terça-feira, 22 de outubro de 2013

UMA ESCOLA ATRAPALHADA (1990)


Tenho amigos cinéfilos com ódio mortal por essas comédias modernas para "consumo popular" produzidas/distribuídas pela Globo Filmes, que já foram apelidadas de "Globochanchadas", e que são estreladas pelos nomezinhos de destaque no momento (independente de terem ou não talento). Ok, eu confesso que também passo longe de coisas como "De Pernas Para o Ar" e "Vai que Dá Certo", mas vamos combinar que este fenômeno não é recente.

Afinal, se hoje temos filmes de gosto duvidoso estrelados por pseudo-celebridades de gosto duvidoso como Leandro Hassum, Marcelo Adnet, Freddy Mercury Prateado e a turminha do Porta dos Fundos, no passado produções de gosto tão ou mais duvidoso eram estreladas por pseudo-celebridades de gosto tão ou mais duvidoso, como Faustão, Carla Perez, Sergio Mallandro, Fofão ou, no caso específico da obra aqui em análise, Supla e Angélica! Ou seja: filme ruim com pseudo-celebridades não é de agora, e espaço na mídia sempre foi mais determinante que talento para se estrelar um filme no Brasil!


Na minha modesta opinião, UMA ESCOLA ATRAPALHADA é um dos piores filmes brasileiros DE TODOS OS TEMPOS. E se eu não consegui suportá-lo nem mesmo quando era moleque e vi pela primeira vez, imagine minha cara ao revê-lo hoje. A diferença é que a passagem do tempo transformou essa bomba numa espécie de "túnel do tempo da vergonha alheia".

Sabe quando você encontra um álbum de fotografias da sua juventude nos anos 1980 e morre de vergonha ao se ver usando mullet ou ombreiras? Pois é mais ou menos essa a sensação de assistir UMA ESCOLA ATRAPALHADA hoje, mais de 20 anos depois do seu lançamento, e se deparar com cenas tipo um jovem Supla posando de "bad boy" com camisetas cortadas que deixam seu umbigo à mostra (argh!), ou o (morto e enterrado) Grupo Polegar tocando a música (morta e enterrada) "Sou Como Sou", e depois pegando um avião da (morta e enterrada) Vasp!


Lançado em 1990, UMA ESCOLA ATRAPALHADA representa um marco histórico do cinema popular brasileiro, já que traz a última aparição no cinema do grupo humorístico Os Trapalhões (Didi, Dedé, Mussum e Zacarias) como quarteto. Mauro Gonçalves, o Zacarias, morreu durante a pós-produção do filme, que inclusive é dedicado a ele com uma mensagem dos demais Trapalhões nos créditos iniciais.

Ironicamente, este não é um "filme dos Trapalhões" oficial: o grupo faz apenas uma participação especial, apesar da referência no título ("Atrapalhada" - "Trapalhões", pegou?). Até então, durante duas décadas, Os Trapalhões eram os reis das bilheterias do cinema brasileiro, estrelando praticamente um filme por ano. Em 1989, por exemplo, "Os Trapalhões na Terra dos Monstros" levou 3,2 milhões de espectadores aos cinemas, mas nos bons tempos eles vendiam mais de 5 milhões de ingressos.


UMA ESCOLA ATRAPALHADA representou uma espécie de ponto de virada na trajetória do quarteto, já que suas produções nos últimos anos (notoriamente entre 1987-89) estavam excessivamente infantis, e eles queriam atingir um público um pouquinho mais velho - os adolescentes.

Carinhas jovens da moda até já vinham aparecendo em seus filmes como coadjuvantes (tipo o Grupo Dominó em "Os Fantasmas Trapalhões", "Os Heróis Trapalhões", "O Casamento dos Trapalhões" e "Os Trapalhões na Terra dos Monstros", ou o Trem da Alegria em "A Princesa Xuxa e os Trapalhões"). Mas, pela primeira vez, o quarteto resolveu deixar a molecada em destaque e ficar em segundo plano, só para "sentir o mercado".


Embora não tenha dado muito certo (diversos espectadores sentiram-se enganados, pois o título e a presença dos Trapalhões no pôster indicavam que era justamente um "filme dos Trapalhões" tradicional), UMA ESCOLA ATRAPALHADA rendeu uma bela bilheteria (cerca de 2,5 milhões de espectadores) e umas novecentas reprises na TV. Além, claro, de marcar a despedida do quarteto.

Com a morte de Zacarias, e a experiência um tanto frustrada de atuarem como coadjuvantes para uma nova geração de "estrelas", os Trapalhões reminescentes tentaram retomar o trono de reis da bilheteria. Mas não deu muito certo: as produções seguintes do agora trio ("O Mistério de Robin Hood" e "Os Trapalhões e a Árvore da Juventude") nem chegaram aos dois milhões de ingressos vendidos. Os tempos estavam definitivamente mudando...


