terça-feira, 26 de novembro de 2019

BRADDOCK 2 - O INÍCIO DA MISSÃO


Quem leu o longo artigo sobre "Braddock - O Super Comando" já sabe, mas vale a pena resumir para os marinheiros de primeira viagem que possam chegar aqui via Google: em 1984, o astro Chuck Norris assinou contrato com a mitológica Cannon Films para estrelar duas aventuras sobre o resgate de prisioneiros de guerra no Vietnã, que seriam filmadas back-to-back com equipes técnicas diferentes. Ele alegava que era uma espécie de homenagem ao seu irmão do meio, Wieland Norris, morto em combate em junho de 1970.

Na primeira metade dos anos 1980, florescia um forte sentimento de patriotismo instigado pelo presidente Ronald Reagan. O Vietnã, até então um grande fiasco para os EUA, virou uma desculpa para o governo fazer o povão olhar para o outro lado e esquecer os problemas na própria casa. E o boato de que milhares de soldados norte-americanos "desaparecidos em combate" (no original "missing in action", ou MIAs) pudessem estar sendo mantidos vivos em campos de prisioneiros vietnamitas, mais de uma década após o fim da guerra, reacendeu a esperança de famílias que nunca tiveram um corpo para sepultar. (No fim os MIAs nunca apareceram, mas há quem até hoje acredite que o Vietnã mantém ex-combatentes em gaiolas de bambu lá do outro lado do mundo apenas por birra.)


Originalmente, "Braddock - O Super Comando", dirigido por Joseph Zito, seria o segundo da série. Antes dele, seria lançado BRADDOCK 2 - O INÍCIO DA MISSÃO, único crédito na direção de um produtor e ator inexpressivo chamado Lance Hool, que era o verdadeiro pai-da-criança - o responsável por propor a Norris e aos produtores israelenses Golan e Globus a ideia de um filme sobre os "missing in action" em primeiro lugar.

Mas aí, numa daquelas coisas estranhas que acontecem de vez em quando no mundo do cinema, o pessoal da Cannon gostou mais daquele que seria o segundo filme, "Braddock - O Super Comando", e resolveu estreá-lo nos cinemas por primeiro, deixando aquele que seria o original para lançar um ano depois como prequel - ou seja, uma sequência que conta fatos acontecidos antes do "original". Funcionou: o filme de Zito foi um grande sucesso de bilheteria e deixou Golan e Globus com bala na agulha para faturar também com uma futura segunda aventura que já estava até filmada.


Tendo sido concebido por primeiro, "Missing in Action 2: The Beginning" (o subtítulo traduzido significa apenas "O Início", mas ganhou um "...da Missão" no subtítulo nacional provavelmente para atrair o público que gostou de "Rambo 2 - A Missão") é o filme que efetivamente conta a história do herói James Braddock (Norris), que nos foi apresentado de uma maneira um tanto misteriosa e inexpressiva em "Braddock - O Super Comando".

Porque é aqui que se justifica a sede de sangue de Braddock por inimigos asiáticos: enquanto no filme de Zito ele volta ao Vietnã para resgatar soldados mantidos em cativeiro, em BRADDOCK 2 - O INÍCIO DA MISSÃO descobrimos que, no passado, o próprio herói passou pela experiência de prisioneiro de guerra, mas então não apareceu nenhum super-herói americano para resgatá-lo, e ele precisou bolar uma forma de escapar por conta própria.

Portanto foi o roteiro escrito a seis mãos por Steve Bing, Larry Levinson e Arthur Silver que realmente criou e apresentou o Coronel Braddock ao mundo. Este foi o primeiro grande crédito do trio, e nenhum deles alçou maiores voos posteriormente: Bing e Levinson viraram produtores, e Silver voltou ao seu trabalho pregresso, de roteirista de séries de TV.


Quando encontramos Braddock "pela primeira vez" (ainda sem sua barba característica, apenas um bigodinho comportado), estamos no Vietnã de 1972, o último ano da guerra, às vésperas da retirada das tropas norte-americanas do front (em 1973). O filme não se preocupa em explicar, mas ele usa o chapéu característico, com o emblema dos sabres cruzados, da Air Cavalry - uma unidade de pilotos de helicóptero especializada em transportar tropas e fornecer reforço por via aérea durante a guerra.

