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sábado, 7 de novembro de 2009

Cada vez mais críticas rápidas para pessoas nervosas


SHADOW (idem, 2009, Itália. Dir: Federico Zampaglione)
O marketing anuncia como "o renascimento do horror italiano", mas não é para tanto. Pretensões à parte, o resultado é um pequeno filme bem climático, espécie de mistura de "Amargo Pesadelo" com as barbaridades de "Jogos Mortais" e "Hostel". David (Jake Muxworthy) é um militar americano que volta do Iraque e resolve passar um tempo na natureza, viajando de bike pelo interior. Logo no início, ele pára em um bar de beira de estrada e salva uma bela garota de dois caçadores valentões, e o casal acaba perseguido pelos sujeitos. Aí começa uma série de reviravoltas que, como no francês "Martyrs", não podem ser contadas para não estragar a surpresa - até porque cada uma delas altera completamente o tom do filme até então. Considerando que o diretor Zampaglione vem do mundo do rock, o mais interessante é que ele adota um tom lento estilo horror dos anos 70, e menos videoclipeiro e exagerado como o trabalho de Rob Zombie, por exemplo. Tanto que "Shadow" nem pega muito pesado na violência, embora tenha uma cena de mutilação ocular de arrepiar. No final, o espectador percebe que foi enganado e que já viu tudo aquilo antes (inclusive a conclusão "surpresa"), mas o mérito de Zampaglione é costurar tudo de forma tão convincente e "misteriosa" que ninguém percebe até ser tarde demais. Enfim, um belo filme que poderia realmente representar um retorno da indústria italiana ao gênero, já que os poucos títulos lançados nos últimos anos, mesmo por veteranos como Lamberto Bava, são bastante irregulares. O filme está sendo trazido com exclusividade para o Brasil pelos organizadores do 4º CineFantasy, com sessão única neste sábado à noite, no Cine Olido, em São Paulo.




MAU DIA PARA PESCAR (Mal Día Para Pescar, 2009, Uruguai. Dir: Álvaro Brechner)
A maior surpresa que tive entre os filmes que vi na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Inclusive seria ótimo se fosse lançado nos cinemas brasileiros (o que eu duvido, embora seja o candidato uruguaio ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 2010). Esta comédia dramática comprova que os nossos hermanos estão nos dando um banho em matéria de cinema (eles e os argentinos). Enquanto por aqui o ideal de comédia são coisas tipo "Se eu Fosse Você", o filme uruguaio opta por uma narrativa simples, divertida e repleta de surpresas, além de bastante original. Conta a história de um vigarista (Gary Piquer, ótimo) que se passa por nobre europeu e viaja de cidade em cidade pela América do Sul, promovendo exibições de um decadente ex-campeão de luta-livre (Jouko Ahola). O "empresário" promete um prêmio de mil dólares (quantia que ele não tem, óbvio) para quem agüentar 3 minutos com o brutamontes no ringue. Mas todas as lutas são previamente combinadas, sem que o seu campeão saiba desse "detalhe". A farsa parece estar com os dias contados quando a dupla chega a uma cidadezinha perdida no meio do nada e o "campeão" é desafiado de verdade. Pior: por um sujeito truculento que realmente tem condições de vencer o desafio. As desesperadas tentativas do vigarista de contornar a delicada situação - já que não pode negar o "desafio" e nem contar ao seu campeão que as outras lutas eram armadas - rendem os momentos impagáveis do filme, que também tem uma fotografia maravilhosa, aproveitando a beleza da pequena cidadezinha, e documentando a bucólica rotina de seus habitantes. Como a história começa pela última cena, ainda deixa o espectador em permanente suspense: quem era o sujeito todo arrebentado que foi levado em estado grave ao hospital da cidadezinha? A revelação, que só vem no final, é uma das muitas surpresas dessa pérola simpática e muito divertida, daquelas que fazem você sair do cinema com um sorrisão estampado no rosto. Destaque também para os dois atores principais, Piquer e Ahola, e sua química perfeita: ambos conseguem levar seus personagens para fora do terreno do clichê, fazendo com que o espectador torça por eles. O diretor Álvaro Brechner (este é seu primeiro longa) estava presente nas sessões da Mostra e é muito humilde e gente-boa, o que só aumenta a minha vontade de que "Mau Dia Para Pescar" encontre uma brecha no cronograma de lançamentos nos cinemas brasileiros. Vamos torcer!




