sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

COMBUSTÃO ESPONTÂNEA (1990)


As cidades calorentas do país que me perdoem, mas não existe capital brasileira com verão mais sufocante do que Porto Alegre, no antigamente gélido Rio Grande do Sul. Inclusive este ano (2019) registramos por aqui dois recordes de calor; num deles, a sensação térmica chegava a 46,1ºC (a mais elevada entre todas as capitais do país naquele momento!). E quem não tem ar condicionado, como eu, obriga-se a tentar sobreviver com um ventilador fazendo circular ar quente...

Em suma, o ambiente propício para, num prazer masoquista, ver e rever filmes com títulos sugestivos, como “O Incrível Homem que Derreteu“, ou que mostram pessoas sendo consumidas pelo fogo, tipo “Firestarter / Chamas da Vingança”, “Exterminador 2” e aquele que será o alvo de nossa análise de hoje, COMBUSTÃO ESPONTÂNEA, de Tobe Hooper.


O título se refere a um fenômeno da vida real, a Combustão Espontânea Humana (conhecida pela sigla SHC em inglês, do original spontaneous human combustion). Trata-se de um fenômeno raríssimo e ainda considerado um enigma pelos cientistas, mas existem evidências históricas de que, desde o século 19, pessoas teriam incendiado repentinamente até a morte sem que as chamas afetassem suas roupas ou os materiais ao seu redor - como se o fogo brotasse de dentro para fora do corpo!

Os casos de combustão espontânea são raríssimos e nunca foram devidamente estudados, embora existam dezenas - quiçá centenas - de livros sobre o fenômeno. A coisa se torna ainda mais misteriosa considerando que não é qualquer foguinho para consumir um ser humano até os ossos ou transformá-lo em pó, como geralmente ocorre nos episódios de combustão espontânea. Seria necessário usar uma temperatura semelhante àquela dos fornos crematórios para fazer o mesmo estrago, e isso sem, repito, danificar as roupas da vítima nem os móveis ao seu redor! Enfim, mais um daqueles mistérios estilo “No creo en brujas, pero...”


COMBUSTÃO ESPONTÂNEA, o filme, não é exatamente uma análise técnica ou realista sobre o fenômeno, mas sim uma curiosa mistura de ficção científica com horror que quase acerta no alvo, mas acaba (com o perdão do trocadilho) negando fogo. O cineasta texano Hooper havia assinado grandes filmes entre os anos 1970 e metade dos 1980, como “O Massacre da Serra Elétrica” e “Pague para Entrar, Reze para Sair”, mas aqui já estava no início de sua fase mais decadente.

À época (por volta de 1988-89), o diretor somava diversas experiências um tanto traumáticas no mundo do cinema. Algumas com o cinemão hollywoodiano, como a polêmica envolvendo o fato de o produtor Spielberg ter dirigido “Poltergeist - O Fenômeno” mais do que ele. Outras com o “lado B”, tipo o acordo para três filmes com mais liberdade criativa que ele assinou com a lendária (para o bem e para o mal) Cannon Films, e que acabou saindo pela culatra - “Aquilo foi um verdadeiro pesadelo para mim”, Hooper resumiu numa entrevista à Fangoria de maio de 1990.


Por conta dessas frustrações, Tobe estava afastado da telona desde 1986, quando os irmãos Golan & Globus, da Cannon, destruíram seu “O Massacre da Serra Elétrica 2” na montagem. Resolveu dar um tempo na tela grande para trabalhar com TV, dirigindo o piloto bem decente da série “Freddy's Nightmare / O Terror de Freddy Krueger” (1988) e episódios para seriados tão díspares quanto “Amazing Stories” (com produção de Spielberg novamente; será que foi ele quem realmente dirigiu também desta vez?) e “The Equalizer”.

E foi quando nasceu a ideia para COMBUSTÃO ESPONTÂNEA, um projeto nos moldes dos seus primeiros trabalhos como jovem cineasta independente. Aos 47 anos de idade, ele não apenas iria dirigir mas também roteirizar o filme (a quatro mãos com o desconhecido Howard Goldberg). Não tinha nenhum grande estúdio por trás para apitar (pelo contrário, o filme foi bancado por produtores de primeira ou no máximo segunda viagem), e garantiu distribuição limitadíssima nos cinemas norte-americanos por uma companhia pequena, a Taurus Entertainment.


