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quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

OS BONS SE VESTEM DE NEGRO (1978)


Apenas um ano separa o primeiro filme de Chuck Norris como protagonista, "Comboio de Carga Pesada" (1977), de OS BONS SE VESTEM DE NEGRO (1978), mas o salto de qualidade de uma produção para a outra é impressionante. E se "Comboio..." era uma produção paupérrima que quase ninguém viu, como se explica esse fenômeno?

Bem, vocês conhecem o ditado "Quem tem um amigo, tem um tesouro"? Pois na época, além de batalhar por trabalhos como ator, Norris era proprietário de uma rede de escolas de karatê. E um de seus alunos, vejam só, era um tal de Steve McQueen, que apadrinhou Chuck, incentivou-o a estudar interpretação e abriu algumas portas para que ele virasse um novo herói de ação.


Em entrevistas, Chuck declarou que, nos seus primeiros filmes, tentava seguir o modelo dos policiais de Clint Eastwood. Logo, talvez não seja coincidência que OS BONS SE VESTEM DE NEGRO tenha no comando o veterano Ted Post, que antes havia dirigido o próprio Eastwood em "A Marca da Forca" e "Magnum 44".

Infelizmente, se a promessa do pôster de cinema era de um filme de ação eletrizante, a execução ficou bem longe disso. E o que no papel poderia ser um grande veículo para Norris mostrar suas habilidades como karateka, na tela se resume a uma trama de espionagem bem rasteira, estilo telefilme de sábado à noite, com algumas poucas cenas de pancadaria e perigo entre intermináveis diálogos dos personagens.


A trama começa em Paris no ano de 1973, durante as discussões para definir o fim da Guerra do Vietnã. Ali, o inescrupuloso diplomata norte-americano Conrad Morgan (James Franciscus, dirigido por Post também no ótimo "De Volta ao Planeta dos Macacos") faz um trato com autoridades vietnamitas: em troca de benefícios no cessar-fogo, ele armará um esquema para entregar de bandeja aos comunistas a cabeça de um time de elite da CIA, os "Tigres Negros" (Black Tigers), responsáveis por várias baixas entre o inimigo durante o conflito.

Assim, o pelotão liderado pelo Major John T. Booker (Norris) é enviado a um campo de prisioneiros no Vietnã para supostamente resgatar alguns soldados norte-americanos aprisionados. Mas, chegando lá, caem numa cilada e quase todos são mortos. Depois, os helicópteros que deviam transportar os sobreviventes não aparecem (lembra de "Rambo 2"?), e Booker é obrigado a liderar seus homens restantes pela selva até a fronteira.


Cinco anos se passam e a dívida do ardiloso Morgan com as autoridades vietnamitas continua em aberto. Portanto, assassinos da própria CIA começam a perseguir e matar aqueles soldados que sobreviveram à emboscada de anos atrás, e que agora levam vidas normais em outros empregos.

O herói Booker, quem diria, largou a vida de major do exército para ser professor de ciências políticas numa faculdade (!!!), mas também atua como piloto de automobilismo (!!!) nas horas vagas. E tem um bigode bem vistoso para assinalar a passagem do tempo - o bigodão se transformaria numa espécie de marca registrada do astro junto com seu Roundhouse Kick!


Em uma de suas aulas, ele é procurado pela jornalista Margaret (Anne Archer), que parece saber demais sobre a operação fracassada e também sobre as mortes misteriosas dos soldados que sobreviveram anos antes.

Quando um aliado de Booker na CIA (Lloyd Haynes) confirma os assassinatos de seus antigos parceiros, o herói alia-se a Margaret e parte numa corrida contra o tempo para encontrar os sobreviventes antes que eles sejam silenciados. E, ao mesmo tempo, tenta descobrir quem está por trás do plano - no caso, Morgan, prestes a assumir o poderoso cargo de Secretário de Estado!


Contando resumidamente até parece bem interessante, mas OS BONS SE VESTEM DE NEGRO desperdiça seu potencial por gastar muito tempo com as intermináveis conversas políticas entre Morgan e seus asseclas, e principalmente na investigação de Booker sobre o responsável pela operação fracassada no Vietnã (algo que o espectador já sabe desde a primeira cena).

