quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

MEMÓRIAS DE UM HOMEM INVISÍVEL (1992)


Hoje, amiguinhos, o FILMES PARA DOIDOS tem uma missão difícil: tentar redimir o maior fracasso comercial da carreira do mestre John Carpenter, e provavelmente o seu filme mais criticado.

Estamos falando de MEMÓRIAS DE UM HOMEM INVISÍVEL, comédia que o criador de "Halloween" e "Fuga de Nova York" filmou em 1992. Não é exagero dizer que esse é um dos filmes mais odiados de um cineasta cuja filmografia é quase irretocável, com raras obras fracas e muitos títulos memoráveis.


Mas Carpenter nunca teve sorte quando trabalhou com grandes estúdios e grandes orçamentos. Parece até maldição: "O Enigma do Outro Mundo" (1982) mal recuperou, nas bilheterias, a grana que custou, enquanto "Os Aventureiros do Bairro Proibido" (1986) foi um fiasco tão grande nos cinemas que fez o diretor voltar às produções independentes jurando nunca mais comandar um blockbuster.

"O Príncipe das Sombras" e "Eles Vivem" (respectivamente de 1987 e 88) foram produções menores, mais baratas e mais bem-sucedidas. Mas aí, quatro anos depois, a Warner sacudiu um maço de verdinhas diante de Carpenter e o diretor resolveu sair do exílio para dirigir sua produção mais cara até então.

A gênese de MEMÓRIAS DE UM HOMEM INVISÍVEL não foi simples. Esse talvez seja o projeto mais impessoal de Carpenter (que, por isso, não colocou seu tradicional "John Carpenter's" sobre o título). Quem mandou e desmandou na produção, além da Warner, foi o astro do filme, Chevy Chase.


Chevy é um rosto que ficou marcado em comédias dos anos 80, principalmente a franquia "Férias Frustradas". A exemplo de outros colegas do humor da época (especialmente Bill Murray), ele estava ficando velho e queria dar um novo rumo, mais sério, à sua carreira.

Em 1986, o ator comprou os direitos sobre o livro "Memoirs of an Invisible Man", de H.F. Saint, uma bem-humorada variação do tema, sobre um corretor da bolsa que fica invisível após um acidente de laboratório e precisa fugir da CIA, que pretende usá-lo como arma de guerra.

A primeira versão do roteiro foi escrita pelo veterano William Goldman e oferecida a diretores como Ivan Reitman, mas nenhum estúdio tinha interesse em bancar o projeto porque achavam que o público não queria ver Chevy Chase num papel mais sério.


Finalmente, em 1990, o material acabou nas mãos de Carpenter e ele aceitou a missão, mas exigiu mudanças para que o filme virasse mais uma fantasia de humor negro. Robert Collector e Dana Olsen reescreveram totalmente aquele primeiro roteiro de William Goldman.

Em MEMÓRIAS DE UM HOMEM INVISÍVEL, Chevy interpreta Nick Halloway, um corretor que, durante uma ressaca infernal, vai participar de um seminário num grande laboratório e acaba adormecendo no banheiro.

Só que uma experiência dá errado e metade do edifício, inclusive o pobre Halloway, ficam invisíveis. A imagem do prédio com vários pedaços faltando é uma das grandes cenas do filme.


Quando nosso herói acorda e descobre o que lhe aconteceu, sua primeira providência é procurar ajuda. Só que as intenções do agente da CIA David Jenkins (Sam Neill, ótimo) não são das melhores.

Sem nenhuma intenção de tornar-se rato de laboratório, Halloway foge - apenas para descobrir que a vida de homem-invisível não é nada divertida, e muito solitária. Principalmente quando ele lembra que tem encontro marcado com uma documentarista gatíssima (interpretada por Daryl Hannah) e não pode aparecer - literalmente!


A idéia de Carpenter (com as bênçãos de Chevy, na sua tentativa de ser "mais sério") era dar mais destaque ao drama da solidão provocada pela invisibilidade e menos às palhaçadas cometidas pelo homem-invisível, embora ainda existam umas cenas bem divertidas.

Mas o resultado dividiu o público e a crítica: o filme não é tão engraçado quanto esperavam os fãs de Chevy Chase, e nem tem tanta ação e suspense quanto queriam os fãs de John Carpenter. Por causa disso, a produção de 40 milhões de dólares foi um fiasco de bilheteria, mal arrecadando 14 milhões.


Se quiser ter uma ideia do quanto MEMÓRIAS DE UM HOMEM INVISÍVEL é odiado, tente procurar por alguma crítica positiva na internet. Eu mesmo não tinha boas recordações do filme, e lembrava dele apenas como uma comédia estúpida e pouco inspirada.

