quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

O GUERREIRO DO MUNDO PERDIDO (1983)


Além de ser uma obra-prima do ca-ra-lho, “Mad Max 2 - A Caçada Continua” (aka “The Road Warrior”, 1981), do australiano George Miller, também é um daqueles raríssimos filmes que faz tanto sucesso a ponto de virar tendência e lançar todo um subgênero; neste caso, as aventuras pós-apocalípticas feitas às dúzias nos anos seguintes, especialmente na Itália e nas Filipinas.

Filmadas com pouquíssimo dinheiro, produções tipo “Guerreiros do Futuro” (1983, Enzo G. Castellari) e “Stryker - O Sobrevivente” (1983, Cirio H. Santiago) tentavam repetir a fórmula de sucesso da aventura com Mel Gibson usando cenários desérticos, carros e motos em cacarecos e exagerados figurinos punk que lembravam sobras do Gala Gay. Dentro de suas óbvias limitações, essas cópias xerox funcionavam, divertiam e tinham fãs fiéis, que financiaram uma pequena semi-indústria de imitações ao longo da década de 1980.

De todas as cópias vagabundas de “Mad Max 2”, uma das minhas preferidas é a produção italiana (claro!) WARRIOR OF THE LOST WORLD, lançada no Brasil como O GUERREIRO DO MUNDO PERDIDO, e uma daquelas apaixonantes bizarrices dignas do nome deste blog. Além das risadas involuntárias e bobagens tão comuns ao subgênero, o filme ainda traz inacreditáveis cenas de ação - com uma contagem de corpos no limite da demência -, um diretor inspiradíssimo que se esforça para mostrar serviço e um dos elencos mais esquizofrênicos já reunidos.


O GUERREIRO DO MUNDO PERDIDO foi produzido pelo norte-americano Frank Hildebrand em associação com Eduard Sarlui (cabeça da Trans World Entertainment, pequena distribuidora que levou aos cinemas pérolas como “Palhaços Assassinos” e “Monster Dog”) e com Roberto Bessi, que era o “braço italiano” da finada Empire Pictures, de Charles Band, quando eles filmavam obras tipo “Do Além” e “Catacumbas” na Terra da Bota.

Assinando direção e roteiro está David Worth, um sujeito cujo nome você pode até não lembrar, mas - como constatará antes do final desta longa resenha - já deve ter visto vários filmes dele ou com ele na equipe.


O GUERREIRO DO MUNDO PERDIDO começa com um longo letreiro à la “Star Wars” que explica didaticamente quem são os heróis e vilões, para que a narrativa já possa começar a mil e sem perder tempo com bobagens como diálogos e desenvolvimento de personagens:

“Em outro tempo, em outro lugar... Gerações após as guerras radiativas e o colapso das nações, governos, finanças e comunicações, surgiu uma nova Era Negra da Tirania. Como cada local adotou suas próprias regras de sobrevivência, o déspota do mal PROSSOR levou ao poder um Congresso para fazer cumprir suas 'Leis e Obrigações' e armou uma Milícia mortal, a Ômega, para destruir os Renegados que estavam tentando estabelecer uma sociedade mais tolerante - o Novo Caminho. [Nota: Nenhuma data é mencionada, então qualquer semelhança com o mundo de 2019 é mera coincidência] A região fora do controle da Ômega é a Terra Devastada, uma zona proibida povoada por tribos itinerantes de bandidos, que se engajaram em uma luta bárbara pelo território e pela sobrevivência. Enquanto isso, no alto das montanhas, entre as ruínas de civilizações passadas, vive um pequeno grupo de místicos chamado de Anciões Iluminados. É aqui que os Renegados, liderados por MCWAYNE e sua filha NASTASIA, buscam inspiração em sua luta contra PROSSOR e a Ômega. Agora, neste momento de conflito e rebelião, montado em sua Motocicleta de Velocidade Supersônica, surge um homem... Um sobrevivente destemido, que estava destinado a se tornar o... GUERREIRO DO MUNDO PERDIDO.”


