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quarta-feira, 4 de julho de 2012

GUERREIROS DO FUTURO (1983)


Quem viver, verá: o mundo será destruído, nos próximos anos, por uma gigantesca explosão nuclear, e em 2019 os sobreviventes desta tragédia precisarão se adaptar à vida em um planeta árido e semi-destruído. Neste ano, os edifícios e as cidades se transformaram em escombros e a face da Terra virou um enorme deserto, mas, milagrosamente, todos os automóveis estão em perfeitas condições e, pelo jeito, os postos de gasolina continuam funcionando, já que ninguém nunca fica sem combustível. Neste mundo do futuro, o maior desafio não será a falta de água ou de comida, nem a radiação da atmosfera, mas sim um grupo de mercenários frutinhas, com fetiche por ombreiras enormes e um bizarro ritual de iniciação, que varrem o deserto aniquilando os sobreviventes do holocausto sem motivo.

Assim será o nosso futuro, pelo menos na visão do cineasta italiano Enzo G. Castellari e seu irresistível trash movie "I Nuovi Barbari", lançado duas vezes no Brasil: pela Jota Home Vídeo como GUERREIROS DO FUTURO (adotaremos este nome a partir de agora) e pela Sagres como "2019 - Os Bárbaros do Futuro".


Como fã de podreiras e filmes bagaceiros, toda noite, antes de dormir, eu rezo uma Ave-Maria para o cineasta George Miller, aquele australiano que dirigiu a trilogia "Mad Max". Afinal, Miller não só deu ao mundo do cinema dois filmaços (o terceiro é fraco), mas também originou toda uma série de clones e imitações baratas feitas no mundo inteiro, do Brasil às Filipinas!

E foi na Itália que a estética "pós-nuclear" fez mais sucesso, talvez por serem produções razoavelmente baratas: não era necessário construir cenários, pois bastava usar sets semi-destruídos de outras produções; nem era necessário gastar em figurinos, pois bastava usar roupas rasgadas e sobras de outros filmes.


De uma vez só, entre 1982 e 84, pipocaram diversos filmes de ação apocalípticos na Terra da Bota, como "O Exterminador do Século 3000", "O Guerreiro do Mundo Perdido", "O Executor Final" e este GUERREIROS DO FUTURO, que é, disparado, um dos melhores (ou pelo menos mais engraçados) da safra.

O responsável pela brincadeira, Castellari, acabava de sair de uma pendenga judicial que tirou dos cinemas americanos sua produção anterior, "O Último Tubarão" (1981), acusado de ser "muito parecido" com o "Tubarão" de Spielberg. Aparentemente com um orçamento precário, que transparece o tempo inteiro na tela, o diretor fez de GUERREIROS DO FUTURO uma aventura esquisita, barata e involuntariamente cômica.


Eu nunca consegui entender até que ponto o roteiro (assinado por Castellari, Tito Carpi e Antonio Visone) é sério ou sátira ao subgênero, mas uma coisa é certa: este é um dos filmes mais gays da história. Esqueça "Top Gun", esqueça "A Hora do Pesadelo 2", esqueça Rocky e Apollo correndo e se jogando água na praia em "Rocky 3", pois aqui o nível de baitolagem é da pesada!

GUERREIROS DO FUTURO já começa a mil: nos créditos iniciais, a explosão de uma maquete super-tosca em cartolina representa o suposto fim do mundo. Na minha opinião, porém, o verdadeiro fim do mundo é o tenebroso tema de sintetizador que toca na abertura, composto pelo mestre Claudio Simonetti (sim, o ex-Goblin, em dia de dor de barriga)!


Imediatamente após os créditos, vemos alguns escombros, esqueletos (um deles veste uma bizarra roupa feminina com um espaço transparente para colocar os peitos!!!) e um letreiro informativo: "2019 A.D. - O holocausto nuclear terminou".

Dali, a câmera de Castellari corta imediatamente para uma colônia de sobreviventes do fim do mundo - na verdade, um mero acampamento com carros velhos e tendas -, onde um operador de rádio tenta encontrar sinais em ondas curtas. Os tais sobreviventes, pelas roupas e bigodões, parecem figurantes saídos de algum filme barato sobre a Segunda Guerra Mundial - tem até um velho vestido como coronel nazista!!!


Quando o operador de rádio finalmente detecta um sinal distante, prova irrefutável de que há gente transmitindo de algum lugar ali perto, o tema de sintetizador recomeça e surgem os vilões do filme, os tenebrosos Templários!

Os Templários são malvados, vestem-se de branco dos pés à cabeça, com umas ombreiras enormes tipo jogador de futebol americano, e suas roupas estão sempre limpinhas (apesar de viverem num mundo pós-apocalíptico sem máquina de lavar nem Omo). São revoltadinhos provavelmente por causa de suas roupas abichonadas, de seus cortes de cabelo grotescos e de seus carros fuleiros, porque todo mundo no filme possui carrões envenenados, mas eles dirigem umas latas-velhas que parecem aqueles velhos buggies de praia - e, ao invés de barulho de motor, emitem um som xarope tipo "bzzzzzzzzz".