Foi revendo-o agora que mudei meu conceito. Mesmo muito distante dos grandes filmes de Carpenter, MEMÓRIAS DE UM HOMEM INVISÍVEL tem ótimas qualidades e efeitos especiais que continuam funcionando mesmo depois do seu "primo milionário", "O Homem Sem Sombra", de Paul Verhoeven - outra história contemporânea sobre invisibilidade, mas cujo roteiro eu acho bem pior do que o do filme do Carpenter.


Para quem conhece bem a obra do diretor, essa comédia-aventura-suspense não parecerá um trabalho tão impessoal assim. Afinal, ainda que o filme eventualmente se renda ao humor, o que se vê é um perfeito exemplo do gênero fantástico, com ótima utilização de criativos efeitos e trucagens para "dar vida" à invisibilidade do protagonista.

Acontece que o acidente no laboratório não deixa apenas o protagonista invisível, mas também suas roupas (eliminando o trabalho de ter que andar pelado para desaparecer). Porém, coisas que "entram" no corpo invisível do protagonista, como comida, água ou a fumaça de um cigarro, tornam o interior do seu organismo visível, o que rende cenas muito interessantes - principalmente o vômito visto "por dentro" ou a fumaça do cigarro moldando os pulmões de Nick.


Ao mesmo tempo, Carpenter narra uma história de suspense - a caçada dos agentes ao protagonista -, que lembra vários dos seus filmes anteriores em que um personagem solitário precisa enfrentar a caçada sem tréguas dos representantes do governo (de "Starman" a "Eles Vivem").

Uma das grandes críticas a MEMÓRIAS DE UM HOMEM INVISÍVEL ironiza o fato de Chevy Chase continuar aparecendo durante boa parte do filme, mesmo quando deveria estar invisível, forçando o espectador a "imaginá-lo" invisível.

Por mais que isso realmente possa parecer uma grande falha, a maioria das cenas em que o astro continua "aparecendo" justifica-se plenamente. E não só pelo fato de que não adiantaria nada ter um ator famoso para usar apenas a sua voz na maior parte do filme.


Acontece que diversas cenas só fazem sentido quando VEMOS o homem-invisível (novamente, por mais que isso pareça idiota). Por exemplo, a cena em que Halloway usa suas mãos para abrir e fechar a boca de um homem desacordado (para poder "dublá-lo" durante uma corrida de táxi) perderia totalmente a graça e a função de existir caso não víssemos Chevy Chase fazendo isso com o pobre sujeito, IMAGINANDO que ele está invisível embora possamos vê-lo.

O mesmo vale para o momento, perto do final, em que Halloway tira e segura seu casaco (sujo de cimento, e, portanto, "visível") para enganar seu perseguidor. A cena não teria o mesmo impacto caso não VÍSSEMOS o homem-invisível (sim, isso soa estúpido).


E quer saber? Essa reclamação também não tem muito fundamento, porque em boa parte de MEMÓRIAS DE UM HOMEM INVISÍVEL o protagonista realmente não aparece, num festival de efeitos especiais ainda surpreendentes envolvendo roupas que andam "sem corpo".

Segundo disse Carpenter numa entrevista posterior, foi a tecnologia desenvolvida para o seu filme que originou os efeitos fantásticos de várias produções que vieram depois, como apagar as pernas de Gary Sinise em "Forrest Gump".


Há ainda um belíssimo momento em que a amada de Halloway resolve devolver um rosto ao protagonista com o uso de maquiagem - e, por alguns momentos, tudo o que vemos é um "rosto flutuante" e inexpressivo.

Boa parte do filme enfoca justamente essa insólita relação amorosa entre a personagem de Daryl Hannah e um homem que ela não consegue ver (a não ser durante uma chuva, em outro momento muito bonito).

E também a dura vida de homem-invisível, que pode espionar os outros sem ninguém saber (o que é divertido), mas ao mesmo tempo pode descobrir o que seus amigos realmente pensam dele ou acompanhar uma broxante cena de sexo (o que definitivamente NÃO é).


Alguns críticos mais "sérios" poderão enxergar o filme como uma metáfora sobre como o indivíduo se torna "invisível" numa sociedade moderna altamente competitiva, já que o pobre Nick Halloway não era notado por ninguém ANTES de ficar invisível, justamente por levar uma vida insignificante. Mas eu não chegaria tão longe: para mim, pessoalmente, a obra funciona mais como aventura descompromissada do que qualquer outra coisa.

Infelizmente, Carpenter também tem a história de suspense (envolvendo a perseguição de Halloway) para contar, e é essa parte que tira um pouco do brilho da história. Acredito que MEMÓRIAS DE UM HOMEM INVISÍVEL ficaria bem melhor caso se concentrasse mais nas dificuldades do protagonista para viver invisível, já que ele não pode nem comer porque seria descoberto - já que a comida em seu estômago continua visível!


