quinta-feira, 1 de maio de 2014

EL HUNDIMIENTO DE LA CASA USHER (1983), LOS CRÍMENES DE USHER (1984) e REVENGE IN THE HOUSE OF USHER (1987)


Na longa filmografia do diretor Jess Franco, várias obras têm mais de uma versão circulando, com cenas a mais ou a menos, trechos com sexo explícito inseridos na montagem, inícios e finais diferentes, e por aí vai - dependendo do país em que cada uma foi lançada e do nível de picaretagem do respectivo produtor ou distribuidor. Isso dificulta bastante o trabalho de pesquisar a obra do espanhol, já que muitas vezes é preciso encarar até cinco montagens diferentes de um mesmo filme para conseguir ver tudo que foi filmado para aquele projeto.

Mas poucos filmes de Franco sofreram tanto com esse pesadelo das versões diferentes quanto EL HUNDIMIENTO DE LA CASA USHER, uma adaptação minimalista do famoso conto "A Queda da Casa de Usher", de Edgar Allan Poe, que o diretor bancou com dinheiro do próprio bolso e rodou entre 1982 e 1983. Pois eis que hoje existem nada menos de TRÊS montagens completamente diferentes da obra, cada uma com novas cenas que alteram substancialmente a história!


O conto de Poe, "A Queda da Casa de Usher", foi publicado pela primeira vez em 1839. É narrado por um homem que viaja até um velho casarão, afastado da cidade, para encontrar seu velho amigo Roderick Usher, que lhe enviou uma carta pedindo ajuda. O narrador encontra um Usher paranóico e amedrontado, que acredita que sua casa teria adquirido "vida própria". No desfecho, a finada irmã de Usher, Madeline, que havia morrido algumas semanas antes e foi sepultada na cripta da família, reaparece ainda viva - ela tivera um ataque de catalepsia e foi dada como morta! Madeline abraça o irmão e ambos morrem fulminados pelo choque, e nesse momento a casa se parte no meio e desmorona, quando o narrador já está a uma distância segura.

"A Queda da Casa de Usher" foi adaptado pelo menos uma dúzia de vezes para o cinema, e duas delas são obrigatórias: o clássico francês de mesmo nome, dirigido por Jean Epstein em 1928, e a versão feita por Roger Corman, e estrelada por Vincent Price, em 1960 (rebatizada "O Solar Maldito" no Brasil). Curtis Harrington dirigiu ele mesmo duas adaptações em forma de curta-metragem, uma em 1942 e outra em 2000, Ken Russell fez uma versão autoral em 2002 ("The Fall of the Louse of Usher"), e até o infame David DeCoteau, famoso por seus filmes de terror afrescalhados com rapazes de cuequinha, adaptou o conto em "House of Usher" (2008), cujo pôster (acima) já diz tudo...

Quando Franco resolveu fazer sua própria versão do conto de Poe, já existiam sete outras - algumas produzidas para a TV, e até um desenho animado dirigido por Jan Švankmajer. Mesmo assim, o espanhol conseguiu fazer uma adaptação bastante original, que, da história em que se baseia, só tem mesmo o amigo de Usher que o visita e o final com a casa desmoronando após a morte do seu proprietário!


Se EL HUNDIMIENTO DE LA CASA USHER tivesse sido um sucesso, provavelmente a carreira de Jess teria ganhado um outro rumo a partir daqui. Afinal, depois de produções baratas em que a sacanagem se sobressaía à trama (tipo "Macumba Sexual" e "La Mansión de los Muertos Vivientes"), esta aqui propunha um retorno àquele horror mais clássico dos seus primeiros filmes, como "O Terrível Dr. Orloff" (1961) e "O Sádico Barão Von Klaus" (1962).

Infelizmente, o filme não só foi um fracasso, mas um daqueles fracassos retumbantes! A versão do diretor foi exibida uma única vez, em março de 1983, no Imagfic - Festival Internacional de Cine Imaginario y de Ciencia-ficción de Madrid, na Espanha. Digamos que a reação do público não foi das melhores: os espectadores se dividiam entre rir escandalosamente ou vaiar do começo ao fim, e alguns debandaram do cinema em grupos. Em entrevistas posteriores, o diretor reclamou que eles não tinham entendido nada.

(Nos arquivos do jornal espanhol El País, é possível encontrar um dos raros registros públicos desse fiasco, uma reportagem intitulada "Risadas ao invés de horror em 'El Hundimiento de la Casa Usher'", escrita por Diego Galán e publicada em 24 de março de 1983).


