond ianque e do "Clarence Leiter" inglês, uma outra personagem bastante modificada em relação à sua contraparte literária é Vesper Lynd, primeiro interesse romântico de 007 no livro, e que aqui foi substituída por uma agente do Serviço Secreto Francês chamada Valerie Mathis - talvez uma referência a René Mathis, que no livro era um agente francês que não aparece nessa adaptação para a TV.

A honra de ser a primeira Bond Girl coube à mexicana Linda Christian, mas sua personagem tem pouco ou nada em comum com a Vesper Lynd do livro, sendo representada apenas como uma ex-namorada de Bond que agora é amante de Le Chiffre (na verdade, uma agente infiltrada para monitorar os passos do vilão). Bond e Valerie ficam juntos no final, ignorando a conclusão trágica do livro.


CASSINO ROYALE não é, nem com muita boa vontade, um bom filme, e nem sequer uma apresentação digna de James Bond como "herói de ação". A julgar por essa sua estreia televisiva, ninguém jamais poderia imaginar que em apenas oito anos (com "007 Contra o Satânico Dr. No", de 1962) teria origem uma das franquias mais famosas e lucrativas da história do cinema.

E é claro que, por não ser um episódio "oficial" da série iniciada com "O Satânico Dr. No", esse aqui também não tem nenhum dos elementos que tornaram 007 famoso no cinema: o imortal tema musical de John Barry, a vinheta animada com Bond disparando contra o espectador, a famosa apresentação "Bond, James Bond", os gadgets que o espião usa para se safar das enrascadas, e nem sequer o "martini mexido, mas não batido".

Mas o curioso é que a abertura do seriado "Climax!" lembra um pouco a famosa vinheta do "cano de revólver apontado contra Bond", quando o ponto de vista da câmera "entra" por dentro da lente de uma câmera de TV para apresentar o elenco e o título da série (imagens abaixo). Parece que a qualquer momento vai aparecer Barry Nelson caminhando e atirar contra o espectador, como fariam os Bonds depois dele! Vai ser visionário assim lá na PQP!


Mesmo com as inúmeras limitações narrativas impostas pelo formato televisivo (AO VIVO, lembrando mais uma vez), CASSINO ROYALE até tenta criar algumas situações de suspense e perigo - esporádicas, é verdade, mas ainda assim presentes. O episódio já começa, vejam só, com Bond escapando por pouco de um atentado a tiros na entrada do Cassino Royale. Parece que a história toda será nessa pegada, mas infelizmente o foco logo recai sobre a chatíssima partida de bacará.

O máximo de "excitação" que o espectador vê a partir de então é o herói sendo ameaçado por uma "bengala-espingarda" pressionada nas suas costas por um dos capangas de Le Chiffre, e depois apenas a conclusão com a tortura e vingança de Bond. A narrativa é ancorada nos diálogos entre os personagens, que tentam passar urgência e tensão através de telefonemas e ordens dadas sem muita convicção. É pouco para o personagem que viraria praticamente um exemplo de ação e emoção nos filmes posteriores, mas vamos combinar que o livro de Ian Fleming também não era exatamente movimentado e emocionante.


Fechando um olho para a narrativa televisiva típica da época, o grande defeito de CASSINO ROYALE, ainda mais considerando o que viria depois, é o Bond de Barry Nelson. Ele em nada, mas nada mesmo, lembra o personagem literário ou suas futuras encarnações cinematográficas. Com cabelo escovinha e um smoking barato, falta-lhe o charme, a ousadia e até a ironia ao enfrentar o perigo. Nelson representa Bond como se fosse um cowboy, ou mesmo um detetive daqueles filmes classe B da época, disparando frases prontas e engraçadinhas ao invés de tiros - quando Leiter pergunta se ele era o sujeito em quem atiraram na entrada do cassino, Bond responde: "Não, eu sou o sujeito que erraram".

Também não ajuda o fato de o roteiro dar mais destaque às supostas habilidades de Bond como jogador de cartas do que à sua "licença para matar" (que sequer é citada). Não que habilidades específicas sejam importantes nesse caso (e não eram no livro ou na adaptação de 2006), pois o bacará é um jogo mais de sorte do que de técnica - o próprio herói explica que "é como qualquer jogo: você não pode perder". Para piorar, Bond é várias vezes chamado de "Jimmy" Bond, porque os americanos adoram esses apelidos diminutivos engraçadinhos!


