sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

TRANCERS - O EXTERMINADOR DO SÉCULO 23 (1985)


(Eu tinha essa resenha pronta desde 2008, e estava esperando por uma oportunidade para publicá-la no site Boca do Inferno. Na época, ainda não havia criado o FILMES PARA DOIDOS. Hoje acho que a resenha se encaixa muito mais aqui do que no site. E vai especialmente para o leitor Daniel, que pediu uma análise do filme em comentários passados.)

Ele se chama Deth, Jack Deth, e é um policial durão do século 23. Nesse futuro distante, policiais são chamados de "troopers" e a Califórnia foi devastada por um imenso terremoto ocorrido em 2065, ficando parcialmente submersa. Deth vive em "Lost Angeles", que é o que restou de Los Angeles, e um de seus hobbys é mergulhar nas ruínas da cidade para recuperar artefatos como a placa de trânsito indicando a antiga Sunset Boulevard. Apesar de viver no século 23, ele é um policial à moda antiga, que lembra os detetives dos contos policiais de Raymond Chandler, ou dos filmes noir da década de 1950. Não por acaso, anda sempre com um sobretudo quase arrastando no chão, fuma muito e adora fazer a velha e boa narração em off - quase como um primo pobre de outro detetive futurista, o Richard Deckard interpretado por Harrison Ford "Blade Runner - O Caçador de Andróides".


Sim, amiguinhos, Jack Deth é um personagem tão "cool" quanto o Ash interpretado por Bruce Campbell na série "Evil Dead", ou o Snake Plissken de Kurt Russell nos filmes "Fuga de Nova York" e "Fuga de Los Angeles".

Mas infelizmente, para a maior parte da civilização, o nome "Jack Deth" não significa nada. O que é uma pena, pois o filme em que o personagem fez sua estréia no mundo da cultura pop, TRANCERS, é um clássico e divertidíssimo filme B, daqueles que conseguem ser criativos e originais mesmo chupando ideias de uma infinidade de outras produções.


No Brasil, o filme foi exibido nos cinemas e na TV com um título bizarro, "O Exterminador do Século 23", que será ignorado a partir de agora. E se por aqui a obra é praticamente desconhecida, lá fora tornou-se um verdadeiro sucesso underground - até astros como Sylvester Stallone viram e falaram maravilhas na época - e deu origem a uma franquia atualmente no sexto episódio!

TRANCERS foi produzido e dirigido por Charles Band em 1985. Caso você ainda não tenha ligado o nome à pessoa, Band era o cabeça das extintas produtoras Empire Pictures e Full Moon, e através delas realizou inventivos filmes com orçamento quase zero, mas muita criatividade - entre eles, clássicos como "Reanimator" e "Bonecos da Morte". Quando Empire e Full Moon foram à falência - em parte devido à quantidade enorme de filmes lançados, cada vez mais baratos e ruins -, Band criou a Shadow Entertainment, com a qual atualmente produz obras com uma merreca de orçamento, direto para o mercado de DVD.


Em TRANCERS, encontramos características habituais do trabalho de Band, como o orçamento baixíssimo (400 mil dólares!) e a produção apressada (foi filmado em apenas uma semana). Isso se reflete em efeitos baratos e tempo de duração reduzido (o filme tem apenas 74 minutos).

Entretanto, o diretor-produtor sai-se muito bem ao contornar a falta de recursos com muita criatividade, tendo em mãos um roteiro divertido e cheio de boas ideias assinado por dois jovens, Danny Bilson e Paul DeMeo. A dupla mistura referências alopradas, colocando na mesma trama futuro e presente, viagens no tempo, zumbis, traquitanas estilo James Bond e um policial durão e engraçadinho. E sabe o que é mais curioso? A mistura funciona perfeitamente!


A história começa no século 23, quando nosso herói Jack Deth (interpretado de maneira brilhante por um ranzinza Tim Thomerson) apresenta-se ao espectador na típica narração em off de detetive noir.

Deth explica que é um policial do futuro envolvido numa longa caçada a um supervilão fanático chamado Martin Whistler (Michael Stefani). Whistler, que todos imaginam estar morto, criou uma legião de asseclas chamados "Trancers", que, nas palavras do herói, são um cruzamento entre mutantes e zumbis.


