WebsiteVoice

Mostrando postagens com marcador George Kennedy. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador George Kennedy. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

AEROPORTO 75 (1974)


Se 1970 foi o ano em que "Aeroporto" provou que era possível lucrar com a desgraça alheia, 1974 foi o grande ano do cinema-catástrofe: num curtíssimo espaço de tempo, estrearam "Inferno em Alto Mar", de Richard Lester (setembro/74), a primeira continuação de "Aeroporto", chamada AEROPORTO 75 (outubro/74, mas usando o ano de 1975 no título para não ficar datado quando lançado em outros países), "Terremoto", de Mark Robson (novembro/74), e "Inferno na Torre", de John Guillermin (dezembro/74).

Todos esses filmes levaram ao pé da letra a fórmula aprendida com "Aeroporto" alguns anos antes, de que astros famosos + grande tragédia + melodrama = sucesso de bilheteria. E coitadas das celebridades que se metiam nessas tranqueiras, gente graúda omo Walter Matthau, Ava Gardner, Steve McQueen, Fred Astaire, Paul Newman, William Holden, Richard Chamberlain, Richard Harris, Omar Sharif, David Hemmings, Anthony Hopkins, Ian Holm, etc etc etc.


No caso de AEROPORTO 75, o mais interessante é que ele não foi originalmente concebido como uma continuação. Pelo contrário: o roteirista Don Ingalls, que costumava trabalhar com seriados, tinha ideias mais humildes e apresentou seu roteiro para a divisão televisiva da Universal, como proposta para um simples filme produzido para a TV.

Só que o produtor Jennings Lang leu, gostou, e deve ter se lembrado que o "Aeroporto" original foi a maior bilheteria da Universal até então. Com cifrões nos olhos, ele deu sinal verde para transformar o outrora humilde roteiro de Ingalls em algo muito maior, rebatizando-o como continuação de "Aeroporto".

No auge da cara-de-pau, colocaram até um crédito hilário no início que diz "Inspirado no filme 'Aeroporto', que foi inspirado no livro de Arthur Hailey", associando assim uma continuação sem relação com o autor do best-seller que deu origem ao primeiro filme! (Esta mesma frase seria usada também nos filmes seguintes.)


Nenhum dos realizadores do original voltou para essa sequência - nem o produtor Ross Hunter, nem o diretor George Seaton. E o único astro do primeiro filme que reaparece é George Kennedy, repetindo o papel de Joe Patroni, embora completamente descaracterizado (conforme veremos em seguida).

Já a direção ficou a cargo de Jack Smight, que muitos cinéfilos devem lembrar como o responsável por "Harper, O Caçador de Aventuras" (1966) e "Herança Nuclear" (1977). No papel principal, sai Burt Lancaster e entra Charlton Heston, que poderia ganhar o título de "Muso do Cinema-Catástrofe" por ter sido o único astro a estrelar nada menos de cinco produções do gênero: esta, "Voo 502 em Perigo" (1972), "Terremoto" (1974), "Pânico na Multidão" (1976) e "S.O.S. Submarino Nuclear" (1978). Pelo visto, o velho Moisés gostava de uma boa tragédia...


Heston interpreta o piloto Alan Murdock, e já havia aparecido como piloto às voltas com tragédias aéreas em seu filme-catástrofe anterior, "Voo 502 em Perigo". Murdock namora a aeromoça Nancy Pryor (a finada Karen Black, comprovando aqui que tinha uma das vozes mais irritantes da história do cinema), mas foge de compromisso como o diabo da cruz. É claro que uma pequena tragédia servirá para colocar o casal nos trilhos no final.

Os caminhos dos pombinhos se separam no Aeroporto Washington Dulles International: o piloto vai para um lado, e Nancy embarca no Voo 409 da Columbia Airlines, um Boeing 747 lotado com destino a Los Angeles. A tripulação é formada pelo Capitão Stacy (Efrem Zimbalist Jr.), seu co-piloto Urias (Roy Thinnes) e pelo navegador latino Julio (Erik Estrada!).


Como este é um filme-catástrofe, e exige a inclusão de inúmeros personagens com seus próprios dramas pessoais, o avião está repleto de alguns dos mais excêntricos passageiros já vistos num filme "sério": tem três bebuns que já embarcam mamados e ainda passam o tempo inteiro atrás de goró; duas freiras, uma delas cantora; uma velhota alcoólatra; um ator que só está no voo para assistir o filme de bordo, em que ele fez uma pequena participação (o filme em questão é "American Graffiti", de George Lucas); uma veterana estrela de cinema e sua assistente, e até uma menina doente que está viajando para Los Angeles para fazer um transplante de rim, e tem as horas contadas para chegar à mesa de operação! Está bom de dramalhão ou quer mais?

Então tome mais: longe dali, um vendedor que tem uma reunião de negócios urgente freta um jatinho e encara um voo solitário com clima desfavorável. A cobiça será sua sentença de morte, pois ele sofre um ataque cardíaco durante o voo e acaba arrebentando seu jatinho no cockpit do Voo 409, abrindo um rombo na aeronave que fere gravemente o piloto e mata seus auxiliares!


E como o Capitão Stacy teve os olhos machucados na colisão e não pode pilotar às cegas, sobra para a pobre aeromoça Nancy a responsabilidade de comandar a aeronave avariada e fazer um pouso de emergência. Ah, não esqueça da pobre menina lá atrás, que tem as horas contadas para o seu transplante de rim!

