sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

TRON - UMA ODISSÉIA ELETRÔNICA (1982)


Vi o trailer de "Tron Legacy" no cinema esses dias e fiquei duplamente surpreso: primeiro pela idéia maluca de lançar uma sequência quase 30 anos depois do original; segundo porque eu não lembrava de absolutamente nada sobre TRON - UMA ODISSÉIA ELETRÔNICA (o primeiro filme, lançado em 1982), além do fato de ser estrelado por Jeff Bridges e de se passar quase que interamente em um universo virtual.

Assim, foi com um pouco de nostalgia e um muito de curiosidade que revi TRON como ele deveria ser visto pela primeira vez: não naquelas fitas VHS com qualidade de imagem e som sofrível, e imagem cortada dos lados em tela cheia, mas em DVD, com imagem e som cristalinos, e em widescreeen. Isso tudo pareceu deixar o filme melhor do que eu me recordava das velhas reprises na Sessão da Tarde.


E como eu não lembrava de praticamente nada além de um ou outro detalhezinho (como as "motos eletrônicas" disparando velozes pelas grades de circuitos, algo que deverá ficar lindo no novo filme), foi até surpreendente constatar como TRON ainda funciona direitinho, talvez até melhor agora do que na época do seu lançamento.

Afinal, em 1982, quando foi lançado, o computador ainda era um bicho de sete cabeças para a maior parte das pessoas "normais". O conceito de computador pessoal, para você ter e trabalhar em casa, estava começando a surgir, e pouquíssimos possuíam o equipamento em seus lares, como hoje. (Lembro que eu, particularmente, só fui ver um computador de perto, e mexer nele, por volta de 1994!)


A própria programação das máquinas exigia muito conhecimento, pois não existia um ambiente gráfico como o Windows, onde os programas podiam ser acessados através de clicks em ícones coloridos.

Na época, as operações ainda precisavam ser digitadas na máquina através de longas e complicadas linhas de comando, como devem lembrar os idosos como eu, que aprenderam a mexer no DOS ou a programar joguinhos em Basic (onde se digitava um milhão de linhas de comandos para criar um simples jogo-da-velha, e mesmo assim aquilo parecia o máximo!).


Portanto, o público "comum" do começo dos anos 80 deve ter visto TRON como uma história de ficção científica, já que termos como "programa" e "usuário" estavam começando a aparecer. Isso o transforma num filme visionário, ainda mais pela maneira criativa como a direção de arte imaginou o universo digital que existiria dentro de um computador.

A trama tem como protagonista um "adultescente" chamado Flynn (Jeff Bridges), brilhante programador de jogos de computador que trabalhava para uma poderosa multinacional chamada Encom, até ter seus projetos roubados por um inescrupuloso executivo chamado Ed Dillinger (David Warner). Enquanto o plagiador virou o poderoso da empresa, Flynn foi demitido e passou a administrar um pequeno fliperama.


Porém, nos bastidores, o herói age como hacker, tentando invadir os computadores da Encom para encontrar provas de que Dillinger roubou suas ideias, e assim desmascará-lo e recuperar seu antigo emprego.

Só que Dillinger também é o responsável por um super-programa de computador que acabou criando consciência, o Master Control Program, ou MCP - uma espécie de avô do Skynet da série "Terminator" e das máquinas inteligentes da trilogia "Matrix", e quem sabe um parente próximo do HAL-9000 de "2001".


Ao mesmo tempo em que pensa em dominar o "mundo real", fazendo contatos com a Rússia e com a China (lembre-se que estamos em tempos de Guerra Fria), o MCP também é tirano no ambiente digital, onde escraviza programas de computador, forçando-os a lutar até a morte em videogames.

Quando Flynn invade a sede da Encom e tem acesso a um terminal interno, o Programa Mestre resolve livrar-se dele, "digitalizando-o", com a ajuda de um equipamento ainda em fase de testes, e aprisionando-o dentro do universo digital, onde ele também se tornará um escravo nos jogos de videogame.


O que a máquina não sabe é que Flynn é um craque em jogos eletrônicos, e ele logo consegue escapar do ambiente dos games para tentar iniciar uma revolução digital e destruir o MCP "por dentro". Para isso, conta com a ajuda de um programa de segurança chamado Tron (Bruce Boxleitner).

Não é exagero dizer que TRON foi o "Avatar" da sua geração. A maior parte da trama se passa em cenários gerados por computador, que continuam bonitos e convincentes até hoje, e que também ganharam, agora, um certo charme retrô (o menu animado do DVD do filme é mais "avançado" que o filme inteiro, para dar uma ideia!).