Dentro da sua "missão sagrada" de exterminar todos os sobreviventes do holocausto, os malvados atacam o acampamento com suas armas que disparam laser e seus carrinhos fuleiros, mas cheios de acessórios à la James Bond. Um deles tem até uma hélice circular, tipo ventilador, que surge na lateral para decepar cabeças de imbecis que tentam fugir correndo - arma que seria completamente inútil se alguma das vítimas tivesse a inteligência de DEITAR no chão para escapar por baixo da maldita hélice!

Você sabe que está vendo um filme de Enzo G. Castellari quando, por piores que sejam os efeitos e figurinos, as cenas de ação - extremamente violentas - acontecem todas em câmera lenta, mostrando em detalhes pessoas caindo fulminadas por tirambaços ou explodidas em pedacinhos sangrentos, além de dublês virando cambalhotas, atirados ao ar por explosões!


O líder dos Templários é um gigante chamado One, interpretado por ninguém menos que George Eastman (nome de batismo: Luigi Montefiori), o assassino canibal de "Antropophagous" e vilão em incontáveis produções italianas do período. One passa o filme todo dando discursos sem pé nem cabeça que, teoricamente, justificam a matança injustificada perpetrada pelo seu grupo. Ao rasgar no meio uma Bíblia encontrada no acampamento dos ex-sobreviventes, por exemplo, ele declara, filosófico: "Livros... Foi isso que começou o Apocalipse"!

O que importa é que pelo menos os próprios Templários seguem fielmente o seu mestre, e parecem entender seus discursos desconexos, já que vibram e gritam "One! One!" em uníssono após cada abobrinha dita pelo seu líder.


One tem um braço direito, um frescão chamado Shadow, que fica uma gracinha com seu cabelo comprido amarrado em cima da cabeça num coque, tipo uma bailarina anabolizada - e é interpretado por Thomas Moore, ou Enio Girolami, irmão do diretor Castellari, pagando mico provavelmente em consideração aos laços familiares.

Ah sim: One também tem um "queridinho" entre seus soldados, Mako (Massimo Vanni), com corte de cabelo moicano e tudo mais. "Você mima ele demais!", queixa-se um ciumento Shadow, mas o líder quer Mako como seu sucessor - ou namorado, tire suas próprias conclusões. E a baitolagem está só começando...


Mas os Templários não perdem por esperar: eis que naquele mundo devastado também existe um valente guerreiro pós-apocalíptico chamado Mad Max... ou melhor, Scorpion! E interpretado por Timothy Brent (nome de batismo: Giancarlo Prete), um dos grandes nomes do cinema de ação oitentista carcamano, que apareceu também em "Tornado" e "Fuga do Bronx".

Scorpion, na verdade, é um projeto de herói: odeia os Templários, mas nunca fica claro se já foi um deles ou se era ex-namorado de One; veste uma justíssima calça de couro marrom com uma proteção ultra-gay sobre o saco, amarrada com o que parece ser um fio-dental que passa pela bunda; usa também um casaco de pele com duas ombreiras extra-large (será uma herança dos seus tempos como Templário?), e dirige um velho Dodge Charger com um crânio prateado na lataria e uma enorme abóboda de vidro (plástico?) no teto, lembrando tanto um disco voador quanto um carro alegórico de alguma escola de samba de quinta categoria!


Ah, vale destacar que o carrão de Scorpion é ainda mais incrementado que os carrinhos dos Templários. Aliás, dá um banho no Batmóvel, no Aston Martini do James Bond e no carro do Stallone Cobra JUNTOS.

Acompanhe: além da abóboda de vidro no teto, do crânio na lataria e de canos prateados que saem misteriosamente das laterais e não têm nenhuma finalidade específica, o carrão tem um painel repleto de botões coloridos, que Scorpion usa para fazer praticamente TUDO. Um botão abre o capô, outro abre as portas, outro faz a porta do lado do motorista voar para longe do carro quando um vilão gruda uma bomba na dita cuja, outro dispara mísseis, e por aí vai.


E como todo carrão tem que ter sonzeira, Scorpion também tem um rádio - que não toca nem fitas nem CDs, mas uns moderníssimos cubinhos de plástico que são a mídia digital do futuro. Isso mesmo, amiguinhos: Castellari previu o pen drive!

Em sua primeira aparição no filme, Scorpion detona meia dúzia de saqueadores que estavam roubando o que sobrou daquele acampamento destruído pelos Templários. Encontra um sobrevivente em estado lamentável (interpretado pelo diretor Castellari, em participação especial), e dá um tiro no homem para poupar-lhe do sofrimento, transformando-o também em ex-sobrevivente.


Depois, o herói dá uma passada em sua "oficina mecânica pós-apocalíptica", um trailer administrado pelo garotinho Giovani Frezza ("A Casa do Cemitério"). Além de mecânico dos bons, eis que o anônimo garoto também é um terror no estilingue, e aparentemente só sobreviveu até então porque mata seus desafetos disparando certeiras estilingadas (o filme nunca se preocupa em mostrar o quê, exatamente, ele dispara, mas os inimigos colocam a mão no pescoço, dão gritos de dor e caem mortos instantaneamente!!!).

Em seguida, quando um pelotão de Templários está perseguindo um comboio de sobreviventes (resumido a um único furgão prateado por limitações orçamentárias), Scorpion tem sua primeira chance de mostrar porque, afinal, é o herói do filme. Ele aparece do nada e salva uma garota que está vestida como assistente de mágico, com biquíni e capa púrpura - o IMDB diz que seu nome é Alma, mas ninguém nunca chama a pobre moça pelo nome durante o filme inteiro!


