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quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Felipe M. Guerra entrevista...


Sempre que participo do Fantaspoa - Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre, eu prefiro investir meu tempo conversando com os diretores participantes ao invés de assistir três ou quatro filmes por dia, como fazem muitos espectadores. No deste ano, resolvi ampliar a experiência da troca de ideias com os cineastas para um público maior, usando minha velha câmera mini-DV para gravar entrevistas com os caras que fizeram os filmes que eu mais gostei.

É uma tentativa de valorizar o trabalho desses cineastas iniciantes e quem sabe torná-los mais conhecidos no Brasil. Até porque alguns deles estavam lançando seu primeiro filme no Fantaspoa, e talvez amanhã sejam grandes nomes do gênero, e aí ficará relativamente mais difícil entrevistá-los.

Nos vídeos abaixo, o leitor do FILMES PARA DOIDOS pode conferir minhas entrevistas com os cineastas norte-americanos Todd E. Freeman ("Cell Count") e Zack Parker ("Scalene"); com o canadense Casey Walker ("A Little Bit Zombie"); o inglês Alex Chandon ("Inbred"); o argentino Nicolás Goldbart ("Fase 7"), e o espanhol Tirso Calero ("Carne Cruda").

Já falei rapidamente aqui no blog sobre o quanto gostei dos seus filmes, e nessas entrevistas o leitor poderá conhecer mais sobre as obras (com cenas dos filmes, inclusive) e sobre os próprios realizadores, que falam sobre suas influências, referências e o cinema fantástico moderno. Para poupá-los do meu inglês horrível e do meu "portunhol", substituí as perguntas que fiz por legendas com os temas discutidos.

Sei que nem todos gostam de ver entrevistas em vídeo, e eu mesmo prefiro as entrevistas transcritas (por escrito). Mas reserve um tempinho para ver e ouvir o que esses caras têm a dizer. Afinal, eles podem ser os Stuart Gordons, John Carpenters e David Cronenbergs de amanhã.


Entrevista com Alex Chandon
 

 
Entrevista com Nicolás Goldbart
 

 
Entrevista com Casey Walker
 

 
Entrevista com Todd E. Freeman
 

 
Entrevista com Tirso Calero
 

 
Entrevista com Zack Parker
 

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Os filmes que eu vi no Fantaspoa - Parte 2

FASE 7 (Phase 7, 2011, Argentina. Dir: Nicolás Goldbart)
Imagine "REC" sem aqueles infectados que se transformam em zumbis/demônios; assim é "Fase 7", mais um filmaço vindo dos nossos vizinhos da Argentina, e um dos melhores que vi no Fantaspoa este ano. Inspirado no pânico provocado pelo surto de Gripe A anos atrás, o diretor-roteirista Nicolás Goldbart recria o início de "REC" sem sequer ter visto o filme espanhol, conforme garantiu: um velho edifício é colocado em quarentena pelos órgãos de saúde quando verifica-se um caso de uma gripe raríssima e mortal entre os moradores. Não há os zumbis-demônios de "REC", mas não demora para uma atmosfera de paranóia tomar conta dos residentes, que começam a lutar entre si para proteger suas famílias (por medo de que os vizinhos estejam infectados), ou simplesmente por egoísmo (para roubar víveres que estão em falta em casa). A situação evolui drasticamente até iniciar-se uma pequena guerra entre os andares do condomínio, quando entra em cena um malucão que durante anos vinha se preparando para um futuro apocalipse. Mas o mais legal de "Fase 7" é que, apesar do que o resumo da trama possa indicar, o filme tem uma pegada de humor negro e não busca ser tão sério quanto, por exemplo, "O Exército do Extermínio", de George A. Romero (uma das inspirações do diretor). Até porque o protagonista é um bonachão interpretado pelo astro argentino Daniel Hendler, ótimo no papel de um sujeito normal e covarde obrigado a se transformar em "herói" para proteger a esposa grávida. Um dos momentos mais hilários envolve a tentativa de dois sujeitos de pegar um terceiro numa emboscada sem perceber que um espelho na parede denuncia suas posições. E a trilha sonora é confessadamente inspirada em John Carpenter, o que torna o filme um deleite para os fãs do gênero. Com tantas qualidades, "Fase 7" também é um belo argumento de que ainda existem boas histórias para serem contadas a partir de argumentos batidos, dependendo apenas da criatividade dos realizadores. E Goldbart só comete uma pequena falha, que é a de esquecer a personagem da esposa grávida na segunda metade da trama. Fora isso, seu filme funciona que é uma beleza - e merecia ser mais conhecido.