Voltando a UMA ESCOLA ATRAPALHADA: a trama escrita por Luis Carlos Góes e Tania Lamarca (a partir de um argumento de Renato Aragão e Paulo Aragão Neto) se passa numa escola particular para filhinhos-de-papai, a Matheus Rosé (que, na vida real, é o Colégio Marista São José, do Rio de Janeiro). Ali, adolescentes riquinhos, brancos e de corpo perfeito agem como adolescentes de cinema enquanto professores e diretores são todos muitos liberais, simpáticos e compreensivos com a garotada.

O ano letivo está começando e novos alunos chegam ao Matheus Rosé, tipo a garota misteriosa e rebelde Tami, interpretada por Angélica (e sabemos que ela é misteriosa e rebelde porque ela entra em cena com ar blasé, óculos escuros e faz mais cara-de-bunda por minuto do que a Kristen Stewart na série "Crepúsculo"!).


A atual Sra. Luciano Huck já havia participado de dois filmes anteriores dos Trapalhões ("Os Heróis Trapalhões" e "...na Terra dos Monstros"), mas ainda era uma apresentadora de programa infantil da TV Manchete. Inclusive no ano seguinte (1991) estrelaria a novela "O Guarani" na extinta emissora, no papel de Ceci.

Sua participação em UMA ESCOLA ATRAPALHADA acabou carimbando-lhe o passaporte para voos mais altos. Angélica logo trocaria a Manchete pelo SBT, onde apresentou um programa infantil de sucesso (Casa da Angélica), além do popular Passa ou Repassa no lugar do apresentador habitual, Gugu Liberato. Mais tarde, em 1996, ela venderia o passe para a Globo, onde também chegou a ter seu próprio programa infantil (Angel Mix), e estrelou mais algumas "Globochanchadas", tipo "Zoando na TV" (1998) e "Um Show de Verão" (2004), ao lado do futuro maridão.


Outros novatos são os quatro garotos vindos do interior (e sabemos que eles vêm do interior porque entram em cena num carro coberto de lama, e todos vestem a mesma camisa quadriculada estilo "Jeca Tatu"). O Dominó, que havia aparecido nos quatro filmes anteriores dos Trapalhões, já tinha perdido sua popularidade e espaço na mídia na época; assim, a solução foi substituí-los pelo Polegar (Alex, Alan, Ricardo e o notório Rafael Ilha, ou "Rafael Pilha").

Tanto Dominó quanto Polegar foram grupos criados e empresariados pelo então apresentador do SBT Gugu Liberato (que também está no elenco do filme), então duvido que alguém tenha realmente percebido a diferença. E Nill, ex-Dominó, faz uma "participação especial" aqui como irmão de Angélica, talvez como agradecimento aos "serviços prestados" pelo seu ex-grupo.


O que os alunos novos não tardarão a descobrir é que a escola é "dominada" por um rapaz encrenqueiro, Carlão (Supla, quem mais?). E se hoje o popular Eduardo Smith de Vasconcelos Suplicy é motivo de piada para a maior parte dos seres humanos, na época ele era uma verdadeira promessa de astro pop: ex-vocalista da banda Tokyo, havia recém gravado seu primeiro disco solo e tinha até pegado a famosa roqueira alemã Nina Hagen, para quem dedicou o hit "Garota de Berlim".

Carlão/Supla é o líder de uma turminha de filhinhos-de-papai mimados e "rebeldes" que inclui ainda o chatíssimo Renan (ninguém menos que Selton Mello, em sua estreia no cinema!), a queridinha Paula (Maria Mariana, que depois alcançaria relativo sucesso com o livro/seriado "Confissões de Adolescente", antes de mergulhar de volta para a obscuridade), e um montão de outros anônimos que não fedem e nem cheiram, tipo uma riquinha metida a bicho-grilo interpretada por Patrícia Perrone.


Aí o loirão platinado se interessa pela "misteriosa" Tami. Só que eles se odeiam, e passarão o restante do filme brigando, discutindo ou competindo um com o outro. Os conflitos amorosos se estendem aos garotos do Polegar, que também encontram suas paixonites dentro da escola. Um deles (não me pergunte qual, pois são todos iguais!) se apaixona pela namorada do Selton Mello, o que renderá ainda um chatíssimo triângulo amoroso.

Em meio a tudo isso, há ainda um sub-plot envolvendo misteriosas sabotagens e ameaças à escola, pois uma imobiliária pretende comprar o terreno. A diretora idealista (Jandira Martini) se recusa a desfazer-se da escola, mas um sabotador infiltrado - Anselmo, o inspetor da escola, interpretado de maneira exagerada e caricatural pelo ótimo Ewerton de Castro - começa a aprontar altas confusões para atrapalhar o ano letivo e forçar a venda do local.


