terça-feira, 22 de abril de 2014

PESADELOS NOTURNOS (1970)


Em 1970, Jess Franco fez seu nono e último filme com o produtor inglês Harry Alan Towers ("Eugenie... The Story of her Journey into Perversion"), e logo começou uma rápida parceria com o polonês radicado na Alemanha Artur Brauner, com quem filmaria as obras que transformaram Soledad Miranda numa musa eterna (entre elas, "Vampyros Lesbos" e "Ela Matou em Êxtase").

Jess teve alguns meses de descanso entre o rompimento com Towers e a nova sociedade com Brauner, mas, ao invés de tirar umas férias (já que vinha fazendo diversos filmes por ano desde 1967!), o incansável diretor espanhol arrumou tempo para rodar QUATRO obras baratíssimas em Liechtenstein, um minúsculo (e riquíssimo) país europeu encravado entre a Suíça e a Áustria.

Dois títulos dessa rapidíssima "Fase Liechtenstein" são bem conhecidos ("Eugenie De Sade" e "A Virgin Among the Living Dead"), enquanto os outros dois foram filmados, finalizados e depois "perdidos". Destes, um segue perdido até hoje, mas o outro foi resgatado do limbo depois de três décadas: "Les Cauchemars Naissent la Nuit" ("Os Pesadelos Nascem à Noite"), lançado em DVD no Brasil (duas vezes!) com o título genérico de PESADELOS NOTURNOS.


Bem longe de ser um dos trabalhos mais inspirados do diretor (apesar de várias resenhas rasgarem seda, dizendo que é "uma pedra preciosa que não foi polida"), PESADELOS NOTURNOS é um "filme Frankenstein", que Franco montou usando cenas filmadas para outro projeto e muito improviso - a inconsistência da coisa toda fica bem evidente desde as primeiras cenas.

Não por acaso, a produção foi realizada com uma equipe diminuta, pouquíssimos recursos e um dos menores orçamentos que o diretor teve na vida - durante muito tempo, ele até citava esse título quando lhe perguntavam qual tinha sido a sua produção mais barata!


Mesmo assim, é uma obra que merece certo lugar de destaque na filmografia Franquiana pelo seu valor histórico: conforme o pesquisador Lucas Balbo, um dos autores do livro "Obsession: The Films of Jess Franco", PESADELOS NOTURNOS é o primeiro thriller 100% erótico de Jess, em que a sacanagem rola solta sem medo da censura, e todas as desculpas possíveis e imagináveis são usadas para pelar as personagens - de cenas de banho ao hábito de dormir com um roupão de cetim totalmente aberto!

Até já havia safadeza e mulher pelada em obras anteriores do diretor, como "Necronomicon" (1967) e "Santuário Mortal" (1968). Mas é aqui que Franco chuta de vez o pau da barraca e escancara a nudez e o sexo (as transas ainda são tímidas, mas certamente bem fortes e ousadas para a época, até por envolverem lesbianismo).


PESADELOS NOTURNOS conta a história de Anna (Diana Lorys), uma mulher que está sofrendo com terríveis pesadelos recorrentes em que mata um amante desconhecido. Numa das manhãs em que acorda do seu sono agitado, ela constata que tem sangue nas próprias mãos, e que talvez aquele seu pesadelo possa ter algum fundo de verdade...

Cynthia (Colette Giacobine), a namorada de Anna, não acredita na história e acha que ela está ficando louca. Por isso, pede a ajuda de um psiquiatra, o Dr. Vicas (Paul Muller), para tentar controlar os pesadelos da garota.


Só que a situação não melhora. E, para complicar a história, um dia Anna conhece o homem que mata em seus sonhos (interpretado por Jack Taylor). Será que o pesadelo irá finalmente se tornar realidade?

Paralelamente, um casal de vizinhos espiona o casarão em que Anna e Cynthia vivem juntas. Trata-se de uma dupla de ladrões, interpretados por Andrés Monales e Soledad Miranda, que parecem matar tempo para reaver uma fortuna em diamantes roubados de uma joalheria. Mas qual a relação do casal de ladrões com o casal de lésbicas da casa ao lado, ou com os pesadelos de Anna?


Bem, oficialmente não existia relação nenhuma: acontece que essas cenas não foram originalmente filmadas para PESADELOS NOTURNOS, e sim para uma espécie de teste de elenco que Franco filmou em 1969, entre as gravações de "O Trono de Fogo" e "Conde Drácula", para convencer o produtor Harry Alan Towers a contratar a ainda desconhecida Soledad Miranda para integrar o elenco da sua adaptação de Drácula!

