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segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

GOLPE MORTAL (1982)


Quando GOLPE MORTAL chegou aos cinemas, Chuck Norris estava em plena escalada rumo ao posto de grande astro do cinema de ação: em poucos anos, já havia estrelado um grande sucesso de bilheteria ("Octagon"), um ótimo filme policial ("Ajuste de Contas") e até uma mistura de aventura com ficção científica e horror ("Fúria Silenciosa", em que enfrenta um pseudo-Michael Myers).

Não por acaso, esta aqui foi a sua produção mais caprichada até então, com uma major por trás (o filme foi produzido pela MGM) e um diretor que já havia trabalhado duas vezes com Clint Eastwood (James Fargo, de "Sem Medo da Morte" e "Doido para Brigar... Louco para Amar"). Funcionou, e no ano seguinte Norris estouraria de vez com "McQuade, O Lobo Solitário".


Infelizmente, GOLPE MORTAL acabou se tornando um capítulo meio obscuro na trajetória do astro, talvez por ter ficado "ensanduichado" bem no meio de dois puta filmes ("Fúria Silenciosa" e "McQuade").

Pura injustiça: é uma aventura boa pra caramba, e eu inclusive colocaria tranquilamente num Top 3 dessa primeira fase da filmografia de Chuck (logo abaixo dos dois já citados).

Antes de partirmos para a resenha, faça um intervalo de dois minutinhos, vá até o final do texto e assista o trailer do filme para pegar o espírito. Vai lá.

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E aí, já assistiu? Então vamos combinar: do "mapa de ferimentos do corpo" à profissão semelhante do herói, GOLPE MORTAL não parece ter sido a inspiração para "Matador de Aluguel", aquele filmaço de 1989 estrelado por Patrick Swayze como um leão-de-chácara bom de briga?

Eu achei as duas obras tão parecidas, em história e proposta, que o personagem de Chuck aqui bem que poderia ser o pai do personagem de Swayze em "Matador de Aluguel". Ambos têm profissões bem semelhantes, ambos têm um rígido código de honra, e ambos buscam evitar a briga até o último momento. Claro, ambos também são lutadores furiosos daquele tipo com o qual você não quer comprar briga...


Norris interpreta Josh Randall, um veterano do Vietnã que trabalha em Hong-Kong como segurança e "cobrador de dívidas de jogo" no cassino do pai adotivo oriental, Sam Paschal (David Opatoshu). O lugar é administrado pelo seu meio-irmão, David (Frank Michael Liu), que reprime violentamente caloteiros e ladrões.

O problema (sempre tem um) é que uma rede criminosa chamada Osiris está fazendo pressão para comprar o Lucky Dragon, o cassino da família Paschal. Todos os outros estabelecimentos de jogo da cidade já estão sob controle da organização, que quer construir uma nova Las Vegas em Hong-Kong, mas cobrando "proteção" dos proprietários de cassinos.


Obviamente, o velho Sam - que tem muito orgulho por ter começado seu negócio do zero - recusa-se a vender o cassino e fazer parte da mutreta. Até porque é um sujeito honrado (embora explore jogo ilegal e extorsão), e não quer saber de envolvimento com a bandidagem.

Na mesma noite, Sam e David são assassinados numa emboscada, e Josh descobre que um empresário inescrupuloso ligado à Osiris e ao ramo de cassinos, o almofadinha Stan Raimondi (Michael Cavanaugh), colocou sua cabeça a prêmio.


Agora, ele precisa lutar para sobreviver nas perigosas ruas de Hong-Kong, e também proteger a única sobrevivente do clã Paschal, Joy (Camila Griggs), herdeira do Lucky Dragon por direito, e portanto na mira dos vilões.

Sobra também para a sua própria namorada, a gostosona Claire (Mary Louise Weller), que corre risco de vida apenas por estar ligada ao herói (e em filmes nunca é seguro namorar com Chuck Norris ou Charles Bronson, como todos sabemos...).


Lançado em VHS no Brasil pela Video Arte como GOLPE MORTAL, mas exibido na TV com uma tradução literal e bem mais apropriada do título original ("Vingança Forçada"), este trabalho da primeira fase da carreira de Chuck Norris é obrigatório para quem gosta de filmes de ação descerebrados, principalmente porque o astro mantém (e leva adiante) aquele tom fanfarrão e brincalhão que começou a demonstrar em "Ajuste de Contas".