Mesmo assim, um Hooper decadente e “xatiado” com o universo dos grandes estúdios resolveu agarrar o projeto com unhas e dentes, inclusive dispensando, no processo, um polpudo cheque da New Line Cinema para trabalhar como produtor-executivo do vindouro “Leatherface: Texas Chainsaw Massacre III” (1990), e que seria a grana mais fácil que ele ganharia em anos! Loucura ou idealismo?

COMBUSTÃO ESPONTÂNEA foi filmado no início de 1989 e custou por volta de 7 milhões de dólares. Um orçamento relativamente pequeno para quem já teve 25 milhões para brincar em “Lifeforce / Força Sinistra”, mas bastante polpudo para uma produção independente do período.


E o melhor: era um projeto personalíssimo do diretor, que desta vez não tinha nem Spielberg, nem os Irmãos Cannon para dar pitaco. “Eu não tinha tantas pessoas com quem negociar e, considerando as circunstâncias, tive total liberdade. Ninguém sofria um ataque cardíaco quando eu resolvia mudar alguma coisa”, explicou Hooper em entrevista à Fangoria na época da produção.

Por outro lado, desta vez também não havia um Spielberg ou uma dupla de produtores inescrupulosos tipo Golan & Globus em quem botar a culpa caso o filme fosse um fracasso. COMBUSTÃO ESPONTÂNEA é 100% Tobe Hooper, em seus erros e acertos. E considerando que a quantidade dos primeiros é muito maior, é compreensível que, de certa forma, a carreira do diretor tenha degringolado a partir daqui, seguindo-se trabalhos cada vez mais esporádicos e decepcionantes, como se ele tivesse perdido definitivamente o tesão pela coisa.


Após uma sequência de créditos iniciais que se desenrola sobre chamas de todos os tipos e tamanhos, e já começa a dar calor, COMBUSTÃO ESPONTÂNEA nos leva ao deserto de Nevada em 1955, onde dois jovens, Brian e Peggy Bell, são submetidos à experiência patrocinada por uma poderosa corporação em conjunto com o Exército americano.

O experimento consiste no desenvolvimento de uma vacina que torne o ser humano imune à radiação. Lembrem que naquela época o mundo ainda vivia sob o impacto das bombas nucleares lançadas uma década antes sobre Hiroshima e Nagasaki, no Japão, e graças à Guerra Fria todo mundo esperava tomar uma ogiva nuclear russa na cabeça a qualquer momento - um medo que durou até o finzinho dos anos 1980.


Brian e Peggy recebem injeções da tal vacina e são confinados num abrigo subterrâneo no meio do deserto; em seguida, uma bomba nuclear chamada Samson é detonada próxima ao bunker. Os jovens saem da aventura aparentemente intactos e se tornam heróis nacionais: ganham news reel com direito a propaganda ufanista (numa cena parecida com o início de “Cidadão Kane”), uma casa, um carrão e 10 mil dólares. De brinde, ganham também uma gravidez, aparentemente concebida enquanto os dois matavam tempo confinados num abrigo subterrâneo sem TV.

Os pesquisadores não sabem se devem deixar o bebê nascer, temendo possíveis efeitos colaterais da vacina e da exposição dos pais a radiação. Porém o grande patrocinador do projeto, o misterioso Lew Orlander (que aparece sempre nas sombras e fumando, tipo o Canceroso de “Arquivo X”), incentiva o nascimento da criança.


O bebê, batizado David Bell, parece saudável e comum, apesar de uma marca de nascença numa das mãos e de apresentar uma febre mediana que nunca passa. Ele nasce no dia exato do aniversário de 10 anos da explosão nuclear em Hiroshima. Brian e Peggy são só sorrisos, ao som de sua música predileta - ironicamente, uma balada chamada “I Don't Want to Set the World on Fire”, ou “Eu Não Quero Incendiar o Mundo”.