Mas e onde entram os Trapalhões nessa história toda? Bom, como eu já havia alertado, eles fazem apenas pontas bem curtinhas. Mussum aparece como o impagável "Mago Mumu", cuja barraquinha de leitura de tarô fica bem em frente à escola (que conveniente!); já Dedé e Zacarias interpretam "caça-bombas", que entram em cena quando há uma ameaça de bomba no colégio.

Quem tem mais tempo em cena, claro, é Didi, no papel do "serviços gerais" da escola (que se chama, obviamente, Didi). Renato Aragão "interpreta" o mesmo personagem de sempre, o cearense boa-vida e espertalhão (sua entrada em cena é deitado numa rede no bagageiro de um ônibus que chega à cidade!) por quem todo mundo morre de amores.


Como também é clichê na obra dos Trapalhões, ele vive um amor platônico por uma das professoras (Cristina Prochaska), que já está de rolo com o professor de educação física (Marcelo Picchi, que nos velhos tempos apareceu em "Exorcismo Negro", do Zé do Caixão!).

O curioso é que Renato aproveita para interpretar uma versão estereotipada de si mesmo: um cearense humilde cujo sonho é ser astro de cinema! A cena final, em que ele reaparece vestido como mendigo (mas com direito a uma surpresa), é talvez a parte mais bem bolada (e bonita) do filme inteiro.


UMA ESCOLA ATRAPALHADA antecipa a fórmula do seriado global "Malhação" (que estreou em 1995 e já está no ar há inacreditáveis 18 anos!!!), com namoricos, brincadeiras bobas e intriguinhas entre adolescentes, mas sempre num nível cartunesco e infantilóide demais (e o que esperar de roteiros "para adolescentes" escritos por quarentões?).

Embora em certos momentos o filme até acerte em resgatar aquele clima de "adolescência no final dos anos 1980", como quando mostra um bailinho dos jovens com música lenta (e quem é da época vai lembrar que essa era a hora estratégica para dançar de rostinho colado com as meninas!), esses momentos representam, no máximo, 1% da narrativa. O resto é ocupado pelos romances desinteressantes entre Supla e Angélica e entre os "Polegares" e seus casinhos, mais as poucas cenas de trapalhadas com os Trapalhões.


Por sinal, quem diria que os Trapalhões do começo dos anos 1990 (sua fase mais chata e infantilóide) seriam o ponto alto do filme. Como não há graça nenhuma na interação entre os chatíssimos personagens jovens, recai sobre os ombros do famoso quarteto a difícil tarefa de fazer o espectador rir ao invés de pegar no sono. E como os quatro veteranos aparecem muito pouco, suas poucas cenas são realmente engraçadas e não torram o saco.

Didi copia sem a menor vergonha na cara uma piada de "Crocodilo Dundee" (aquela do "That's not a knife. THAT's a knife", quando apresenta uma "peixeira cearense" de tamanho monumental a um ladrão que tenta assaltá-lo com um canivete). E quando uma bomba explode na Kombi dos "caça-bombas", onde por coincidência estão reunidos os quatro Trapalhões, Didi ironiza: "Quem mandou invadir filme dos outros?".


Os "outros", no caso, são Supla, Angélica e cia., que não têm nem talento e nem carisma para segurar um filme sozinhos. Mesmo os fãs mais apaixonados do loirão Suplicy (são poucos, mas eles existem) têm que dar à mão à palmatória e concordar que o rapaz entrega uma performance simplesmente constrangedora, tentando compor um personagem "rebelde" que é apenas chato e insuportável, e está sempre gritando e agindo como um estúpido (chega a dar um soco na cara de Angélica).

Mas, sabe-se lá por que cargas d'água, o filme tenta forçar o espectador a gostar dele, já que Carlão não é o vilão, mas sim O HERÓI DO FILME!!! Lá pelas tantas, ele até aparece treinando boxe com um saco de areia, em cena que deve estar no filme apenas por causa da semelhança física de Supla com Ivan Drago, o personagem de Dolph Lundgren em "Rocky 4" (no cabelo, não nos músculos)!


Bem, se alguém realmente torceu para o Supla se dar bem no filme, eu recomendo que procure ajuda psiquiátrica imediatamente. Porque é duro aguentar o cara com camisa do Superman cortada acima do umbiguinho, fazendo pose de "bad boy" e tentando dar lição de moral e "discurso sociológico" para cima de Tami: "Ser pobre não é o maior problema do mundo não! Qualquer um é o que é!".