Novamente com seu característico bigodão, e usando chapéu de cowboy 24 horas por dia - apesar de estar em Hong-Kong, e mesmo quando veste smoking!!! -, Norris está perfeito como Josh Randall, personagem por quem o espectador simpatiza desde a sua primeira aparição em cena.


Isso acontece quando vemos Randall cobrando uma dívida de jogo nos Estados Unidos. O caloteiro recusa-se a pagar, dizendo que "dívidas de jogo são ilegais", mas o herói responde: "Bem, eu não sou advogado". Um guarda-costas do sujeito tenta intervir, e primeiro Randall tenta contê-lo "na boa"; quando o grandalhão passa dos limites, é chegada a hora de dar um corretivo à la Chuck Norris, o que inclui muitos sopapos e chutes giratórios. Desnecessário dizer que o caloteiro opta por pagar a dívida depois de ver seu segurança ser moído na pancada...

Por sinal, desde esta primeira cena o filme já dá o tom do personagem: Randall sempre fica puto quando os inimigos aprontam com seu chapéu (o que acontece com bastante frequência), e um close do seu punho cerrado é a senha para o início da pancadaria, quando ele percebe que não conseguirá resolver a situação só na conversa.


Josh Randall também é um dos personagem mais "humanos" que Norris interpretou em toda a sua filmografia. Se nas aventuras anteriores ele fez indestrutíveis mestres do karatê, policiais durões e veteranos do Vietnã, Randall é um personagem mais verossímil, que, embora bom de briga, tenta escapar do confronto sempre que possível e tem medo por si mesmo e pelas pessoas ao seu redor (algo que não acontece, por exemplo, em "Octagon").

Randall também apanha muito, algo difícil de ver nos filmes de Norris (geralmente ele bloqueia os golpes dos inimigos, ou então bate primeiro). Diretor e roteirista parecem querer mostrar a todo momento que o herói é de carne e osso, desde o exame médico em que ele revela o corpo cheio de cicatrizes até a luta em que Randall sangra aos borbotões a cada golpe que leva (outra coisa difícil de acontecer nas aventuras do astro).


Entretanto, embora mais "frágil", o personagem não deixa de fazer gracinhas e piadinhas a todo momento, um lado fanfarrão que Norris começou a explorar em "Ajuste de Contas". Numa cena hilária, Randall percebe que está sendo seguido por um brutamontes. Para evitar o confronto direto, ele belisca a bunda de uma bela garota à sua frente e diz que o culpado foi o sujeito no seu encalço. Dito e feito: a moça parte para cima do bandido e Randall tem tempo para contra-atacar!

E tem um momento à la "Os Caçadores da Arca Perdida" em que um rapaz armado de nunchaku cruza o caminho do herói fazendo malabarismos, como se fosse o guerreiro mais fodão de Hong-Kong. Pois Chucko simplesmente saca seu revólver e o sujeito sai correndo apavorado!


Finalmente, também tem uma cena em que o herói está no cassino quando o sujeito com quem ele joga dados (guarda-costas do vilão Raimondi) dá um tapa na cara de uma garota que puxou conversa. Sem titubear, nosso herói devolve um tapa na cara do sujeito mal-educado, e ainda pergunta: "Não foi legal, não é?".

O protagonista narra o filme em primeira pessoa, mas nada a ver com aquela narração afetada e redundante de "Octagon". Pelo contrário, a narração em off em GOLPE MORTAL permite até que o herói faça mais algumas piadinhas, como "Nunca entregue uma arma à sua namorada", após quase ser morto por um tiro disparado acidentalmente por Claire.


Mas vale destacar que, embora seja um sujeito brincalhão e divertido durante a maior parte do tempo, Randall também sabe ser fodão quando necessário - até ameaça queimar vivo o amante de um dos vilões para obter informações sobre quem são as pessoas à sua caça.

Na conclusão, depois que os bandidos forçam a barra para cima dos seus amigos, o herói resolve partir para a guerra literalmente, inclusive vestindo seu velho uniforme dos tempos do exército para atacar Raimondi e sua turma, num final eletrizante.


Curioso é que o roteiro - redondinho e bem bolado - foi escrito por um sujeito chamado Franklin Thompson, que não teve outras oportunidades no mundo do cinema (pelo contrário, só trabalhou em um telefilme e em episódios de dois seriados!). Enquanto isso, malas como Akiva Goldsman ganham Oscars...

