sábado, 21 de janeiro de 2012

REBELDES DA ACADEMIA (1980)


(Esta resenha é dedicada ao Raphael Fernandes, editor responsável - ou seria irresponsável? - por publicar a revista Mad no Brasil atualmente, pela Editora Mythos)

Fazer comédia parece fácil, mas só parece. Se você não prestar muita atenção a aspectos como roteiro e timing das piadas, vai acabar com um daqueles filmes em que apenas os realizadores parecem estar se divertindo pra caramba. Tipo a maioria das "comédias" do Will Ferrel e do Jack Black, ou 99% da produção do gênero no Brasil pós-Retomada - ou alguém realmente vê alguma graça nos longas do Casseta & Planeta e na série "Se Eu Fosse Você"?

Se um dia alguém quiser escrever uma cartilha sobre o que NÃO se deve fazer na hora de produzir uma comédia, eu sugiro usar REBELDES DA ACADEMIA como exemplo prático, talvez até colocando o DVD do filme como brinde na cartilha, já que esta é uma das "comédias" menos engraçadas já feitas.

E sabe o que é mais irônico? É que ela foi produzida por uma das mais brilhantes revistas humorísticas do mundo, a Mad!!!


Tudo começou com o estrondoso sucesso da comédia "Clube dos Cafajestes" (1978), dirigida por John Landis. Nos Estados Unidos, o filme se chama "National Lampoon's Animal House", e a National Lampoon era uma outra revista de humor concorrente da Mad, bastante popular nos anos 70.

Ao contrário do que se pensa, a revista não teve grande envolvimento na produção, e o fato de seu nome aparecer no título era apenas uma jogada de marketing, algo do tipo "National Lampoon apresenta...". Vários outros filmes trariam o nome da revista no título a partir de então, como a série "Férias Frustradas", que no original era "National Lampoon's Vacation"


"Clube dos Cafajestes" custou 3 milhões de dólares e rendeu 141 milhões só nas bilheterias norte-americanas. Logo, outros estúdios resolveram produzir comédias "apadrinhadas" por revistas humorísticas para ver se o raio caía duas vezes no mesmo lugar.

Era questão de tempo para que a Mad entrasse na jogada. Fundada em 1952 e publicada ininterruptamente desde então nos Estados Unidos, a Mad era a mais bem-sucedida das revistas do gênero no país - fez bastante sucesso também no Brasil, onde chegou na década de 70, ao contrário da National Lampoon, que nunca deu as caras por aqui.


A Warner entrou em contato com Bill Gaines, editor norte-americano da revista, pedindo que "emprestasse" seu título para uma comédia nonsense, para tentar faturar em cima do sucesso de "Clube dos Cafajestes". Tinha tudo para dar certo. Mas não deu.

Escrito por dois sujeitos vindos da TV, Tom Patchett (criador do seriado "ALF, o Eteimoso") e Jay Tarses, REBELDES DA ACADEMIA conta a história de quatro garotos-problema enviados por suas famílias para a Academia Militar Sheldon R. Weinberg.


Eles são Chooch (Ralph Macchio, molecão e em sua estréia no cinema), o filho de um mafioso; Hash (Tommy Citera), um garoto árabe e cleptomaníaco; Ike (Wendell Brown), jovem negro filho de um tele-evangelista, e que está se relacionando com a madrasta, e Oliver (Hutch Parker), filho de um importante político que concorre à reeleição, e que resolve mandar o garoto para o quartel na expectativa de que ele pare de criar problemas que ameacem sua candidatura.

Na academia, o quarteto vai comer o pão que o diabo amassou nas mãos do Major Vaughn Liceman (Ron Leibman, de "Matadouro Cinco"), aquele típico comandante sádico, embora atrapalhado, que gosta de transformar a vida dos recrutas num inferno - espécie de embrião para o Comandante Harris da série "Loucademia de Polícia".


Antes de mais nada, esqueça que REBELDES DA ACADEMIA se passa numa academia militar. Diferente da já citada franquia "Loucademia de Polícia", em que a ambientação justificava as piadas com o modo de vida militar e o duro treinamento dos cadetes, aqui tanto faz o fato de a trama se passar num quartel, considerando que raríssimas vezes o roteiro se aproveita do cenário - a mesma trama poderia se passar numa faculdade de engenharia ou num campo de treinamento de terroristas do Al-Qaeda sem grandes modificações.