No início, a corajosa aeromoça recebe instruções via rádio do seu namorado Murdock e do veterano da série "Aeroporto" Patroni. Mas a dupla logo chega à conclusão de que Nancy jamais conseguirá pousar sozinha, e resolvem pôr em prática um plano ousado: transferir um piloto "de verdade" para dentro do avião em voo, pelo rombo aberto no cockpit, usando um helicóptero!!!


AEROPORTO 75 pode até ser uma bomba como cinema (e é!), mas não tem importância: o resultado é divertidaço como entretenimento. Inclusive acho o filme muito melhor, menos sério e menos enrolado do que o original. Com meia hora a menos que "Aeroporto", a trama vai direto ao assunto (em menos de 20 minutos o avião já está no ar), e trabalha melhor os elementos de tensão e suspense. Até a tragédia da vez é bem mais interessante do que aquela enfocada no primeiro filme.

Outra diferença da "continuação" para o original é o fato de este dar mais destaque à tripulação da aeronave e aos passageiros em perigo do que à equipe em terra, ao contrário do que acontecia no filme de 1970. Na verdade, o espetáculo é todo comandado por Karen Black e pelos excêntricos passageiros que ela precisa salvar da morte quase certa; o "herói" Heston e seu sidekick George Kennedy aparecem berrando algumas ordens via rádio e só têm participação mais ativa no final - quando, claro, o piloto machão vai voluntariar-se para tentar retomar o controle do avião onde está sua namorada!


A situação evolui para uma façanha complexa: um piloto é transferido de um helicóptero para dentro do avião, pelo rombo na fuselagem, através de um cabo de aço, e com ambas as aeronaves em pleno voo!

É o tipo de cena que, mesmo com algumas trucagens visíveis (dublê substituído por boneco, filmagem em estúdio com tela projetada no fundo), deixa o espectador na ponta da cadeira, e certamente hoje seria feita de maneira pouco convincente através de computação gráfica.


O curioso é que AEROPORTO 75 foi produzido com muito menos grana que o original (US$ 4 milhões contra os 10 milhões do primeiro filme), e mesmo assim parece muito melhor produzido!

Mas as filmagens foram complicadas porque a Universal estava gravando outro filme-catástrofe (o bem mais caro "Terremoto") ao mesmo tempo, e as duas produções dividiam atores principais (Charlton Heston e George Kennedy), o mesmo diretor de fotografia (Philip H. Lathrop) e o mesmo produtor (Jennings Lang). Não foi fácil acertar os cronogramas dos "desastres", mas este aqui ficou pronto e foi lançado antes.


No fim, AEROPORTO 75 vale menos pela história e mais pelas bobagens, pelo fator trash e pelas insólitas celebridades reunidas. Uma delas é a veterana dos tempos do cinema mudo Gloria Swanson, que estreou no cinema em 1915 (!!!), e aqui parece ter a mesma função que a também veterana Helen Hayes teve em "Aeroporto"; ou seja, a de homenagear as pioneiras da sétima arte (embora dessa vez sem direito a Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante, como aconteceu no filme anterior).

O curioso é que Gloria Swanson interpreta... Gloria Swanson?!? Exato! Num curiosíssimo toque de metalinguagem, o roteiro coloca a veterana atriz como ela mesma! No filme, Gloria chega a citar celebridades de verdade com quem trabalhou, tipo o diretor Cecil B. de Mille, a atriz Carole Lombard e a cantora de ópera Grace Moore - sendo que essas duas últimas coincidentemente morreram em acidentes de avião em 1942 e 1947, e talvez até por isso tenham sido citadas.


Na época das filmagens, Gloria estava com 75 anos de idade e já não trabalhava no cinema desde 1956. O papel de velha estrela tinha sido originalmente oferecido a Greta Garbo (que, por sua vez, estava aposentada desde os anos 40), mas Greta recusou e Gloria resolveu assumir a vaga, já que não tinha nada melhor para fazer mesmo (ok, essa foi maldosa...).

Em entrevistas da época, a veterana declarou o seguinte: "Eu estava esperando que me convidassem para um filme que pudesse levar meus netos para ver, que fosse emocionante e contemporâneo, sem apelar para violência sem sentido". Hã... Dona Gloria, acho que a senhora não foi muito feliz na escolha, viu? Mas AEROPORTO 75 acabou sendo o último filme da atriz, que morreu em 1983 sem voltar a pisar num set de filmagem.


Outra veterana, que aparece interpretando a coroa bebum, é Myrna Loy. Ela também começou sua carreira nos tempos do cinema mudo, em 1925, e estava com 69 anos ao interpretar uma das passageiras de AEROPORTO 75. Depois, Myrna ainda fez mais alguns filmes (incluindo a tralha "Formigas Assassinas") antes de morrer em 1993, aos 88 anos.

Entre as presenças ilustres também está a "atriz-mirim" Linda Blair, então com 15 anos, no papel da garota doente que precisa receber um novo rim o mais rápido possível. Ela tinha recém-saído do set de "O Exorcista", e é impossível não lembrar disso quando vemos sua personagem deitada o tempo inteiro e sendo paparicada por uma das freiras a bordo - ironicamente, no seu filme anterior a personagem de Linda não tinha lá muita simpatia pelos representantes da Igreja!


Vale ressaltar que a tal freira, que fica tocando violão e cantando para a pobre Linda Blair, é interpretada pela cantora australiana Helen Reddy, aqui fazendo sua estreia no cinema. Hoje o nome talvez não seja tão conhecido, mas, na época das filmagens, Helen era conhecida como a "Rainha do Pop dos Anos 70", e inclusive havia acabado de ganhar um Grammy pelo seu hit "I Am Woman", em 1973.