Claro que não há nada de shakesperiano em GOLPE MORTAL, uma típica aventura de Chuck Norris, que, como tal, mostra o herói tentando evitar os problemas até que os bandidos começam a ameaçar sua família e amigos.


Tem até um amigo veterano do Vietnã (Bob Minor, de "Comando Para Matar") que aparece brevemente só para morrer. Outros detalhes da trama repetidos das aventuras anteriores do ator são a família adotiva de origem oriental (como em "Octagon") e um empresário almofadinha como grande vilão (como em "Ajuste de Contas"); mas, ao contrário de Christopher Lee no outro filme, aqui o bandidão luta, e até faz Norris suar para conseguir vencê-lo!

E tem também um capanga gigantesco do vilão que dará muita dor de cabeça a Randall, na mesma linha do Professor Toru Tanaka em "Ajuste de Contas". Ele é interpretado por Seiji Sakaguchi, campeão japonês de luta livre que mede impressionantes 1,96m de altura!


O combate final entre Seiji e Chuck é memorável: ao som da ótima trilha composta por William Goldstein, que dá um tom épico ao confronto, os dois parecem se matar de verdade, arrebentando móveis, portas e janelas como se fossem de papel.

Digno de registro: o grandalhão é um dos raros oponentes a tirar MUITO sangue de Norris numa luta cinematográfica, e seu destino gorezento lembra o desfecho do vilão de "Ghost - Do Outro Lado da Vida".


E os clichês acabam ficando em segundo plano graças à direção eficiente e estilosa de Fargo. Ele nunca deixa o ritmo cair (e nem o espectador pensar muito), aproveitando bem as locações em Hong-Kong - principalmente quando Randall, Claire e Joy precisam fugir dos homens de Raimondi por umas vielas apertadas e superlotadas de pessoas, onde o perigo pode estar em cada esquina.

Estilosos também são os créditos iniciais do filme, que mostram apenas as silhuetas de Chuck Norris lutando, em câmera lenta, com um adversário anônimo em frente a um grande letreiro luminoso de cor vermelha. Infelizmente, a mesma cena é repetida mais tarde no filme, em velocidade normal, tirando parte do seu impacto (e tornando questionável sua utilização anteriormente).


Se GOLPE MORTAL tem menos atores conhecidos do que outras obras do astro, pelo menos marca a estréia no cinema do ator chinês Tony Leung, em pequena participação. Nos anos seguintes, Leung se transformaria num grande astro, aparecendo em filmaços como "Fervura Máxima", "Herói", "Conflitos Internos" e "Amor à Flor da Pele".

Também se repete aquele clima familiar de outros trabalhos de Chuck, com participações de seu irmão Aaron Norris (como coordenador dos dublês), de seu filho Mike (numa ponta) e de Richard Norton. Ele foi dublê do astro e faz uma ponta, em que aparece com cabelo e bigode bem semelhantes a Norris, já que o substituía nas cenas mais delicadas.


Mas se há alguém que merece destaque em GOLPE MORTAL além do astro é seu par romântico, a gata Mary Louise Weller, provavelmente uma das mais lindas atrizes a contracenar com Chuck em toda a sua filmografia.

Mary Louise infelizmente não aparece tanto na trama, mas tem um belíssimo par de peitos que é de parar o trânsito. Aqui eles só aparecem de relance, mas foram exibidos em toda a sua glória na comédia "Clube dos Cafajestes", onde a moça interpretou Mandy Pepperidge (dá uma olhada na imagem aí embaixo, taradão!).


É uma pena que a moça tenha abandonado o cinema ainda lá atrás, na metade dos anos 1980, para investir na criação de cavalos, privando-nos do seu talento dramático (e da sua comissão de frente). Esta aventura com Chuck Norris acabou sendo um de seus últimos trabalhos.

GOLPE MORTAL também é um dos últimos filmes em que Norris prefere resolver os conflitos no karatê, e não com armas de fogo. A partir do ano seguinte, em "McQuade", ele já apareceria exterminando bandidos com revólveres, rifles, metralhadoras e até bazucas, o que se repetiria nas séries "Braddock" e "Comando Delta".


Claro, em todos estes filmes ele continuou distribuido seus chutes giratórios e sopapos. Mas sua trajetória como "indestrutível mestre das artes marciais que usa os punhos e pernas como armas" terminou por aqui. Afinal, os tempos eram outros, graças a produções como "Rambo" e o posterior "Comando Para Matar"...

