sexta-feira, 19 de abril de 2019

MURPHY'S LAW - O VINGADOR (1986)


Uma das poucas leis que funcionam neste país é a Lei de Murphy - aquela que diz que quando uma coisa pode dar errado, dará. Ela rege praticamente todos os pequenos horrores diários, do pão que sempre cai no chão com o lado da manteiga para baixo até a fila do lado que parece menor, mas sempre vai andar muito mais devagar se você resolver trocar da que você está para ela.

O “Murphy” nominalmente citado na expressão é o engenheiro aeroespacial norte-americano Edward Aloysius Murphy Jr. (1918-1990). Em 1949, enquanto ele e sua equipe faziam testes com um equipamento que media os efeitos da aceleração e desaceleração em pilotos, o pesquisador descobriu que as leituras estavam todas erradas porque alguém do grupo tinha feito uma burrada na hora de configurar os aparelhos. Irritado, jogou a culpa num assistente com a frase que daria a base para a “sua” lei: “Se esse cara tiver a mínima chance de fazer uma cagada, ele fará!”. A partir de então, para tirar onda do irritado engenheiro, seus colegas de trabalho cunharam a famosa Lei de Murphy - ou seja: “Se algo puder dar errado, dará”.


Pois é a Lei de Murphy que rege Jack Murphy, o policial problemático interpretado por Charles Bronson, em MURPHY'S LAW, uma daquelas produções barateiras que o envelhecido ator estrelou para a Cannon Films durante os anos 1980. No Brasil, a aventura ganhou um título absolutamente genérico (“O Vingador”, mesmo título nacional de outros três ou quatro filmes!!!), e por isso vamos manter aqui o título em inglês, que remete tanto à Lei de Murphy tradicional quanto à lei exercida de maneira implacável pelo policial interpretado por Bronson, que divide com o estressado engenheiro aeroespacial o sobrenome.

O próprio herói não perde a chance de fazer piada e criar sua própria lei, quando um bandidão faz trocadilho com o sobrenome do tira e pede se ele conhece a Lei de Murphy: “Eu só conheço a Lei de Jack Murphy...”, responde Bronson, “que diz: Don´t fuck with Jack Murphy!”. Um poeta!


Pois a Lei de Murphy descreve muito bem o inferno astral vivido pelo protagonista do filme: Jack Murphy é um tira veterano cuja esposa (Angel Tompkins, obviamente bem mais jovem que o astro Bronson) largou dele para virar stripper (!!!). Por causa disso, ele virou piada na delegacia e passou a afogar as mágoas em garrafas de uísque. Sem conseguir superar a perda, Murphy passa as noites na boate onde a ex-esposa se apresenta, observando-a tirar a roupa para desconhecidos enquanto enche a cara.

Mas “se algo puder dar errado, dará”, certo? Assim, num intervalo de poucos dias, Murphy entra na lista negra de um chefão da Máfia, Frank Vincenzo (Richard Romanus), depois de matar seu irmão num tiroteio. Também começa a ser perseguido por uma misteriosa serial killer (Carrie Snodgress) dedicada a transformar sua vida num inferno, e ainda é condenado por assassinatos que não cometeu e perseguido pelos próprios colegas de distintivo. Será que dá para piorar?


Bem, num filme batizado com o nome daquela famigerada Lei, sim, pode. Depois de ser preso pelos crimes que na verdade foram perpetrados pela serial killer, Murphy aguarda transferência para a penitenciária numa delegacia. Ali, é algemado com a mesma ladra pé-de-chinelo que tentou roubar seu carro dias antes. Chamada Arabella McGee (e interpretada por Kathleen Wilhoite), ela é uma jovem boca-suja que consegue inserir xingamentos delirantes em todo e qualquer diálogo.

Murphy decide que aquele é um bom momento para tentar limpar seu nome: arrastando Arabella à força consigo (eles estão algemados, lembra?), o tira foge da delegacia roubando um helicóptero (já que aprendeu a pilotar na Guerra da Coréia, apenas vinte anos antes!) e tenta resolver os múltiplos problemas em que se envolveu. Resta saber se continuará sendo uma vítima da Lei de Murphy, ou se fará valer a “Lei de Jack Murphy”...


