quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

AMERICAN NINJA (1985)


Você certamente já viu AMERICAN NINJA numa das incontáveis reprises do filme pela Globo, ou pelo menos ouviu falar do que se tratava graças aos comerciais das tais incontáveis reprises. Você certamente sabe que esta bem-sucedida aventura ocidental sobre ninjas deu origem a uma nem tão bem-sucedida franquia, com direito a quatro continuações. Mas você sabia que AMERICAN NINJA só existe porque o público não estava preparado para ver uma ninja-menina?

Acredite se quiser, mas a gênese dessa aventura produzida pela lendária Cannon Films foi a bilheteria abaixo do esperado de um filme anterior dos mesmos realizadores, "Ninja III - A Dominação" (1984), terceiro e último capítulo de uma série iniciada com "Ninja, A Máquina Assassina" - aquele estrelado pelo italiano Franco Nero!


Como os outros filmes de ninja produzidos pela Cannon tinham rendido um dinheirão, e como "Ninja III" trazia uma ninja-menina (interpretada pela gata Lucinda Dickey) e rendeu menos, os produtores machistas alegaram que o sexo da personagem era o motivo da bilheteria reduzida, exigindo que o diretor Sam Firstenberg colocasse um ninja-menino em sua próxima produção do gênero. Pronto: nasceu AMERICAN NINJA.

O que pouca gente sabe, também, é que por volta de 1984 o projeto seria dirigido por Joseph Zito e estrelado por Chuck Norris, já que os dois tinham feito uma parceira bem-sucedida em "Braddock - O Super Comando".

Anúncios divulgando a produção com os nomes de ambos chegaram a ser publicados (veja ao lado), mas Zito e seu astro pularam fora logo depois - o orçamento inteiro do filme era menor que o salário de Norris, dizem as más línguas.

Assim, o barateiro Firstenberg assumiu e os produtores pediram que ele encontrasse um ator jovem que fosse boa-pinta e "parecido com James Dean" para o papel principal.

Foi quando subiu a bordo do projeto um loirinho com cara de surfista chamado Michael Dudikoff, que não lutava porcaria nenhuma e nem tinha pinta de herói de ação (antes, seu papel de mais destaque foi como um dos amigos tarados de Tom Hanks na comédia "A Última Festa de Solteiro").

Ora, e o que importa se Dudikoff não sabia lutar? O importante é que ele era boa-pinta e parecia James Dean, como os produtores queriam. Além disso, Franco Nero também não sabia lutar e estrelou "Ninja, A Máquina Assassina". Por sinal, a solução encontrada nos dois filmes foi a mesma: substituir o astro (tanto Dudikoff quanto Nero) pelo coreógrafo das cenas de ação Mike Stone nas cenas mais "delicadas". Afinal, o sujeito estaria escondido atrás da roupa de ninja mesmo!


E não é que convenceu? Tanto que a primeira vez que vi AMERICAN NINJA, ainda molecão, jurava que Michael Dudikoff lutava bem pra caramba. Claro, isso foi antes de perceber que as "lutas" com o sujeito eram beneficiadas pela montagem e pelos planos de detalhe, quando fica fácil substituir o galã que não sabe lutar pelo dublê que sabe. Ah, a magia do cinema...

Mas quer saber? Não importa se o astro não sabe lutar, e sim que AMERICAN NINJA funciona que é uma beleza. Revi o filme recentemente e até achei melhor do que eu me lembrava - principalmente considerando o fator trash da coisa toda, que torna o programa ainda mais divertido.


Dudikoff interpreta Joe T. Armstrong, o novo e misterioso recruta de um destacamento militar norte-americano nas Filipinas. Carregamentos de armamentos e munições estão sendo roubados com frequência do quartel, e o responsável é um traficante de armas da região, Victor Ortega (Don Stewart), que vende a muamba para ditaduras de todas as partes do globo.

Certo dia, o carregamento que está sendo escoltado pelo soldado Armstrong cai numa emboscada. Só que, além de armas, o comboio leva também Patricia (Judie Aronson), a bela filha do comandante da base. Temendo pela segurança da moça, o herói reage contra os ladrões e mostra ser bom de briga. Mas logo uns guerreiros ninja de uniforme preto aparecem do nada e atacam os soldados. Armstrong foge com a garota, mas seus companheiros são todos chacinados pelos misteriosos atacantes.


