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sexta-feira, 10 de julho de 2020

Cada vez mais resenhas curtinhas para analfabetos funcionais

O HOMEM INVISÍVEL (The Invisible Man, 2020, Austrália/EUA/Canadá. Dir: Leigh Whannell)
Com o perdão do trocadilho, a melhor coisa desta nova versão de “O Homem Invisível” é o que NÃO vemos. O diretor-roteirista Leigh Whannell (vindo do ótimo “Upgrade” e das séries “Jogos Mortais” e “Sobrenatural”) utiliza planos abertos em que os personagens parecem sozinhos, sugerindo (porém sem mostrar nada) a presença do vilão invisível em algum ponto do enquadramento. Às vezes, até, o personagem visível sai do quadro e a câmera continua filmando o cenário vazio, forçando o espectador a esquadrinhá-lo de cabo a rabo em busca de qualquer elemento que possa denunciar a presença de um homem invisível ali (o pequeno movimento de algum objeto, a respiração do vilão...). Nem sempre isso acontece, claro, e é possível que Whannell esteja apenas brincando com as nossas expectativas – não há ninguém ali, mesmo invisível. E assim, de maneira especialmente criativa, ele acaba jogando o próprio espectador no pesadelo de paranóia da protagonista: mas E SE houvesse alguém ali? Ao contrário de outras adaptações do tema, cujo foco está no cientista que se torna invisível (desde a primeira adaptação para o cinema, em 1933, até “O Homem Sem Sombra”, de Paul Verhoeven, anos atrás), em “O Homem Invisível” nós enxergamos (ou não) pelos olhos de uma de suas vítimas. Elisabeth Moss, da série “The Handmaid’s Tale”, é a esposa que resolve fugir de casa à la Julia Roberts em “Dormindo com o Inimigo” após anos de uma relação tóxica. O problema é que o ex-marido possessivo, do qual não vemos a cara até a cena final (outra inspirada brincadeira do diretor), é um cientista que pesquisa a invisibilidade, e que usará sua criação para perseguir e enlouquecer a esposa fujona. Também ao contrário de outros homens invisíveis do cinema, que usam sua condição para se gabar e aterrorizar o mundo, o Griffin de 2020 prefere permanecer low profile e err... invisível, para que todos os outros pensem que a pobre protagonista está louca. Whannell sadicamente leva o próprio espectador a considerar que a mocinha está imaginando coisas no início. Mas é claro que, como o filme se chama “O Homem Invisível”, a ameaça anunciada acabará se apresentando. É impressionante o contraste entre este filme e “O Homem Sem Sombra”, lançado 20 anos atrás. Enquanto o filme de Verhoeven usava impressionantes efeitos especiais em CGI para demonstrar a condição do vilão (ele aparece sendo “moldado” por água, fumaça e até sangue), aqui Whannell optou por uma surpreendente abordagem minimalista, limitando as manifestações do seu homem invisível. É somente na meia hora final que a coisa começa a pegar, e curiosamente é nesse ponto que o filme fica mais fraco. Primeiro porque passa do momento ideal para terminar (no ataque de Griffin ao sanatório onde a esposa está internada); depois porque apela para uma lamentável “reviravolta” na identidade do vilão; e finalmente por recorrer a uma cena final desnecessária e absurda. Não chega a estragar o filme, e Whannell volta a se firmar como um dos diretores-roteiristas mais imaginativos da nova geração. Mas, como já acontecera em “O Homem Sem Sombra”, o ato final novamente é o mais problemático – como se nem Whannell, nem Verhoeven soubessem como terminar seus filmes. Ainda assim, dentro do tema, este novo “O Homem Invisível” é (novamente com o perdão do trocadilho) um filme que deve ser visto.


FESTIVAL EUROVISION DA CANÇÃO: A SAGA DE SIGRIT E LARS (Eurovision Song Contest: 
The Story of Fire Saga, 2020, EUA. Dir: David Dobkin)
Eu não morro de amores pelo Will Ferrell e raramente o acho engraçado (“Os Outros Caras” e “Escorregando para a Glória” são raras exceções). Mas tenho um fraco por comédias sobre o mundo da música, e isso me fez encarar “Eurovision” – sobre a famosa competição de música realizada anualmente na Europa, e conhecida pela sua breguice. Ferrell “interpreta” seu personagem de sempre: o bobalhão que almeja uma conquista relevante na vida, aqui em versão islandesa. Ele e Rachel McAdams formam o duo “Fire Saga”, que não é lá muito respeitado na pequena vila de pescadores na Islândia onde os dois vivem. Até que uma trágica explosão mata todos os candidatos locais ao Eurovision, e resta apenas a famigerada Fire Saga para representar o país na competição! O filme escapa da armadilha de apresentar os protagonistas Lars e Sigrit como completos perdedores. Na verdade eles cantam bem e até parecem ter certo talento musical (“Double Trouble”, a música que a dupla apresenta no torneio, é suficientemente grudenta para virar um desses hits de temporada). Claro que como o protagonista de Will Ferrell é um incorrigível trapalhão, tudo que ele toca vira desastre. Outra surpresa do roteiro é não apresentar o principal rival da dupla no Eurovision – um afetado cantor cantor russo interpretado por Dan Stevens – como “grande vilão” da trama, a exemplo do que é comum nesse tipo de história (o cara até se revela gente boa no final). Mas o humor é extremamente limitado, dividindo-se entre as patetices habituais de Ferrell (aqui nem sempre em seus melhores momentos) e tiradas mais específicas sobre o mundo da música, que somente quem tem mais familiaridade com o assunto vai pegar. Além da participação de vários artistas de verdade, como a cantora Demi Lovato e o apresentador de TV Graham Norton, há ainda uma curiosa aparição de Pierce Brosnan como o pai de Will Ferrell. Seu personagem é um tanto desperdiçado, e mesmo num filme que já é longo demais (duas horas!) fica a impressão de que várias das suas cenas foram cortadas – por exemplo, há um antigo conflito entre Brosnan e a mãe da personagem de McAdams que é mencionado apenas vagamente. No fim, ainda que a duração seja um exagero, o filme tem lá seus méritos e diverte até mesmo quem, como eu, não morre de amores por Will Ferrell. E é tão brega e fiasquento quanto o verdadeiro Eurovision.


