Apenas um ano separa o primeiro filme de Chuck Norris como protagonista, "Comboio de Carga Pesada" (1977), de OS BONS SE VESTEM DE NEGRO (1978), mas o salto de qualidade de uma produção para a outra é impressionante. E se "Comboio..." era uma produção paupérrima que quase ninguém viu, como se explica esse fenômeno?
Bem, vocês conhecem o ditado "Quem tem um amigo, tem um tesouro"? Pois na época, além de batalhar por trabalhos como ator, Norris era proprietário de uma rede de escolas de karatê. E um de seus alunos, vejam só, era um tal de Steve McQueen, que apadrinhou Chuck, incentivou-o a estudar interpretação e abriu algumas portas para que ele virasse um novo herói de ação.
Em entrevistas, Chuck declarou que, nos seus primeiros filmes, tentava seguir o modelo dos policiais de Clint Eastwood. Logo, talvez não seja coincidência que OS BONS SE VESTEM DE NEGRO tenha no comando o veterano Ted Post, que antes havia dirigido o próprio Eastwood em "A Marca da Forca" e "Magnum 44".
Infelizmente, se a promessa do pôster de cinema era de um filme de ação eletrizante, a execução ficou bem longe disso. E o que no papel poderia ser um grande veículo para Norris mostrar suas habilidades como karateka, na tela se resume a uma trama de espionagem bem rasteira, estilo telefilme de sábado à noite, com algumas poucas cenas de pancadaria e perigo entre intermináveis diálogos dos personagens.
A trama começa em Paris no ano de 1973, durante as discussões para definir o fim da Guerra do Vietnã. Ali, o inescrupuloso diplomata norte-americano Conrad Morgan (James Franciscus, dirigido por Post também no ótimo "De Volta ao Planeta dos Macacos") faz um trato com autoridades vietnamitas: em troca de benefícios no cessar-fogo, ele armará um esquema para entregar de bandeja aos comunistas a cabeça de um time de elite da CIA, os "Tigres Negros" (Black Tigers), responsáveis por várias baixas entre o inimigo durante o conflito.
Assim, o pelotão liderado pelo Major John T. Booker (Norris) é enviado a um campo de prisioneiros no Vietnã para supostamente resgatar alguns soldados norte-americanos aprisionados. Mas, chegando lá, caem numa cilada e quase todos são mortos. Depois, os helicópteros que deviam transportar os sobreviventes não aparecem (lembra de "Rambo 2"?), e Booker é obrigado a liderar seus homens restantes pela selva até a fronteira.
Cinco anos se passam e a dívida do ardiloso Morgan com as autoridades vietnamitas continua em aberto. Portanto, assassinos da própria CIA começam a perseguir e matar aqueles soldados que sobreviveram à emboscada de anos atrás, e que agora levam vidas normais em outros empregos.
O herói Booker, quem diria, largou a vida de major do exército para ser professor de ciências políticas numa faculdade (!!!), mas também atua como piloto de automobilismo (!!!) nas horas vagas. E tem um bigode bem vistoso para assinalar a passagem do tempo - o bigodão se transformaria numa espécie de marca registrada do astro junto com seu Roundhouse Kick!
Em uma de suas aulas, ele é procurado pela jornalista Margaret (Anne Archer), que parece saber demais sobre a operação fracassada e também sobre as mortes misteriosas dos soldados que sobreviveram anos antes.
Quando um aliado de Booker na CIA (Lloyd Haynes) confirma os assassinatos de seus antigos parceiros, o herói alia-se a Margaret e parte numa corrida contra o tempo para encontrar os sobreviventes antes que eles sejam silenciados. E, ao mesmo tempo, tenta descobrir quem está por trás do plano - no caso, Morgan, prestes a assumir o poderoso cargo de Secretário de Estado!
Contando resumidamente até parece bem interessante, mas OS BONS SE VESTEM DE NEGRO desperdiça seu potencial por gastar muito tempo com as intermináveis conversas políticas entre Morgan e seus asseclas, e principalmente na investigação de Booker sobre o responsável pela operação fracassada no Vietnã (algo que o espectador já sabe desde a primeira cena).
O resultado é tão brochante que, no final, quando Booker e Morgan finalmente se encontram cara a cara, nem ao menos acontece o duelo entre os dois que todo fã de Chuck Norris estava esperando desde o início do filme.