Surpreendentemente, a cantora-atriz foi indicada ao Globo de Ouro de "Melhor Revelação" por sua atuação como freira em AEROPORTO 75, mas depois não fez mais nada digno de nota além de "Meu Amigo, O Dragão", em 1977. Bela revelação...


AEROPORTO 75 ainda permitiu um breve reencontro de Charlton Heston com duas atrizes com quem trabalhou anteriormente. Uma delas é Martha Scott (no papel da outra freira), com quem contracenou em "Os Dez Mandamentos" e "Ben Hur"; a outra é Linda Harrison, a gatinha que interpretou sua "namorada" Nova em "O Planeta dos Macacos" e "De Volta ao Planeta dos Macacos". Linda aparece no papel de Winnie, a assistente de Gloria Swanson, e infelizmente está vestida demais, aposentando os trajes sumários que usava lá no Planeta dos Macacos.

Por último, mas não menos importante, vale registrar as presenças dos comediantes Sid Caesar, como o ator que quer se ver no filme de bordo, e Jerry Stiller, como um dos passageiros bêbados.


Também tem algo de muito curioso em AEROPORTO 75: a trama lembra bastante um outro filme sobre tragédias aéreas que eu citei na minha resenha anterior, "Céu de Agonia", de 1960. Neste filme, é um jato militar que entra em rota de colisão com um avião comercial, mas o argumento é bem parecido.

Não sei se foi uma citação intencional ou a mais bizarra das coincidências, mas veja só que maluquice: em "Céu de Agonia", Dana Andrews interpretava o piloto do avião comercial e Efrem Zimbalist Jr. o responsável pelo jato que provocava a tragédia. Pois aqui, em AEROPORTO 75, os mesmos atores aparecem em papéis trocados: Zimbalist Jr. agora é o piloto do avião comercial ameaçado pelo jatinho pilotado por Andrews (abaixo)!


Como eu expliquei lá em cima, o roteiro de David Ingalls não foi originalmente escrito como uma continuação direta de "Aeroporto". Quando o produtor Lang teve a ideia de transformá-lo numa sequência, Ingalls foi obrigado a criar uma mínima relação que fosse com o filme de 1970. É aí que deve ter entrado o personagem de George Kennedy.

O problema é que Ingalls não respeitou as características que esse personagem (Joe Patroni) tinha em "Aeroporto", e simplesmente trocou o nome de algum outro personagem secundário do seu roteiro original. Duvida? Pois se em "Aeroporto" Patroni era o melhor mecânico da TWA, aqui ele foi misteriosamente promovido a vice-presidente de operações da Columbia Air Lines, e agora vive em Washington, não em Chicago!


Tudo bem, vai que o sujeito tenha sido promovido depois de sua façanha de desatolar o Boeing da neve no final do primeiro filme, não é mesmo? Só que aí o roteiro cria outra complicação: em "Aeroporto", Patroni era casado com uma mulher chamada Marie (interpretada por Jodean Lawrence), e dizia ter cinco filhos; aqui, ele aparece com uma nova esposa chamada Helen (interpretada por Susan Clark) e anuncia ter um único filho, Joe Jr., de 12 anos! Por sinal, esposa e filho estão no voo fatídico, dando a Patroni uma razão pessoal para impedir a tragédia desta vez.

O engraçado é que, em fóruns da internet, alguns fãs da série tentam justificar essa presepada do roteirista alegando que Patroni na verdade levava uma vida dupla, com duas esposas e dois empregos em cidades diferentes! Aham...


Enquanto "Aeroporto" foi uma das maiores bilheterias de todos os tempos, ganhou boas críticas e enganou até os membros da Academia, sendo indicado a 10 Oscars, AEROPORTO 75 já foi recebido com mais ceticismo, sem indicações ao Oscar e com críticas demolidoras.

Mesmo assim, repetiu o sucesso de bilheteria (47 milhões de dólares só nos cinemas norte-americanos), conquistando a sexta posição entre os filmes mais vistos nos EUA naquele ano, logo abaixo de "O Poderoso Chefão Parte 2" e sete posições acima de... "Chinatown", do Polanski!!!


Mas o auge do "sucesso" foi sua inclusão no clássico livro "The Fifty Worst Films of All Time" (Os 50 Piores Filmes de Todos os Tempos), de Harry Medved e Randy Dreyfuss. Graças à bem-humorada análise da dupla nesse volume, AEROPORTO 75 ganhou certa aura de filme de culto, inclusive sendo redescoberto por uma nova geração de fãs que hoje o apreciam justamente pelos seus exageros, absurdos e - por que não? - pela sua divertida ruindade.

Eu sou um desses fãs, e repito que acho esse segundo filme muito melhor e menos pomposo que o original de 1970. Tem mais ação, mais tragédia, mais suspense, mais celebridades interpretando personagens cretinos e absurdos, e não fica enrolando tanto com os encontros e desencontros dessa gente como o episódio anterior. Também tem uma direção de arte doidona, repleta de roxo e rosa-choque (imagens abaixo), como se o responsável por este departamento tivesse trabalhado sob efeito de LSD.


Principalmente, o filme parece não se levar tão a sério quanto seu antecessor: os passageiros são tão exóticos, e as situações são tão hilárias, que AEROPORTO 75 poderia muito bem ser o resultado de alguém filmando a sério o roteiro da comédia "Apertem os Cintos... O Piloto Sumiu!", do Trio ZAZ.