MURPHY'S LAW não traz exatamente o mais original dos argumentos: o policial que se envolve em altas confusões em parceria forçada com algum criminoso de bom coração já tinha aparecido antes em “Rota Suicida / The Gauntlet” (1977), dirigido e estrelado por Clint Eastwood, onde o herói também tinha que arrastar consigo uma detenta (Sondra Locke). E no sucesso de bilheteria “48 Horas” (1982), de Walter Hill, onde o tira Nick Nolte somava forças com o malandrão interpretado por Eddie Murphy. Os três filmes têm a mesma dinâmica, inclusive: personagens em lados opostos da lei que começam a história se odiando, mas vão criando uma grande amizade ou paixonite no decorrer da história.

Em sua defesa, o roteirista Gail Morgan Hickman disse que a inspiração não veio nem de “Rota Suicida”, nem de “48 horas”, mas sim de um episódio do velho seriado de TV “I Spy” (1965-1968, rebatizado “Os Destemidos” no Brasil), que era estrelado por Robert Culp e Bill Cosby. No episódio em questão, o protagonista precisava unir forças com um ladrão de carros para concluir sua missão. “A relação entre eles era muito interessante e fiquei com aquilo na cabeça”, explicou em entrevista ao livro “Bronson's Loose Again”, de Paul Talbot.


Para um filme que cita e brinca o tempo todo com a Lei de Murphy, é irônico que MURPHY'S LAW tenha surgido de uma sequência de coisas que deram errado...

Deram errado para o astro Bronson, por exemplo, que saiu brigado do set de “Desejo de Matar 3”, criticando a extrema violência da obra e encerrando uma longa amizade e colaboração com o diretor inglês Michael Winner após outros cinco filmes. Seu trabalho seguinte foi um drama produzido para a TV, “Sindicato da Violência” (1986, de John Mackenzie), que pouquíssima gente viu.


Deram errado para o diretor de MURPHY'S LAW, J. Lee Thompson, um respeitado cineasta inglês que, nos bons tempos, havia feito superproduções de Hollywood como “Os Canhões de Navarone” (1961) e “O Ouro de Mackenna” (1969), mas já há algum tempo trabalhava como pau-pra-toda-obra para a Cannon Films, encarando orçamentos minguados e a regra do improviso total geralmente imposta pela produtora - algo indigno para um velho artesão do seu calibre.

Seu trabalho anterior para os irmãos Golan & Globus, o divertidíssimo “As Minas do Rei Salomão” (1985), foi um autêntico pesadelo para o septuagenário diretor, que teve inúmeros problemas filmando na África durante uma estação de fortes chuvas.


Deram errado para a própria Cannon Films, que tinha assinado um contrato para múltiplos filmes com Bronson desde “Desejo de Matar 2”. Na primavera de 1985, Golan & Globus anunciaram que seu próximo projeto seria “Comando Delta”, uma ambiciosa aventura a ser dirigida por Joseph Zito (de “Braddock - O Super Comando”) e juntando os dois grandes astros da casa, Bronson e Chuck Norris (se liga no anúncio abaixo, publicado em página dupla na revista Variety). Mas a Cannon logo viu o projeto tornar-se comercialmente inviável quando as pré-vendas do filme não foram suficientes para cobrir o cachê milionário pedido pela dupla (à época, Bronson recebia um milhão por trabalho, sem negociação).

A solução foi economizar sacrificando um dos astros - no caso, o mais velho -, e colocando outro veterano “mais barato”, Lee Marvin, para substituí-lo ao lado de Norris (Zito também rodou, e no fim o próprio Menahem Golan dirigiu o filme). Quando “Comando Delta” com Bronson e Norris foi cancelado, a Cannon resolveu que seu próximo projeto com o ator seria uma refilmagem de “O Passageiro da Chuva”, thriller de René Clément que ele fez na França no começo dos anos 1970, quando era mais popular na Europa do que nos Estados Unidos. Mas este projeto também acabou nunca saindo do papel.


E principalmente, as coisas deram errado para o roteirista Gail Morgan Hickman. Quase uma década antes, ele se tornou uma lenda em Hollywood por ser um jovem estudante de cinema que milagrosamente conseguiu vender seu primeiro roteiro para um galã do calibre de Clint Eastwood.