Pelo contrário, o herói não levanta um único dedo para o vilão, nem ao menos dá um tapinha de leve no sujeito, resolvendo o caso de uma maneira extremamente sem-graça e anti-climática - quando qualquer pessoa em sã consciência gostaria de ver Norris dando seu famoso chute giratório em Franciscus, ou ao menos algo parecido com o tratamento que o Capitão Nascimento deu no político corrupto em "Tropa de Elite 2"!
No restante do filme, a coisa não é muito melhor: basicamente, entre as diversas reuniões de gabinete e diálogos que parecem não ter fim, vemos Chuck Norris viajando de um lado para o outro tentando proteger seus ex-parceiros dos Tigres Negros, mas sempre sem conseguir, porque os assassinos são muito mais eficientes do que ele.
O engraçado é que tanto Booker quanto os assassinos sempre chegam nos alvos mais ou menos na mesma hora, e assim os caras geralmente são mortos segundos depois de o herói cumprimentá-los e alertá-los sobre o perigo!
Post deve ter dirigido o filme no piloto automático, ainda mais considerando que um dos melhores filmes do Dirty Harry, "Magnum 44", foi feito por ele (acho até melhor que o original "Perseguidor Implacável").
Mesmo a cena da emboscada no Vietnã, repleta de tiros, explosões, mortes e algumas voadoras de Norris, é burocrática e sem brilho - com direito a um momento lamentável em que um sujeito em cima de uma árvore toma um tiro, cai e fica NITIDAMENTE pendurado pela corda que prendia o pé do figurante para ele não se estatelar no chão!
A única cena realmente foda de OS BONS SE VESTEM DE NEGRO é aquela em que Booker enfrenta um assassino no aeroporto, após a explosão de um avião num atentado (por sinal, o efeito de sobreposição da explosão no fotograma é de chorar). O embate termina com o sujeito entrando em seu carro e tentando atropelar o herói... que dá uma voadora, atravessa o pára-brisa do carro com as pernas e mata o sujeito instantaneamente!!!
Na época do VHS, a qualidade da imagem era tão ruim que eu jurava que o próprio Chuck Norris tinha realizado a façanha. Revendo o filme com imagem de DVD, fica mais do que na cara que é um dublê. Segundo algumas fontes, trata-se do próprio irmão do astro, Aaron Norris, que depois iria dirigi-lo em vários filmes na década de 1980. Seja lá quem for, é uma acrobacia de tirar o chapéu, tão boa que acabou até no pôster.
(Aaron e Chuck dividem o crédito de coreografia das poucas lutas, e o irmão do astro também aparece rapidamente como um dos soldados da equipe dos Tigres Negros.)
Curioso é que se você assistir o trailer do filme (no final da resenha), vai ficar pensando que é pancadaria do começo ao fim. Não se engane: eles simplesmente pegaram as únicas cenas de ação e colocaram em sequência para tentar vender gato por lebre!
O roteiro de Bruce Cohn e Mark Medoff (nenhum deles têm grandes créditos no gênero) até tem algumas boas ideias, mas infelizmente não sabe aproveitá-las. Peguemos, por exemplo, as ocupações do personagem de Norris pós-Vietnã. Por mais difícil que seja difícil engolir Chuck como professor de ciências políticas numa faculdade (hahaha), isso é apenas uma desculpa para uma ceninha de três minutos em que seu personagem questiona a validade da Guerra do Vietnã.
Agora, por que diabos os roteiristas inventaram que Booker também é piloto de testes de carros de corrida, com direito a uma longa cena do herói "correndo" num autódromo (na verdade apenas a imagem foi acelerada na edição)? Se fosse uma desculpa para ele mostrar seu talento em alguma fantástica perseguição automobilística mais tarde, vá lá; mas não, o hobby do herói nunca se justifica, e esta cena no autódromo fica assim, solta, perdida, só para mostrar que Booker é tão fodão que, além de ex-milico e professor pacifista, também é piloto de carros de corrida!
E para uma história que é uma corrida contra o tempo (o herói correndo para tentar salvar seus parceiros de Vietnã da "queima de arquivo"), é incrível como os roteiristas não conseguem criar situações de tensão ou suspense. Pelo contrário, parece que Chuck Norris está sempre passeando, ao invés de aflito para chegar aos amigos antes que os assassinos enviados por Morgan.