BALA PERDIDA (Balle Perdue, 2020, França. Dir: Guillaume Pierret).
A julgar pela cena inicial de “Bala Perdida”, parece que teremos um daqueles tresloucados filmes franceses de ação na linha das absurdas franquias “Táxi” ou “Carga Explosiva”. O protagonista Alban Lenoir inclusive está bem parecido com Jason Statham (astro da trilogia “Carga Explosiva”), imitando a careca, a barba por fazer e até a cara de poucos amigos. Ele interpreta Lino, um mecânico especialista em tunar carros comuns para lhes dar mais velocidade e potência. Preso após um roubo que dá errado, ele é libertado por um policial gente boa com a condição de modificar as viaturas de sua equipe, de maneira que possam perseguir de igual pra igual os carros de uma perigosa quadrilha de traficantes que age em alta velocidade. Só que aí rola uma reviravolta, e a história que parecia um “Velozes e Furiosos Parte 15” vira um policial mais pé-no-chão: Lino é acusado por um crime que não cometeu e, perseguido pela polícia e pelos bandidos, precisa limpar o próprio nome. Para isso, deve sobreviver tempo suficiente para localizar um certo veículo com uma certa bala perdida encravada no painel, que pode incriminar uma dupla de agentes corruptos e livrá-lo da cadeia. Em seu primeiro longa, o diretor-roteirista Pierret mandou muito bem, com uma trama simples porém bem conduzida, narrada em ritmo alucinante, que não dá trégua para o espectador. As cenas de pancadaria e perseguição de carros foram filmadas sem os exageros ou atentados às leis da física que caracterizam as produções hollywoodianas na mesma linha. O momento em que Lino enfrenta meia dúzia de policiais para fugir de uma delegacia, por exemplo, passa longe daquelas lutinhas coreografadas que infestam o cinema de gênero, mostrando porradas “feias” e bastante realistas – como se os atores estivessem tentando se machucar de verdade. Também ao contrário do que acontece nesse tipo de filme, socos e cacetadas deixam hematomas enormes e bastante evidentes, especialmente no rosto dos personagens. E tudo converge para um ato final eletrizante, em que o protagonista precisa fugir da polícia conduzindo o carro-evidência que os corruptos querem ver destruído (uma situação semelhante ao final de “Rota Suicida”, de e com Clint Eastwood). Em resumo, “Bala Perdida” é um belo filme, e bem filmado também. O diretor parece entender o que funciona e o que não funciona nesse tipo de história, e evita abusar da boa vontade do espectador, ou dos efeitos de computação gráfica. Lembra bastante aqueles policiais com altas doses de ação que Hollywood fazia tão bem nos anos 1970-80, mas cuja receita parece ter desaprendido. Não se espantem se Guillaume Pierret for importado para os States...


PORNO (2019, EUA. Dir: Keola Racela)
O ponto de partida de “Porno” é genial: estamos em 1992, e os funcionários de uma sala de cinema tentam decidir se vão assistir “O Homem da Califórnia” ou “Uma Equipe Muito Especial” (duas comédias inofensivas que estrearam naquele ano) após o expediente. Só que aí eles encontram uma sala secreta e um misterioso rolo de filme, que resolvem projetar por diversão. Trata-se de um pornô satânico dos anos 1970 (algo no estilo de “Satan’s Lust”, já resenhado aqui), que mexe com a libido da garotada. O problema é que também liberta uma terrível succubus – um demônio com aparência feminina que rouba a energia vital das vítimas através do sexo. Os realizadores se esforçam para ser politicamente incorretos, mostrando nudez frontal feminina e pintos praticamente na mesma proporção. E a ambientação no começo dos anos 1990, quando a pornografia ainda era algo de difícil acesso (e a molecada tinha que assistir filmes “censura 12 anos” na expectativa de ver um peitinho de relance), certamente fará com que muito cinéfilo das antigas se identifique com o “drama” dos personagens. Dá para entender a curiosidade e obsessão dos jovens pelo filme pornográfico encontrado, especialmente considerando o ambiente inofensivo e “censura livre” em que estão inseridos. Infelizmente, a melhor ideia do roteiro (a do demônio que usa as fantasias sexuais de cada personagem para seduzi-los e “alimentar-se” deles) fica em segundo plano da metade para o final, quando o filme vira aquela correria movida a sangue falso e humor negro típica do “horror pós-moderno”. E para um filme chamado “Porno”, que não tem medo de mostrar pintos em close, é notória a ausência do uso de sexo na narrativa. Mesmo no filme “pornográfico” que a molecada descobre, ninguém trepa. Isso cheira a propaganda enganosa, e é particularmente frustrante porque “Porno” poderia ser uma divertida atualização do “Força Sinistra” de Tobe Hooper, com a deliciosa Katelyn Pearce assumindo as formas e curvas de Mathilda May como vilã peladona. Pearce é um colírio para os olhos sem dúvida, mas como vilã nunca assusta ou parece ameaçadora. E é quase completamente desperdiçada; fosse um demônio “normal” ou até um assassino mascarado no lugar dela, pouquíssima coisa precisaria ser alterada na história. Se o roteiro dos estreantes Matt Black e Laurence Vannicelli mais erra do que acerta o alvo, pelo menos o igualmente novato diretor Racela demonstra bastante potencial, com um perceptível cuidado na fotografia, no uso de filtros coloridos e na criação do clima de horror e humor (para o qual colabora bastante a bela trilha de Carla Patullo). Gostei muito do clima retrô nas imagens do filme dentro do filme, que realmente lembra algum cruzamento de pornô “de arte” com terror europeu dos anos 1970 – é uma pena que a ideia do “pornô maldito” não tenha sido melhor aproveitada na narrativa. “Porno” é diversão descartável para quem gosta de bastante nudez gratuita, sangue falso e bobajada em seu filme de terror. Porém o mesmo argumento poderia ter dado origem a algo muito melhor.