A recepção fracassada de EL HUNDIMIENTO DE LA CASA USHER acabou decretando o destino do filme, já que a partir de então nenhum distribuidor tinha interesse em gastar dinheiro lançando a obra nos cinemas, e Franco ficou com o filme parado e sem possibilidades de recuperar seu investimento!

Finalmente, em 1984, o diretor resolveu filmar algumas cenas novas envolvendo nudez e violência, acreditando que assim seria mais fácil distribuí-lo. Esta estratégia deu origem a uma segunda versão da obra, que ficou conhecida como LOS CRÍMENES DE USHER, e que algumas fontes indicam que teve um lançamento muito limitado nos cinemas de Madrid em 1986, enquanto outras alegam que jamais chegou a ser exibida.

Oficialmente, pelo menos, nenhuma destas duas montagens espanholas chegou a ser lançada, nem mesmo nas locadoras, e hoje a segunda (LOS CRÍMENES DE USHER) só circula numa cópia praticamente inassistível ripada de um velho VHS pirata (que teria sido obtido ilegalmente por um amigo de Jess, o ator francês Alain Petit).


Tentando recuperar o prejuízo, Jess ofereceu o corte original de EL HUNDIMIENTO DE LA CASA USHER para seus parceiros de longa data Marius e Daniel Lesoeur, da pequena produtora/distribuidora francesa Eurociné. Eles toparam bancar a distribuição mundial da obra, mas desde que aquelas cenas de LOS CRÍMENES DE USHER fossem descartadas e, no lugar delas, Franco rodasse OUTRAS cenas novas, alterando completamente a trama e transformando-a numa espécie de refilmagem/atualização do clássico "O Terrível Dr. Orloff" (inclusive inserindo 15 minutos de cenas em preto-e-branco deste filme na montagem como se fossem flashbacks!!!)

Esta nova montagem (a terceira!), ficou conhecida como NEUROSIS - THE FALL OF THE HOUSE OF USHER, mas foi distribuída mundialmente com o titulo REVENGE IN THE HOUSE OF USHER, e foi a única das três que ganhou lançamento em vídeo, e mais recentemente em DVD.


Como a primeira versão (o corte original de Franco) nunca mais foi exibida desde aquela fatídica estreia em Madrid, hoje só podemos conjecturar sobre como ela seria, assistindo a única cópia ruim disponível de LOS CRÍMENES DE USHER e fazendo um esforço mental para "apagar" as novas cenas com assassinatos que foram inseridas.

Infelizmente, a belíssima fotografia - que é um dos pontos altos do filme - aparece completamente arruinada nessa cópia do VHS (que aparenta ser de segunda ou terceira geração, pela falta de qualidade), e o fato de as cenas originalmente serem bem escuras só piora a situação. Menos mal que o DVD da versão francesa traz as cenas em versão restaurada, permitindo pelo menos enxergar o que se passa (veja dois exemplos abaixo, na comparação da imagem da fita pirata com a do DVD da versão francesa).




Pois o que sobra, ao tirarmos os assassinatos da segunda versão e a bobajada à la Dr. Orloff da terceira, é um autêntico filme de "clima", em que tudo gira em torno da interpretação de Howard Vernon como Usher, dos barulhos estranhos e das sombras no interior da "Casa de Usher". Não há sustos, nem sangue. Numa entrevista da época, Jess declarou que tentava repetir o clima da história de Poe, "em que nada acontece durante a maior parte do tempo, apenas uns rangidos e sons estranhos da própria casa”.

Mesmo com a péssima qualidade do único vídeo existente, as duas versões espanholas da adaptação "Franquiana" de Edgar Allan Poe ainda são muito melhores do que a edição francesa picaretona REVENGE IN THE HOUSE OF USHER.

Vamos dar uma examinada nas versões existentes e comentar o quanto diferem umas das outras...



EL HUNDIMIENTO DE LA CASA USHER / 
LOS CRÍMENES DE USHER


EL HUNDIMIENTO DE LA CASA USHER começa com o jovem Alan Harker (Antonio Mayans, creditado como "Robert Foster") cavalgando até o castelo de Eric Usher (Howard Vernon), que ele conheceu anos antes e há alguns dias mandou lhe chamar através de uma carta muito confusa.

Chegando à "Casa de Usher", Harker descobre que seu velho morador - que nem lhe reconhece - vive recluso com uma governanta (Lina Romay, aqui completamente vestida!) e alguns criados, entre paranóico e amedrontado. Ele chamou Harker para ditar uma confissão: teria matado sua esposa, Edmunda (Fata Morgana), muitos anos atrás, só que a "casa" trouxe a falecida de volta, como uma fantasma, para assombrá-lo.