Sem nem imaginar o que o destino lhe reserva, o coronel embarca numa aeronave rumo ao Cambodja para uma missão de rotina. Ali também estão o Sargento Ernest Franklin (John Wesley), o Tenente Anthony Mazilli (Cosie Costa) e um anônimo piloto que muito em breve levará chumbo grosso e sairá de cena sem que saibamos mais sobre ele, suas dúvidas, frustrações e expectativas de vida. Ah, a futilidade da existência...


No caminho para sua missão, o tal piloto anônimo intercepta o comunicado de rádio de uma unidade em apuros nas proximidades. Braddock - que como já sabemos não gosta de deixar nenhum homem para trás - ordena que o helicóptero mude a rota para ir até lá dar uma mãozinha.

Entre explosões, balas zunindo e corpos ensanguentados, ainda estão vivos o Soldado Lawrence Opelka (Joe Michael Terry) e o Capitão David Nester (Steven Williams, o X da segunda temporada de "Arquivo X"), que correm para o providencial helicóptero enquanto Braddock mata sozinho pelo menos uma dúzia de soldados inimigos.

Na hora de decolar, entretanto, a aeronave é atingida por um disparo de bazuca, e seus tripulantes - à exceção do piloto, já falecido - saltam num rio próximo para salvar as próprias peles. Um carimbo em vermelho sobre um freeze frame de cada um dos cinco anuncia: "Missing in Action".


A narrativa então faz um salto no tempo que não chega a ser identificado por nenhuma legenda explicativa, e é um dos grandes enigmas desta série. Explico: seguem-se cenas de um noticiário de TV mostrando o então presidente dos EUA Ronald Reagan durante uma homenagem ao "Soldado Desconhecido" - o cadáver de um combatente norte-americano que foi recuperado no Vietnã e nunca oficialmente identificado.

Isso aconteceu em maio de 1984, onze anos após a retirada ianque lá do outro lado do mundo, e foi o momento em que Reagan prometeu às famílias enlutadas de outros supostos MIAs que o país não descansaria até não resgatar todo mundo que supostamente ainda estivesse sendo mantido lá por aquelas bandas. Chegou a pedir ao governo do Vietnã que "devolvesse à América os seus filhos".


A seguir o filme retorna ao Vietnã, porém sem especificar em qual ano. Seria numa época contemporânea ao discurso de Reagan mostrado na TV, logo em 1984 - e portanto 11 anos após a prisão de Braddock e amigos lá em 1972? Ou será que eles só estão presos há alguns meses, ainda entre 1972-73, e a inserção do noticiário com Reagan é apenas um recurso simbólico?

A confusão é aumentada pelo fato de que há sinopses diferentes sugerindo que o tempo dos personagens como prisioneiros de guerra foi de sete a dez anos! E em 1988 ainda sairia "Braddock 3" para bagunçar de vez a cronologia toda, mostrando o herói livre, leve e solto na Saigon de 1975!

Bem, como nenhuma fonte é lá muito confiável, e o próprio filme não se preocupa em esclarecer sua linha temporal, escolha você mesmo a quantidade de tempo que quiser que os caras fiquem presos, e sigamos em frente!


Reencontramos aqueles personagens carimbados como "Missing in Action" agora prisioneiros num campo comandado com punho de ferro pelo Coronel Yin. E você sabe que o lugar é barra-pesada quando um dos oficiais é ninguém menos que o Professor Toru Tanaka (abaixo), aquele grandalhão com cara de poucos amigos que já trocou porrada até com Schwarzenegger (interpretando Sub Zero no fantástico "O Sobrevivente", de 1987).


Curiosamente, o período passado em condições insalubres no meio da selva não fez nenhum mal ao nosso amigo Braddock. Ele agora ostenta a característica barba fechada que seria sua marca registrada em "Braddock - O Super Comando", mas segue com um físico excepcional, apesar de os prisioneiros serem mantidos numa dieta de arroz e trabalhos forçados. Mesmo passando os dias ao lado de um colega que está morrendo de malária, o herói segue forte como um touro - é claro que o organismo de Chuck Norris não seria maculado por qualquer germe de quinta categoria.