Assim, Jess aproveitou uma folguinha para filmar de 10 a 15 minutos de cenas meio aleatórias em que Soledad e Monales vigiam a "casa ao lado" com um binóculo, e provavelmente sem pensar numa trama específica para estas cenas. Funcionou, e Towers aprovou a contratação de Soledad para "Conde Drácula". Mas quem em sã consciência não o faria, depois de ver a belíssima espanhola vestindo apenas botas de cano longo e com a bundinha empinada?


O fato de as cenas com Soledad e Andrés Monales originalmente não terem nenhuma relação com a história de PESADELOS NOTURNOS também explica porque o casal de ladrões nunca interage com os demais personagens do filme (afinal, as cenas foram feitas um ano antes!), passando o tempo todo dos seus 10 a 15 minutos num único set, que tem a inscrição "Life is all shit!" riscada na parede!

Aí, numa tática digna do que depois fariam geniais picaretas como Bruno Mattei e Godfrey Ho, Franco apenas redublou os diálogos e filmou um único trechinho novo com dublês de corpo de Monales e Soledad para conseguir "inseri-los" na nova história e dar-lhes um destino condizente!


Uma evidência do truque é o fato de as cenas "antigas" (estas com o "casal de assaltantes") terem sido filmadas num formato de tela (1.66:1) e as "novas" em outro (1.33:1). Isso fica ainda mais perceptível no primeiro DVD de PESADELOS NOTURNOS, que foi lançado pela Shriek Show/Media Blasters em 2004: a maior parte do filme está em tela cheia, e apenas as cenas com Soledad e Monales aparecem no formato diferente. Recentemente, quando a obra foi relançada em blu-ray por outra empresa (Redemption), a distribuidora corrigiu o problema transformando o filme todo em 1.66:1 (cortando um pouquinho a parte de cima e de baixo da imagem nas cenas filmadas no outro formato).


PESADELOS NOTURNOS tem uma estrutura bastante informal e experimental, com pouquíssimos personagens (são seis atores no total, contando a "ponta" de Soledad e Monales) e duas ou três locações, a maior parte em internas. Por isso, o filme poderia ser facilmente transformado numa peça teatral.

Para alguns pesquisadores da filmografia de Jess, este trabalho modesto e "pequeno" seria uma forma de o diretor descansar a cabeça daquelas grandes produções que rodou com Harry Alan Towers, que tinham grandes orçamentos, atores famosos e dezenas de sets e figurantes - e, por isso mesmo, exigiam muito dele e restringiam sua criatividade e propensão a improvisos.


No final, o que parecia ser um thriller erótico constituído apenas de pesadelos e delírios da protagonista, e sem preocupar-se com explicações (como acontecia no anterior "Necronomicon"), dá uma grande virada, transformando-se em história policial.

Acontece que (SPOILERS) os pesadelos de Anna estão sendo induzidos pelo próprio Dr. Vicas através de hipnose, com o objetivo de enlouquecê-la, forçá-la a cometer suicídio e assim abafar o caso do roubo dos diamantes - tanto o psiquiatra quanto Cynthia estão de conluio com o casal de assaltantes da casa ao lado. (FIM DOS SPOILERS)

E se não parece fazer muito sentido, é porque realmente não faz!


Pesadelos eróticos e personagens que se tornam assassinos sob controle de terceiros são temas recorrentes na filmografia do diretor, que já apareceram antes e reapareceriam até com certa frequência depois. A mulher que é forçada a matar por influência de outras pessoas já tinha aparecido em "Miss Muerte" (1965) e "Necronomicon", e em ambos os filmes a protagonista também era dançarina, como Anna aqui.

Já a protagonista que está sendo assombrada por pesadelos, e que logo perde a noção entre sonho e realidade, vem de "Necronomicon", mas reapareceria depois em "A Virgin Among the Living Dead", "Vampyros Lesbos", "Macumba Sexual" (1981), e diversos outros filmes assinados por Franco.


O maior problema de PESADELOS NOTURNOS é que se percebe claramente que o filme todo nasceu de um improviso do diretor e dos atores (tem cara de ter sido gravado em poucos dias), e apenas para reaproveitar aquelas cenas de arquivo com a musa trágica de Jess, Soledad Miranda, morta num acidente de automóvel em 18 de agosto de 1970, aos 27 anos de idade.