Ela é interpretada pela bela Anna Kanakis, Miss Itália de 1977 que depois acabou se perdendo nessas presepadas. A moça protagoniza até uma cena de sexo com o galã italiano à meia-luz, dentro de uma esquisita tenda de plástico!

Ao perceber que o herói não vai deixar que matem a garota, Shadow (aquele vilão-bailarina com cabelo em coque, lembra?) prefere discutir com Scorpion ao invés de matá-lo de uma vez: "Você também rouba e mata, não é diferente de nós!", acusa Shadow. Calmamente, o herói responde: "Eu quero viver, enquanto vocês querem exterminar todos os seres humanos para que nada mais viva na Terra".


O que me leva a uma velha dúvida: a missão de "exterminar todos os sobreviventes do fim do mundo" não desembocará neles mesmos, que também são sobreviventes, tipo a serpente que come o próprio rabo? Será que, quando acabarem seu "trabalho", os Templários vão matar um ao outro, ou simplesmente passar o resto da vida escutando os discursos de One e fazendo troca-troca?

E já que estamos falando em One, é claro que o bofe não está nem um pouco contente ao saber que Scorpion salvou a moça do extermínio. Shadow sugere matá-lo, mas One aparentemente ainda mantém uma pontinha de amor platônico e berra: "Não! Seu sangue não é suficiente... Ele tem que me dar seu orgulho, e sua alma!". Orgulho e alma??? Hmmm... Tá bom, mudou de nome...


A partir de então, GUERREIROS DO FUTURO transforma-se num festival de encontros e desencontros do herói com os Templários, que evoluem para o progressivo extermínio desses últimos e de praticamente todos os sobreviventes do apocalipse que são pegos no meio do fogo cruzado.

Lá pelas tantas, também surge o norte-americano Fred Williamson, astro de nove entre cada dez tralhas da época que precisavam de um negro mal-encarado e bom de briga. Ele, que já tinha sido dirigido por Castellari em "1990 - Os Guerreiros do Bronx", interpreta Nadir, um arqueiro que usa uma ridícula luva dourada repleta de pontas de flecha explosivas (coloridas, mais parecem luzinhas de Natal!). Detalhe: as tais pontas de flecha nunca acabam, nem se tenta explicar onde Nadir consegue repor seu arsenal...


O que interessa é que, durante os combates, Nadir perde um tempão escolhendo a ponta, atarrachando na flecha e só então disparando - e, nesse meio-tempo, nenhum vilão é esperto o suficiente para meter um tiro na fuça do sujeito! Como são explosivas, elas fazem os Templários em pedacinhos - espere só para ver o bandido que toma uma flechada no pescoço e tem a cabeça explodida em câmera lenta, mas continua pilotando sua motocicleta por algum tempo sem cabeça!

GUERREIROS DO FUTURO é um clássico instantâneo para os escolados em bagaceirices italianas, fãs de tralha diversas e adoradores de trash movies. Se você assisti-lo em turma, fica difícil segurar o riso por mais de cinco segundos: ou você gargalha com os diálogos bisonhos (e a dublagem medonha), ou com os nomes ridículos dos personagens, ou com as situações "suspeitas", ou com a roupa ultra-fashion da galera, ou com os carros sucateados do futuro, ou com a sonoplastia bagaceira... Enfim: não faltam motivos para rir do filme!


Tudo é inconsistente: num mundo devastado por uma explosão nuclear, os sobreviventes se preocupam mais em turbinar seus carros e enchê-los com traquitanas do que em tentar reconstruir cidades (o tempo todo vemos os sobreviventes vivendo como nômades ou em acampamentos fuleiros, mas o filme nunca mostra de onde eles tiram água, comida e gasolina, por exemplo).

Outra coisa engraçada é que, no mundo devastado, não existem cidades, hospitais, postos de gasolina ou supermercados (enfim, não existe prédio algum!), mas mesmo assim todos os sobreviventes têm um suprimento ilimitado de gasolina, maquiagem (para as mulheres, sempre com o rosto absurdamente pintado) e ombreiras (para heróis e vilões). Tanto heróis quanto vilões passam o dia todo zanzando com seus carros, os primeiros procurando os sobreviventes e os segundos caçando sinais de rádio, mas nenhum deles fica sem gasolina em momento algum. Vai ver que os automóveis do futuro são movidos a ar...


Ah, e não se preocupe com essa história dos sinais de rádio: apesar de ser um dos detalhes mais interessantes do roteiro (haverá ainda um resquício de civilização no mundo pós-apocalíptico?), GUERREIROS DO FUTURO termina num massacre onde quase todos morrem, e não resta praticamente ninguém para continuar seguindo os sinais de rádio!

E aí o roteiro nem se preocupa em explicar se realmente ainda existia algum resto de civilização transmitindo para reagrupar os sobreviventes, ou se os sinais eram simplesmente uma armadilha dos Templários para atrair suas vítimas.


E é impossível não citar a cena mais sem-noção do filme, aquela pela qual GUERREIROS DO FUTURO é infamemente reconhecido: lá pelas tantas, Scorpion é aprisionado pelos Templários e obrigado a passar pelo ritual de "iniciação" das bonecas antes de morrer.