Harker acredita que são apenas delírios do enlouquecido ex-professor. Mas, na primeira noite no casarão, ele escuta barulhos estranhos e sai para averiguar. Numa masmorra, encontra primeiro Mathias (Antonio Marín), o mordomo de Usher, que diz ter sido aprisionado pelo próprio patrão há três dias sem nenhum motivo; depois, Harker vê um vulto que parece ser o de Edmunda, a tal esposa-fantasma; finalmente, encontra o próprio Usher agachado diante do cadáver de uma garota aos seus pés, segurando uma faca ensanguentada numa das mãos e gaguejando maluquices!


O rapaz desmaia depois de tantas emoções, e a governanta trata de colocá-lo de volta na cama. Harker acorda no dia seguinte acreditando que teve apenas um pesadelo, principalmente depois que recebe seu café da manhã servido pela criada Ana (Ana Galán), a mesma garota que viu ser "morta" por Usher na noite anterior!

A partir daqui, a trama se divide entre o ceticismo de Harker e os acessos de loucura de Usher, cuja saúde piora, fazendo com que ele passe a enxergar com mais frequência o fantasma da esposa. Será que a casa realmente está assombrada ou esses fantasmas são apenas alucinações geradas pela atmosfera da própria casa em Usher, um assassino atormentado pelo remorso (o próprio declara, em determinado momento: "Esta casa e seus fantasmas estão me destruindo lentamente").


Franco dirigiu EL HUNDIMIENTO DE LA CASA USHER com uma das menores equipes da sua carreira: além dos colaboradores constantes Mayans e Vernon nos papéis principais, e da esposa Lina Romay em papel secundário, o elenco tem apenas mais duas ou três pessoas em participação-relâmpago, incluindo José Llamas (o "Bruce Lyn" de "La Sombra del Judoka Contra el Doctor Wong") e o compositor Daniel J. White (autor da belíssima trilha, uma das melhores da sua longa carreira) como o Dr. Seward, médico que acompanha o delicado estado de saúde de Usher - e cujo nome vem do personagem de "Drácula" de Bram Stoker. Já a equipe técnica não era muito maior: o próprio Franco dirigiu, produziu, escreveu o roteiro, editou (com o pseudônimo "Laura Arias") e foi diretor de fotografia e operador de câmera!

Vale destacar que a fotografia do próprio diretor é realmente maravilhosa, fazendo belíssimo uso da luz natural e do contraste entre ela e as sombras dentro e fora da locação centenária. É um filme quase sem cores, cheio de preto (da escuridão e das sombras no interior do castelo) e laranja (da luz do sol nas cenas externas e dos minúsculos pontos de luz artificial nas internas). como você pode ver nas imagens abaixo.

Em entrevistas da época, Franco mencionou o alemão F. W. Murnau, o diretor de "Nosferatu", como inspiração ao dirigir o filme, que é um dos raros casos em que ele assina a direção de fotografia com o próprio nome, ao invés de usar um dos seus conhecidos pseudônimos para parecer que tinha mais gente na equipe técnica (comprovando que estava bem orgulhoso do próprio trabalho).


Para a "Casa de Usher" foi usado o Castelo de Santa Catalina, em Sierra Morena, Espanha (hoje transformado num hotel). Efeitos sonoros variados dão a impressão de que a velha construção está rangendo e prestes a entrar em colapso a qualquer momento.

Quando isso acontece, infelizmente a representação não é das melhores: o diretor usou apenas movimentos de câmera e takes de milésimo de segundo de uma maquete pra lá de falsa para simular o desmoronamento do castelo, já que obviamente não tinha o dinheiro necessário para filmar uma cena de tal grandeza!


Não é difícil de entender a reação do público lá de 1983 a EL HUNDIMIENTO DE LA CASA USHER: o filme realmente é bastante lento, silencioso e introspectivo (mesmo para os padrões de Franco!), e a quantidade limitada de personagens faz com que o show seja todo do veterano Howard Vernon, aqui numa interpretação notável de um homem dividido entre a loucura e o medo.

O problema é que não é fácil de simpatizar com o personagem de Usher, e o filme é todo dele, sem deixar muito espaço para os demais. Harker, que teoricamente está na história para ajudá-lo, não faz muita coisa e acompanha o desenlace dos eventos apenas como espectador; o mesmo acontece com a governanta e o Dr. Seward, que tem participações pequenas. Os demais praticamente entram mudos e saem calados.


