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domingo, 8 de abril de 2012

HÉRCULES UNCHAINED (1959)


Ano que vem (2013) deve estrear o novo filme do Tarantino, "Django Unchained", e toda a crítica nacional vai ficar papagaiando como obra e diretor são geniais e bla-bla-bla. Mas muito poucos "jornalistas especializados" lembrarão que o chupão do Tarantino provavelmente roubou o título de seu novo filme de um épico italiano de 1959, HÉRCULES UNCHAINED! Portanto, o FILMES PARA DOIDOS faz o trabalho sujo para eles.

Na mitologia greco-romana, Hércules era um semideus, filho do poderoso Zeus com uma bela mortal. Enciumada, Hera, a esposa do grande deus do Olimpo, fez de tudo para matar o filho bastardo desde que ele ainda era um bebê. Mas o astuto Hércules sempre escapava graças à sua superforça, com a qual também cumpriu os lendários "Doze Trabalhos" - uma série de confrontos com criaturas monstruosas ou façanhas impossíveis para os mortais comuns.


Antes de virar astro de um popular desenho animado da Disney, Hércules também foi o grande herói de um ciclo bastante lucrativo de filmes produzidos na Itália, repleto de aventuras baratas cujos roteiros eram inspirados em histórias bíblicas ou na mitologia greco-romana.

Este ciclo ficou conhecido como "peplum" (o termo grego para as túnicas usadas na Grécia Antiga). E embora a italianada já fizesse filmes com heróis mitológicos e/ou bíblicos desde os primórdios do cinema - o excepcional épico mudo e em preto-e-branco "Cabiria", dirigido por Giovanni Pastrone em 1914, já trazia um guerreiro musculoso chamado Maciste, que fez sucesso e tornou-se protagonista de uma longa série de filmes -, os produtores da Terra da Bota só começaram a investir pesado no "peplum" para tentar faturar em cima de produções de Hollywood com os mesmos temas, como "Spartacus" e "Os Dez Mandamentos".


Aproveitando que muitos desses blockbusters gringos eram filmados na própria Itália ("Quo Vadis?" e "Ben Hur", por exemplo), os italianos espertalhões até economizavam uns trocados reaproveitando cenários e figurinos dessas produções!

Além de dar a primeira chance para gente talentosa como Ruggero Deodato e Sergio Leone, o ciclo do "peplum" também foi um belo filão de mercado, copiando a fórmula norte-americana de heróis musculosos e mocinhas sensuais e com pouca roupa, mas quintuplicando o erotismo - ainda menos roupa nas atrizes, embora os filmes ainda não mostrassem nudez.

HÉRCULES UNCHAINED é uma produção realizada no ápice da febre "peplum". O título original era "Ercole e la Regina di Lidia" (Hércules e a Rainha de Lídia), mas ganhou sua versão mais popular em inglês quando o distribuidor norte-americano Joseph E. Levine adquiriu os direitos para lançá-lo nos EUA.


Trata-se de uma continuação de "Hércules" (no Brasil, "As Façanhas de Hércules"), uma aventura dirigida pelo mesmo Pietro Francisci um ano antes, em 1958. A iniciação de Francisci no gênero foi com "Átila", de 1954, estrelado por Anthony Quinn no papel-título e Sophia Loren. Tanto este quanto o primeiro "Hércules" foram estrondosos sucessos de bilheteria no mercado norte-americano, transformando o diretor em nome quente para esse tipo de produção.

Com roteiro do próprio Francisci mais Ennio De Concini (responsáveis também pelo original de 58), HÉRCULES UNCHAINED é uma salada de personagens mitológicos, mas com pouca ou nenhuma relação com as histórias da mitologia greco-romana. Logo no começo, por exemplo, encontramos Hércules (Steve Reeves) viajando com sua amada Iole (Sylva Koscina) e um amigo, o jovem Ulisses (Gabriel Antonini).