(O curioso é que o espectador jamais fica sabendo o que, exatamente, são os Trancers. Neste primeiro filme, não passam de pessoas de mente fraca subjugadas pelos poderes psíquicos de Whistler; embora tenham a aparência de seres humanos normais, os Trancers são uma espécie de zumbis/demônios/mutantes disfarçados de humanos, que, quando mostram a verdadeira face, ficam com a pele amarelada e o rosto deformado, e se desintegram automaticamente quando mortos. Nas sequências, entretanto, a origem dos Trancers foi sendo frequentemente alterada conforme a vontade do freguês: na Parte 3, por exemplo, ficamos sabendo que eles surgiram de uma experiência militar realizada em 2005; já nas Partes 4 e 5, eles são apresentados como vampiros mutantes!)

Continuando sua narração em off, Deth conta que sua esposa foi morta na luta contra os Trancers, e por isso ele iniciou uma cruzada para exterminar todos os remanescentes da seita de Whistler. Sua primeira parada é em uma cafeteria, onde o herói desconfia que um caminhoneiro bebendo café é um Trancer disfarçado; na verdade, é a velha garçonete negra quem se revela, atacando Deth até ser morta com disparos de sua estilosa arma laser.


Cansado de ser quase morto pelos vilões a todo momento, o policial resolve desistir da caçada e entrega o distintivo (tem clichê maior?) ao seu superior, o xarope tenente McNulty (o engraçado Art La Fleur, que praticamente repetiria o papel no posterior "Stallone Cobra").

Porém, após um mergulho nas ruínas de "Lost Angeles", Deth é procurado por McNulty, que lhe encarrega de uma missão especial: perseguir e prender seu arquiinimigo Whistler, que, ao contrário do que se imaginava, está bem vivo e tem um plano maquiavélico para eliminar o Conselho que governa a Califórnia.


Só que a luta entre Deth e Whistler não será no século 23, mas sim no "passado", no caso, 1985, no século 20 (que era o "presente" na época de produção do filme, vale lembrar). Isso porque, de uma forma nunca totalmente explicada pelo roteiro, Whistler viajou de volta para 1985 e, num plano à la "O Exterminador do Futuro", começou a matar os antepassados dos membros do Conselho. Eram três originalmente, mas um deles já foi desintegrado graças à bagunça que o vilão fez no passado.

Com medo de também desaparecerem da história, os dois governantes que ainda restaram resolvem enviar Jack Deth de volta ao passado para proteger seus antepassados e, ao mesmo tempo, aprisionar o vilão.


O detalhe mais interessante do roteiro é que o pessoal do século 23 pode enviar objetos mecânicos para o passado, mas não tecido vivo. Assim, para voltar no tempo, Whistler e Deth utilizam uma droga que envia a consciência de ambos do futuro ao passado, onde elas irão habitar o corpo de um antepassado que viveu naquele período.

Dessa forma, os corpos futuristas de herói e vilão permanecem no futuro, numa espécie de coma, enquanto suas mentes são transferidas para novos corpos no ano de 1985! Não é uma doideira?


Sim, é. Porém também abre a brecha para discutirmos três furos grosseiros de roteiro:

1-) Se as viagens no tempo têm o poder de alterar o futuro, como é que as pessoas do futuro ainda têm consciência das coisas, considerando que o passado foi alterado? No caso, ao matar o antepassado de um dos membros do Conselho, Whistler faz com que o sujeito seja apagado da história. Mas, se o futuro foi reescrito a partir do crime (cometido três séculos antes), ninguém no novo futuro alternativo deveria se lembrar que assassinado existia e foi desintegrado, já que, na prática, ele nunca existiu. Confuso? Mas não é - e a trilogia "De Volta para o Futuro" abordou melhor estas mudanças passado-presente-futuro.


2-) Por que Whistler viajou dois séculos para o passado ao invés de voltar, tipo, apenas uns 50 ou 100 anos? Imagine a quantidade de alterações na história que o vilão deve ter provocado ao eliminar pessoas com dois séculos de diferença!