A trama se conclui com um excesso de enigmas e perguntas sem resposta. Jess já havia feito isso várias vezes, mas aqui ele exagera na dose. Quem (ou o quê) é Usher afinal? Um assassino no fim da vida, remoído pelo remorso (que se manifesta através do fantasma das suas vítimas), um louco assombrado por alucinações geradas por uma casa assombrada, ou simplesmente mais um dos fantasmas da casa, que ainda não sabe que morreu, e, quando finalmente percebe, leva a própria "Casa de Usher" para o Além consigo? A conclusão insatisfatória deixa todas essas possibilidades no ar, portanto você pode escolher aquela que preferir.

Nas resenhas de "La Mansión de los Muertos Vivientes" e "Macumba Sexual", eu escrevi sobre possíveis influências de "O Iluminado", de Stanley Kubrick, nas obras de Franco do período. Bem, infelizmente ninguém nunca entrevistou o velho Jess sobre isso, mas EL HUNDIMIENTO DE LA CASA USHER se parece muitíssimo com "O Iluminado", assim como é possível fazer um paralelo entre o Usher de Vernon e o Jack Torrance de Jack Nicholson, e como o isolamento de ambos num velho castelo/hotel dá origem a fantasmas que podem existir apenas na imaginação destes personagens!


Com o fracasso retumbante da única exibição de EL HUNDIMIENTO DE LA CASA USHER, Franco resolveu rodar aquelas três novas cenas com assassinatos para a segunda versão, LOS CRÍMENES DE USHER, e isso acabou transformando o personagem-título numa espécie de assassino sobrenatural ou vampiro, que precisa de sangue para sobreviver (num daqueles casos em que a emenda saiu pior que o soneto).

Como essas cenas adicionais foram filmadas apenas em 1984, o diretor já não contava mais com a locação original do castelo e nem com Antonio Mayans (que estava com um visual bem diferente do ostentado aqui). A solução foi reutilizar apenas o astro Vernon, que aparece ao lado de algumas novas atrizes (entre elas Helena Garret e Flavia Hervás) interpretando antigas vítimas de Usher, no que parecem ser flashbacks de atos cometidos pelo personagem no passado.

Assim, enquanto o corte original deixava no ar ao final se o personagem era ou não um assassino, esta segunda versão não só confirma a hipótese como ainda mostra Usher em ação - o que também afasta bastante a trama da história do conto de Edgar Allan Poe!


Uma das cenas novas aparece como uma espécie de prólogo: Usher está do lado de fora da casa de uma garota pedindo que ela o deixe entrar; com a recusa da garota, ele "atravessa" a janela como se fosse um fantasma, e então mata sua vítima a bengaladas! Os insistentes apelos do personagem por sangue ("Meus velhos ossos, minha carne, minha pele, precisam de você para continuar vivas!") parecem confirmar que Usher é uma espécie de vampiro!

As outras duas cenas mostram mais crimes cometidos por Usher no passado: o assassinato de uma prostituta (imagens acima) e de uma menina (imagens abaixo). Ambas são mortas a punhaladas, e Usher novamente aparece bebendo o sangue das vítimas diretamente da lâmina da faca!

Outras cenas da versão original foram suprimidas para eliminar aspectos mais "fantasmagóricos" da trama, como a criada que reaparece levando o café da manhã para Harker depois de ser assassinada na noite anterior ou um diálogo entre Lina Romay e José Llamas sobre como são prisioneiros daquele lugar (e que sugere que são fantasmas, como os demais habitantes da casa de Usher).


Se estas cenas adicionais confirmam que o personagem-título é um assassino, por outro lado apenas reforçam aquelas perguntas que eu fiz lá atrás sobre a outra versão: quem (ou o quê) é Usher afinal? Pois LOS CRÍMENES DE USHER deixa bem claro que ele não é um homem comum, mas algum tipo de monstro (um vampiro? um fantasma? um morto-vivo?) que se alimenta de sangue e pode atravessar paredes. Sendo assim, por que diabos ele precisa de Harker?

Além disso, as cenas adicionais deixam um furo bem evidente: por que um Usher que é meio fantasma, meio vampiro se importaria com as aparições da sua finada esposa, se ambos são criaturas do além? Mistérios, mistérios...