Acompanhe: ao invés de criar piadas sobre o rigor da rotina militar, a exemplo do que filmes como "Recrutas da Pesada" e "Loucademia de Combate" fariam alguns anos depois, REBELDES DA ACADEMIA prefere enfocar o conflito de um dos jovens (Oliver) com o Major Liceman, que inexplicavelmente se apaixona pela namorada do garoto, Candy (a gracinha Stacey Nelkin, de "Halloween 3"). Claro, numa daquelas forçadas de barra tremendas de roteiro ruim, Candy também foi enviada para uma escola militar feminina, e que fica a apenas alguns metros daquela que o namoradinho frequenta!


Só para dar uma ideia do nível geral das piadas, a academia também tem um professor gay de dança (Tom Poston) e uma professora gostosa (a Sra. Ringo Starr Barbara Bach, de "A Ilha dos Homens-Peixe") que leciona sobre armamentos usando expressões de duplo sentido que envergonhariam até a equipe de roteiristas do programa Zorra Total. Peraí: professor gay de dança e professora gostosa de armamentos numa academia militar??? Pois é...

Ah, quase esqueci de comentar que o diretor do local é o Comandante Causeway (Ian Wolfe, de "THX 1138"), um velhote que sempre solta um sonoro e fedorento peido toda vez que aparece em cena. Deu para sacar o nível das "piadas"? Nem colocando uma claque estilo Chaves alguém riria dessas coisas!


Além da dupla de roteiristas, um dos grandes culpados por esta catástrofe é o diretor Robert Downey, pai de um certo Robert Downey Jr. (o próprio Homem de Ferro). Downey Pai nunca foi um cineasta brilhante, mas em REBELDES DA ACADEMIA ele se superou: com sua mão pesada e falta de ritmo, o sujeito consegue estragar até as poucas piadas que PODERIAM ter ficado engraçadas!

Uma coisa que nem Downey Pai e nem os roteiristas Patchett e Tarses entenderam é que o humor da revista Mad era essencialmente visual e nonsense, e não tanto verbal. Infelizmente, não é o que se vê no filme, que abusa dos trocadilhos intraduzíveis (o nome "Hash", por exemplo, é uma gíria em inglês para maconha) e expressões de duplo sentido no nível do Pânico na TV.


Produções posteriores roteirizadas e dirigidas pelo trio Jim Abrahams e David e Jerry Zucker, como "Apertem os Cintos, O Piloto Sumiu", "Top Secret" e "Corra que a Polícia Vem Aí!", fazem este tipo de humor nonsense estilo revista Mad de maneira muito mais eficiente, tanto que seria mais fácil aceitar um "Mad Magazine Presents Top Secret" do que esta patuscada aqui...

Algumas raras piadas visuais em REBELDES DA ACADEMIA, só para dar uma ideia: a banda que canta num baile na academia (não pergunte...) é tão desafinada que quebra todos os vidros no recinto e até o próprio quadro do filme; as aparições do vilanesco Major Liceman são sempre precedidas de uma sonora ventania e pelos acordes de "Gimme Danger", de Iggy Pop & The Stooges; e o cachorro de Liceman também usa farda militar, num plágio descarado do cão do Sargento Tainha nos quadrinhos do Recruta Zero! Risadas amarelas ecoam pela sala de cinema ou da casa.


O Major Liceman também tem o irritante hábito de fazer os recrutas repetirem dezenas de vezes a mesma resposta gritando "Say it again! Say it again!", e isso deveria ser engraçado. Pelo menos na cabeça dos realizadores.

Talvez alguém possa considerar um ponto positivo o fato de o filme não ter medo de ser "politicamente incorreto". Há piadas bem fortes (para os padrões atuais) sobre negros, árabes e homossexuais, uma tirada envolvendo um aborto forçado e ainda a sugestão de um romance entre a professora gostosa e um dos garotos, Ike. Mas o mau gosto não salva o conjunto.


No roteiro, inclusive, a relação entre Ike e a professora era ainda mais erotizada, com direito a cenas de nudez (quando o garoto espiava a mulher tomando banho) e sexo. Mas essa subtrama foi cortada quando os produtores acharam que era pegar pesado demais!