Aí alguém poderá dizer que os filmes de ação dos anos 70 eram assim mesmo, mais lentos, menos barulhentos e fantasiosos. Nem vou entrar nesse mérito, mas é inquestionável o contraste na qualidade de, por exemplo, "Magnum 44", realizado pelo mesmo diretor Post cinco anos antes, e este filme aqui.
Apesar disso, OS BONS SE VESTEM DE NEGRO foi um sucesso nos cinemas, dando moral a Chuck Norris para continuar investindo em aventuras do gênero. Segundo o IMDB, o orçamento ficou na faixa de US$ 1 milhão (mixaria para os padrões atuais), e a bilheteria chegou a mais de 18 milhões de dólares.
Claro que ajuda o fato de esta ser uma produção bem mais decente do que a aventura anterior do astro, com um diretor de verdade no comando (embora Post não esteja em seus melhores dias) e um elenco repleto de caras conhecidas e atores de calibre, como Franciscus, Anne Archer e Dana Andrews.
Também é interessante ressaltar a presença de Soon-Tek Oh interpretando um dos bonzinhos - no caso, um dos Tigres Negros comandados por Booker. Ironicamente, ele e Norris voltariam ao Vietnã alguns anos depois como inimigos: Soon-Tek foi o vilão de "Braddock 2 - O Início da Missão".
Ainda que seja mais trama de espionagem do que filme de ação, OS BONS SE VESTEM DE NEGRO tem pelo menos um mérito além da produção caprichada e da voadora no pára-brisa: é esse fantástico título, que no original é ainda mais foda ("Caras Bonzinhos Vestem Preto"), numa inversão de um daqueles clichês clássicos de que o herói dos filmes sempre usavam roupas brancas enquanto os vilões vestiam trajes pretos.
Inclusive eu sugeriria uma refilmagem contemporânea com o roteiro recauchutado, cortes no bla-bla-bla e uma conclusão mais explosiva. Estrelada, quem sabe, por Jason Statham, que parece ser o Chuck Norris do século 21.
Mas sem câmera tremendo e edição de videoclipe, fazer favor.
Trailer de OS BONS SE VESTEM DE NEGRO
******************************************************* Good Guys Wear Black (1978, EUA) Direção: Ted Post Elenco: Chuck Norris, Anne Archer, James Franciscus, Lloyd Haynes, Dana Andrews, Lawrence P. Casey, Soon-Tek Oh e Aaron Norris.
Vários astros de Hollywood começaram sua carreira toscamente, de George Clooney em "O Retorno dos Tomates Assassinos" e Matthew McConaughey em "O Massacre da Serra Elétrica 4" a Angelina Jolie em "Cyborg 2" e Demi Moore em "Parasite 3-D". Mas poucos tiveram um início de filmografia tão porco quanto nosso querido Sylvester Stallone. Afinal, antes de ser John Rambo, Rocky Balboa, Falcão e Marion Cobretti, nosso querido Stallone estrelou duas verdadeiras bombas atômicas, daquelas de destruir o currículo de qualquer um.
Felizmente para Stallone, pouquíssima gente viu o pornô softcore O GARANHÃO ITALIANO e o drama/thriller REBELDE, ambos de 1970, na época dos seus lançamentos originais, e assim a imagem do futuro astro não foi arranhada. E, refeito das péssimas experiências, ele pôde escolher melhor os futuros trabalhos, fazendo pontinhas em filmes importantes como "Bananas", de Woody Allen, e "Klute, o Passado Condena", de Allan J. Pakula.
Essas participações sedimentaram o caminho de Stallone rumo ao estrelato, que chegaria seis anos depois de suas duas estréias tortas no mundo do cinema: em 1976, o ator escreveu e estrelou "Rocky, Um Lutador", de John G. Avildsen, e o filme foi indicado para 10 Oscars (incluindo o de Melhor Ator!!!), faturando três (Melhor Filme, Diretor e Montagem).
E como sempre acontece quando um ator é alçado ao topo, algum espertalhão subitamente se lembrou daqueles dois filmes esquecidos e trouxe O GARANHÃO ITALIANO e REBELDE de volta à luz da ribalta, numa estratégia que não chegou a macular a carreira de Stallone, mas apenas comprovou como foi difícil o seu trajeto para o estrelato.
