terça-feira, 27 de novembro de 2012

VOU, MATO E VOLTO (1967)


Na versão em italiano do clássico "Três Homens em Conflito" (1966), de Sergio Leone, há um diálogo em que Tuco (Eli Wallach) diz ao personagem de Clint Eastwood: "Vado, l'ammazzo e torno" (em bom português, "Vou, mato e volto"). A frase infelizmente se perdeu na dublagem em inglês (que virou "I get dressed, I kill him and be right back"), mas sua versão em italiano é tão boa que, diz a lenda, Leone pretendia fazer um filme justamente com este título, "Vado, L'ammazzo e Torno". Só que um jovem diretor chamado Enzo G. Castellari saiu na frente e, já no ano seguinte (1967), lançou seu próprio VOU, MATO E VOLTO!

Castellari não apropriou-se do título de Leone por acaso: seu western é uma homenagem declarada e também uma tiração de sarro com "Três Homens em Conflito": enquanto o clássico de Sergio Leone contava a história de três pistoleiros que se ajudavam e se enganavam mutuamente na caçada a um tesouro enterrado num cemitério, em VOU, MATO E VOLTO outros três pistoleiros igualmente se ajudam e se enganam o tempo inteiro na caçada a um tesouro escondido num velho convento, e com várias referências a Sergio Leone!


Confesso ao leitor que não gostei muito do filme quando vi pela primeira vez. Talvez porque, devido ao título sensacional, eu esperasse por algo mais sério e violento - afinal, é um filme de Enzo Castellari, o "Sam Peckinpah italiano"! Pode ser que eu esperasse a marca registrada do velho Enzo - a câmera lenta nas cenas de ação -, esquecendo que, àquela altura, o homem ainda estava começando e definindo um "estilo".

Poranto, o resultado ficou longe do que eu esperava: VOU, MATO E VOLTO segue uma linha mais cômica e absurda, sem se levar muito a sério, embora nada tão exagerado quanto nos filmes da dupla Terence Hill e Bud Spencer. Foi só recentemente que eu o revi como o que ele realmente é (uma sátira de "Três Homens em Conflito"), e passei a gostar da brincadeira.


O filme já começa com uma introdução antológica que dá o tom da inteligente tiração de sarro de Castellari, quando vemos três pistoleiros mal-encarados entrando numa cidadezinha. Até aí, nada de novo: quantos westerns spaghetti começam do mesmíssimo jeito? A diferença é que o trio de mal-encarados é formado por sósias do "Homem Sem Nome" interpretado por Clint Eastwood na Trilogia do Dólar (inclusive vestido com o mesmo poncho), do Coronel Mortimer interpretado por Lee Van Cleef em "Por uns Dólares a Mais" e do Django interpretado por Franco Nero!

Logo, o trio de ilustres valentões do western spaghetti cruza com uma carroça levando três caixões. Eles abordam seu condutor e perguntam quem são os mortos. Um homem que acompanha o cortejo fúnebre fala três nomes, e os pistoleiros se apavoram: "Mas somos nós!". Antes que possam se recuperar do susto, são impiedosamente abatidos por tiros certeiros do homem misterioso, que na verdade é um caçador de recompensas conhecido como The Stranger, (ou "Forasteiro", nas legendas brasileiras)!


Ou seja, VOU, MATO E VOLTO já começa mostrando que seu personagem principal é tão fodão que, numa tacada só, despacha "Clint Eastwood", "Lee Van Cleef" e "Franco Nero"! O Forasteiro é um dos primeiros grandes papeis de George Hilton, um uruguaio de Montevideo que foi para a Europa para ser astro de cinema. Antes, Hilton foi "007" numa comédia chamada "Dois Mafiosos contra Goldfinger" (!!!) e parceiro de Franco Nero no excelente "Tempo de Massacre", dirigido por Lucio Fulci. Depois, ele interpretaria Sartana (em imitações sem relação com a franquia oficial), Allelujah e Tressette (outros pistoleiros menos conhecidos que tiveram direito a duas aventuras cada),

O Forasteiro revela ao condutor da carruagem - e ao espectador - que sua próxima missão é sair atrás do bandidão mexicano Monetero (GIlbert Roland), cuja cabeça vale uma fortuna. Na versão original em italiano, o caçador de recompensas até usava a clássica sentença de "Três Homens em Conflito" que dá título ao filme, "Vado, l'ammazzo e torno", e que também foi arruinada aqui na dublagem em inglês, transformando-se numa outra frase de efeito qualquer ("Pode apostar seu último centavo que vou pegá-lo"). O que leva alguém a estragar pela segunda vez uma sentença tão clássica? Bem, talvez porque, nos Estados Unidos, VOU, MATO E VOLTO foi rebatizado com um título genérico, "Any Gun Can Play".


