segunda-feira, 5 de maio de 2014

VÊNUS EM FÚRIA (1969)


(Foi a Continental Vídeo que prestou o desserviço de traduzir "Venus in Furs" como VÊNUS EM FÚRIA no Brasil, ao invés de "Vênus Vestindo Peles" ou "Vênus num Casaco de Pele", como manda a ortografia e o bom senso. Esqueçam, portanto, esta tradução bisonha: a partir de agora, irei me referir ao filme somente pelo título em inglês, VENUS IN FURS! Chupa, Continental!!!)

Numa praia da Turquia, o jazzista norte-americano Jimmy Logan faz um buraco na areia e desenterra uma caixa, onde está o seu velho trompete. Enquanto recupera o instrumento e começa a soprar as primeiras notas, sua narração em off revela um misto de desorientação e perda de memória: "Tudo começou no ano passado, perto de Istambul, na costa do Mar Negro. Ou pelo menos eu acho que foi assim. Tentei lembrar porque tinha enterrado meu trompete, porque isso é o mesmo que enterrar a mim mesmo. Músicos irão entender, um músico sem seu trompete é como um homem sem palavras". Logo, seus devaneios são interrompidos por um vulto no horizonte, um cadáver que está sendo trazido para a margem pelas ondas do mar. Ele corre (em câmera lentíssima) até o local e se depara com o corpo nu e cheio de cortes de Wanda Reed, uma bela mulher que ele lembra de ter conhecido algum tempo antes, numa festa em que trocou trompete (aquele mesmo que acabou de desenterrar)...


É dessa maneira enigmática que começa VENUS IN FURS, o filme mais "Hitchcockiano" de Jess Franco, e por isso mesmo considerado um dos melhores títulos da sua longa filmografia. Como muitos trabalhos assinados pelo diretor espanhol na mesma época, este também enfrentou problemas de pré e pós-produção, e no fim o resultado ficou completamente diferente do que havia sido planejado no início!

Em várias entrevistas, e inclusive naquela que acompanha o DVD importado do filme, Jess explicou a gênese de VENUS IN FURS: uma conversa que ele teve certa noite com o trompetista de jazz Chet Baker num clube em Paris. "Ele me disse: 'Quando você faz um solo, você está sendo inspirado por alguma coisa. Pode ser alguém que você ama ou alguém que está no mesmo local. E, enquanto você toca, tem aquela impressão de que está vivendo alguma coisa irreal, uma história de amor que nunca viveu, ou experiências maravilhosas do tipo que só acontecem em sonhos. E você se sente como quando dizem que um homem, ao morrer, vê a sua vida inteira, os seus desejos, tudo, passar num flash pelos seus olhos. E então o solo termina, você levanta a cabeça e percebe que se passaram apenas três minutos! Aquilo só aconteceu dentro de você!'. E eu achei esta ideia incrível".


A partir dessa conversa, Franco escreveu o roteiro de uma história de amor surreal entre um trompetista negro (que seria baseado no legendário músico real Miles Davis) e uma bela garota branca. A pegadinha é que, no final, seria revelado que tal romance acontecia apenas na imaginação do músico, mais ou menos como aquela história que ele ouviu de Chet Baker sobre como a mente voa longe quando se executa um solo de trompete...

Na época, os filmes de Jess estavam sendo bancados pelo inglês Harry Alan Towers, um grande fã do clima lisérgico de "Necronomicon" (que Franco dirigiu em 1967), e que ficou animadíssimo com a possibilidade de financiar mais uma produção na mesma linha, baseada em sonhos e delírios. Mas os problemas começaram bem cedo: Towers fechou uma co-produção com a norte-americana AIP, que começou a mexer e remexer na história para torná-la "mais comercial".


Assim, o que inicialmente seria a história de um músico negro vivenciando fantasias de amor com uma garota branca acabou se tornando a busca de um trompetista branco por uma mulher dos sonhos também branca, ao mesmo tempo em que tem uma relação fugaz com uma garota negra!