Angélica, por sua vez, está apagada como "mocinha" e nunca faz nada digno da posição. A química entre Supla e Angélica é tão inexistente que, no final, quando o casal finalmente resolve assumir seu romance, não há nem sequer a tradicional cena do beijão apaixonado na boca. Pelo contrário, o máximo que vemos de "contato físico" é... Supla chupando o dedo de Angélica?!? Puta merda!


Quando os Trapalhões não estão em cena (e eles raramente estão), as poucas tentativas de se fazer humor são frustradas ou pelas piadas do arco-da-velha do roteiro de Góes e Tania, ou pela falta de timing do diretor Antonio (Del) Rangel, o mesmo responsável por um dos piores filmes do quarteto, "O Trapalhão na Arca de Noé" (estrelado apenas por Renato Aragão, na época em que ele havia brigado com os três parceiros).

Essas "piadas" são coisas como o personagem de Gugu Liberato, um professor de música malucão chamado "Chopin Luiz" (ai, ai...), que usa bermudas e cabelos arrepiados, ou a professora de artes que se chama "Portinara" (ai, ai...), e que protagoniza, pela milésima vez, a gag da senhora surda que entende tudo trocado. O nível é tão baixo que nem o pessoal do Zorra Total faria essas piadas.


Há, também, um momento sem-noção em que o vilanesco inspetor Anselmo leva um dos garotos para um porão escuro e raspa seu cabelo à força por "desrespeito à bandeira nacional".

É óbvio que se trata de uma referência aos torturadores nos porões da Ditadura Militar, mas ô piada de mau gosto para ser feita quando o país recém havia entrado numa democracia plena (Collor foi eleito presidente em 1989), e as feridas da Ditadura ainda estavam bem abertas e doendo.


A verdade é que eu nunca consegui entender a que público exatamente o filme se destina. Porque se o objetivo era vender UMA ESCOLA ATRAPALHADA como comédia para o público adolescente, o tiro passou longe do alvo: a ambientação e alguns personagens até lembram as comédias norte-americanas sobre adolescentes aprontando altas confusões numa escola, mas o tom do filme é tão infantil que dificilmente terá algum interesse para pessoas com mais de oito anos de idade, físicos ou mentais.

Até tem um pouquinho de ousadia por mostrar as meninas mais "à vontade" do que nos filmes dos Trapalhões, nas cenas que se passam no dormitório feminino (onde podemos ver Maria Mariana seminua, além das moças de calcinha e pernocas de fora - menos Angélica, porque ela é a "mocinha").


Mas não passa muito disso: o clima do filme é tão inocente e infantil que irrita. A escola do filme é uma escola de conto-de-fadas, onde nenhum dos jovens aparece usando drogas, fumando ou sequer bebendo uma cerveja.

Para não ser injusto, o personagem de Selton Mello enche a cara lá pelas tantas, mas o filme faz questão de mostrar isso como algo extremamente negativo (e ele ainda toma uma "tortada" na cara do Supla para aprender!).


Apesar do inspetor Anselmo viver reclamando que a diretora é muito liberal, filme e personagens são completamente assexuados, e mal vemos uns beijinhos entre os jovens, quem dirá cenas de sexo. Por isso é até surpreendente que, lá pelas tantas, pinte um clima mais dramático, com a possibilidade de que uma das garotas esteja grávida do seu novo namoradinho (embora eu desconfie que seja coisa do Espírito Santo, já que ninguém trepa nesse filme!).

Só que a gravidez não passa de um alarme falso: logo a menina faz um teste que dá negativo, então foi apenas um "sustinho bobo" e uma tentativa de enganar o espectador com dramalhão de terceira - diferente da coragem de, por exemplo, "O Último Americano Virgem", que tem uma sub-trama bem pesada envolvendo gravidez indesejada.


Curioso é que apesar de todo esse moralismo e inocência, UMA ESCOLA ATRAPALHADA acaba passando diversos maus exemplos sem perceber. Numa cena que hoje seria considerada politicamente incorreta, a vice-diretora interpretada por Fafi Siqueira dá em cima de um aluno com metade da idade dela, passando a mão no peito sem camisa do rapaz (abaixo). Quando ele foge da azaração da coroa, ela reclama aos berros: "Bicha!".

Pior é o caso da personagem de Angélica. Ela sofre bullying dos colegas riquinhos porque eles pensam que a garota é pobre. E se inicialmente o filme tenta mostrar como isso é feio e errado por parte dos coleguinhas, o tiro logo sai pela culatra quando vemos Tami se enturmando com seus "bullies" das formas menos nobres possíveis - tipo passar cola para uma das meninas que a ridicularizava, assim todos podem ver como a mocinha é "legal". Bela mensagem, não?