Mas a felicidade logo se transforma em pesadelo: no quarto de hospital onde Peggy repousa, marido e mulher repentinamente começam a incendiar de dentro para fora, sendo consumidos em poucos segundos pelas chamas. Os cientistas acreditam que o casal foi vitimado pela combustão espontânea, que seria um efeito colateral da tal vacina anti-radiação.


A experiência é abandonada e o pequeno David ganha nova identidade, sendo rebatizado Samson - ironicamente, o mesmo nome da bomba usada no experimento. A história então corta para a atualidade (no caso, a atualidade de 1989), no dia do aniversário de 34 anos de Sam.

Ele é interpretado pelo excelente Brad Dourif, um versátil ator que foi indicado ao Oscar de Melhor Coadjuvante por “Um Estranho Ninho” em 1976, e que desde 1988, e sua participação em “Brinquedo Assassino”, vinha encontrando um nicho de mercado no cinema de horror (pelo mesmo período ele também fez “O Exorcista III” e “A Criatura do Cemitério”).


Ainda sem saber qualquer coisa sobre seu passado - tudo que lhe disseram é que seus pais teriam morrido afogados quando ele era criança -, Sam é um professor universitário que leva uma vida comum, protesta contra uma usina nuclear que será reaberta na cidade e namora uma bela colega de trabalho, Lisa Wilcox (Cynthia Bain). E não sei se foi uma homenagem intencional ou pura coincidência, mas na mesma época despontava uma jovem atriz chamada justamente Lisa Wilcox, que apareceu como protagonista em “A Hora do Pesadelo” Partes 4 e 5!

A partir de então, tudo começa a dar errado para Sam. Primeiro ele recebe notícias terríveis de que pessoas com quem discutiu no dia anterior morreram em incêndios (todos off-screen). Depois começa a desconfiar que tudo ao seu redor faz parte de uma conspiração governamental, inclusive o romance com Lisa.

Finalmente, em episódios de estresse ou fúria, seu corpo passa a liberar labaredas que ferem não só ao próprio Sam, mas a quem está ao seu alcance - como se Bruce Banner virasse o Tocha Humana quando nervoso, ao invés do Incrível Hulk! E se as primeiras ocorrências são traumáticas e dolorosas para o pobre protagonista, logo ele aprende a dominar seu poder destruidor para usá-lo contra os desafetos.


COMBUSTÃO ESPONTÂNEA lembra, no argumento, o livro “Firestarter” (“A Incendiária”, no Brasil), de Stephen King, originalmente publicado em 1980, e adaptado para o cinema por Mark L. Lester em 1984 como “Chamas da Vingança”. Livro e adaptação também contam a história de uma criança nascida como resultado de projeto secreto do governo, e que usa seus poderes pirocinéticos para incendiar os agentes malvados que a perseguem (no filme, a menina é interpretada por uma jovem Drew Barrymore).

Hooper foi questionado sobre as semelhanças do seu filme com “Firestarter” na época do lançamento, mas sempre negou o livro ou a adaptação de Lester como influências. Em defesa do cineasta, a única coisa em comum entre um trabalho e outro é o poder caliente de seus protagonistas. Ao contrário da Incendiária de King, entretanto, Sam não consegue controlar direito os seus poderes, e a emissão das chamas vai desgastando e destruindo gradativamente seu corpo.


A Incendiária gerava chamas com a força da mente, sem se ferir no processo, enquanto Sam gera o fogo de dentro para fora do próprio corpo, ficando cada vez mais queimado e deformado no processo - além de sentir muita dor ao liberar as chamas. A degeneração física do anti-herói garante as melhores cenas do filme, com maquiagem inspiradíssima e bastante eficiente.

O problema é que COMBUSTÃO ESPONTÂNEA não é um filme de horror puro e simples. O roteiro de Hooper e Goldberg investe pesado na subtrama da conspiração governamental, fazendo com que cada vez mais pessoas ligadas a Sam revelem-se “agentes inimigos infiltrados”, e transformando a trama num paranóico thriller de ficção científica que até parece um episódio especial do já citado seriado “Arquivo X”, surgido três anos depois - e que, por coincidência, teve sua própria história sobre alguém capaz de gerar fogo para matar pessoas na primeira temporada, em 1993.