Já entre os demais, apenas Mazilli reaparece fisicamente diferente, com cabelos desgrenhados e barba comprida. Seus colegas, por outro lado, não parecem ter envelhecido um único dia desde que todos foram aprisionados lá na cena inicial...


Mas voltemos à narrativa: o Coronel Yin usa seus prisioneiros como escravos para o cultivo e colheita de ópio, que trafica com a ajuda de um contrabandista francês. Ao mesmo tempo, ele se diverte sadicamente inflingindo elaboradas torturas físicas e psicológicas nos soldados gringos, tentando forçar Braddock a assinar uma falsa confissão por crimes que teria cometido no país durante a guerra. Cabeça-dura que só, nosso herói se recusa a fazê-lo, desta forma prolongando indefinidamente o sofrimento dos seus homens no local.

Percebe-se que o próprio Coronel Yin não tem lá grandes ambições: com a guerra terminada, e o lado dele vitorioso, por que diabos o cara não desiste daquela baboseira toda em prol de um servicinho melhor, ou de umas férias? O que exatamente o imbecil ganha mantendo soldados norte-americanos aprisionados num campo no meio do nada e arrastando esta situação forever and ever?


Os primeiros 50 minutos de BRADDOCK 2 - O INÍCIO DA MISSÃO são aquilo que podemos chamar de "Namxploitation": uma aventura sensacionalista sobre as agruras de prisioneiros de guerra no Vietnã, comendo o pão que o diabo amassou nas mãos de inimigos sádicos, e num lugar que é praticamente uma sucursal do inferno.

É tipo a cena da roleta-russa de "O Franco-Atirador", do Michael Cimino, arrastada por quase um filme inteiro. Yin simula execuções apenas para atirar na cabeça dos prisioneiros com pistolas descarregadas ("quebrando-os" psicologicamente muito mais do que um tiro de verdade faria). Não há um dia em que não promova agressões gratuitas aos homens que em teoria deveria manter saudáveis para conseguirem trabalhar em seu proveito, ou lutinhas destes com seus oficiais. Num momento inesquecível, chega a torturar o herói usando um rato faminto (voltaremos a isso)!


Infelizmente para os prisioneiros, o local também parece ser à prova de fuga. "Não há como fugir do meu campo, a não ser que vocês considerem a morte uma fuga", desdenha o vilão. Isso porque o local fica no topo de uma montanha e está rodeado por precipícios e por uma floresta repleta de armadilhas.

Uma das únicas passagens para o mundo exterior é através de uma ponte impossível de cruzar, já que sentinelas posicionados do outro lado adoram torrar com lança-chamas qualquer pessoa que bote o pé na ponte. Ecos de "Exterminador 2", produzido pela Cannon no mesmo ano de 1984?

Seja como for, é uma das maiores ideias de jerico que eu já vi: tostar prisioneiros com lança-chamas NUMA PONTE DE MADEIRA PENDURADA POR CORDAS soa como uma loucura completa, e muito me admira ainda haver uma ponte ali depois que um ou dois fujões são devidamente exterminados (pegou?) com fogo bem no meio da passagem. Os jumentos poderiam esperar os caras cruzarem para tostá-los do outro lado, sem afetar a precária construção!


Durante estes 50 minutos de tortura e humilhação, Braddock assiste à coisa toda meio passivamente e suportando tudo no osso, quem sabe esperando que o Rambo apareça mais cedo ou mais tarde para resgatá-los. Não se abala nem mesmo quando o Coronel Yin informa que sua esposa (sim, aqui descobrimos que o herói tem uma esposa, nunca mencionada em "Braddock - O Super Comando") está pronta a casar outra vez enquanto ele é mantido prisioneiro. "Se minha esposa vai casar novamente, Coronel Yin, eu fico muito feliz por ela", provoca Chuck. "Porque se depender de eu assinar esta confissão, ela ainda vai me esperar por muito tempo".


Já outros colegas de prisão têm menos paciência. O Capitão Nester, por exemplo, cansou de tomar petelecos por causa de Braddock e trocou de lado, tornando-se uma espécie de criado particular de Yin, mas ganhando regalias (e um mínimo de conforto) a que seus parceiros não têm direito - e eles obviamente consideram Nester um traidor por "vender-se" ao inimigo ao invés de ficar lá nas gaiolas de bambu suportando os tormentos diários junto com o grupo todo.