Apesar de ter salvado a filha do general, Joe atrai a inimizade dos seus colegas de farda porque sua reação resultou na morte de diversos soldados. E quando o vilão Ortega exige a cabeça do herói, para poder continuar com seus roubos de armas sem maiores problemas, o "ninja americano" precisa unir-se ao cabo Jackson (Steve James), que também é bom de briga, para enfrentar os ataques dos bandidos.

O roteiro redondinho de AMERICAN NINJA foi escrito por Paul De Mielche, e surpreendentemente este é o seu único crédito no ramo. James R. Silke, que havia assinado os roteiros de "A Vingança do Ninja" e "Ninja III" para a Cannon, foi chamado para fazer algumas adaptações no material, mas sem receber crédito.


Uma das grandes qualidades do filme é que ele oferece um bocado de cenas de ação sem grandes exageros ou façanhas físicas absurdas, mas numa quantidade tão grande e frequente que não permite que o espectador pense muito no que está acontecendo (o ataque ao comboio do exército e o primeiro confronto do herói com os ninjas acontece já nos primeiros 10 minutos!).

As lutas em si não têm nada de tão espetacular, embora rápidas e bem coreografadas. Quem rouba a cena é o ninja preto inimigo, interpretado por Tadashi Yamashita (que já havia enfrentado Chuck Norris em "Octagon").


Yamashita realmente consegue passar a imagem de um ninja invencível e ameaçador, e convence o espectador de que pode, por exemplo, invadir uma base militar deixando uma trilha de cadáveres.

Seu confronto final com o "american ninja" é muito bem filmado e envolvente, já que o vilão usa todas as armas e truques ninja à sua disposição - e até alguns truques sujos que não são bem coisa de ninja, como o disparo de um inexplicável raio laser (???). Sem querer estragar a surpresa sobre quem vive e quem morre no duelo final, Joe Armstrong voltou nas Partes 2 e 4...


Também há pelo menos três momentos bem dirigidos envolvendo o herói às voltas com carros em movimento. Num deles, parecido com cena clássica de "Os Caçadores da Arca Perdida", Armstrong rala a bunda no chão para pendurar-se embaixo de um caminhão em movimento; n'outro, bate propositalmente com um sidecar contra outro veículo para livrar-se de um caroneiro indesejado!

E, claro, tudo termina num daqueles massacres hiper-exagerados típicos do cinema de ação da década de 1980, quando Armstrong (finalmente vestido de ninja, o que não acontece durante o resto do filme) e Jackson (vestido de Rambo) invadem a fortaleza dos vilões distribuindo shurikens, espadadas e tiros de metralhadora.


Até me impressionou a quantidade de mortes ao longo do filme. Segundo o IMDB, a contagem de cadáveres chega a 114. Porém é um tanto frustrante a ausência de sangue e violência: a não ser alguns buraquinhos de bala e dois pescoços cortados, as espadadas dos ninjas não fazem nenhum estrago, nem vemos os característicos jorros de sangue que estes golpes costumam proporcionar nas aventuras orientais.

Logo, apesar da matança superior a 100 figurantes, AMERICAN NINJA é de uma violência quase inofensiva e poderia muito bem passar na Sessão da Tarde – e provavelmente passou!


Outro fato curioso é que Dudikoff não tinha nenhum treinamento em artes marciais quando fez o filme, mas o finado Steve James, que interpreta seu parceiro, sim - ele praticava kung-fu desde a juventude. Talvez por isso, e para não minimizar a pouca experiência do verdadeiro protagonista da aventura, James quase não luta durante o filme inteiro, preferindo usar armas de fogo e até um míssil (!!!) para despachar os vilões.

Além de funcionar bem como filme de ação, AMERICAN NINJA também diverte bastante pela idiotice geral da coisa.


Afinal, os ninjas caíram praticamente de pára-quedas na trama, tanto o herói (um ocidental treinado na infância por um veterano da Segunda Guerra Mundial) quanto os vilões, que convenientemente trabalham como capangas para o contrabandista de armas, embora ele já tenha um exército de mercenários fortemente armados à disposição.

O problema é que, tirando as roupinhas pretas e as armas brancas, são uns ninjas tão fracotes e fáceis de matar (com exceção do interpretado por Tadashi Yamashita, claro) que o roteirista poderia muito bem colocar qualquer outra coisa no lugar de assassinos ninja, de mulheres de topless a piratas. Só que aí o filme não se chamaria "American Ninja"...