À medida que o protagonista vai juntando o quebra-cabeça sobre a sua infância, a trama também vai despirocando e se transformando numa grande bobagem. Principalmente a partir dos trinta minutos finais, quando atropelam-se revelações nem sempre convincentes sobre aquele experimento do início, e TODO MUNDO que apareceu no filme em algum momento revela ter ligação com a conspiração (e todos também são assassinos profissionais)!

A última cena do filme é uma prova irrefutável de que Tobe Hooper não sabia como terminar a história e tirou aquilo da cartola só para dar um desfecho qualquer à trama, porém sem explicar muita coisa. Algo que ele começaria a fazer com certa frequência a partir daqui, visto que “conclusões inconclusivas” também aparecem nos posteriores “A Morte Veste Vermelho” (1990), “Noites de Terror” (1993) e “Toolbox Murders” (2004).


Em 2005 (e lá se vão quase 15 anos!), quando escrevi sobre COMBUSTÃO ESPONTÂNEA pela primeira vez para o site Boca do Inferno, usei a seguinte expressão para me referir ao final sem pé nem cabeça: “Tenho quase certeza que ele [Hooper] perdeu as cinco últimas páginas do roteiro e decidiu deixar o filme sem conclusão, passando direto para os créditos finais e torcendo para ninguém notar”.

Pesquisando melhor agora, descobri que foi quase isso: a produção de COMBUSTÃO ESPONTÂNEA foi bastante problemática: pelo jeito o diretor estava acostumado aos grandes orçamentos, e por causa disso o dinheiro disponível (que já era pouco) acabou antes do tempo. A solução encontrada para terminar as filmagens foi arrancar páginas inteiras do roteiro e tapar o buraco como dava, abandonando completamente a lógica em prol do “espetáculo”.

“Fizemos muitas revisões no roteiro de um dia para o outro e reestruturamos o filme. Às vezes eu assistia as filmagens do dia e adaptava os personagens para a nova realidade. Também mudamos o final do filme algumas vezes. A conclusão original era muito mais surreal”, afirmou o diretor à Fangoria.

O roteiro original teve cenas e páginas inteiras suprimidas para caber no orçamento

Pois eis que agora o roteiro original de COMBUSTÃO ESPONTÂNEA caiu na rede, e o que se vê ali é um ato final completamente diferente daquele que foi filmado. Na conclusão original, lá pelos trinta do segundo tempo, Sam deixava de ser um humano para se transformar numa criatura de energia, que se desloca por fios elétricos e linhas telefônicas e pode até possuir corpos. Por coincidência, dois outros filmes de horror lançados no mesmo ano (1989) também trazem vilões transformados em seres de energia e com os mesmos poderes: “Shocker - 100.000 Volts de Terror”, de Wes Craven, e “The Horror Show / A Casa do Espanto III”, de James Isaac.

Outras passagens do filme estão truncadas porque as explicações necessárias, e que existiam no roteiro, nunca foram filmadas. Por exemplo: numa cena logo no comecinho, uma jovem é vista deixando no carro de Sam o velho relógio que pertenceu ao seu verdadeiro pai. No filme, a jovem some da história após ser repreendida pelo protagonista, e nunca se explica como ela conseguiu o relógio, nem o porquê de devolvê-lo daquela maneira misteriosa. Lendo o roteiro, descobrimos que a personagem se chama Jennifer, e é uma aluna de Sam que não apenas faz parte da conspiração (óbvio!), mas também foi usada nos experimentos e possui os mesmos poderes que ele. Se no filme a moça desaparece em segundos, no roteiro ela ainda tem várias cenas, inclusive ressurgindo com destaque no ato final nunca filmado.


E quanto ao bendito relógio? Pois bem: se no filme fica subentendido que os poderes de Sam começam a se manifestar porque a usina nuclear da cidade retoma suas atividades, o roteiro explica que os dons pirocinéticos do protagonista são “despertados” em grande parte por causa do relógio herdado do pai (não faz muito sentido, mas pelo menos eles TENTAM explicar alguma coisa!).

