segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A MORTE PASSOU POR PERTO (1955)


Com um filmografia repleta de maravilhas da sétima arte, Stanley Kubrick nunca precisou provar nada para ninguém: é um dos grandes gênios do cinema, e ponto final.

Entretanto, mais do que suas obras consagradas, tipo "Laranja Mecânica" e "2001 - Uma Odisséia no Espaço", sempre é bom conhecer os primeiros trabalhos do diretor, aqueles sobre os quais os "cinéfilos de carteirinha" pouco ou nada escrevem, porque são produções classe B mais simples, e eles acham que poderiam "macular" a carreira do diretor.

Eu já enxergo sob outro ponto de vista: nesses primeiros filmes, como A MORTE PASSOU POR PERTO, já é possível ver um gênio do cinema se formando.


Kubrick tinha apenas 27 anos quando dirigiu, escreveu, produziu, editou e fotografou (!!!) essa história da gângsters bem parecida com outros filmes B da época, mas diferente justamente pelas inovações estéticas e narrativas.

E é só parar para pensar no que VOCÊ estava fazendo com 27 anos para chegar à conclusão de que o jovem Kubrick já era fera, e dominava, mais do que alguns veteranos da área, aspectos primordiais da realização cinematográfica, como a iluminação e a composição de cada quadro.

Com apenas 67 minutos e um orçamento miserável de 40 mil dólares, A MORTE PASSOU POR PERTO é, oficialmente, o segundo longa-metragem do diretor, que nunca gostou muito do seu trabalho anterior, "Fear and Desire", de 1953, e nunca permitiu seu relançamento.


Rodado em belíssimo preto-e-branco, o filme começa com seu protagonista, Davey Gordon (interpretado por Jamie Smith), esperando ansiosamente por alguém numa estação de trem. A partir de então, enquanto Davey caminha nervoso de um lado para o outro, conta sua triste história, que é mostrada em flashback.

O rapaz é um boxeador decadente que saiu do interior para tentar a sorte na cidade grande, mas tem acumulado sucessivas derrotas nos ringues. Mora num edifício decadente, onde sua única companhia é um aquário com peixinhos (bem irônico para um boxeador brutamontes). E, através da janela, ele observa a bela moradora do prédio ao lado, a "femme fatale" Gloria Price (Irene Kane).


Pela mesma janela, Davey certo dia acompanha a agressão da moça pelo seu "namorado", um gângster muito mais velho que ela chamado Vincent Rapallo (Frank Silveira, que já havia aparecido em "Fear and Desire").

É óbvio que o boxeador de bom coração resolve proteger Gloria, e a loira de olhar frio demonstra-se perdidamente apaixonada por ele, embora se conheçam a apenas algumas horas. Resolvem, então, fugir juntos para longe de Rapallo e seus capangas, e ir morar na fazenda onde vivem os tios de Davey.

Só que o gângster deve um último pagamento a Gloria (ela trabalhava como dançarina no salão de baile de Rapallo), e a cobrança da conta começa a complicar a história, com direito a inocentes assassinados, tiros, seqüestro e até uma morte a machadadas!


A MORTE PASSOU POR PERTO é o último filme que Kubrick dirigiu a partir de uma idéia e história de sua autoria (roteirizada por Howard Sackler). Em seguida, por um motivo nunca justificado pelo próprio Kubrick, todos os seus filmes posteriores foram adaptações literárias, de "O Grande Golpe" (1956) ao derradeiro "De Olhos Bem Fechados" (1999).

Embora a trama realmente não traga grandes novidades ou reviravoltas, é a forma como Kubrick narra a aventura de Davy e Gloria que torna o filme tão atraente. A história é toda contada em flashback pelo protagonista, com direito ainda a um "flashback dentro do flashback", quando Gloria conta a trágica história de sua irmã bailarina. Na conclusão, a narrativa finalmente retorna ao "tempo presente", quando o espectador assiste ao desfecho da espera de Davey na estação de trem.


A história, porém, é o menos interessante de A MORTE PASSOU POR PERTO. Apenas um ano depois de "Janela Indiscreta" (o clássico de Hitchcock foi lançado em 1954), Kubrick novamente narra uma trama sobre problemas que surgem quando o protagonista fica bisbilhotando a janela alheia.

E é o espiar de Davey pela janela que rende alguns dos momentos mais incríveis do filme, como aquele em que o boxeador está em frente ao espelho e a janela de Gloria está refletida nele, permitindo que o espectador veja tanto o protagonista quanto os acontecimentos no outro prédio. Um toque de gênio, puro e simples.


Além disso, há uma seqüência brilhante de montagem paralela, quando takes de Davey se preparando para entrar no ringue são intercalados com takes de Gloria se preparando para uma noite de dança no salão de Rapallo - como se ambos, Davey e Gloria, estivessem prestes a encarar uma luta.

E falando nela, a luta de boxe filmada pelo jovem Kubrick encontra paralelo nas cenas dos posteriores "Rocky, Um Lutador" e "Touro Indomável" (que também é em preto-e-branco), com um detalhe inovador: em determinado momento, a câmera de Kubrick transforma o espectador no rival de Davey (vemos apenas suas mãos socando o protagonista, como se fosse a visão em primeira pessoa do outro lutador), e logo depois no próprio Davey (quando a câmera cai, indo a nocaute).


Já está sem fôlego? Pois eu nem comecei a falar da fotografia belíssima, onde minúsculos pontos de luz criam sombras enormes e ameaçadoras, tornam os cenários assustadoramente escuros e realçam a sensação de perigo iminente (como o diretor faria posteriormente também em "O Grande Golpe").