500 DIAS COM ELA (500 Days of Summer, 2009, EUA. Dir: Marc Webb)
Receita para fazer uma bela comédia romântica: esqueça Cameron Diaz e Sandra Bullock; escreva um roteiro com um olhar mais humano das relações amorosas, ao invés daqueles "contos de fadas para solteironas" com finais impossíveis; acrescente música e cultura pop a gosto, e no mínimo você terá um ótimo filme como "Alta Fidelidade" e este novo "500 Dias com Ela", que passou na Mostra de Cinema de SP, mas agora entrou em cartaz nos cinemas. Até surpreende que este seja apenas o primeiro longa do diretor Marc Webb, tal o controle que o cara tem sobre sua obra. O filme conta, como o título já diz, os 500 dias que o protagonista (Joseph Gordon-Levitt) passa amando e odiando a bela e moderninha Summer (Zooey Deschanel). Enquanto o rapaz está perdidamente apaixonado por ela e quer ter uma relação séria tradicional, a moça não quer compromisso, não pensa em namorar e definitivamente NÃO está apaixonada pelo coitado. Criativamente, os "500 dias com Summer" não são mostrados em ordem cronológica: um cena de felicidade extrema do rapaz pode ser seguida de outra de pura melancolia, e assim vai, com as idas e vindas no tempo apenas comprovando como qualquer relacionamento amoroso da vida real (e não do universo fantasioso das comédias românticas) tem altos e baixos, momentos bonitinhos, mas também vários tristes. Webb acompanha tudo com um olhar sensível e muito bom humor, sem esquecer as clássicas piadas com os amigos bêbados e amorosamente frustrados do protagonista. Algumas cenas são muito criativas, como o alegre número musical que segue-se à noite de amor entre o casal, ou o momento em que a tela se divide para mostrar, de cada lado, "expectativa e realidade" num encontro dos dois. Méritos ainda para a conclusão, que, a exemplo do também divertido "Separados pelo Casamento", não tenta fantasiar a situação com um final bobinho.




MACABRO (Macabre/Darah, 2009, Cingapura/Indonésia. Dir: The Mo Brothers)
Outra surpresa da Mostra de Cinema de São Paulo, já que nunca imaginei ver um horror sangüinolento como esse sendo exibido num festival fora o SP Terror ou o Fantaspoa. Dirigido por Kimo Stamboel e Timo Tjahjanto, auto-intitulados "The Mo Brothers", o filme bem que poderia se chamar "The Singapurean Chainsaw Massacre", dadas as semelhanças com o clássico "O Massacre da Serra Elétrica" (também se parece um pouco com o remake de 2003). Basicamente, um grupo de amigos e parentes a caminho de Jacarta resolve dar carona a uma garota estranha que encontram perdida na estrada, em plena noite de tempestade. Chegando na casa dela, conhecem sua sinistra família e são convidados a ficar para o jantar como "agradecimento" pela sua boa ação. Qualquer pessoa que tivesse visto um ou dois filmes de horror na vida recusaria o convite na hora, mas sabe como é... Segue-se um festival de violência e mutilações que espanta pela quantidade de sangue e pelo sadismo, já que o roteiro não poupa nem os personagens simpáticos e nem uma mulher grávida da fúria da família psicótica, liderada por uma matriarca (Shareefa Daanish) que é absolutamente tétrica, lembrando as histórias orientais de fantasmas. O elenco todo acaba o filme ensopado de sangue, e há umas cenas bastante gráficas envolvendo o uso da serra elétrica - cenas estas que dão um banho em qualquer um dos "Massacre da Serra Elétrica" feitos nos Estados Unidos. O grande problema é mesmo a trama, um clichezão dos mais vagabundos em que o espectador vai adivinhando cada cena uns 15 minutos antes de ela acontecer. É mais divertido que coisas como "A Fronteira", por exemplo, até porque investe num certo tom de humor negro em meio à chacina; e também é curioso pelo fato de ser um slasher movie rodado em um pequeno país asiático (Cingapura). Mas não alça maiores vôos, principalmente para os fãs do gênero, que já viram a mesma história umas 500 vezes. Assim como "Offspring - A Descendência", sobre o qual escrevi aqui um tempo atrás, é um filme que vale somente pelo gore e pela tonelada de citações, mas nada memorável.