O trio logo chega a uma caverna onde está o velho Édipo (Cesare Fantoni), o antigo rei da cidade de Tebas. Ele conta ao herói sua triste história: foi deposto do trono pelos próprios filhos, Etéocles e Polinice (respectivamente Sergio Fantoni e Mimmo Palmara). Obviamente, os rapazes acabaram entrando em conflito e Etéocles manteve-se como soberano único da cidade, expulsando o irmão - que, por sua vez, contratou um exército de mercenários para atacar e destruir Tebas.

Tentando evitar o inútil derramamento de sangue, Hércules resolve ser o mediador entre os dois irmãos. Mas, enquanto leva uma mensagem de trégua de um para o outro, o herói acidentalmente bebe a água da Fonte do Esquecimento (!!!) e perde a memória. No momento seguinte, é aprisionado pelo exército da cidade de Lídia junto com Ulisses (que, para não ser morto, finge-se de surdo-mudo).


A rainha de Lídia, Omphale (Sylvia Lopez), é uma bela ninfomaníaca que, de tempos em tempos, sequestra e seduz um valente guerreiro para ser seu amante, usando a tal água desmemorizadora (existe essa palavra?) para anular sua vontade. Porém, quando cansa do amante da vez, não dá um simples pé-na-bunda: pelo contrário, o pobre sujeito, além de trocado, é morto, mumificado e se transforma em estátua da coleção da sádica rainha!

A partir de então, HÉRCULES UNCHAINED segue duas linhas narrativas: a amada de Hércules, Iole, e seus amigos tentando evitar a iminente guerra entre os dois irmãos e a consequente destruição de Tebas, enquanto Ulisses, em Lídia, tenta fazer com que o herói recupere sua memória e escape das garras da rainha Omphale.


HÉRCULES UNCHAINED e a aventura anterior com o herói mitológico fizeram para o fisiculturista californiano Steve Reeves o que "Conan, O Bárbaro" fez para o austríaco Schwarzenegger mais de 20 anos depois: transformou-o em astro do "cinema com testosterona".

Nascido em 1926, Reeves tentou ser astro em Hollywood, mas só fazia escolhas erradas. Para o leitor ter uma ideia, ele recusou uma participação no épico "Sansão e Dalila", de Cecil B. De Mille, para fazer o policial classe C "Jail Bait", escrito e dirigido por Ed Wood!!!


A sorte do fortão só mudou quando ele interpretou Hércules na Itália, fazendo um sucesso estrondoso e abrindo o caminho para que outros fisiculturistas da época virassem astros de cinema, como Gordon Scott, Gordon Mitchell e Mark Forest, embora nenhum deles tivesse sequer chegado perto da popularidade do "original". Para dar uma ideia da fama de Steve Reeves naqueles tempos, Schwarzenegger e Lou Ferrigno disseram que só tentaram a sorte no cinema inspirados pela trajetória do fortão.

Obviamente, Reeves era uma vergonha como ator. Deixem-me reformular: Reeves era completamente INCAPAZ de atuar, e portanto os diretores tinham que ficar inventando desculpas para que ele aparecesse sem camisa e usando os músculos, ao invés de falando.


HÉRCULES UNCHAINED foi seu último filme no papel do herói mitológico. Depois, ele estrelou outras 12 aventuras épicas italianas, como "Golias Contra os Bárbaros", "A Guerra de Tróia" e "Il Figlio di Spartacus" (!!!), até que uma grave lesão no ombro forçou sua aposentadoria em 1968. Ele nunca voltou ao cinema, nem mesmo em participações especiais (o Tarantino marcou nessa), e morreu em 2000, aos 74 anos, praticamente esquecido.

Reeves até está bem na sua segunda "atuação" como Hércules, mas infelizmente o roteiro cria muitos conflitos e personagens, deixando pouco espaço para o herói mostrar seus dotes físicos. Ele passa pelo menos uns 40 minutos do filme como escravo da rainha de Lídia, e nesse tempo não luta nem destrói nada com as próprias mãos. É somente no ato final que finalmente vemos a "força" de Hércules em toda a sua glória.