LOS CRÍMENES DE USHER teve um lançamento muito pequeno, e apenas na Espanha (embora, repito, algumas fontes indiquem que nem assim chegou aos cinemas), antes de Jess tentar empurrá-lo para a Eurociné para distribuição internacional. Os franceses, por sua vez, exigiram uma nova montagem do filme, distanciando-a ainda mais do conto de Poe. E foi assim que surgiu...



REVENGE IN THE HOUSE OF USHER



Segundo algumas fontes, esta terceira versão produzida pela Eurociné teria sido feita apenas em 1987 (ou seja, quatro anos DEPOIS da estreia da versão do diretor naquele festival de cinema em Madrid), para lançamento na França em maio de 1988!

A trama aqui é completamente diferente das duas versões anteriores, e foi construída com cenas novas e a redublagem das cenas antigas: Alan Harker agora é um médico que chega à mansão do seu velho professor e mentor dos tempos da faculdade (aqui Usher é chamado de Dr. Usher ao invés de Sr. Usher, virando médico ou cientista). O visitante não demora a descobrir que o dono da casa está conduzindo terríveis experimentos para manter viva a sua filha, Melissa (Françoise Blanchard, que só aparece aqui).

A garota sofre de uma doença rara e necessita de constantes transfusões de sangue. Para garantir sua sobrevivência, Usher usa seu criado, Morpho (Olivier Mathot, de "White Cannibal Queen", que também só aparece nas cenas novas), para sequestrar belas garotas do vilarejo, cujo sangue é drenado nas masmorras do castelo para as transfusões que Melissa precisa!


O assassinato da esposa de Usher e o fantasma da falecida, que eram fatores importantes nas duas versões anteriores, aqui passam praticamente em branco, já que a nova trama dá muito mais destaque ao tratamento radical de Melissa na masmorra, aproximando REVENGE IN THE HOUSE OF USHER mais de "O Terrível Dr. Orloff" do que de "A Queda da Casa de Usher".

Até porque cerca de 15 minutos do filme de 1961 foram utilizados na edição, aparecendo como flashbacks em preto-e-branco quando o Dr. Usher conta para Harker que cometeu vários crimes nas últimas décadas para manter a filha viva - e, nesse momento, entram as cenas de "O Terrível Dr. Orloff", com ele e Morpho novinhos!


Nenhuma nova cena foi filmada com os atores principais Vernon e Mayans, mas seus diálogos originais foram todos dublados para o francês e o inglês, o que permitiu alterar completamente a história. Se nas duas versões espanholas Usher confessava ao pupilo que tinha matado a esposa, e que vinha sendo assombrada por ela e pela própria casa, nos diálogos em francês ele simplesmente explica o tratamento radical de Melissa e como isso envolve o sacrifício periódico de belas garotas - e, aparentemente, mandou chamar o ex-aluno para que continue suas experiências, já que está velho demais para manejar o bisturi! (Veja as imagens abaixo, comparando diálogos das mesmas cenas de EL HUNDIMIENTO DE LA CASA USHER com REVENGE IN THE HOUSE OF USHER, para entender melhor.)


Usher confessa o assassinato da esposa e fala sobre assombrações
nos diálogos originais de "El Hundimiento de la Casa Usher"


Já em "Revenge in the House of Usher", o personagem fala sobre
suas experiências, a doença da filha e cita Morpho, dando início
aos flashbacks retirados de "O Terrível Dr. Orloff"!


As cenas novas gravadas exclusivamente para esta versão envolvem apenas Françoise como Melissa, Mathot como um envelhecido Morpho (a maquiagem dos olhos ficou ainda pior que a do filme de 1961), Jean Tolzac como o criado Mathias (que era interpretado por outro ator na versão espanhola!!!) e mais algumas vítimas anônimas dos experimentos do "Dr. Usher".

Howard Vernon nunca chega a contracenar diretamente com Melissa e Morpho, já que esses personagens só aparecem nas cenas filmadas anos depois. Mas, graças ao milagre da montagem, alguns dos enxertos foram colocados em locais estratégicos, permitindo que tanto Mayans quanto Vernon "participem" das novas cenas, numa coisa de louco que demonstra o poder da montagem no cinema!