ATAQUE A BUSHWICK (Bushwick, 2017, EUA. Dir: Jonathan Milott e Cary Murnion)
Dois anos antes do premiado “1917”, de Sam Mendes, este filme já tinha investido na técnica do “filme de guerra narrado através de longas tomadas sem cortes” – que é sua principal qualidade e ao mesmo tempo o seu maior defeito. Assim como no prólogo do remake de “Dawn of the Dead” por Zack Snyder, o caos começa de repente: a personagem de Brittany Snow desembarca com o namorado em Bushwick, no Brooklyn, e percebe que algo está errado ao encontrar a estação de metrô vazia. De repente, tiros, explosões e pessoas correndo em chamas comprovam que a cidade está sendo atacada por um exército desconhecido, no que parece mais um atentado terrorista em Nova York. O namorado roda quase que imediatamente, e a mocinha precisa juntar forças com um brutamontes veterano de guerra (Dave Bautista) para tentar chegar a um local seguro, enquanto o bairro se transforma em campo de batalha entre as forças invasoras e os moradores, que não pretendem engolir o ataque. Os diretores Milott e Murnion (que também fizeram “Cooties – A Epidemia” e o recente “Becky”) optaram por contar a história em longos planos-sem-cortes que na verdade são falsos: há cortes, claro, mas câmera e montagem procuram disfarçá-los para parecerem tomadas únicas. Não é um found footage porque a câmera não faz parte da ação, e nem fica sacudindo o tempo todo: ela segue os personagens de maneira orgânica, sem nunca desviar do foco – imagine aquele longo plano no final de “Filhos da Esperança”, de Alfonso Cuarón, esticado para um filme inteiro. Isso cria um interessante senso de urgência e de realismo, pois o espectador praticamente participa da ação junto com os protagonistas. Sem cortar deles para outros núcleos de personagens, ou para outros cenários (o quartel-general dos vilões, por exemplo), todas as informações que recebemos sobre o que está acontecendo chegam ao mesmo tempo em que os personagens principais as recebem. E é assim, no meio da ação, que nós e eles descobrimos que não é um atentado terrorista, nem uma invasão estrangeira à la “Amanhecer Violento”: na verdade os Estados do Sul do país resolveram declarar guerra ao restante para formar uma nova nação, iniciando literalmente uma nova guerra civil (uma abordagem visionária, a julgar pelo andar da carruagem aqui no mundo real)! “Ataque a Bushwick” é um prodígio inegável em termos de técnica. O formato “sem cortes” é particularmente eficiente quando o filme começa a despachar, de maneira totalmente inesperada, alguns dos personagens principais; como na vida real, suas mortes acontecem de repente, sem que a montagem ou a trilha sonora preparem o espectador para o que virá (como se estivéssemos assistindo à morte de alguém durante uma transmissão ao vivo pela TV). E o problema é justamente a técnica: enquanto ferramenta narrativa, o formato não é tão eficiente para manter o interesse durante um filme inteiro. Com a proposta de não mostrar cortes (embora eles existam), somos forçados a acompanhar todos os deslocamentos dos personagens de ponto A até ponto B. E boa parte da narrativa é somente isso: gente caminhando, correndo, cambaleando, se escondendo em algum canto para retomar o fôlego, etc. Fica chato rapidinho, e a culpa nem é dos diretores (que tentam manter o ritmo acelerado). Há um belo filme em “Ataque a Bushwick”, e para uma produção B o resultado é particularmente ambicioso (especialmente nas cenas com helicópteros sobrevoando o bairro em chamas). Mas talvez a coisa toda se beneficiasse de uma estrutura mais tradicional, com o uso ocasional dos planos mais longos para criar impacto, e não a narrativa inteira nessa pegada. Mesmo assim, me deixou com a impressão de que o filme poderia ser um belo ensaio, quem sabe até o episódio-piloto, para um futuro seriado de TV adaptando a brilhante graphic novel “DMZ”, da Vertigo, que trata justamente da luta pela sobrevivência numa Nova York devastada por uma segunda guerra civil. Alô Netflix, que tal?


O NEGOCIADOR (Metro, 1997, EUA. Dir: Thomas Carter)
Nos anos 1990, a estrela de Eddie Murphy começava a se apagar. Para manter-se por cima, ele tentou repaginar a carreira com produções diferentes do seu estilo: foi um vampiro em “Um Vampiro no Brooklyn”, de Wes Craven, e assumiu o papel de um policial mais sério e violento neste “O Negociador”, em que tenta se distanciar do bom-mocismo do Axel Foley da série “Um Tira da Pesada”. Jackie Chan tentou fazer o mesmo dez anos antes com “A Fúria do Protetor”, e não funcionou; por que funcionaria com Murphy? O público não quis ver o astro como um novo Dirty Harry, o filme foi um fracasso de bilheteria e Eddie foi forçado a voltar para as comédias bobocas e censura livre. Visto hoje, entretanto, “O Negociador” parece bem melhor do que era lá em 1997. Murphy interpreta Scott Roper, um negociador de reféns da polícia de San Francisco. Ele fica obcecado em pegar um ladrão de jóias sanguinário que matou seu amigo policial, e a caçada coloca herói e vilão em rota de colisão. Thomas Carter, um diretor vindo da TV, garante a dose habitual de tiros e perseguições de carro, e tudo termina numa grande explosão. As cenas de ação funcionam como um relógio, ainda mais nesses tempos de carros e explosões em CGI (em 1997 ainda era tudo “de verdade”). Talvez o grande problema do filme seja a sensação de marmita requentada: não há nada que já não tenha sido visto antes e melhor. Por exemplo: no ato final, o grande vilão amarra a namorada do herói a uma daquelas serras de fábrica, como os vilões já faziam nos tempos do cinema mudo! E mesmo a grande cena de ação – uma demolidora perseguição de carros pelas ladeiras de San Francisco, que termina com um bonde fora de controle destruindo o que passa na frente – já tinha sido mostrada, apenas um ano antes, no superior “A Rocha”, de Michael Bay. Ainda assim, para quem não se importa com clichês e só quer desligar o cérebro e se divertir, “O Negociador” é um filme bastante competente, e melhor dirigido que a média. Percebe-se que Murphy se esforça para ser um policial machão e implacável estilo Bruce Willis ou Stallone (lá pelas tantas, o herói até cogita executar um bandido friamente ao invés de prendê-lo), guardando as gracinhas para as cenas com a namorada – os raros momentos em que vemos o astro em terreno familiar. E o vilão é ótimo: um completo psicopata interpretado por um dos nossos malvados favoritos da época, Michael Wincott. Mesmo mais longo do que deveria (quase duas horas!), “O Negociador” é tão mais divertido que quase tudo que se faz no gênero hoje que dá até para perdoar alguns problemas sérios do roteiro. O filme também traz uma das cenas de mulher pelada mais gratuitas da história do cinema quando, poucos minutinhos antes de os créditos finais começarem a subir, mostra duas moças de topless na praia durante milésimos de segundo, só para fechar com peitolas uma aventura que até então tinha zero nudez! Com o fracasso deste nas bilheterias, Eddie foi forçado a retornar a investimento seguro e passou duas décadas falando com animais (em “Dr. Dolittle”) ou sendo um animal falante (dublando o Burro, da série “Shrek”), num lamentável desperdício de talento. Queria ver mais filmes dele como este “O Negociador”...