A situação dos roubos de armas do quartel, encobertados pelos figurões do lugar, também é tão absurda que chega a dar dó. Quer dizer, os caras perderam diversos carregamentos e continuam mandando mais e mais caminhões carregados de armas e munições para serem roubados pelos ninjas inimigos, ao invés de pensar num plano alternativo - ou pelo menos investigar o paradeiro dos outros armamentos roubados?

E como não citar o irritante interesse romântico do herói, a mocinha interpretada por Judie Aronson? Ela não foge daquele clichê "garota em perigo" que primeiro odeia o protagonista e depois se apaixona por ele, mas é tão chata que você torce para o "american ninja" também ficar estressado e dar uma voadora nela.

Infelizmente, a bela Judie não mostra seus atributos físicos, que já tinham sido largamente explorados em seu trabalho anterior, "Sexta-feira 13 Parte 4 - O Capítulo Final".


Não que isso tenha importado para o resultado final: AMERICAN NINJA custou um milhão de doletas e lucrou, dependendo da fonte, entre US$ 10 e 30 milhões - ou seja, dez ou trinta vezes o que custou.

Feliz da vida com o sucesso muito maior que o do anterior "Ninja III", a Cannon deu sinal verde para a produção de várias sequências, das quais apenas a segunda foi assinada por Firstenberg; as outras têm diretores diferentes e até protagonistas diferentes, pois Dudikoff não aparece nas partes 3 e 5.

No fim, quem mais lucrou com o sucesso de AMERICAN NINJA foi o próprio Michael Dudikoff, já que o loirinho com cara de surfista foi esculpido na marra para virar herói de ação do segundo escalão.


E, quem diria, ele até conseguiu enganar muita gente, estrelando uma série de filmes de baixo orçamento para a Cannon nos anos seguintes, e inclusive roubando um outro papel de Chuck Norris ao estrelar "A Vingança de 1 Predador" (1986), originalmente concebido como continuação de "Invasão USA" (que tinha Norris como astro).

Nada mal para um ninja americano que nem sabia lutar porra nenhuma...

PS: No Brasil, AMERICAN NINJA foi originalmente distribuído nas locadoras e exibido na TV com o título "Guerreiro Americano". Vai ver os dubladores tinham medo de que os brasileiros não soubessem o que era um ninja. Curiosamente, o título original lá nos EUA era "American WARRIOR", como você pode ver no trailer abaixo!

Trailer de AMERICAN NINJA



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American Ninja (1985, EUA)
Direção: Sam Firstenberg
Elenco: Michael Dudikoff, Steve James, Tadashi Yamashita,
Judie Aronson, Guich Koock, John Fujioka, Don Stewart,
John LaMotta, Phil Brock e Manolet Escudero.

sábado, 11 de fevereiro de 2012

EXTERMINADOR 2 (1984)


"O Exterminador" (1980), de James Glickenhaus, foi um dos filmes que melhor aproveitou a figura do vigilante que mata criminosos de uma maneira tão brutal que acaba se tornando muito parecido com os vilões que combate. O resultado é quase um filme de terror estilo "Maniac" disfarçado de aventura na linha de "Desejo de Matar": mais do que um herói, ou um justiceiro, seu protagonista é um verdadeiro psicopata sedento de sangue.

Levaria apenas quatro anos para que John Eastman, o Exterminador de Glickenhaus, ganhasse uma nova aventura, dessa vez produzida pela famigerada Cannon Films, que tratou de transformar aquele exploitation-quase-filme-de-horror numa aventura barulhenta e explosiva, bem na linha das produções classe B de ação que realizava.

Assim, EXTERMINADOR 2 está separado do original por um abismo tão grande quanto o que separa, por exemplo, "Desejo de Matar 1" de "Desejo de Matar 3" - e, coincidentemente, a terceira aventura do vigilante vivido por Charles Bronson também seria produzida pela Cannon!


Robert Ginty, simpático astro de ação do terceiro escalão, está de volta como o vigilante John Eastman, que tinha sido gravemente ferido no final de "O Exterminador", mas sobreviveu e continuou limpando as ruas de Nova York. Quando reencontramos nosso "herói", ele está monitorando o rádio da polícia em busca de vilões para exterminar.

Em quatro anos, muita coisa mudou na vida de Eastman. Tudo bem, ele continua matando bandidos pelas ruas de Nova York, mas agora o faz quase como um trabalho diário, e usando um lança-chamas para facilitar a "limpeza"!