Enfim, eu sempre achei bastante curioso o argumento do livro de Fleming, que coloca um super-espião para enfrentar um vilão perigosíssimo não com a força bruta, nem com a astúcia, mas sim com a pura sorte num jogo de cartas! O problema é que CASSINO ROYALE nunca consegue convencer o espectador da importância desta partida (a adaptação de 2006 foi muito mais eficiente nesse sentido), e a dita cuja acaba sendo só isso mesmo, uma enfadonha partida de cartas cujas regras o espectador sequer entende direito.

Se Jimmy Bond e Le Chiffre parecem tensos na mesa, essa tensão nunca se estende ao espectador, e por isso é questionável o porquê de uma história dessas ter sido adaptada para um seriado supostamente especializado em tramas de suspense!


Mesmo assim, parece que CASSINO ROYALE teve audiência e repercussão suficientes para que a CBS contratasse Ian Fleming para escrever outras histórias do agente "Jimmy" Bond para o seriado. Só que, apesar de o autor ter escrito uns 30 roteiros, eles acabaram nunca sendo filmados, e o próprio Fleming reutilizou os argumentos em alguns dos seus livros posteriores.

Um tanto insatisfeito com o tratamento dado ao personagem pela TV norte-americana, e pelo pouco-caso com as outras aventuras que escreveu, Fleming continuou batendo de porta em porta de produtores, até finalmente conseguir vender seu peixe para Albert R. Broccoli e Harry Saltzman, que fizeram "O Satânico Dr. No" oito anos depois. O sucesso estrondoso desse "novo" 007, interpretado com muito mais charme e cinismo pelo escocês Sean Connery, mandou o Jimmy Bond de Barry Nelson direto para a obscuridade.


Mas antes de enfrentar o Dr. No no cinema, James Bond atacou também nos quadrinhos, mais especificamente em aventuras divididas em tiras diárias publicadas no jornal Daily Express (imagem acima). E a primeira aventura adaptada para este formato foi novamente "Cassino Royale", cujas tiras foram publicadas entre julho e dezembro de 1958, com texto de Anthony Hern e desenhos de John McLusky.

Entre essa pioneira e a estreia de "O Satânico Dr. No" nos cinemas em 1962, outras dez aventuras de 007 viraram tiras de quadrinhos (inclusive "Dr. No", publicada em 1960), e mais seriam produzidas até o final da década de 70.


Já o seriado "Climax!" teve vida longa e chegou a quatro temporadas, encerrando em junho de 1958. Pelo menos dois cineastas famosos tiveram suas primeiras experiências nesta série: John Frankenheimer, que dirigiu 26 episódios entre 1955 e 56, e Arthur Hiller ("Love Story"), responsável por dois episódios.

Se nenhum dos outros roteiros de Fleming chegou a ser adaptado, "Climax!" pelo menos contou com roteiristas como Rod Serling e Gore Vidal no seu quadro de roteiristas, e com a participação de atores do calibre de Vincent Price, Lon Chaney Jr., John Carradine, Lee Marvin, Boris Karloff, Charlton Heston, John Cassavetes, Henry Silva, Vera Miles e até uma jovem Betsy Palmer, que décadas depois ficaria imortalizada como a mãe de um certo Jason na série "Sexta-feira 13".


Infelizmente, como aconteceu com boa parte do material dos primórdios da TV, os episódios de "Climax!" foram considerados perdidos, e CASSINO ROYALE é um dos poucos que foi salvo da obscuridade após anos de investigações feitas por colecionadores - uma missão tão complexa que seria digna do próprio 007, mas não do fracotão Jimmy Bond!

No fim, das três versões já produzidas para o livro de Ian Fleming, confesso que a minha preferida é a comédia débil mental de 1967. Talvez pelo elenco de astros, talvez pela zona total que é aquele filme, talvez pela quantidade de musas do cinema de outra época, talvez pelo clima de gozação geral com a franquia, talvez simplesmente porque eu seja um débil mental. Eu até gostei do "Cassino Royale" de 2006, mas o filme cai muito nas revisões.