Menos mal que o diretor compensa os tempos-mortos no meio da narrativa filmando diversas vezes a deslumbrante Sylva Koscina (acima), que interpreta Iole, a amada de Hércules. Essa maravilhosa deusa croata apareceu em mais de 120 filmes, incluindo "Lisa e il Diavolo", de Mario Bava, e "Santuário Mortal", de Jess Franco. Aqui, ela mostra seus "atributos" o tempo inteiro, pelo menos o que a moral e os bons costumes da época permitiam mostrar, aparecendo sempre com saínha curtíssima e um gigantesco decote.

Além do corpão da Sylva Koscina, uma das coisas que mais salta aos olhos, principalmente de quem tem um mínimo de conhecimento sobre mitologia, é a mistureba feita pelos roteiristas Francisci e De Concini. Não contentes em fazer um filme apenas sobre o mito de Hércules, eles colocaram no mesmo balaio uma série de outros heróis e vilões greco-romanos.


É o caso do "parceiro" de Hércules, ninguém menos que o herói grego Ulisses, criado por Homero como figurante em "A Ilíada" e alçado a personagem principal em "A Odisséia" - e que, até onde eu sei, nunca sequer encontrou Hércules nas lendas gregas.

Toda a trama envolvendo Édipo e seus filhos em guerra, Etéocles e Polinice, é inspirada nas peças "Édipo em Colono", de Sófocles, e "Sete contra Tebas", de Ésquilo. E embora o filme mostre Hércules resolvendo a situação, nas velhas tragédias gregas quem lutava para destronar Etéocles de Tebas eram Adrasto, Polinice, Anfiarau, Capaneu, Hipómedon, Partenopeu e Tideu.


Já a relação de Hércules com a Rainha Omphale vem da mitologia. Mas, ao contrário do que acontece no filme, nas lendas gregas o fortão ficava um ano como escravo sexual da governante de Lídia, e o casal inclusive tinha alguns filhos antes da libertação do herói!

Finalmente, logo no comecinho, Hércules luta com o gigante Anteu, que não tem absolutamente nada a ver com o resto do filme. Mas o confronto entre os dois também remonta às lendas greco-romanas.


Anteu era filho de Poseidon, o deus dos oceanos, com Gaia, a "mãe terra", e totalmente indestrutível enquanto permanecesse com os pés no solo. Na mitologia, Hércules simplesmente levantava Anteu acima do chão até que ele morresse de fraqueza; no filme, contenta-se em jogá-lo no mar, eliminando seus poderes.

Por sinal, Anteu foi interpretado por Primo Carnera, que era boxeador, foi campeão dos pesos pesados em 1933-34 e tentou a sorte no cinema, como outros fortões da época, porém sem sucesso - este foi seu último trabalho.


HÉRCULES UNCHAINED também foi um dos últimos trabalhos da modelo francesa e aspirante a atriz Sylvia Lopez, que interpreta Omphale. Ela sofria de leucemia e só conseguiu completar mais um filme ("Il Figlio del Corsaro Rosso"). Morreu aos 27 anos enquanto gravava "Voulez-vous Danser Avec Moi?", ao lado de Brigitte Bardot (suas cenas foram todas refilmadas com outra atriz, Dawn Addams).

Sylvia está linda aqui como a rainha de Lydia, mas, a exemplo de Steve Reeves, era totalmente incapaz de interpretar. A coitada arregala comicamente os olhões sempre que precisa demonstrar alguma emoção - seja paixão ou medo -, mas está no filme, como o protagonista Steve, para mostrar seus atributos físicos, e isso faz com louvor.


Como ela representa a tentação, ou a "mulher má" que tenta tirar o herói do caminho da virtude (algo bem comum nas moralistas aventuras da época), o figurino da rainha também é cheio de decotes e saias curtas BEM acima do joelho, uma verdadeira pornografia para aqueles tempos ingênuos. Vendo o filme, ficava imaginando aqueles moleques impúberes indo aos cinemas nos anos 50 e 60 porque era a única chance de verem coxas de fora, antes que minissaia e fio-dental virassem peças corriqueiras do vestiário feminino.