O resultado é tão brochante que, no final, quando Booker e Morgan finalmente se encontram cara a cara, nem ao menos acontece o duelo entre os dois que todo fã de Chuck Norris estava esperando desde o início do filme.


Pelo contrário, o herói não levanta um único dedo para o vilão, nem ao menos dá um tapinha de leve no sujeito, resolvendo o caso de uma maneira extremamente sem-graça e anti-climática - quando qualquer pessoa em sã consciência gostaria de ver Norris dando seu famoso chute giratório em Franciscus, ou ao menos algo parecido com o tratamento que o Capitão Nascimento deu no político corrupto em "Tropa de Elite 2"!

No restante do filme, a coisa não é muito melhor: basicamente, entre as diversas reuniões de gabinete e diálogos que parecem não ter fim, vemos Chuck Norris viajando de um lado para o outro tentando proteger seus ex-parceiros dos Tigres Negros, mas sempre sem conseguir, porque os assassinos são muito mais eficientes do que ele.


O engraçado é que tanto Booker quanto os assassinos sempre chegam nos alvos mais ou menos na mesma hora, e assim os caras geralmente são mortos segundos depois de o herói cumprimentá-los e alertá-los sobre o perigo!

Post deve ter dirigido o filme no piloto automático, ainda mais considerando que um dos melhores filmes do Dirty Harry, "Magnum 44", foi feito por ele (acho até melhor que o original "Perseguidor Implacável").


Mesmo a cena da emboscada no Vietnã, repleta de tiros, explosões, mortes e algumas voadoras de Norris, é burocrática e sem brilho - com direito a um momento lamentável em que um sujeito em cima de uma árvore toma um tiro, cai e fica NITIDAMENTE pendurado pela corda que prendia o pé do figurante para ele não se estatelar no chão!

A única cena realmente foda de OS BONS SE VESTEM DE NEGRO é aquela em que Booker enfrenta um assassino no aeroporto, após a explosão de um avião num atentado (por sinal, o efeito de sobreposição da explosão no fotograma é de chorar). O embate termina com o sujeito entrando em seu carro e tentando atropelar o herói... que dá uma voadora, atravessa o pára-brisa do carro com as pernas e mata o sujeito instantaneamente!!!


Na época do VHS, a qualidade da imagem era tão ruim que eu jurava que o próprio Chuck Norris tinha realizado a façanha. Revendo o filme com imagem de DVD, fica mais do que na cara que é um dublê. Segundo algumas fontes, trata-se do próprio irmão do astro, Aaron Norris, que depois iria dirigi-lo em vários filmes na década de 1980. Seja lá quem for, é uma acrobacia de tirar o chapéu, tão boa que acabou até no pôster.

(Aaron e Chuck dividem o crédito de coreografia das poucas lutas, e o irmão do astro também aparece rapidamente como um dos soldados da equipe dos Tigres Negros.)


Curioso é que se você assistir o trailer do filme (no final da resenha), vai ficar pensando que é pancadaria do começo ao fim. Não se engane: eles simplesmente pegaram as únicas cenas de ação e colocaram em sequência para tentar vender gato por lebre!

O roteiro de Bruce Cohn e Mark Medoff (nenhum deles têm grandes créditos no gênero) até tem algumas boas ideias, mas infelizmente não sabe aproveitá-las. Peguemos, por exemplo, as ocupações do personagem de Norris pós-Vietnã. Por mais difícil que seja difícil engolir Chuck como professor de ciências políticas numa faculdade (hahaha), isso é apenas uma desculpa para uma ceninha de três minutos em que seu personagem questiona a validade da Guerra do Vietnã.


Agora, por que diabos os roteiristas inventaram que Booker também é piloto de testes de carros de corrida, com direito a uma longa cena do herói "correndo" num autódromo (na verdade apenas a imagem foi acelerada na edição)? Se fosse uma desculpa para ele mostrar seu talento em alguma fantástica perseguição automobilística mais tarde, vá lá; mas não, o hobby do herói nunca se justifica, e esta cena no autódromo fica assim, solta, perdida, só para mostrar que Booker é tão fodão que, além de ex-milico e professor pacifista, também é piloto de carros de corrida!