Mais um motivo para redescobrir GOLPE MORTAL, que merece inclusive uma Sessão Dupla com "Matador de Aluguel" - dois filmaços que dão um laço na maioria dos filmes de ação recentes que eu assisti!

PS: "Bem-vindo à Selva" (2003), de Peter Berg, traz The Rock na pele de um personagem "cobrador de dívidas" bem parecido com Josh Randall. Não sei se é plágio ou homenagem, mas o filme não chega aos pés desse aqui, mesmo tendo Christopher Walken como vilão e trama ambientada no Brasil.

Trailer de GOLPE MORTAL



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Forced Vengeance (1982, EUA)
Direção: James Fargo
Elenco: Chuck Norris, Mary Louise Weller, Camila Griggs,
Michael Cavanaugh, David Opatoshu, Seiji Sakaguchi,
Frank Michael Liu e Bob Minor.

domingo, 8 de janeiro de 2012

AJUSTE DE CONTAS (1981)


Se os primeiros quatro filmes que traziam o karateka barbudão como protagonista variam do ruim ao bonzinho (com muita generosidade), não se pode reclamar dos quatro seguintes, que antecederam a bem-sucedida "fase Cannon Films" do astro. AJUSTE DE CONTAS (1981), "Fúria Silenciosa" (1982, sobre o qual falaremos num futuro próximo), "Golpe Mortal" (1982) e "McQuade, O Lobo Solitário" (1983) continuam uns filmaços até hoje, e dão de laço em muita produção recente.

Comecemos com AJUSTE DE CONTAS, título que o filme recebeu ao ser lançado em VHS pela Globo Vídeo, mas quem era moleque nos anos 1980 certamente vai lembrar de tê-lo visto no SBT com uma tradução literal do nome original, "Olho por Olho".


Como posteriormente muitos outros filmes ganharam o mesmo título "Olho por Olho" no Brasil (tipo "Steele Justice", com o Martin Kove, e aquele filme de vingança dirigido por John Schlesinger, com Sally Field e Kiefer Shuterland), é até bom usarmos o nome dos tempos da Globo Vídeo para diferenciar.

Na minha resenha de "Os Bons Se Vestem de Negro", eu citei uma frase dita por Chuck numa entrevista, confessando que em seus primeiros filmes tentava copiar o modelo de cinema de ação realizado por Clint Eastwood na época.


Pois depois de interpretar veteranos do Vietnã e karatekas nos seus quatro trabalhos anteriores, em AJUSTE DE CONTAS ele tem a sua primeira oportunidade de interpretar um policial durão e implacável à la Dirty Harry - um papel que ele levaria à perfeição num dos melhores filmes da sua carreira, "Código do Silêncio", de 1985.

Mas o mais curioso desse belo policial é o fato de vermos Chuck Norris enfrentando... Drácula?!? Exato: o grande vilão, acredite se quiser, é interpretado por Christopher Lee, que alguns anos antes também tinha dado dores de cabeça a James Bond em "007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro".


Quem diria: o cara que foi Drácula, Scaramanga, Saruman, Conde Dooku e uma infinidade de outros vilões fodões também já tomou uns cascudos de Chuck Norris...

(Engraçado é que a trama tenta fazer mistério, revelando apenas no final que o personagem de Lee é o sujeito por trás de tudo. Até parece que ninguém desconfiava! Eu vi o filme pela primeira vez na TV, quando moleque, com minha mãe do lado. Só ao ver o nome do ator nos créditos iniciais, ela disse algo assim: "Christopher Lee? Esse cara fazia o Drácula, aposto que é ele o bandido!".)


Em AJUSTE DE CONTAS, Chucko interpreta Sean Kane, um policial da Narcóticos de San Francisco (sim, o astro voltou à cidade depois do patético "Massacre em San Francisco"!), que atua disfarçado para desbaratar uma quadrilha de traficantes. Dessa vez o ator raspou seu tradicional bigodão e atua de cara limpa, como nos tempos de "Comboio de Carga Pesada".

Durante uma missão arriscada, ele e o parceiro Dave (Terry Kiser, de "Um Morto Muito Louco") caem numa emboscada armada por um informante corrupto. Tiros voam para todos os lados, carros explodem, e o pobre parceiro morre horrivelmente, queimado vivo, sem que Sean possa fazer algo para salvá-lo.


Furioso ao descobrir que a justiça está de mãos amarradas, nosso herói surta, mata um suspeito após um "interrogatório" na base da pancada e toma a maior mijada do seu superior. Aí, entrega o distintivo (claro!) e sai numa vendeta pessoal contra os traficantes.