Franco deu detalhes sobre esta "transformação" nos extras do DVD importado de VENUS IN FURS: "Os co-produtores disseram que o público norte-americano não estava preparado para ver um homem negro com uma mulher branca na cama! Mas o engraçado é que estava tudo bem no caso de um homem branco dormindo com uma mulher negra! E como eu estava proibido de colocar um negro e uma branca, minha história original já era, tivemos que reescrevê-la e contar uma outra história!".

(Ironicamente, no mesmo ano de 1969 chegou aos cinemas o western "100 Rifles", de Tom Gries, considerado o primeiro filme "comercial" a mostrar uma cena de sexo interracial, entre o negro Jim Brown e a branca Raquel Welch!)


E dessa maneira meio aloprada, cheia de restrições e adaptações, nasceu uma pequena pérola do cinema fantástico, que, mesmo com defeitos inegáveis (conforme veremos em seguida), merece um lugar de destaque entre os grandes trabalhos do diretor - e também é um dos seus títulos mais conhecidos, mesmo por quem NÃO viu o filme!

A "Vênus em Casaco de Pele" do título original é ninguém menos que a delicinha Maria Rohm, uma bela austríaca que, à época, estava na flor dos 23 aninhos. Ela era esposa do produtor Towers e "entrava no pacote" dos filmes em que ele colocava a mão: apareceu em oito dos nove títulos dirigidos por Jess que o maridão financiou, e sempre com papel de destaque (foi dispensada apenas de "The Castle of Fu Manchu").

Inclusive existe um boato (reproduzido pelo livro "Perverse Titillation: The Exploitation Cinema of Italy, Spain and France", de Danny Shipka) de que Towers costumava usar os atributos sexuais da moça para assegurar a participação de co-produtores endinheirados em seus projetos...


Fofocas à parte, voltemos à trama de VENUS IN FURS: depois que Jimmy desenterra seu trompete e encontra o cadáver nu de Wanda na praia, ocorre um rápido flashback em que o músico lembra do seu primeiro encontro com a garota, dias antes. Ele estava tocando numa festa para playboys quando a linda loira chegou vestindo um deslumbrante casaco de pele, numa entrada em cena literalmente cinematográfica (Franco faz questão de usar vários takes mostrando todos os convidados da tal festa "congelados no tempo", como se a chegada da "Venus in Furs" tivesse literalmente feito o universo parar!).

Não demora para a moça ser cercada por três dos endinheirados: o comerciante de arte Percival Kapp (interpretado por Dennis Price); a fotógrafa de moda - e lésbica - Olga (Margaret Lee), e o ricaço árabe Ahmed (Klaus Kinski?!?), que é adepto da prática do sadomasoquismo. O trio leva Wanda para uma salinha isolada do casarão, provavelmente para fazer uma grande suruba, certo?


Só que Jimmy dá um tempo no trompete e sai para fumar um cigarrinho; espiando por uma janela, testemunha a verdade sobre a "suruba" dos ricaços: na verdade, o que acontece é uma brutal sequência de tortura seguida de assassinato, em que a pobre Wanda é abusada sexualmente, chicoteada por Olga e finalmente apunhalada até a morte por Ahmed, que, para completar, bebe o sangue da vítima enquanto Kapp assiste! O músico também observa tudo enojado e perplexo, mas sem reagir.

A partir de então, remoído pela culpa de não ter movido um dedo para salvar a bela loira, o trompetista resolve sair numa jornada de "auto-descobrimento" junto com a namorada, a cantora negra Rita (Barbara McNair). E a coitadinha acaba ficando em segundo plano enquanto Jimmy é assombrado pelas suas memórias, durante a viagem que leva o casal primeiro para o Rio de Janeiro (!!!) em pleno Carnaval, e depois de volta para Istambul.


Nas duas cidades, enquanto toca em clubes e festas particulares, Jimmy começa a ver a finada Wanda em meio ao público, sempre vestindo seu indefectível casaco de pele. Nas duas cidades, também, os carrascos da moça - Kapp, Olga e Ahmed - começam a sofrer mortes misteriosas. Seria uma vingança do além-túmulo, ou Wanda na verdade nunca morreu e está aproveitando a fama de "fantasma" para dar o troco? Ou é tudo coisa da imaginação do pobre Jimmy?