E para uma história que é uma corrida contra o tempo (o herói correndo para tentar salvar seus parceiros de Vietnã da "queima de arquivo"), é incrível como os roteiristas não conseguem criar situações de tensão ou suspense. Pelo contrário, parece que Chuck Norris está sempre passeando, ao invés de aflito para chegar aos amigos antes que os assassinos enviados por Morgan.


Aí alguém poderá dizer que os filmes de ação dos anos 70 eram assim mesmo, mais lentos, menos barulhentos e fantasiosos. Nem vou entrar nesse mérito, mas é inquestionável o contraste na qualidade de, por exemplo, "Magnum 44", realizado pelo mesmo diretor Post cinco anos antes, e este filme aqui.

Apesar disso, OS BONS SE VESTEM DE NEGRO foi um sucesso nos cinemas, dando moral a Chuck Norris para continuar investindo em aventuras do gênero. Segundo o IMDB, o orçamento ficou na faixa de US$ 1 milhão (mixaria para os padrões atuais), e a bilheteria chegou a mais de 18 milhões de dólares.


Claro que ajuda o fato de esta ser uma produção bem mais decente do que a aventura anterior do astro, com um diretor de verdade no comando (embora Post não esteja em seus melhores dias) e um elenco repleto de caras conhecidas e atores de calibre, como Franciscus, Anne Archer e Dana Andrews.

Também é interessante ressaltar a presença de Soon-Tek Oh interpretando um dos bonzinhos - no caso, um dos Tigres Negros comandados por Booker. Ironicamente, ele e Norris voltariam ao Vietnã alguns anos depois como inimigos: Soon-Tek foi o vilão de "Braddock 2 - O Início da Missão".


Ainda que seja mais trama de espionagem do que filme de ação, OS BONS SE VESTEM DE NEGRO tem pelo menos um mérito além da produção caprichada e da voadora no pára-brisa: é esse fantástico título, que no original é ainda mais foda ("Caras Bonzinhos Vestem Preto"), numa inversão de um daqueles clichês clássicos de que o herói dos filmes sempre usavam roupas brancas enquanto os vilões vestiam trajes pretos.

Inclusive eu sugeriria uma refilmagem contemporânea com o roteiro recauchutado, cortes no bla-bla-bla e uma conclusão mais explosiva. Estrelada, quem sabe, por Jason Statham, que parece ser o Chuck Norris do século 21.

Mas sem câmera tremendo e edição de videoclipe, fazer favor.

Trailer de OS BONS SE VESTEM DE NEGRO



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Good Guys Wear Black (1978, EUA)
Direção: Ted Post
Elenco: Chuck Norris, Anne Archer, James Franciscus,
Lloyd Haynes, Dana Andrews, Lawrence P. Casey,
Soon-Tek Oh e Aaron Norris.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

COMBOIO DE CARGA PESADA (1977)


São pouquíssimos os casos de pessoas que se transformam em lendas ainda em vida, e um desses raríssimos exemplos chama-se Carlos Ray Norris, ou simplesmente Chuck Norris. Outrora um simples ator carrancudo de filmes de ação de baixo orçamento, espinafrado pela crítica e por grande parte do público, Chuck foi promovido a uma celebridade cult com o passar dos anos.

Recapitulemos: além de ser astro de filmes populares como "Invasão USA" e "Braddock - O Super Comando", o barbudão foi ganhando uma aura quase mítica cujo ápice foram os "Chuck Norris Facts", uma divertida piada que virou febre na internet e deu origem a frases como "Papai Noel existia antes de esquecer o presente de Natal de Chuck Norris".

E pensa aqui comigo: além de Chuck Norris, quantos astros de cinema você conhece que já viraram...


...revista em quadrinhos da Marvel com arte de Steve Ditko (!!!) e o próprio nome em letras garrafais na capa? (Repare que não são aventuras de um personagem de Norris, como Braddock por exemplo, mas ELE PRÓPRIO é o personagem do gibi!)