Vendeta esta que se torna ainda mais pessoal quando os mesmos sujeitos matam brutalmente uma outra amiga sua, a repórter Linda Chan (Rosalind Chao, de "O Grande Lutador"), que era esposa de Dave. A moça estava justamente preparando uma reportagem sobre a conexão entre os traficantes de San Francisco e as Tríades de Hong Kong e Bangkok.


Para fazer frente aos perigosos inimigos, que parecem estar por toda parte, Sean é obrigado a unir forças com o pai da finada Linda, um velhote especialista em artes marciais interpretado pelo lendário Mako (de "Conan, o Bárbaro", "Resposta Armada" e tantos outros filmes legais). Seu personagem, James Chan, funciona como um eficiente alívio cômico, sempre resmungando de todas as atitudes do herói.

Eventualmente, Sean também se envolverá com a bela Heather (Maggie Cooper, em seu único trabalho fora da TV), uma amiga da jornalista assassinada. Juntos, eles descobrirão que o responsável por tudo é o próprio patrão de Linda, o magnata da imprensa Morgan Canfield (Christopher Lee, quem mais?), que usa de sua posição e de sua influência para dominar o tráfico de entorpecentes na cidade.


AJUSTE DE CONTAS pode não trazer nada de tão novo na trama, principalmente em comparação aos filmes anteriores (e até posteriores) de Norris: ele mais uma vez interpreta um sujeito legal forçado a reagir com chutes giratórios quando os bandidos começam a matar seus conhecidos.

A diferença para seus trabalhos até então é que este funciona que é uma beleza, ao contrário dos quatro anteriores, que ou têm ação de menos ou roteiro ruim demais.


Por coincidência, esta é a primeira colaboração do astro com dois sujeitos que seriam responsáveis pelos melhores filmes da sua carreira. O primeiro é o roteirista James Bruner, que co-escreveu AJUSTE DE CONTAS ao lado de William Gray ("Projeto Filadélfia"). Este aqui foi o primeiro roteiro de Bruner, e depois ele escreveu outros cinco sucessos de Chuck (entre eles, "Braddock", "Invasão USA" e "Comando Delta"!).

O outro parceirão é o diretor Steve Carver, um eficiente cineasta saído da "Escola Roger Corman de Produção de Filmes Baratos". Para Corman, ele dirigiu filmes como "Big Bad Mama" (1974) e "Capone, o Gângster" (1975, com um jovem Sylvester Stallone no elenco). Com Chuck, ele fez depois "McQuade, O Lobo Solitário", outro dos grandes trabalhos da carreira do astro.


E como vários dos primeiros filmes de Norris, este também tem um elenco impressionante, cheio de caras conhecidas. Além de todos os já citados (Lee, Kiser, Mako), também aparecem Richard Roundtree (o Shaft original!) como o superior casca-grossa do herói; Matt Clark ("Candyman 2") como um policial corrupto, e o monstruoso Professor Toru Tanaka como, claro, um monstruoso capanga do vilão.

O falecido Tanaka inclusive rouba a cena toda vez que aparece, e se você ainda não ligou o nome à pessoa, pense no gigantesco Subzero, um dos lutadores que enfrenta Schwarzenegger no ótimo "O Sobrevivente".

Em AJUSTE DE CONTAS, Tanaka protagoniza pelo menos duas cenas antológicas: quando persegue Rosalind Chao numa estação de metrô destruindo tudo que aparece pela frente, inclusive um Fusca (!!!), e o duelo final, primeiro contra Mako, depois contra Norris. O violentíssimo confronto entre o herói e Tanaka, embora rápido, pode ser incluído tranquilamente entre os melhores momentos de toda a carreira de Chuck.


Por sua vez, Norris está muito bem como policial durão. Se nos seus filmes anteriores ainda faltava definir um estilo, e os realizadores sempre levavam sua persona muito a sério, aqui ele adota pela primeira vez aquele jeito fanfarrão que levaria pelo resto da sua carreira.

Ok, na primeira meia hora de AJUSTE DE CONTAS, Chuck ainda está copiando a fórmula Eastwood-Dirty Harry, interpretando um policial durão e implacável. A cena inicial, da emboscada num beco escuro durante uma chuva que não pára, é muito boa e poderia estar em qualquer filme do Dirty Harry. Sua furiosa retaliação contra os bandidos depois da morte do parceiro também.