VIAJO PORQUE PRECISO, VOLTO PORQUE TE AMO (idem, 2009, Brasil. Dir: Karim Aïnouz e Marcelo Gomes)
Um belíssimo exemplo de como boa parte dos cineastas brasileiros ainda é adepta da fórmula "Uma câmera na mão e merda na cabeça". Teoricamente, esse filme (?) conta a história (?) de um geólogo chamado Renato, que cruza o Sertão Nordestino num trabalho de campo de dois meses, para determinar a possibilidade da construção de um canal naquela área. Essa, pelo menos, é a sinopse do "filme". Na prática, entretanto, não passa de 70 minutos de colagem de imagens captadas pelos diretores durante 10 anos (de 1999 até agora), em diferentes formatos (16mm, 35mm, Super-8, câmera digital, fotos), com a narração em off de Irandhir Santos (o capanga malvado de "Besouro") tentando criar uma "narrativa". Seu "geólogo" nunca aparece em cena, mas, como narrador, fala o tempo todo sobre seu trabalho (chato!), dando detalhes das várias relações que mantém com prostitutas de beira de estrada e filosofando sobre o amor (sono!). O resultado é uma bobagem experimental, um "filme de arte", ou "filme-cabeça", que só com muito saco para agüentar até o fim, e que a maioria dos "moderninhos" precisa elogiar à força pra não ficar de mal com seu círculo de amigos cinéfilos. Enfim, é aquele tipo de coisa que se sou eu que faço, acabo ridicularizado pelo resto da vida, mas como é obra de dois cineastas "cult" (Aïnouz, de "O Céu de Suely", e Gomes, de "Cinema, Aspirinas e Urubus"), aí é genialidade, embora no fundo seja apenas uma besteira sem pé nem cabeça, muito menos objetivo. Mas o mais incrível foi sair furioso da sessão e ver que eu era o único descontente: os "intelectuais" estavam todos maravilhados com aquela colagem estúpida e enfadonha. De curioso, escutei alguns comentários mais exaltados: "O filme é meio esparso, mas as imagens são belíssimas" (não sei qual é a beleza de filmar a estrada de um carro em movimento, mas descobri que pelo menos também sei fazer imagens belíssimas!), "É uma linguagem narrativa que não se vê no cinema" (graças a Deus!!!!), e "Gostei principalmente da simplicidade do filme" (em outras palavras, não acontece porra nenhuma nem tem história!). O pior filme que vi este ano, quiçá na década.




JOGOS MORTAIS 6 (Saw 6, 2009, EUA. DIr: Kevin Greutert)
Melhor do que o quinto filme, o que não quer dizer muita coisa, "Jogos Mortais 6" só comprova que a série teria terminado muito bem no quarto filme. Aqui, novamente, o roteiro cheio de flashbacks e idas e vindas no tempo é apenas uma desculpa para ficar explicando pontas soltas dos filmes anteriores, finalmente revelando alguns detalhes mantidos no ar esse tempo todo (o que estava escrito na carta que Jigsaw deixou para sua cúmplice Amanda, por exemplo). Não que isso seja relevante ou mesmo justificativa para se fazer um filme inteiro, e o quinto episódio já era um gigantesco resumão com o único objetivo de justificar a presença do agente Hoffman (Costas Mandylor, um dos piores atores da história) na "mitologia" da série desde a primeira parte (embora oficialmente ele só tenha aparecido no terceira). A trama, se é que interessa, mostra Hoffman assumindo o manto do falecido Jigsaw pela última vez, aplicando os "jogos mortais" a um executivo de planos de saúde (Peter Outerbridge) que costuma explorar seus clientes. Ele é obrigado a participar de várias armadilhas, sempre decidindo entre a vida e a morte de pessoas próximas, como seus funcionários, em mortes nem tão criativas. A bem da verdade, a melhor cena é o início, em que um casal é obrigado a cortar pedaços do próprio corpo (ouch!) para colocar sobre a balança que garantirá a sua fuga da morte. Paralelamente à carnificina, Hoffman tenta disfarçar suas ações incriminando o falecido agente Strahm (morto no final da parte 5) como se fosse ele o cúmplice de Jigsaw, mas o FBI começa a desconfiar. Tudo leva para o tradicional final metido a surpreendente, embora desta vez, como na parte 5, a reviravolta não tenha nada de muito marcante. Não é ruim, e está entre os mais sangrentos da série (a morte com ácido é fantástica), mas percebe-se que "Jogos Mortais" está virando um novo "Sexta-feira 13", com tramas cada vez menos interessantes. Esse até terminaria muito bem, mas como um "Jogos Mortais 7" é inevitável no Halloween de 2010, resta saber o que os roteiristas irão inventar, pois não sobraram mais muitas peças em jogo para continuar a história.