Lembrando um "Necronomicon" menos artístico (e menos pretensioso), mas com uma estrutura narrativa semelhante, VENUS IN FURS se desenrola de uma forma propositalmente confusa, como se fosse tudo um grande pesadelo ou delírio do protagonista. Na conclusão "circular", que o leva de volta à beira da praia onde o filme começou, tudo finalmente passa a fazer sentido: (SPOILERS) o corpo levado pelas ondas não é o de Wanda, mas sim do próprio Jimmy, que, morto por afogamento desde o início do filme, viu sua vida toda passar num flash pelos seus olhos. Ou então imaginou tudo, como na história que Chet Baker contou para Franco - o espectador que decida qual hipótese prefere. O famoso final do "protagonista que está morto mas não sabe disso" virou clichê recentemente graças a filmes como "Alucinações do Passado" (1990) e "O Sexto Sentido" (1999), mas ainda era uma grande novidade à época, embora uma conclusão parecida tenha aparecido em "Carnival of Souls" (1962). (FIM DOS SPOILERS)


(MAIS SPOILERS) Vale ressaltar, também, que uma cena anterior em que o protagonista descobre que Wanda está realmente morta - ao encontrar seu casaco de pele jogado em frente a uma lápide com o nome da falecida, num cemitério de Istambul - lembra bastante uma lenda urbana que é popular até hoje, sobre um sujeito que acompanha uma bela garota para casa após um baile, e oferece seu casaco à moça para protegê-la do frio. No dia seguinte, ao voltar para o mesmo endereço em busca da amada, ele encontra um cemitério no lugar da casa dela, e seu casaco sobre uma lápide com a foto da moça da noite anterior! E aí, o que terá surgido primeiro: VENUS IN FURS ou esta lenda urbana? (AGORA SIM, FIM DOS SPOILERS)


O "herói" Jimmy é interpretado pelo ator norte-americano James Darren, de "Os Canhões de Navarone", mais conhecido à época como o Dr. Tony Newman do seriado "Túnel do Tempo". Franco destacou, em entrevista, que o ator não era a sua primeira opção para o papel, mas que ficou feliz com a escolha ao descobrir que Darren não apenas sabia tocar trompete, mas também conhecia Chet Baker, o músico que "inspirou" a história do filme.

Embora Darren apareça na maior parte das cenas, quem rouba o show é Maria Rohm como a misteriosa "Venus in Furs". O filme nunca explica o quê exatamente é a personagem (uma ameaça sobrenatural verdadeira ou apenas a personificação da culpa e do remorso agindo sobre os seus assassinos?), mas isso faz parte do charme da coisa toda. É o tipo de figura complexa que, como Janine Reynaud no anterior "Necronomicon", faz o espectador coçar a cabeça até o final, tentando entender o que exatamente está acontecendo.


A atriz (cujo nome de batismo é Helga Grohmann) está um espetáculo como a silenciosa vingadora de casaco de pele, uma mulher forte, sensual e independente, que usa o próprio corpo como "arma". Enfim, uma personagem bem típica do cinema de Franco, já vista antes em "Miss Muerte" e "Necronomicon", e depois numa infinidade de outros filmes, entre os quais destaco "Ela Matou em Êxtase".

VENUS IN FURS é possivelmente o melhor trabalho de Maria com Jess na direção. Sua carreira no cinema misteriosamente não foi muito além dessa parceria de oito filmes com o diretor espanhol, e encerrou em 1976. Seu último trabalho de destaque foi "O Último dos Dez" (1974), uma adaptação do clássico "O Caso dos Dez Negrinhos", de Agatha Christie. Ela continuou ao lado do produtor e maridão Towers (inclusive atuando como co-produtora dos filmes dele durante um curto espaço de tempo) até a morte deste, em 2009.


Já Klaus Kinski aparece pouco, mas mesmo assim, como sempre, consegue deixar sua marca. O curioso é que seu personagem é árabe (?!?), e ele até aparece vestido como sultão em algumas cenas, o que definitivamente não combina muito com o estilão do ator. Quando ele pega uma adaga e começa a abrir talhos no corpo nu de Maria Rohm (de mentirinha, claro), o espectador já espera pelo pior, dada a fama de maluco de Kinski!