Com todo o ato final reformulado para caber no orçamento, o que resta é um Brad Dourif cambaleante se dissolvendo numa “poça de luz”, garras feitas de energia surgindo literalmente do nada (e que parecem sobras de efeitos de “Força Sinistra”), e um desfecho abrupto capaz de deixar até o fã mais apaixonado de finais abertos completamente frustrado - serião, os créditos finais entram de qualquer jeito, como se estivesse faltando o último rolo do filme!

Até chegar aí, porém, COMBUSTÃO ESPONTÂNEA é um filme bem decente, com vários momentos visualmente criativos, que revelam que Tobe no mínimo estava se divertindo bastante com sua liberdade total.


Na cena que se passa em 1955, por exemplo, há um curioso plano que mostra a explosão da bomba atômica na superfície do planeta vista “de cima”, do espaço, como se algum Ser Superior estivesse testemunhando os horrores desencadeados pelos humanos (acima). É uma ceninha de uns cinco segundos no total e deve ter custado um valor considerável em tempos pré-CGI, mas dessa vez Hooper não precisou esganar nenhum produtor pelo direito de incluí-la no filme.

Já a direção de arte (assinada por Richard N. McGuire) é inspiradíssima, usando e abusando de cores quentes nos cenários (em flores, no carro vintage do protagonista), na iluminação e principalmente nos objetos de cena, muitos deles em neon super-brilhoso, imprimindo um permanente aspecto de “calor” às cenas mesmo antes de Sam começar a demonstrar seus poderes incendiários.


E é óbvio que o ponto alto de COMBUSTÃO ESPONTÂNEA é quando o protagonista resolve liberar sua fúria em forma de fogo purificador pra cima de seus desafetos. Enquanto nos filmes supracitados, como “Firestarter” e “Exterminador 2”, as trucagens pirotécnicas se resumem a dublês em chamas correndo em zigue-zague, Hooper não economizou recursos ou gore para mostrar o efeito devastador do fogo.

Vemos as chamas queimando a pele até a carne se romper e jorrar sangue, rostos sendo destruídos pelo fogo e outras imagens horripilantes. E mesmo que muitas das chamas tenham sido sobrepostas na pós-produção, em várias cenas os atores interagem com fogo de verdade; Brad Dourif chegou a se queimar feio, num dos braços, quando o efeito prático em um take deu errado.


O time responsável por estas cenas contou com o veteraníssimo John Dykstra, que atuou como consultor de efeitos. Ele era uma referência no setor, tinha participado da equipe das space operas “Guerra nas Estrelas” (1977) e “Jornada nas Estrelas - O Filme” (1979), e trabalhou com Hooper nos anteriores “Força Sinistra” e “Invasores de Marte”. Depois seu passe ficou muito caro e ele começou a trabalhar nos efeitos visuais de superproduções com super-heróis, como “Batman & Robin” e “Homem-Aranha” (os do Sam Raimi).

No mesmo time, um nome curioso é o de William Tony Hooper, filho de Tobe, que ficou responsável por três departamentos diferentes: efeitos ópticos com fogo, efeitos de maquiagem e efeitos especiais mecânicos (os bonecões articulados para as cenas mais complicadas). Embora se saia muito bem, Hooper Jr. não teve outros créditos em nenhuma das áreas.

Por último mas não menos importante, COMBUSTÃO ESPONTÂNEA traz participações especiais de três cineastas ligadas ao fantástico. O primeiro a aparecer em cena é o húngaro André De Toth, veteraníssimo diretor de clássicos como “Museu de Cera” (1953). Com seu indefectível tapa-olho, ele interpreta um cientista que explica o fenômeno da combustão espontânea nas cenas que se passam em 1955.


Logo depois, numa pontinha muda e não-creditada, aparece Mick Garris, que pouco antes havia dirigido “Criaturas 2” (1988), e pouco depois se especializaria em adaptações de Stephen King para a TV. Garris aparece com um engraçadíssimo visual yuppie ao fundo de uma cena em que Sam almoça com a ex (Dey Young). Anos depois, ele dirigiu “Sonâmbulos” e chamou Tobe Hooper para fazer uma ponta. (Mick não está identificado nem mesmo no IMDB, mas eu o reconheci imediatamente e confirmei que era ele via Facebook!)