O tal ritual é a maior prova de que os os vilões gostam de queimar a rosca: enquanto Shadow força Scorpion a ficar de quatro, One "faz o serviço" no fiofó do nosso herói, numa cena que parece ter sido tirada de "Amargo Pesadelo" - e não consigo lembrar de nenhuma outra aventura em que o herói é sodomizado pelo vilão ao invés de ser simplesmente torturado ou surrado! Assista à "iniciação" no vídeo abaixo, se tiver coragem:

Veja ANTES de decidir juntar-se aos Templários!



Além dos seus habituais tiroteios e explosões em câmera lenta, Castellari ainda aproveita para homenagear os velhos tempos como diretor de western spaghetti. O filme todo tem um climão de faroeste futurista. Os ataques dos vilões, por exemplo, lembram os ataques de índios a caravanas nos filmes de Velho Oeste, com os carros dos bonzinhos adotando uma formação em círculos para se defender.

Porém o momento de maior referência ao western acontece quando Scorpion surge para o duelo final de "quem saca primeiro?" com One, vestindo um poncho marrom (à la Clint Eastwood na Trilogia do Dólar, de Sergio Leone). Neste momento, até a música de sintetizador de Simonetti assume um tom de western. One tenta matar Scorpion a tiros, mas, por baixo do poncho, o herói veste uma afrescalhada armadura indestrutível, citação direta a uma cena idêntica em que Eastwood vestia uma placa de ferro por baixo do poncho para escapar dos tiros do vilão, no clássico "Por um Punhado de Dólares". Só esta brincadeira já vale o filme inteiro.


Cineasta experiente, o velho Enzo também utiliza uma série de divertidos subterfúgios para fazer seu pequeno filme parecer maior do que realmente é: o fato dos vilões utilizarem roupas brancas padronizadas e capacetes de motoqueiro (como uma versão trash dos Storm Troopers de "Star Wars") facilita a reutilização dos mesmos figurantes pelo menos umas dez vezes, já que os anônimos Templários mortos em uma cena podem voltar em outras sem que se saiba a identidade.

E muita atenção para perceber um inteligente truque de montagem: numa das cenas do cerco dos Templários ao acampamento de sobreviventes, a câmera passa por dezenas de vilões em seus carros e motos, depois passa por algo que bloqueia a visão da câmera e, neste momento, Castellari aproveita para fazer um corte imperceptível e rearranjar todos os figurantes e veículos DO OUTRO LADO, fazendo parecer que há muito mais gente na cena do que existe na verdade!.


GUERREIROS DO FUTURO também está coalhado de momentos antológicos pela sua extrema imbecilidade, mas vou destacar apenas dois deles para não me alongar demais:

Quando Scorpion é perseguido por Mako em seu carrinho com hélice mortífera, Nadir aparece para salvar o herói com suas fechas explosivas. Não, ele não explode o carro do vilão, o que seria muito fácil: ele explode um buraco no chão onde Scorpion se atira para escapar da hélice!

A outra: quando Scorpion é aprisionado e torturado pelos Templários (aliás, o nosso herói parece precisar de ajuda em tempo integral!), os bandidos amarram-no a uma corda e começam a arrastá-lo com seus carros. Nadir aparece novamente para salvar o dia, mas, ao invés de soltar Scorpion de uma vez, ele fica uns cinco minutos disparando suas flechas NOS OUTROS VILÕES, e não naquele que arrasta o herói - que, assim, continua sendo dolorosamente arrastado!!!


Seja como for, amiguinhos, 2019 está logo aí. Portanto, preparem seus estoques de ombreiras e de gasolina, encham seus carros de equipamentos desnecessários que possam ser acionados com um botãozinho colorido e decidam-se por um dos lados do conflito: desmunhecar e entrar para os Templários (o ritual de iniciação não é dos mais agradáveis), ou virar crente e correr atrás de sinais de rádios inexistentes? Você decide!

Mas, pelo menos na visão de Enzo Castellari, o nosso futuro já está bem definido: baitolas ou crentes, seremos todos uns imbecis dirigindo veículos caindo aos pedaços, mas repletos de acessórios (tipo os Chevettes tunados dos dias atuais), e nos mataremos até restar dois ou três. Logo, nada muito diferente dos dias de hoje - só faltam mesmo as ombreiras...

Trailer de GUERREIROS DO FUTURO



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I Nuovi Barbari / Warriors of the Wasteland
(1983, Itália)

Direção: Enzo G. Castellari
Elenco: Giancarlo Prete (aka Timothy Brent), Fred Williamson,
George Eastman, Giovanni Frezza, Anna Kanakis, Ennio
Girolami, Massimo Vanni, Iris Peynado e Zora Kerova.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

BOOT HILL (1969)


Esta foi a terceira vez que vi BOOT HILL, western escrito e dirigido por Giuseppe Colizzi. Mas, se considerarmos a péssima qualidade das cópias anteriores (a primeira vez foi com um VHS da velha Poletel, e a segunda com um DVD tosquíssimo e cara-de-pau da Works/London Filmes), posso dizer que somente agora eu REALMENTE vi o filme.

Se antes tive que engolir péssimas versões em fullscreen com imagem granulada e cores lavadas, que transformam a experiência de ver o filme num tormento, agora finalmente peguei uma versão em letterbox e remasterizada, lançada pela distribuidora Flashstar com uma chamada equivocada na capinha, dizendo que é "o primeiro faroeste de Terence Hill e Bud Spencer" (não é o primeiro).