Assim, HÉRCULES UNCHAINED funciona, hoje, não apenas como aventura ingênua, mas também como divertido trashão involuntário. Além das interpretações pavorosas, o filme traz todo tipo de furo (ou rombo, se preferirem) de roteiro, como o fato de os soldados de Lídia prenderem Ulisses num calabouço, porém deixando-o com uma gaiola cheia de pombos-correio (!!!). Milagrosamente, o rapaz ainda encontra papel e tinta na cela (!!!) para escrever uma mensagem e enviá-la através de um dos pombos para chamar o resgate!


Também existe uma cena hilária em que Hércules enfrenta tigres ferozes numa arena. Qualquer pessoa com um mínimo de noção sobre montagem percebe a malandragem, já que não há um único frame com Steve Reeves e os tigres JUNTOS, apenas cortes rápidos de closes dos tigres para closes do ator. É hilário ver os animais reais sendo substituídos por tigres empalhados atirados comicamente sobre o ator. Ou Hércules dando uma gravata num tigre visivelmente dopado e adormecido antes das câmeras começarem a gravar!

Mas nem tudo é de quinta categoria em HÉRCULES UNCHAINED. Os cenários e figurinos são ótimos, com uma preocupação em criar ambientes luxuosos, repletos de estátuas gigantescas (dê uma espiada nas fotos abaixo, que coisa linda!). Pena que não dá pra elogiar muito, pois a italianada reaproveitava coisas de um filme em outro, então jamais saberemos o que foi feito EXCLUSIVAMENTE para esse aqui e o que foi "emprestado" de outra produção, quem sabe até de um blockbuster norte-americano!


E a fotografia é boa demais para um filme tão barato, abusando de luzes coloridas nos cenários grandiosos, que mudam conforme a emoção a ser transmitida pela cena. É trabalho de profissional, e destoa da produção barata e apressada desse tipo de aventura.

Quando você olha os créditos, percebe o porquê do contraste de qualidade: o responsável pela fotografia e pelos efeitos especiais foi simplesmente um tal de Mario Bava, pouco antes de estrear como diretor em "I Vampiri" (1956). Pois o mestre Bava trabalhou na equipe técnica de inúmeros "peplum" (e até dirigiu alguns, como "Hércules no Centro da Terra", de 1961), sempre marcando sua participação com a característica e inigualável fotografia multi-colorida.


Mas cuidado se for comprar um DVD do filme: como HÉRCULES UNCHAINED caiu em domínio público, já saiu pelo menos três vezes no Brasil por distribuidoras reconhecidamente pirateiras. A versão que eu vi era da Classicline: além da perda de imagem devido ao wide cortado para fullscreen (em certos trechos, atores, figurantes e até um batalhão inteiro de soldados desaparecem do enquadramento!!!), as belíssimas cores da fotografia de Mario Bava estavam lavadas porque era uma cópia visivelmente ripada de VHS (compare as versões full brasileira e wide importada nas fotos abaixo).

(Sinceramente, eu duvido que os outros dois DVDs nacionais - da Works e da Continental, com o título "Hércules e a Rainha de Lídia" - estejam melhores, portanto é melhor apelar para o bom e velho download.)






Ver HÉRCULES UNCHAINED hoje é mais do que um exercício de nostalgia ou trashice. Particularmente, encaro isso como uma forma de se desintoxicar das pavorosas aventuras épicas produzidas nos últimos anos, de "Tróia" ao remake de "Fúria de Titãs" (esse último eu nem vi, só o trailer já me bastou).

Aqui, ao invés de bonequinhos feitos por computador, você tem figurantes guerreando nas cenas de batalha. Ao invés de efeitos digitais para demonstrar a força de Hércules, vemos o sujeito erguendo imensas rochas de isopor ou entortando barras de metal feitas de alguma liga bem leve - MAS ISSO JÁ BASTA, não é necessário um efeito tosco em CGI do herói erguendo uma montanha inteira para me fazer acreditar que o cara é fortão!

E é sempre um alívio você ver aventuras épicas com gente de verdade e efeitos práticos no lugar de computação gráfica, pois, pelo menos para mim, isso aqui parece muito mais cinema do que videogame.