Só que nosso herói parece estar cansado de trabalhar como vigilante e aos poucos busca uma vida normal outra vez. Consegue emprego com um amigo dos tempos da Guerra do Vietnã, Be Gee (Frankie Faison), como motorista de caminhão de lixo. Consegue, também, uma bela namorada: a go-go girl Caroline (Deborah Geffner), que sonha em ser dançarina da Broadway, mas, enquanto isso não acontece, ganha uns trocados rebolando num bar fuleiro.

Parece que a coisa está entrando nos eixos para nosso amigo John Eastman, certo? Mas, no mundo do cinema, vigilantes só precisam de um pequeno empurrãozinho para voltar à ativa. E isso acontece quando uma gangue de punks espanca Caroline violentamente num parque, condenando a dançarina a ficar presa a uma cadeira-de-rodas ao invés de virar estrela da Broadway. Payback time.


Agora, reflita aqui comigo: John Eastman é um sociopata que passa a maior parte dos seus dias monitorando a frequência da polícia em busca de marginais para tostar com um lança-chamas - e consigo imaginar bem poucas coisas mais cruéis do que ser queimado vivo! Ok, tudo considerado, isso é um herói ou um vilão?

Sabendo que a linha entre os dois era bem tênue, conforme Glickenhaus já havia mostrado no filme original, os realizadores de EXTERMINADOR 2 trataram de criar bandidos ainda mais sádicos e filhos-da-puta do que o protagonista, de modo que mesmo o espectador mais pacifista vai pegar-se torcendo para que o Exterminador use logo o seu lança-chamas naqueles animais, e de preferência matando-os lentamente!


Não é brincadeira: os bandidos de EXTERMINADOR 2 estão entre os mais desgraçados e sedentos de sangue já mostrados pelo cinema de ação. São punks que se divertem espancando velhinhos e depois matando-os a tiros; que assistem, entre risadas, um piloto de helicóptero queimando vivo quando a aeronave explode; que sequestram uma garota inocente apenas para usá-la como cobaia de uma nova carga de heroína, matando-a de overdose sem cerimônia; que apunhalam lentamente uma vítima inocente e ainda comentam que adoram ver "o olhar aterrorizado da vítima enquanto morre", e por aí vai. Enfim, uns filhos-da-puta incorrigíveis que jamais poderão ser "reintegrados à sociedade", e que merecem MESMO morrer queimados vivos!


O líder da trupe é X (!!!), um sujeito hilário que parece refugo de alguma cópia italiana de "Mad Max 2". Ele se veste com umas tiras de couro, tem um penteado bizarro e fica fazendo poses de rockstar enquanto dá discursos mulambentos do tipo "Nós vamos estabelecer uma nova ordem nessa cidade. Eu sou o Messias, e vocês são os meus guerreiros!".

O que torna tudo mais engraçado é o fato de X (hahaha) ser interpretado por Mario Van Peebles, filho do cineasta Melvin Van Peebles, aqui em sua estreia no cinema. Mario conseguiu certa notoriedade DEPOIS como ator em filmes bem melhores, e também como diretor de produções "socialmente engajadas", tipo "New Jack City - A Gangue Brutal" e "Os Panteras Negras" (uma espécie de Spike Lee menos talentoso). Por isso tudo, é hilário vê-lo aqui como vilão estereotipado em sua grande estreia (sim, isso foi ironia) como protagonista.


E EXTERMINADOR 2 é mais uma daquelas aventuras que funciona pelos motivos errados. Se como cinema o filme é uma atrocidade - mal-dirigido, mal-escrito e mal-interpretado, além de uma péssima desculpa para "continuar" uma história que já estava suficientemente bem resolvida -, como trashão para ver com os amigos é uma verdadeira obra-prima, no mesmo nível do semelhante "Desejo de Matar 3", que foi realizado dois anos depois. Aliás, uma Sessão Dupla com os dois filmes seria algo inesquecível!

Se você já achava o original "O Exterminador" de uma brutalidade sem tamanho (e realmente é, um daqueles filmes "feios, sujos e malvados" como não se faz mais), saiba que EXTERMINADOR 2 é uma ode a tudo que é mais casca-grossa e violento, sem um pingo de sutileza ou "finésse". Quase todos os seus personagens são brucutus que só pensam em matar e que merecem morrer, perambulando por cenários pobres e sujos que às vezes até lembram uma aventura pós-apocalíptica.