Fica até difícil de dissociar um filme do outro, considerando que algumas piadas hilárias de "Apertem os Cintos..." foram tiradas daqui mesmo: a clássica comédia também tem uma menina doente a bordo, que viaja para fazer um transplante de coração, e que é animada por uma aeromoça que toca violão; além disso, "Apertem os Cintos..." repete a situação da aeromoça que precisa manter o avião no piloto automático quando o voo perde sua tripulação, com a diferença de que na comédia aparece um engraçadíssimo "piloto automático inflável" para comandar o avião!


Já as cenas de ação e tensão de AEROPORTO 75 são tão boas que depois foram vendidas e reeditadas em diversas outras produções, incluindo um episódio do velho seriado do Incrível Hulk, em 1978, e até um filme recente, "Impacto", de 2000 - que usou as cenas antigas do piloto sendo transportado do helicóptero para dentro do avião em uma história nova rodada a preço de banana e estrelada por James Russo e Ice-T!

Mais do que um "filme-catástrofe", AEROPORTO 75 pode ser considerado um ótimo veículo de propaganda para a tecnologia dos aviões e para o profissionalismo das tripulações dos voos comerciais norte-americanos. Pouca gente morre no desastre, e a aeronave é tão boa que pode ser tranquilamente pilotada por uma aeromoça recebendo ordens via rádio.


Fico me perguntando por que diabos os pilotos passam anos fazendo cursos e simulações de voo se, na hora H, a presença deles no cockpit não faz nenhuma diferença, e qualquer pessoa sem preparo pode controlar um avião com relativa facilidade - ou pelo menos essa é a mensagem passada por filmes como esse e, mais tarde, "Turbulência".

Claro que essas imbecilidades todas apenas tornam a coisa toda mais engraçada. E convenhamos que não tem como levar a sério um suposto dramalhão repleto de diálogos hilários, tipo aquele que se refere à menina que vai receber transplante: "Coitadinha! Ela está em Washington e o seu rim está em Los Angeles".

Com essa, encerro minha análise dessa comédia brilhante que é AEROPORTO 75. E se você quiser levar o filme a sério, azar o seu!


Trailer de AEROPORTO 75



*******************************************************
Airport 1975 (1974, EUA)
Direção: Jack Smight
Elenco: Charlton Heston, Karen Black, George Kennedy,
Efrem Zimbalist Jr., Gloria Swanson, Dana Andrews,
Myrna Loy, Sid Caesar, Helen Reddy e Linda Blair.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

AEROPORTO (1970)


Muita gente acha que é um modismo dos filmes atuais destruir o mundo com terremotos, maremotos, quedas de meteoros e outras tragédias naturais (ou nem tanto). Mas o chamado "cinema-catástrofe" na verdade é tão velho quanto o próprio cinema: algumas semanas depois do terrível naufrágio do Titanic, no longínquo ano de 1912, produtores alemães já lançavam a primeira versão cinematográfica da tragédia, "In Nacht und Eis" - ou seja, 85 anos antes de James Cameron filmar aquela sua superestimada versão do mesmo naufrágio, em 1997.

Já o norte-americano "Deluge", de 1933, mostrava Nova York sendo destruída por um maremoto 71 anos antes de Roland Emmerich fazer o mesmo em "O Dia Depois de Amanhã" (2004), com direito a cena muito parecida da Estátua da Liberdade desaparecendo em meio às ondas gigantescas! E isso só para citar dois exemplos mais conhecidos, tem muita coisa por aí para ser redescoberta.


Mas foi mesmo na década de 70 que o "cinema-catástrofe" atingiu o auge da popularidade (e lucratividade). E a maioria dos pesquisadores/historiadores do assunto concorda que isso aconteceu por causa de AEROPORTO, uma superprodução da Universal Pictures que chegou aos cinemas em 1970, e teve o então astronômico orçamento de 10 milhões de dólares.

Não seria exagero dizer que, na época em que foi feito, AEROPORTO era uma blockbuster tão caro e megalomaníaco quanto o "Titanic" de James Cameron. E, assim como este, também foi um sucesso estrondoso no mundo inteiro, faturando mais de 100 milhões de dólares só nos cinemas norte-americanos - ou, em valores atualizados,  558 milhões de dólares, tornando-o o 42º filme mais rentável de todos os tempos!


O sucesso de bilheteria comprovou que a equação "astros famosos + grande tragédia + melodrama" podia ser bem rentável. E não demorou para os grandes estúdios começarem a investir em todo tipo de superprodução nessa linha: "O Destino do Poseidon", "Inferno na Torre", "Terremoto", "O Dirigível Hindenburg", "O Enxame", e por aí vai.

O próprio AEROPORTO virou uma franquia, com três continuações que não eram exatamente continuações, mas sim recriações do mesmo "suspense aéreo" do original. Ao invés de "Parte 2" ou "Parte 3" no título, as sequências passaram a ser batizadas com o ano em que foram realizadas (!!!): "Aeroporto 75", "Aeroporto 77" e, finalmente, "Aeroporto 80 - O Concorde". Ou seja, uma década inteira explorando o eterno medo de voar, já que os quatro filmes foram produzidos entre 1970 e 79.