Assim, REBELDES DA ACADEMIA é um daqueles exemplos constrangedores de comédia em que você ri mais da vergonha alheia, da falta de graça e do filme em si do que das piadas - até porque raríssimas piadas são realmente novas, chegando-se ao cúmulo de mostrar um homem travestido com roupas íntimas femininas como se fosse a coisa mais engraçada do mundo.


Enfim, o resultado é tão ruim, mas TÃO ruim, que um dos atores principais, Ron Leibman, exigiu que seu nome fosse retirado dos créditos, prevendo o fiasco que seria quando a bomba chegasse aos cinemas. Curiosamente, ele não fez a mesma coisa com o igualmente constrangedor "Rhinestone - Um Brilho na Noite", de Bob Clark!

Os próprios editores da Mad ficaram tão desencantados quando o filme estreou que publicaram um editorial na revista desculpando-se com seus leitores pelo fiasco da obra - e, diz a lenda, o editor Bill Gaines respondeu pessoalmente a cada carta enviada que reclamasse da qualidade do filme.


Além disso, Gaines pagou caro (30 mil dólares, à época) para eliminar toda e qualquer referência à revista no filme e no seu material de divulgação quando ele fosse lançado em VHS ou exibido na televisão.

Porque, originalmente, REBELDES DA ACADEMIA se chamava "Mad Magazine Presents Up the Academy", na linha de "National Lampoon's Animal House", mas acabou só "Up the Academy" no vídeo. As aparições do mascote da revista, Alfred E. Neuman (aquele garotinho sardento e banguela, que ganha vida com efeitos de maquiagem do mestre Rick Baker!), também foram retiradas da edição.

Em entrevista publicada em 1983, Bill Gaines tentou justificar a ruindade do filme. Segundo ele, a Warner enviou para a redação da revista um roteiro ruim para um filme que teria o nome "Mad apresenta" no título.


Gaines e sua equipe recusaram e o próprio time de redatores da revista escreveu um roteiro para o filme, mas dessa vez foram os produtores que não gostaram. No final, a Warner fez um remendão com ideias de um e de outro roteiro, mas sem acatar as várias sugestões feitas posteriormente pela equipe da Mad.

"Paguei 30 mil para a Warner tirar o nome da Mad das versões para o mercado doméstico, e foram 30 mil bem investidos!", declarou Gaines nesta entrevista. Demonstrando humildade, a Mad também publicou uma das suas populares sátiras de filmes com o próprio REBELDES DA ACADEMIA (veja abaixo), fazendo graça da ruindade da obra, e em apenas duas páginas (a sátira termina com uma troca de bilhetes entre os desenhistas e o editor, reclamando que o filme era péssimo demais até para ser satirizado!).


Como sempre acontece com produções tão ruins e problemáticas, REBELDES DA ACADEMIA ganhou um ar de "filme de culto", com débeis mentais promovendo sessões justamente para espinafrar a falta de graça do negócio.

Nos anos 1990, depois da morte do editor Gaines, a Warner colocou de volta todas as referências à Mad para exibições do filme na TV a cabo e no seu relançamento em DVD. O pobre Gaines deve estar se revirando no túmulo...


Agora, se há algo de bom em REBELDES DA ACADEMIA é a sua trilha sonora. Inclusive a trilha é tão boa que chega a ser ofensivo que tenha sido utilizada num filme tão ruim. Começa já com a ótima música dos créditos iniciais, "Kicking Up A Fuss", do Blow-Up (clique para ouvir), repetida até cansar ao longo do filme; tem o já citado The Stooges, mais "Night Theme" (Iggy Pop), "X Offender" e "One Way Or Another" (Blondie), "Yes Sir, No Sir" (The Kinks), "Street Hassle" (Lou Reed), "Bad Reputation" (Sammy Hagar), entre outras. Ou seja, a bagaça vale mais pela música do que por qualquer outra coisa!

Se a National Lampoon continua "apresentando" filmes até hoje (alguns tão ruins quanto REBELDES DA ACADEMIA, ou piores!), o pessoal da Mad aprendeu a lição e nunca mais emprestou seu nome para nenhuma outra presepada do gênero, embora tenham produzido o seriado televisivo "MADtv" (uma espécie de TV Pirata lá dos EUA) entre 1995 e 2009.


Para dar uma ideia de como o episódio maculou a imagem da revista, imagine um equivalente aqui no Brasil: "Chiclete com Banana Apresenta Muita Calma Nessa Hora", ou "Geraldão Apresenta Os Normais 2". Não é de cortar os pulsos?