A nova empreitada do caçador de recompensas não será tão simples quanto o trio de valentões da introdução: Monetero e sua quadrilha estão se preparando para roubar um trem escoltado por soldados fortemente armados, e que transporta a fortuna de 300 mil dólares em moedas de ouro. Além dos soldados, segue com o comboio o próprio Forasteiro e um banqueiro chamado Clayton, preocupadíssimo com a possibilidade de a grana ser roubada durante a viagem.

O almofadinha é interpretado pelo norte-americano Edd Byrnes, que foi um grande astro da TV norte-americana entre 1958 e 1964 graças à sua atuação como coadjuvante "77 Sunset Strip", chegando a receber 15 mil cartas de fãs por semana! Mas a série acabou, Byrnes caiu no ostracismo e foi para a Europa estrelar westerns, como este.


O aguardado assalto finalmente acontece: os homens de Monetero atacam o trem, matam vários soldados e fogem com o vagão contendo a fortuna. Mas um dos capangas do vilão, Pajondo (Ignazio Spalla, de "O Dólar Furado"), foge com a fortuna. Ele a esconde em local ignorado e tenta cruzar a fronteira do México, mas é morto pelo exército durante a fuga. Monetero consegue recuperar um medalhão usado pelo traidor, a única pista para a localização do tesouro, mas acaba sendo preso.

Na cadeia, o banqueiro Clayton pressiona o comandante para que faça Monetero abrir o bico, sem saber que o bandidão também desconhece o local onde a fortuna foi desconhecida, tendo o medalhão de Pajondo como "mapa" que não consegue decifrar. Logo, Monetero recebe em sua cela a visita do Forasteiro, vestido como padre. O caçador de recompensas concorda em ajudar o bandido a escapar para ajudá-lo na caça ao tesouro. Ganha metade do medalhão como garantia e põe em prática um ousado plano de fuga.


Mas é a partir da fuga de Monetero da cadeia que as coisas começam a se complicar. O bandido trai o Forasteiro, rouba de volta a segunda metade do medalhão e parte sozinho em busca do tesouro. Já o almofadinha Clayton revela ter papel fundamental na trama e também sai na caça à fortuna. Lá pelas tantas, também aparece um novo interessado no tesouro, um agente de seguros que está tentando rastrear a bolada para não ter que pagar a indenização ao banco de onde os 300 mil foram roubados!

Sabe aqueles filmes onde nada é o que parece ser? Pois VOU, MATO E VOLTO segue nessa linha: exagerando ainda mais o que já acontecia em "Três Homens em Conflito", a relação entre os três personagens principais nunca é totalmente explicada ao espectador e só fica clara no final, depois que um já traiu o outro pelo menos dez vezes. E é tanta traição e mudança de lado que no final, ao ser abandonado pela amante (que também se revela uma traidora), um dos protagonistas diz, com a maior calma do mundo: "Que diferença faz? Ninguém mais está sendo sincero mesmo!".


O roteiro do filme foi assinado por três pessoas: Castellari, seu colaborador habitual Tito Carpi e Giovanni Simonelli, baseados numa história original de Romolo Guerrieri e Sauro Scavolini. Talvez tanta gente envolvida tenha contribuído para a bagunça que é o roteiro, com o trio de personagens centrais mudando de lado o tempo todo motivados pela cobiça, lembrando vagamente outro clássico: "O Tesouro de Sierra Madre", de John Huston.

Em um momento, o Forasteiro ajuda Monetero ao invés de matá-lo e embolsar a recompensa, mas acaba sendo traído por ele; depois, Clayton ajuda o Forasteiro, mas apenas para depois revelar estar do lado do bandidão Monetero desde o começo; finalmente, os arquiinimigos Monetero e Forasteiro se unem contra Clayton, mas a escalada de traições está longe de terminar. É tanto "muda para um lado / muda para outro" que lá pelas tentas o espectador até desiste de tentar entender as motivações dos personagens.


Mas isso me incomodou muito mais na primeira vez que vi VOU, MATO E VOLTO do que na revisão. Conhecendo a proposta e a dinâmica do filme, fica muito mais fácil encará-lo como o divertido passatempo que é do que numa primeira assistida, quando o excesso de voltas e reviravoltas chega a irritar o espectador.