THE HOUSE OF THE DEVIL (idem, 2009, EUA. Dir: Ti West)
Foi uma espécie de decepção esse horror independente que eu estava esperando com muita ansiedade. Não exatamente porque o filme é ruim, mas porque o resultado fica muito aquém do seu potencial. O toque criativo da coisa toda é o fato de a história se passar em 1983, o que levou os realizadores a uma perfeita recriação da época (ao contrário dos "anos 70" mostrados em bobagens recentes, tipo o remake de "O Massacre da Serra Elétrica"). Dos créditos iniciais e finais (com letreiros sobre frames congelados), às roupas e penteados, passando pelos objetos de cena (copos de papel da Coca-Cola, enormes walkmen de fita K-7, telefones com disco...) e pela presença de atores populares daquela década (Dee Wallace, Tom Noonan, Mary Woronov), além do próprio pôster inspirado nas criações da década, "The House of the Devil" respira anos 80, e inclusive poderia ser lançado como se fosse um filme daquela época. A trama escrita pelo próprio diretor também é ótima: uma garota aceita o trabalho de baby-sitter num casarão perdido no meio do nada, já que precisa desesperadamente de dinheiro. Chegando lá, encontra um casal esquisito (Noonan e Woronov, obviamente) que revela não ter filhos, mas uma senhora idosa e doente para ela cuidar durante apenas quatro horas. Segue-se uma história de horror à moda antiga, lenta, climática, em que as revelações surgem a conta-gotas. E aí está o grande problema da coisa toda: o espectador já sabe desde o início, pelo título do filme e por um letreiro falando sobre seitas demoníacas, que a história é sobre satanistas. Ainda assim, demora praticamente uma hora para as coisas começarem a acontecer, e, quando finalmente acontecem, o roteiro tenta tratar tudo como se fosse surpresa (ah, então ninguém imaginou que o suspeito casal fosse formado por adoradores do demônio?). E depois de 60 minutos que apenas preparam o espectador para algo tenebroso, eis que surge uma conclusão rápida e bem sem graça, muito aquém do que qualquer um poderia esperar pelo clima construído até ali. É uma pena, porque "The House of the Devil" realmente era um projeto muito interessante, especialmente por buscar sua inspiração no passado, nesses tempos em que filmes dos anos 80 são refilmados justamente para que o público jovem não fique rindo dos figurinos e objetos da época. Pena que, tirando a reconstituição perfeita da "experiência" de se ver um filme oitentista, sobra apenas um terror banal e sem surpresas.