A VASTIDÃO DA NOITE (The Vast of Night, 2019, EUA. Dir: Andrew Patterson)
Numa das cenas-chave em “A Vastidão da Noite”, que sozinha dura uns bons 12 minutos, uma velha maluca conta uma looooonga história num plano fixo e quase sem cortes. Até chegar nos finalmentes, e dizer o que interessa, ela enrola como se não houvesse amanhã: fala da linha de trem Alamogordo-El Paso que foi construída quando ela era pequena, da amiga Charlotte e da cama da amiga Charlotte, do pai de Charlotte que era pastor metodista, do marido e do filho que teve fora do casamento, etc etc. Parece que nunca vai chegar a lugar algum, mas ninguém a está apressando. E fala. E fala. E fala... Pois esta cena resume “A Vastidão da Noite” com perfeição: o filme todo é uma longa digressão, uma história que ameaça várias vezes chegar aos finalmentes, mas aí volta para as beiradas e segue enrolando, enrolando, enrolando. Tipo quando aquele seu amigo enfeita a piada na hora de contar, para deixá-la mais longa, enchendo-a de floreios que não mudam nada quando finalmente chega o final – que é o mesmo, leve-se dois minutos ou 20 para contar. Trata-se da história de um casal de jovens (ele um radialista, ela a atendente da central telefônica) naquela típica cidadezinha dos Estados Unidos dos anos 1950. Numa noite em que todos além dos dois parecem estar num jogo de basquete, estranhos sons chegam pelo terminal telefônico, e a moça pede ajuda ao radialista para decifrar o mistério. Não há nenhuma dúvida de que o longa é uma linda e nostálgica homenagem ao cinema de ficção científica do período que retrata, ou a seriados de fantasia tipo “Além da Imaginação”. Também não há nenhuma dúvida de que seu diretor, o estreante Andrew Patterson, não é bobo (o cara acumula cinco funções no filme, que tecnicamente é impressionante). O problema é o tanto de enrolação e o tanto de técnica a serviço de nada. Você sabe o que é “verborragia”? De agora em diante, podemos definir o termo usando o nome deste filme: seus personagens nunca calam a boca, mas raramente falam algo que interesse à narrativa. Na longa introdução (vinte minutos só ela), somos apresentados aos dois personagens principais enquanto eles conversam sem parar, entre si e com várias outras pessoas que entram e saem do quadro. Como no exemplo da piada cheia de floreios, em dois minutos você já sabe tudo que precisa sobre os protagonistas, mas o diretor passa vinte com os dois. Aliás, o longa inteiro parece ser um exercício para o estreante Patterson se exibir. Numa cena incrível, que é mesmo de cair o queixo, a câmera sai da central telefônica, atravessa velozmente a cidade, entra no ginásio durante a partida, sai dali, continua atravessando velozmente a cidade, e finalmente entra na estação de rádio, tudo sem cortes aparentes. Propósito narrativo? Nenhum que eu tenha percebido, mas é uma cena linda. Se gostei do filme? Provavelmente não, mas pelo menos não odiei. Mais de uma vez me deu vontade de parar de ver, mas aguentei firme para ver onde aquilo iria parar. Considerável parcela da humanidade não passará do interminável falatório de 20 minutos na introdução, e nem sei se deveriam passar mesmo – a conclusão não é nada que qualquer um já não espere desde que leu a sinopse do filme. Então não acho injusto dizer que “A Vastidão da Noite” é muito bonito e bem feito, mas um gigantesco nada, cheio de floreios, diálogos redundantes e cenas esticadas. E o final da piada é o mesmo, leve-se dois ou 90 minutos para contar.