Do poético texto de abertura, é óbvio que “ruínas de civilizações passadas” é um pouquinho de exagero, pois nunca chegamos a ver nenhuma cidade destruída ou ruínas de grandes metrópoles, que poderiam passar uma ideia mais aproximada de apocalipse. Não havia orçamento para tal, e o que havia foi gasto em carros e motos em cacarecos para explodir. O máximo que o orçamento permitiu, neste sentido, foi colocar uma placa enferrujada anunciando a Golden State Freeway (uma das maiores rodovias norte-americanas) numa das estradinhas devastadas por onde passa o protagonista (imagem acima).

“o homem, o sobrevivente destemido, o Guerreiro” em questão é aquele típico herói sem nome, tradicional primeiro nos westerns, depois nas aventuras pós-apocalípticas. Nos créditos ele é identificado apenas como “The Rider” (sabe como é, a alcunha “The Road Warrior” já tinha sido usada), e nunca sabemos nada sobre seu passado, presente ou futuro.


Trata-se simplesmente um sujeito vestindo calça jeans e jaqueta de couro preta, que cruza as rodovias desertas tentando fugir de encrencas, mas acaba as atraindo como se fosse um imã. Para viver um personagem tão complexo emocionalmente, os realizadores optaram por Robert Ginty, o “Exterminador” em pessoa, que por si só já atrai um olhar de curiosidade para o filme inteiro.

The Rider só não é um guerreiro completamente solitário, como seu contemporâneo Mad Max, porque interage com uma “Motocicleta de Velocidade Supersônica” (ou Supersonic Speed Cycle, no original), igualmente anunciada pelo letreiro de abertura. Antes de mais nada, esqueça a “velocidade supersônica”; a motocicleta anda em velocidade comum e é facilmente alcançada pelos vilões toda vez que estes perseguem o herói, embora em duas oportunidades dê pequenos saltos sobre obstáculos mostrados em câmera lenta, como se fosse grandes façanhas - e com uma convencional cortina de fumaça para esconder as rampas por onde o dublê subiu...


Mas o veículo compensa a falta de “velocidade supersônica” colocando à disposição do herói todo um arsenal de brinquedinhos à la 007, armas e mísseis escondidos em sua fuselagem. Ou seja, O GUERREIRO DO MUNDO PERDIDO acompanha uma tendência do momento em que foi produzido, já que motocicletas “futuristas” repletas de traquitanas também apareceram, na mesma época, no longa “Megaforce - O Esquadrão do Terror” (1982, de Hal Heedham) e no seriado de TV “Moto Laser” (1985).

A moto, aqui, é um personagem tão ou mais interessante que o protagonista: um trombolho com inteligência artificial apelidado Einstein, que se comunica através de um monitor de computador, e sempre com piadinhas infames. A bicha já é apresentada ao espectador com o seguinte diálogo inspiradíssimo:



Mais tarde, é dessa maneira que a moto falante anuncia um possível encontro com vilões mais à frente na rodovia:



Finalmente, é dessa outra maneira que a moto falante anuncia um possível encontro com vilões ainda piores ainda mais à frente na rodovia:



Sentiu o drama? Pois então...

O GUERREIRO DO MUNDO PERDIDO começa com Ginty pilotando em alta velocidade por uma rodovia aparentemente deserta, pero no mucho; não demora para que ele tenha uma série de encontros bem violentos com diversos grupos: soldados da Ômega, punks, um não-identificado grupo rival...

Por algum motivo inexplicado, todos querem o couro do herói a qualquer preço. E nos primeiros 10 minutos de filme, The Rider enfrenta três ataques, leva um tiro no braço, uma flechada na perna e um balaço de raspão na têmpora. É tanta atividade e tanto estrago que o espectador começa a questionar se, neste ritmo, nosso herói conseguirá SOBREVIVER aos 80 minutos restantes...


A resposta é NÃO! Eis que, misteriosamente, a moto inteligente do The Rider acelera e explode contra um paredão de pedra, e nosso herói morre quando a história pena começou! Compreensível: naquelas condições, ele não resistiria a um QUARTO ataque de jeito nenhum.