O filme começa violento, com dezenas de mortes no ataque ao trem; mas o segundo ato é mais leve e puxado para a comédia-pastelão, com piadinhas inocentes (tipo a cena em que Forasteiro usa apenas sua roupa de baixo vermelha, lembrando o uniforme do Super Pateta nos quadrinhos!) e pancadarias exageradas ao estilo Terence Hill e Bud Spencer, com heróis e vilões destruindo cenários inteiros durante a troca de pancadas (a briga numa casa de banho é especialmente inspirada nesse quesito, já que os protagonistas destróem o lugar enquanto brigam).


Finalmente, no último ato, parece que as coisas voltarão a ser tão violentas quanto no começo. O desfecho da caçada ao tesouro envolve um momento, dentro de uma igreja abandonada, que remete à conclusão de "Três Homens em Conflito": um tiroteio triplo envolvendo o Forasteiro, Monetero e Clayton, mas com um desfecho bem diferente, comprovando que Castellari e cia. só queriam brincar com o clássico de Leone, e não recriá-lo.

No conjunto, VOU, MATO E VOLTO é diferente do que o diretor Castellari faria depois. Ainda não aparecem suas marcas registradas nos trabalhos posteriores - a câmera lenta e a violência explícita e exagerada -, mas o próprio Sam Peckinpah, que inspirou o estilo do diretor italiano, ainda estava refinando a sua técnica nessa época.


Mas já dá para perceber umas belas sacadas que comprovam o talento de Castellari ainda em seus primeiros filmes (ele tinha 29 anos quando fez VOU, MATO E VOLTO). Por exemplo, é interessante como o diretor usa, em diveras cenas, o recurso do revólver em primeiro plano apontando para outros personagens, como se a visão da câmera fosse a do próprio espectador (lembrando até aqueles jogos em primeira pessoa que se tornariam populares a partir da década de 1990, como "Doom" e "Quake").

Outro momento visualmente inspirado é aquele em que Clayton, durante o jantar, percebe a aproximação de inimigos armados e derrama a taça de vinho sobre a mesa, para poder enxergar o reflexo dos seus agressores na poça da bebida!


E o Forasteiro... que personagem bem bolado! Chega a ser um desperdício que não tenha sido aproveitado em outras aventuras. O caçador de recompensas implacável, mas também fanfarrão e piadista, que se disfarça de coveiro e de padre para enganar os rivais e leva sempre consigo uma verdadeira galeria de cartazes de recompensa com seus "alvos", é a melhor coisa de VOU, MATO E VOLTO.

A exemplo do personagem de Clint Eastwood na "Trilogia do Dólar", o Forasteiro de George Hilton não tem nada de heróico: é um amoral que só pensa no próprio nariz e no dinheiro que vai ganhar. Na cena do assalto ao trem, por exemplo, ele tem a chance de matar Monetero, mas desiste e prefere esperar que aumentem a recompensa pela cabeça do vilão graças ao assalto!

Em outro momento, o Forasteiro passa tranquilamente pelo cadáver de um bandido traído pelo seu comparsa, dá uma conferida no cartaz de recompensa pela cabeça do dito cujo e chega à conclusão de que o dinheiro recebido não vale o esforço de carregar o corpo do finado até o xerife!


Não dá para deixar de citar a música, composta pelo mestre Francesco De Masi (que só pisa na bola com o "tema humorístico" que criou para as cenas de pancadaria), e a presença da bela ruiva Stefania Careddu, aqui usando o nome artístico "Kareen O'Hara", e que é um raro colírio para os olhos numa trama predominantemente masculina.

Infelizmente, embora a moça tenha sido apresentada com destaque no trailer do filme, talvez com a intenção de transformá-la numa nova estrela do gênero, a italianinha nunca alçoou maiores voos, voltando no western seguinte de Castellari, "Deus Criou o Homem e o Homem Criou o Colt" (1968), e então mergulhando direto para o esquecimento.