SCARE PACKAGE (2019, EUA: Dir: Vários diretores)
Por esses dias eu comentei que antologias de horror são a nova praga a infestar o gênero, e logo agora que acabamos de superar coisas como o torture porn e o found footage. Se antigamente havia uma preocupação em criar antologias temáticas com certo nível de qualidade, hoje o formato virou desculpa para juntar os amigos, unir curtas sem relação sob um mesmo título e criar um longa facinho para desovar nos festivais e plataformas de VOD. “Store Package” é mais uma dessas antologias feitas em linha de produção. Alguns segmentos (os melhores) brincam com os clichês do cinema de horror dos anos 1980, e a seleção toda poderia ter seguido nessa pegada; outros, entretanto, estão ali por sabe-se lá que critério – além da óbvia amizade entre o grupo de diretores –, e destoam do conjunto. A arte do pôster e o wraparound (a história que tenta conectar os episódios) procuram evocar nostalgia com a lembrança das videolocadoras, mas a narrativa que se passa ali é bem fraquinha, e não serve sequer para ligar as histórias de maneira decente (podiam ter colocado cinéfilos discutindo filmes imaginários ou ideias para filmes na tal locadora, e aí apresentar os episódios, mas nem isso...). Entre as boas ideias, “Cold Open”, de Emily Hagins, é uma hilária brincadeira de metalinguagem sobre aquele cara cuja única função num filme de horror é dar início à história (tipo o corretor imobiliário malandro que vende a casa mal-assombrada para os protagonistas). Quando ele tenta mudar o próprio destino e participar mais ativamente de uma história de terror, acaba criando uma série de sangrentas confusões, em “mortes acidentais” que lembram o hilário “Tucker e Dale Contra o Mal” (2010). Já “One Time In The Woods”, de Chris McInroy, e “The Night He Came Back Again! Part IV: The Final Kill”, de Anthony Cousins, brincam de maneira inspirada com o universo do cinema slasher. Sim, já houve dezeans, quiçá centenas de sátiras ao slasher, e eu mesmo fiz duas; mas, quem diria, McInroy e Cousins conseguiram encontrar pontos de vista e piadas novas – especialmente o último, que enfoca a sangrenta vingança de uma final girl contra o psicopata mascarado que matou todos os seus namorados em massacres anteriores. Os outros episódios são ruins demais para comentar, com lobisomens, adoradores do demônio, garotas malvadas e a luta entre uma mulher e o espírito que tenta possuir seu corpo. De repente, o wraparound evolui e se torna ele próprio uma última história, bem longa, mostrando um centro de pesquisas onde cientistas estudam os clichês do cinema de horror – como a quantidade de vezes que uma garota tropeça e cai ao ser perseguida por um assassino mascarado! A ideia é boa e tem até uma participação do mitológico Joe Bob Briggs “interpretando” ele mesmo. Mas o fato de esta última história aparecer só na finaleira acaba tornando o filme mais longo do que o necessário (1h47min no total!), quando poderia ter sido originalmente o wraparound ao redor do qual os episódios se desenvolvem, ao invés da bobajada na videolocadora. “Store Package” termina empatado, com tantas histórias legais quanto ruins. A longa duração torna o conjunto ainda mais irregular, e certamente boa parte do público-alvo não vai aguentar até o final. Mas o senso de humor bizarro, e o uso de efeitos práticos mostrando sangue, desmembramentos e melecas diversas, torna-o especialmente divertido para fãs do terror-podreira da década de 1980. É bem melhor que outras antologias recentes produzidas com muito mais dinheiro, como “Nightmare Cinema” e “Feriados”. Mas um maior cuidado na seleção dos episódios, e especialmente com a montagem (80 minutos seria o tempo ideal para um projeto independente como esse), certamente teria rendido algo mais palatável.


TEMPESTADE (Hard Rain, 1998, EUA. Dir: Mikael Salomon)
Assim como “O Negociador” mais acima, “Tempestade” é outro filme que deixei passar quando foi lançado, e que redescobri apenas agora. Filmado em 1996, anunciado para 1997 e então engavetado até 1998, o filme é uma curiosa mistura de cinema-catástrofe com filme de ação, que deu o azar de sair num momento em que estavam rolando muitas outras produções na mesma linha (tipo “Daylight”, com Stallone, ou “O Inferno de Dante”). Para piorar, quando finalmente chegou aos cinemas, “Tempestade” foi espinafrado por crítica, público e até por parte do elenco – tipo os astros Morgan Freeman e Minnie Driver, que já na época declararam ter odiado a experiência. Pois eis que hoje o filme parece melhor, reproduzindo com complicados efeitos práticos algo que atualmente seria filmado em frente a uma tela verde. Christian Slater, que naqueles tempos tentava a sorte como um improvável herói de ação (estrelou “Broken Arrow – A Última Ameaça”, do John Woo, pouco antes), é um vigia de carro-blindado que, durante uma forte tempestade, acaba ficando empacado numa cidadezinha que foi evacuada. Parte dela já está inundada, mas há a possibilidade de que possa submergir por completo a qualquer momento. Atacado por assaltantes liderados por Morgan Freeman (!!!), ele esconde o dinheiro que estava transportando e passa o resto do filme tentando sobreviver entre ruas e prédios cobertos de água. A produção deste negócio deve ter sido infernal e lembra um “Waterworld” em menor escala: o elenco passa o filme todo completamente ensopado ou debaixo d'água, em cenários total ou parcialmente inundados. E é água mesmo, com raríssimo uso de computação gráfica. Perseguições de jet-ski dentro de prédios inundados, ou de barco a motor pelas ruas alagadas da cidade, substituem as estripulias com motos e carros comuns ao gênero, em cenas que devem ter sido complicadíssimas para filmar. E se a “ação” em si não tem nada de espetacular (salvo as burocráticas trocas de socos e de tiros de sempre), os momentos de suspense e perigo envolvendo o cenário submerso são muito boas, tensas até. Vide o momento em que Slater está preso numa cela que começa a alagar rapidamente, e precisa usar o tubo de uma lanterna para conseguir respirar; ou Minnie Driver, algemada ao corrimão de uma escada, tendo de desmontá-lo degrau a degrau à medida que o nível da água sobe para afogá-la! No ato final, o momento em que três diferentes grupos de personagens duelam pela fortuna escondida num cemitério soa como uma homenagem ao western spaghetti (especialmente ao final de “Três Homens em Conflito”), trocando o cenário desértico do Velho Oeste por um completamente alagado. E como desastre pouco é bobagem, o clímax ainda reserva o rompimento de uma represa para deixar as coisas ainda mais molhadas! O diretor Salomon foi escolhido a dedo para a árdua tarefa por ter sido diretor de fotografia em “O Segredo do Abismo”, de James Cameron, e ter a expertise necessária para filmar na água. Pena que o resultado não convenceu vinte anos atrás, e sua carreira ficou relegada a telefilmes e seriados a partir de então. Tudo considerado, é uma bela maneira de desperdiçar 90 minutos da vida: uma aventura divertida, filmada com certa energia, e que, em vários momentos, faz o espectador se questionar como diabos conseguiram filmar aquilo. Em resumo, cinema é isso.