Até porque já torrou o saco essa onda de "hiper-realismo" no cinema, com Batman realista, Bond realista e o caralho a quatro. A graça de 007 é justamente o absurdo, o exagero e o clima de história em quadrinhos das suas aventuras (algo exclusivo do cinema, que não existia nos livros de Ian Fleming). Transformá-lo num espião "mais humano" e sem os absurdos é o mesmo que fazer um novo "Porky's" sem mulher pelada, ou um novo "Sexta-feira 13" sem mortes.

E vale registrar que o maior beneficiado com a existência desse CASSINO ROYALE de 1954 é o Daniel Craig. Afinal, graças ao descaracterizado e sem graça Bond de Barry Nelson, o dele passa a ser apenas o segundo pior 007 do cinema, e não "o" pior.


Veja CASSINO ROYALE na íntegra!


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Climax! Presents Casino Royale (1954, EUA)
Direção: William H. Brown Jr.
Elenco: Barry Nelson, Peter Lorre, Linda Christian,
Michael Pate, Eugene Borden, William Lundigan,
Jean Del Val e Gene Roth.

sábado, 5 de abril de 2014

CARTES SUR TABLE (1966)


Das ironias do mundo do cinema: no começo dos anos 1960, quando Harry Saltzman e Albert R. Broccoli decidiram adaptar para o cinema as aventuras de James Bond escritas por Ian Fleming, ouviram um "não" de dezenas de estúdios, diretores e atores. Mas foi só o "O Satânico Dr. No" (1962) sair, e revelar-se um grande sucesso de bilheteria, para que todo mundo começasse a correr atrás do atraso, tentando faturar em cima da febre.

Após o sucesso de "007 Contra Goldfinger" (1964), produtores italianos, espanhóis e franceses (principalmente estes) deram início à realização em escala industrial de cópias das aventuras de James Bond, num ciclo que ficou conhecido como "Eurospy". E tome agentes secretos com códigos numéricos: "A 001, Operazione Giamaica" (1965, dir: Ernst R. von Theumer), "Agent 077 - From the Orient with Fury" (1965, dir: Sergio Grieco), "A 008, Operation Sterminio" (1965, dir: Umberto Lenzi), "Agente X 1-7: Operazione Oceano" (1965, dir: Tanio Boccia), "Agente 3S3: Passaporto per l'inferno" (1965, dir: Sergio Sollima), as diversas aventuras francesas do agente OSS 117 (que é ANTERIOR ao "O Satânico Dr. No"), e por aí afora.


E o que Jess Franco tem a ver com o pastel?

Bem, inicialmente ele foi uma vítima da febre, já que um thriller de espionagem que dirigiu em 1962, chamado "La Morte Silba un Blues" e sem nenhuma relação com James Bond, acabou sendo lançado pelos distribuidores franceses com o título "Agent 077: Opération Jamaïque" (veja abaixo).

Até o ator principal deste filme, Conrado San Martín, ganhou um nome artístico americanizado, "Sean Martin", remetendo tanto a Sean Connery quanto a Dean Martin (que, na mesma época, interpretava Matt Helm, outro espião famoso adaptado para o cinema).

Repare na "pequena alteração" nos cartazes e no nome do astro!

Em 1965, que provavelmente foi o ano do pico da produção dos Eurospies, Jess também ganhou uns trocos para reescrever seu roteiro de "La Morte Silba un Blues" como uma aventura de espiões mais popular, que se transformou na aventura ítalo-franco-espanhola "Da 077: Intrigo a Lisbona", dirigida por Tulio Demicheli.

No ano seguinte, foi a vez do próprio Franco aventurar-se pelo ciclo. Numa tacada só, rodou três filmes de espionagem em tom de farsa, que não se levavam muito a sério, e ao mesmo tempo reciclavam e parodiavam clichês das aventuras de James Bond, Matt Helm, Derek Flint e suas imitações. O primeiro, que nos interessa no momento, foi CARTES SUR TABLE (1966), e os demais são "Residencia para Espías" e "Lucky, El Intrepido" (estes lançados em 1967). Nos anos seguintes, ele ainda faria mais algumas produções nessa linha.