Outro destaque entre os algozes de Wanda Reed é o veterano Dennis Price, que, como se sabe, nesta altura da carreira tinha o hábito de gravar suas cenas completamente bêbado. Franco confirma isso na entrevista no DVD importado de VENUS IN FURS, mas também argumenta que o ator era incrivelmente profissional, mesmo mamado, e que por causa disso eles trabalharam juntos mais vezes (em "Dracula Contra Frankenstein", "Vampyros Lesbos" e outros). Num momento em que o personagem de Price surta na cama, delirando com imagens da finada Wanda, é impossível não imaginar que ele deve estar sob forte influência etílica...


Tendo um personagem principal que é músico, e uma trama que se passa quase que inteiramente em festinhas e clubes de jazz, VENUS IN FURS é praticamente um musical, com inúmeros interlúdios em que vemos James Darren tocando ao lado do próprio Franco (no trombone e no piano!), e de músicos "reais" do calibre do britânico Manfred Mann e sua banda.

Barbara McNair, que também era cantora na vida real (ela cantou uma das músicas da trilha de "99 Mulheres", outra produção de Franco e Towers), aqui aparece como atriz, mas tem a oportunidade de demonstrar seus dotes vocais em duas cenas, e principalmente no refrão da canção-título ("Venus in Furs will be smiling"), repetido sempre que Wanda se vinga de um dos seus algozes.


VENUS IN FURS
não é considerado um "Franco Hitchcockiano" por acaso ou exagero: além de a trama buscar sua principal inspiração em "Um Corpo que Cai" (a exemplo de Kim Novak naquele filme, Maria Rohm, aqui, também é uma mulher que "vive duas vezes"), é possível pescar referências a vários outros trabalhos do inglês, como "Festim Diabólico" (o crime cometido por riquinhos durante uma festa) e "Janela Indiscreta" (a personagem da fotógrafa voyeur que praticamente transa com Wanda pela lente da sua câmera fotográfica). Sem contar que Maria Rohm lembra uma autêntica "loira de Hitchcock"! Por isso, é uma pena que ninguém nunca tenha questionado Jess sobre o assunto "homenagens a Hitchcock em VENUS IN FURS" enquanto ele ainda estava vivo...


Já os fãs de David Lynch provavelmente ficarão assombrados com o quanto VENUS IN FURS lembra o posterior "A Estrada Perdida" (1995): ambos os filmes têm como protagonista um músico de jazz (Darren no trompete aqui, Bill Pullman no sax no filme de Lynch) e uma garota que supostamente morreu e "ressuscitou" (Maria Rohm aqui, Patricia Arquette em "A Estrada Perdida"). O clima bizarro dos dois filmes também é bem parecido, embora Lynch puxe mais para o medo e para o horror, enquanto Franco prefere ficar numa abordagem mais "erótica".


Além dos problemas com a mudança da cor da pele dos personagens principais, Franco deve ter enfrentando muitas outras dificuldades durante as filmagens, já que VENUS IN FURS tem a maior cara de ter sido "corrigido" (ou pelo menos muito alterado) na pós-produção. Os créditos finais informam o nome dos prováveis culpados: Robert e Harry Eisen, responsáveis pela "supervisão de pós-produção".

A chatíssima e redundante narração em "off" de James Darren não parece ser coisa do diretor. Na opinião do pesquisador Tim Lucas, ela teria sido incluída pelos distribuidores norte-americanos de última hora (e sem participação de Jess), para deixar a história mais "redondinha" para o público americano, externando as dúvidas e conflitos do protagonista.

Os créditos iniciais citam Malvin Wald (que trabalhava em seriados de TV nos Estados Unidos) como um dos roteiristas, e é possível que ele tenha sido o responsável por escrever os "offs" de Darren - "Muito americanizados para terem sido escritos por Franco", segundo Lucas.


Nos créditos, a edição do filme é assinada pelo próprio Franco, mas ele disse que VENUS IN FURS também ganhou uma nova montagem nos Estados Unidos, com a inserção de diversos efeitos especiais "psicodélicos", tipo filtros e cores chapadonas, para lhe dar um clima parecido com o do anterior "Necronomicon".