O ponto de virada na passividade de Braddock diante dos mandos e desmandos do Coronel Yin acontece quando o estado de saúde de Franklin, o tal que sofre de malária, piora de forma significativa. Para salvar a vida do colega, o herói se sacrifica e aceita assinar a tal confissão em troca de medicamento para o enfermo. (A existência de tal documento explica porque no seu retorno ao Vietnã, em "Braddock - O Super Comando", ele é tratado como criminoso de guerra.)

Mas em seguida Braddock descobre que foi enganado e que Yin injetou uma dose cavalar de ópio em Franklin para matá-lo de overdose! Não contente, o vilão ainda cobre o soldado moribundo de gasolina e o incendeia AINDA VIVO, diante dos olhares do que restou do pelotão. A expressão de Chuck Norris nesta cena, que entrega parte dor, parte fúria, é um dos pontos altos de "interpretação" em um ator normalmente bastante limitado.


Em sua autobiografia "Against All Odds: My Story", escrita em parceria com Ken Abraham, Chuck descreveu o processo de filmagem deste momento em particular - uma experiência dolorosa porque evocou a imagem do irmão Wieland, para quem o ator dedicou a série "Braddock".

"Foi uma das cenas mais difíceis que eu já fiz como ator, porque ela foi filmada em dois dias: no primeiro foram gravadas as imagens com o soldado sendo queimado, e no segundo os planos da minha reação a um ato tão sádico. Isso quer dizer que eu realmente precisava demonstrar emoção ao invés de reagir a uma cena no momento em que esta ocorria. Só havia uma maneira de fazer isso, e eu avisei à equipe: 'Vai ser num take só, então é bom vocês gravarem tudo'. Quando começaram a gravar, eu imaginei meu irmão Wieland lá no Vietnã, comandando sua tropa, gritando aos soldados que tinham caído numa emboscada e sendo fuzilado pelos vietcongues. E então visualizei seu cadáver na funerária, no dia em que o enterramos. Assim consegui passar a emoção necessária, mas é algo que eu jamais faria outra vez", descreveu o astro.


Com este ato de crueldade de Yin despertando algo adormecido dentro do protagonista, Braddock finalmente escapa e, escondido na selva ao redor do campo, passa a praticar táticas de guerrilha contra seus captores em superioridade numérica - roubando armas e explosivos num dia, matando sentinelas em outro, explodindo barracões num terceiro...

E fica difícil não se pegar pensando que o herói poderia ter feito tudo isso ANTES, ao invés de esperar sabe-se lá quanto tempo (anos? uma década?) para reagir! Mas é claro que, uma vez Braddock inicie sua vingança contra o cruel inimigo asiático, nenhum espectador estará com peninha daqueles bárbaros e sádicos depois dos 50 minutos de sofrimento que eles inflingiram aos "caras legais".


Enquanto "Braddock - O Super Comando" sofria com a falta de um grande e representativo vilão (e o herói matava seus principais antagonistas ainda na metade do filme!), BRADDOCK 2 - O INÍCIO DA MISSÃO opta por uma narrativa mais tradicional e tem vilão que dá e sobra. Se um dia alguém se meter a fazer uma lista dos bandidões mais filhos-da-puta da história do cinema de ação sem citar o Coronel Yin deste filme aqui, pode ter certeza de que a lista não vale nada!

Pois este sujeito que alia extrema frieza e crueldade, sempre com um sorrisinho algo sádico, algo irônico no rosto, também é um dos pontos altos da carreira do ator sul-coreano Soon-Tek Oh (1932-2018). Ironicamente, o mesmo ator havia lutado no Vietnã AO LADO de Chuck Norris no anterior e fraquinho "Os Bons Se Vestem de Negro" (1978), mas aqui virou a casaca e representa um adversário de extremo respeito. Soon-Tek repetiria o papel de vilão asiático em subprodutos de "Braddock", como o engraçadíssimo "Olho por Olho" (1987), onde serve de saco de pancadas para o brucutu Martin Kove e interpreta basicamente o mesmo papel de Coronel Yin com outro nome.