Mas calma que é Pegadinha do Mallandro: na verdade o herói foi apenas abduzido pelos Anciões Iluminados, que, apesar do nome, não têm nada a ver com Stephen King - é o grupo de místicos anunciado na abertura, lembra? Numa cena ridícula, eles curam todos os ferimentos pregressos de The Rider com raios de luz disparados de suas mãos. Claro que a única coisa que o espectador vê são uns bocós de roupão branco levando lanternas enfiadas por dentro da manga, e ferimentos que “desaparecem” graças à magia do corte seco (leia-se “desliga a câmera-tira a maquiagem-liga de novo a câmera”).


Ressuscitado, curado e pronto para enfrentar mais meia dúzia de ataques selvagens pelas rodovias pós-apocalípticas, The Rider tenta seguir seu caminho. Mas é claro que os místicos têm outra ideia. No melhor estilo “Obrigado nada, pode ir baixando a calcinha”, eles recrutam nosso herói para uma missão suicida: invadir o quartel-general da Ômega e resgatar McWayne, o líder da Aliança Rebeld... ops!... dos Renegados que querem derrubar o tirano Prossor do poder. E sim, tenho certeza que qualquer semelhança com o enredo de “Fuga de Nova York” (1981), de John Carpenter, não passa de mera coincidência...

The Rider, que não é exatamente o mais humanitário dos heróis, recusa a missão. Mas Nastasia, a filha de McWayne, consegue convencê-lo do contrário com muita facilidade ao apontar uma pistola para seus testículos.

Nastasia é interpretada pela finada atriz indiana Persis Khambatta (1948-1988), que foi Miss Índia, estrelou alguns filmes hollywoodianos bem conhecidos (“Jornada nas Estrelas - O Filme” e “Falcões da Noite”), e depois despencou para o anonimato, estrelando filmes B como este para pagar as contas, até morrer prematuramente, vitimada por ataque cardíaco, aos 49 anos.


A partir do recrutamento quase voluntário do herói para ajudar a resistência, O GUERREIRO DO MUNDO PERDIDO vira non-stop action, com lutas, tiros, explosões e perseguições de carro se sucedendo em velocidade e quantidade absurdas. Se antes não havia diálogos ou desenvolvimento de personagens, agora mesmo é que eles não aparecem mais!

Primeiro, The Rider e Nastasia pegam um atalho pelos subterrâneos para chegar até o QG da Ômega sem serem notados pela milícia de Prossor. No caminho, enfrentam cobras e tarântulas (tipo o comecinho de “Os Caçadores da Arca Perdida”), e também mutantes semelhantes a zumbis (estes pelo menos não aparecem no filme do Spielberg).

Após resgatar McWayne com relativa facilidade (mais do que o espectador espera, considerando o fato de a cidade ser tão bem guardada), o trio em fuga elimina uns cem soldados inimigos - comprovando que a Ômega está muito mal de milícia. Quase conseguem escapar de boas, mas acabam deixando Nastasia para trás quando ela é atingida por um tiro inimigo (o único que acerta o alvo, e sequer mata o inimigo!!!) e não consegue alcançar o helicóptero, trocando seis por meia-dúzia.


Obviamente, The Rider é convencido a voltar à cidade uma segunda vez (desta vez sem pistola apontada pro saco) para resgatar Nastasia. Prevendo que o ditador Prossor tenha reforçado a (pffff...) segurança da cidade, McWayne resolve “unificar” as várias tribos bárbaras e gangues rivais da Terra Devastada para criar um único e numeroso exército rebelde (embora somente em três eles tenham dado conta do recado com certa facilidade da outra vez).

Mas como unificar tribos que não se bicam e vivem se matando pelas ruínas da civilização? Simples: armar lutinhas para que The Rider cague todo mundo a pau, comprovando que é o fodão do momento e tem cacife para liderar a todos num ataque provavelmente suicida à Ômega!

Cumprida também esta etapa da Jornada do Herói de nosso querido The Rider, chega a hora de lançar o ataque fulminante à Estrela da Mort... ops!... ao QG da Ômega. Humilhados por três pessoas da vez anterior, agora os vilões realmente reforçaram as fronteiras da cidade, colocando pra jogo inclusive um enorme caminhão blindado. E a segunda incursão dos rebeldes contra as forças de Prossor, que ocupa toda a meia hora final do filme, envolve um festival de duelos em motos, carros e até helicópteros - e tome figurante morrendo e coisa explodindo!