Por mais que o filme tenha alguns defeitos bem básicos - como os personagens sem profundidade e a falta de cenas de ação convincentes -, percebe-se o capricho de todos os envolvidos para criar um universo com regras, paisagens e criaturas próprias, não muito diferente do que James Cameron fez com "Avatar".

As próprias críticas da época destacam mais o lado tecnológico e os efeitos visuais (diferentes de tudo que foi visto até então), falando pouquíssimo sobre a trama ou sobre o desempenho dos atores.


Mais ou menos como aconteceu há pouco com "Avatar", críticos como Roger Ebert disseram, sobre TRON, que os atores realmente pareciam estar vivendo dentro daquele mundo fictício, e não simplesmente cercados por efeitos de computador.

Finalmente, TRON também divide com "Avatar" a trama do sujeito que vai parar num mundo completamente diferente do seu e precisa conhecer seus habitantes e costumes para sobreviver e combater a "tirania" dos vilões.


A isso, soma-se um curioso elemento religioso que posteriormente seria reutilizado em "Matrix": os programas aprisionados no universo digital veneram seus usuários do mundo real como se eles fossem deuses (afinal, são os usuários que decidem o destino dos programas através de suas ações digitadas no computador). Já o MCP e seus asseclas negam qualquer possibilidade de existência dos "usuários" para tentar manter os programas sob controle.

Tron e sua turma acreditam que somente um dos usuários (uma espécie de Messias) poderá libertá-los dos vilões, algo que acontece quando alguém do mundo exterior (Flynn) finalmente chega ao mundo digital, mais ou menos como Neo na "Matrix".


Méritos também para a idéia de seres conscientes (os "programas" aprisionados pelo MCP) sendo usados em jogos de videogame, sentindo dor e morrendo enquanto os humanos se divertem nos fliperamas. Muita gente deve ter começado a jogar videogame com outros olhos.

(E esse conceito seria reaproveitado muitos anos depois em um estranho filme francês chamado "Nirvana", com Christopher Lambert.)

Porém o mais impressionante de TRON é o pioneirismo no uso de imagens geradas por computador, numa época em que isso ainda era coisa de ficção científica.


Vendo o documentário que acompanha o DVD importado, é impossível não ficar de queixo caído com o trabalhão que os caras tiveram para fazer esse filme.

Só para dar uma idéia, todas as cenas dentro do universo digital foram filmadas em preto-e-branco e depois coloridas manualmente, através de retoques fotográficos (quadro a quadro!) e de efeitos de rotoscopia, para inserção dos cenários digitais.


TRON foi, provavelmente, um dos primeiros filmes em que os atores "interpretaram com o nada", olhando para um pontinho que depois viria a ser um personagem digital na pós-produção - algo que o próprio Jeff Bridges comenta no mesmo documentário, dizendo que eles não tinham a menor idéia de como o filme se pareceria depois da inserção dos efeitos em CGI.

Assim fica até fácil perdoar defeitos como a precariedade das cenas de ação. No final, por exemplo, Tron precisa jogar um disco eletrônico com informações (tipo um frisbee) no núcleo do MCP para desativá-lo.

Podia render uma cena tensa no mesmo estilo da destruição da Estrela da Morte no final de "Star Wars" (lançado apenas cinco anos antes), mas ficou uma coisa bem rápida e brochante, provavelmente pela falta de experiência dos realizadores em "dirigir" uma cena que depois seria montada quase inteiramente com efeitos digitais.


A verdade é que quase não há ação/tensão em TRON, simplesmente porque todas as cenas no universo digital precisaram ser filmadas com câmera fixa (para permitir a inserção das trucagens fotográficas/digitais depois; lembre-se que ninguém tinha muita idéia do que estava fazendo lá em 1982!).

Mesmo assim, há um momento brilhante que eu adoraria ver em 3-D (o que deve acontecer agora, com "Tron Legacy"): a corrida das motos eletrônicas. Os veículos disparam velozes deixando rastros sólidos no grid, mais ou menos como aquele joguinho de celular da cobra que precisa desviar do próprio rabo. O objetivo é "fechar" o adversário para fazer com que ele bata no rastro da sua moto. Só essa cena já vale o filme inteiro, e pode ser vista (ou revista) na janelinha abaixo:

Motocross do futuro



Como todo filme à frente do seu tempo, TRON tornou-se "cult movie" depois, principalmente graças aos nerds e viciados em computador, mas foi um fracasso de bilheteria quando lançado.

Para dar uma idéia, o filme custou 17 milhões de dólares, e faturou "apenas" 33 milhões nos cinemas norte-americanos, bem aquém do que os produtores esperavam.

(É bom esclarecer que TRON foi um filme caríssimo para a sua época, tendo custado o mesmo que "Os Caçadores da Arca Perdida", lançado no ano anterior, só que o filme de Spielberg teve bilheteria de 245 milhões de dólares lá nos EUA!)