O comandante dessa tosqueira é Mark Buntzman, em seu primeiro e único filme. Ele também roteirizou e co-produziu, e, para quem não lembra, foi o produtor do original.

Entretanto, o IMDB e vários sites informam que houve intervenções de um segundo diretor, William Sachs, de "O Incrível Homem que Derreteu" e "Galaxina". Nos créditos finais, Sachs aparece como "diretor de cenas adicionais".


A história é meio complicada e ainda não consegui averiguar o quanto da culpa de EXTERMINADOR 2 é de um ou de outro. Algumas fontes afirmam que Sachs foi o primeiro diretor contratado, mas estava conduzindo o filme numa levada mais sombria e realista, no estilo do original; foi então afastado pelos produtores, que queriam uma aventura barulhenta e absurda, e substituído por Buntzman, que fez exatamente o que vemos no produto final.

Outras fontes dizem que foi o contrário: Buntzman entregou um filme tão medíocre que Sachs foi chamado às pressas na pós-produção para gravar novas cenas e mais ação para tentar "melhorar" o resultado final.


Sabendo que William Sachs foi um célebre "consertador" de filmes alheios (ele gravou cenas adicionais para várias outras produções assinadas por outros, como "Joe" e "O Duende"), eu diria que a hipótese mais correta é esta segunda. Até porque Buntzman aparece dirigindo e comentando o filme num interessante making-of que pode ser encontrado no YouTube.

Agora, até onde chegam os "remendos" de Sachs... esse é outro mistério. Alguns sites juram que todas as cenas que mostram o Exterminador usando seu lança-chamas para matar bandidos foram gravadas depois que o filme já estava pronto, e com um dublê no lugar do astro Robert Ginty, que já tinha terminado seu trabalho e voltado para casa - o que de certa forma justifica o fato do personagem usar uma máscara de soldador que cobre o seu rosto nestas cenas!


Alegam estas fontes que Buntzman teria feito um filme mais lento, em que o Exterminador deixava de matar e só voltava à ativa no final, quando a gangue de X começava a lhe complicar a vida.

Os enxertos com o vigilante usando seu lança-chamas realmente parecem deslocados na narrativa (o herói mascarado simplesmente aparece do nada, torra os vilões e sai de cena), e nunca vemos um único take com Ginty colocando a máscara ou pegando o lança-chamas - fortes evidências para sustentar esta versão.


Buracos gigantescos na narrativa evidenciam cortes. No final, X chama John pelo nome, mas em nenhum momento do filme é mostrado como o vilão descobriu a identidade do Exterminador.

Além disso, durante toda a cena final, o Exterminador usa a tal máscara que esconde o seu rosto, como se fosse um super-herói que não pode revelar a identidade. Ou seja: a conclusão inteirinha deve ter sido refeita com um dublê no lugar de Ginty!

O próprio confronto final entre Eastman e X foi modificado: cenas do making-of mostram herói e vilão em luta corporal (foto abaixo), enquanto na conclusão "oficial" do filme eles nem chegam a ficar frente a frente! Como será que era o final original?


E há relatos de que muitas outras coisas teriam sido mudadas em relação ao corte original de EXTERMINADOR 2. Se você assistir o trailer (vídeo abaixo) logo depois de ver o filme, vai perceber que o preview tem uma porção de cenas que não chegaram ao corte final, como a explosão de uma bomba no clube onde Caroline dança.

Isso tudo apenas alimenta a mitologia de EXTERMINADOR 2: não bastasse o negócio já ser toscamente divertido, fica ainda melhor quando você reassiste tentando descobrir quais cenas foram adicionadas à montagem na pós-produção, e em que momentos Ginty foi substituído pelo tal dublê (Shane Dixon e Artie Nay interpretam o vigilante mascarado nas cenas enxertadas).

Algumas das regravações ficam bem evidentes pelo fato de o cabelo de Van Peebles mudar radicalmente: em pelo menos três momentos diferentes, o topetão armado de X vira uma singela franjinha, porque as cenas foram filmadas na pós-produção, quando Mario já tinha cortado o cabelo para estrelar o musical "Rappin' e os Selvagens", também realizado pela Cannon (dá para perceber bem a diferença de penteado, e até de figurino, nas fotos abaixo, que mostram dois momentos diferentes do filme).