Além de Ginty e Persis, os demais nomes na tela justificam minha declaração de que este é um dos “elencos mais esquizofrênicos já reunidos”. O tirano Prossor é interpretado pelo eterno Donald Pleasence, ostentando um visual parecidíssimo (talvez propositalmente) com o arquiinimigo de James Bond, Blofeld, que ele mesmo havia interpretado em “Com 007 Só Se Vive Duas Vezes” (1967) - e que ganhou uma caricatura na forma do Dr. Evil, da série “Austin Powers”. Só não se sabe se Mike Myers estava fazendo gozação com Blofeld ou com Prossor; ou com os dois...

Pleasence empresta dignidade à produção furreca (todas as suas cenas foram filmadas em uma semana). E embora seu vilão não faça lá muita coisa além de gritar ordens e torturar a pobre Nastasia usando um controle remoto (numa técnica de lavagem cerebral estilo “Laranja Mecânica”), a intensidade do ator veterano contagiou os colegas de cena. O próprio Pleasence incentivou a atriz Persis Khambatta a cuspir de verdade no seu rosto num momento de fúria da personagem!


Volta-e-meia também dá o ar da graça o galã do blacksploitation Fred Williamson, interpretando um anônimo piloto de helicóptero que não faz muita coisa na história - basicamente, é apenas Fred Williamson num helicóptero. A maneira como o astro lado B acabou no filme é inacreditável. À época, ele já estava em Roma fazendo outro filme (provavelmente o “Guerreiros do Futuro”, de Castellari). Como seu visto de trabalho já estava caducando, mas Williamson adorava o país (diz a lenda que tinha seu próprio harém por lá), o ator procurou a equipe de O GUERREIRO DO MUNDO PERDIDO implorando para ganhar um papel qualquer na produção e poder estender o visto para ficar mais um mês na Itália! Assim, o papel do piloto anônimo que não faz muita coisa no filme foi criado especialmente para acomodar Fred Williamson e estender suas férias européias!


Entre os coadjuvantes, também é possível reconhecer várias caras conhecidas para quem curte cinema italiano “alternativo”, como Geretta Geretta, de “Demons” e “Ratos - A Noite do Terror” (abaixo); Harrison Muller, que teve uma curta carreira em filmes italianos ainda mais bagaceiros (como “O Trono de Chamas” e “O Executor Final”), e só deve estar no filme porque seu pai, Harrison Muller Sr., interpreta McWayne, e Bruno Bilotta (aka Karl Landgren), que depois foi vilão em “Black Cobra”.


Falemos um pouco sobre a gênese de O GUERREIRO DO MUNDO PERDIDO - uma daquelas histórias tão malucas que, num mundo ideal, renderia um documentário divertidíssimo.

Começa com as origens do diretor-roteirista David Worth, um jovem estudante de cinema cuja paixão pela sétima arte começou com “Cidadão Kane”, de Orson Welles, e que se formou em realização audiovisual pela UCLA, em Los Angeles. “Meus heróis eram caras como D.W. Griffith e John Ford. Griffith trabalhou na Biograph fazendo mais de 400 filmes, aprendendo a linguagem fílmica. Ford fez vários curtas antes de 'O Cavalo de Ferro'. Então minha filosofia era fazer o que quer que aparecesse na minha mesa”, declarou Worth, numa entrevista de tempos atrás.

Como vários outros jovens da sua geração, o sujeito que passou o curso estudando clássicos como “Intolerância” e “2001 - Uma Odisseia no Espaço” teve que começar por baixo, mostrando serviço no mundo do cinema X-Rated. Neste universo de peitos e pintos, David foi câmera (e também dirigiu ele mesmo) diversos pornôs ao longo da década de 1970, sempre escondido por trás do pseudônimo “Sven Conrad”.