Após HÉRCULES UNCHAINED, e com Reeves deixando o papel-título, foram produzidos outros 17 filmes italianos com o herói, mas sem nunca alcançar o mesmo sucesso dos dois originais. Essas sequências "bastardas" saíram entre 1960 e 1965, por vários realizadores diferentes, e teve ano (1964) em que saíram seis aventuras de Hércules de uma só vez!

Atores como Gordon Scott, Kirk Morris, Mickey Hargitay e Brad Harris ocuparam o lugar de Reeves em filmes com títulos do naipe de "Ercole, Sansone, Maciste e Ursus: Gli Invincibili" e "Ercole Contro i Tiranni di Babilonia".


Vinte anos depois, com o sucesso de "Conan, O Bárbaro", os italianos voltaram a produzir aventuras baratas de capa e espada, mas bem diferentes daqueles ingênuos "peplum" como HÉRCULES UNCHAINED, agora sim abusando de violência explícita e nudez gratuita.

Por essa época, Luigi Cozzi ressuscitou o personagem nos divertidíssimos "Hércules" (1983) e "As Aventuras de Hércules" (1985), com Lou Ferrigno "interpretando" o herói e tramas misturando mitologia grega e ficção científica!

Mas isso é assunto para outra postagem...

Veja HÉRCULES UNCHAINED na íntegra



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Hercules Unchained / Ercole e la Regina di Lidia
(1959, Itália)

Direção: Pietro Francisci
Elenco: Steve Reeves, Sylvia Koscina, Gabriele Antonini,
Sylvia Lopez, Sergio Fantoni, Mimmo Palmara, Primo Carnera,
Patrizia Della Rovere e Carlo D'Angelo.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

PÂNICO NA MULTIDÃO (1976)


Em fevereiro de 1989, um exemplar da saudosa revista Chiclete com Banana trazia o depoimento de um sniper que teria abatido 65 pessoas a tiros, disparados do topo de um edifício em Daytona, Texas. O título do texto era "O Esporte Solitário" (reproduzido aqui), e dois trechos do depoimento do criminoso sempre me deixaram a refletir. Segue:

"Ah, por quê? Porque é um meio a mais que se inventou para matar. E neste século de anonimato coletivo, ele tem o grande mérito de devolver ao indivíduo sua condição de herói e caçador isolado, coisa perdida há muito tempo. O método tem ainda a vantagem de exercitar na pessoa o sentimento esportivo, outro atributo humano hoje também negligenciado. E o esporte que cada um só pode jogar uma vez - já imaginou que emoção?"

"E antes de você desligar essa merda eu quero deixar aqui registrado que este vai ser o esporte por excelência no futuro, vocês vão ver só. Daqui a pouco vai ser mais difícil controlar."



O "depoimento" provavelmente é uma obra de ficção, já que não é possível encontrar nenhum registro na internet do atirador chamado "Alvin Agnew", muito menos de um massacre realizado em Daytona, Texas. Ainda assim, o texto é visionário: de 1989 para cá, o que teve de sniper atirando em pessoas inocentes pelo mundo inteiro, do Massacre de Columbine ao Atirador de Washignton... E isso me levou a pensar na expressão usada pelo (falso?) sniper no depoimento da Chiclete com Banana: "O esporte por excelência do futuro".

O melhor filme sobre a ameaça de um sniper já produzido chama-se "Targets" ("Na Mira da Morte", no Brasil), um suspense dirigido por Peter Bogdanovich em 1968. Mas por esses dias eu vi uma obra surpreendente que, até então, nem sabia que existia. Chama-se PÂNICO NA MULTIDÃO, e é uma produção meio obscura de 1976.


Fugindo de uma mera cópia do bem superior "Targets", PÂNICO NA MULTIDÃO bebe da fonte daquele cinema-catástrofe tão popular na década de 70, e representado por produções tão díspares quanto "Aeroporto", "Terremoto", "Inferno na Torre" e "O Enxame".

Nas últimas décadas, o cinema-catástrofe ganhou um revival graças às superproduções sobre o fim do mundo, como "O Dia Depois de Amanhã", "2012" e "Armageddon", mas eliminando uma característica marcante daquelas produções dos anos 70: a presença de incontáveis astros em papéis secundários, o que tornava as "catástrofes" mais interessante. Nos filmes recentes, eles foram substituídos por efeitos especiais incríveis, que mostram a destruição do planeta por todos os ângulos e das formas mais variadas.