O mais curioso é que AEROPORTO nem foi o primeiro filme sobre aviões em perigo, embora seja lembrado assim até hoje. Nos anos 50, quando o transporte aéreo de passageiros ainda era coisa de luxo e as aeronaves bem menores, várias produções exploraram o potencial "desastroso" do meio de transporte: "No Highway in the Sky / Na Estrada do Céu" (1951), de Henry Koster, trazia James Stewart como um engenheiro da aeronáutica preocupado com uma possível tragédia durante os testes de um novo avião de transporte; "The High and the Mighty / Um Fio de Esperança" (1954), de William A. Wellman, trazia John Wayne como o co-piloto que precisa assumir o comando de um avião de passageiros com problemas mecânicos; "Zero Hour! / Entre a Vida e a Morte" (1957), de Hall Bartlett, mostrava um avião abandonado à própria sorte quando a tripulação é envenenada pela comida de bordo (o mesmo argumento seria usado anos depois na comédia "Apertem os Cintos... O Piloto Sumiu!"), e "Crash Landing" (1958), de Fred F. Sears, enfocava o drama de passageiros de um velho DC-7 na iminência de um pouso de emergência em pleno oceano.


Já dez anos antes de AEROPORTO, em 1960, estreou "The Crowded Sky / Céu de Agonia", de Joseph Pevney, cuja linha narrativa é muito parecida com a deste blockbuster da Universal: um jato militar entra em rota de colisão com um avião comercial e, com a tragédia iminente, acompanhamos os dramas pessoais da tripulação e dos passageiros. Mas nenhum desses filmes anteriores chegou perto do sucesso do seu "parente" mais famoso.

Confesso aos nobres leitores do FILMES PARA DOIDOS que morro de medo de voar. A bem da verdade, só apelo para o transporte aéreo em último caso; se não há pressa para chegar ao destino, opto pelo velho e bom ônibus. Já encarei viagens de 18 horas de busão que poderiam ter sido feitas em apenas 1h30min via aérea. Mas, acredite ou não, fiquei mais tranquilo passando quase um dia inteiro na estrada do que menos de duas horas no ar.

E sim, eu sei que a probabilidade de sofrer um acidente na estrada é muito maior do que a de sofrer um acidente aéreo. Porém nada me tira da cabeça que você tem bastante chance de sobreviver a uma colisão automobilística, mas ao mesmo tempo não tem nenhuma chance de escapar caso o avião caia. Portanto, por via das dúvidas, prefiro ficar no chão, em terra firme, sempre que possível.


Por causa desse medo de avião, a série "Aeroporto" deveria ser totalmente horripilante para mim, certo? Errado! Apesar de muitos imaginarem que AEROPORTO e suas sequências são filmes sobre tragédias aéreas, as quatro obras podem ser melhor definidas como melodramas insossos, que mais comprovam a segurança do transporte aéreo do que exploram os seus riscos. Afinal, nos quatro filmes, os passageiros geralmente escapam ilesos aos maiores desastres (menos os vilões, é claro) graças à perícia dos pilotos-heróis, à assessoria das equipes de terra e à tecnologia dos aviões, que podem ser controlados até por... aeromoças?!?

Sem medo de ser injusto, eu diria que nenhum dos quatro filmes da série "Aeroporto" têm algo tão assustador quanto a cena do desastre aéreo no início de "Premonição". Essa sim me dá calafrios toda vez que revejo, e inclusive eu lembro apavorado dessa maldita cena toda vez que sou obrigado a entrar num avião!


Mas a verdade é que qualquer turbulência leve numa viagem aérea verdadeira é muito mais emocionante e assustadora do que tudo que foi mostrado nesta franquia clássica da Era de Ouro dos "Disaster Movies". Mesmo assim, resolvi enfrentar meus próprios medos e "presentear" o leitor do FILMES PARA DOIDOS com esta rápida "Maratona Aeroporto".

Serão cinco atualizações diárias com os quatro filmes da série "Aeroporto" e um quinto filme bastardo, "Concorde", que não faz parte da franquia da Universal e foi produzido na Itália (claro...) para aproveitar o lucrativo filão. Então aperte os cintos e prepare-se para a decolagem com AEROPORTO, o primeiro título da franquia e o suposto responsável pelo início da onda de cinema-catástrofe dos anos 70!


AEROPORTO começou como um best-seller escrito por Arthur Hailey, que foi publicado dois anos antes, em 1968. Foi o segundo trabalho do autor envolvendo desastre aéreo: nos anos 50, Hailey escreveu o roteiro de um telefilme para a emissora canadense CBC chamado "Flight Into Danger" (1956); no ano seguinte, este mesmo roteiro virou o longa "Zero Hour!", que eu citei lá atrás, e em 1958 foi publicado como livro chamado "Flight Into Danger: Runway Zero-Eight".

"Aeroporto", o romance, era um calhamaço de quase 500 páginas sobre os dramas pessoais e profissionais vividos pelos profissionais que trabalham no Lincoln International Airport, um aeroporto fictício de Chicago. A adaptação para o cinema foi feita pelo também diretor George Seaton, e você percebe a dificuldade que foi condensar as 500 páginas em pouco mais de duas horas pela quantidade de personagens e acontecimentos vistos na tela.


Como no livro, o personagem central de AEROPORTO é o diretor de operações do Lincoln International Airport, Mel Bakersfeld (interpretado por Burt Lancaster). Mel precisa lidar com uma cacetada de problemas ao mesmo tempo: uma grande nevasca, a pior em muitos anos, está dificultando as operações no aeroporto; um avião que pousava ficou atolado na neve, obstruindo a principal pista de aterrissagem e exigindo sua retirada imediata; moradores de uma área próxima protestam por causa do barulho das decolagens; uma velhinha golpista (Helen Hayes) está voando sem pagar; sua esposa (Dana Wynter), negligenciada por causa do excesso de trabalho, ameaça pedir divórcio, e sua assistente Tanya (Jean Seberg), por quem ele é secretamente apaixonado, está prestes a pedir transferência para San Francisco.