Sem agente e sem nenhum contato com grandes estúdios, mas com muita cara-de-pau, Hickman simplesmente tinha deixado seu script chamado “Moving Target” com o dono do restaurante onde Clint costumava almoçar com frequência; depois de muita encheção de saco, o sujeito rendeu-se e mostrou o roteiro ao astro, que gostou e comprou os direitos para transformá-lo em “Sem Medo da Morte / The Enforcer” (1976), a terceira aventura de Dirty Harry.


Mas o que podia indicar o início de uma carreira promissora acabou ficando por aí. Na década que separa “Sem Medo da Morte” de MURPHY'S LAW, Hickman só conseguiu emplacar mais um roteiro, e para um filme que passou em brancas nuvens (o policial “The Big Score”, de 1983, dirigido e estrelado por Fred Williamson, que não é nenhuma obra-prima, digamos).

Para piorar, seu primeiro envolvimento - ainda que indireto - com Charles Bronson terminou mal: ele havia sido contratado pela Cannon para escrever alguns argumentos para
“Desejo de Matar 3”, num momento em que o astro estava insatisfeito com o primeiro roteiro que lhe foi apresentado. Hickman chegou a entregar várias sugestões, mas no fim Bronson não gostou de nenhuma delas e resolveu aceitar aquele primeiro roteiro que não tinha gostado!



Considerando o episódio uma questão de honra, o roteirista decidiu que seu próximo projeto seria escrever uma aventura policial especialmente para Charles Bronson, uma que ele não pudesse negar. Assim surgiu MURPHY'S LAW.

Hickman inclusive usou a mesma estratégia que havia adotado para convencer Clint Eastwood, e praticamente forçou o agente e amigo de Bronson, Paul Kohler, a ler seu script. Conseguiu o emprego na hora, e o roteiro foi vendido para a Cannon para ser o próximo projeto do astro, com as filmagens acontecendo entre janeiro e fevereiro de 1986.


Vale ressaltar que o filme pronto é bem diferente do roteiro original, que tinha o clima de uma daquelas amalucadas aventuras dos anos 1980 e era cheio de tiroteios e explosões. O tom mudou primeiro a pedido de Bronson, que queria fazer filmes mais realistas e menos “rambônicos” depois de massacrar centenas de vilões em “Desejo de Matar 3”; e depois por exigência da própria Cannon, que começava a enfrentar problemas financeiros no período depois que suas produções mais careiras e/ou artísticas não deram o retorno esperado nas bilheterias, e por isso pediu que as cenas de ação mais explosivas fossem diminuídas ou completamente extirpadas do script.

Entre as cenas que nunca viram a luz do dia por conta da “cirurgia” no roteiro estão um tiroteio num estacionamento subterrâneo, Arabella pendurada para fora do helicóptero no momento da fuga da delegacia, a explosão da aeronave após o pouso forçado e um momento em que a garota leva o policial até um armazém repleto de carros roubados, onde Murphy é atacado por bandidos. Já o confronto final seria muito mais violento, com o mafioso Vincenzo ameaçando esquartejar Murphy com uma motosserra, estilo “Scarface” - obviamente, na luta que se seguia, era um dos capangas que acabava sendo serrado ao meio.


O resultado é que MURPHY'S LAW é um dos filmes mais burocráticos e fraquinhos da carreira oitentista de Bronson. Mas quase tudo que ele fez com a Cannon a partir de “Desejo de Matar 3” (na ordem: “Assassinato nos Estados Unidos”, “Desejo de Matar 4 - Operação Crackdown”, “Mensageiro da Morte” e “Kinjite - Desejos Proibidos”) é marromeno.

A narrativa é movida a clichês, e não falta nem o velho parceiro do herói, dos tempos da guerra, que lhe dá uma mãozinha quando todo mundo vira as costas, mas como “pagamento” pela boa ação se torna a próxima vítima dos vilões. O papel caiu como uma luva para o cantor de jazz transformado em ator Bill Henderson, que antes de morrer em filmes do Charles Bronson pôde cantar com lendas da música como Frank Sinatra, Tony Bennett e Quincy Jones.