Gosto de comparar UMA ESCOLA ATRAPALHADA com o clássico da rebeldia juvenil "Rock'n'Roll High School", de Allan Arkush, que foi feito mais de dez anos antes (em 1979). Enquanto no filme norte-americano a mensagem era absolutamente "anti-Sistema" e pró-sexo, drogas e rock-and-roll, aqui tudo é careta e moralista, os alunos adoram seus professores e vice-versa, e até ajudam a proteger a escola da ameaça de demolição.

Para piorar, enquanto a cena final de "Rock'n'Roll High Scholl" trazia a banda punk Ramones ajudando os alunos rebeldes a mandar sua escola para os ares (literalmente!) ao som da música-tema, aqui o filme termina com a escola inteirinha e pronta para um novo ano letivo, e o punk de botique Supla perdendo o festival de bandas do colégio para o Polegar cantando "Sou Como Sou"!!! Sabe como é, cada país tem os "adolescentes rebeldes" que merece...


E há, claro, o jabá. Àquela altura do campeonato, os filmes voltados ao público infanto-juvenil já tinham perdido a vergonha na cara e faziam merchandising de produtos e artistas na maior cara-dura. Vá lá que não é nada tão constrangedor quanto os filmes posteriores da Xuxa (em que a narrativa é interrompida a cada cinco minutos para que uma banda que ninguém lembra mais toque um hit que ninguém lembra mais), mas mesmo assim o jabá está presente em UMA ESCOLA ATRAPALHADA e é de rolar de rir.

Supla, por exemplo, aparece cantando "Pisa em Mim" num videoclipe afetado e bastante deslocado do tom do restante da produção, já que aparece entre cruzes de neon e estátuas religiosas decapitadas, de calça de couro vermelha e sem camisa, rolando besuntado de óleo num colchão enquanto repete o refrão "E só pisa em mim / E me deixa assim!". Queria demonstrar uma "atitude" inexistente, o que deixa tudo ainda mais engraçado.


"E só pisa em mim! E me deixa assim!"



No caso de Angélica, o marketing é duplo: ela canta uma música chamada "Angelical Touch" (nossa, quanta criatividade!), que também era o nome de uma linha de cosméticos que ela lançou logo depois. Por isso, muita gente dizia que a música era, na verdade, um jingle disfarçado. E funcionou: a tal linha de cosméticos foi um sucesso de vendas. Mas o videoclipe é abominável, com Angélica exagerando nas caras e bocas estilo "Quero ser sexy" - e sem conseguir ser sexy, claro.


"O meu Angelical Touch..."



Mesmo sendo uma bela porcaria, UMA ESCOLA ATRAPALHADA foi um relativo sucesso de bilheteria na época, e até hoje está numa honrosa 63ª posição entre os filmes brasileiros mais vistos de todos os tempos (na frente de "Pixote, a Lei do Mais Fraco" e "Tropa de Elite"!!!).

Por isso, outras produções destinadas ao público infanto-juvenil foram filmadas rapidamente para tentar aproveitar o filão, mas sem repetir o sucesso. Entre elas, "Sonho de Verão" (1990), com Sergio Mallandro, Paquitos e Paquitas, e "Gaúcho Negro" (1991). Todas são tão péssimas quanto UMA ESCOLA ATRAPALHADA, e compartilham do mesmo tom infantilóide, excesso de merchandising e aquela cara de "episódio mais longo de Malhação".


Demorou vários anos para que começassem a sair os primeiros filmes realmente interessantes produzidos com e para adolescentes. Entre eles, destaco as comédias românticas "Houve uma Vez Dois Verões" (2002), do gaúcho Jorge Furtado, e "As Melhores Coisas do Mundo" (2010), de Laís Bodanzky. Desnecessário dizer que nenhum deles têm Xuxa, Angélica ou as bandinhas da moda, embora esse último traga Fiuk (argh!) em "papel dramático". Mas sem jabá ou narrativa interrompida por videoclipes, como se fazia antigamente.

E mesmo que eu considere UMA ESCOLA ATRAPALHADA um filme execrável, tanto como "produto de consumo de massa" como enquanto "mensagem", é impossível não parar para pensar que, se fosse feito hoje, ele seria ainda pior. Afinal, no lugar de Supla e Angélica provavelmente teríamos Michel Teló e Anytta (aquela do "Pre-pa-ra..."). Já os garotos do Polegar seriam substituídos pelos sertanejos universitários do momento, enquanto Fábio Porchat e Bruno Mazzeo apareceriam no lugar dos Trapalhões.

Ou seja: nada está tão ruim que não possa piorar!


Veja UMA ESCOLA ATRAPALHADA na íntegra



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Uma Escola Atrapalhada (1990, Brasil)
Direção: Del Rangel
Elenco: Supla, Angélica, Grupo Polegar, Ewerton
de Castro, Renato Aragão, Dedé Santana, Mussum,
Zacarias, Selton Mello e Maria Mariana.