...jogo de videogame batizado com o próprio nome, o "Chuck Norris Superkicks"?



...desenho animado batizado com o próprio nome, o "Chuck Norris Karate Kommandos"? (O único outro exemplo que me lembro é o "Jackie Chan Adventures")


...linha de brinquedos com o próprio nome (ligada ao desenho "Karate Kommandos")?


...série de livros propagando suas façanhas, e imortalizando em papel os famigerados "Chuck Norris Facts"?

Portanto, queridos leitores, Chuck Norris é inquestionavelmente uma lenda viva, doa a quem doer. E em sua homenagem, o FILMES PARA DOIDOS lança uma nova maratona temática de início de ano. Se 2011 começou com resenhas diárias de filmes "direct-to-DVD" de Steven Seagal, 2012 inicia com a MARATONA CHUCK NORRIS: uma semana de textos sobre as primeiras aventuras do mito, antes do sucesso estrondoso de "Braddock - O Super Comando"!

Como todos sabem, Chuck teve seu primeiro papel de destaque no cinema apanhando de Bruce Lee em "O Vôo do Dragão" (1972). Depois foi vilão novamente e apanhou de Don Wong em "Massacre em San Francisco" (1974).


Três anos depois, com COMBOIO DE CARGA PESADA, em 1977, a lenda viva ganhou seu primeiro papel como protagonista, e desde então construiu uma carreira sólida, fazendo praticamente um filme por ano até 1996, quando deixou o cinema de lado para dedicar-se ao seriado de TV "Walker, Texas Ranger".

Preparem-se, pois será uma semana com overdose de testosterona. Eis o calendário de atualizações:
COMBOIO DE CARGA PESADA (Breaker! Breaker!, 1977)
OS BONS SE VESTEM DE NEGRO (Good Guys Wear Black, 1978)
FORÇA DESTRUIDORA (A Force of One, 1979)
OCTAGON (The Octagon, 1980)
AJUSTE DE CONTAS (An Eye for an Eye, 1981)
GOLPE MORTAL (Forced Vengeance, 1982)
MCQUADE, O LOBO SOLITÁRIO (Lone Wolf McQuade, 1983)

Começando, então, por COMBOIO DE CARGA PESADA...


Eu tenho lembranças muito vívidas da primeira vez que vi este filme porque esta foi uma das primeiras fitas que meu pai trouxe para casa, para testar o videocassete da família, recém-comprado no Paraguai - isso entre 1987-88.

Pois o velho ficou tão extasiado que não descansou até encontrar alguém que tinha dois videocassetes em casa (um verdadeiro luxo para a época), para poder gravar uma cópia pirata e reassistir o filme quantas vezes quisesse!


Já para mim, foi um dos primeiros contatos com um filme em VHS e com esse tal de Chuck Norris. Por isso, rever COMBOIO DE CARGA PESADA agora, mais de 20 anos depois de tê-lo assistido pela primeira vez (e finalmente com imagem decente e em widescreen), teve um ar de nostalgia.

E também foi uma surpresa: nas minhas memórias de infância, o filme era muito pior. Revendo-o agora, até achei bem divertido.


COMBOIO DE CARGA PESADA se encaixa em um bizarro subgênero batizado "trucksploitation": na década de 70, sem nenhuma explicação (pelo menos que eu tenha encontrado), começaram a pipocar filmes de ação sobre caminhoneiros valentões enfrentando todo tipo de adversidades no volante de enormes caminhões. Entre os títulos mais famosos estão "Truck Stop Women" (1974), de Mark L. Lester, e "White Line Fever" (1975), de Jonathan Kaplan.

Eu até ia escrever que COMBOIO DE CARGA PESADA era uma tentativa de pegar carona no sucesso de dois famosos trucksploitation do período: "Agarra-me se Puderes", com Burt Reynolds, e "Comboio", de Sam Peckinpah, mas a verdade é que o filme foi realizado no mesmo ano de "Agarra-me...", e "Comboio" saiu só em 1978!