Entre um e outro filme com títulos sugestivos como “How Sweet It Is!” e “Pink Champagne”, Worth começou a trabalhar também em produções independentes sem sexo explícito. Em 1977, foi diretor de fotografia do ótimo thriller “Death Game”, de Peter S. Traynor, onde deu a sorte de conhecer a atriz Sondra Locke. À época, a moça era “amiga com benefícios” do astro Clint Eastwood, e falou uma ou outra coisa ao Dirty Harry sobre o trabalho de David por trás da câmera.

Graças à indicação de Sondra, Worth foi contratado para trabalhar como diretor de fotografia em “Bronco Billy” e “Punhos de Aço”, duas produções classe A estreladas por Clint, filmadas praticamente ao mesmo tempo e lançadas no começo dos anos 1980. Worth achou que seria o passaporte para a fama: “Pensei que depois de fazer dois filmes com Clint Eastwood em Hollywood alguém iria bater na minha porta. Mas ninguém bateu”.

Clint com o futuro diretor Worth nos bastidores de “Bronco Billy”

Aí veio um daqueles golpes de sorte que acontecem somente uma vez na vida do artista: George Miller lançou “Mad Max 2”, foi um sucesso estrondoso no mundo inteiro, e de repente todo produtor picareta do planeta queria realizar seu próprio “Mad Max” baratinho.

Worth tinha ambições de um dia dirigir Clint Eastwood em seu próprio filme após trabalharem juntos em “Bronco Billy”/“Punhos de Aço” Ele até criou o argumento de uma espécie de modernização de “O Estranho Sem Nome” (1973), em que Clint seria um guerreiro anônimo viajando de cidade em cidade sobre uma motocicleta e ajudando pessoas no caminho.

Quando viu que o astro estava em outra divisão e jamais faria seu filme, o desconhecido cineasta resolveu oferecer a ideia por aí. Acabou encontrando o grupo de produtores italianos, que gostou do argumento e sugeriu assinar contrato imediatamente para filmagem em Roma. Só pediram que ele mudasse a ambientação da trama do presente para o futuro.


Mais tarde David descobriu o porquê da pressa: a italianada já tinha pré-vendido para distribuidores internacionais uma aventura estilo “Mad Max” que não existia, e então era imperativo fazer o bendito filme, preferencialmente de forma rápida e barata, para honrar os compromissos financeiros assumidos. E ninguém ligava se ia ficar bom ou ruim, ou quem iria dirigir!

A coisa era tão sem-noção que, quando Worth chegou em Roma para começar a pré-produção, já existia até um pôster desenhado, e lhe foi exigido que filmasse algo parecido. “Passei o tempo no quarto de hotel trabalhando a minha ideia e terminei com um tratamento de 40 páginas, um resumão do filme com o começo, meio e fim da história. Li para o produtor página por página, e no final ele me liberou para começar a filmar. Perguntei se antes não devia transformar aquele tratamento num roteiro com 90-e-poucas páginas, e ele disse: 'Não, apenas faça o filme'. É por isso não há qualquer desenvolvimento de personagens”, justificou o diretor-roteirista de O GUERREIRO DO MUNDO PERDIDO.


Isso de certa forma explica o fato de o filme finalizado ser uma sucessão de cenas de ação sem muitos diálogos ou interação entre os personagens. Worth nunca chegou a escrever um roteiro completo, e baseou a estrutura do longa nos seriados para cinema (os populares serials) que viu quando criança - ou seja, “blocos” de cenas de ação separados por algum momento de suspense onde a vida do herói ou de seus amigos é colocada em risco para fazer suspense.

“Aqueles seriados tinham uma ou duas páginas de diálogo e o resto era apenas ação. Foi isso que eu tentei fazer, e acho que o filme tem o espírito daqueles seriados exibidos em cinemas nos anos 1930 e 1940”, lembrou Worth. Ok, foi basicamente a mesma coisa que Spielberg falou sobre “Os Caçadores da Arca Perdida”, mas está valendo.