Dentro desse espírito, o FILMES PARA DOIDOS encerra o ano de 2011 com essa fantástica Sessão Dupla "Vergonha Alheia de Stallone", para que você possa passar Natal e Réveillon rindo da cara de nosso amigo de boca torta e olhar de peixe morto!
O GARANHÃO ITALIANO (1970)
OK, como eu já escrevi, vários astros começaram por baixo. Porém poucos começaram TÃO por baixo quanto Stallone, que mostrou o pinto, fez caras e bocas e participou de uma orgia no pornô softcore "The Party at Kitty and Stud's", rodado em Nova York, no final de 1969, por um sujeito chamado Morton Lewis.
À época, o cinema comercial adulto ainda não tinha se rendido à putaria explícita - embora já houvessem filminhos pornôs hardcore em 8mm circulando clandestinamente por aí. Isso quer dizer que "The Party at Kitty and Stud's" não chegava às vias de fato, sem mostrar penetrações (aquilo entrando naquilo) ou closes de sexo oral - era tudo "de mentirinha", com os atores se esfregando e fazendo de conta que trepavam.
Consta que Stallone, então com 24 anos, só topou participar do filme porque estava numa pindaíba de dar dó, não tinha dinheiro para pagar o aluguel do apartamento onde vivia e nem para comer. Ele trabalhava como porteiro de cinema, e, nas últimas semanas antes das filmagens, estava dormindo em jaulas vazias de zoológico e terminais rodoviários para economizar grana!
Numa entrevista à revista Playboy em 1978, o astro confessou que só tinha duas alternativas para conseguir grana naquela época: fazer o filme ou assaltar alguém. Estupidamente, ele optou pela primeira alternativa, e ganhou 200 dólares por dois dias de gravações! O filme inteiro, rodado em 16mm, teria custado apenas 5 mil dólares.
No roteiro do também produtor (e provavelmente parente do diretor) Milton Lewis, o jovem Stallone interpreta Stud, palavra inglesa para "Garanhão". Ele vive com a maluquinha Kitty (Henrietta Holm), e ora transa com ela, ora a espanca com seu cinto.
Certo dia, Stud coloca um aviso num mural convidando pessoas desinibidas para a "Festa na Casa de Kitty e Stud" anunciada no título original. Dois casais (um hetero e outro formado por lésbicas) aparecem no apartamento, e desenrola-se uma grande suruba. The end. Genial, não?
"The Party at Kitty and Stud's" foi exibido em alguns poucos cinemas e logo saiu de cartaz direto para o esquecimento. Isso até Stallone ficar em alta com o sucesso de "Rocky" em 1976. Dois anos depois, em 78, a diretora de filmes adultos Gail Palmer (de "Hot Summer in the City") adquiriu os direitos sobre a obra e fez uma nova montagem, relançando-a nos cinemas na versão até hoje existente, rebatizada O GARANHÃO ITALIANO, numa referência ao apelido de Rocky Balboa em "Rocky".
Como a versão original não existe mais, fica difícil saber se o filme já era sem pé nem cabeça originalmente ou se ficou assim por culpa da reedição de Gail Palmer (que dá mais destaque à figura de Stallone e corta, bem, todo o resto!).
Espertinha, e tentando faturar em cima do novo astro, Gail montou uma nova sequência inicial com cenas de Stallone correndo e brincando na neve (provavelmente outtakes, cenas dos bastidores da filmagem de "The Party at Kitty and Stud's"), e incluiu uma nova trilha sonora que parodia a música de "Rocky".
A primeira transa entre Stud e Kitty também foi dublada pela própria Gail, que, como se fosse a "voz do pensamento" de Henrietta Holm, dispara frases "eróticas" clichezentas como "Stud's body really turns me on".
(Vale destacar que Gail aparece "in persona" no hilário trailer do relançamento de O GARANHÃO ITALIANO. Ela está numa moviola, em pleno processo de remontagem do filme, e enganosamente declara que se trata de uma obra X-Rated, com "fortíssimo conteúdo sexual". O trailer pode ser assistido no final dessa resenha. E reparem como a Gail era uma gracinha!)
Pois do jeito que ficou após a remontagem, O GARANHÃO ITALIANO é simplesmente incompreensível. Stud e Kitty transam, e depois o rapaz aparece conferindo os músculos no espelho enquanto duas garotas nuas "brincam" na cama (!!!). Tudo parece ser apenas fruto da imaginação do protagonista, pois no momento seguinte ele sai do quarto e não tem mais ninguém na cama - ou então é montagem ruim mesmo.