32 comentários:

Cristiano disse...

Eu posso falar com autoridade desse filme. Tinha 5 anos quando isso foi lançado e só lembro de ter visto isso pela primeira vez aos 7 ou 8 anos em uma dessas reprises que havia na Globo. Nem tendo essa idade eu gostei dessa bagaça! E o pior é que calhou de eu ver esse filme de novo umas duas vezes (também em reprises da Globo) e ele conseguiu piorar na minha avaliação - mas sabe como é, via de novo por causa dos Trapalhões. :D

Felipe, você pôs no texto tudo o que eu pensava (e penso) a respeito do filme. Um lixo desgraçado que só vale a pena ver nas partes dos Trapalhões (a "peixeira do Ceará" é ótima!). E realmente é terrível pensar numa versão feita nos dias de hoje, com musicais ainda piores e sem as cenas politicamente incorretas. Credo!

Ah, só odiei uma coisa no texto: lembrar daquela porra de música da Angélica! Nem me lembrava mais desse troço, mas agora não sai do meu cérebro o "Angelical Touch, Touch, Touch...". Oh, vida! Oh, azar!

pazanarquia disse...

concordo que esses tipos de filme realmente são uma merda. agora julgar talentos como Leandro Hassum, marcelo adnet e a galera do Porta dos Fundos, pra mim é puro recalque.

Igo disse...

Felipe, você havia dito que "As Aventuras de Sérgio Mallandro" era o pior filme de todos os tempos...kkkkk... E agora?

PS.: Esperando algum dia que você faça a resenha de "A B... Profunda" (1984) com a atriz Débora Muniz.

Abraços.

Felipe M. Guerra disse...

IGO, não fui eu que disse que o filme do Mallandro era o pior de todos os tempos, mas sim a crítica da época. E sobre o "Escola Atrapalhada", veja bem que chamei de "um dos", e não de "O" pior, porque tem tantos outros na lista...

Anônimo disse...

Desculpe, mas nada supera aquela b* do filme da Xuxa, o "Lua de Cristal". Fui ao cinema assistir porque minha irmã queria ver e como eu era pequeno não poderia ficar em casa sozinho. Esse e o "Inspetor e o Mallandro' são insuperáveis na ruindade.

Paulo Geovani

Renata Cezimbra disse...

Cinderela Baiana viria quase uma década depois, kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.

Renata Cezimbra disse...

Cinderela Baiana viria em 1999 para chocar o público por sua EXTREMA ruindade, kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.

peterosn disse...

o grupo DeMuZa esteve na cidade(Rio Grande-RS) em que eu morava para se apresentar e o contratante do show deu umas porradas no Dedé pois ele se recusou à subir no palco mais apesar de ter apanhado eles não subiram no palco.

Night Owl disse...

Igo, esse negócio de pior ou melhor filme é bastante relativo e subjetivo. Não importa que seja o crítico mais bem conceituado do planeta que diga que um filme é o melhor ou o pior, sempre o "gosto pessoal" vai fazer ter variáveis nas opiniões das pessoas.

O Poderoso Chefão deve ser o filme mais bem elogiado da história. Mas nem ele é uma unanimidade (sim, tem gente que odeia, e não me refiro a pessoas que viram meia-dúzia de filmes, e sim pessoas que tem uma ótima bagagem de cinema).

Aqui mesmo no "FILME PARA DOIDOS", por exemplo, tem gente que prefere o "Último Tubarão" ao "Tubarão" do Spielberg (eu, por exemplo, hahahahahahahahahahaha). Longe de mim querer comparar um filme com outro, o "L'Último Squalo" é uma cópia descarada do filme do Spielberg. Mas que acho o filme italiano mais divertido, isso eu acho. Então pra mim, NESSE SENTIDO, ele é melhor que o filme do Spielberg.

Ou então, no post anterior feito pelo Felipe, o filme do Keruak. Aposto que tem pessoas que preferem ele ao Exterminador do Futuro (nesse caso eu prefiro o filme do Cameron).

E assim caminha a humanidade, cada macaco no seu galho!

Anônimo disse...

E falando em filmes adolescentes, qual a tua opinião sobre o filme "Menino do Rio", com André de Biasi?

Esse filme bem que pode ser considerado com temática adolescente, certo?

Rafael

Master Bates disse...