Claro, VOU, MATO E VOLTO não deve ser levado muito a sério, e está mais para uma história em quadrinhos do que para uma trama realista. Além das múltiplas traições difíceis de engolir, também tem o inexplicável detalhe do tal medalhão que leva ao tesouro: por que diabos o bandido que escondeu o ouro carrega aquele medalhão consigo como pista para a sua localização, se foi ELE MESMO quem escondeu o dinheiro e sabe muito bem onde está? Será que ele tinha medo de esquecer onde escondeu uma fortuna? Por que se arriscar a revelar a localização levando o medalhão como mapa? Óbvio que se não existisse o medalhão não existiria mapa e nem caça ao tesouro, e o filme terminaria no momento em que o bandido que escondeu o ouro fosse morto; mas os roteiristas poderiam ter pensado numa explicação melhor para justificar o negócio!

(O medalhão ou mapa dividido em partes que pertencem a personagens diferentes, e que precisam ser reagrupados para indicar a localização da fortuna, é um dos grandes clichês do cinema de aventura e também de muitos filmes de faroeste, o que de certa maneira explica a sua reutilização aqui.)


Mas não se engane: ainda que o filme seja bem divertido e funcione, a melhor coisa ainda é o título VOU, MATO E VOLTO, que rivaliza com aquele que eu acho o melhor título de western spaghetti de todos os tempos, "Deus os Cria... Eu os Mato!". Em seus trabalhos seguintes no gênero, Castellari tentou recriar algo tão sonoro diversas vezes ("Vou, Vejo e Disparo", "Mate Todos Eles e Volte Só"), mas sem sucesso.

Com os sucessivos lançamento e relançamentos ao redor do mundo, a obra ganhou diferentes títulos, mas nenhum tão bom quanto o original. Na Alemanha, por exemplo, foi lançado como se fosse uma aventura da série "Django" - e o personagem de Hilton, ao invés de se chamar Forasteiro, acabou sendo rebatizado como Django! Outros títulos alternativos são "Blood River", "Glory, Glory Hallelujah" e "For a Few Bullets More".


No Brasil, o filme foi originalmente lançado como VOU, MATO E VOLTO em vídeo pela extinta Century (boa!), mas depois relançado em DVD por diversas distribuidoras, inclusive pela famigerada London/Works com um título genérico, "Terra Sem Lei".

Engraçado é que nenhum dos DVDs nacionais ou estrangeiros têm a versão completa do filme, com 105 minutos, trazendo apenas a versão internacional de 98 minutos. Parece que a versão completa passou apenas na TV alemã. Estes sete minutos a mais explicam melhor a história e o relacionamento entre os personagens.



Ah, os brasileiros também puderam conferir a obra de Castellari numa outra mídia: a fotonovela! Acontece que, nos anos 70, a Rio Gráfica Editora resolveu explorar o fascínio do público brasileiro pelo western spaghetti com a revista "Ringo", que publicava versões em fotonovela de filmes como "…E per Tetto un Cielo di Stelle" e "Um Trem para Durango".

A "fotonovelização" de VOU, MATO E VOLTO saiu no número 8 da revista, em 1971, rebatizando o Forasteiro como "Greenfield" e com um quadro de texto moralista no último quadrinho, explicando o que, segundo o cara que fez a adaptação, teria acontecido aos personagens: "Nenhum deles aproveitou o ouro, que o banco recuperou, algum tempo depois, quase inteiramente. Clayton e Monetero foram fuzilados pelos soldados, e Greenfield sucumbiu pouco depois, vítima de um acidente de trabalho, quando caçava um fora-da-lei"!!! Todos os exemplares da "Ringo" hoje são autênticas raridades.

PS: Uma das lendas não-confirmadas sobre o filme é que o papel tão bem interpretado por George Hilton teria sido inicialmente oferecido a um certo ator norte-americano chamado... Charles Bronson! Mas o lendário astro teria recusado a proposta, como já havia feito ao ser convidado por Sergio Leone para estrelar "Por Um Punhado de Dólares". No ano seguinte (1968), Bronson estrelaria a obra-prima "Era Uma Vez no Oeste".


Trailer de VOU, MATO E VOLTO



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Vado... L'ammazzo e Torno / Any Gun Can Play
(1967, Itália)

Direção: Enzo G. Castellari
Elenco: George Hilton, Edd Byrnes, Gilbert Roland,
Stefania Careddu, Gérard Herter, Ignazio Spalla,
Ivano Staccioli, Salvatore Borghese e Rocco Lerro.