Nas fotos abaixo você pode comparar o contraste: a primeira foi capturada do DVD da Works; a segunda, do DVD da Flashstar.


Aqui no Brasil, BOOT HILL ficou popularizado com o título da época do videocassete, "Trinity e a Colina dos Homens Maus" (também foi este o título usado no relançamento pela Flashstar; só a Works adotou o original em inglês). Pois esta tradução é duplamente enganosa, já que não há Trinity na história e muito menos uma "colina dos homens maus".

Ocorre que, aqui no Brasil, todo e qualquer filme estrelado por Terence Hill passou a ter o nome Trinity no título, mesmo que o personagem interpretado pelo ator seja outro totalmente diferente, como acontece nesse caso. Já a tal colina é apenas uma tradução equivocada para a expressão "Boot Hill", o apelido em inglês para cemitério, equivalente ao nosso "colina dos pés-juntos".

Embora não tenha Trinity, o filme resgata um personagem já interpretado por Terence Hill em outros dois filmes do diretor-roteirista Colizzi, o pistoleiro Cat Stevens - mesmo nome de um famoso cantor e compositor britânico, a exemplo do Django de Sergio Corbucci, cujo nome foi inspirado no músico Django Reinhardt.


No western spaghetti, Cat já tinha aparecido anteriormente em "Deus Perdoa... Eu Não!" (1967) e "Os Quatro da Ave Maria" (1968), todos também dirigidos por Giuseppe Colizzi. Não vi nenhum dos dois, mas, pelo que pesquisei, a "trilogia Cat Stevens" é formada por aventuras com pouca relação umas com as outras, além da presença de Terence e do seu parceiro habitual, Bud Spencer, cujo personagem se chama Hutch Bessy nos três filmes. O resto é tudo novo. E o nome dos personagens nem ao menos é citado em BOOT HILL.

Embora essas três parcerias entre Colizzi e os dois atores sejam westerns sérios, sem o humor ingênuo e pastelão que passaria a predominar nas aventuras posteriores da dupla Hill-Spencer, aqui já se percebem algumas deslocadas tentativas de fazer graça, como uma animada pancadaria num saloon, quando Spencer distribui seus tradicionais safanões de mão aberta e ergue vilões acima da cabeça para atirar longe.


Bem, um dos grandes problemas de BOOT HILL é a narrativa extremamente truncada, defeito que talvez se explique pela versão lançada no Brasil ser a edição norte-americana, reduzida para 87 minutos. Segundo o IMDB, existem montagens de 97 minutos (na Espanha) e de 100 minutos (na França), onde provavelmente estão as explicações e fatos que não aparecem na cópia que eu vi. O engraçado é que, antes de ficar sabendo da existência dessas versões mais longas, sempre tive a impressão que faltava algo no filme: por exemplo, uma família sitiada pelos vilões numa cabana some de cena, e há um momento confuso em que o grande vilão aparece amarrado e, na cena seguinte, já está livre, sem que tenha sido mostrado como ele se soltou!

Basicamente, a trama de BOOT HILL mostra Cat Stevens fugindo de bandidos que querem matá-lo para que ele não tome posse de uma produtiva mina de ouro, que fica numa região explorada por um poderoso vilão, Honey Fisher (Victor Buono). Fisher e seus capangas forçam os mineradores a vender suas propriedades através de ameaças e violência, e os poucos que se recusam acabam mortos. Um dos capangas do vilão é o sádico Finch (Glauco Onorato).


Logo no início, quando essa trama toda ainda não foi bem explicada (acredite, isso só acontece na meia hora final!!!), Stevens é emboscado pelos homens de Fisher numa pequena cidadezinha. Os pistoleiros querem dar um fim no herói, mas só conseguem feri-lo gravemente com um balaço no ombro. Fora de ação, ele é obrigado a se refugiar na carroça de uma trupe esfarrapada de artistas de circo, que leva seu espetáculo de cidade em cidade. Estes acabam ajudando Cat, principalmente o trapezista e ex-pistoleiro Thomas (interpretado pelo saudoso Woody Strode).

Claro que os vilões dão o troco, matando um dos trapezistas durante uma apresentação e forçando os artistas a abandonarem o circo para seguir outras profissões. Mas Stevens e Thomas procuram pelo antigo colega do herói, Hutch, que vive aposentado numa casa à beira do lago, acompanhado pelo companheiro surdo-mudo "Baby Doll" (George Eastman!!!).


Finalmente juntos, os quatro pistoleiros partem para a cidade explorada por Fisher, dispostos a transformar a vida do vilão num inferno. Recebem a ajuda dos artistas de circo, que voltam a se reunir especialmente para se vingar dos pistoleiros malvados.

A trama parece simples lendo assim, mas as informações são liberadas ao espectador somente no final, de maneira que é muito mais fácil assistir BOOT HILL tendo lido previamente um resumo da história, como este que eu vos entreguei de mão beijada.

Sinceramente, gostaria de acreditar que algumas explicações e momentos mais interessantes estejam nas versões estendidas do filme, já que esta edição de 87 minutos é bem sem graça. Tudo se encaminha para um duelo final cheio de ação entre os quatro heróis e seus amigos do circo contra os pistoleiros de Fisher. Mas, quando chega a hora do embate, este é rápido e anti-climático, sem que nem ao menos os tiroteios valham a pena.