Seja para homenagear os serials, seja por querer mostrar serviço em sua primeira grande produção internacional (e era!), Worth dirigiu O GUERREIRO DO MUNDO PERDIDO com uma energia que contamina o espectador. Ele busca ângulos de câmera inusitados para comprovar que não está apenas batendo cartão, e inclusive apela para a visão em primeira pessoa durante cenas de tiroteio, antecipando aqueles jogos de tiro em 3-D que se tornariam extremamente populares a partir dos anos 1990.

Na falta de um roteiro completo, o diretor fez storyboards do filme inteiro, facilitando para transpor a barreira cultural de trabalhar com técnicos e figurantes italianos que não falavam inglês. O resultado é que as cenas de ação com carros e motos parecem ter custado dez vezes mais que o orçamento de meio milhão de dólares.

A equipe fez verdadeiras loucuras para filmar a câmera passando perigosamente entre veículos em alta velocidade. Uma delas foi colocar o diretor de fotografia (Giancarlo Ferrando, o preferido do diretor italiano Sergio Martino) deitado numa prancha atada à lateral de uma motocicleta. A imagem abaixo registra a demência. Não sei para vocês, mas não me parece nem um pouco seguro...

Giancarlo Ferrando, o diretor de fotografia kamikaze!

Vá lá que volta-e-meia Worth se “auto-sabota”, principalmente quando usa a câmera lenta para estender o espetáculo. Numa cena com uma moto e seu piloto em chamas, por exemplo, o slow-motion permite ao espectador enxergar o par de rodinhas (tipo aquelas das bicicletas para crianças) que evitam que a motocicleta incendiada ande em linha reta por algum tempo sem cair para o lado (abaixo); em outro momento, quando outro motociclista é atropelado por um carro em alta velocidade, a câmera lenta também entrega que a “vítima” é um manequim (ainda bem, não?), pois sua cabeça falsa se solta do corpo e dá pra ver o pino de madeira que ligava as partes (também abaixo)! Claro que isso tudo acaba acrescentando um charme adicional ao filme.


Além de ser um filme de ação fodaralhaço, O GUERREIRO DO MUNDO PERDIDO também funciona pelos motivos errados, como a comédia involuntária que muitas vezes é. A pobreza da produção fica evidente em cenas como aquela em que presos políticos da Ômega são executados publicamente num anfiteatro. Apesar de dar a entender que se trata de um espetáculo à la Coliseu, tudo que vemos é meia dúzia de figurantes assistindo o “espetáculo”, e todos agrupados no mesmo local para fazer número. (Mas também é possível que os cidadãos de Ômega estejam enjoados de assistir execuções, já que a prática parece ser bem comum...)

As execuções em si não são lá muito funcionais: os inimigos de estado são presos, de três em três, numa estrutura em forma de triângulo, onde acabam eletrocutados de forma demorada e sádica; depois, soldados com lança-chamas se encarregam de cremar os cadáveres ali mesmo enquanto os colegas preparam a nova leva de prisioneiros. O motivo de não existir uma estrutura que permita massacrar mais pessoas por minuto (tipo, trinta por vez ao invés de três) deve ter algo a ver com Prossor tentarndo encontrar ocupação para seus soldados, já que eles não parecem ter muita utilidade enquanto os heróis não invadem a cidade.


E já que tocamos no assunto, que sociedade horrorosa que é a Ômega - uma das distopias mais tenebrosas já mostradas pelo cinema de gênero!

Claro, há distopias muito melhores e mais assustadoras por aí, como “1984” de Orwell ou “O Conto da Aia”, de Margaret Atwood, mas nestas pelo menos não parecia existir o risco de as pessoas morrerem de tédio, como aqui. A ditadura de Prossor não permite que os cidadãos demonstrem nenhuma emoção, todos vestem o mesmo uniforme cinza e trabalham o tempo inteiro sem conversar uns com os outros, enquanto os alto-falantes disparam frases motivacionais lidas com voz de Donald Pleasence, como “O trabalho é a liberdade de todos” e “O silêncio é uma recompensa”. Com esta rotina diária, não é de se espantar que tanta gente prefira terminar sendo executada e incendiada publicamente!