Quando parece que a coisa não pode piorar, nosso herói recebe uma notícia bombástica, nesse caso literalmente: o voo da fictícia Trans Global Airlines, que acabou de sair do aeroporto com destino a Roma, leva como passageiro um psicótico, Guerrero (Van Heflin), que pretende explodir o avião com uma bomba durante a travessia do Atlântico, eliminando assim os vestígios da sabotagem para que sua esposa ganhe os milhões do seguro de vida que ele fez na véspera da viagem!


No interior do desafortunado voo, a tripulação já tem seus próprios problemas ALÉM da ameaça de bomba. Afinal, uma das regras de ouro do cinema-catástrofe dos anos 70 era colocar o máximo possível de personagens secundários com dramas pessoais a desenvolver, e por isso o co-piloto interpretado por Dean Martin (!!!) está dividido entre a esposa (que é irmã de Mel!!!) e a amante aeromoça grávida (Jacqueline Bisset), a quem ele pediu que faça um aborto, numa época em que o tema ainda era tabu (ou MAIS tabu).

E é claro que, embora os tripulantes tentem resolver o problema da bomba pacificamente, a dita cuja acabará indo pelos ares, abrindo um rombo na fuselagem da aeronave e provocando sua despressurização. A aeromoça amante do co-piloto fica gravemente ferida e a tripulação precisa voltar a Chicago para um pouso de emergência... mas apenas se Mel conseguir liberar a pista obstruída por aquele outro avião atolado! Sentiu o drama?


Confesso que só fui assistir AEROPORTO agora, mais de 40 anos depois do seu lançamento, e fiquei bastante frustrado com o pouco tempo que a história se passa no fatídico voo. Isso porque o foco da trama, como acontecia no livro de Hailey, fica mais no pessoal que trabalha em terra, no aeroporto, principalmente Mel, que precisa lidar de uma única vez e rapidamente com todos os problemas do filme, e ainda garantir o pouso em segurança da aeronave ameaçada.

Bem, justiça seja feita: o nome do filme é AEROPORTO, e não "Avião"! Isso justifica o fato de a trama ficar mais concentrada na equipe de terra do que no ar. Para o leitor ter uma ideia, o avião só decola depois que já passaram-se 50 minutos de filme, e as cenas de "tensão aérea" mal somam meia hora dos 137 minutos de projeção!


Assim, a maior parte da ação transcorre no aeroporto, cujas cenas foram filmadas no Minneapolis-Saint Paul International Airport, em Minnesota. E uma grande qualidade do filme é a forma como ele detalha o trabalho dos pilotos e das equipes de emergência - exemplo: a cena em que uma mensagem cifrada é transmitida pelos alto-falantes do aeroporto para reunir todos os agentes de segurança sem provocar pânico generalizado.

Nos filmes seguintes da série, as histórias dariam muito mais destaque à ameaça no interior do próprio avião, e como ela afeta tripulação e passageiros, situando-se por menos tempo no aeroporto em si. Ao optar pelo contrário disso, AEROPORTO mal pode ser considerado um "filme-catástrofe", já que sequer há uma grande tragédia e praticamente ninguém morre (além do sujeito que detona a bomba e vai para os ares junto com ela).


Eu até diria que o filme que iniciou a Era de Ouro do Cinema-Catástrofe é mais melodrama do que cinema-catástrofe! E considerando que os episódios posteriores vão direto ao assunto, e seus aviões geralmente decolam e se dão mal ainda nos primeiros 20 minutos, AEROPORTO é o título que eu menos gosto da quadrilogia, num daqueles casos raros de "sequências melhores que o original".

Mas não me interprete mal: analisando friamente todos eles são muito ruins, com a diferença de que os três posteriores são mais divertidos, mais puxados para o tom de "aventura absurda", e sem tanta enrolação quanto esse aqui. Em alguns momentos, o filme força tanto a barra no dramalhão que fica a impressão de estarmos assistindo uma novela mexicana, e os dramas pessoais dos personagens nem são tão emocionantes assim.

E se parece que o roteiro já tem situações e personagens demais, saiba que a adaptação deu até uma resumida no livro de Arthur Hailey: um irmão de Mel que trabalha como controlador de tráfego aéreo, e que tinha grande participação na história do livro, felizmente foi limado do filme!


Se AEROPORTO tem seus méritos pela maneira realista como apresenta as operações num aeroporto, por outro lado fica difícil levar a sério uma história que tem uma velhinha larápia cujo hobby é voar de graça e um piloto de avião sério e heróico interpretado pelo lendário "Dino" Martin, geralmente associado a personagens bonachões como Matt Helm, ou a suas parcerias com Jerry Lewis, além de ser popularmente associado ao alcoolismo. Portanto, quem confiaria num avião pilotado por Dean Martin?

Além disso, é completamente impossível levar a sério o personagem do psicótico com a bomba, já que fica claro desde que o sujeito entra no avião que ele vai aprontar alguma - sempre suando, sempre nervoso, com olhos esbugalhados e segurando contra o peito uma maleta de mão contendo a bomba. Quer dizer, o sujeito é tão suspeito que é um verdadeiro milagre que tenha conseguido ENTRAR NO AVIÃO em primeiro lugar, quem dirá ficar incógnito entre os demais passageiros!