Felipe, você não imagina o quanto eu esperei para ver esse filme aqui. Tem outro blog que fala dele destacando a semelhança do Marcelo Picchi com o teu conterrâneo Renato Gaúcho http://ciakomus.blogspot.com.br/2012/03/12-filmes-para-ver-antes-do-mundo.html

"Até tem um pouquinho de ousadia por mostrar as meninas mais "à vontade" do que nos filmes dos Trapalhões"

Até tem outro filme deles com cenas assim. Em "O Casamento dos Trapalhões" tem uma cena de dormitório feminimo com a Luciana Vendramini, a menina do primeiro sutiã, a esposa do Dedé dentre outras, usando baby doll ou camisolinha (mas realmente é algo raro nos filmes do quarteto). Depois disso, o mais próximo foi uma cena de um moleque espiando a Jackeline Petcovic e outras desconhecida de calcinhas e sutiã pelo buraco da fechadura (em um daqueles filmes ruins do Didi).

O próprio "Sonho de Verão" que tu citou foi sugestão de um "poeteiro" que tinha acabado de ver "Lua de Cristal" e reclamou, em uma pesquisa de opinião com os espectadores, que faltou "as paquitas de biquíni". O produtor gostou da ideia e fez o filme a toque de caixa.

gelikom disse...

Só sei que eu era doido pela Patrícia Perrone, não me pergunte o porquê.

João Ferreira disse...

Bem observado que Escola Atrapalhada, ainda serve para lembrar como eram as coisas no final dos Anos 80.

Como já disseram por aí, por pior que seja um filme, ainda funciona como referência histórica do período. E de qualquer forma, foi o último longa com o quarteto dos Trapalhões.

Unknown disse...

Òtima resenha Felipe, estamos aguardando a do Inspetor Faustão e o Malandro... na minha opinião o melhor de todos.

Oficial de Ciências disse...

Rapaz, ainda bem que não me lembro deste ai!

Lendo esta sua resenha Felipe, pensando na época e nos problemas do filme, me vem o questionamento de como fomos e somos, ainda, um povo sem um cultura social concisa. Você tem um filme que foca público jovem, ao mesmo tempo com "cena de tortura" no caso do cara que perde os cabelos, mas imergido em tom infantilóide mostrando semi-nu enquanto é caretíssimo!

Além de incompetência "filmográfica" isso revela a falha na construção cultural, que não é concisa. Não é equilibrada, as coisas estão sempre com três pesos, quatro medias...

E a gente ainda vive isso hoje! Qualquer novela é mais ou menos esta porcaria ai, rostinho bonitos, mercham, ai você tem uma trama para adultos, mas que tenta passar que trocar um exame de dna é mais fácil que comprar um carimbo na esquina, com cenas de sexo e semi-nu mas caretíssima pois não pode mostrar mulher se pegando ou homem sem pegando, ou velho se pegando... Mas, pode mostrar golpe da barriga como esperteza, pode mostrar manipulação e isso como certo, pode mostrar chantagem emocional... Pode mostrar que o homem trair é aceitável, ao mesmo tempo engasga quando mostra uma mulher mais velha com cara novo...

E ao mesmo tempo não dá para saber para que público é aquilo, se para adulto, se para criança, se para família, se para casais...

Anônimo disse...

Oficial de Ciências

Excelente comentário!

Já esse filme aí da escola, é uma aula de como não fazer um filme.

Rafael

Augusto Cezar Lima Queiroz disse...

Parabéns pela resenha e por lembrar, mais uma vez, em seus textos, os fantásticos anos 80 e 90.

Alguns pontos a considerar:

1) A camisa cortadinha do Supla, com umbigo aparecendo, era moda disparada na época;

2) O grupo Polegar, do qual sou fã até hoje, também.

Fábio Batista disse...

Olha Felipe, vou lhe dizer uma coisa... Você disse que esse é um dos piores filmes brasileiros de todos os tempos. Eu já assisti 31 filmes com Renato Aragão e, acredite, Uma Escola Atrapalhada está longe de ser um dos piores que eu vi dele! Não sei porque mas gostei desse filme. Talvez por ser da minha época e o teor de nostalgia torne o filme mais palatável pra mim, não sei bem.

Em se tratando de cinema nacional, no quesito "filmes-intragáveis-que-não-sei-que-bruxaria-me-fez-conseguir-assistir-até-o-fim", posso citar o indefinível Os Trombadinhas com a "atuação" de Pelé e o purgante Bete Balanço com Débora Bloch pagando mico. Espero que você resenhe esses dois algum dia. Eles sim são para doidos... ...varridos!

Anônimo disse...

A banda Polegar aparecia para "tocar" em programas de auditórios do SBT e o baterista, durante a execução da canção, perambulava entre as fãs sem a menor pretensão de disfarçar o playback.

São por essas e outras que os 80/90 foram anos incríveis!!

Rafael

Spektro 72 disse...