Veja as imagens abaixo: em EL HUNDIMIENTO DE LA CASA USHER / LOS CRÍMENES DE USHER, havia uma cena em que Harker perambulava pela masmorra do castelo e testemunhava o dono da casa matando uma garota a facadas. Pois o habilidoso sujeito que reeditou o filme (o próprio Franco?) para fazer a versão francesa simplesmente usou esse trecho, eliminou os takes da garota morta e colocou, em seu lugar, as novas cenas com Melissa sendo "operada", como se Harker estivesse vendo Usher fazendo uma das transfusões necessárias para manter sua filha viva! Aí foi só redublar os diálogos para enganar qualquer um que não tenha conhecimento da versão antiga - a faca ensanguentada que Usher segurava nas cenas originais da versão espanhola até vaza num dos takes, mas é praticamente imperceptível. Comparar esses momentos de EL HUNDIMIENTO DE LA CASA USHER e REVENGE IN THE HOUSE OF USHER certamente vale por um mês de aula de edição em faculdade de cinema!

Harker desce até a masmorra e testemunha Usher matando uma garota nas cenas originais de "El Hundimiento de la Casa Usher"


Já em "Revenge in the House of Usher", graças ao milagre
da edição, Harker encontra Usher fazendo experiências com a sua filha e uma pobre vítima! Repare que os atores não aparecem diretamente nos novos takes do "laboratório", e na faca ensanguentada vazando em uma das imagens!


A conclusão é praticamente a mesma das versões espanholas, com a diferença de que, nesta aqui, também vemos (SPOILER) uma rápida cena nova com Morpho abraçando Melissa durante o desmoronamento do castelo. Além disso, a montagem elimina um efeito simples de "corte seco" que havia nas duas versões espanholas para fazer o cadáver de Usher "desaparecer" na cena final, confirmando que ele era algum tipo de entidade sobrenatural ligada à casa, o que não se encaixaria na trama da versão francesa. (FIM DO SPOILER)

No fim, REVENGE IN THE HOUSE OF USHER sofre do mesmo problema daquelas montagens picaretas de Godfrey Ho, o sujeito que fazia aventuras de ninjas usando cenas de velhos filmes sem ninjas: o conjunto nem sempre "fecha", e o editor precisa fazer malabarismos que às vezes não funcionam para linkar as cenas antigas com as novas.

Também existe um visível desleixo dos envolvidos na filmagem dos enxertos: num dos momentos em que os personagens descem ao calabouço levando uma vítima que terá seu sangue drenado, um assistente de produção aparece no canto da cena e, ao perceber que está "vazando" no take, sai apressado, mas o editor nem se preocupou em cortar a "participação especial"!!!


Considerando que a versão original do filme já era arrastada, essa aqui, com quase 20 minutos a mais, beira o insuportável. Sim, as cenas antigas de "O Terrível Dr. Orloff" são ótimas, mas no contexto em que foram realizadas! Não faz sentido repetir 10 ou 15 minutos delas aqui como flashbacks, ou "remendões"! Sem contar que estas cenas não têm ab-so-lu-ta-men-te nada a ver com o universo de "A Queda da Casa de Usher", ou de Edgar Allan Poe!

Visto com bom humor, o filme até funciona como homenagem, mas neste caso podiam ter mudado também o título do filme para "Revenge in the House of DR. ORLOFF", e aí faria mais sentido como uma espécie de sequência da obra de 1961. Como se o personagem tivesse sobrevivido à conclusão do original e, agora envelhecido, confessasse seus crimes a um jovem pupilo. Mas não, preferiram transformar Orloff em "Dr. Usher", apenas para poder usar o nome de Poe no pôster do filme. Bah!


Um ponto positivo de REVENGE IN THE HOUSE OF USHER é que a trama ficou mais redondinha, sem deixar várias possibilidades no ar, como acontecia nas versões anteriores. Aqui Usher é um cientista louco e assassino confesso, que vem matando garotas há décadas na tentativa de prolongar a vida da filha. Mas mesmo assim há um detalhe que não faz sentido na trama: a fantasma da esposa de Usher! Por que ela apareceria para assombrar o personagem, ao invés de todas as garotas que ele matou em seus experimentos? O contraste entre ciência macabra e sobrenatural (fantasmas) não ficou bom, e talvez tivesse sido melhor cortar também as cenas da esposa falecida desta versão...


A inclusão das novas cenas gerou ainda uma série de erros de continuidade. Por exemplo, no início vemos todo um trecho novo em que Morpho e Mathias (interpretado pelo francês Jean Tolzac) levam uma vítima para a masmorra; em seguida, Harker encontra Mathias aprisionado numa cela (e dessa vez interpretado pelo ator espanhol das cenas antigas, Antonio Marín!!!), dizendo que foi preso pelo Dr. Usher injustamente; mais adiante o criado está solto outra vez nas cenas novas (e interpretado pelo ator francês), e finalmente volta a aparecer preso (e "espanhol") quando Harker resolve libertá-lo nas cenas antigas! É de dar um nó no cérebro...