Voltemos a PÂNICO NA MULTIDÃO. A trama se passa durante uma disputadíssima partida de futebol americano de um campeonato fictício, entre UCLA e USC, no Los Angeles Memorial Coliseum. Mais de 100 mil pessoas estão no estádio, e o evento é tão aguardado que até o presidente dos Estados Unidos deve fazer uma visita ao local para acompanhar a partida.

É a desculpa perfeita para um sniper anônimo e psicótico invadir o local, posicionar-se logo acima do placar eletrônico e esperar pelo melhor momento para fazer de alvo aquelas 100 mil pessoas, numa ironia absurda: enquanto todos curtem o "esporte coletivo", o atirador se prepara para o seu "esporte solitário", lembrando sempre o termo usado naquela velha reportagem da Chiclete com Banana.


Só que um dirigível com câmera, que faz tomadas aéreas do estádio para transmissão pela TV, capta uma imagem do psicopata com seu rifle, e a equipe de televisão resolve alertar as autoridades. Os homens da lei organizam uma operação para tentar deter o sniper com um mínimo de tumulto - afinal, imagine o estrago caso 100 mil pessoas tentassem fugir para fora do estádio ao mesmo tempo!

Os responsáveis por tentar evitar uma tragédia são o administrador do estádio, Sam McKeever (o veterano Martin Balsam); o capitão de polícia Peter Holly (Charlton Heston) e o sargento da SWAT Chris Button (o também cineasta John Cassavetes). Button faz o tipo "Capitão Nascimento" e quer sentar o ferro no sniper desde o começo; já Holly tem uma atitude mais ponderada e prefere antes deixar a situação sob controle, para poder agir rapidamente no momento em que o homem com o rifle demonstrar-se uma ameaça em potencial.


PÂNICO NA MULTIDÃO segue fielmente o livrinho de regras do cinema-catástrofe, criando uma situação potencialmente perigosa (nesse caso, o tumulto que pode ser provocado pelo sniper no estádio lotado) e, paralelamente a isso, desenvolvendo os "dramas pessoais" de diversos personagens, todos interpretados por atores famosos e/ou conhecidos.

Além dos já citados Balsam, Heston e Cassavetes, que interpretam os "mocinhos" tentando resolver a situação com um mínimo possível de baixas, o roteiro de Edward Hume também vai intercalando "flashs" com alguns dos torcedores que acompanham a partida, como o casal de meia-idade Steve e Janet (David Janssen, do seriado "O Fugitivo", e Gena Rowlands), que vive brigando; o viciado em jogo Stu Sandman (Jack Klugman), que apostou uma fortuna no resultado da partida e será morto por mafiosos caso seu time não ganhe; um padre (Mitchell Ryan) que é amigo do principal jogador de um dos times e reza por ele; um jovem casal (Beau Bridges e Pamela Bellwood) e seus filhos pequenos; um batedor de carteiras (Walter Pidgeon) que aproveita a multidão para ensinar o ofício a uma jovem aprendiz (Julie Bridges); e o triângulo amoroso formado pelo médico Al (David Groh), a universitária Lucy (Marilyn Hassett) e seu namoradinho (Jon Korkes), que parece mais interessado no jogo do que na garota.


E como era comum nos exemplares clássicos do cinema-catástrofe, vários desses dramas pessoais serão resolvidos pelo próprio sniper, quando ele começar a usar alguns dos personagens citados como alvos para seus disparos certeiros. Porque você não achava que a polícia iria REALMENTE conseguir deter o atirador antes que ele provocasse o "pânico na multidão" anunciado pelo título brasileiro, não é?

Mas diferente de várias produções do filão, que davam mais destaque aos efeitos especiais que simulavam o desastre do título do que à trama (como acontecia, por exemplo, em "Terremoto" e "Inferno na Torre"), PÂNICO NA MULTIDÃO consegue prender a atenção do espectador justamente pela maneira eficiente com que cria a tensão.