FORCE OF NATURE (2020, EUA. Dir: Michael Polish)
Se você já viu “Tempestade” (resenhado logo acima), “Force of Nature” soará como um mais do mesmo – algo na tênue linha entre a referência e o plágio. É sobre criminosos tentando roubar o precioso conteúdo de um cofre, num prédio vagabundo em Porto Rico que deveria ter sido evacuado (por causa de um furacão que se aproxima). E onde, por ironias do destino, estão três policiais – dois jovens, interpretados por Emile Hirsch e Stephanie Cayo, e outro velho, resmungão e com os rins falhando vivido por... Mel Gibson?!? Quando os dois grupos se encontram, começa o que parece uma mistura de “Tempestade” com “Duro de Matar”, já que os heróis em desvantagem numérica (e de poder de fogo) precisam fugir pelo edifício, e se esconder, em busca de maneiras para pegar seus antagonistas separadamente. Depois de um início promissor, o roteiro de Cory Miller começa a perder o fôlego e nunca mais o recupera. A ambientação num prédio vagabundo e deserto poderia render situações claustrofóbicas e muito suspense. Na prática, porém, heróis e vilões ficam zanzando eternamente pelos corredores do maior prédio vagabundo da história do cinema (parecia tão pequeno por fora...), encontrando-se muito raramente para trocar tiros e socos. Sem nenhuma tensão ou senso de urgência, os heróis entram e saem dos apartamentos para se esconder, descansar, curar ferimentos ou pegar armas e munições, raríssimas vezes sendo importunados pelos vilões – que, por sua vez, seguem a zanzar pelos corredores do edifício como se fosse um arranha-céu com centenas de andares! O diretor Michael Polish sequer sabe o que fazer com a ameaça anunciada do furacão, já que este nunca é usado para tentar criar suspense, ou pelo menos apressar as ações dos personagens (tipo: “Temos que sair daqui em 20 minutos ou o furacão vai derrubar o prédio, ou submergir o prédio, ou o que seja”). Uma única cena num porão inundado parece remeter ao já mencionado “Tempestade”, mas é muito pouco para um filme batizado “Force of Nature” (está mais para Weakness of Nature). De mais a mais, os vilões são patéticos e fica difícil diferenciar um do outro; apesar do pôster enganoso, Gibson não é o protagonista, fazendo apenas uma participação especial longa, e Emile Hirsch definitivamente não convence como herói de ação. Kate Bosworth, que já foi até Lois Lane (em “Superman Returns”), tenta mostrar serviço com a filha enfermeira do personagem de Gibson, mas é outra que parece ter caído de pára-quedas ali E quando você acha que não pode piorar, o filme despeja uma tonelada de bobagem para cima do espectador – incluindo um TIGRE mantido em cativeiro dentro de um dos apartamentos e convenientemente treinado para atacar policiais! Se as cenas com Mad Mel valem uma espiada (o papel de “velhote ranzinza e mal-encarado” vem lhe caindo muito bem), de resto é um filme bem meia-boca, que se não tivesse atores conhecidos não passaria nem no Domingo Maior.


YOU SHOULD HAVE LEFT (2020, EUA. Dir: David Koepp)
Este é um daqueles projetos que no papel deve ter soado uma beleza, mas que depois de pronto passa aquela sensação de que faltou algo. Kevin Bacon e Amanda Seyfried interpretam um casal em crise – ele tem ciúmes possessivo dela, que é duas décadas mais jovem. Para tentar salvar o casamento, vão passar uma temporada com a filha num casarão na zona rural do País de Gales. Não é um casarão gótico ou antiquíssimo, como os das histórias de horror, mas uma construção modernosa que soa como algo alienígena ali naquela paisagem. Claro que os fenômenos estranhos de praxe irão assombrar o trio, numa história de horror lenta e à moda antiga que empresta elementos de várias outras fontes mais conhecidas. Em teoria, o filme foi baseado numa novela de Daniel Kehlmann. Mas toda a situação básica, da família isolada num casarão que parece ter vida própria, lembra “O Iluminado” (tanto o livro de Stephen King quanto a obra-prima do Stanley Kubrick). Do protagonista que vai ficando mais sinistro ao casamento que degringola com o isolamento, passando por um fantasma submerso numa banheira, juro que lá pelas tantas só faltava mesmo a filhinha começar a demonstrar poderes sensoriais! A exemplo do Overlook Hotel de Kubrick, o casarão tem uma arquitetura impossível: parece maior por dentro (algo que também remete ao conto “Os Sonhos na Casa da Bruxa”, de H.P. Lovecraft), tem portas que se abrem para escadas que não deveriam estar lá, e corredores que fazem andar em círculos e até voltar no tempo! Em suma, a ideia não é das piores, mas o diretor-roteirista Koepp não consegue aproveitá-la de maneira que pareça algo original, ou mesmo interessante. Considerável parte do filme é apenas Kevin Bacon zanzando sozinho pelo casarão escuro, testemunhando algo terrível e então acordando assustado, e consequentemente passando a acreditar que tudo foi um pesadelo. Lá pela metade, a família fica de saco cheio e resolve se mandar dali, e juro que fiquei surpreso porque deve ser a única atitude racional que eles tomam o filme inteiro. Mas aí obviamente é tarde demais (vide a tradução do título, “Vocês Deveriam Ter Ido Embora”), e serão criadas as dificuldades sobrenaturais de sempre para evitar que os personagens abandonem o local. Para piorar, a conclusão é de uma covardia tremenda e mereceria um zero no quesito criatividade. Quem encarar pode até ficar feliz com o fato de ser um horror menos baseado em jump-scares do que a média recente. E algumas ideias são boas, como o personagem interagindo sem saber com uma versão de si mesmo em outro tempo. Mas que tem cara de telefilme de segunda linha, a despeito dos nomes envolvidos, isso tem!