Stevens também parece ter uma conta pessoal a acertar com Finch, o braço-direito do vilão, mas o porquê disso nunca fica bem claro na montagem cortada que assisti, e até o duelo entre os dois é extremamente brochante - sem que se saiba se cenas foram removidas ou a edição que é desleixada mesmo. A própria queda do grande bandidão Fisher é bem sem-graça, com o vilão saindo de cena como se fosse um figurante. Só pode ter coisa cortada aí...

E o restante de BOOT HILL é burocrático, com uma narrativa muito lenta, em que o personagem principal passa os primeiros 30 minutos ferido e sem fazer praticamente nada, enquanto Spencer só entra na história na segunda parte do filme - até então, Terence faz dupla com Strode. Parece até dois filmes diferentes: a primeira metade, com Terence e Strode, é bem séria, naquela linha "homens em busca de vingança", enquanto a segunda metade (já com Spencer em cena) descamba para a comédia e para o humor pastelão.


Também há um excesso de cenas mostrando os bastidores do espetáculo circense. Em vários momentos, Colizzi intercala a ação dos protagonistas com os números do circo, o que acaba comprometendo a narrativa.

Sobra a belíssima fotografia, tão comprometida no VHS e naquele DVD vagabundo da Works (em tela cheia, há momentos em que o cenário fica praticamente vazio), a linda música de Carlo Rustichelli e o fato de Terence Hill estar fazendo um papel sério. Inclusive ele lembra muito Franco Nero ao aparecer de cara suja e mal-barbeada - no anterior "Viva Django/Preparati la Bara!", dirigido por Ferdinando Baldi em 1968, o ator já havia interpretado uma versão não-oficial de Django, e era praticamente um irmão gêmeo do Franco Nero!


Pena que, como eu expliquei, BOOT HILL tem duas metades muito distintas, e não se decide entre ser western sério ou aventura engraçadinha de Hill/Spencer.

O "Dizionario del Western All'Italiana", de Marco Giusti, tem uma pista para justificar esse contraste: parece que Colizzi assumiu o filme depois que outro diretor, Romolo Guerrieri (de "Johnny Yuma"), foi despedido, mas deixou diversas cenas filmadas que tiveram que ser reaproveitadas. Acabou ficando uma coisa híbrida, cujo trailer (veja abaixo) é MUITO MELHOR que o próprio filme!


Mesmo assim, BOOT HILL é um western no mínimo diferente, que tem muitos admiradores e deve ser conhecido por quem gosta de fugir da mesmice do gênero.

Como curiosidade, quando o filme foi lançado na Alemanha, nos anos 70, e as aventuras cômicas de Trinity já eram febre por lá, o distribuidor germânico redublou todos os diálogos para inserir piadinhas e gracinhas diversas, transformando um western "quase sério" em comédia!

Para encerrar, se alguém souber alguma coisa sobre o que há de diferente nas versões mais longas, por favor use o espaço de Comentários para iluminar esse leigo autor.

Trailer de BOOT HILL


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Boot Hill/ La Collina Degli
Stivali (1969, Itália)

Direção: Giuseppe Colizzi
Elenco: Terence Hill, Woody Strode,
Bud Spencer, Lionel Stander, Victor
Buono e Luciano Rossi.

sábado, 8 de novembro de 2008

1990 - OS GUERREIROS DO BRONX (1982)


Nem Sam Peckinpah, nem John Woo: o filme que me apresentou ao terrível estrago provocado no corpo humano por um tirambaço em câmera lenta foi o trash italiano 1990 - OS GUERREIROS DO BRONX, de Enzo G. Castellari!

Eu tinha lá meus 10 ou 11 anos de idade e adorei "Fuga de Nova York", que o SBT havia exibido alguns dias antes "pela primeira vez na televisão". Então, fui na videolocadora da minha cidade e pedi para a balconista algum filme que fosse parecido com "Fuga de Nova York". E ela me sugeriu 1990 - OS GUERREIROS DO BRONX.

Até os primeiros 20 minutos de filme, tudo estava tranqüilo. Mas foi então que Hammer, o personagem interpretado pelo saudoso Vic Morrow, disparou dois tiros de espingarda em slow-motion num cara e numa mulher desarmados.


O resultado é uma explosão de roupa e sangue no peito das vítimas, mostrada em câmera lentíssima, que impressionou este pobre pivete a ponto de esquecer completamente de qualquer outra cena do filme, mas lembrar até hoje, com riqueza de detalhes, daqueles estilhaços ensangüentados voando lentamente pelo ar...

Descontando o detalhe de ter tirado meu cabaço no quesito violência estilizada, o filme de Castellari nunca esteve entre meus preferidos: gosto muito mais da sua seqüência, "Fuga do Bronx", que é ainda mais violenta e absurda que o original.

Há algum tempo eu revi 1990 - OS GUERREIROS DO BRONX numa versão melhor, ripada de DVD e em widescreen, e me surpreendi com coisas que eu nem lembrava (será que foram cortadas da nossa antiga versão em VHS?). Continuo preferindo a Parte 2, mas já vejo este original com outros olhos: como um divertido filme de ação repleto de cenas, personagens e detalhes cômicos, no estilo "divertido de tão ruim".


Escrito por Dardano Sacchetti, Elisa Briganti e pelo próprio diretor Castellari, o roteiro desta divertidíssima tralha é "Fuga de Nova York" e "Warriors - Os Selvagens da Noite", de Walter Hill, batidos no liquidificador com uma pitada de "Laranja Mecânica".