Tanto CARTES SUR TABLE ("Cartas na Mesa", em tradução literal) quanto "Residencia para Espías" foram estrelados pelo norte-americano Eddie Constantine (1913-1993), que, na época, era um super-astro na França. Constantine já era um cantor bastante popular quando estreou no cinema, e caiu nas graças do público francês ao estrelar aventuras do detetive Lemmy Caution, um personagem criado pelo escritor inglês Peter Cheyney.

Seu primeiro filme no papel do herói foi "Brotinho Venenoso" ("La Môme Vert de Gris", 1953), e depois Constantine faria mais 12 filmes e dois episódios de série de TV interpretando Lemmy Caution, sendo que dois deles eram "filmes de arte" dirigidos por Jean-Luc Godard ("Alphaville", de 1965, e "Allemagne 90 Neuf Zéro", de 1991).


Em CARTES SUR TABLE, Constantine interpreta o espião Al Pereira, criação do próprio Franco - cujo nome é uma homenagem ao diretor de arte de Hollywood Hal Pereira, que trabalhou em clássicos como "Os Brutos Também Amam", "A Guerra dos Mundos" e diversos filmes de Alfred Hitchcock. Vale lembrar que, no áudio original francês, o sobrenome é pronunciado como "Pehehá" (para facilitar, o nome foi alterado para "Al Peterson" na dublagem em inglês).

A história começa com vários assassinatos de líderes religiosos e políticos ao redor do mundo, sempre cometidos por meio de ataques praticamente suicidas realizados por misteriosos matadores de pele acobreada e usando óculos. Quando um deles é preso pela polícia, não fala coisa com coisa; ao recolocar os óculos, entretanto, torna-se agressivo e tenta fugir, sendo baleado e morto.


É quando a Scotland Yard descobre que o homem havia desaparecido dois anos antes em Alicante, na Espanha. E, assim como outras pessoas que sumiram sem deixar pistas naquela mesma região, tem um fator sanguíneo bastante raro chamado "Rhesus Zero", o equivalente a O positivo e negativo ao mesmo tempo!

(Não precisa ser formado em Medicina para saber que não existe tal coisa, mas os roteiristas precisavam de alguma anomalia científica para justificar a escolha dos candidatos a matador, conforme veremos mais adiante. Saiba, portanto, que é preciso fechar um olho para o fator realismo ao encarar o filme, se é que alguém realmente espera realismo em uma aventura dessas...)


Acreditando que todos esses fatores têm uma relação, a Scotland Yard resolve recrutar o único de seus espiões que tem o tal sangue raro, para investigar o que acontece em Alicante.

O candidato em questão é Al Pereira; só que, sem que ele saiba, seus superiores resolvem mandá-lo para a Espanha numa missão falsa, esperando que ele seja sequestrado, como os demais desaparecidos, enquanto outros agentes secretos mais habilidosos seguem a pista dos vilões! Sacanagem, não?


Sem desconfiar de nada, Pereira pega seus gadgets à la James Bond e parte para a Espanha, onde descobrirá, quase sem querer, que os tais assassinos são pessoas comuns transformadas em autômatos, controlados por sinais de rádio enviados pelos óculos que usam. O responsável por isso é o típico cientista louco de filmes do 007, Sir Percy (Fernando Rey), e somente quem tem o raríssimo fator "Rhesus Zero" pode passar pelo processo de transformação (ah, bom...).

Para complicar um pouquinho a história, Pereira também é recrutado "à força" por uma quadrilha de chineses, liderada por Lee Wee (Vicente Roca), que tem grande interesse no tal sistema de controle cerebral. Como todo bom agente secreto, o herói também se envolverá com todo tipo de femme fatales, incluindo a dançarina Cynthia Lewis (a francesa Sophie Hardy), que pode ser um agente duplo.