Por tudo isso, torna-se irônica uma das imagens mais populares do mascote da Mad, Alfred Neuman, que é aquela em que ele se questiona: "Eu, me preocupar?". Bem, caro Neuman, no caso da ruindade de REBELDES DA ACADEMIA e do estrago que isso provocou na imagem da sua revista, eu me preocuparia sim. E muito!

"Say it again!"

"Say it again!"

"Say it again!!!"


PS: Um Robert Downey Jr. ainda moleque faz uma ponta como um dos garotos que joga futebol com a turma da academia lá pela metade do filme.

Trailer de REBELDES DA ACADEMIA



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Mad Magazine Presents Up the Academy (1980, EUA)
Direção: Robert Downey
Elenco: Ralph Macchio, Wendell Brown, Tommy Citera,
Hutch Parker, Ron Leibman, Barbara Bach, Ian Wolfe,
Tom Poston, Stacey Nelkin e Antonio Fargas.

12 comentários:

M disse...

Gostei muito do texto. E lembrando que depois que o Ota saiu da Mad a versão nacional ficou uma bosta. Gostaria de ver uma resenha sua sobre o filme "King frat".

Abraço

Anônimo disse...

Pior que os norte-americanos atualmente conseguem fazer alguma graça apenas em animações.

Anônimo disse...

Felipe, da onde você tira esses filmes? Que bando de aproveitadores!
Por falar na National Lampoon, quero lembrar que o rei das comédias adolescentes dos anos 80, John Hughes, começou sua carreira escrevendo pra essa revista.

Paulo Geovani Freitas Ribeiro

Francine disse...

Se esse filme conseguir ser mais sem graça que aquela porcaria nacional do "Muta calma nessa hora", será um feito digno de nota (ou não...)

Alexandre disse...

Um exemplo dentro dos que você deu nos nacionais que seria triste, porém irônico, seria Planeta Diário apresenta As Aventuras de Agamenom.

Felipe M. Guerra disse...

Boa, ALEXANDRE. Não vi uma única resenha até agora que cite algo de positivo nesse filme do "Agamenom". Inclusive parece que está batendo todos os recordes de pessoas saindo do cinema na metade do filme. E esse é o tipo de comédia que os caras produzem aqui no Brasil, é de chorar... Eu jamais ia assistir essa bomba, odeio o Casseta & Planeta televisivo, mas confesso que fiquei com curiosidade mórbida pela bagaça de tanto que estão espinafrando o negócio... hahaha.

Luciano Milhouse disse...

Felipe, apenas fazendo uma correção no seu texto: A "National Lampoon" realmente nunca saiu em edição nacional, mas isso não significa que ela "nunca tenha dado as caras por aqui; várias tirinhas da mesma saíram numa época na extinta revista "Revistão do Faustão" (lembra dessa porcaria?)!

Abraço!

Felipe M. Guerra disse...

Opa LUCIANO, eu imaginei que alguma coisa da National Lampoon até tinha saído em outras publicações, mas a revista em si, e com este nome, nunca saiu mesmo, por isso meu comentário. Abraço!

Anônimo disse...

E como a comédia nacional está mesmo uma tragédia, o que vocês acham dos filmes do Jorge Furtado? Eles são engraçados ou não passam apenas de versões extensas de especiais da globo?

Daniela Cecchin

Felipe M. Guerra disse...

DANIELA, gosto muito do "Houve Uma Vez Dois Verões", primeiro longa do Furtado, e que provavelmente é a melhor comédia adolescente já feita no Brasil. Também gosto de "O Homem que Copiava". Já os outros vão do fraco ao ruim, principalmente "Saneamento Básico" - uma ótima ideia jogada no lixo.

Anônimo disse...

oi felipe me chamo rafael ja faz um tempo q acompanho teu trabalho e te dou parabens por me fazer recordar de filmes que marcaramminha infancia, desculpa o abuso mas sabes me dizer se conheces alguem que tenha para vender dvds antigos como o keruak, o erterminador I e II e o a espada e os barbaros, se puderes ajudar um grande fã como eu te agradecerei com um churrasco bem gauderio valeu

Anônimo disse...

parei na parte 'uma das comédias mais sem graça'... ta.