Mas, no fim, o resultado dessa mistura não é nada desprezível, muito menos tão horroroso quanto eu lembrava. O próprio Carpenter declarou exatamente isso, que o filme não é tão ruim quanto ele achava que era, porém foi um fracasso mesmo assim.

O fiasco comercial quase enterrou a carreira do diretor e do astro: Chevy nunca mais conseguiu bons papéis e acabou preso à série "Férias Frustradas" (seu último filme memorável - ainda que ruim - é "Férias Frustradas em Las Vegas", de 1997). Já Carpenter voltou a ser "independente" e ficou três anos remoendo o fracasso até voltar com o superior "À Beira da Loucura".


Ainda que tenha defeitos óbvios (principalmente a falta de atenção com personagens secundários, como o "melhor amigo" de Nick), MEMÓRIAS DE UM HOMEM INVISÍVEL é um filme que eu recomendo para revisão - principalmente por quem também viu na época do lançamento e não tem boas lembranças.

O tempo e o amadurecimento às vezes fazem justiça a algumas produções, e eu diria que essa simpática "comédia fantástica" de John Carpenter é um desses casos. E, bem, muito melhor que o remake "A Cidade dos Amaldiçoados", esse sim um indiscutível ponto fraco da carreira do diretor!

PS: Duas piadas internas. Primeiro, a cidade onde fica o laboratório chama-se Santa Mira, a mesma cidade (fictícia) de "Vampiros de Almas" e "Halloween 3" (esse último produzido por John Carpenter). E a personagem de Daryl Hannah supostamente voltou do Brasil, sendo que a própria atriz estava filmando no Brasil no ano anterior a MEMÓRIAS DE UM HOMEM INVISÍVEL (o filme era "Brincando nos Campos do Senhor", de Hector Babenco).

Trailer de MEMÓRIAS DE UM HOMEM INVISÍVEL



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Memórias de um Homem Invisível
(Memoirs of an Invisible Man, 1992, EUA)

Direção: John Carpenter
Elenco: Chevy Chase, Daryl Hannah, Sam Neill,
Michael McKean, Stephen Tobolowsky, Jim Norton,
Pat Skipper e Patricia Heaton.

16 comentários:

Vitor disse...

Assisti esse filme há muitos anos atrás na globo.Não lembro muito bem dele, lembro que na época eu adorei.

Valter Noronha disse...

Até onde me lembro é um dos piores filmes que já vi! Achei uma porcaria mesmo! Lixo puro! Mas, quem sabe revendo-o eu não mude de opinião?

Iesus disse...

Cara, na minha vida tediosa, saber que o "Memórias de um Homem Invisível" é odiado é uma (infeliz) surpresa. Nunca imaginei isso. O filme é bom demais. Só porque em um primeiro momento parece que Carpenter mudou de estilo neste filme (mas como bem lembrado por Warphilipe, há inúmeros detalhes "autorais")não é motivo para pregoá-lo como uma bosta. Não sei quem iria tentar fazer uma "crítica séria" pra 'meter o pau' no filme. Porr.a, é com Cehvy Chase e Carpenter, dois artistas do caralho que nem precisam se ater a coisas secundárias como semântica, coesão no enredo ou mesmo sei lá, qualquer outra coisa "cinema novista". O pessoal tem que relaxar mais e abrir o coração: duvido que alguém resista àquela cena do suposto "bebado vomitando", sendo dublado por chase e fazendo o cara de fantoche labial. Ponto positivíssimo na carreira de Carpenter, que deve ter se dado mal pela mente fechada dos fanáticos só por fantasia ou pelos idiotas que querem cinema camera-parada-cura-insonia do Ruy Guerra. Se querem filme ruim do Carpenter é só ver "the fog". De resto, com seus devidos filmes bons e excelentes, é só prazer: são aqueles filmes que você não olha no relógio pra ver quanto já passou e relembra uma das funções do cinema (e que muita gente tenta esconder): divertir.

Amósis Calazans disse...

Aê, Felipe! Só um comentário: o Chevy Chase está, atualmente, na série Community, que anda fazendo bastante sucesso entre as séries de comédia nos EUA.

Felipe M. Guerra disse...

Pois é, ouvi falar que o Chevy estava fazendo TV. Aliás, nos anos 90, ele tentou emplacar um talk-show estilo David Letterman que também não vingou e foi considerado uma das coisas mais sem-graça da televisão norte-americana. Tem uma entrevista dele com o Robert DeNiro (!!!) no YouTube para quem quiser conferir a extensão da tragédia.