3-) Se qualquer pessoa poderia voltar no tempo ocupando o corpo de seus antepassados, por que é que os próprios membros do Conselho não retornaram nos corpos de seus antepassados para poderem fugir e se esconder de Whistler, ou mesmo procurar o vilão para matá-lo, eliminando a necessidade de Jack Deth voltar ao passado e ter todo o trabalho de procurar os tais antepassados dos membros do Conselho, que ele sequer conhecia ou sabia onde moravam?


OK, teorias de viagem no tempo à parte, sempre é bom lembrar de que estamos falando de um filme B produzido e dirigido por Charles Band, então não podemos esperar muita lógica!Prosseguindo...

Como o pessoal do século 23 precisa retornar ao passado "invadindo" o corpo de algum antepassado sanguíneo, Deth volta no tempo e assume o corpo de um jornalista mulherengo chamado Phil (interpretado pelo mesmo Tim Thomerson). Whistler, por sua vez, tem mais sorte: seu antepassado dos anos 80, chamado Weisling, é um respeitado chefe de polícia, o que lhe permite agir com toda a tranquilidade a aprontar o que bem entender.


Esse tipo curioso de viagem no tempo torna a missão do herói ainda mais complicada: ele não pode simplesmente matar Whistler no passado com um tiro, pois não estaria matando o vilão, e sim o inocente Weisling, um cara honesto, que tem esposa e filhos. Por isso, a missão de Deth é injetar no corpo atual de Whistler uma droga que fará a consciência do vilão voltar ao futuro, onde poderá ser julgado e aprisionado. Mas é claro que não será fácil. Até porque Whistler já criou uma legião de Trancers nos anos 80!

E como pepino pouco é bobagem, Deth ainda encarna no seu antepassado Phil na manhã seguinte a uma noite de sexo do cara com uma gatinha chamada Lena (interpretada por Helen Hunt, antes da fama e antes do Oscar de Melhor Atriz por "Melhor é Impossível"). Perdido numa época que não conhece e numa cidade que não conhece (lembre-se: Los Angeles está submersa no futuro em que Deth vive), o herói precisa convencer Lena a ajudá-lo.


E durante sua aventura, entre duelos com os vilões, tiroteios e perseguições em motocicletas, Deth ainda tem a chance de usar um fantástico brinquedinho do futuro: o "relógio de congelar segundos", que dá ao herói o poder de congelar o tempo durante 10 segundos - um artifício simplesmente genial utilizado duas vezes ao longo do filme, com direito a efeito que parece uma versão pré-histórica do "bullet time" de "Matrix"!

TRANCERS é um filme curto e grosso: se o tempo reduzido de duração deixa aquela gostinho de "quero mais", pois não há um número suficiente de situações perigosas entre Deth e Whistler, por outro lado o desenvolvimento é sempre a mil por hora - o filme nunca perde o pique ou fica chato.



Eu só lamento que o roteiro não tenha explorado mais as dificuldades de adaptação do futurístico e brutamontes Jack Deth na Los Angeles dos anos 80, o que certamente renderia boas piadas (ao pedir ajuda para Lena, o herói chega a confidenciar: "Eu sou de outro tempo e outro mundo, nem sei o que vocês comem no almoço!").

Um dos raros momentos em que o filme apresenta a dificuldade de adaptação do herói é engraçadíssimo: Lena leva Jack a um inferninho repleto de punks, onde a banda está detonando uma versão pauleira de "Jingle Bells". Apavorado com a música, com os cabelos espetados e com os figurinos do pessoal do lugar, o herói resmunga: "Parece que estou cercado de Trancers!".


Outro momento impagável é aquele em que Jack assiste na TV a um episódio do seriado "Petter Gunn" (uma produção dos anos 50 sobre policiais e gângsters. Encasquetado, Deth reclama: "Mas que espécie de nome é 'Peter Gunn'?". Lena responde: "E que espécie de nome é 'Jack Deth'?". (Não que alguém chamada "Helen Hunt" possa falar muito...)

Para uma produção de 400 mil dólares, chama a atenção também o número de nomes conhecidos envolvidos na produção: a edição é de Ted Nicolaou, que no ano seguinte se tornaria um cineasta habitual da Empire/Full Moon, realizando filmes como "A Visão do Terror" e a franquia "Subspecies", e um dos produtores executivos é Peter Manoogian, outro que se transformaria em cineasta dentro da própria Full Moon, para quem assinou "Brinquedos Diabólicos". Já os efeitos especiais são assinados por John Carl Buechler, colaborador habitual da Empire/Full Moon, mas que é popularmente reconhecido como diretor de "Sexta-feira 13 Parte 7".