O veterano J. Lee Thompson dirige literalmente no piloto automático, e as cenas de ação são especialmente burocráticas - ainda mais considerando que este é o longa posterior ao apocalíptico “Desejo de Matar 3”!!! Há carros atravessando vidraças, corre-corre, motos explodidas a tiros de metralhadora, carros explodidos a tiros, mas nada de especialmente emocionante.

O momento em que Bronson e Arabella cruzam com um grupo de plantadores de maconha é tão gratuito que parece ter sido filmado apenas porque todos perceberam que o ritmo estava titubeante e o herói não disparava nenhum tiro durante considerável parte do filme.


A verdade é que Bronson passa a maior parte da história fugindo da lei e suportando os insultos da parceira-mirim, e não metendo pipocos na bandidagem, como se espera dos seus personagens nas produções da Cannon. A coisa só melhora no ato final, que finalmente coloca todos os antagonistas uns contra os outros. Talvez o diretor já não tivesse mais o mesmo pique da juventude, ou estava cansado dos problemas no set de “As Minas do Rei Salomão”.

Uma evidência disso é que Thompson saltou direto daqui para o set de “Os Aventureiros do Fogo”, outra aventura morna e pouco memorável, esta estrelada por Chuck Norris. E dois anos depois chegou a ter um piripaque durante as gravações de “Mensageiro da Morte”, um dos filmes mais fracos de Bronson.


Mas o grande problema de MURPHY'S LAW é a total falta de química entre o protagonista e sua colega de cena, Kathleen Wilhoite - ele com 64 anos na época das filmagens, ela com vinte-e-poucos. Parece que nos bastidores rolou um clima de camaradagem e brincadeiras entre os dois, mas na tela, pelo menos, a dupla não convence. A culpa não é de Kathleen, pois nem uma artista oscarizada como Meryl Streep conseguiria tornar a personagem menos xarope da maneira como ela foi escrita.

Os “xingamentos engraçadinhos” de Arabella são irritantes, sua postura rebelde é pura pose (óbvio que por baixo da marginal boca-suja existe um grande coração), e há um momento extremamente constrangedor de “assédio geriátrico”, quando a garota pede, com um sorrisinho maroto, para Murphy “provar” que policiais não têm pinto pequeno. Felizmente, o telefone toca e livra o espectador da possibilidade de ver qualquer coisa próxima de sexo geriátrico, tipo a horrorosa cena de amor de Bronson com Deborah Raffin em “Desejo de Matar 3”!


No roteiro original, Arabella xingava “normalmente”, mas algum cabeça-oca achou que ficaria mais divertido se ela apelasse para expressões absurdas ao invés de xingamentos comuns. Não, não ficou mais divertido; pelo contrário (confira um glossário de xingamentos toscos no final da resenha). A própria Kathleen achou aquilo muito estúpido (ou “a bunch of silly shit”, conforme definiu em entrevista ao livro “Bronson's Loose Again”), mas preferiu não discutir com o roteirista e os produtores em seu primeiro grande papel num filme de relativo destaque.

O curioso é que ela não foi a primeira escolha para o papel. A Cannon queria-porque-queria uma cantora famosinha para interpretar a jovem rebelde, talvez imaginando (errado) que isso poderia atrair os “xóvens” para os cinemas e para um filme dirigido e estrelado por dinossauros.


A primeira opção, pasmem, foi ninguém menos que Madonna!!! À época já em alta com hits como “Holiday”, “Material Girl” e “Like a Virgin”, a cantora estava louca para virar atriz, mas pediu um cachê de um milhão de dólares, algo que a Cannon considerou indecente para “uma cantora”. No fim, Madonna escapou de pagar mico em MURPHY'S LAW, mas o fez no horroroso “Surpresa de Shanghai”, de Jim Goddard, que estreou no mesmo ano (dividindo a vergonha com o então namorado Sean Penn).

Depois de Madonna, a roqueira Joan Jett foi cogitada para o elenco e quase entrou no filme. Mas a ex-integrante da banda só de meninas The Runaways foi preterida por não ter nenhuma experiência prévia como atriz. Ironicamente, no ano seguinte ela foi dirigida por ninguém menos que Paul Schrader em “Luz da Fama”, um filme mal-distribuído e pouco conhecido.