* E a quem interessar possa, eis a lendária capinha do VHS brasileiro do filme, uma das mais bonitas que já vi, e que infelizmente foi substituída por artes mequetrefes e photoshopadas nas versões lançadas em DVD, tanto aqui como lá fora (clique para ampliar).

terça-feira, 20 de novembro de 2012

O GATO DE BOTAS EXTRATERRESTRE (1990)


Quem viveu a Era de Ouro das videolocadoras brasileiras deve lembrar bem do nome Wilson Rodrigues. Através da sua empresa, a WR-Filmes Ltda., este mineiro de Belo Horizonte radicado em São Paulo distribuiu um montão de tralhas hoje dificílimas de encontrar mesmo lá fora, como a ficção científica pós-apocalíptica "1999 - O Sobrevivente do Fim do Mundo", de Michael Shackleton, o drama de guerra "Mergulhando Para o Inferno", de Shûe Matsubayashi, e o anime "Terror em Love City", de Kôichi Mashimo.

Mas Wilson Rodrigues também dirigiu e produziu seus próprios filmes. Começou com pornochanchadas ("A Dama do Sexo", "Meu Primeiro Amante"), mudou para o sexo explícito quando o pornô estava dando dinheiro ("Masculino... Até Certo Ponto", em 1986), e tentou limpar o currículo especializando-se em produções voltadas ao público infantil. "É a primeira vez que se tem a chance de produzir um vídeo especialmente dedicado ao público infantil, que tem poucos títulos brasileiros à sua disposição", declarou Wilson em reportagem da época.


O resultado da iniciativa foram duas produções baratas baseadas em contos de fadas, produzidas originalmente para o mercado de vídeo, mas também exibidas em alguns cinemas: "No Mundo da Carochinha Volume 1 - Chapeuzinho Vermelho" e "No Mundo da Carochinha Volume 2 - Joãozinho e Maria", ambas de 1986. José Mojica Marins, o Zé do Caixão, trabalhou na supervisão de "Chapeuzinho Vermelho", e Rubens Francisco Lucchetti, roteirista de vários filmes de Mojica e de Ivan Cardoso, ficou responsável pelas adaptações (acima, os pôsteres das duas produções).

Surpreendentemente, os dois filmes deram um bom retorno financeiro, e Wilson resolveu investir a grana que lucrou com eles numa produção melhorzinha, em sociedade com Rodri J. Rodriguez. Só que sonhou um pouquinho alto demais, achou que era Steven Spielberg e torrou todo o dinheiro num filme brasileiro com pretensões hollywoodianas (só pretensões). Em resumo, foi assim que nasceu O GATO DE BOTAS EXTRATERRESTRE, terceira obra da série "No Mundo da Carochinha", mas lançada diretamente em VHS sem esta alcunha, como se fosse uma produção independente.


Rubens Lucchetti novamente ficou a cargo da adaptação, dessa vez da fábula "O Gato de Botas" (Le Chat Botté, no original), do francês Charles Perrault (1628–1703). Esta história popular foi publicada originalmente no volume conhecido como "Histórias da Mamãe Gansa" (Les Contes de ma Mère l'Oye), em 1697. Anos depois, no século 19, os Irmãos Grimm escreveriam sua própria versão de "O Gato de Botas", mas sem nenhuma mudança marcante na trama já conhecida.

Na versão original dos contos de fadas, "O Gato de Botas" narra a história dos três filhos do finado proprietário de um moinho. O mais velho herda o moinho, o irmão do meio herda os cavalos, e o mais jovem fica com o inofensivo gatinho que pertencia ao pai. Só que não é um felino normal: o "Gato de Botas" do título anda em duas patas, fala e se comporta como gente (sem que ninguém estranhe o fato), e, entristecido com a pobreza do seu novo dono, arma um complicado esquema para que ele se case com a bela princesa do reino.


Pelos próximos dias, o Gato de Botas caça coelhos e gansos e os entrega ao rei como se fossem presentes do "Marquês de Carabás", de quem seria súdito. Repete isso tantas vezes que o rei e a rainha ficam encantados com a generosidade do nobre que sequer existe. Aí o gato malandro coloca seu dono no golpe durante um passeio de carruagem do rei, fazendo o rapaz identificar-se como o tão comentado marquês e fingindo que foi assaltado.

E a mentira vai ficando cada vez mais complexa: para que o rei acredite que seu humilde dono é mesmo um nobre, o Gato de Botas sai em disparada pelo reino inventando mentiras, convencendo fazendeiros a dizerem ao rei que suas terras pertencem ao fictício "Marquês de Carabás", e até matando um malvado Ogro que vive na região para apoderar-se do seu castelo, que passa a ser o castelo do marquês de mentirinha. No final, o rapaz pobretão que se fingia de nobre ganha a mão da princesa em casamento e vira príncipe de verdade, enquanto o mentiroso Gato de Botas diverte-se com sua nova vida entre a realeza.