Mas o nome mais conhecido está creditado com um singelo "assistente do departamento de arte": trata-se de Frank Darabont, hoje um nome conhecido em Hollywood, onde dirigiu filmes como "O Nevoeiro" e "Um Sonho de Liberdade"!

Se TRANCERS virou cult, certamente não foi por acaso. Entre os grandes acertos estão a caracterização de Tim Thomerson como Jack Deth (no grande papel da sua carreira; sem ele, o filme perderia metade da graça), o roteiro inspiradíssimo da dupla DeMeo/Bilson (que, também em parceria, escreveriam o ótimo "Rocketeer" alguns anos depois) e a trilha original de Phil Davies e Mark Ryder, que conseguiram uma daquelas raras músicas-temas que fazem você lembrar na hora do filme para a qual ela foi composta.


E com o sucesso do original, não demorou para Band tentar faturar em cima. Durante uma década, a série "Trancers" foi a sua galinha dos ovos de ouro: ele produziu cinco continuações entre 1991 e 2002, progressivamente piores e mais baratas, e até alguns gibis com adaptações dos filmes para os quadrinhos. Inclusive acho que só não há mais porque os orçamentos ficaram tão baixos que Band não conseguia nem pagar mais o cachê de Tim Thomerson ("Trancers 6", de 2002, já não tem mais o astro no elenco!).

O próprio Band fez uma auto-crítica em entrevista recente, alegando que só gosta dos dois primeiros (que ele dirigiu): "Fizemos 'Trancers' demais, e o que era bom nos primeiros nós não conseguimos mais recapturar". Na mesma entrevista, ele lembrou que só se envolveu com TRANCERS porque um dos roteiristas, Danny Bilson, havia trabalhado como assistente de cameraman em "Ghoulies" (outra produção de Band) e lhe entregou uma cópia do roteiro.


Como é comum no Brasil, algumas dessas sequências saíram em vídeo com títulos diferentes, gerando grande confusão. Se o original, que nunca chegou às nossas locadoras, tinha o nome de "O Exterminador do Século 23", o segundo filme saiu como "O Tira do Futuro", o terceiro como "Trancers 3 - A Luta pela Sobrevivência" (e imagine o pobre sujeito locando essa fita e procurando inutilmente pelos dois outros "Trancers" nas prateleiras da locadora!), e o quarto como "Fome de Sangue"!!!

Recentemente, descobriu-se que havia uma continuação direta e não-oficial de TRANCERS, produzida em formato de curta-metragem em 1987: novamente com direção de Band e roteiro da dupla DeMeo/Bilson, esse curta tem Tim Thomerson, Helen Hunt e Art LaFleur, e era uma das atrações de uma coletânea chamada "Pulse Pounders". Com a falência da Empire Pictures, a tal coletânea nunca foi oficialmente lançada, e hoje é considerada perdida. Uma pena, pois "Pulse Pounders" incluía outros dois curtas que muita gente daria um braço para ver: "Dungeonmaster 2" e "The Evil Clergyman", uma adaptação de H.P. Lovecraft de Dennis Paoli ("Reanimator") estrelada por Jeffrey Combs, Barbara Crampton e David Warner!!!


É curioso constatar que hoje, com mais tecnologia e recursos à disposição, é muito difícil topar com um filme barato tão divertido e original quanto TRANCERS, em que as boas ideias ficam acima dos efeitos especiais e do orçamento milionário.

Eu inclusive sugiro uma sessão tripla com as três primeiras aventuras da série, as únicas que valem a pena, e que são um belo testamento do legado das extintas Empire/Full Moon ao universo das produções baratas.

As duas empresas também produziriam outras franquias mais populares, como "Puppet Master" e "Subspecies", antes de falir, mas TRANCERS continua mantendo um charme todo especial e nunca mais igualado - embora Band tenha tentado produzir "pseudo-Trancers" posteriores, como "Dollman", também com Tim Thomerson.