Mathias é interpretado por Antonio Marín (1ª foto) nas cenas da versão espanhola e por Jean Tolzac (2ª foto) na francesa,
e acharam que ninguém ia perceber a diferença!


Das três versões existentes da mesma obra, REVENGE IN THE HOUSE OF USHER com certeza é a pior. Por isso, soa até irônico o fato de ser a única a ter ganhado lançamento em VHS e DVD (até no Brasil, onde saiu recentemente, apenas em DVD, como "A Queda da Casa de Usher").

O mais interessante de analisar as três versões uma após a outra (além da chance de testemunhar o poder da montagem cinematográfica, claro) é constatar como cada uma dá um tom diferente ao conto e ao personagem de Poe, transformando Usher, respectivamente, em um homem paranóico/assassino atormentado como o da história original, uma criatura sobrenatural bebedora de sangue e um cientista louco que tenta prolongar a vida da filha (mais Dr. Orloff do que Usher!).


O triste destino de EL HUNDIMIENTO DE LA CASA USHER teve um duro efeito em Jess Franco, e todos os seus filmes a partir de então são obras mais comerciais, voltando àquela dobradinha "sexo + violência" (até chegar à fase experimental e quase pornográfica do vídeo digital, a partir dos anos 2000). Hoje só podemos imaginar o que viria pela frente, caso sua adaptação original de Poe tivesse uma outra recepção, incentivando-o a voltar à pegada mais clássica dos seus primeiros trabalhos.

Inclusive Franco nunca aceitou o fracasso da sua primeira versão do filme. Numa entrevista para o livro "Obsession: The Films of Jess Franco", ele declarou: "Eu quis fazer um filme expressionista. Sabia que não ia funcionar e que não seria um filme comercial, mas era como eu achava que devia fazer. Quer dizer, em 20 anos quem sabe as pessoas descubram o filme maravilhoso que é, mas não acho que isso vá acontecer agora".


E assim, mais uma vez, Jess comprovou que era um visionário: desde os anos 2000, mais ou menos, pesquisadores da obra do diretor como Tim Lucas, Roberto Curti e Robert Monell vêm escrevendo maravilhas sobre a versão original EL HUNDIMIENTO DE LA CASA USHER, vendo nela o que o público não viu naquela derradeira sessão no festival de Madrid em 1983, e fazendo campanhas para que a "director's cut" seja finalmente lançada em DVD/blu-ray.

Mas, como a única cópia existente do filme está (aparentemente) perdida, é possível que o "verdadeiro" EL HUNDIMIENTO DE LA CASA USHER, da maneira como foi exibido em 1983, nunca mais encontre o seu público...


Trailer de REVENGE IN THE HOUSE OF USHER



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El Hundimiento de la Casa Usher /
Los Crímenes de Usher (1983, Espanha)

Direção: Jess Franco
Elenco: Howard Vernon, Antonio Mayans (aka
Robert Foster), Lina Romay, Daniel J. White,
Antonio Marín, Fata Morgana e José Llamas.


Los Crímenes de Usher (1984, Espanha)
Direção: Jess Franco
Elenco:
Todos os anteriores mais Flávia Hervás
Ana Galán e Helena Garret.

 
Neurosis - The Fall of the House of Usher /
Revenge in the House of Usher
(1987, Espanha/França)

Direção: Jess Franco
Elenco: Os mesmos da 1ª versão mais Olivier
Mathot, Françoise Blanchard, Jean Tolzac,
Valerie Russel e Analía Ivars.

10 comentários:

Jamal Singh disse...

Felipe, lendo esses seus textos sobre edição, eu acho um absurdo tú não estar dando aula numa Faculdade de Cinema. Digo isso porque eu aqui na UFRN passei ano passado Cyborg, o Dragão do futuro,as duas versões, colocando teu crédito logicamente. foi ótimo, fiquei pensando em futuramente, quando estivar dando aulas em faculdades usar teus textos sobre o Jess Franco e o Godfrey Ho também. Três perguntas:

1)Que filme é esse do Franco com cinco versões?

2) Tú pretende republicar por aqui aqueles seus maravilhosos textos do boca do Inferno sobre Sexta-feira 13?

3) Você pretende algum dia analisar aqui a saga Halloween, principalmente os quatro primeiros? Gosto muito do terceiro e sou um grande fã do IV, acho inclusive que eles deviam ter seguido a série a partir daquele final. Ainda dá tempo, a Danielle Harris é uma gata...