Mas aí o filme tem um ponto de virada, a partir do encontro do herói com Mako, e o policial durão e mais realista se transforma numa espécie de herói absurdo de história em quadrinhos. Só para dar uma ideia: ele vive numa casa à beira-mar que é uma verdadeira fortaleza, acompanhado apenas de um cachorro com quem conversa como se fosse gente (!!!).

E ainda faz todo tipo de palhaçada, como colocar um travesseiro debaixo da cabeça de um bandido depois de nocauteá-lo, ou ameaçar quebrar uma caríssima antiguidade enquanto interroga seu proprietário! Norris continuaria investindo nesse tipo de personagem a partir daqui, atingindo o ápice do cartunesco com o herói Matt Hunter, de "Invasão USA".


O exagero e o inverossímil se estendem à trama. O roteiro de Bruner e Gray começa emulando os policiais sérios da década anterior (tipo as aventuras de Dirty Harry, que eu não parei de citar), mas vai ficando progressivamente mais absurdo à medida que o tempo passa.

Quando Norris vai encontrar Mako, por exemplo, bandidos pipocam de todos os lados e até um helicóptero aparece disparando rajadas de metralhadora. Na conclusão explosiva, a dupla de heróis invade a fortaleza dos vilões distribuindo golpes de karatê, sendo seguida por policiais da Swat, que colaboram na "limpeza" do local.


Os intermináveis tiroteios no final, com bandidos de terninho e gravata sendo chacinados a rajadas de metralhadora, lembram o que John Woo faria quase uma década depois em filmes como "Alvo Duplo".

Assim, de certa forma, AJUSTE DE CONTAS parece fazer uma ponte entre aqueles policiais mais contidos e realistas dos anos 1970 e as aventuras violentas e exageradas que virariam moda ao longo da década de 80, como "Comando para Matar" e seu massacre de centenas na cena final.


Infelizmente, o grande vilão Christopher Lee escapa de tomar um castigo mais violento no final: Sean apenas estrangula o bandido "um pouquinho" até a chegada da polícia, que o impede de ir além e leva o malvado para a cadeia. E ou Lee é um puta ator, ou Norris estava apertando o pescoço dele muito forte, pois parece que os olhos do velhote vão saltar das órbitas! Seria mítico ver o Drácula tomando um Roundhouse Kick de Chuck, mas é o que temos para hoje...

É uma pena que o SBT e a TV aberta em geral tenham deixado de exibir AJUSTE DE CONTAS (ou "Olho por Olho", como preferirem) há uns bons anos. Porque o lugar certo para essas aventuras canastronas de Chuck Norris é o Domingo Maior, ou a Sessão das Dez.

Hoje, filmes modernos bem inferiores ocuparam o espaço antes reservado ao astro barbudo, que durante anos reinou absoluto nas videolocadoras e sessões de "filmes para macho" das nossas emissoras.


Aliás, AJUSTE DE CONTAS também é uma ausência muito sentida no nosso mercado de DVD, já que a fitinha da Globo Vídeo virou fumaça há mais de uma década!

Lá fora existe uma edição em DVD lançada pela MGM, mas a qualidade de imagem é pavorosa e os caras ainda cortaram 40 segundos do filme, uma ceninha quase inocente em que Norris transa com Maggie Cooper no chuveiro e aparecem os peitinhos da moça (abaixo tem uma foto da cena como está no VHS). Não faço ideia do porquê do corte, mas talvez tenha sido pelo vergonhoso "diálogo de filme pornô" entre o casal:
- Como está a água, meu bem?
- Quente.
- Hmmmm, do jeito que eu gosto!



Se você é daqueles que só conhece Chuck Norris de fama, mas nunca preocupou-se em analisar profundamente a filmografia do ator, este aqui é um bom ponto de partida. Até porque é a aventura que define o estilo caricatural e "super-macho" que ele adotaria a partir de então.

De lambuja, também é uma bela mistura entre trama policial e filme de ação oitentista, com uma contagem absurda de cadáveres e todos aqueles exageros típicos do período.

E convenhamos: não é todo dia MESMO que você vê o Drácula apanhando do Chuck Norris...

Trailer de AJUSTE DE CONTAS



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An Eye for an Eye (1981, EUA)
Direção: Steve Carver
Elenco: Chuck Norris, Christopher Lee, Maggie Cooper,
Mako, Matt Clark, Richard Roundtree, Rosalind Chao,
Terry Kiser e Professor Toru Tanaka.