Trailer de TRANCERS



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Trancers (1985, EUA)
Direção: Charles Band
Elenco: Tim Thomerson, Helen Hunt, Michael
Stefani, Art LaFleur, Telma Hopkins, Richard Herd,
Anne Seymour e Biff Manard.

21 comentários:

Anônimo disse...

Você vai publicar resenhas do outros filmes Trancers?

Felipe M. Guerra disse...

Pretendo. Mas aos poucos, para não ficar chato.

Anônimo disse...

E quanto aos outros filmes que escrevi pedindo resenhas. Será que rola?

Viana disse...

Ah Felipe,com certeza não ficaria chato!
E aproveitando a ideia de "voltar a consciência ao passado", e o ensejo da adaptação em quadrinhos,se me lembro bem,é assim que a Kitty Pride 'vai' ao passado em X-Men:Dias de um futuro esquecido.

Fernando disse...

Esse ator Jeffrey Combs, que tu citaste na resenha, não é um que aparece também no filme "Os Espíritos", do Peter Jackson?

Daniel disse...

Excelente resenha, Felipe. Há tempos queria ver algo sobre Trancers na internet brasileira. Vou dar minha pequena contribuição.

Antes de tudo quero dizer que sou um grande fã do filme Trancers, assisti o filme pela primeira na Bandeirantes por volta de 1991/92(foi exibido com o título “O Tira do Futuro” no Força Total) quando eu tinha uns 13/14 anos e virei fã do Jack Deth.

Na época achei o filme o máximo, porém, olhando agora vejo que Trancers – apesar de ser um filme bacana – tem uma série de defeitos. Em outras palavras, vendo hoje o filme não acho metade da graça que achei naquela época e percebo que a alma do filme é Tim Thomerson e seu Jack Deth. O personagem e a forma como o ator o interpreta é melhor que o próprio filme. Jack Deth é a personificação do "cool".

Sua resenha está ótima, mas há duas informações equivocadas:

“Deth vive em "Lost Angeles", que é o que restou de Los Angeles”

“Lost Angeles” é o nome das ruínas submersas de Los Angeles. A cidade onde Jack Deth vive chama-se “City of Angels”, que pelo que tudo indica é uma nova Los Angeles construída as margens da Los Angeles afundada.

“Cansado de ser quase morto pelos vilões a todo momento, o policial resolve desistir da caçada e entrega o distintivo (tem clichê maior?) ao seu superior”

É o contrário, Jack Deth está obcecado em matar os Trancers e o chefe dele o obriga a entregar o distintivo, naqueles clichês policiais de “vc está passando por cima de tudo e de todos com essa sua caçada pessoal, Harry Callahan, digo, Jack Deth!”. Jack Deth entrega a arma e o distintivo a contragosto, óbvio.

Sobre os Trancers: realmente o filme não explica o que são os trancers, a narração em off se limita a dizer “não estão totalmente vivos , nem totalmente mortos”(já assisti o filme zilhões de vezes que decorei as falas) e muito menos explica a origem dos “poderes psíquicos” de Martin Whistler. Whistler é um mutante a moda x-men? Um alienígena talvez? Um cientista que descobriu um soro que deu a ele poderes de controlar a mente dos outros?

Daniel disse...

Enfim, não explicar o que é um Trancer está longe de ser um defeito, pelo contrário, é a melhor virtude do filme. Vou chamar isso de “efeito Hitchcock”.

Explico: no filme “Os Pássaros” do Alfred Hitchcock nunca é explicado porque os pássaros enlouquecem e atacam as pessoas. Nos extras do DVD é dito que chegou a se cogitar dar uma explicação para o comportamento dos pássaros, mas que Hitchcock rejeitou a idéia porque o impacto do enredo está justamente no fato de que o filme não oferece uma explicação.

Outro filme famoso que usa o “efeito Hitchcock” é “Highlander”. O filme não explica porque os imortais são imortais, nem quem criou o “prêmio” (seria Deus?) pelo qual os imortais devem lutar.

Isso é positivo porque atiça a curiosidade do espectador, fazendo ele criar suas próprias teorias do porque os pássaros atacam, porque os imortais são imortais ou o que seriam os trancers(obs: é muito estranho citar Hitchcock, Highlander e Trancers num mesmo texto)

Em suma, o espectador é convidado a participar ativamente do filme.