Mais tarde, Stud caminha pelo parque e testemunha uma garota (Janet Banzet, em participação-relâmpago) abrindo o casaco e revelando o corpo completamente nu. Ele volta para o apartamento de Kitty em estado de choque e, num acesso de fúria, dá um murro no vidro da janela, ficando com um corte na mão. Sem cerimônia, Kitty começa a lamber e chupar o sangue que sai do ferimento, em cena digna de um filme do Sady Baby!
(Só para constar: a tal moça exibicionista do parque devia ter papel de mais destaque na edição original, já que ela também aparece no início do filme, novamente sem maiores justificativas!)
Kitty faz um curativo na mão de Stud, e isso deixa Stud excitado. A moça se ajoelha para fazer sexo oral (off-screen) no rapaz, e ele a adverte: "Tenha cuidado. Não vá me morder, como da outra vez". Mas ela morde só de pirraça, e Stud responde enchendo Kitty de safanões e cintadas, numa cena de pancadaria quase interminável.
Finalmente, começa a festa no apartamento de Kitty e Stud. Um casal de lésbicas (uma negra e uma branca) rola pelo chão, observado por Stallone completamente pelado, na única cena em que é possível ver seu pinto "sem censura". Logo, ele e Kitty também se entregam à suruba.
Enquanto isso, no quarto, um outro casal transa enquanto o homem come uma banana (!!!) e comenta sobre uma atriz contratada para filmar uma cena pornográfica com um cavalo. Não tente entender.
À época do relançamento de "The Party at Kitty and Stud's" como O GARANHÃO ITALIANO, devido à publicidade e às fofocas, teve início a lenda urbana de que este filme de estréia de Sylvester Stallone seria um pornô hardcore, com o futuro Rambo passando a vara geral na mulherada.
Na verdade não é bem assim, da mesma forma como nossa querida Xuxa Meneghel nunca fez pornô (o famigerado "Amor Estranho Amor" é apenas um dramalhão com cenas de sexo softcore, e não putaria da pesada, como o povão acredita até hoje).
Não existe uma única cena explícita em O GARANHÃO ITALIANO, e inclusive as cenas de sexo são poucas, curtas e limitam-se aos atores e atrizes simulando rala-e-rola e orgasmo (mas nem mesmo o "money shot" da ejaculação, uma exigência do pornô explícito, aparece).
Na maior parte do tempo, o que vemos são closes nas genitálias das meninas (super-cabeludas, como era moda na época), e intermináveis dancinhas com as atrizes peladas ao invés de fodas. Na cena final, que é um convite à brochada, todo o elenco do filme se reúne na sala da casa para dançar numa rodinha (sem malícia!), pelados e de mãos dadas!!!
Assim, Stallone nunca faz nada realmente hardcore, e inclusive percebe-se claramente que ele não está muito, hã, estimulado em suas duas cenas de sexo, ostentando um pinto que cai de um lado para o outro como maria-mole. Podia até ter mudado seu nome artístico para "Sylvester Stamollone".
Outro detalhe que ajudou a sedimentar a lenda urbana sobre o "pornô de Stallone" é uma versão X-Rated de O GARANHÃO ITALIANO que circulou de forma pirata nos anos 80. Atualmente, só restou uma cópia dublada em alemão dessa versão.
Mas logo cinéfilos descobriram que o negócio não passa de uma picaretagem das brabas: cenas do filme do Stallone foram remontadas com inserts explícitos de um pornozão hardcore, "White Fire" (1976), de Roger Colmont. Dessa forma, parece que Stallone está metendo de verdade, mas os closes dos pintos e pererecas pertencem a outros atores e atrizes!
Os enxertos ficam evidentes quando o lençol sobre a cama passa do liso (nas cenas originais com Stallone) para listrado (nos closes explícitos), como você pode ver nas imagens abaixo. Ah, picaretas descuidados...
A lenda urbana do "pornô de Stallone" foi oficialmente desmentida em 2007, quando a revista norte-americana AVN (Adult Video News) examinou uma das únicas cópias existentes da montagem original de "The Party At Kitty And Stud's", guardada a sete chaves por um colecionador, concluindo que não há um único fotograma de sexo explícito na obra.