Franco precisou enrolar bastante para conseguir fechar o tempo de um longa-metragem, e a tática adotada foi bem simples: além de repetir os pesadelos de Anna ad nauseam, ele também usou os vários encontros de Anna com o Dr. Vicas como desculpa para bombardear o espectador com flashbacks, quando a garota conta a história da sua vida para o psiquiatra!


Estes flashbacks são gigantescos e ocupam a maior parte da narrativa (no caso, os 45 minutos iniciais de um filme de oitenta e poucos minutos!), mostrando que Anna trabalhava como dançarina em um night club de Zagreb (na Iugoslávia) até conhecer Cynthia, começar a namorar e ser convidada para morar no casarão da loira - que, à época, já estava com "terceiras intenções" em relação à stripper.

Ainda nos flashbacks, Anna apresenta um número de striptease que é simplesmente interminável - segundo a narração da própria moça, seu patrão lhe pedia para "demorar bastante" de maneira a manter os clientes entretidos e consumindo, uma tática até hoje usada nos puteiros da vida real.

O problema é que tanto a personagem quanto o diretor exageram na dose: o tal striptease de Anna dura OITO MINUTOS (!!!), e se eu fosse um cliente do tal night club certamente pegaria no sono com a chatice do número (até porque a "stripper" passa a maior parte do seu "striptease" vestida e tentando sensualizar enquanto fuma um cigarro!).


E não acontece muito mais coisa ao longo do resto do filme, que se resume a Diana Lorys, Colette Giacobine e Soledad Miranda nuas, ou Diana e Colette rolando peladas pela cama simulando uma relação sexual, ou ainda Diana Lorys chorando as pitangas para o psiquiatra interpretado por Paul Muller.

Somente nos 20 minutos finais a história começa a engrenar, mas o caminho até chegar aí é realmente tortuoso (e arrastado), parecendo provocar o espectador para usar o botão Fast Foward. Até a trilha sonora do italiano Bruno Nicolai é genérica e nada memorável.


No fim, chega a ser curioso o fato de Soledad Miranda roubar o filme, e isso naqueles 10 ou 15 minutos de CENAS DE ARQUIVO sem nenhuma relação com a trama principal! A capinha do DVD da Media Blasters é uma bela picaretagem, e estampa uma imagem grandona da musa em destaque, como se ela fosse a atriz principal do filme.

No Brasil, PESADELOS NOTURNOS foi lançado duas vezes em DVD (pela Continental e pela Vinny Filmes), e aqui também repetiu-se a malandragem de dar destaque para Soledad nas capinhas, embora ela seja apenas figurante.


E é irônico que Diana Lorys apareça bem desinibida no filme, quase sempre pelada, considerando que ela havia arregado e pedido uma dublê de corpo para uma única ceninha de peitos de fora em "O Terrível Dr. Orloff" (1961)!

A atriz espanhola estava com 30 anos ao estrelar PESADELOS NOTURNOS, mas, embora não esteja exatamente feia, aparenta muito mais idade (envelheceu mal), e está bem diferente daquela gracinha que enfrentou o Dr. Orloff quase dez anos antes. Sua carreira não foi adiante, e ela abandonou o cinema em 1978. Menos sorte teve sua "namorada" na trama, Colette Giacobine (creditada como "Colette Jack"), que apareceu em apenas mais dois filmes.


PESADELOS NOTURNOS garante ainda um raro papel de destaque para o ator suíço Paul Muller (abaixo), que fez 16 filmes com Jess (começando com "Vênus em Fúria", em 1968), mas geralmente sem tanto tempo em cena. Seu Dr. Vicas (é o mesmo nome do médico interpretado por Howard Vernon em "Miss Muerte") aparece como um homem dividido entre o plano maquiavélico para enlouquecer Anna e o carinho que ele começa a sentir por sua "paciente".

Em uma de suas raras entrevistas, Muller comentou sobre esses projetos improvisados do diretor: "Não me incomodava que Franco rodasse vários filmes ao mesmo tempo, isso até me divertia. Mas é inegável que a qualidade do filme sofria muito com isso. E é uma pena, porque Franco tem um grande talento, mas sua forma de trabalhar não é a tradicional. Não há um roteiro definido, os diálogos são geralmente improvisados, e temos muito pouco tempo para decorá-los. E, com ele, você sempre precisa ter muito cuidado, pois com alguns takes de cá e de lá ele já te coloca num outro filme sem que você saiba!".


Mais interessante que a própria obra é a verdadeira odisseia por que ela passou até ser redescoberta. Franco filmou PESADELOS NOTURNOS em 1970, mas o filme só ganhou sua primeira exibição três anos depois, e NUMA ÚNICA SALA DE CINEMA na Bélgica (embora existam relatos nunca confirmados de exibições também em alguns cinemas da América do Norte).