Como a maioria dos trabalhos da "fase clássica" de Jess Franco, CARTES SUR TABLE pode ser surpreendente para quem só conhece as tranqueiras que ele fez de 1980 em diante. Afinal, a narrativa é mais "comportada" e o visual é deslumbrante, com belissima fotografia de Antonio Macasoli (dê uma espiada nas imagens abaixo), sem nem sinal do excesso de "zooms" e câmera esquizofrênica que os detratores do diretor apontam como grandes defeitos dos ses trabalhos posteriores.

Também ajuda o fato de o roteiro ter sido escrito em parceria com Jean-Claude Carrière, que já havia assinado o anterior e excelente "Miss Muerte". Ele é mais conhecido como roteirista dos clássicos de Luis Buñuel, tipo "O Fantasma da Liberdade" e "O Discreto Charme da Burguesia". Por isso, muito fã de cinema de arte certamente vai surtar ao descobrir que o homem também trabalhou com o "maldito" Jess Franco!


O roteiro de Franco e Carrière é bastante fiel ao clima de "pulp fiction" das aventuras de espionagem da época, com sucessivas traições, perseguições, tiroteios, mulheres fatais e até bandidos orientais (coisa muito em voga na ficção de gênero da época), mais a bem-vinda inclusão de toques de ficção científica, com os autômatos controlados por ondas de rádio (um detalhe que já havia sido enfocado por ambos no anterior "Miss Muerte").

O melhor é que a dupla também parece não estar levando a coisa tão a sério, ou menos a sério do que as aventuras de James Bond e muitos de seus imitadores. Lá pelas tantas, aparece até um agente mirim (interpretado por Lemmy Constantine, filho do astro), que usa seu carrinho de brinquedo como walkie-talkie!


Numa cena genial, Pereira recebe seus gadgets - coisas como luvas eletrificadas e um charuto que solta gás venenoso - e questiona seus superiores quanto ao fato de aqueles equipamentos oferecerem perigo também a ele mesmo. Afinal, uma das armas é um guarda-chuva que, quando aberto, explode!
- E eu vou ter que andar com isso pela Espanha? - ironiza Pereira.
- Somente em dias de chuva.
- Mas, se chover, eu não posso abri-lo!
- Claro que não, porque aí ele explode!


Outro momento fantástico em que CARTES SUR TABLE investe no humor acontece quando dois grupos distintos de vilões (os chineses e os autômatos de Sir Percy) resolvem armar uma emboscada para Pereira em seu quarto de hotel NA MESMA HORA. Acaba explodindo a maior briga entre os bandidos, com um grupo matando o outro.

Para piorar, quando o herói volta ao quarto, precisa esconder os cadáveres espalhados por toda parte para que eles não atrapalhem a noite de amor que terá com a dançarina Cynthia! Uma cena genial, que você definitivamente não verá num filme de James Bond!


Por falar em Bond, embora Al Pereira tenha sido construído a partir das mesmas bases de Sean Connery em "O Satânico Dr. No" e aventuras seguintes (ele é apresentado usando smoking e jogando num cassino, tem gadgets, pega a mulherada, fuma um cigarro atrás do outro), ao mesmo tempo ele é radicalmente diferente do seu colega 007.

Por exemplo, Pereira não é tão seguro de si e nem se diverte tanto quanto Bond em suas missões; pelo contrário, o herói aqui parece de saco cheio da vida de espião e louco para abandonar tudo. Ele também não toma nenhum "martini batido, mas não mexido", e aparenta estar em tratamento de alcoolismo (em certo momento, até aparece bebendo Coca-Cola!).

Tampouco tem o mesmo glamour em matéria de veículos: ao invés de um Aston Martini para dar rolê e pegar as gatinhas, o espião encara um busão lotado e caindo aos pedaços na sua chegada em Alicante - mas mesmo assim joga charme para cima da Bond Girl, ou "Pereira Girl"! Só esses toques cômicos já valem o filme.


Constantine está muito bem como agente secreto, e vendo o filme hoje dá para entender porque ele era tão popular na Europa da época: o ator tem um quê de Humprey Bogart, intercalando charme cínico, simpatia e bom humor. Numa realidade alternativa, talvez até fizesse um ótimo James Bond francês, e não inglês.