O final, então, é uma obra-prima: eu poderia imitar esses críticos de cinema xaropes e ficar aqui matraqueando dezenas de metáforas para o que representa a violenta luta entre Davey e Rapallo num depósito de manequins, mas prefiro analisar a cena simplesmente pelo que ela é: uma cena belíssima, em que herói e vilão lutam ferozmente entre sinistros bonecos ou pedaços deles. Certamente, um resultado muito mais impressionante do que se o confronto fosse filmado em qualquer outro cenário.


E mesmo que o roteiro de A MORTE PASSOU POR PERTO não tenha nada de muito espetacular, é incrível a forma como Kubrick humaniza seus personagens. É o caso de Davey, o boxeador fracassado, que, na contramão de 99% dos heróis de Hollywood, realmente teme pela sua vida e procura ficar longe de encrenca.

Já Gloria é mostrada como a típica "femme fatale" dos filmes noir daquela época, e o espectador, como o protagonista, nunca sabe se pode confiar nela (estará a loira apenas usando Davey para se livrar do gângster, ou realmente gosta dele?).


Para completar, temos o gângster Rapallo mostrado como uma figura frágil e com sentimentos, ao contrário da forma como os vilões eram apresentados na maioria das produções da época. A cena em que ele leva um fora de Gloria é ótima, pois todo mundo espera por uma explosão de violência do implacável gângster, mas o sujeito acaba sofrendo um inesperado baque, comprovando que realmente era apaixonado pela moça.

Os próprios capangas anônimos de Rapallo, apresentados como figuras ameaçadoras quando vão espancar um desafeto até a morte (em outra belíssima cena filmada num beco escuro), depois se revelam pessoas "normais", que, como nós, não conseguem fazer malabarismos impossíveis e inclusive torcem o pé ao pular de uma altura um pouquinho maior.


Por detalhes interessantes como esse, e pela belíssima fotografia, A MORTE PASSOU POR PERTO é um filme que precisa ser conhecido não só pelos fãs puxa-saco do Kubrick, mas por todo amante de bom cinema, mesmo aqueles que costumam fugir de filmes antigos com a típica desculpa do "Não gosto de filme velho".

Pois o ritmo e a narrativa dessa obra de 1955 não ficam nada a dever a muito filme moderno (só lhe falta, talvez, a violência das produções atuais), e inclusive ele dá um banho em muito suposto veterano da atualidade.

E é lembrar que Kubrick tinha 27 anos quando fez praticamente tudo nesse filme para respeitar ainda mais o ótimo resultado final.

A luta de boxe de A MORTE PASSOU POR PERTO


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Killer's Kiss (1955, EUA)
Direção: Stanley Kubrick
Elenco: Jamie Smith, Irene Kane,
Frank Silveira, Jerry Jarrett, Mike
Dana e Felice Orlandi.

9 comentários:

Allan Verissimo disse...

Boa resenha, Felipe. Assim que eu puder, irei ver esse filme.

Mas 2001 não foi uma idéia e história original criada pelo proprio Kubrick?

Caio disse...

Surpreendeu demais quando vi, não esperava isso de um primeiro trabalho, mesmo de um gênio (gosto mais desse do que a maioria das pessoas). E narrativamente o filme é perfeito.

Luciana disse...

Olá tudo bem contigo?
Também sou cinéfila e tenho um blog só sobre filmes amo a sétima arte e gostei muito do teu blog espero que sejamos amigos.
Vou ler com calma as tuas postagens que pelo pouco que li são ótimas.
Abraços

Luciana disse...

Oi Felipe li sobre o filme O exterminador do Futuro ainda não consegui assistir só vi um pouco on line, mas pelo pouco que eu assisti achei ele muito fraco perto dos dois primeiros que foram os que eu mais gostei, tu escreve muito bem adorei mesmo teu blog.
Abraços

Felipe M. Guerra disse...

ALLAN - Você ficou maluco? hehehehe. "2001" é uma adaptação de um baita livro escrito pelo Arthur C. Clarke, que também escreveu outras duas obras dando seqüência à história (a segunda delas, 2010, também foi transformada em filme).

CAIO - Realmente, é uma bela surpresa para o trabalho de um rapaz de vinte-e-poucos anos, demonstrando mais maturidade técnica e narrativa do que muito veterano do mesmo período.

LUCIANA - Obrigado pelo elogios e fique à vontade aqui no FILMES PARA DOIDOS, onde todas as DOIDAS também são muito bem-vindas!

Allan Verissimo disse...

Valeu pelos puxões de orelhas, Felipe, hehehe.

Agora, uma pergunta polêmica para o Felipe: tem algum filme do Kubrick que o senhor não gosta?

Tiago - Sumaré/SP disse...

Fala Felipe, cara vou mudar de filme mas tudo bem. Grande artigo de H2, foi ainda mais divertido do que eu esperava. Lamentável como o povo ainda insiste em defender o jumento, o tal do Zumbi(kkkk). Grande trabalho e continue escrevendo sobre filmes trash, você é minha fonte principal para essas maravilhas...

Abração!

Allan Verissimo disse...

E aos 30 anos trabalhou numa produção milionária com Kirk Douglas, Laurence Olivier, Charles Laughton, Peter Ustinov e outras personalidades famosas daquela época. Pena que SPARTACUS é o unico filme dele no qual ele não teve nenhum controle criativo.

Daniel disse...

Felipe,

A resenha já é velha (só a li hoje), mas correrei o sério risco de ser chato com um pequeno comentário. Sobre 2001, na verdade livro e roteiro foram escritos simultaneamente a partir de uma idéia concebida em conjunto por Clarke e Kubrick. Acredito que isso tira do filme o status de adaptação literária.
Mero detalhe, mas se você não ligasse para eles não faria textos bacanas como esses, não é? hehehe