Depois disso, esta única cópia exibida e os negativos originais desapareceram sem deixar rastros, e PESADELOS NOTURNOS tornou-se tão obscuro que até o ator Jack Taylor esqueceu que havia feito o filme!


Na década de 70, o roteirista e ator Alain Petit descobriu que os negativos acabaram com o produtor francês Robert de Nesle (que bancou diversos trabalhos de Franco, incluindo "La Comtesse Perverse"). Aparentemente, Jess colocou-o como "produtor associado" de PESADELOS NOTURNOS meio no trambique, mas de Nesle nunca conseguiu distribuir o filme oficialmente porque o diretor não tinha um certificado de origem ou qualquer documento atestando seus direitos sobre a obra!

Passaram-se mais alguns anos e, com a morte do produtor francês (em 1978), sua filha repassou todo o seu inventário para a Cinémathèque Française. No meio do material, estavam os rolos do raríssimo PESADELOS NOTURNOS!


Foi quando Petit entrou na história, descobriu o paradeiro do filme e contatou Daniel Lesoeur, da produtora francesa Eurociné, sugerindo que ele obtivesse os direitos para finalmente lançá-lo comercialmente - Lesoeur tinha uma pequeníssima participação na produção, pois uma das cenas do longa foi filmada na cozinha da casa de campo da sua família!

Demoraria mais alguns anos (ou décadas) para o imbróglio relacionado a direitos ser resolvido e PESADELOS NOTURNOS finalmente ver a luz do dia. Esta única cópia existente foi recuperada e lançada em DVD em 2004 (ganhando o título em inglês "Nightmares Come at Night"), 34 anos depois de ser filmado e três décadas depois da sua primeira (e única) exibição na Bélgica!

Pena que, para uma obra que ficou perdida por três décadas, e que chegou a ser considerada um verdadeiro "Santo Graal" pelos fãs de Jess Franco - ou "elo perdido" entre as produções caprichadas de Harry Alan Towers e o momento em que o diretor descambou para os filmes de mulher pelada e sacanagem produzidos por Artur Brauner -, PESADELOS NOTURNOS é bem frustrante.


Com o ressurgimento do filme, o novo "Santo Graal" dos fãs do diretor é o outro trabalho perdido da sua "Fase Liechtenstein", que também foi muito mal-lançado e cujo paradeiro atualmente é desconhecido. Trata-se de "Sex Charade" (pôster abaixo), que foi filmado logo depois de PESADELOS NOTURNOS e compartilha o mesmo elenco: Soledad Miranda, Jack Taylor, Diana Lorys e Paul Muller, mais Howard Vernon e Maria Rohm.

Pelo menos o resumo da trama de "Sex Charade" promete muito mais que PESADELOS NOTURNOS: é sobre um assassino psicopata que foge do manicômio e se refugia na casa de uma bela jovem, que é tomada como refém. Para passar o tempo, o maníaco pede que a garota lhe conte uma história, e ela narra uma versão alegórica daquela própria situação.

É claro que, como tudo relacionado a Jess Franco, não dá para confiar muito na sinopse, que pode ser apenas desculpa para muitas cenas de sonhos/delírios ou de mulher pelada. Mesmo assim, esperemos que "Sex Charade" veja a luz do dia em breve, assim como tantas outras obras nunca lançadas ou inacabadas do prolífico diretor...

PS: Além de PESADELOS NOTURNOS passar tranquilamente como refilmagem de "Necronomicon" (ou "reciclagem da trama"), Franco recontou a mesmíssima história, com pequenas alterações, pelo menos mais duas vezes. A primeira foi em "Los Ojos Siniestros del Doctor Orloff" (1973), em que a personagem de Montserrat Prous é atormentada por pesadelos nos quais comete crimes, e resolve chamar o Dr. Orloff (!!!) para ajudá-la. A segunda foi em "Mil Sexos Tiene la Noche" (1982), já da fase vale-tudo para a Golden Films na Espanha, e desta vez com Lina Romay tendo os pesadelos com assassinatos que ela pode ou não ter cometido na vida real.


Trailer de PESADELOS NOTURNOS



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Les Cauchemars Naissent la Nuit
(1970, Liechtenstein)

Direção: Jess Franco
Elenco: Diana Lorys, Paul Muller, Soledad Miranda,
Colette Giacobine, Andrés Monales e Jack Taylor.