CATS DON´T COME WHEN YOU CALL (Neko nanka yondemo konai, 2016, Japão. 
Dir: Toru Yamamoto)
O cinema oriental produz mais filmes fofinhos com gatos do que é humanamente possível acompanhar, e este aqui é mais um neste filão. A exemplo do recente “If Cats Disappeared From The World”, trata-se de um dramalhão japonês destinado (exclusivamente, eu diria) aos fãs dos felinos. Baseada num mangá homônimo e autobiográfico, a trama acompanha um jovem boxeador que vive com o irmão mais velho, que é justamente desenhista de mangá. Certo dia, o irmão traz para casa dois gatinhos que encontrou abandonados na rua. O boxeador, que prefere cachorros, começa estranhando o relacionamento com aqueles bichos curiosos, que, como diz o título, não vêm quando você chama, e têm hábitos muito esquisitos. Aí o irmão mais velho vai embora, para viver com a namorada, e o caçula fica sozinho pela primeira vez na vida cheio de dívidas, de incertezas sobre o futuro, e com os dois gatinhos para cuidar – uns encontrando força nos outros para suportar as diferentes adversidades que surgem. A parte mais curiosa do filme é que ele prefere acompanhar o relacionamento entre humanos e gatos ao invés de intercalar com o relacionamento entre humanos – inclusive sacrificando uma subtrama romântica envolvendo o boxeador e uma garota que lhe ensina muito sobre os bichos. Como já adverti, trata-se de um dramalhão, e dos mais lazarentos, que lança mão dos recursos mais baixos para forçar as lágrimas no espectador. Lá pelas tantas, um grave problema de saúde impede o rapaz de seguir boxeando (arruinando seu sonho de vida). E um dos gatinhos também acaba pegando uma pereba que põe sua vida em risco, estilo “Marley e Eu”, forçando o protagonista a valorizar ainda mais o convívio com o pobre animal. Totalizando 100 minutos, o filme é muito mais longo do que deveria, e começa a ficar meio redundante a partir da metade, quando o dramalhão toma conta da narrativa. Mesmo assim, os “atores gatos” são simpáticos e muito expressivos; ficam fazendo todo tipo de palhaçadas que nem imagino como o diretor conseguiu filmar – os bichos sequer parecem estranhar a presença da câmera. Só por isso já vale uma espiada: é tipo ficar vendo duas horas de vídeos de gatinhos fofos, intercalados com uns humanos choramingando de vez em quando.


THE DUSTWALKER (2019, Austrália/Emirados Árabes. Dir: Sandra Sciberras)
Se você já viu dois ou mais filmes de ficção científica sobre alienígenas invadindo e roubando corpos humanos (seja as muitas adaptações de “Invasores de Corpos”, ou “Invasores de Marte” e seu remake, ou mesmo “O Enigma de Outro Mundo”), pode pular esta reciclagem contemporânea do mesmo argumento. Porque “The Dustwalker” não apenas não traz qualquer ideia nova para somar aos citados, mas também é bem ruim. Estamos numa cidadezinha australiana daquelas que ficam no cu-do-mundo (leia-se longe da civilização, e rodeada por deserto a perder de vista). Por algum motivo inexplicável, um organismo alienígena elegeu este lugar como ponto zero para seus planos de dominação do planeta. Na forma de um pó vermelho, ele começa infectando animais, e destes passa para os humanos, que, dominados pelo organismo, se transformam em assassinos ferozes. Ou pelo menos este era o argumento da diretora-roteirista Sandra Sciberras: na verdade, o comportamento dos infectados é bastante errático, e os sujeitos passam considerável parte do tempo apenas stalkeando os personagens ainda humanos (tipo Michael Myers fazia com Jamie Lee Curtis no “Halloween” original), para apenas de repente começarem a atacar. E apesar de ser uma cidadezinha no cu-do-mundo onde todo mundo se conhece, ninguém estranha quando vê Fulano ou Beltrano – que, já sabemos, foram contaminados pelo alienígena – parados de maneira sinistra no meio da rua ou da calçada, com perebas pelo rosto inteiro, às vezes até sangue pingando das mãos! Entra em ação uma das piores personagens femininas dos últimos tempos (Jolene Anderson), como a policial que tenta livrar a tal cidadezinha no cu-do-mundo da ameaça extraterrestre. Talvez por limitações orçamentárias, ou preguiça mesmo, nem ela, nem o parceiro usam uniforme, ou trabalham numa delegacia identificada como tal (só fui entender que eles eram policiais quando alguém menciona isso verbalmente lá pelas tantas). O grande pecado de “The Dustwalker” é que Sandra leva tudo terrivelmente a sério, ao invés de usar humor para aliviar um pouco o clima do filme – sendo uma história que já vimos a sério algumas dezenas de vezes, fazer graça com ela talvez ajudasse a ficar mais palatável. E de repente aparece um monstrengo alienígena, que visualmente lembra muito o CGI de 20 anos atrás (especialmente o Escorpião-Rei de “O Retorno da Múmia”), para terminar de afundar o filme. Percebe-se que a diretora-roteirista leu muito Stephen King na vida, pois seus personagens e as relações entre eles têm muito dos caipiras das cidadezinhas fictícias criadas pelo autor (tipo Derry, Castle Rock e Haven). Mas isso não consegue salvar o filme de ser uma desgraça completa, com uma ideia pra lá de batida e nada de novo para contar. Resta torcer para que o monstro gigante ou o organismo alienígena aniquilem a cidade inteira o mais rápido possível – um alívio que, infelizmente, o espectador não terá.