Pergunta bônus e talvez inútil: Tú nunca tentou lançar teus textos em uma dessas editoras universitárias da vida? Daria um puta livro.

Abraços

Felipe M. Guerra disse...

JAMAL SINGH, vamos lá:

1-) "O Exorcista Diabólico". Mas vários filmes dele têm duas ou três versões.

2-) Não.

3-) Pretender, pretendo. Mas se o fizesse seria em forma de livro.

Pergunta bônus: Já pensei várias vezes, até fiz alguns contatos que não deram em nada, mas até o fim do ano resolvi que vou atrás de uma editora para publicar meu primeiro livro. Se alguém tiver dicas de editoras com interesse na área, favor passar.

E sim, eu também acho um absurdo que não esteja dando aula numa faculdade de cinema, até porque tenho Mestrado e tudo! Mas assim é a vida, né? Nem sempre justa...

Jardel disse...

Como vai Felipe? tudo certo, sou um grande fa de seu blog e ja assisti uma duzia de recomendaçoes suas, para mim, quando mais raro e tresh tao tresh que nao se acha, o filme, melhor. gostaria de discutir duas coisas com voce: 1) voce falou há algum tempo sobre um filme chamado The Ulsen, voce saberia onde posso achar a legenda tanto faz em ingles, chines, coreano, Iraniano, acho que a legenda desse filme simplesmente nao existe, tenho o filme em ingles mas nao consigo achar legendas,Obrigado.

2) voce saberia me dar alguma informçao sobre um "filme pra doido", chamado El Poval Ninja? vi uma pequena imagem desse filme n net mas nao achei nada sobre ele, a capa tinha um velho barbudo na frente, e so sei disso, obrigado novamente.

Felipe M. Guerra disse...

JARDEL, nunca falei sobre um filme chamado "The Ulsen", e na verdade nem sei que filme é esse (pesquisei aqui e não encontrei nada). Tem certeza que o título está correto? Mesma coisa quanto ao "Poval Ninja", não achei nada com esse nome e nunca ouvi falar dele. Quanto a legendas, faz tempo que desencanei delas e não perco mais que cinco minutos procurando; se não achar nada, assisto os filmes no idioma original mesmo.

Anônimo disse...

Sou fã do Edgar Allan Poe e é muito legal saber que o saudoso Jesus Franco, ao seu modo, também mergulhou no universo desse escritor.

Rafael

Anônimo disse...

Felipe, sobre as aulas, vc nao poderia fazer como um certo crítico, que dá aulas por conta própria, sem se vincular à Academia?

Aproveito para dizer que gosto muito dos seus textos.

Abraços

João

Felipe M. Guerra disse...

JOÃO, o que aquele "certo crítico" faz me parece uma baita de uma picaretagem, e não um curso que valha a pena ser apresentado (felizmente, ele tem fãs suficientes para garantir o dinheirinho na sua conta bancária com esse tipo de "evento"). A questão é que aulas, workshops, cursos e etc. envolvem uma estrutura que é muito difícil de arrumar por conta própria. Mas eventualmente eu sou convidado para falar ou sobre cinema independente, ou sobre algum tema específico, em faculdades ou cursos particulares. Mês passado, por exemplo, eu fiz um curso de dois dias sobre filmes slasher em Porto Alegre, para o pessoal da Cena Um (uma empresa especializada nesse tipo de evento). Ainda são convites bem esporádicos, mas quem sabe não melhore com o tempo?

Spektro 72 disse...

eu não tenho nada a dizer somente agradecer por mais este excelente texto da 'Maratona Jess Franco"acho que foi um grande texto ou melhor, pois você colocou as tres versoes do mesmo filme inclusive fotos da versão pirata e analisando as montagens de cena ,parabens! isso mostra o seu grande conhecimento na setima arte ,não é tudo mundo que se aprofunda no empenho de uma sinopse de um filme e você o faz com perfeição,Valeu,Mestre! .Deveriam lançar as 3 versoes dele em Dvd ou Blu ray para nos tiramos a prova de qual versão é a melhor .. ?
acho que este filme saiu em DVD 2 vezes uma pela a Continental Video e outra pela Vinny Filmes.. se estou certo ou tenha falado mais alguma besteira como sempre escrevo.
Um Abraço de Spektro 72.

bsmbrasil disse...

Muito bom !!

Leonardo Peixoto disse...

Um livro seu é algo que espero ha tempos .