Para a adaptação brasileira, Wilson Rodrigues contratou um elenco repleto de nomes famosos e/ou conhecidos, quase todos oriundos do elenco da Rede Globo na época. O fazendeiro e falso Marquês de Carabás, por exemplo, é interpretado por um jovem Maurício Mattar, então astro das novelas da Globo graças ao João Ligeiro de "Roque Santeiro".

Sua princesa é a ninfetinha Flávia Monteiro, que alguns anos antes, em 1987, tinha provocado polêmica por interpretar uma espécie de Lolita em "A Menina do Lado", protagonizando cenas ousadas com Reginaldo Farias. Na época do filme, ela integrava o elenco da novela das oito "Vale Tudo".


Já o papel do Gato de Botas, que já havia sido interpretado pelo oscarizado Christopher Walken numa adaptação mequetrefe da Cannon Films (e depois seria dublado por Antonio Banderas na série "Shrek"), ficou com Heitor Gaiotti, figurinha carimbada dos filmes de ação baratos de Tony Vieira (como "Tortura Cruel" e "O Último Cão de Guerra").

Ironicamente, Gaiotti era conhecido pelo apelido de "Gato", e talvez por isso tenha sido convidado a interpretar o personagem. (Alguns podem achar engraçado e "politicamente incorreto" um ator de pornochanchada interpretando um clássico personagem infantil, mas é bom não esquecer que o eterno Papaco Fernando Benini hoje está no elenco da novela "Carrossel"!)


O GATO DE BOTAS EXTRATERRESTRE começa com a então garota-propaganda do Leite de Aveia Davene, Tônia Carrero, no papel de uma simpática vovó contando uma história para a netinha dormir. Ela pega o livro do "Gato de Botas", e então começa a encenação da história, seguindo fielmente o original de Perrault (embora os créditos iniciais informem que o roteiro de Lucchetti baseou-se na versão dos Irmãos Grimm).

Além dos nomes já citados, Felipe Levy (célebre figurante do programa Os Trapalhões e ator em tralhas como "A Rota do Brilho") interpreta o rei, e a atriz gaúcha Carmem Silva a sua rainha. Tony Tornado aparece como um dos guardas do palácio, Joffre Soares é o feiticeiro malvado Mago Mau (substituindo o Ogro da história original), e há pequenas participações de Zezé Motta e José Mojica Marins como vítimas do feiticeiro malvado. Mojica aparece vestido como Zé do Caixão, mas identifica-se como "Príncipe Renini", um jovem enfeitiçado para ficar com a aparência do Zé do Caixão, na única tirada divertida da adaptação.


O produtor Wilson (que faz uma ponta lendo o testamento dos três irmãos no início do filme) não poupou esforços para dar o ar de "superprodução hollywoodiana" que tanto sonhava ao seu filme. Além de filmar parte das cenas em Monte Verde (MG) e na cidade gaúcha de Gramado - onde também foram aproveitadas as miniaturas de castelos do parque temático Mini Mundo para as externas do reino do conto de fadas -, Wilson encomendou a máscara do Gato de Botas ao Burman Studio, em Hollywood.

Você não leu errado: "o" Burman Studio, aquele mesmo responsável pelos licantropos de "A Marca da Pantera" e "O Garoto do Futuro", pelo Sloth de "Os Goonies", e indicado ao Oscar de Melhor Maquiagem pelas assombrações da comédia "Os Fantasmas Contra-Atacam" (1988). A máscara do gato realmente é bem expressiva, e deve ter comido a maior parte do orçamento, mas sozinha não salva o filme. (Para não ser injusto, a caracterização de Joffre Soares como feiticeiro malvado também é muito boa.)


E se a produção segue fielmente o original de Perrault/Irmãos Grimm (descontando, é claro, a introdução com a vovó e sua netinha, e o bruxo no lugar do ogro), por que diabos o título é O GATO DE BOTAS EXTRATERRESTRE?

Aí é que está o problema: para tentar dar uma ar mais "moderno" à fábula, já que as crianças do final dos anos 80 foram educadas mais por Spielberg e George Lucas do que pelos velhos contos de fadas, Lucchetti resolveu dar uma origem alienígena ao Gato de Botas, o que talvez explique o fato de o gato andar, falar e comportar-se como ser humano - embora no filme, como na fábula original, ninguém nunca estranhe esse comportamento.