Acompanhe: o filme tem quase duas horas de duração, mas o sniper só começa a abater seus alvos humanos quando a partida entra no "two-minute warning" (o finalzinho do jogo, quando o time que está perdendo tem seus últimos dois minutos para reagir).

Portanto, seus disparos e o consequente caos provocado no estádio lotado só acontecem nos últimos 20 minutos do filme! Mas, mesmo assim, o roiteirista Hume e o diretor Larry Peerce fizeram um trabalho tão decente que a tensão da situação - e o início inevitável de uma tragédia em potencial - mantém o espectador vidrado na narrativa até o último minuto.


Ainda que alguns dos "conflitos humanos" entre os personagens secundários sejam bem descartáveis (o triângulo amoroso quase cômico entre os dois rapazes e a jovem parece saído de alguma comédia do Adam Sandler), e alguns personagens secundários sejam eles próprios praticamente descartáveis (como o batedor de carteiras e sua pupila, que pouco aparecem), o desenvolvimento da trama faz com que você se importe com o que acontece a eles. Confesso que me peguei torcendo pelo apostador compulsivo, que num momento de desespero pede para o padre rezar para que o seu time ganhe.

PÂNICO NA MULTIDÃO também tem um aspecto bem curioso: os astros Heston e Cassavetes representam a lei e a ordem, mas, ironicamente, aparecem bem pouco no filme e fazem bem pouco até o "two-minute warning" no final. Acredito que tenha sido uma opção do diretor e do roteirista para intensificarem o suspense. Afinal, sempre que os dois "heróis" estão em cena, você fica mais tranquilo e esperando que a situação possa terminar sob controle; como suas aparições são esporádicas, a tensão vai aumentando até o desfecho explosivo.


O roteirista Hume adaptou um romance de George LaFountaine, mas já tinha uma experiência pregressa com o cine-catástrofe, tendo dramatizado a história real dos atentados das Olimpíadas de Munique no interessante "Pânico em Munique" (1976). Por coincidência ou não, as imagens do sniper captadas pela câmera de TV em PÂNICO NA MULTIDÃO lembram aquela clássica e assustadora imagem real do terrorista mascarado aparecendo na sacada nas fatídicas olimpíadas alemãs. Anos depois, Hume seria o responsável por aterrorizar toda uma geração com o roteiro de "The Day After - O Dia Seguinte" (1983).

Já o diretor Peerce não tem créditos muito expressivos, sendo um conhecido diretor de seriados de TV ("Besouro Verde", o "Batman" de Adam West). Seu trabalho aqui é muito eficiente, manipulando direitinho o suspense, e até impactante, sem poupar o espectador do estrago provocado pelos disparos certeiros do sniper (com direito ao disparo que atravessa a mira telescópica de um atirador da SWAT, em cena imitada posteriormente em filmes como "No Coração do Perigo" e "O Resgate do Soldado Ryan) e do consequente tumulto que se forma durante a evacuação forçada do estádio.


Tanto Hume quanto Peerce optam por não explicar muito sobre a ameaça quase anômina do atirador (interpretado por Warren Miller, de "Celas em Chamas"). Seu nome e seu rosto são revelados apenas no final, mas nunca ficamos sabendo os seus motivos - o que dá um ar quase sobrenatural àquela ameaça desconhecida, à la Michael Myers no "Halloween" de Carpenter.

Para tornar o vilão ainda mais ameaçador e "onipresente", a cena de abertura coloca o próprio espectador no ponto de vista do sniper, quando ele faz uma vítima aleatória da janela do seu quarto de hotel apenas para "testar o equipamento". Neste momento, da saída do hotel até sua chegada ao estádio, a câmera dá sempre a visão em primeira pessoa do atirador, como se a câmera (e consequentemente o espectador) estivesse enxergando pelos olhos do matador - de certa forma antecipando a cena inicial do já citado "Halloween", que viria dois anos DEPOIS, em 1978!


Também em 1978, a emissora NBC adquiriu os direitos de exibição de PÂNICO NA MULTIDÃO na TV norte-americana. Mas julgou que o conteúdo era muito violento e pesado para a televisão: os executivos da emissora não só ficaram chocados com a morte de vários personagens simpáticos, mas também pelo fato de os motivos do atirador nunca serem justificados.