"Mexeram em várias coisas depois de mim, mas eu não concordo com essas mudanças e não gosto delas", resumiu Jess, na entrevista para o DVD do filme. Esses efeitinhos doidões teriam sido cortesia de Michael Pozen, o mesmo sujeito que na época editava o show de TV da banda The Monkees, e que montou o filme "Os Monkees Estão de Volta" (1968), onde aparecem umas viagens bem parecidas!


Para piorar, há um excesso de cenas de arquivo reaproveitadas na montagem, e nem sempre com resultado positivo, provavelmente para tapar buracos na narrativa, fechar o tempo de um longa ou mesmo para permitir a inserção dos incontáveis "offs" do protagonista. O fato de parte da trama se passar no Rio de Janeiro, por exemplo, é mera desculpa para a reutilização das cenas de Carnaval (acima) filmadas por Jess para o anterior "A Garota do Rio", e que dão um desajeitado (e desnecessário) tom documental ao filme.

Até porque nunca vemos os personagens de VENUS IN FURS interagindo com cenários brasileiros, e isso simplesmente porque ELES NÃO VIERAM PARA CÁ! O cúmulo da picaretagem acontece quando utilizam um take em close de James Darren sobreposto às imagens antigas do Carnaval, tentando passar a ideia de que ele está na passarela assistindo aos desfiles (abaixo)!!!


Mais adiante, numa cena de lesbianismo entre Maria Rohm e Margaret Lee, também foram reaproveitados uns takes meio granulados de uma cena de sexo entre a mesma Maria Rohm e uma outra atriz (Rosalba Neri) no anterior "99 Mulheres", reaproveitados na montagem aqui talvez porque o material original não era tão ousado quanto os distribuidores queriam...

Por fim, consta que Jess foi obrigado a transformar seu filme em VENUS IN FURS na metade do caminho, e quando já estava filmando! Originalmente, o projeto se chamava "Black Angel", título condizente com aquela ideia original do diretor de um romance interracial. Mas logo surgiu a ideia dos distribuidores (sempre eles!) de rebatizar o filme como VENUS IN FURS para tentar forçar uma relação com o famoso livro de mesmo nome, escrito pelo austríaco Leopold von Sacher-Masoch em 1870.


O problema é que a trama que estava sendo filmada não tinha absolutamente nada a ver com o livro (além da presença de uma personagem feminina chamada Wanda). A solução para poder usar o novo título sem que ele parecesse excessivamente enganoso foi simplesmente filmar um montão de cenas novas com Maria Rohm vestindo seu casaco de pele!

"Eu disse a eles [distribuidores] que não iria mais mudar a história, mas concordei em colocar essa garota dos sonhos do trompetista vestindo casaco de pele, para justificar o título, e nada mais", confirmou Jess na entrevista para o DVD, dizendo também que odeia o título VENUS IN FURS (embora seja um dos mais populares da sua filmografia!).


Ironicamente, este acabou sendo o terceiro filme com este título num espaço de poucos anos: o primeiro "Venus in Furs" foi dirigido pelo nova-iorquino Joseph Marzano em 1967, e o segundo pelo italiano Massimo Dallamano no mesmo ano, 1969. Ambos são filmes eróticos softcore. Mais recentemente, "Venus in Fur" (no singular) virou título do novo filme de Roman Polanski!

Como já havia acontecido com "Necronomicon", VENUS IN FURS ganhou uma montagem completamente diferente na Itália, a cargo do famoso Bruno Mattei! Esta versão (pôster ao lado) foi rebatizada "Paroxismus: Può una Morta Rivivere per Amore?" (o título não deixa nada para a imaginação), e é radicalmente diferente da original, inclusive com um outro final. (SPOILERS) A versão italiana termina um pouco antes da "normal", quando Jimmy descobre que Wanda está morta, mas sem a parte em que o músico conclui que ele mesmo também está morto. Assim, o protagonista continua vivinho da silva e termina o filme tocando a música-tema no seu trompete à beira da praia, melancólico pela perda da fantasmagórica amada! (FIM DOS SPOILERS)