Se para alguns o ponto alto da vilania de Yin é queimar um soldado vivo, outros certamente ficarão muito mais chocados com uma demonstração posterior de maldade que bate recordes de mau gosto e apelação. Após a fuga de Braddock, o vilão coloca seu colega Mazilli na solitária. E como o prisioneiro tem um simpático galo de estimação chamado Angelo, Yin resolve jogar o galináceo para fazer companhia a Mazilli... depois de torcer-lhe mortalmente o pescoço, óbvio.

À primeira vista, parece que um galo verdadeiro foi morto em cena para proporcionar tão terrível momento (ou usaram um galo falso muito realista, o que eu duvido considerando os orçamentos da Cannon Films). Isso só para o caso de alguém ainda não ter percebido, àquela altura do filme, que o Coronel Yin é, sim, um grandessíssimo filho-da-puta.

E a cena só não é mais triste e chocante porque o pobre Angelo foi muito sub-aproveitado no restante da narrativa para que o espectador criasse mais empatia pelo indefeso galináceo - como acontece, por exemplo, com o pobre ratinho que é o animal de estimação de um dos condenados em "À Espera de um Milagre", e também tem destino violento nas mãos (ou pés) de um sádico.


Já que estamos falando em humanos cruéis e crueldade contra animais, vamos relembrar também uma das imagens mais inesquecíveis do filme: Chuck Norris pendurado de cabeça para baixo enquanto um saco de pano, com um rato vivo e furioso em seu interior, é amarrado na cabeça do herói.

Braddock começa a se debater como se estivesse sendo atacado pelo rato, sangue mancha o pano do saco, e então os movimentos do herói cessam. Quando um dos soldados desata o saco para ver se o ianque está morto ou apenas inconsciente, a câmera dá um zoom no protagonista e revela que ele segura o rato morto e coberto de sangue entre os dentes! Braddock 1 x 0 Ratatouille!


Não bastasse a cena em si ser espetacular (porque inusitada), a história da sua filmagem é uma daquelas pérolas da "casca-grossice" que tornaram o cinema de ação dos anos 1980 (e caras como Chuck Norris) legendários. Conforme narrou o próprio astro numa entrevista à revista Empire em 2012, um rato DE VERDADE foi usado na cena inteira:

"A cena da tortura com o rato? Nunca vou me esquecer daquilo. Foi numa época em que eu era estúpido, então quando a equipe percebeu que não havia um rato falso pronto para a filmagem, eu disse: 'Matem o verdadeiro'. Aí me penduraram de cabeça para baixo, colocaram o saco na minha cabeça, eu fiquei mordendo aquele rato de verdade e vinha esse montão de sangue falso descendo por uma cordinha direto para a minha boca. Enquanto eu sentia o gosto daquele rato, passei o tempo todo pensando: 'Acabo de pegar peste bubônica!'."


Como eu já havia declarado no artigo sobre "Braddock - O Super Comando", enquanto filme de ação eu realmente prefiro BRADDOCK 2 - O INÍCIO DA MISSÃO do que seu antecessor. Porque na primeira parte há um ato inteiro focado em thriller político e blablabla, e aqui é pauleira da grossa do início ao fim. Com níveis de testosterona estratosféricos, já que as únicas personagens femininas da história inteira são umas putas que aparecem para "divertir" os soldados de Yin, e que ficam em cena por menos de cinco minutos!

Mesmo que Chuck passe a maior parte do filme confinado e sem reagir, ainda assim há torturas, tiros, pessoas incendiadas vivas e até lutinhas entre os prisioneiros (Chuck x Steven Williams!) para não deixar a peteca cair. No ato final, quando o herói finalmente escapa e começa a reagir aos abusos sofridos até então, o filme inicia uma sequência de cenas que deve ter feito muita gente gritar alto nos cinemas. Tipo quando Braddock faz os sentinelas da ponte provarem um pouquinho do próprio remédio e os incendeia com o próprio lança-chamas.


Claro que o melhor está reservado para o Coronel Yin, que precisa sofrer lentamente pela quantidade de barbaridades perpetradas. De início, parece que Braddock vai simplesmente executar o arquiinimigo com um tiro à queima-roupa (acima). Uma crítica publicada pelo The New York Times em março de 1985, na semana de estreia do filme nos cinemas, registra uma reação engraçada a este momento: "'Não mate ele assim!', implorou um homem na audiência, quando parecia que o Sr. Norris ia simplesmente atirar no inimigo".