Porém, assim como aconteceu com o Highlander II(que os produtores resolveram “explicar” a origem dos imortais) em Trancers II cometeram o mesmo erro (os trancers seriam vitimas de uma lavagem cerebral que combina uso de drogas e hipnose). Como o Felipe disse no terceiro e quarto filme mudaram de novo a explicação, tornando o conceito de o que é um trancer muito confuso.

Daniel disse...

A verdade é que Charles Band não dá a menor importância para continuidade. Isso pode ser confirmado em outras franquias dele, como “Dollman VS Brinquedos Diabólicos” e a série “puppetmaster”, que possuem várias contradições entre um filme e outro.

Vou dar um exemplo de contradição na série Trancers: no primeiro filme, como explicado pelo Felipe, a forma de humanos viajarem no tempo é ocupando o corpo de um ancestral, o que dá a entender que é possível enviar apenas objetos inanimados (armas, relógios, etc) para o passado. Seria um “terminator” às avessas – para quem não lembra no filme apenas seres vivos podem ser transportados para o passado.

Mas Trancers II contradiz isso, no segundo filme os superiores de Jack Deth no século 23 – que agora ocupa o corpo de seu antepassado Phil em 1990– querem trazê-lo de volta para o futuro no corpo de Phil ( a desculpa é que o corpo do Jack do futuro “apodreceu”). Epa! Epa! Mas se eles podiam fazer seres vivos viajar pelo tempo porque não fizeram isso no primeiro filme? Alguém pode objetar e dizer que entre o primeiro e segundo filme (5 anos) os cientistas do futuro desenvolveram uma tecnologia que permita transportar seres vivos no tempo. Só que Trancers 6 contradiz essa hipótese, já que nesse filme Jack Deth (na verdade imagens de arquivo dos filmes anteriores) viaja para os dias de hoje transportando sua consciência para corpo de sua filha com Leena.

Há outras séries de incoerência, mas por aí vocês podem a bagunça que é a franquia Trancers.

Daniel disse...

Mas voltando ao primeiro Trancers tem outro furo no roteiro além dos três citados pelo Felipe.

(SPOILERS!)

Jack Deth tem duas ampolas com soro de viagem no tempo: uma para enviar Whistler de volta para o futuro, outra para ele voltar. Só que no meio de uma briga uma das ampolas quebra. E Jack fica num pseudo-dilema: ou mata Whistler e volta para o futuro, ou usa a ampola em Whistler e fica preso no passado. Como Jack não pode matar um inocente ele escolha a segunda opção.

Disse que era um pseudo-dilema porque não há razão nenhuma para Jack Deth ficar preso no passado. Era apenas uma questão do pessoal no futuro enviar uma outra ampola para ele(ao longo do filme enviam para Jack armas e relógios, deixando bem claro que enviar objetos para o passado não é problema).

(FIM DO SPOILERS)

Enfim, Trancers é aquele tipo de filme que seria melhor se tivessem parado no primeiro. As continuações são de doer. O melhorzinho é o terceiro, mas mais pelas cenas de ação e o robô “Shark” do que pelo roteiro (inexistente).

Podem me apedrejar, mas apesar de Blade Runner ser infinitamente superior a Trancers , acho o Jack Deth de Tim Thomerson um personagem muito mais interessante que o insosso Rick Deckard do Harrison Ford. Em outras palavras, Jack Deth é o personagem que Rick Deckard deveria ter sido, mas não foi. Já imaginaram Blade Runner com Jack Deth/Tim Thomerson?

Para finalizar, pois acabei me estendendo e escrevendo uma resenha dentro da resenha do Felipe(risos), Tim Thomerson faz uma ponta como Jack Deth no Filme “Evil Bong” de 2006 do Charles Band.

Há também um roteiro para um trancers 7 com Tim Thomerson de volta. O roteiro foi escrito por um tal de Sean Wallace, fã da série, há inclusive uma petição online pedindo para Charles Band fazer o filme. Eis o link:

http://www.petitiononline.com/written/petition.html

Daniel disse...

Agora que eu vi que o Felipe pretende escrever resenhas sobre os outros filmes da série.