Durante algum tempo, a Cannon considerou contratar a modelo e cantora de origem mexicana Apollonia Kotero, que dois anos antes estourou ao lado de Prince no musical “Purple Rain”. A decisão final estava entre ela e Kathleen Wilhoite, e consta que a esposa de Bronson (e produtora do filme) Jill Ireland fez campanha pela contratação da segunda.

Também era a opção mais barata, uma cantora ainda desconhecida que estava começando a investir na carreira de atriz - àquela altura, seu grande papel no cinema tinha sido na comédia erótica “Uma Escola Muito Especial... Para Garotas” (1983). Embora a Arabella de MURPHY'S LAW seja um dos seus personagens de mais destaque, Kathleen é especialmente lembrada por trabalhar no mesmo inferninho que Patrick Swayze no lendário “Matador de Aluguel” (1989). Kathleen escreveu e cantou a canção-tema que toca durante os créditos finais, e nos anos 1990-2000 voltou com força para o mundo da música, gravando dois álbuns.


Porém o grande destaque no elenco é Carrie Snodgress, interpretando a fria assassina que persegue Murphy com planos de vingança. Seu plano não faz muito sentido, já que ela perde tempo acusando Murphy de assassinatos mas o que realmente quer é matá-lo - se ele não tivesse fugido da cadeia, como exatamente a vilã faria para dar cabo dele?

Carrie - que no ano anterior havia contracenado com Clint Eastwood em “O Cavaleiro Solitário” - conseguiu compor uma assassina obcecada e assustadora que chega a lembrar uma versão feminina do Robert DeNiro em “Cabo do Medo”, sendo que este remake dirigido pelo Scorsese obviamente veio DEPOIS.


Richard Romanus também está marcante como o arquiinimigo de Murphy, ele que acabou se especializando em interpretar mafiosos - para Scorsese em “Caminhos Perigosos”, para John Landis em “Oscar - Minha Filha Quer Casar”, e obviamente no seriado “Família Soprano”. Seu Frank Vincenzo é um antagonista de respeito, infelizmente subaproveitado em MURPHY'S LAW porque a verdadeira vilã é Carrie Snodgress.


E tem uma fofoca muito boa de bastidores que vale a pena reproduzir aqui. No filme, o finado James Luisi aparece como um policial que não vai muito com a cara de Murphy, e os dois estão sempre se bicando. Lá pelas tantas, o personagem de Luisi comenta que passou na boate onde a ex-mulher do protagonista faz strip. “Nice tits”, caçoa ele, antes de tomar um soco na boca do estressado protagonista.

Pois eis que, à época e na vida real, o ator James Luisi estava namorando ninguém menos que a ex-esposa de Charles Bronson, Harriet Tendler. O casal se divorciou em 1967 e tinha dois filhos. Bronson obviamente não sabia do fato, mas a provocação de Luisi sobre peitos de uma ex-esposa torna-se mais realista graças ao fato. (Foi a própria Harriet quem comentou o detalhe em sua auto-biografia, divertindo-se com o fato de Luisi nunca ter contado a Bronson que estava saindo com ela, só por via das dúvidas e por amor aos dentes.)


Para cinéfilos doentes, como este que vos escreve, MURPHY'S LAW traz pelo menos duas locações muito interessantes e identificáveis de outras produções.

A casa de Ben, o velho amigo de Murphy, onde os heróis buscam refúgio após fugir da prisão, é a mesmíssima casinha de madeira simpática onde a Família Jarvis morava no antológico “Sexta-feira 13 Parte 4 - O Capítulo Final” (imagens abaixo). Logo, Charles Bronson esteve na mesma casa que foi invadida, dois anos antes, por Jason Voorhees! Já pensou se as duas máquinas de matar tivessem se cruzado?


Reconhece este hall de entrada e esta cozinha de algum lugar?

É que Jason visitou a casa da Família Jarvis dois anos antes! 

Já na cena final, o confronto de Murphy com a serial killer e com os homens da Máfia, tem como cenário o Bradbury Building (imagens abaixo), um edifício histórico no centro de Los Angeles que já apareceu numa cacetada de filmes, mas é especialmente lembrado pelos cinéfilos como o prédio onde morava o inventor J.F. Sebastian em “Blade Runner - O Caçador de Andróides” (1982).