Mas calma que lá vem o melhor: uma das poucas “recompensas” que Prossor garante aos seus zumbis-trabalhadores é um bizarríssimo espetáculo musical sadomasô no chamado Club Utopia, onde os escravos sem emoção podem beber drinks em copos plásticos enquanto assistem dançarinos com figurino de bondage e maquiagem de “Liquid Sky” contorcendo-se de maneira pouco ou nada animada. Ali também a voz de Prossor fica empatando a foda: “Relaxe e aproveite o entretenimento”. Enfim, é uma sociedade futurista tão soporífera que até mesmo um show erótico se torna tedioso, num dos momentos mais bizarros da película!



Dessa maneira, fica bem óbvio que a péssima qualidade de vida em Ômega afeta diretamente o rendimento das tropas da milícia de Prossor. Afinal, os soldadinhos são abatidos como alvos móveis por três rebeldes e caem às dezenas. Na cena da primeira fuga da cidade, por exemplo, as hordas de vilões correm na direção dos heróis com suas armas apontadas, mas sem atirar, sendo abatidas facilmente e sistematicamente! Parece até que estão buscando a morte para escapar da rotina tenebrosa que vivem sob o regime de Prossor.

Isso nunca aconteceria se os shows eróticos fossem mais inspiradores - ou se o ditador desligasse as horríveis frases motivacionais pelo menos durante algumas horas do dia...


O pior da história é que a alternativa às maldades de Prossor e sua turma tampouco é das melhores: sem querer spoilear mas já spoileando, no final o “New Way” de McWayne e seus amigos místicos vence a ditadura da Ômega e implanta uma nova maneira de viver. Só que isso acontece num patético showzinho musical estilo “We Are the World”, com todos os bárbaros que até então se matavam livremente sentados num arquibancada batendo palminha! Logo, é plenamente compreensível o fato de o esperto The Rider se mandar sozinho para bem longe disso na conclusão: o que fizeram foi simplesmente trocar a bancada da bala pela bancada evangélica!

Novamente sem querer spoilear mas já spoileando, O GUERREIRO DO MUNDO PERDIDO ainda termina com um absurdo final-surpresa, quando descobrimos que a queda da Ômega pode não ter sido tão definitiva assim, e Prossor está bem vivinho e preparando seu retorno, numa possível sequência mais pessimista estilo “O Império Contra-Ataca” - que, infelizmente, nunca se materializou.


Dessa forma, a conclusão passe uma ideia de falsa segurança bem parecida com a do primeiro “Guerra nas Estrelas”, de 1977: ok, os caras explodiram a Estrela da Morte/derrubaram a Ômega, mas as sombras do Império/de Prossor continuam por aí, prontas para lançar um novo e fulminante ataque sobre os rebeldes.

E da próxima vez The Rider não vai estar por perto para ajudar, pois, ao contrário de Han Solo no final da aventura de George Lucas (que vence o próprio egoísmo e volta para ajudar a Aliança Rebelde), o anti-herói de O GUERREIRO DO MUNDO PERDIDO se manda rapidinho para outras paragens e deixa o “New Way” à própria sorte. Melhor arriscar a vida diariamente nas rodovias do mundo pós-apocalíptico do que cantar batendo palminha, né não?

Embora o resultado passe longe da ideia original de Worth - que era fazer uma versão moderna de “O Estranho Sem Nome” e estrelada por Clint Eastwood -, o diretor pelo menos manteve uma singela homenagem ao faroeste dirigido e estrelado por Clint. Enquanto “O Estranho Sem Nome” começa com um cavaleiro se aproximando da câmera e termina com ele se distanciando da câmera, meio desfocado pelas ondas de calor do deserto, O GUERREIRO DO MUNDO PERDIDO começa a termina da mesma maneira, mas com The Rider em sua moto aproximando-se e distanciando-se da câmera, meio desfocado pelas ondas de calor do asfalto!

Cenas inicial e final de “O Estranho Sem Nome“, de Clint,
...foram homenageadas por Worth no começo e final do seu filme

E sei que Worth sonhava com Clint Eastwood para o papel principal, mas Robert Ginty (1948-2009) acabou caindo como uma luva. Levando o personagem mais na flauta do que quando fez o vigilante sangue-frio de “O Exterminador”, Ginty transformou The Rider num guerreiro pós-apocalíptico mais cínico e fanfarrão do que o Mad Max, com quem o espectador simpatiza de imediato - e até lamenta que não tenha retornado em outras aventuras.