CABEÇA A PRÊMIO (idem, 2009, Brasil. Dir: Marco Ricca)
Vendo esse filme, parece que o diretor de primeira viagem Marco Ricca encarnou o espírito de Beto Brant. Como ator, Ricca foi dirigido por Brant no ótimo "O Invasor", policial brasileiro de 2002. Pois, em seu primeiro longa, o ator e agora diretor não apenas entrega um filme bem parecido com os trabalhos de Brant (especialmente "Os Matadores"), como ainda vai buscar seu roteiro na adaptação de um livro de Marçal Aquino, que também escreveu a obra que deu origem a "O Invasor". O resultado é uma obra difícil de avaliar. Quando você pega os seus elementos separadamente, parece ter uma maravilha nas mãos: interpretações soberbas de quase todos os atores, mesmo dos mais desconhecidos; ótimo roteiro que desenvolve de forma aprofundada cada um dos personagens, chegando a narrar dramas que nem fazem parte da trama principal; fotografia belíssima da região rural do Mato Grosso do Sul; tiros, sexo e até Alice Braga pelada, além de uma participação especial de David Cardoso. No conjunto, entretanto, o resultado é um trabalho meio frio e impessoal. A história acompanha os percalços vividos pelo piloto uruguaio Denis (Daniel Hendler), que transporta contrabando pela fronteira para um poderoso fazendeiro. O relacionamento do rapaz com a filha do chefão (Alice) acaba provocando a situação do título, colocando na caça do casal uma dupla de ex-policiais e agora matadores de aluguel, Albano e Britto (Cássio Gabus Mendes e Eduardo Moscovis, ambos ótimos). Um dos problemas do filme é a preocupação do roteiro em esmiuçar a vida de seus personagens (principalmente a vida pessoal do matador em crise interpretado por Moscovis), dividindo a trama principal em pequenos episódios, o que acaba atrasando o desenvolvimento da situação que dá nome à obra. Talvez, até, a história ficasse melhor se narrada fora da ordem cronológica, como acontecia no livro de Aquino. Mas não que isso seja um grande defeito: "Cabeça a Prêmio" é um ótimo filme, que começa muito bem, apresentando com calma seus protagonistas e a linha tênue que une todos eles, perde o ritmo na metade, mas logo chega a um final que é simplesmente fantástico, sem poupar ninguém da violência das ações dos personagens. Ainda que distante de um "Os Matadores", por exemplo, o filme surpreende. Principalmente se considerarmos a escassez de tramas policiais produzidas pelo cinema brasileiro nos últimos anos - e essa ainda se passa bem longe das favelas cariocas ou das ruas de São Paulo.




EU, ELA E MINHA ALMA (Cold Souls, 2009, EUA/França. Dir: Sophie Barthes)
Na linha dos roteiros amalucados de Charlie Kaufman, essa comédia bizarra, por vezes melancólica, parece querer testar as expectativas do espectador, entregando-lhe uma trama cada vez mais maluca e inacreditável. O excelente Paul Giamatti, de "Sideways", aparece interpretando ele mesmo (!!!), um ator amargurado que está ensaiando uma peça teatral "pesada" e anda tendo ataques de ansiedade. Descobre, então, por puro acaso, uma empresa que explora comercialmente a "extração e armazenagem" da alma das pessoas, prometendo que elas viverão sem as angústias e preocupações interiores depois de "desalmadas". Meio cético, Giamatti se submete ao processo e acaba se tornando uma pessoa ainda mais depressiva. Depois, tenta um "transplante", recebendo a alma de uma poetisa russa para poder encarnar melhor o seu papel na peça teatral, mas as mudanças de comportamento do ator acabam preocupando sua esposa (interpretada por Emily Watson). Nesse meio tempo, para complicar a situação, a verdadeira alma do ator é roubada do "depósito" por uma mulher que trabalha como "mula" para a empresa - ela traz almas contrabandeadas da Rússia para vender nos Estados Unidos!!! O argumento lembra abertamente dois roteiros de Kaufman, "Quero Ser John Malkovich" (já que a troca de almas permite que você seja uma "outra pessoa" por algum tempo) e "Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças", mas o resultado, aqui, é muito mais engraçado e menos filosófico e "difícil" que estes dois filmes citados (dirigidos, respectivamente, por Spike Jonze e Michel Gondry). Definitivamente, porém, "Eu, Ela e Minha Alma" NÃO é um filme para todos os públicos. Quem gosta de Giamatti e conhece seu trabalho vai curtir muito mais (já que o ator está obviamente fazendo uma auto-sátira). E as tiradas cômicas são bastante sofisticadas, daquele tipo que provoca mais sorrisos do que risos propriamente ditos. Enfim, uma comédia diferente e bastante curiosa, mas para públicos beeeeeeem específicos.