O mais interessante é que a montagem italiana altera a ordem dos acontecimentos, elimina todas as cenas de arquivo do Carnaval e insere algumas novas que não foram aproveitadas na edição oficial (tipo uma em que Jimmy liga para a polícia para avisar sobre o corpo encontrado na praia), além de trazer alguns takes mais longos (aqui Olga comete suicídio fazendo três cortes no próprio pulso com uma gilete, e não um só). Ao mesmo tempo em que tira alguns daqueles efeitos psicodélicos que enfureceram o diretor, Mattei também enche outras cenas (aquelas em que Wanda se vinga dos seus assassinos) com efeitos ópticos ainda piores, tipo caleidoscópio, que mal permitem ver o que está acontecendo (confira nas imagens abaixo)!


Logo, VENUS IN FURS era um filme que merecia desesperadamente uma "director's cut", o que infelizmente nunca mais acontecerá, agora que o pobre Jess Franco bateu as botas. A remontagem italiana dá uma bela ideia de como a narrativa fluiria bem melhor sem aquele excesso de "stock footage" (as cenas de Carnaval são totalmente dispensáveis). Mas também seria preciso ter acesso às cenas estendidas e alternativas que foram aproveitadas por Mattei, já que elas não aparecem em nenhuma outra cópia (e nem como extras no DVD hoje existente do filme). Sem a narração do personagem principal, também, a narrativa ficaria mais silenciosa e introspectiva (em suma, típica do diretor), sendo conduzida basicamente pelo jazz, já que a música é praticamente onipresente ao longo do filme.


E se VENUS IN FURS poderia ser um filmaço limando-se todas essas gordurinhas, como está hoje continua sendo um belíssimo filme. Imperfeito, sim, mas muito mais acessível e divertido do que o anterior "Necronomicon" (a narrativa não-linear e esquisitona de ambos é bem parecida, porém me parece funcionar de forma mais eficiente aqui).

Sexo e nudez aparecem em doses mais econômicas - o oposto dos filmes no limite do pornográfico que Jess faria a partir dos anos 1970 -, e o uso desses elementos nunca é vulgar ou apelativo.

Como vários títulos desta primeira fase da filmografia de Jess, é impressionante o cuidado com a composição das cenas e com o visual do filme, que está cheio de cores fortes e enquadramentos exóticos.


Detratores da obra de Franco ficariam sem argumentos diante de belíssimos momentos como aquele em que Wanda, seminua, desce uma escadaria arrastando seu casaco de pele por um carpete em vermelho tão vivo que lembra um mar de sangue! Ou a já citada cena da morte de Dennis Price, que acontece numa sala cheia de espelhos de vários tamanhos, e por onde a câmera de Jess filma "fragmentos" do que está acontecendo.

Em entrevista recente, o diretor declarou que VENUS IN FURS era um dos poucos trabalhos próprios que ele salvaria de um incêndio, ao lado dos anteriores "Necronomicon" e "Miss Muerte". E justificou: "Porque são os mais sinceros".


Analisando este aqui especificamente, não é difícil de entender o carinho do diretor. Afinal, mesmo com as inúmeras alterações na história original e com as cagadinhas na edição, VENUS IN FURS ainda tem tudo aquilo que Jess sempre amou filmar durante toda a sua carreira: belas mulheres, boa música (e jazz, seu estilo musical preferido) e aquele clima surrealista que confunde a cabeça do espectador, ao mesmo tempo em que mistura sexo e morte - os dois temas mais recorrentes em seus duzentos e tantos filmes.

E eu desconheço se Alfred Hitchcock chegou a ver o filme, mas ele certamente se identificaria com vários detalhes - e, talvez, copiaria alguns outros.

PS: Eu, o blog e a MARATONA JESS FRANCO entramos em recesso a partir de hoje para o Fantaspoa 2014. Até breve!

Trailer de VENUS IN FURS




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Venus in Furs (1969, Reino Unido/EUA/
Alemanha/Itália)

Direção: Jess Franco
Elenco: James Darren, Maria Rohm, Klaus Kinski,
Barbara McNair, Dennis Price, Margaret Lee, Paul
Muller, Manfred Mann e Jess Franco.