A pobreza franciscana de EXTERMINADOR 2 também ajuda a aumentar o fator trash da produção: repare nos cenários toscos do night club e do consultório médico, nas gratuitas cenas de dança de Caroline (talvez uma tentativa de explorar o sucesso de "Flashdance", lançado no ano anterior) e na patética cena de sexo entre Ginty e Deborah Geffner, uma das coisas mais brochantes já filmadas.

Porém nada pode preparar o espectador para o confronto final, uma daquelas cenas de fazer o espectador rolar de rir pelo chão da sala. Pois o Exterminador transforma o caminhão de lixo do seu amigo Be Gee em tanque de guerra (!!!), blindando-o e adicionando metralhadoras de grosso calibre e lança-foguetes na fuselagem.


Epa, peraí: onde ele conseguiu as armas? Acredite ou não, Be Gee tinha tudo guardado num depósito. "Eu estava esperando o momento certo para usar", justifica ele. Chega a doer a barriga de tanto rir, e lembra até o personagem de Martin Balsam no posterior "Desejo de Matar 3", que levou duas metralhadoras para casa como "lembrança" da Guerra da Coréia. Ah, esses roteiristas dos anos 80...

E como desgraceira pouca e bobagem, o filme inteiro é embalado pela i-na-cre-di-tá-vel trilha sonora de sintetizador composta por David Spear. O troço é tão ruim e repetitivo que lembra as musiquinhas dos velhos jogos de Master System ou Nintendinho!


Não faltam, portanto, motivos para condenar EXTERMINADOR 2. É realmente uma sequência sem nenhuma razão de existir, que não leva o personagem a lugar algum, nem acrescenta nada ao que já havia sido mostrado de maneira muito mais realista por James Glickenhaus no filme original. E todos os departamentos do filme vão do ruim ao lamentável.

Mas quer saber? Aí é que está o charme desse autêntico "Filme para Doidos", uma tranqueira mais engraçada que muita comédia, e surpreendentemente divertida nesses tempos politicamente corretos em que mocinho tem que prender o bandido, e de preferência sem judiar muito dele.


Pois aqui o "herói" não quer nem saber de frescura e prepara bandido assado com seu lança-chamas, dando uma banana para os defensores dos direitos humanos e pregando, como em todo bom filme de ação dos anos 1980, que marginal bom é marginal morto.

Isso pode até colocá-lo no mesmo patamar dos vilões, mas e daí? Não tem como recriminar um cara que combate o crime com um lança-chamas e um caminhão de lixo blindado - literalmente "limpando o lixo" das ruas, numa metáfora nada sutil. Aliás, não é toda hora que se vê um herói... LIXEIRO!!!

E vamos combinar que um vigilante que mata bandidos com um LANÇA-CHAMAS é foda demais.

Pena que os tempos mudaram para pior, os filmes de ação ficaram mais fru-frus, Robert Ginty morreu e nunca veremos um "Exterminador 3"...


PS 1: Infelizmente, EXTERMINADOR 2 nunca foi relançado em DVD em nenhum país do mundo. Hoje circulam cópias tiradas de VHS, mas é preciso ter cuidado para não baixar uma das versões bastante cortadas pela censura. A fita lançada no Brasil pela saudosa América Vídeo estava intacta, mas atualmente é peça de colecionador. Na internet, fãs do filme circulam uma petição pedindo para que seja lançada em DVD também a "workprint" com a versão original, antes da gravação de novas cenas.

PS 2: Todo ator respeitado tem que começar por algum lugar, certo? Pois John Turturro, figurinha carimbada nos filmes dos Irmãos Coen e na série "Transformers", começou por aqui. Ele "interpreta" um figurante chamado "Guy nº 1", e sinceramente nunca consegui enxergar ninguém nem parecido com Turturro nas várias vezes que revi o filme. Talvez sua cena esteja entre as muitas que foram cortadas quando o filme precisou ser remontado.

Trailer de EXTERMINADOR 2



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Exterminator 2 (1984, EUA)
Direção: Mark Buntzman (e William Sachs)
Elenco: Robert Ginty, Mario Van Peebles, Deborah Geffner,
Frankie Faison, Scott Randolf, Reggie Rock Bythewood,
Irwin Keyes, Arye Gross e Bruce Smolanoff.


* E a quem interessar possa, eis a capinha do VHS brasileiro do filme - mais uma daquelas antológicas capas azuis com estrelinhas brancas da extinta e saudosa América Vídeo!