UMA SAÍDA DE MESTRE (The Italian Job, 2003, EUA/França/Inglaterra. Dir: F. Gary Gray)
Remake de um ótimo filme policial dos anos 60 ("Um Golpe à Italiana", com Michael Caine), "Uma Saída de Mestre" é tão descartável que assusta: ao final dos 111 minutos do filme, minha cabeça estava completamente vazia, como se eu tivesse acabado de ver um episódio do Chaves ao invés da "trama sofisticada" que os produtores tentaram fazer. Na verdade, a refilmagem tem pouco ou nada em comum com o original, e começa com o roubo de uma fortuna em barras de ouro na Itália, por um time de ladrões formados por astros e caras conhecidas - Mark Wahlberg, Jason Statham, Edward Norton, Mos Def, Seth Green e Donald Shuterland, interpretando um veterano arrombador de cofres. Só que o bandido vivido por Norton trai os colegas, mata o velho arrombador e foge com todo o ouro. Um ano depois, seus ex-colegas descobrem o paradeiro do traidor e começam a bolar um novo plano perfeito para recuperar a bolada, com a ajuda de Charlize Theron, que era filha do personagem de Shuterland. O grande problema do filme, além da direção burocrática de F. Gary Gray, é que os protagonistas conseguem tudo (granadas químicas, explosivos, hackear sistemas) muito fácil e sem desafio ou real perigo, e as cenas de ação (há perseguições de carro, helicóptero e lancha) nunca empolgam. Até sobram umas piadinhas aqui e ali, e talvez o momento mais inspirado seja o flashback que mostra Shawn Fanning roubando a idéia do Napster (aquele polêmico programa de troca de músicas) do personagem interpretado por Green. O resto é muito fantasioso e difícil de engolir, uma Sessão da Tarde daquelas que a gente esquece em 20 minutos. Pior é ver um bom ator como Edward Norton atuando no piloto automático, já que ele fez o filme de má-vontade, por obrigação contratual. Curiosamente, Jason Statham fez um papel idêntico em outro "filme de roubo", o superior "O Efeito Dominó", de Roger Donaldson. Uma seqüência desse remake é prometida há alguns anos e deve reunir o mesmo time de atores. O título original ao menos é interessante: "The Brazilian Job"!

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Besouro Verde... e Amarelo


- Eu acho bom você resolver isso logo, Noca.
- Não vai ser fácil, coronel...
- E por quê?
- Porque ele voa!


Cada vez mais eu me convenço de uma coisa: crítico brasileiro de cinema é soda. Estou falando, claro, desses bananas que GANHAM GRANA para escrever besteira sobre filmes em jornais e revistas, e não de alguns idealistas e abnegados autores do mundo virtual que não ganham nem um puto para elaborar textos infinitamente melhores.

Fato é que toda crítica "oficial" sobre o cinema brasileiro, por exemplo, é invariavelmente igual: se o filme retrata a criminalidade urbana ou o miserê nordestino, os bananas reclamam que brasileiro só sabe contar a mesma história; agora, quando algum cineasta verde-amarelo tenta inovar e contar "outra" história, aí os bananas reclamam que é cópia do cinema de Hollywood.

Resumindo: não podemos ter filmes sobre favelas e nordestinos, porque aí é sempre a mesma coisa, e nem filmes com tiros, perseguições de carro ou lutas, porque aí estamos copiando o cinema dos outros países (não há uma "crítica banana" que não traga frases como "A perseguição de carro lembra o cinema de Hollywood", ou opiniões do gênero).


É impressão minha ou esses caras nunca estão satisfeitos com nada? Esquecem, talvez, que o bom cinema pode "canibalizar" o "cinema dos outros" e adequá-lo à sua própria realidade. Basta lembrar que alguns dos melhores westerns (um gênero tipicamente norte-americano) foram produzidos na Itália, e alguns clássicos filmes de artes marciais (coisa da cultura oriental) têm produção norte-americana, como "Operação Dragão", estrelado por Bruce Lee. Só brasileiro não pode, senão toma pau dos críticos.

Bem, tudo isso para falar sobre BESOURO, uma das mais criativas (se não únicas) tentativas recentes de se fazer um cinema brasileiro popular, voltado a outro público que não os pseudo-intelectuais. Não tem favela (embora até tenha um pouco de miséria), e é vendido como um filme brasileiro de pancadaria. Tem até mão-de-obra estrangeira na coreografia das cenas de luta: os produtores contrataram Huan-Chiu Ku, que participou de filmes como "O Tigre e o Dragão", para ajudar a dar uma "ar oriental" à pauleira brazuca.

A crítica "séria", claro, caiu matando. Porque filme brasileiro não pode parecer filme oriental, porque isso é um absurdo, porque a cultura nacional está sendo prostituída para ficar parecida com o cinemão hollywoodiano, bla bla bla. Poucos realmente se dignaram a analisar o filme considerando o que ele realmente é: uma rara tentativa de fazer uma produção de luta no país. Funciona? Considerando que é uma das poucas, funciona. Mas nem sempre tão bem como poderia.