O problema é que o produtor Wilson deve ter ficado sem dinheiro na hora de filmar as cenas que explicam essa origem alienígena. Portanto, não espere por cenas com o Gato de Botas em seu planeta cheio de outros Gatos de Botas inteligentes e malandros, recebendo a missão de ir à Terra ajudar o pobre fazendeiro. O máximo de "extraterrestre", para justificar o título absurdo do filme, são takes totalmente gratuitos de uma nave espacial em formato fálico no espaço (sua construção é creditada a "Alex Miller"), enxertados sem muito critério no meio da narrativa.

E a conclusão também traz um toque mínimo de ficção científica, quando revela-se que o tal "Gato de Botas Extraterrestre" na verdade é um robô! O personagem fica paralisado enquanto caminha pelo campo, como se as pilhas tivessem acabado, e foi isso mesmo que aconteceu! Então a tal nave em formato fálico aproxima-se da órbita da Terra, um alienígena vestido de preto estilo Darth Vader sai dela e troca as baterias do Gato de Botas, que volta a andar todo serelepe. The end!


Em resumo, a natureza "extraterrestre" do Gato de Botas não acrescenta absolutamente nada de novo à fábula, e a trilha sonora roubada de "Blade Runner - O Caçador de Andróides", repetida ad nauseam ao longo do filme, também falha em dar qualquer tom de ficção científica ao produto final. Lá pelas tantas, também entram trechos da 9ª Sinfonia de Beethoven, talvez porque os realizadores tenham ficado com vergonha da repetição da música de "Blade Runner".

Misteriosamente, os créditos iniciais indicam Jorge Mello como autor da trilha sonora do filme, mas não consegui perceber nenhuma música original além das chupadas de "Blade Runner" e de Beethoven. De qualquer jeito, faz-se a menção.


Se os toques de ficção científica não acrescentam nada de novo, Lucchetti tampouco parece interessado em mexer no texto original, adaptado praticamente na íntegra. Não há espaço para que os poucos personagens novos, como o príncipe enfeitiçado para ter a cara do Zé do Caixão, ou mesmo o bruxo malvado, possam fazer algo para justificar suas existências.

O guarda do rei interpretado por Tony Tornado em certos momentos parece suspeitar da idoneidade do Gato de Botas, mas nem a este personagem é dado qualquer espaço para crescer e mostrar serviço. Por isso, na maior parte de O GATO DE BOTAS EXTRATERRESTRE só vemos Heitor Gaiotti correndo para cá e para lá com suas mentiras e Maurício Mattar andando de carruagem com Flávia Monteiro e Carmen Silva, ele com cara de bunda, elas com cara de paisagem - quem sabe pensando "Por que diabos fui me meter nessa furada?".


Particularmente, acho bem triste o fato do roteiro de Lucchetti preferir manter a ambientação do conto original num "reino de conto de fadas", com os poucos e dispensáveis toques de ficção científica, ao invés de "abrasileirar" a trama, fazendo, quem sabe, uma adaptação contemporânea do Gato de Botas aqui no Brasil, e não num reino mágico de conto de fadas.

Afinal, se a fábula de Perrault pode ser interpretada como um elogio à esperteza, por outro lado também incentiva e glorifica a mentira: o que o Gato de Botas faz não deixa de ser o popular "conto do vigário", enrolando o rei e a rainha para que entreguem a mão da sua filha a um fazendeiro pobretão que se finge de nobre.


Portanto, sendo o Gato de Botas um personagem tão "171", parece ter nascido para estrelar uma adaptação feita no Brasil, o notório país dos malandros que querem levar vantagem às custas dos outros. Numa adaptação contemporânea da fábula, o felino poderia ter se transformado num personagem estilo Zé Carioca, e sem princesas e castelos.

Mas Wilson Rodrigues e Rubens Lucchetti preferiram uma adaptação mais tradicional, e os ridículos elementos de ficção científica parecem ter sido inseridos no fim das filmagens. Ao mesmo é a essa conclusão que se chega na pesquisa por reportagens antigas sobre a produção, que ainda era chamada apenas de "O Gato de Botas". Não duvido que a sub-trama com a origem extraterrestre do personagem tenha sido acrescentada depois para tornar o filme mais atrativo à molecada, o que também justificaria as poucas cenas com esse tema.