(E sempre é bom lembrar que "Agarra-me se Puderes" foi um sucesso de bilheteria tão grande em 1977 que só ficou atrás de "Star Wars" entre os campeões daquele ano! Portanto é bem possível que a comédia com Burt Reynolds tenha roubado a atenção desse filme de estréia do Chuck.)

Curioso que os caminhões são as estrelas do pôster original de cinema, já que Chuck Norris ainda não era um grande astro (lembre-se: este é o seu primeiro papel como protagonista). Somente anos depois, com a fama do ator, as capinhas de VHS e DVD começaram a utilizar enormes fotos dele em destaque (veja algumas abaixo, assim como a capa do VHS brasileiro lançado pela Poletel).


Também há uma outra curiosidade: COMBOIO DE CARGA PESADA é um dos três filmes de Chuck Norris que Sylvester Stallone "semi-plagiou" posteriormente.

Se "Rambo 2" aproveita cenas e idéias de "Os Bons Se Vestem de Negro" e "Braddock - O Super Comando" (ambos lançados antes), COMBOIO DE CARGA PESADA e "Falcão, O Campeão dos Campeões" têm em comum o personagem principal caminhoneiro e especialista em queda-de-braço! Até mesmo o rival de Chuck na queda-de-braço, um grandalhão careca e bigodudo, é idêntico ao arquiinimigo de Falcão no filme do Stallone, como você pode ver nas fotos abaixo!


Chuck "interpreta" (muita generosidade de minha parte) J. D. Dawes, um caminhoneiro gente boa e mestre em artes marciais (claro...). Nas suas paradas em restaurantes de beira de estrada, entre um frete e outro, ele demonstra sua habilidade disputando quedas-de-braço por apostas.

J.D. tem um irmão mais novo, Billy (Michael Augenstein), que se prepara para sua primeira viagem com carga. Só que ele dá o azar de parar em Texas City, Califórnia, uma cidadezinha no meio do nada governada por um juiz doidão e por policiais corruptos.


Eles costumam extorquir motoristas com pesadas multas por delitos não cometidos, somente para poder confiscar suas cargas. Billy é "julgado" por eles e condenado à prisão sem poder se defender. Como diria Schwarzenegger: "Big mistake".

Nesse ínterim, J.D. fica preocupado com o sumiço do irmão e resolve investigar. Pega sua caminhonete estilosa, com o desenho de uma águia na lataria (ou será um falcão? xiiii...), e segue os passos do desaparecido até Texas City, onde também acaba tendo problemas com a lei local. Claro que o fato de ser mestre em artes marciais ajuda, e logo Falcão... ops!... J.D. estará lutando contra a cidade inteira para libertar Billy. Literalmente.


COMBOIO DE CARGA PESADA foi dirigido por um sujeito chamado Don Hulette, que faleceu em 2008 e nunca teve créditos muito expressivos além desse filme. Na verdade, Hulette era mais conhecido como músico do que como cineasta, e inclusive compôs a trilha para o relançamento de alguns clássicos do cinema mudo, como "O Homem Mosca" e "O Calouro", de Harold Lloyd. Claro que ele também compôs a trilha desse seu filme aqui. Já o roteiro é de Terry Chambers, outro que não tem créditos dignos de menção.

Talvez essa falta de experiência da dupla justifique a bagunça que é o filme em certos momentos, como ao misturar ação e comédia meio sem critério.


Por exemplo, as cenas em que J.D. tenta interagir com a excêntrica população caipira de Texas City antes do pau comer, que são muito divertidas, parecem ter sido a inspiração para o excelente "Reviravolta", de Oliver Stone, produzido exatamente 20 anos depois.

Na conclusão, os amigos motoristas de J.D. aparecem para destruir a cidade com seus caminhões, e eles assim o fazem. Mas o filme termina sem explicações necessárias, como o que aconteceu ao juiz malucão que dominava a cidade: um caminhão invade a sala da sua casa e ele simplesmente some da narrativa, sem que se diga se morreu ou escapou para reconstruir o local.


Por sinal, vale destacar a excelente interpretação do veterano George Murdock como o juiz, no limite entre a insanidade e a crueldade. Segundo o IMDB, Murdock apareceu em mais de 180 trabalhos (entre filmes e seriados), e continua trabalhando!