E o que dizer do fato de haver três médicos a bordo do avião para cuidar dos feridos (com direito a maletas contendo injeções de adrenalina, como se todo médico viajasse preparado para salvar pessoas da morte), ou do dano bastante limitado provocado pela explosão da bomba a bordo?

Outro problema grave é que AEROPORTO parece querer abraçar o mundo, com muita história para contar e muitas intrigas secundárias que pouco ou nada acrescentam. Se só a situação do avião ameaçado pela bomba já seria suficiente para um filme do gênero, por que perder tanto tempo com a outra aeronave emperrada na pista, com os protestos dos moradores vizinhos e com a esposa do protagonista pedindo o divórcio? Essas situações todas só emperram a trama, fazendo com que a bomba no avião acabe se tornando o menor dos problemas do protagonista.


Para "ganhar tempo" com tantas situações para desenvolver, o diretor Seaton usou e abusou de um recurso que ainda era relativamente novo na época, mas hoje já virou clichê: o chamado "split screen", que consiste em dividir a tela para mostrar ao mesmo tempo personagens que estão em lugares diferentes, durante ligações telefônicas ou transmissões de rádio.

Isso rende alguns momentos visualmente curiosos, como quando Mel liga para casa e fala com a esposa e as filhas, cada uma em seu pequeno "quadrinho" de split screen; ou na já citada cena em que os agentes de segurança do aeroporto são alertados via auto-falante.

Obviamente, um recurso como esse só funciona na versão original do filme, com formato de tela em widescreen. Por isso, quando AEROPORTO foi exibido na TV e a imagem teve que ser adaptada para "tela cheia" (com cortes nas laterais para que tudo coubesse na tela da televisão, sem as famigeradas faixas pretas), muitas dessas cenas em split screen foram "desmanchadas" e transformadas no tradicional "plano e contraplano".


Dos quatro filmes da série oficial, AEROPORTO é o mais "sério" e realista, e talvez por isso mesmo eu ache mais fraco em comparação com o divertidíssimo fator trash das continuações. Além disso, o roteiro não se decide: ora é ultra-moralista (o único a morrer é o psicótico que leva a bomba ao avião, e o piloto interpretado por Dino logo se convence que é melhor assumir o bebê da amante a obrigá-la a fazer aborto), ora é extremamente hipócrita, passando a mensagem de que todos os problemas de um homem podem ser resolvidos caso ele abandone sua esposa e fique com uma garota mais nova (dois dos personagens principais fazem isso e têm direito a um "final feliz" longe das esposas megeras!).

Mesmo assim, AEROPORTO chegou a enganar os críticos na época do seu lançamento, ganhando muitas resenhas favoráveis, e foi indicado (pasmem) a 10 Oscars: Melhor Filme, Roteiro Adaptado, Trilha Sonora, Som, Edição, Figurino, Fotografia, Direção de Arte e Atriz Coadjuvante, com duas indicações (para Maureen Stapleton e Helen Hayes).


Ao contrário da rapa que aquele outro filme-catástrofe, "Titanic", faria em 1997, AEROPORTO faturou apenas uma das estatuetas, a de Melhor Coadjuvante para Helen Hayes, mas Maureen pôde se conformar com um Globo de Ouro pela sua performance (e nem deveria, pois, como a esposa do homem da bomba, sua atuação é exagerada e quase constrangedora).

Já a veterana Helen Hayes (abaixo), que estava com 70 anos na ocasião, interpreta uma espécie de alívio cômico (a velhinha trambiqueira) num filme que pretendia ser sério e tenso. Ela vinha dos tempos do cinema mudo (seu primeiro filme é de 1917!!!), e já tinha ganhado outro Oscar, esse como Melhor Atriz, em 1931, graças à sua atuação em "The Sin of Madelon Claudet". Falecida em 1993 (sendo que fez filmes até 1985!), Helen foi a primeira de diversos veteranos e veteranas que apareceriam nos filmes posteriores da franquia.


Entre as demais caras conhecidas do elenco, além vale destacar ainda as presenças de Barry Nelson (o primeiro ator a interpretar 007, na versão televisiva de "Cassino Royale"), como o piloto do avião ameaçado pela bomba, e de George Kennedy como o mecânico Joe Patroni, o encarregado de "desencalhar" o avião que está obstruindo a pista de pouso do aeroporto.

Por sinal, coube a Kennedy a "honra" de ser o único ator a participar dos quatro filmes oficiais da série, já que Patroni voltou nas continuações, e em uma delas foi até absurdamente promovido de mecânico a piloto (!!!).


Essa receita de unir astros da época e de outrora provou ser uma das razões do sucesso de AEROPORTO, e a partir de então todo filme-catástrofe digno dessa categoria buscaria juntar elencos milionários e cheios de nomes conhecidos, inclusive o pessoal da antiga que já não conseguia mais trabalho e tinha neste subgênero o seu "canto de cisne".

AEROPORTO também lançou uma regra que se repetiria em todas as continuações: os astros que lamentam ter feito parte da bagaça. Aqui, a honra coube ao respeitado Burt Lancaster. Embora sua interpretação seja convincente, o astro declarou o seguinte em entrevista da época: "Não sei porque 'Aeroporto' foi indicado a tantos Oscars. É o maior lixo já produzido!"