No conjunto, O GATO DE BOTAS EXTRATERRESTRE é um desastre. Não há história para mais do que um curta-metragem de meia hora, e curiosamente os episódios anteriores de "No Mundo da Carochinha" ficavam nessa metragem, entre 40 e 50 minutos. Mas este aqui preferiram transformar em longa, com intermináveis 85 minutos! Não há a menor noção de ritmo e nem um mínimo de edição (cada take dura uma eternidade).

Como não havia história para contar (a própria fábula em que se inspira é bem curtinha), a solução foi enrolar com inúmeras e intermináveis cenas de cavaleiros galopando, com loooooooooongas cenas dos personagens caminhando de ponto A para ponto B, ou ainda a festa de casamento da princesa com o "Marquês de Carabás" no final, filmada como se fosse um autêntico vídeo de festa de casamento da vida real - ou seja, com cenas longas e arrastadas de pessoas comendo, dançando e se divertindo.


O excesso de astros e estrelas, efeitos hollywoodianos e pompa de O GATO DE BOTAS EXTRATERRESTRE cobrou seu preço, e o diretor/produtor Wilson Rodrigues teria ido à bancarrota. Pelo menos foi o que explicou o roteirista Lucchetti em entrevista de 2000: "Wilson investiu todo o seu dinheiro numa superprodução, que, apesar de não ficar devendo nada às fitas hollywoodianas, levou a WR-Filmes à falência".

O filme sequer chegou aos cinemas, como os dois volumes anteriores da série "No Mundo da Carochinha", saindo direto em vídeo. E se a data oficial da produção é 1990, aparenta ter sido filmado pelo menos dois anos antes (provavelmente ficou emperrado pelos problemas financeiros e de distribuição).


O curioso é que os créditos iniciais do filme estão em inglês (o título inclusive ficou "The Extra-Terrestrial Cat in Boots"!!!), porque a ideia de Wilson e cia. era lançá-lo nos cinemas disputando espaço e público de igual para igual com os blockbusters de Hollywood. "Nosso Gato de Botas vai enfrentar Spielberg", dizia a manchete "só um pouquinho" exagerada de um jornal da época da produção.

Só que o inglês do cara que fez os títulos não era tão bom assim, e deixou passar algumas pérolas. O montador Walter Wanny, por exemplo, virou o responsável pela "ediction" (!!!), palavra que nem existe na língua inglesa (o correto seria "montage", ou "film editing by"); o co-produtor Rodri J. Rodriguez virou "The Rodri Group" (!!!); e os agradecimentos nos créditos finais são identificados pela cartola "Thankfulness" (!!!).


Wilson Rodrigues ainda insistiu e tentou fazer um quarto "No Mundo da Carochinha" em 1994, novamente com roteiro de Rubens Lucchetti, e dessa vez com apresentação de Mojica. Algumas cenas chegaram a ser filmadas, mas a produção foi cancelada pelas dificuldades financeiras do produtor, e porque o próprio cinema brasileiro vivia tempos muito difíceis pré-Retomada.

Ignorado na época de seu lançamento, O GATO DE BOTAS EXTRATERRESTRE logo ganhou uma sobrevida entre os admiradores de filmes trash. Afinal, não é todo dia que você Maurício Mattar como príncipe assessorado por Heitor Gaiotti com uma máscara de gato, e Tony Tornado e Zé do Caixão fazendo parte do mesmo elenco!


E eu não consegui descobrir se o filme chegou a ser lançado no exterior, mas, por mais inacreditável que isso soe, existem reproduções do pôster original do filme para vender em sites como Amazon e Moviegoods! Não consigo imaginar quem em sã consciência seria maluco o suficiente para adornar seu quarto ou sala de estar com um pôster de O GATO DE BOTAS EXTRATERRESTRE...

Mas, a julgar pela quantidade de gente talentosa/famosa que se envolveu nessa canoa furada, e à quantidade de linhas que o demente aqui escreveu sobre o filme, o que mais tem nesse mundão é gente maluca...

PS: Um dos assistentes de direção foi Custódio Gomes, que já havia lidado com "extraterrestres" antes, mas num filme com teor bem menos infantil: o pornô "Aguenta Tesão - O ETesão"!

Trailer de O GATO DE BOTAS EXTRATERRESTRE



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O Gato de Botas Extraterrestre (1990, Brasil)
Direção: Wilson Rodrigues
Elenco: Maurício Mattar, Heitor Gaiotti, Flávia Monteiro,
Felipe Levy, Carmen Silva, Tony Tornado, Joffre Soares,
José Mojica Marins e Zezé Motta.