Por ter custado pouco, e aproveitado a popularidade de Charles Bronson no período, MURPHY'S LAW estreou nos cinemas com relativo sucesso. Em Nova York, foi o segundo filme mais visto na semana de estreia, perdendo apenas para “A Lenda”, de Ridley Scott. Em todo o ano de 1986, foi a terceira produção mais rentável da Cannon, perdendo apenas para “Comando Delta” e “As Minas do Rei Salomão”.


Com o resultado positivo, o roteirista Hickman foi contratado para escrever mais dois roteiros para Golan & Globus: “Number One With a Bullet” (no Brasil, “Tiras Especiais”), inicialmente um veículo para James Belushi, mas que acabou sendo estrelado pelo “mais barato” Robert Carradine, e “Desejo de Matar 4 - Operação Crackdown”. Com o fim da produtora, ele não emplacou mais nada no cinema e começou a escrever filmes e séries de TV.

Analisado friamente mais de 30 anos depois, MURPHY'S LAW segue sendo um dos momentos menos memoráveis da carreira oitentista de Charles Bronson, e mesmo da Cannon Films, que produziu coisa bem melhor/mais divertida. Mas é como eu sempre digo: um filme mais ou menos do Bronson ainda é melhor que quase tudo que sai hoje com o Vin Diesel ou o The Rock, então não são 90 minutos completamente perdidos. E tenho visto filmes de ação recentes tão, mas tão ruins - incluindo alguns com uns caras fodas, tipo o Scott Adkins -, que até comecei a reavaliar estas aventuras descartáveis que não curti tanto na época.


Para encerrar, deixo aos distintos leitores uma relação dos ridículos xingamentos de Arabella McGee, com uma tradução aproximada para o português (as legendas do DVD nacional optaram por versões mais “normais” das ofensas, eliminando a maior parte da graça). Fiquem livres para usar na próxima oportunidade que vocês quiserem ofender alguém de maneira retardada, ou somente encher o saco alheio, como Arabella faz o filme inteiro. De nada.

GLOSSÁRIO ARABELLIANO:
- snot-rag (lenço de papel onde alguém assoou o nariz)
- camel-crotch (virilha de camelo)
- snot-licking donkey fart (peido-molhado de jumento)
- jism-breath (bafo de sêmen)
- scrotum-cheeks (bochechas de saco escrotal)
- dinosaur dork (dinossauro idiota)
- fart-brains (cérebros-peidados)
- monkey vomit (vômito de macaco)
- Sergeant Dick-Brain (Sargento Pinto no Cérebro).
- kiss my squirrel (beije meu esquilo, sendo que “esquilo” é obviamente um apelido para certa parte da anatomia feminina)
- go jump a flagpole (vá pular de um mastro)
- kiss my pantyhose, sperm bank (beije minha meia-calça, seu banco de esperma)
- mutant (mutante)
- booger bits (pedaços de meleca)
- snot-sucking garbage dump (depósito de lixo melequento)
- barf-bag (saco de vômito)
- jock itch (sarna de atleta, a popular “comichão”)
- buffalo shit (merda de búfalo)
- dog-snot (ranho de cachorro)
- anchovy-breath e pepperoni-breath (respectivamente, bafo de anchova e de pepperoni)
- weenie-roast (pinto assado)
- sperm-count (contagem de esperma)

PS: Curiosamente, dois anos depois do filme estreou na TV norte-americana o seriado de uma única temporada “Murphy's Law”, criado por Lee David Zlotoff, onde o protagonista (interpretado por George Segal) também era divorciado e alcoólatra, mas, ao invés de policial, trabalhava como investigador de fraudes em seguros. Desconheço se a série de vida curta - 13 episódios exibidos entre 1988-89 - chegou a passar no Brasil, ou se teve qualquer inspiração neste filme da Cannon.


Trailer de MURPHY'S LAW



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Murphy's Law (1986, EUA)
Direção: J. Lee Thompson
Elenco: Charles Bronson, Kathleen Wilhoite,
Carrie Snodgress, Robert F. Lyons, Richard
Romanus e Angel Tompkins.