Do primeiro, a aventura italiana roubou a ambientação: ao contrário de Nova York inteira se tornar um presídio de segurança máxima, como no filme de John Carpenter, aqui é o bairro nova-iorquino do Bronx que se transforma numa "terra de ninguém", comandada pelas gangues e abandonada pela polícia, no então distante ano de 1990, que era futuro na época (lembre-se que a produção é de 1982).

Já "Warriors" inspirou os personagens principais: coloridas e violentas gangues com figurinos berrantes e nomes tipo Riders, Tigers e Zombies. Só que os italianos exageraram na caracterização. Seus delinqüentes são tão exóticos e excêntricos quanto os de "Laranja Mecânica", e parecem mais figurantes de algum musical da Broadway do que bandidos sanguinários!


Há patinadores com capacetes brancos e tacos de hóquei como arma, uma gangue que usa carros dos anos 20 e roupas inspiradas na Máfia Italiana e até um bizarro grupo de dançarinos que luta sapateando e parece ter saído direto do clássico de Stanley Kubrick!!! Ah, não faltam nem os mutantes que vivem no subterrâneo, também "inspirados" em "Fuga de Nova York".

Como em "Warriors", os heróis são a "gangue boazinha" do pedaço: os Riders, motoqueiros durões (pelo menos se vestem como tal) que ficam zanzando pelo bairro em motos com enormes crânios de plástico sobre os faróis.

Eles têm nomes "machos" como Hawk e Blade, alguns deles combinam óculos escuros espelhados e roupas de couro com bigodões (como se estivessem num videoclipe do Village People), e são liderados por um garotão cabeludo que anda sempre de peito de fora e tem pinta de roqueiro popstar.


Seu nome: Trash - interpretado pelo inesquecível, de tão ruim, Mark Gregory, ou Marco di Gregorio, que sumiu da face da terra após interpretar Trash e o índio Thunder na trilogia "Thunder - Um Homem Chamado Trovão".

O filme começa com Ann (Stefania Girolami, filha de Castellari), uma jovem burguesa, fugindo da parte "rica" de Nova York para o desolado Bronx, onde cai nas garras dos terríveis Zombies. Por sorte, aparecem bem na hora os heróicos Riders, que despacham a quadrilha rival com violência (incluindo rosto cortado pelas lâminas na roda da frente de uma das motocicletas!!!).

O líder Trash apaixona-se por Ann e, ao perceber que ela foge de algum problema terrível, convida-a para ficar com ele no quartel-general da gangue. "Romeu e Julieta" versão pós-apocalíptica italiana? É mais ou menos por aí...


O tal problema de que Ann foge é um pouquinho mais complicado do que Trash pensa: ela é filha do presidente da Manhattan Corporation, megacorporação que, além de fabricar e vender armas para conflitos ao redor do globo, também é responsável por controlar Nova York - uma espécie de OCP, a multinacional que controla Detroit na série "Robocop".

Como é herdeira da maquiavélica empresa, está para completar 18 anos e vai ter que assumir a cadeira de presidente, Ann resolveu fugir do seu destino e se esconder no Bronx. Afinal, nada melhor para resolver um problema do que correr para uma "terra de ninguém" sem polícia e repleta de bandidos sujos e sanguinários, ainda mais quando você é uma burguesinha bonitinha, não é verdade?

Só que os figurões que controlam a Manhattan Corporation querem Ann de volta - eles pretendem usar a moça como fantoche assim que ela assumir o controle da empresa.


Seu poderoso tio, Samuel Fisher (Ennio Girolami, irmão do diretor, assinando com o pseudônimo Thomas Moore), descobre que ela está escondida no Bronx, e contrata um violento agente chamado Hammer (Morrow, em seu último filme antes de ser decapitado em acidente de helicóptero no set de "No Limite da Realidade") para resgatá-la.

O caldo engrossa porque Hammer é um psicopata. Seu plano é exterminar todas as gangues do Bronx, fazendo-as lutas umas com as outras, e Ann que se exploda no meio deste inferno.

Facilmente manipuladas pelo vilão através de pistas falsas que jogam um grupo contra o outro, as quadrilhas se preparam para uma guerra iminente, e somente Trash percebe que a história está mal contada. Ele então tenta se aliar aos rivais ao invés de destruí-los. Porém, até que a situação se resolva, muito sangue vai rolar.


O espectador antenado vai perceber que, de original, 1990 - OS GUERREIROS DO BRONX não tem absolutamente nada: além de chupar "Fuga de Nova York" e "Warriors" em iguais proporções, a trama básica deste bem-sucedido filme de ação italiano bebe muito da fonte de "Por um Punhado de Dólares", de Sergio Leone (e conseqüentemente do anterior "Yojimbo", de Akira Kurosawa, que inspirou Leone).

Como nestes dois clássicos, um personagem (neste caso, Hammer) se infiltra entre gangues rivais para semear a discórdia e levá-las a uma guerra mortal. O toque inovador (e politicamente incorreto) é que nas obras de Leone e Kurosawa o membro infiltrado era o herói da história, e na versão de Castellari é o vilão, enquanto as quadrilhas de delinqüentes ficam com o papel principal.