Para a satisfação pessoal deste anônimo espectador, e de muitos outros desde então, Braddock apenas dá um sustinho no rival usando uma pistola descarregada - como este adorava fazer para torturar seus prisioneiros -, iniciando então um respeitável combate mano a mano com Yin (uma cena melhor que "Braddock - O Super Comando" inteiro).

Cada soco, chute e roundhouse kick é dedicado a um dos companheiros agredidos ou mortos durante o período passado no campo de prisioneiros, com direito a costela quebrada à unha. Obviamente, o golpe final desferido no algoz é em homenagem ao próprio Braddock, quando este explode pelos ares o vilão e todo o seu campo!


Sabe-se que os dois "Braddocks" foram filmados praticamente ao mesmo tempo. Este segundo chegou aos cinemas norte-americanos apenas em 1985, mas é o ano de 1984 que aparece nos créditos finais (abaixo), comprovando que já estava pronto bem antes.

Enquanto Joseph Zito rodou o primeiro nas Filipinas, Lance Hool filmou o segundo parte em Saint Kitts (uma ilha do Caribe) e parte no México. Por isso as equipes técnicas de ambos os filmes são completamente diferentes, tirando um ou outro técnico norte-americano (como o irmão caçula de Chuck, Aaron Norris, novamente a cargo da supervisão dos dublês).


E justamente por isso, por terem sido filmados back-to-back, é imperdoável que alguns fatos da "cronologia" dos filmes não fechem completamente. Em "Braddock - O Super Comando", por exemplo, o herói lembra várias vezes dos seus tempos de prisioneiro de guerra e das rusgas que tinha com um sádico oficial chamado Vinh (interpretado, naquele filme, por Ernie Ortega). Pois Vinh nunca aparece ou é mencionado em BRADDOCK 2 - O INÍCIO DA MISSÃO. Mesmo que possamos assumir que o herói foi transferido de outro campo de prisioneiros até acabar nas garras do Coronel Yin, os realizadores dos dois filmes poderiam ter combinado alguma estratégia para usar as mesmas cenas do passado de Braddock no Vietnã, criando assim um mínimo de coerência.

Outro detalhe curioso é o fato de os companheiros sobreviventes na fuga do campo nunca serem citados na história posterior de "Braddock - O Super Comando". Ao invés de convidar Tuck, o gordo putanheiro interpretado por M. Emmet Walsh na Parte 1, para ajudá-lo no resgate de prisioneiros de guerra daquele filme, por que Braddock não recrutou os veteranos que lutaram ao seu lado aqui, como Mazilli ou Opelka, que pelo menos estavam em forma?


Finalmente, em "Braddock - O Super Comando" discute-se a possibilidade de ainda existirem MIAs no Vietnã como a lenda urbana que provavelmente era na vida real. Mas como isso é possível se BRADDOCK 2 - O INÍCIO DA MISSÃO termina com Chuck e outros prisioneiros justamente voltando aos Estados Unidos fugidos de um campo de prisioneiros no Vietnã?

Uma reportagem de TV em "Braddock - O Super Comando" informa que a história do protagonista nunca foi levada a sério porque ele não apresentava provas que a sustentassem... Caceta, de que outras provas você precisa? Vá lá que o fato de Braddock ter mandado o campo de prisioneiros de Yin para os ares no final do filme não ajudou no quesito "apresentar provas", mas ainda assim ele fugiu do Vietnã com um helicóptero e levando consigo vários colegas esfarrapados como testemunhas!


E embora eu realmente prefira BRADDOCK 2 - O INÍCIO DA MISSÃO, tenho que assumir que a direção do marinheiro-de-primeira-viagem Lance Hool é qualquer nota. Certo, o homem manda bem nas cenas de ação, mas convenhamos que com Chuck Norris matando inimigos com lança-chamas ou na porrada fica difícil de errar. Nas cenas "dramáticas", entretanto, Hool força a mão de uma maneira que acaba transformando o filme em comédia involuntária.