Inclusive o próprio Franco deve ter adorado trabalhar com o ator, já que, em várias entrevistas da época, Jess dizia que seus diretores preferidos eram Godard e John Ford, e Constantine havia recém saído de "Alphaville", que foi dirigido por Godard. Devem ter rolado várias conversas entre diretor e astro nos bastidores.


O único ponto fraco de CARTES SUR TABLE, em comparação com as aventuras de James Bond que homenageia/cita/satiriza, é a falta de um vilão mais expressivo. O ótimo Fernando Rey até impõe algum respeito como Sir Percy, o fabricante de autômatos. E vive num enorme esconderijo cheio de maquinário de alta tecnologia (para a época) e capangas armados, como convém a um adversário do gênero. Infelizmente, o personagem aparece muito pouco e não faz nada de memorável nestas poucas aparições. Assim, quem acaba brilhando em seu lugar é o braço direito de Percy, Lady Cecilia (Françoise Brion), que tenta seduzir o herói duas vezes e entra naquela categoria "capanga sedutora do vilão", elemento tão comum nos filmes de 007.


Há um enigma que persiste até hoje envolvendo CARTES SUR TABLE: embora todas as cópias existentes sejam em preto-e-branco, alguns pesquisadores defendem que Franco rodou as cenas usando filme colorido, mas o laboratório converteu tudo para preto-e-branco na pós-produção a mando dos produtores, que queriam aproveitar que os "filmes noir" estavam na moda graças ao já citado "Alphaville".

Tem dois bons argumentos para embasar essa teoria. Primeiro, o fato de o segundo filme de Jess com Constantine, "Residencia para Espías", filmado logo em seguida, ser colorido. E em segundo lugar, um elemento importante da própria trama: os autômatos de pele acobreada "desbotam" ao morrer e ficam com o rosto pálido, mas obviamente tal mudança de coloração aparece de maneira bem sutil na fotografia em preto-e-branco (em cores se notaria muito mais facilmente).


Embora esta seja a única vez que Eddie Constantine interpretou Al Pereira, Franco continuou escrevendo e dirigindo novas aventuras do personagem nos anos seguintes. De agente secreto ele foi virando detetive particular e até explorador da selva, conforme a necessidade.

No lugar de Constantine, Howard Vernon, Olivier Mathot, o próprio Franco e Antonio Mayans assumiram o papel. O espanhol Mayans foi quem mais vezes encarou Al Pereira (seis ao todo), incluindo os dois últimos filmes dirigidos por Jess Franco, "Al Pereira vs. the Alligator Ladies" (2012) e "Revenge of the Alligator Ladies" (2013).

Na sua fase mais "vale-tudo", na década de 80, Jess fez uma refilmagem "disfarçada" deste filme, chamada "Viaje a Bangkok, Ataúd Incluido" (1985), com a mesma história dos assassinatos políticos cometidos por autômatos controlados à distância (nesta versão, eles inclusive são cegos!). Mas tal reboot não é nem de longe tão divertido quanto o "original".


Além de uma bela contribuição "Franquiana" para o ciclo dos Eurospies, e de um veículo perfeito para o cultuado Eddie Constantine brilhar entre seus fãs franceses (o filme foi muito mal lançado no resto do mundo), CARTES SUR TABLE também é um belíssimo argumento para você esfregar na cara daquele seu amigo cinéfilo chato que vive falando que Jess Franco não entende porra nenhuma de cinema.

Afinal, o filme não apenas é bem produzido, bem filmado, bem interpretado e BEM DIVERTIDO, mas também tem um ator cult que trabalhou com Godard no papel principal e um roteirista que trabalhou com Buñuel - uma combinação pra cinéfilo chato nenhum botar defeito!

PS: Numa cena em que Cynthia se apresenta no palco de uma boate, o pianista da banda de jazz que está se apresentando é o próprio Jess Franco (ele pode ser visto numa das imagens desta resenha).


Trailer de CARTES SUR TABLE



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Cartes sur Table / Attack of the Robots
(1966, Espanha/França)

Direção: Jess Franco
Elenco: Eddie Constantine, Françoise Brion, Sophie
Hardy, Fernando Rey, Alfredo Mayo, Vicente Roca,
Ricardo Palacios, Dina Loy e Mara Lasso.