Em 1991-92, já houve uma outra tentativa de fazer um filme de ação brasileiro na linha dos "Kickboxing" da vida. Pouca gente lembra, mas era o "A Gaiola da Morte", dirigido por Waldir Kopesky, produzido pelo Fauzi Mansur e estrelado por Paulo Zorello, que era campeão de alguma arte marcial. Descontando a pobreza da produção pré-Retomada, "A Gaiola da Morte" era um filme popular e bastante eficiente na sua proposta, no mesmo nível (se não melhor) de muita bobagem que a Bandeirantes costumava exibir nas noites de terça-feira daquela mesma época.


E quanto ao BESOURO? A idéia é originalíssima: enquanto em "A Gaiola da Morte" tínhamos um brasileiro lutando kickboxing, mas isso o Van Damme também fazia melhor lá em Hollywood, agora o filme dirigido pelo premiado publicitário João Daniel Tikhomiroff traz um montão de brasileiros, todos negros (quando foi a última vez que você viu um filme nacional em que o elenco era 90% formado por negros?), lutando/jogando capoeira, aquela luta/dança que é tipicamente nacional.

Os gringos até já tinham usado a capoeira em vários filmes de ação produzidos nos Estados Unidos, como "Esporte Sangrento" (1993), com Mark Dacascos, e "Desafio Mortal" (1996), do Van Damme, ambos trazendo como representante nacional o baiano César Carneiro, que é um mestre nessa arte. Mas BESOURO é a única produção brasileira, pelo menos que eu me lembro, a enfocar a capoeira dentro de uma proposta de filme de ação.

O roteiro de Tikhomiroff e de Patrícia Andrade (a roteirista de, ai!, "Salve Geral") começa no Recôncavo Baiano da década de 20, e diz-se inspirado numa suposta figura real - um lendário mestre de capoeira que atendia pela alcunha de Besouro (interpretado pelo estreante Aílton Carmo). Quando seu mestre (Macalé) é assassinado pelos homens do "coroné" que controla a região (Flavio Rocha), Besouro se retira para a mata, amargurado pela culpa, pois estava se exibindo em rodas de capoeira quando devia estar protegendo o mestre.

Resolve, então, se transformar numa espécie de super-herói 100% nacional, que, com a ajuda dos orixás do candomblé (como Exu e Iansã), ganha poderes sobrenaturais para lutar contra a tirania e contra a exploração dos negros, ainda forçados a trabalhar como escravos na colheita de cana-de-açúcar dos brancos, embora a escravidão já tenha sido abolida.


Embora BESOURO tenha essa cara de filme oriental de artes marciais (não falta nem o clichê do mestre assassinado), logo a trama toma rumos "brasileiros", incluindo uma cerimônia de candomblé para deixar o "corpo fechado" ("Atirando mal, todo corpo é fechado!", reclama o coronel) e o típico triângulo amoroso entre o herói e dois amigos de infância, Dinorah (Jessica Barbosa) e Quero-Quero (Anderson Santos de Jesus), incluindo uma inspirada cena em que Besouro e Dinorah fingem lutar, mas a capoeira ganha uma coreografia mais "erotizada" para que ambos possam consumar seus desejos.

Se há um grande problema na obra, é o de ficar no meio do caminho entre filme de ação popular, para o povão mesmo, e produção estilosa e "artística" para ganhar festivais de cinema Brasil afora. A fotografia é belíssima, as lutas muito bem coreografadas, os movimentos de câmera chegam a seguir o movimento de besouros e sapos por baixo d'água, e a presença dos orixás e de cenários baianos dão um brilho brasileiríssimo ao filme.

Só que às vezes todas essas firulas acabam atravancando a narrativa - que é o que importa no final das contas -, e principalmente atrasando as cenas de ação e pancadaria, a grande razão de ser da película, pelo menos considerando o trailer e o marketing.

Afinal, os caras trouxeram ao Brasil um especialista oriental e fizeram todo o marketing de BESOURO em cima disso. Eu, pelo menos, fui ao cinema esperando por um "O Tigre e o Dragão" verde-amarelo, mas o Besouro de Tikhomiroff e Patrícia Andrade é um herói muito mais "filosófico" do que casca-grossa. Na maior parte do filme, ele fica escondido dos seus inimigos no meio da floresta, treinando e em contato com seus orixás, raramente saindo no braço com os homens do coronel, preferindo inclusive agir na calada da noite para sabotar as plantações do seu inimigo.