Ainda no documentário sobre o filme, um executivo dos Estúdios Disney (que produziu TRON) confessa que ninguém entendeu direito o projeto quando deram sinal verde para sua realização, mas que era uma forma de afastar a imagem de "velha e ultrapassada" que a Disney tinha na época.

E, mesmo que o filme ficasse ruim, os produtores já ganhariam uma grana federal só com os direitos sobre as máquinas de fliperama baseadas nele - o que de fato acabou acontecendo.

Que bom que, hoje, a tecnologia do DVD (e do blu-ray) permite rever TRON - UMA ODISSÉIA ELETRÔNICA com outros olhos. No caso, olhos já acostumados à tecnologia, que entendem melhor os termos técnicos usados pelos personagens e também suas ações no mundo digital. Quem diria, aquilo que era ficção científica no começo dos anos 80 hoje é tão comum que até seu sobrinho de 10 anos sabe mais sobre informática do que você!


Independente disso, TRON ainda é um filme bem interessante e divertido, no qual envolveram-se alguns dos grandes talentos daquela época (música de Wendy Carlos, arte conceitual de Moebius), e também iniciantes que revelariam seu talento anos depois (Tim Burton foi um dos anônimos animadores que deram vida ao mundo digital).

Agora é esperar para ver o que virá com "Tron Legacy". Acho difícil que o filme consiga ser tão revolucionário e inovador quanto o original foi na sua época, ainda mais nestes tempos em que é tão difícil algo realmente novo ser produzido. Pelo menos os efeitos digitais devem ter sido bem facinhos de fazer, em comparação com o trabalho braçal dos realizadores lá em 1982...


Mas se a continuação dificilmente deixará de ser algo apenas divertido para a atual geração de frequentadores de "multiplexes", o original, por outro lado, definitivamente já pode ser considerado profético.

Não só pela sua visão de um mundo digital onde usuários interagem e trocam informações (bem parecido com a atual internet), mas também pela frase de um dos personagens no mundo "humano" do filme: "Computadores e programas vão começar a pensar enquanto as pessoas vão parar de fazê-lo".

E não é que foi isso mesmo que aconteceu?


PS 1: Como vários "pioneiros", o diretor Steven Lisberger nunca mais fez nada como TRON. Na verdade, dirigiu apenas outros dois filmes, bem mais simples, e sumiu do mapa, parecido com o que aconteceu a outros dois "visionários" da união cinema-computação gráfica, Brett Leonard ("O Passageiro do Futuro", 1992) e Kerry Conran ("Capitão Sky e o Mundo do Amanhã", 2004).

PS 2: Num universo digital predominantemente masculino, vale destacar a presença das curvas maravilhosas da loirinha Cindy Morgan, a única menina do filme. Poucos devem lembrar, mas a gata mostrou seus "atributos peitorais", por assim dizer, na comédia "Clube dos Pilantras", dois anos antes.

PS 3: O IMDB informa que Michael Dudikoff, o "American Ninja" em pessoa, é um dos figurantes do filme, mas não consegui ver ninguém nem ao menos parecido com ele. Terá ficado no chão da sala de edição?

Trailer de TRON - UMA ODISSÉIA ELETRÔNICA



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Tron - Uma Odisséia Eletrônica
(Tron, 1982, EUA)

Direção: Steven Lisberger
Elenco: Jeff Bridges, Bruce Boxleitner, David
Warner, Cindy Morgan, Barnard Hughes, Dan
Shor e Peter Jurasik.

18 comentários:

Anônimo disse...

Assisti no cinema e hoje possuo um DVD do filme ... na época, o destaque do filme foi o fato de ter uns 45 minutos de imagens geradas por computador ... algo impesado nos jurássicos anos 80 ... o filme, logicamente, "envelheceu", tal como outros pioneiros da ficção científica (os computadores originais do Star Trek que o digam) ... embora tenha sido um racasso nas bilheterias, o filme é legal, sim ...

Fernando disse...

Esse é um dos melhores blogues sobre crítica de cinema que existe na web. Gostei do texto, sem firulas pseudo-intelectuais e indo direto ao fato, colocando esse clássico da ficção científica no seu devido lugar.

Vagno Fernandes disse...

Fla Guerra, faz um tempo que não comento aqui, mas to sempre dando uma espiada, hehe.

Que critica fantastica. Esse filme foi lançado na mesma época do E.T.,não foi?. Todo mundo só olhava pro filme do Spilberg.

Leandro Caraça disse...