Finalmente, a participação especial de maior destaque é de John Landis, interpretando um técnico de rádio que sente a fúria do protagonista através do telefone (na forma de um jorro de fogo que sai do aparelho direto para dentro da boca do sujeito!). Landis estava devolvendo um favor para Tobe, já que o texano havia feito uma pontinha na cena do casamento no final do seu “Um Príncipe em Nova York” (1988).


COMBUSTÃO ESPONTÂNEA teve um lançamento literalmente minúsculo nos cinemas em 23 de fevereiro de 1990, não foi notado por ninguém e em maio do mesmo ano já saía em vídeo. No Brasil, o filme teve uma trajetória curiosa. Primeiro saiu em VHS com um título bisonho, “Conspiração Atômica”, talvez para enfatizar o aspecto de thriller de ficção científica (acho que só não é pior que o título italiano, “O Filho do Fogo”!). Na capinha da fita, outra pérola: “Do mesmo realizador de Poltergeist, agora outro incrível fenômeno!”.

Foi a Bandeirantes que traduziu literalmente o título para COMBUSTÃO ESPONTÂNEA ao exibi-lo um par de vezes ao longo dos anos 1990, e depois a famigerada Works reutilizou este mesmo título no lançamento em DVD.

Vale destacar que o DVD nacional é um horror, com qualidade de áudio e vídeo terríveis, lembrando um VHS-Rip. Nos EUA, o filme recebeu diferentes edições em DVD e blu-ray, mas infelizmente nenhuma companhia achou interessante gravar uma faixa de comentário ou entrevista com Tobe Hooper antes de sua morte, em 2017, para que ele falasse com mais propriedade sobre os percalços na realização do filme e as mudanças na transposição do roteiro para as telas.


Entre mortos e queimados, o filme funcionou como uma bela oportunidade para Brad Dourif comprovar o puta ator que é. Ele sempre esteve relegado a papel secundário ou coadjuvante (volta-e-meia roubando cenas, como em "Mississipi em Chamas”, do Alan Parker), mas aqui teve um dos seus raros papéis principais. Diz a lenda que Dourif não tem muito orgulho do filme, mas deveria: sua interpretação furiosa e exagerada está perfeita. E considerando que o restante do elenco é formado por nomes apagados (e com mais créditos na TV, como Cynthia Bain, Melinda Dillon, William Prince e Jon Cypher), COMBUSTÃO ESPONTÂNEA é um autêntico one-man show para o ator.

Geralmente citado entre os piores momentos da carreira de Tobe Hooper, COMBUSTÃO ESPONTÂNEA talvez seja o último grande filme do diretor. Depois ele ligou o “Foda-se” e assinou atrocidades como “The Mangler” e “Crocodilo”; parecia frustrado com a própria decadência, topando qualquer parada que surgisse. Seu último trabalho, o amadorístico“Djinn” (de 2013), fechou com chave-de-bosta uma carreira com muito mais baixos do que altos.


Para concluir esta longa exposição sobre os horrores da pirocinese - já que o calor causticante de Porto Alegre está afetando diretamente minha forma de articular frases -, permitam-me fazer uso da maior quantidade possível de trocadilhos infames para torrar a paciência do leitor (ó, já começou!):

Considerando todo o fervor que Hooper colocou em seu roteiro original, é uma pena que COMBUSTÃO ESPONTÂNEA não seja tão quente quanto poderia, e que a história negue fogo no final. Mas não ponham a mão no fogo por quem diz que esse é um dos piores trabalhos do diretor. Sem medo de queimar a língua, afirmo que os bons efeitos e as furiosas cenas de morte com fogo valem pelo menos uma conferida.

Fãs de filmes classe B e/ou esquisitões certamente conseguirão apreciá-lo no calor do momento. Acredite: talvez você nem fique tão queimado de raiva ao final!


Trailer de COMBUSTÃO ESPONTÂNEA


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Spontaneous Combustion (1990, EUA)
Direção: Tobe Hooper
Elenco: Brad Dourif, Cynthia Bain, Jon Cypher,

William Prince, Melinda Dillon, Dey Young,
Brian Bremer e Stacy Edwards.