Tente segurar o riso, por exemplo, na cena em que Mazilli e Franklin discutem sobre os amores e filhos que deixaram para trás nos Estados Unidos, enquanto toca uma musiquinha edificante e, na lateral do quadro, Braddock aparece... costurando silenciosamente uma esfarrapada bandeira dos Estados Unidos, com agulha e linha que arrumou sabe-se lá onde!


Música que, vale o registro, foi composta por ninguém menos que Brian May. Não, não o guitarrista do Queen, mas sim o finado músico australiano homônimo que foi responsável por grandes composições, tipo as trilhas sonoras de "Mad Max" Partes 1 e 2, e dos filmes do (injustamente) esquecido Richard Franklin, como "Os Heróis Não Têm Idade" e "Patrick". Eu ainda prefiro a música-tema de Jay Chattaway para "Braddock - O Super Comando", que é aquela que realmente fica na cabeça, mas a trilha de May para este segundo filme tem bons momentos. E ele ainda foi suficientemente picareta para incluir um trechinho da música que compôs para "Mad Max 2"!


A Cannon conseguiu estrear BRADDOCK 2 - O INÍCIO DA MISSÃO nos cinemas dos Estados Unidos em 1º de março de 1985, dois meses antes da premiére oficial de "Rambo 2 - A Missão" (que por sua vez chegou aos cinemas em 22 de maio daquele ano), emplacando assim DUAS aventuras sobre prisioneiros de guerra no Vietnã antes da estreia do produto oficial que tentavam copiar.

Esta prequel também atingiu um grande público: embora tenha feito menos sucesso que o filme original, foi o terceiro filme mais visto na semana do seu lançamento, quando faturou quase 4 milhões em entradas. Até sair de cartaz, já tinha arrecadado 10,7 milhões de dólares.


É possível que a ordem esquisita de lançamento tenha confundido o público, já que, conforme eu escrevi no artigo anterior, prequels contando histórias ANTERIORES, ao invés de dar continuidade à trama do original, ainda não eram artigo comum.

A já citada crítica do The New York Times da época do lançamento até brinca com essa narrativa retroativa: "Confuso com a cronologia? No primeiro filme o Coronel Braddock voltou ao Vietnã para resgatar prisioneiros de guerra. Tudo correu bem: os homens foram resgatados e o filme fez muito dinheiro. Então esta sequência revela os detalhes da fuga anterior de Braddock do Vietnã. Se também for bem na bilheteria, certamente veremos uma Parte 3 contando como foram os seus anos no colégio".


Enquanto "Braddock - O Super Comando" é um produto do seu tempo e exige algum contexto histórico para fazer sentido (Era Reagan, prisioneiros de guerra, Vietnã, Ocidente x Comunistas), BRADDOCK 2 - O INÍCIO DA MISSÃO funciona melhor como aventura universal e atemporal. Ok, está ambientada durante a Guerra do Vietnã, mas ainda assim pode ser vista como uma aventura padrão de prisão, onde não falta nenhum dos clichês desse tipo de história (dos carcereiros sádicos às torturas criativas, só fomos poupados de uma cena de banho, felizmente).

Neste sentido, Chuck não apenas furou o olho de Sylvester Stallone saindo antes de "Rambo 2 - A Missão" com seus dois "Braddock", mas também protagonizou uma aventura sádica de prisão quase cinco anos antes do concorrente lançar "Lock Up / Condenação Brutal" (1989), de John Flynn, que é exatamente outra aventura sádica de prisão (esta nos tempos "atuais", e não no Vietnã).


E justo quando parecia que as aventuras do Coronel Braddock no Vietnã tinham acabado (tendo fugido de lá na Parte 2 e voltado para resgatar outros colegas aprisionados na Parte 1), a Cannon começou a enfrentar problemas financeiros, e decidiu que a melhor estratégia para conseguir dinheiro fácil era ressuscitar seus personagens e franquias mais famosos.

Com isso, e contra a vontade de Chuck, o personagem voltou uma terceira vez ao Vietnã para dar tiros e coices em "Braddock 3 - O Resgate" (1988), que eu particularmente acho o melhor da trilogia. E não, o filme não conta como foram os anos do herói no colégio, como temia aquele espirituoso e bem-humorado crítico do The New York Times.

Sobre este, entretanto, falamos quando sobrar tempo...


Trailer de BRADDOCK 2 - O INÍCIO DA MISSÃO