E a Academia não quis indicar o filme pelos efeitos especiais porque eram gerados em computador e isso era visto como trapaça. Como o mundo dá voltas. /// Eu gosto das cenas de ação de "Tron". /// Infelizmente, Brett Leonard fez mais filmes depois do fraco "O Passageiro do Futuro". Só eu não gosto dessa merda ? Antes havia feito o simpático "The Pit", e com seus 15 minutos de fama conseguidos com "O Passageiro do Futuro", Brett fez as bombas "O Esconderijo" e "Assassino Virtual". Recentemente soltou "O Homem-Coisa" e "Highlander: A Origem". De fato, esse é um dos VISIONÁRIOS que ajudaram a construir o moderno cinema de ficção e fantasia que temos hoje.

Felipe M. Guerra disse...

CARAÇA, gosto bastante do "Passageiro do Futuro", mesmo reconhecendo as limitações mais do que óbvias do filme (guilty pleasure?). Também gosto do outro filme do Leonard que você citou, na verdade "The Deadly Pit" (no Brasil, "Abismo Infernal"). E apesar do cara praticamente só ter feito bosta na vida, acho que ele tem pelo menos um filmaço no currículo: o suspense FEED, sobre um serial killer que mata mulheres gordas fazendo com que comam até a morte.

Leandro Caraça disse...

É dele o "Feed" ? Não assisti mas houvi falar horrores. Sempre achei "O Passageiro do Futuro" muito chato. Eu gosto é do "Abismo Infernal", esse sim um guilty pleasure.

Leandro Caraça disse...

"ouvi" e não "houvi". Escrever correndo dá nisso.

Bruno C. disse...

Guilty pleasure meu é o "Assassino Virtual"

E o "Feed" não achei grande coisa. Tenho o DVD, na época comprei por 5 reais nas lojas do ramo.

Lu K disse...

Gosto muito de "O Passageiro do Futuro" eu tinha em Vhs e na capa dizia faz os efeitos de Tron parecerem rascunho mal feitos. Hoje tenho ele em dvd em Widescreen, gosto muito do ritmo do filme, tem um bom clima e é bem dirigido e montado.

Matheus Ferraz disse...

O Passageiro do Futuro é esquisito, pro bem e pro mal. Curto muito as cenas no mundo virtual, mas outras como aquela em que a cabeçona virtual do Jeff Fahey aparece no mundo real ficaram bem idiotas. Bem que o Felipe poderia postar sobre este filme num futuro próximo.

Takeo Maruyama disse...

Lembram também da série Auto-man? Primitivo visto hoje, mas eu adorava quando o carro dele dava aquelas curvas de 90º, em efeitos parecidos com essas das motos.

Fernando disse...

Eu me lembro da série Auto-man sim. A globo transmitia ela nos primórdios dos anos 80.

Iesus disse...

Fazendo um comentário de comentário: Feed é um filme pra ser visto. Pesado, mas nem tanto. O fato de ser forte é a questão de abordar algo real, e já no início fazer uma analogia àquele caso em que um homem foi literalmente comido por outro, mas não sem antes fritar o genital para um tira-gosto. Acaba por não ser um filme genial, mas obrigatório para o fãs de extremos ou aqueles que querem ver algo diferente e interessante. Só não ver antes do almoço. Tive o prazer de ver em uma pseudo-aula de língua estrangeira com um professor esquisito.

sitedecinema@sitedecinema.com.br disse...

Quem tbm ér creditado como ator/ponta no filme é um dos meus heróis de infância, Jackson Bostwick, o astro da telessérie CAPITÃO MARVEL dos anos 70 (aquela q divida espaço com A PODEROSA ÍSIS). Reconheço q , nas duas vezes em q vi TRON, não o ´achei´.

Marcelo disse...

O filme é super visionário... a mesa em que o diretor da empresa usa lembra muito bem a mesa da microsoft, a surface, coisa que só agora em meados de 2005 pra cá que surgiu...

Marco Antonio disse...

Eu adoro o David Warner como ator. Uma das pessoas que fez parte da equipe de montagem de um filme de episódios em que ele aparece, NECRONOMICON, disse para mim que ele, pelo menos na época desse filme, era muito chegado ´numa manguaça´ (bebum) e que o diretor tinha muita dificuldade de dirigí-lo no set.

Anderson "ANDF" Ferreira disse...

Tron continua legal e interessante, pra mim. Melhor que o 2º. A última vez que o assisti na TV aberta, foi em 2009, na ULBRA TV. Não faço ideia se a SESSÃO DA TARDE o reprisou de uns tempos pra cá, já que até passou NAMORADA DE ALUGUEL, SPLASH e não sei mais o quê. Duvido muito.

Leonardo Peixoto disse...

Tron - Uma Odisseia Eletrônica foi dublado em português ? Quando passa no TCM , está sempre legendado .