Ou seja, Stallone jamais molhou o biscoito pra valer diante da câmera. Pelo menos não enquanto ela estava ligada...
No Brasil, o filme foi lançado na época do VHS pela distribuidora PBV, com uma hilária capinha (reprodução ao lado) que anunciava: "Antes de Rambo... Antes de Rocky...".
Há alguns anos, saiu um DVD piratex com as versões soft e hard (aquela picaretagem alemã com enxertos X-Rated).
Embora seja ruim de doer como cinema, e principalmente como cinema erótico, O GARANHÃO ITALIANO sobrevive graças à curiosidade mórbida de ver um grande astro hollywoodiano pagando um micão tenebroso.
Naquela mesma entrevista à Playboy em 1978, Stallone contou que os realizadores da obra pediram dinheiro para não relançá-la, na época do sucesso de "Rocky", e que ele negou por achar que o filme era tão ruim que não valia nem dois centavos, quanto mais o dinheirão que os chantagistas pediam para sumir com a evidência do seu passado negro.
Uma prova de humildade de Stallone, que, ao contrário da nossa Rainha dos Baixinhos, optou por não proibir nem censurar essa página vergonhosa da sua biografia.
E olha que ele está muito pior que a Xuxa, sem convencer nas cenas de sexo - algo que não evoluiu com a idade, vide sua trepada lamentável com Sharon Stone em "O Especialista"!
Mas há um motivo para dar uma chance a O GARANHÃO ITALIANO - além do motivo óbvio de rir da cara de moleque e do pinto mole do Stallone, claro.
É Henrietta Holm (acima), a parceira de rala-e-rola do astro, uma gracinha de beleza simples e imperfeições hoje inexistentes nas atrizes pornôs, que são todas siliconadas e operadas até ficarem iguais a bonecas infláveis. Segundo o IMDB, este é o seu único filme.
Taí: se Stallone for macho mesmo, ele vai convidar Henrietta Holm para aparecer em "Os Mercenários 3"!
Como curiosidade, John G. Avildsen, que dirigiu Stallone em "Rocky", também começou sua carreira no cinema pornográfico, dirigindo, ele sim, filmes com sexo explícito, como "Cry Uncle", de 1971.
PS: O anúncio de página inteira sobre o relançamento de O GARANHÃO ITALIANO nos cinemas, abaixo, foi uma colaboração do cinéfilo Hugo Malavolta. Repare na enganosa informação de que o filme é "X-Rated". Alô, Procon?
******
REBELDE (1970)
Se tudo indicava que a carreira de Stallone iria ralo abaixo após "The Party At Kitty And Stud's", até que o ator conseguiu emprego rapidinho logo en seguida, e como protagonista deste obscuro drama/thriller sobre hippies preocupados com a participação dos Estados Unidos na famigerada Guerra do Vietnã.
No final dos anos 1960, o conflito no Continente Asiático estava no auge, bem como os protestos da juventude norte-americana pedindo o fim da guerra e do envio de soldados para o Vietnã (o que só aconteceria algum tempo depois, em 1975).
Assim, em 1970, um sujeito sem nenhum crédito anterior chamado Robert Allen Schnitzer resolveu fazer um "filme-denúncia" sobre as manifestações anti-Vietnã, aproveitando a onda de thrillers políticos da época. Ele mesmo escreveu o roteiro do que viria a ser REBELDE, ao lado de Larry Beinhart (anos depois, Beinhart escreveria o livro "American Hero", que deu origem à genial sátira política "Mera Coincidência").
REBELDE se passa em outubro de 1969 e conta a história de um grupo de jovens hippies politicamente engajados. Eles vêm cometendo atos de terrorismo contra o governo, exigindo a retirada das tropas americanas do Vietnã. Um dos "terroristas do bem" é o jovem Jerry Savage (Stallone), que anda pelo filme como um zumbi, usando roupas terríveis e um chapéu que deve ter roubado de algum mendigo.
Embora tenham cometido alguns atentados a bomba, os "rebeldes" são pacifistas, atingindo sempre edifícios do governo quando eles estão vazios, para não machucar ninguém. Por isso, um maligno agente do FBI resolve cortar o mal pela raiz: infiltra no grupo um agente duplo, Tommy (Tony Page), que incentiva os colegas a realizar um ataque mais violento - mera desculpa para que os homens do governo possam cair matando em cima dos jovens.
