sexta-feira, 3 de julho de 2009

O pior livro de todos os tempos da última semana


"Um pai. Um filho. Três filmes por semana."

É essa a frase na capa de O CLUBE DO LIVRO, obra do crítico de cinema canadense David Gilmour (não confundir com o músico homônimo) que parece estar fazendo sucesso também no Brasil. Ando lendo demais ultimamente, e não resisti quando encontrei esse livro na FNAC com 20% de desconto.

O que me atraiu foi a frase da capa e especialmente o resumo na contracapa. Segue:

"David Gilmour, crítico de cinema desempregado e com o dinheiro contado, vivia uma fase complicada. Além disso, o filho de 15 anos colecionava reprovações em todas as disciplinas. Diante da falta de rumo daquele estudante perdido e despreparado, uma proposta paterna radical: o garoto poderia sair da escola - e ficar sem trabalhar e sem pagar aluguel - desde que assistisse toda semana a três filmes escolhidos pelo pai, e com o pai. Assim surgiu o Clube do Filme..."

Bem, pelo resumo, eu esperava uma história realmente interessante onde filmes seriam utilizados como uma forma de educar um jovem para as diversas etapas e dificuldades da vida - como de fato eles podem ser utilizados, pois, se pensarmos, há cenas de filmes que se encaixam em cada situação que encontramos no dia-a-dia. Enfim, esperava algo que fosse para o mundo do cinema o mesmo que o excelente "Alta Fidelidade" havia sido para o mundo da música.

Quebrei a cara. Não se julga um livro pela capa, realmente...

O CLUBE DO FILME na verdade não passa de um diário piegas e mal-escrito, onde o tal Gilmour fica relatando as desventuras amorosas de seu filho, um adolescente mimado, antipático e boçal chamado Jesse, que tem um talento tão natural para se meter em encrenca que, se eu fosse o autor do livro, sentaria porrada no rapaz o dia todo, ao invés de convidá-lo para ver filmes. O cinema não fica em segundo, mas em décimo-quinto plano na narrativa simplória do autor.

Pior que as narrações melosas de Gilmour, que morre de orgulho do filho mesmo quando ele abandona a escola sem pensar duas vezes para trabalhar como lavador de pratos (belo futuro, hein?), somente a forma como os filmes são citados e utilizados ao longo da narrativa.

Para quem espera algo no estilo "Alta Fidelidade", os comentários cinéfilos do autor parecem coisa de redação escolar de alguém que viu meia dúzia de filmes na vida. Raramente cenas e diálogos são usados para ilustrar episódios da vida, como eu esperava pela descrição da história na contracapa do livro. Surgem mais como citações gratuitas mesmo, ou para motivar comparações óbvias e sem qualquer talento.

Quer alguns exemplos? Então acompanhe:

"Ele levantou os olhos, mas não com a expressão de quem olha para um pai, mas da forma como Al Pacino olha para um idiota em 'O Pagamento Final' (1993), de Brian DePlama. Tínhamos ultrapassado algum limite, em algum momento."

"Eu sou como aquele cara em 'O Último Tango em Paris', imaginando se a mulher dele fez com o cara de roupão lá embaixo as mesmas coisas que fez com ele."

"Começamos com 'Rocky 3' (1982). Chamei a atenção de Jesse para o apelo barato, mas irresistível, do personagem Mr. T, suado, fazendo flexões e supinos em seu cubículo. Nada de pratos com guarnições de leito de cogumelos, nada de cappuccinos afrescalhados para ele."

"Achei que fosse ter um ataque do coração, ou que minha cabeça fosse explodir, como a daquele cara no filme do Cronenberg... 'Scanners'."

"No fim de semana passado, fui a um bar na rua Queen. Parecia aquela cena de 'Caminhos Perigosos', do Scorsese."

"Bem, ele já tem 19 anos, é assim que funciona. Pelo menos ele sabe que Michael Curtiz filmou dois finais diferentes para 'Casablanca', para o caso de o final triste não funcionar. Isso provavelmente vai ajudá-lo, no mundo lá fora. Ninguém vai poder dizer que deixei meu filho partir indefeso."

"Sabe o que ela disse uma vez? Disse que a versão de 'Lolita' de Stanley Kubrick, de 1962, é melhor que a de Adrian Lyne, de 1997. Aquilo tem de estar errado. A 'Lolita' de Adrian Lyne é uma obra-prima!"


E por aí vai... As citações não vão muito além desse uso raso e bobo. Se a proposta de Gilmour era educar o seu filho para a vida, substituindo a escola pelo uso de filmes, e as únicas relações que ele consegue criar entre filmes e vida real são essas frases banais, então só posso imaginar que o pobre Jesse continua lavando pratos até hoje!!!

Logo, fujam desse livro, que provavelmente ainda vai ganhar algum "Prêmio Paulo Coelho de Qualidade Literária".