As cenas foram gravadas no Bronx, quando parte do elenco italiano viajou para os Estados Unidos, e em Roma, quando alguns dos atores norte-americanos fizeram o caminho inverso. O engraçado é que, nas cenas filmadas no Bronx, Castellari utilizou vários membros de um grupo de Hell's Angels como figurantes da gangue de Trash. Já nas cenas rodadas na Itália, a gangue diminui para meia-dúzia de pessoas, porque os Hell's Angels ficaram todos nos Estados Unidos! hahahaha

Uma atração à parte é o elenco fantástico, repleto de caras conhecidas do cinema classe B norte-americano e das picaretagens italianas da época. Além de todos os já citados, também aparecem o saudoso Christopher Connelly ("Os Caçadores de Atlântida", "Manhattan Baby"), como o caminhoneiro Hot Dog, que ajuda Hammer a se infiltrar no Bronx; Fred Williamson (astro blackspoitation dos anos 70, que havia trabalhado com Castellari em "Assalto ao Trem Blindado") como Ogre, o chefe da gangue dos Tigers; Joshua Sinclar (vilão em diversos filmes de Enzo) como Ice, membro da gangue de Trash que se revela um traidor; Massimo Vanni (outra figurinha carimbada dos filmes de Castellari) como Blade, o melhor amigo do herói; George Eastman ("Antropophagus") como Golan, o líder dos Zombies; e o próprio diretor Castellari como o vice-presidente da Manhattan Corporation.


O filme está repleto de momentos impagáveis, como o "climão" que rola entre Trash e seu amigo Blade quando este é encontrado à beira da morte, após ser atacado e torturado pelos tais mutantes subterrâneos. Além de verter lágrimas de tristeza, nosso herói faz afagos no cabelo do companheiro (cafuné, em outras palavras!) e ainda põe a cabeça dele encostada no seu ombro, no estilo "encosta a tua cabecinha no meu ombro e chora...". De se mijar de rir!

Já os nomes dos personagens são outro toque hilário da película: parece que os roteiristas abriram um dicionário de inglês e foram copiando palavras curtas que soassem sonoras. Só isso explica o fato de heróis e vilões usarem nomes como Trash (lixo), Hammer (martelo), Ogre (ogro), Ice (gelo), Hot Dog (cachorro-quente), Blade (lâmina), Hawk (águia) e Leech (sanguessuga).


Comparando com a seqüência "Fuga do Bronx" (que foi feita já no ano seguinte, 1983, e tem pouca ou nenhuma conexão com o original), 1990 - OS GUERREIROS DO BRONX tem menos ação, já que a continuação é nitroglicerina pura, com uma das maiores contagens de cadáveres da história do cinema de ação.

Não que este primeiro filme negue fogo: a contagem de cadáveres é reduzida, mas há uma grande quantidade de lutas e tiros para agradar aos fãs de Castellari, embora ele desta vez economize na sua marca registrada, as cenas em câmera lenta.

Um problema sério do filme é que, por algum misterioso e inexplicável motivo, as gangues do Bronx NÃO USAM ARMAS DE FOGO, apenas porretes e bastões, o que limita bastante as cenas de violência - e facilita o trabalho de Hammer e seus homens, usando espingardas, revólveres e até lança-chamas!


Mas a conclusão é o esperado banho de sangue, que parece uma espécie de preparação do diretor para "Fuga do Bronx": Hammer invade o Bronx com incontáveis policiais a cavalo, usando metralhadoras de grosso calibre e lança-chamas para eliminar a "escória" do bairro. Aí é um Deus nos acuda, e 99% dos personagens perdem a vida.

Exagerado e implacável, Vic Morrow praticamente rouba o filme como Hammer graças ao seu olhar frio e à falta de consideração com suas "vítimas", ao ponto de atirar em pessoas desarmadas e comandar uma chacina de gangues usando lança-chamas!

O vilão parece ter encarnado Hitler na conclusão, gritando ordens entre risadas insanas de "vilão de 007", e tem um diálogo belíssimo com Christopher Connelly. Quando este comenta que Hammer está "brincando com fogo", o vilão responde: "I know. And I love it. I love it!".


Tirando o impacto daqueles dois tiros de espingarda que Hammer dispara em câmera lenta em vítimas desarmadas e indefesas, que me marcaram desde minha tenra idade, 1990 - OS GUERREIROS DO BRONX continua um filme tão divertido quanto esquecível, embora pareça hoje um pouco melhor do que na primeira vez que o vi.

Se não chega aos pés de outras pérolas que o artesão Castellari fez na mesma época - e que continuam injustamente desconhecidas neste nosso Brasil pós-VHS -, pelo menos é uma verdadeira aula de como fazer muito com pouco, uma especialidade dos realizadores italianos dos anos 70-80.

E qualquer filme onde Fred Williamson saia na porrada com o gigantesco George Eastman (aqui vestido como samurai estilizado, com rabo-de-cavalo e tudo mais) já é um programa obrigatório para fãs de "cinema alternativo".

Trailer de 1990 - OS GUERREIROS DO BRONX



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1990 - I Guerrieri del Bronx/1990 - Bronx Warriors
(1982, Itália)

Direção: Enzo G. Castellari
Elenco: Mark Gregory (Marco di Gregorio), Vic
Morrow, Christopher Connelly, Fred Williamson,
Stefania Girolami, Joshua Sinclair, Massimo
Vanni e George Eastman.