Na empolgação de falar sobre Trancers escrevi meu comentário sem ler os outros e revelei detalhes dos outros filmes da série, ops!(risos)

Tbm não acho que ficaria chato o Felipe escrever uma resenha atrás de outras dos filmes da série Trancers. Na verdade ficaria até melhor se fossem publicados na sequência para quem deseja discutir/comparar os filmes.

Robson disse...

Mais uma vez, muito legal a resenha, faltou mais de suas costumeiras piadas com as situaçõesrs trancers é meu filme preferido do Tim Thomerson e um dos preferidos do Charles Band(empata com Arena e Robotjox). Curiosamente eu vi o segundo filme nos anos 90 no sbt e então me apaixonei e fui ver o segundo apenas anos depois na record! mas eu curto só o primeiro e o segundo, do terceiro pra frente a coisa já perde a graça, incluindo o 4 e 5 q são versões pobretonas e pálidas do Army of Darkness rsrsrsr

Pintopix disse...

Nossa, esse filme joga no lixo a originalidade do conceito de Assassin's Creed!

Agora, furo mesmo é que talvez não fosse mais simples caçar Whistler na Lost Angeles em que ele estaria em coma, ao invés de ter que caçá-lo no passado? Porque não ficou claro pra mim, afinal, beleza Deth injeta o soro pra fazer a consciência do vilão voltar ao futuro, mas mesmo assim, depois disso, eles não teriam que descobrir o paradeiro do sujeito para prendê-lo?

Anônimo disse...

Felipe, tens alguma informação sobre este filme: http://www.imdb.com/title/tt2093965/

Daniel disse...

Pintopix, no filme a polícia já tem o corpo de Whistler sob custódia no futuro, mas a consciência dele está no passado.

Bruno disse...

Lembro de ter assistido esse filme na Record, numa tarde de domingo. Achei muito bom, realmente!

Rodrigo 1176 disse...

Felipe,acredite se quiser,mas em 1987 aos onze anos, assisti junto com meu pai a este filme no extinto cine art palácio na av.são joão em sampa; até hoje me lembro do relógio congelador de tempo.Valeu !

laurindo big boss disse...

Laurindo Big Boss: Felipe, realmente não sabia que este filmne, já esta na sua quinta parte(só me lembro ate a parte 3), porem é muito divertido, e quem diria Helen Hunt, do filme NAUFRÁGO,com Tom Hanks, do hilário VOLUNTÁRIOS DA FUZARCA, esta ai também).Para variar, ótima resenha...Abraço Laurindo Junior.

laurindo big boss disse...

Laurindo Big Boss: Felipe, só por curiosidade, o ator Richard Herd, não trabalhou na série de TV CARRO COMANDO, com William Shatner(Capitão Kirk). Laurindo Big Boss

FrankCastle disse...

Excelente resenha! Ando atrás deste e de outros filmes antigos para baixar, quem quiser trocar indicações ou links, me adicione no Filmow: FrankCastle


"TRANCERS é um filme curto e grosso: se o tempo reduzido de duração deixa aquela gostinho de "quero mais", pois não há um número suficiente de situações perigosas entre Deth e Whistler, por outro lado o desenvolvimento é sempre a mil por hora - o filme nunca perde o pique ou fica chato. " - > Concordo plenamente! Odeio esses filmes blockbusters de hoje em dia que ficam enrolando 2 horas, 2 horas e meia, são um saco!

Realmente, o carisma de Jack Deth é o ponto alto do filme. Ele consegue fazer algo parecido, mas menos galhofa, que Jack Burton (Kurt Russel) faz em Aventureiros do Bairro Proibido.

Daniel I. Dutra disse...

Felipe, alguma previsão para a resenha dos demais filmes da série Trancers?

Acabei de rever a parte 4 e 5. Vi há mais de uma década no SBT. Não lembrava nada.

As partes 4&5, que na verdade são um filme só dividido em dois a moda Kill Bill(Band foi um visionário?), são mais sem pé nem cabeça que os filmes anteriores.

Vale mais pela performance de Thomerson e umas tiradas boas, na parte 4 há uma piada com o relógio que para o tempo que é muito boa.

Leonardo Peixoto disse...

Foi pesquisando sobre Trancers que descobri seu blog maravilhoso ! Desde então sempre que posso , procuro algum dos filmes resenhados para assistir ! Obrigado por me mostrar uma terra desconhecida do cinema !