Por isso, creio que muita gente vai se sentir enganada quando for ao cinema para ver um filme de pancadaria com poucas cenas de pancadaria, separadas por longas cenas de diálogos ou aquelas tomadas "artísticas" da belíssima paisagem natural da Chapada Diamantina. Portanto, o mais importante é saber que BESOURO não é um filme de pauleira "non-stop", mas uma aventura diferente, que tem inclusive toques sobrenaturais.

Feita esta ressalva, vamos ao que interessa: as lutas funcionam? Ô, e como! Não ficam nada a dever ao que se faz "lá fora", inclusive apelando para o uso de cabos para suspender seus atores, ajudando-os a fazer malabarismos impossíveis.

Um dos grandes momentos é a luta entre Besouro e o "ex-amigo" Quero-Quero, no meio do bosque, com ambos subindo e descendo das árvores com a mesma agilidade dos personagens de "O Tigre e o Dragão". O confronto "sobrenatural" entre Besouro e o Exu no meio de uma feira também é muito bem coreografado, já que o orixá voa para cima de telhados para escapar dos golpes do herói.


É uma pena, portanto, que o filme prepare todo o clima para uma batalha final explosiva entre Besouro e os homens do coronel, armados até os dentes para dar um fim no herói, mas o que se vê na tela é uma lutinha muito rápida, com um "anti-clímax" até surpreendente. Na minha opinião, essa foi a grande pisada-de-bola dos produtores: faltou uma pauleira de uns 15 minutos em ritmo de capoeira na conclusão, e certamente é isso que o povão que vai ao cinema também esperava.

Talvez o Besouro que está na tela não seja, afinal de contas, o "super-herói brasileiro" que todo mundo queria ver. Como eu já escrevi antes, ele é um tipo mais "na dele", reflexivo, que prefere ficar escondido apelando para o candomblé, e só luta quando não tem outra alternativa. Bem diferente daqueles heróis orientais que saem descendo o braço em tudo que vem pela frente, não é? Dá até pra brincar dizendo que, por ser um herói baiano, ele tem uma preguiiiiiiiiiiça de lutar...

Mas se o herói é imperfeito e aquém das suas possibilidades, a reconstituição de época é primorosa, e os vilões são muito bem caracterizados - inclusive agem e se vestem como se fossem pistoleiros de western. O coronel não mete medo em ninguém, mas seu braço direito, Noca de Antônia (Irandhir Santos, ator "alternativo") é a melhor coisa do filme, e rouba a cena toda vez que aparece, disparando engraçadas provocações racistas antes de finalmente tomar o troco merecido. Numa delas, ele caçoa do negro que tem medo de tomar um copo de cachaça na sua companhia: "É bom mesmo não beber, porque misturar pinga com frango preto dá macumba!".


Com alguns erros e muitos acertos, BESOURO é um filme que merece reconhecimento do público, até por ser uma das raras experiências do cinema brasileiro moderno no gênero ação - e provavelmente a primeira que representa a capoeira como algo tão letal quanto o karatê ou o kickboxing.

E o filme tem tudo que qualquer pessoa de bom gosto gostaria de ver numa produção nacional: cenas e paisagens lindas, produção classe A, pancadaria e até sexo e mulher pelada. Pode faltar um pouco de ação, mas do jeito que está já fica vários pontos acima da maioria das produções nacionais que eu vi esse ano.

Portanto, esqueça os críticos bananas, passe longe das suas críticas estéreis sobre BESOURO nos jornais e revistas, e vá aos cinemas prestigiar na tela grande esse herói negro, tupiniquim, bom de briga e voador (!!!), que certamente seria uma opção muito melhor (e mais brasileira) para representar o país no Oscar 2010 do que o escolhido oficial, aquela bomba do "Salve Geral".

É só lembrar que "O Tigre e o Dragão" ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro na sua época para perceber que talvez tenhamos perdido uma grande chance de mostrar aos gringos uma faceta da nossa cultura que eles definitivamente não estão acostumados a ver - e nem nós!