Outros talentos envolvidos nessa produção de fundo de quintal são Jack Nance (recém-saído de "Eraserhead"), como um amigo malucão de J.D., e Steven Zaillian, que começou como editor aqui e anos depois firmou seu nome como roteirista de blockbusters (entre eles, "A Lista de Schindler", que lhe deu o Oscar de Melhor Roteiro, e o recente "Millennium - Os Homens que Não Amavam as Mulheres").


Como esse é seu primeiro filme no papel principal, Chuck se esforça e dá o seu melhor na tela. Ainda está na sua fase pré-barba, com cara limpa e cabelinho loiro, e faz um personagem mais falante e simpático do que os carrancudos e silenciosos heróis exterminadores que protagonizou na década de 1980.

Mesmo assim, o roteiro lhe dá várias oportunidades para distribuir "Roundhouse Kicks" (aquele demolidor chute giratório que ele dá em todos os seus filmes), e no final há uma luta muito boa entre J.D. e o delegado corrupto da cidadezinha.


Esta cena (confira o vídeo no final da resenha) tem uma pegada de western spaghetti, com os dois adversários "se estudando" durante um tempão e vários closes e "super-zooms" no rosto inexpressivo de ambos. Depois, a pancadaria rola em câmera lenta, com um belo trabalho de direção e montagem. Sem contar que a ambientação, num curral, permite uma mais do que gratuita analogia entre Chuck Norris e o cavalo selvagem que fica galopando de um lado para o outro...

A coreografia das cenas de luta foi do próprio Norris, e é uma pena que os realizadores não mostraram o herói castigando o juiz também. Afinal, era ele o grande vilão, e não o pobre policial que pagou o pato no lugar do patrão!


É bem marcante o contraste entre COMBOIO DE CARGA PESADA e as obras que tornariam Norris popular, principalmente as aventuras que fez com a Cannon Films nos anos 1980. Se filmes como "Braddock" e "Comando Delta" imortalizaram o astro como o herói que fala pouco e bate (ou atira) muito - e geralmente um herói assexuado, sem muito interesse em pares românticos -, este aqui e todos os outros trabalhos da primeira fase da filmografia de Chuck trazem um montão de diálogos entre as lutas, e até um caso de amor. No caso desse aqui, entre o protagonista e uma das únicas mulheres da cidade, a viúva Arlene (Terry O'Connor), que, por conveniências do roteiro, é filha do juiz malucão!

Tudo considerado, COMBOIO DE CARGA PESADA é até bem melhorzinho do que eu me lembrava e do que as críticas encontradas na internet dizem. E tem um clima cômico que ajuda o espectador a embarcar no absurdo da história (os caipiras da cidadezinha são tão estereotipados que até parece que Chuck Norris invadiu o set de "2.000 Maniacs", do Hershell Gordon Lewis!).


Claro que o ator faria coisas bem melhores logo em seguida, mas para um primeiro filme como protagonista até que não está mal. Principalmente se olharmos os primeiros filmes estrelados por outros astros de ação dos anos 80, tipo Stallone (em "O Garanhão Italiano") e Schwarzenegger (na horrível comédia "Hércules em Nova York").

Comparado a eles, até que Chuck Norris começou com o pé direito. Neste caso, literalmente - e na cara de vários adversários!

PS: Por que diabos o filme ganhou o título "Comboio de Carga Pesada" aqui no Brasil? Só para fazer o link com o "Comboio" do Peckinpah? Afinal, não há exatamente um comboio no filme (mesmo no final, quando os caminhões invadem a cidade, são só quatro ou cinco veículos no total), e tanto faz se a carga é pesada ou não, se é que os caras estão transportando alguma carga. Ah, esses inventores de títulos nacionais e suas ideias malucas...

A luta final de COMBOIO DE CARGA PESADA



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Breaker! Breaker! (1977, EUA)
Direção: Don Hulette
Elenco: Chuck Norris, George Murdock, Terry O'Connor,
Don Gentry, John Di Fusco, Michael Augenstein,
Ron Cedillos e Jack Nance.