Por isso, eles negociaram com o estúdio responsável pela produção (Universal) uma reedição completa, eliminando muitas cenas e incluindo outras que justificariam a ação do sniper: ele havia sido contratado pelos assaltantes de uma joalheria para desviar a atenção do crime, já que planejavam roubar diamantes pertencentes à Máfia! A famosa atriz inglesa Joanna Pettet participou de trechos gravados especialmente para a TV.


Francesca Turner foi a responsável pela remontagem, tirando 45 minutos do filme original e acrescentando meia hora de novas cenas, numa versão condenada pelo diretor Peerce (que usou o pseudônimo "Gene Palmer" nessa reedição). Alguns anos depois, a mesma Francesca Turner foi responsável pelos remendos e pela remontagem da versão para a TV de "Duna", de David Lynch, bem mais longa que o original e também condenada pelo seu diretor.

A versão televisiva pelo menos justifica melhor o motivo para o sniper só começar a atirar no final da partida, pois é o momento em que os diamantes chegarão à joalheria. Porém os cortes realizados por Francesca alteram o destino de alguns dos personagens, que simplesmente somem da narrativa ao invés de serem mortos, como acontecia na versão original.


Enfim, uma bela surpresa esse PÂNICO NA MULTIDÃO. Embora seja praticamente desconhecido do grande público, o filme chegou a concorrer ao Oscar de Melhor Edição em 1977, ao lado de "Todos os Homens do Presidente", "Esta Terra é Minha", "Rede de Intrigas" e "Rocky - Um Lutador" (a estatueta ficou com este último).

O DVD nacional, lançado pela NBO Editora, traz o filme em widescreen e com imagem cristalina, mas sem nenhum extra (como se isso fosse novidade em nosso mercado), e com legendas vergonhosas (o jogo é futebol americano, mas a tradução adotada para "football" foi "rugby", esporte parecido visualmente, mas com regras diferentes!!!). Pelo menos, é um disco que pode ser encontrado a cinco pilas nas baciadas de ofertas dos supermercados.


No final, além de todo o aspecto do "Esporte Solitário" que me remeteu à reportagem da Chiclete com Banana, um outro aspecto do filme me deixou incomodado. É a última cena, que mostra o administrador do estádio (Martin Balsam, lembra?) sentando-se numa das arquibancadas e observando o cenário pós-tragédia, com um olhar triste e perdido.

Juro que me peguei refletindo: estará ele pensando em como a beleza do esporte foi maculada pela ação do sniper, ou lamentando que as coisas nunca mais serão as mesmas? Pois é só você lembrar das inúmeras tragédias envolvendo esporte nos últimos anos, principalmente futebol, para entender o olhar entristecido de Balsam.


Estou me referindo a isso aqui, mas principalmente a todas as vergonhosas matanças e pancadarias provocadas em partidas aqui no Brasil, por marginais sanguinários disfarçados de torcidas organizadas, que substituem a alegria e a competitividade do esporte pelo ódio cego e pelo derramamento de sangue.

O sniper de PÂNICO NA MULTIDÃO, no fim, é a menor das ameaças.

PS: Além de todos os nomes famosos já nominados, olho vivo para detectar atores "de segundo escalão" fazendo figuração. Entre eles, Carmen Argenziano (que fez vários filmes com o filipino Cirio H. Santiago, como "O Samurai Negro") interpretando um soldado da SWAT, Robert Ginty (o "Exterminador" em pessoa!) como um vendedor de bandeirinhas e o cineasta sacana Andy Sidaris (!!!) como diretor da equipe de TV que transmite o jogo.

Trailer de PÂNICO NA MULTIDÃO



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Two-Minute Warning (1976, EUA)
Direção: Larry Peerce
Elenco: Charlton Heston, Martin Balsam, John Cassavetes,
Beau Bridges, Marilyn Hassett, David Janssen, Gena Rowlands,
Jack Klugman, Brock Peters e Walter Pidgeon.