O alvo é uma aparentemente pacífica empresa de produtos de metal que, por baixo dos panos, fabrica jaulas que servirão como armadilha para aprisionar vietcongues lá do outro lado do mundo. Enquanto Jerry quer apenas divulgar os contratos à imprensa e expor o segredo sujo, o traidor Tommy convence todos a bombardearem o edifício da empresa, e deixa o FBI de sobreaviso sobre a hora e o local do atentado.
Paralelamente, Jerry apaixona-se por uma jovem riponga que vive no meio do mato e vai à cidade de vez em quando para vender suas bijuterias feitas à mão. Ela se chama Laurie (Rebecca Grimes), e não concorda com a maneira violenta como Jerry e seu grupo tentam trazer a paz.
Lendo assim pode até parecer interessante, mas na verdade REBELDE é um exercício de paciência para qualquer espectador. Mal-filmado, mal-atuado e mal-interpretado (principalmente por Stallone pós-pornô softcore), o filme nunca consegue prender a atenção do espectador, e passar dos primeiros 15 minutos já é uma prova de fogo - eu mesmo só aguentei até o final passando para a frente com o FF.
A história, embora aparentemente simples, é narrada de maneira tão caótica que você só começa a entender os personagens e suas motivações perto do final.
Tanto que uma versão recentemente lançada em DVD na gringa ganhou absurdas legendas explicativas sobre "freeze-frames", algo que NÃO fazia parte do filme originalmente, explicando quem são os personagens e suas motivações, e até letreiros no início e no final apresentando o protagonista e contando o que aconteceu com ele após a conclusão!!!
Como já havia acontecido com "The Party At Kitty And Stud's", REBELDE também foi reeditado e relançado anos depois para aproveitar a fama de Stallone com "Rocky".
O filme chegou originalmente aos cinemas com o título "No Place to Hide", e era voltado ao público hippie. Foi um fracasso comercial. No começo dos anos 1980, quando Stallone já era um astro, o diretor Schnitzer resolveu fazer uma nova versão, reintitulada "Rebel" e com um gigantesco "Estrelando Sylvester Stallone" nos créditos iniciais (antes ele aparecia sem destaque junto com os outros atores).
Abaixo você pode ver dois cartazes de cinema distintos do filme: o primeiro, da época do lançamento, não destaca o nome de ninguém, já que Stallone ainda era um completo desconhecido; o segundo já estampa o rosto do astro e seu nome em letras garrafais, maior que o próprio título do filme!!!
Segundo o IMDB, não sobreviveu nenhuma cópia da versão "No Place to Hide" (exibida em alguns lugares com o título alternativo "No Place to RUN"), apenas essa remontagem intitulada "Rebel", que inclui mais cenas com Stallone, mais cenas com os agentes do FBI para acentuar o lado "conspiratório" da trama e menos baboseira "bicho-grilo" do que a versão anterior.
REBELDE foi lançado no Brasil nos primórdios do VHS pela Hipervídeo, que nem se deu ao trabalho de traduzir o título - saiu como "Rebel" mesmo. Mais recentemente, ganhou um relançamento em DVD com o título em português pela NBO.
Esse disco é um daqueles produtos barateiros para venda em balaios de ofertas, e a qualidade da imagem é abaixo da crítica: embora uma legenda sem-vergonha no início (foto acima) informe que a distribuidora buscou a melhor cópia possível, o que temos é um VHS-Rip dos mais grosseiros, em tela cheia, embora existam versões melhores e em widescreen lançadas lá fora. Ou seja, o "produto nacional" não vale nem os 5 ou 10 reais geralmente cobrados por aí.
Veja abaixo uma comparação entre a versão fuleira em tela cheia lançada no Brasil e a versão original encontrada lá fora - perceba que uma personagem INTEIRA é cortada do enquadramento em fullscreen, perdendo o espaço em cena para... um abajur!!!
Por sinal, com a fama de Stallone, REBELDE ganhou capinhas absurdas pelo mundo afora, como essas abaixo, que dão uma ideia completamente equivocada sobre o que é o filme, usando inclusive imagens e fotografias de outros filmes do astro (como "Condenação Brutal" e "Rambo - Programado para Matar"). Fico imaginando a cara de quem locou/comprou alguma dessas fitas pensando que era um novo filme de ação do Stallone...