PS: Voltei para o Sul do Brasil para um mês de férias. O blog provavelmente ficará abandonado nesse período, pois, entre outros compromissos inadiáveis, vou participar do Fantaspoa - Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre, e filmar meu novo longa-metragem. Abraços a todos.

12 comentários:

Marcos disse...

Caralho, que coincidência! Vi esse livro numa dessas lojas virtuais e também fiquei interessado. Mas quando vi que a categoria ao qual ele estava inserido era auto-ajuda dei 50 passos pra trás.

Fuck auto-ajuda!

Se eu ainda tinha alguma esperança remota de adquiri-lo, ela acabou despedaçada pelo Felipe, pois eu acredito que o livro deva ser exatamente como ele descreveu. Valeu pela dica salvadora.

PS.: Boa sorte na sua nova empreitada e até qualquer dias desses.

Rudemangueboy disse...

Mais uma vez Felipe Guerra salva os incautos de tralhas, espero que você possa sempre criticar livros também!! vi este livro num hipermercado da vida, mas cabei comprando outras coisas e pensei em deixa-lo para depois. agora, nunca! Desejo-lhe boa sorte na filmagem de seu novo filme. vai ser qual dos roteiros já prontos, o faroeste, a comédio ou terror?

Ibertson Medeiros disse...

Hahahahaha
Não tinha ouvido falar nesse livro ainda, mas por se inserir em auto-ajuda, passo longe.
Gostaria de saber o destino do garoto. Deve estar assaltando por aí ou ter criado uma boca de fumo.
Boa sorte nas filmagens do seu novo filme, aguardo notícias.

Duete disse...

Não sei se o livro é bom ou ruim. Nunca li. Mas de uma coisa eu concordo com esse Gilmour: a Lolita de Adrian Lyne pra mim é um filmaço, de longe bem melhor que a do Kubrick.

Gélikom disse...

Adoro seu blog , mas se o abandono temporario for para filmer seu novo projeto, vai ser por uma boa causa. Já tô ancioso para conferir o resultado

Allan Verissimo disse...

Mas que coincidencia! O meu professor de redação estava com esse livro na semana passada e me contou sobre o que se tratava, mas disse que não havia lido o livro todo ainda. Fiquei interessado, mas depois dessa critica, agora sim que vou passar longe e economizar a minha grana para o WATCHMEN do Alan Moore.
Boas férias, senhor Guerra e boa sorte no seu novo longa!

Kamen Rider disse...

Cara, que merdão essas frases! Como é que ainda conseguem publicar um livro desse tipo?!

House disse...

Voce salvou a minha pele com essa Felipe hehehehe, venho seguindo suas dicas ha muito tempo ( bem extremo , assistindo desde Zombie 3 a Viver e Morrer em L.A. graças aos seus artigos e vou passar longe deste livro que achei interessante pelo resumo no2.

Ailton disse...

Tinha achado a proposta até interessante, mas pelo que andei folheando na livraria, também suspeitei de que era bem bobo. E agora, com essas tuas citações, é que vou manter distância mesmo. Valeu!

Iesus Filho disse...

"Achei que fosse ter um ataque do coração, ou que minha cabeça fosse explodir, como a daquele cara no filme do Cronenberg... 'Scanners'."

"No fim de semana passado, fui a um bar na rua Queen. Parecia aquela cena de 'Caminhos Perigosos', do Scorsese."

"Bem, ele já tem 19 anos, é assim que funciona. Pelo menos ele sabe que Michael Curtiz filmou dois finais diferentes para 'Casablanca', para o caso de o final triste não funcionar. Isso provavelmente vai ajudá-lo, no mundo lá fora. Ninguém vai poder dizer que deixei meu filho partir indefeso."

(caguei de rir).
Tudo bem, você me convenceu a nunca tocar neste livro.

Felipe M. Guerra disse...

Achei estranho, mas meio mundo da imprensa "convencional" falou maravilhas sobre esse livreco, que ganhou elogiosas matérias de página inteira na maioria dos jornais brasileiros e até duas páginas assinadas por Isabela Boscov na revista Veja.

Comecei a pensar que o errado era eu, até que hoje topei com uma opinião do Pablo Villaça, do site Cinema em Cena, comentando os mesmos pontos negativos que eu já havia apontado no livro. Vocês podem ler a opinião dele aqui: http://www.cinemaemcena.com.br/pv/BlogPablo/post/2009/09/02/O-Clube-do-Filme.aspx

Eu não costumo concordar com 90% das críticas cinematográficas do Villaça em seu site, mas pelo menos nessa sua crítica literária eu assino embaixo!

Juarez Junior disse...

Felipe... tive a mesma sensação que você com este O Clube do Filme. Oh coisinha ridícula. Coisas melhores venham...pois é difícil piorar. O difícil é aguentar os elogios rasgados..a Martha Medeiros disse que não conseguiu largar o livro até terminar. Valeu por ter escrito algo para ridicularizar esta bomba.

Grande abraço.