PREDADORES ASSASSINOS (Crawl, 2019, EUA/Sérvia/Canadá. Dir: Alexandre Aja)
Num filme tailandês de 2018 chamado “The Pool”, um sujeito é esquecido numa piscina olímpica vazia depois da filmagem de um comercial. Sozinho e incapaz de sair do interior da piscina (que é muito alta e não tem escadinha), precisa enfrentar o sol, fome e sede, além de um crocodilo que subiu pelo ralo! É um thriller tenso especialmente enquanto aborda a luta pela sobrevivência do protagonista, e suas tentativas de escapar da enrascada em que está metido. Só que “The Pool” afunda (sem trocadilho) toda vez que entra em cena o crocodilo produzido por computação gráfica – um monstro tosquíssimo, mais falso impossível. “Predadores Assassinos” tem a mesmíssima pegada e os mesmíssimos defeitos. Em outra situação-limite simples e absurdamente tensa, a mocinha (Kaya Scodelario) e seu pai (Barry Pepper) estão presos no porão da casa da família após uma inundação, sendo perseguidos por dois enormes crocodilos que entraram pelo cano de drenagem. Os primeiros 40 minutos são bem dignos, com apenas dois atores em cena enfrentando os crocodilos num jogo de suspense e paciência. Os bichões em computação gráfica são tão fakes quanto aquele em “The Pool”, mas o filme consegue criar suspense e até nos faz torcer pelos personagens – mesmo quando eles cometem uma burrice atrás da outra, tipo aquela envolvendo um telefone celular. É da metade para o final que o troço realmente desanda, e a história que se levava relativamente a sério vira um festival de absurdos na linha daqueles filmes de monstro da The Asylum ou do Sci-Fi, extrapolando todos os limites do suspension of disbelief. Ou alguém realmente acredita que um crocodilo gigante possa abocanhar a perna ou braço de alguém e NÃO arrancá-lo, deixando apenas um ferimento superficial nos protagonistas – ferimento este que é prontamente esquecido assim que eles precisam correr ou nadar por suas vidas, lógico. Vítimas secundárias não têm a mesma sorte e são despedaçadas e desmembradas em segundos, como se fossem feitas de manteiga, o que leva a crer que os répteis usam mordeduras de intensidade diferente para os protagonistas e para os “descartáveis” da trama. A narrativa tampouco padroniza a força dos bichos, que num momento conseguem atravessar escadas de madeira e vidraças, no outro são bloqueadas por um simples boxe de chuveiro. Para piorar, o pai é um autêntico super-homem, capaz de resistir a mordeduras profundas, e até a uma fratura exposta, sem sangrar até a morte ou entrar em estado de choque. Acompanha-se o filme com interesse até o final, mas é uma pena que aquilo que começa como um thriller tenso se transforme numa comédia involuntária digna de “Crocodilo”, aquele trashão de quinta categoria que o Tobe Hooper dirigiu nos anos 2000. Melhor seria se o filme decidisse por um ou outro clima desde o início, e o mantivesse. Pelo menos não se pode dizer que “Predadores Assassinos” seja chato, e com o devido senso de humor pode até ser encarado como comédia involuntária e ficar ainda mais divertido. Mas basta de crocodilos de CGI, por favor. E como é triste perceber a decadência do diretor francês Alexandre Aja, um nome tão promissor lá no começo com “Haute Tension” e a refilmagem de “Quadrilha de Sádicos”...


DESTACAMENTO BLOOD (Da 5 Bloods, 2020, EUA. Dir: Spike Lee)
Que um novo filme do Spike Lee é essencial em tempos de “Black Lives Matter” e bem no meio de uma nova onda de protestos raciais pelos Estados Unidos, não há dúvidas. Mas nessas horas também é importante não se deixar levar pelo coração e analisar seu “Da 5 Bloods” como o que ele realmente é: um trabalho irregular, desnecessariamente longo, que se perde da metade para o final; com algumas ideias geniais, mas outras nem tanto. A primeira versão do roteiro, que ficou anos circulando por Hollywood, era da dupla egressa do cinema B Paul De Meo e Danny Bilson (que escreveram “Trancers” e “Rocketeer”). Quando Lee entrou no projeto, reescreveu quase tudo com Kevin Willmott. A trama, que se passa no presente e no passado, mostra quatro veteranos do Vietnã, todos negros, voltando ao país onde lutaram contra a vontade nos anos 1960. O objetivo é tanto resgatar os restos mortais de um quinto companheiro deixado para trás, quanto a fortuna em ouro que eles roubaram e enterraram ainda durante a guerra (uma situação que lembra o excelente “Três Reis”, de David O. Russell, este situado na Guerra do Golfo). O primeiro ato é inspiradíssimo, com os coroas participando de uma animada festinha chamada “Apocalypse Now” e zanzando por um país pelo qual deram o sangue quase meio século atrás, lutando uma guerra que não era deles, numa época em que preferiam estar em casa lutando pelos próprios direitos. Um deles, Delroy Lindo, demonstra-se ele próprio um racista em relação aos vietnamitas, que ainda vê como inimigos de guerra, comprovando que o preconceito não tem cor e nem fim, só muda de alvo. Os flashbacks que remetem ao conflito são igualmente inspirados, com os quatro atores envelhecidos interpretando também suas contrapartes mais jovens, e apenas o quinto homem, o que morreu no Vietnã, representado como era então (pelo Pantera Negra Chadwick Boseman), já que a morte eternizou-lhe naquele visual, à la Bruce Lee ou Marilyn Monroe. O espectador até lamenta que essas memórias de guerra sejam tão poucas ao longo das quase três horas de narrativa. No momento em que o grupo finalmente entra na selva (acompanhado pelo filho de um deles, para fechar o “novo” quinteto), a narrativa começa a se perder em infinitas briguinhas e discussões (revelando feridas abertas do passado), e a apelar cada vez mais para um irritante senso de casualidade e conveniência. Me refiro ao fato de nossos protagonistas serem localizados com facilidade tanto por providenciais aliados, quanto por vilões de olho no ouro, estando numa selva com milhares de quilômetros de extensão (segundo a Wikipédia, metade do país é selva!). E mesmo da localização de providenciais minas terrestres, esquecidas desde os tempos da guerra, sempre que é preciso matar algum personagem. Como já fez várias vezes, o diretor Lee usa impactantes imagens históricas reais para mostrar que pouco mudou em termos de racismo nos Estados Unidos – e fatos como a recente execução de George Floyd, um homem negro desarmado, pela polícia apenas reforçam este sentimento e fazem “Da 5 Bloods” parecer mais atual e pertinente. A trilha sonora regada a Marvin Gaye e os diferentes estilos de filme e filmagem (digital, 16mm, gravações de telefone celular...) valorizam a proposta. Há um belíssimo filme na metade inicial, mas os excessos da outra metade acabam por enfraquecer o conjunto. E os momentos de “crítica política” envolvendo um boné da campanha de Trump (Make America Great Again) têm a mesma “sutileza” das piadas que o cinema brasileiro costuma fazer relacionando classe média e revista Veja. Então que o momento é relevante para o filme de Spike Lee, não há dúvidas; mas creio que o momento também merecia um filme menos titubeante do que este.