Se O GARANHÃO ITALIANO hoje funciona menos como filme erótico e mais como comédia, o mesmo aconteceu com REBELDE, que já era ruim e envelheceu mal pra caramba.
Tente segurar o riso, por exemplo, na cena em que a hippie maluquinha Estelle (Vickie Lancaster, em seu único filme) seduz o personagem de Stallone fazendo uma tosquíssima dança-do-ventre, vestindo apenas calcinha e sutiã, e a câmera dá closes constrangedores da pança da menina balançando para cima e para baixo!
Tente segurar o riso, também, na patética cena em que a mesma Estelle conta a Jerry uma história supostamente triste sobre como abortou e guardou o feto morto dentro de uma garrafa durante uma semana (!!!). A reação de Stallone à narração da história, com cara de paisagem como se estivesse escutando uma piada de português pela décima vez, é hilária.
Tente segurar o riso, PRINCIPALMENTE, durante as discussões entre a "bicho-grilo" Laurie e o revoltado Stallone. Ela diz frases filosóficas como "Não podemos forçar o mundo a mudar, apenas amor pode trazer mudanças", ou "Eu rezo pela paz todos os dias", e ele responde com tiradas hilárias como "Você não pode rezar pela paz, tem que pagar por ela. Qualquer preço!".
Existe ainda uma ridícula e desnecessária discussão sobre hambúrgueres entre figurantes numa lanchonete (trinta e poucos anos antes de Tarantino colocar o mesmo tema em discussão em "Pulp Fiction"), e um personagem do tipo "negrão revoltado" que é tão clichê que chega a ser ofensivo - ele passa o filme todo berrando frases como "I don't want no more black blood in no more wall!!!".
REBELDE parece tanto uma comédia que, em 1990, uns sujeitos sem-noção resolveram transformá-lo em uma: pegaram os negativos do filme, redublaram tudo, filmaram umas cenas adicionais e relançaram com o título "A Man Called... Rainbo" (no Brasil, saiu em VHS apenas como "Rainbo"), uma hilária sátira a "Rambo" realizada por David Casci.
Surpreendentemente, essa versão cômica acabou fazendo mais sucesso que a montagem original. Chegou a ganhar prêmios de melhor filme e melhor comédia em festivais de cinema, e, diz a lenda, o próprio Stallone abençoou e aprovou a tiração de sarro.
(O curioso é que não há nenhuma explicação sobre o fato de "Rainbo" ser uma remontagem satírica de REBELDE no filme ou na capinha do VHS nacional. Quando eu vi esse negócio, ainda moleque, fiquei pensando em como Stallone foi corajoso para estrelar uma comédia tão tosca, até descobrir que era apenas um trabalho antigo reeditado e redublado!)
E se rir da cara de cabaço de Stallone é o principal motivo para suportar REBELDE hoje, também há certo interesse pelo fator documental da coisa, já que o diretor Schnitzer usou impressionantes cenas reais da Guerra do Vietnã e de protestos anti-conflito, além de notícias no rádio sobre o Festival de Woodstock e um discurso de Martin Luther King.
Assim, a obra tornou-se mais um retrato fiel daquela época turbulenta (já que foi filmado EXATAMENTE na época!) do que um filme decente ou interessante. O "pornô" do Stallone ainda é bem mais divertido.
PS: Esta é a última postagem do FILMES PARA DOIDOS em 2011. Portanto, embora eu não seja muito fã das festas de final de ano, deixo registrados os meus sinceros desejos de Feliz Natal e Próspero 2012 para todos os leitores do blog! Espero reencontrá-los por aqui no ano que vem, sempre ansioso por seus comentários, sugestões e críticas. Até lá!!!
Trailer de O GARANHÃO ITALIANO
Trailer de REBELDE (sem som)
******************************************************* The Party at Kitty and Stud's / Italian Stallion (1970, EUA) Direção: Morton Lewis Elenco: Sylvester Stallone, Henrietta Holm, Jodi Van Prang, Nicholas Warren, Frank Micelli, Barbara Strom e Janet Banzet.
No Place to Hide / Rebel (1970, EUA) Direção: Robert Allen Schnitzer Elenco: Stallone, Tony Page, Rebecca Grimes, Vickie Lancaster, Dennis Tate, Barbara Lee Govan, Roy White e Henry G. Sanders.