Mas do cinema o coitado está afastado há mais de uma década, fazendo meras participações especiais. Uma das últimas foi naquela suposta comédia chamada "A Ressaca": uma ponta tão estúpida e pouco engraçada quanto o próprio filme. Pobre Chevy, o cara que foi Fletch, Ty Webb e Clark Griswald merecia coisa melhor...

Renan disse...

Para mim, o filme está mais para a comédia do que para outra coisa. Nunca achei que fosse um filme ruim, e com certeza, é bem mais coeso e aborda muito melhor o argumento do homem que se torna invisível do que o filme do Verhoeven, que parece mais um slasher meio frustrado.

Leandro Caraça disse...

Só não é o pior do Carpenter, porque ele fez aquele "Body Bags". Ainda assim é cem vezes melhor do que as merdas do Will Smith e do Michael Bay.

Lu disse...

AH eu adoro esse filme,assim como os aventureiros do bairro proibido,pode ser tosco mas é um clássico sessão da tarde.E fugindo do assunto porque vc não faz uma critica sobre martyrs Felipe,consegui finalmente assistir e queria muito ler uma resenha ou critica sua.bjx

Matheus Ferraz disse...

Eu gosto de Body Bags, gosto de A Vila dos Amaldiçoados e gosto de Memórias de um Homem Invisível. Vi o filme do Chase há um tempão, e sempre achei bem legal esse lance de podermos ver o homem invisível de vez em quando.

Amósis Calazans disse...

Quanto ao filme do post, lembro que quando criança odiava esse filme com todas as forças, mas depois do post, tô pensando em dar outra chance a ele.

E se puder, dá uma chance pra alguns episódios de Community. Chevy Chase está hilário lá no papel de velho completamente demente (e sem noção) que quer ser jovem. XD

pseudo-autor disse...

Foi uma das poucas coisas que o Chevy Chase fez na carreira que chamou minha atenção!

Cultura na web:
http://culturaexmachina.blogspot.com

arl disse...

eu gostei do filme quando vi na minha infancia...
quero avisar pro pessoal que tenho um blog sobre hq e filmes quem quiser dar uma olhada...disponibilizei alguns links de filmes piratas do zagor lá

http://editoralorentz.blogspot.com

Leandro disse...

Aproveitando o espaço eu gostaria de passar uma sugestão para você, Felipe, de escrever uma crítica de um desenho...mas não um desenho qualquer!

É uma bagaceira italiana feita em 2001 chamada Titanic - O Desenho (Titanic - La Leggenda Continua.../Titanic - The Animated Movie) dirigida por acredite: CAMILLO TETI...só lembrando que ele é o responsável como produtor de Killer Crocodile 1 e 2 e pela direção de Cobra Mission 2...

Essa picaretagem feita com a tragédia tem furos no roteiro, omissão e desvirtuamento dos fatos reais, base chupinhada na cara dura do filme do James Cameron, final feliz: ninguém no navio inteiro morre (!!!!!!!)...e acredite: no navio tem até ratos mexicanos e um cachorro rapper usando roupas ''estilosas'' (!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!)

Ganhou fama pela internet como o pior animação já produzida hehehehe.

Jamais pensei que até pra animação eles seriam tão picaretas.

Abraços Felipe.

Leandro disse...

Eu esqueci de citar, tem uma outra animação italiana, esta de 1999 chamada A Lenda Do Titanic (La Leggenda Del Titanic/The Legend Of The Titanic), mais obscura e nunca tive o ''prazer'' de ver inteira, somente alguns trechos no Youtube...sobra até para um polvo gigante o responsável pela tragédia (!!!!!!!!!!!!!!!!)kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk...uma crítica dobradinha dessas duas pérolas seria melhor ainda rsrsrs abraços.

Otavio disse...

Olá meu caro Felipe! Sou fã de cinema, e navegando pela net encontrei o seu blog e achei simplesmente sensacional! Suas críticas são hilárias, parabéns! Quando ao filme "Momérios de um Homem Invisível, me recordo de ter assistido há muitos anos atrás, e me lembro q detestei... Mas, tendo em vista que a "missão" é redimir o filme, então lá vai: John Carpenter, na minha opinião, é um dos melhores diretores do gênero suspense/terror de todos os tempos, melhor até que o Wes Craven. O seu "Halloween" foi o principal responsável pelo retorno dos filmes de terror, e as suas adaptação de "Christine" e "The Thing", são clássicos absolutos. Logo, o cara ta mais do que perdoado! Abraço a todos.

Festival Curtíssimos disse...

Adoro Chevy Chase e fico feliz de pelo menos ele estar de uma boa série de comédia - Community - O episódio de Halloween desaa segunda temporada foi muito bom. Já sobre o filme gostaria de rever, só lembro de alguns momentos quando passava na sessão da tarde.