Mais um belo post de nosso mestre Felipe,Parabens ! por mais este resgate ,eu confesso eu so assisti este filme duas na minha vida não gostei do filme na época em que assisti as duas vezes e não tenho saudade de reve-lo de novo um dos piores filmes dos TRAPALHÕES logico tem outros piores como destacou este post.Grupo Polegar e o Grupo Domino pertenciam a extinta PROMOART empresa de grupos musicais de Augusto Liberato ,Marcelo Augusto também era desta empresa.
Os filmes de humor hoje em dia da GLOBO FILMES eu não gosto de nenhum e também não assisti nenhum nem em DVD ou TV Aberta ( Vide : A Propria REDE GLOBO pois essas drogas só passam la mesmo ).
Um Abraço de Spektro 72.
P.S - Falando em Anytta ela fara um filme da GLOBO LIX..quero dizer FILMES ,O Filme é uma parodia do TROPA DE ELITE uma parodia sei... deve ser como os mesmo redatores do ZORRA TOTAL para variar.. o cinema nacional tá triste.

Master Bates disse...

Triste do país em que uma mulher como a Anitta faz um filme da Globo Filmes em vez de fazer um da Brasileirinhas...

Anônimo disse...

Melhor parte da resenha foi o penúltimo parágrafo. Bolei de rir durante todo texto.

BAH disse...

Na época eu não tive coragem de assistir essa porcaria. Até poderia tentar para assistir uma comédia involuntária, mas os filmes do Roberto Carlos tem prioridade nesse quesito.

Triste último filme de Zacarias. Talvez por isso seja considerado um filme oficial dos Trapalhões.

laurindo Junior disse...

Amigo Felipe, apenas uma pergunta: Por que não resenhar, este ótimo filme de Jorge Furtado. Houve uma Vez Dois Verões? Particularmente eu gostei. Quanto a sua resenha, deste Uma Escola..você praticamente não deixou, nem uma migalha, para qualquer comentário, portanto mais uma vez, Parabéns pela sempre precisa e divertida resenha. Abraços Laurindo(Big Boss)Junior.

Felipe M. Guerra disse...

LAURINDO JUNIOR, gosto muito desse filme do Furtado, em breve publicarei sim uma resenha sobre ele.

Igo disse...

É Felipe, vc tem razão, vacilei legal. Não reparei direito nas frases. Vlw pela correção.

"Rock'n'Roll High Scholl" me lembrou o filme "The Wall" (1982), dirigido por Alan Parker e com roteiro do músico Roger Waters. No filme, a banda britânica Pink Floyd, entre outras músicas, entoava a famosa canção "Another brick in the wall" e vários alunos, motivados por essa música, destruíam a escola.

laurindo Junior disse...

Amigo Felipe, estarei, assim como muitos outros esperando com ansiedade, esta resenha, e por tanto só me resta te agradecer. Abraços Laurindo Junior.

Unknown disse...

Até demorou pra sair uma resenha desse filme. Nunca rí tanto...sempre leio esse blog, acho divertido pacas!
Me lembro dos Trapalhões anunciando esse filme no programa deles. Por incrível que pareça por mais reprisado que seja eu nunca assistí esse filme mas justamente por achar que esse NÃO é um filme dos Trapalhões e sim um filme da Angélica.
Supla sempre dando uma de Billy Idol tupiniquim.

Hustox disse...

ah adoro esse povo que lambe cu de cinema americano e fala mal do cinema brasileiro. "Um Idiota em inglês, se é idiota é bem menos que nós. Um Idiota em inglês é bem melhor do que eu e vocês" Os Titãs sabem o que dizem!

Anônimo disse...

Concordo com tudo que você falou, menos com o final. Ver essa "pérola" de novo na íntegra? Sem chance! Bastou uma vez quando era criança, no início da década de 90, e nunca mais.

Anônimo disse...


Olha amigo! Vc viveu os anos 80 e 90? Esta roupa do Supla era moda na época. No nosso tempo beijinho na escola rendia suspensão e um belo sermão de seus pais que tinha que ouvir calado.
O Polegar era uma boyband famosa da época como foi Dominó e Menudo. Nesta época as bandas de moças famosas era Meia Soquete (de Adriane Galisteu) e As Paquitas.
Moça aparecer grávida era um escandalo enorme e o Pai tinha que assumir o filho. Se engravidasse uma menina, vc deixava de estudar e ia trabalhar (era permitido trabalhar a partir de 14 anos)para sustentar teu filho.
Agora pesquise sobre costume dos anos 80 e 90 antes de escrever o que pensa, esse filme foi muito bom, comparado a outros produzidos pela Globo.
Da turma do Renato Aragão houve filmes muito piores.

marcio valentin disse...

Assistir no cinema em 1990 zacarias já havia falecido, como vc citou fomos surpreendidos com um filme que não era dos trapalhoes mesmo assim lembro com saudades