Vale mencionar a direção de arte do filme (assinada por Giacomo Calò Carducci), que é surreal e abusa do formato triangular - na arquitetura, no formato do palco do Club Utopia e da área da execução de presos políticos, no logotipo da Ômega, nas exageradas pontas metálicas dos pára-choques de todos os veículos da milícia de Prossor...

Pode ser só coincidência, claro, mas pode também ser uma referência explícita à simbologia do triângulo para diferentes sociedades religiosas e esotéricas, como o Olho que Tudo Vê dos Illuminati e da Maçonaria, ou a Santíssima Trindade do Cristianismo (sugerindo, talvez, que The Rider represente uma figura messiânica?).


Infelizmente, O GUERREIRO DO MUNDO PERDIDO não chegou nem perto de ser um grande sucesso, embora tenha sido vendido para o mundo inteiro, com presença garantida em videolocadoras de bairro inclusive aqui no Brasil. Isso fez com que Worth desse uma segurada na sua carreira como diretor, voltando à fotografia (ele até integrou a equipe do fracassado “Remo - Desarmado e Perigoso”). Foi quando aconteceu um novo ponto de virada na sua carreira: ele decidiu abandonar o set de “Viagem Insólita”, de Joe Dante, para ser diretor de fotografia da Cannon Films em “O Grande Dragão Branco”, de Newt Arnold, estrelado por um jovem e então desconhecido baixinho belga chamado Jean-Claude Van Damme.

Qualquer pessoa sensata lamentaria pelo resto da vida a troca, já que “Viagem Insólita” era uma superprodução hollywoodiana com Dennis Quaid e Meg Ryan , produção executiva do Spielberg e efeitos especiais da Industrial Light & Magic, enquanto “O Grande Dragão Branco” era uma simplória produção classe B filmada em Hong Kong.


Por outro lado, em “Viagem Insólita” Worth seria apenas mais um, enquanto a Cannon gostou tanto do trabalho dele em “O Grande Dragão Branco” que imediatamente lhe deu o encargo de dirigir o mesmo Van Damme em seu filme seguinte, “Kickboxer - O Desafio do Dragão” (1989), uma aventura popularíssima que, para muita gente, é bem mais memorável que o milionário “Viagem Insólita”!

Nos últimos anos, David Worth filmou e/ou dirigiu produções direto-para-DVD como “Tubarões” 2 e 3, “Puppet Master vs. Demonic Toys” e “Man with the Screaming Brain” (este dirigido, escrito e estrelado por ninguém menos que Bruce Campbell). Também escreveu diversos livros sobre cinema, incluindo um a respeito de “Cidadão Kane” (!!!).


E segue vivendo da fama de ter feito uma das mais divertidas cópias de “Mad Max” da história: seu O GUERREIRO DO MUNDO PERDIDO foi redescoberto por toda uma nova geração ao aparecer num episódio do “Mystery Science Theater 3000”, aquela série de TV que zoava filmes trash, em 1993.

Não é pouca coisa para quem foi chamado às pressas até Roma, para fazer um filme tapa-buraco que já estava vendido apenas pela arte do pôster, e que sequer tinha roteiro.

Não é um grande filme, mas 'O Último Grande Herói' e 'Howard - O Super-Herói' também não são”, assume David Worth, com muito bom humor. “Nem a maioria dos filmes dirigidos por Renny Harlin, e ele gastou 60 milhões de dólares em cada um. Eu pelo menos só gastei meio milhão fazendo o meu filme ruim”.

Amém.


Trailer de O GUERREIRO DO MUNDO PERDIDO



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Warrior of the Lost World / I Predatori dell'Anno Omega
(1983, Itália/EUA)
Direção e roteiro: David Worth
Elenco: Robert Ginty, Persis Khambatta, Donald
Pleasence, Fred Williamson, Harrison Muller Sr.,
Laura Nucci e Geretta Geretta.