No livro "Against Type: The Biography of Burt Lancaster", o escritor Gary Fishgall lembra que o astro vivia tempos difíceis na época das filmagens, pois estava se divorciando da esposa Norma Anderson (com quem era casado desde 1946 e tinha cinco filhos), e ainda participava ativamente dos protestos anti-Guerra do Vietnã.

Entrevistado por Fishgall para o livro, o produtor de AEROPORTO, Ross Hunter, lembrou como foi sua relação com Lancaster: "Ele era muito profissional, mas acho que não tinha o menor interesse no filme, e isso me incomodava, porque eu nunca tinha trabalhado com pessoas que faziam um filme sem gostar dele. Burt foi o único integrante do elenco que nunca disse 'obrigado', não foi à festa no final das filmagens e nunca fez nada para promover o filme. Eu até pensei comigo mesmo: 'Você é um idiota, devia ter contratado outro ator!'".


Ironicamente, o sucesso comercial da produção rendeu tanto a Lancaster quanto ao seu colega de elenco Dean Martin uma fortuna considerável. Acontece que ambos foram espertinhos e colocaram cláusulas em seus contratos assegurando, além do salário habitual, o direito de receber 10% da bilheteria caso o filme fosse um sucesso.

E considerando que AEROPORTO está na lista das 50 produções mais lucrativas da história, ambos faturaram uma bela grana - Dino costumava dizer que ganhou 7 milhões de dólares ALÉM do seu cachê normal. Que barbada, hein?


O grande problema de ver AEROPORTO hoje é que ele foi tão avacalhado no hilário "Apertem os Cintos... O Piloto Sumiu!" (1980), de Jim Abrahams e David e Jerry Zucker, que fica muito difícil levá-lo a sério. Por exemplo: todo o plot do maluco querendo explodir a bomba no avião para que sua família ganhe o dinheiro do seguro virou piada na continuação "Apertem os Cintos... O Piloto Sumiu 2!" (1982), repetindo até diálogos e ângulos de câmera!

Embora não tenha nada de comédia, AEROPORTO acaba se tornando involuntariamente engraçado graças aos muitos diálogos pretensiosos ou sem-noção entre os personagens. Num deles, a velhinha vigarista exalta as qualidades como violinista do seu falecido marido: "Ele era tão bom que tocava a Valsa do Minuto em 58 segundos". Em outro, dois técnicos de aviação discutem sobre um procedimento arriscado: "O livro de instruções diz que isso é impossível", queixa-se o primeiro, e o segundo retruca "Bem, um 707 pode fazer qualquer coisa, menos ler!".


E o que dizer da resposta engraçadinha do piloto em um momento que deveria ser tenso: "Se o avião se partir no meio, eu espero que você tenha oito milhões para pagar por ele!". Essas bobagens ajudam a transformar o filme numa espécie de comédia fanfarrona, e fico imaginando se alguém algum dia levou o filme a sério.

Tecnicamente, pelo menos, o filme faz jus ao seu orçamento milionário: as cenas de nevasca são impressionantes pelo realismo, e isso que a produção teve que apelar para neve artificial quando o clima não ajudou na hora de gravar as externas. Consta que algumas dessas cenas de nevasca foram filmadas por Henry Hathaway, o diretor de "Bravura Indômita", como um favor para o produtor Hunter, e sem ganhar crédito.


Várias cópias de AEROPORTO foram produzidas desde então, a maioria abaixo da crítica e sem repetir o mesmo sucesso. No final da década de 1990, houve até uma tentativa de resgatar o climão da série com a trilogia "Turbulência" (o original é de 1997, e as duas continuações horríveis de 1999 e 2001).

Claro que os efeitos especiais são melhores e permitem criar cenas bem mais tensas do que aquelas produzidas nos anos 70, e o elenco desses novos filmes também mistura atores famosos com outros conhecidos (Ray Liotta, Lauren Holly, Jennifer Beals, Tom Berenger, Gabrielle Anwar, Rutger Hauer, Joe Mantegna e Craig Sheffer foram alguns dos que pagaram mico nessa trilogia). Mas não deu muito certo, e sequer chegou perto do estrondoso sucesso de bilheteria de AEROPORTO e suas continuações.


Por fim, numa daquelas ironias estilo "A vida imita a arte", o mesmo avião que nas telas resistiu a uma explosão e a uma aterrissagem difícil foi personagem principal de um grande desastre aéreo da vida real... e aqui no Brasil! Acontece que a mesma aeronave usada em AEROPORTO (um Boeing 707 de prefixo PT-TCS, pertencente à empresa Flying Tiger Line) tinha sido adquirida pela extinta Transbrasil para o transporte de cargas na rota São Paulo-Manaus.

Em 21 de março de 1989, o então rebatizado Voo Transbrasil 801 caiu durante o pouso no  Aeroporto de Guarulhos, atingindo a favela do Jardim Ipanema, a cerca de três quilômetros da pista. A aeronave não levava passageiros, mas estava carregada com 26 toneladas de equipamentos eletrônicos provenientes da Zona Franca de Manaus. O combustível explodiu com a queda, destruindo o famoso avião de AEROPORTO e matando os seus três tripulantes e mais 22 pessoas em terra, além de deixar centenas de feridos.

É nessas horas que faz falta um Burt Lancaster ou Dean Martin para salvar o dia...


Trailer de AEROPORTO



*******************************************************
Airport (1970, EUA)
Direção: George Seaton
Elenco: Burt Lancaster, Dean Martin, Jean Seberg,
Helen Hayes, Jacqueline Bisset, George Kennedy,
Van Heflin, Barry Nelson e Maureen Stapleton.