RAIVA (Kalevet, 2010, Israel. Dir: Aharon Keshales e Navot Papushado)
Esta curiosa mistura de horror e comédia de humor negro vinda de Israel (!!!) é uma bela opção para quem acha que já viu de tudo e gosta de ser surpreendido. A trama começa como centenas de outras produções do gênero: um grupo de jovens pega um atalho errado, acaba numa reserva ambiental abandonada e descobre que há um psicopata à solta. Aí você começa a se ajeitar na poltrona, esperando pela tradicional enxurrada de clichês com uma sensação de "E lá vamos nós de novo". E é exatamente aí que "Raiva" começa a surpreender: o tal psicopata some da narrativa, vários outros personagens entram em cena (como um guarda florestal e uma dupla de policiais bananas), e o inesperado toma conta do filme. Movidos pela raiva do título, amigos se tornam inimigos mortais, desconhecidos se matam por puro acaso ou por uma simples interpretação equivocada ("Ah, pensei que ele fosse o psicopata!"), e torna-se completamente impossível prever para onde a história se encaminha - ou, mais especificamente, quem sobreviverá ao festival de mal-entendidos, se é que alguém escapará vivo! No fim, "Raiva" pode ser descrito como uma mórbida comédia de erros parecida com os melhores trabalhos dos Irmãos Coen, como "Gosto de Sangue" e "Fargo", em que os personagens cometem as maiores idiotices e o espectador se pega rindo de nervoso diante da estupidez geralmente seguida de violência. E os diretores-roteiristas Keshales e Papushado não poupam seus protagonistas: uma das grandes cenas, bastante incômoda inclusive, mostra um cadáver recente sendo enterrado enquanto a mensagem na caixa de recados do seu telefone celular anuncia que ele vai ser pai! Uma ótima recomendação para quem gosta de ver clichês sendo contornados com criatividade, muito sangue e algumas saborosas gargalhadas.


ESCALENO (Scalene, 2011, EUA. Dir: Zack Parker)
O que mais impressiona em "Escaleno", este pequeno grande filme dirigido e co-escrito por Zack Parker, é a sua simplicidade: conta-se uma mesma história a partir de três pontos de vista diferentes, e somente no terceiro e último ato percebemos que a coisa pode não ser como pensávamos que era lá no começo. Não é exatamente uma ideia original, mas a forma como ela é executada é que funciona bem: os três personagens centrais (uma mãe super-protetora, seu filho problemático e a adolescente que aceita a tarefa de cuidar do rapaz) são simbolizados por cores bem marcantes, e a transição de um "ponto de vista" para outro é assinalado pelo uso dessas cores em figurinos, cenários e objetos de cena. É um artifício muito melhor utilizado por Parker aqui do que, por exemplo, no pretensioso "Vermelho, Branco e Azul", de Simon Rumley, que também enfoca diferentes personagens usando três cores, mas de uma forma muito mais pedante. Com uma impressionante atuação de Hanna Hall (que estava péssima como irmã de Michael Myers no "Halloween" de Rob Zombie), "Escaleno" não é exatamente um filme de horror; está mais para um drama pesado, embora a surpresa da mudança de ponto de vista da metade para o final torne-o atraente também para quem gosta de thrillers e histórias de mistério. Também serve como impressionante demonstração de domínio da câmera pelo novato Parker, que usa takes longos e momentos de silêncio sem ser chato ou abusar do recurso, além de diferentes artifícios narrativos, da última cena no começo do filme à câmera assumindo a visão em primeira pessoa de um dos personagens. Sem contar que sempre é bom ouvir um cineasta iniciante, que fez um filme usando cores como elemento principal da narrativa, dizer que conhece o trabalho do italiano Mario Bava - conhecido justamente pela marcante fotografia multi-colorida dos seus clássicos. Vale a pena acompanhar os futuros trabalhos do cara.


CARNE CRUA (Carne Cruda, 2012, Espanha. Dir: Tirso Calero)
Duas divertidas comédias exibidas no Fantaspoa 2012 deram um novo olhar sobre temas já explorados "ad nauseam": enquanto o canadense "A Little Bit Zombie" (veja abaixo) buscou uma abordagem diferente dos filmes de zumbis (assunto que já está até ficando chato), o espanhol "Carne Crua" brinca com aquelas produções italianas sobre canibalismo, com citações abertas a "Cannibal Holocaust" e a reverência do diretor-roteirista Tirso Calero a mestres como Lucio Fulci e Mario Bava. A narrativa lembra muito a linguagem televisiva (o diretor trabalha na TV espanhola), numa comédia fanfarrona que conta a história de dois casais que topam com uma seita secreta de canibais na visita a um acampamento de férias abandonado. O protagonista é mordido por um deles e, algo como zumbi, começa a manifestar um desejo irresistível de provar carne humana - um novo hábito que gerará muitas confusões. O próprio Tirso declarou que seu filme foi feito exclusivamente para os fãs do gênero, os únicos que saberão captar o humor referencial e até metalinguístico (um dos personagens chega a cogitar seu retorno numa continuação, piada que até eu usei em "Entrei em Pânico ao Saber o que Vocês Fizeram na Sexta-feira 13 do Verão Passado"). Realmente, imagino que o espectador "comum" não pegará piadas como a participação especial do diretor espanhol Nacho Vigalondo, tentando vender a "última casa à esquerda na colina que tem olhos" (brincando com os títulos originais de "Aniversário Macabro" e "Quadrilha de Sádicos", de Wes Craven). Mas há algo de universal nas piadas calcadas em mulher pelada, baixaria e violência exagerada, que provavelmente funcionarão também com outros públicos - embora eu, particularmente, tenha curtido o filme por identificar-me com o tipo de humor escrachado e referencial do realizador.


UM POUQUINHO ZUMBI (A Little Bit Zombie, 2012, Canadá. Dir: Casey Walker)
O que "Tucker & Dale Enfrentam o Mal" fez pelos filmes sobre "caipiras psicopatas" anos atrás, o divertido "Um Pouquinho Zumbi" faz agora pelos filmes sobre mortos-vivos comedores de cérebros. Ok, eu vou confessar aos nobres leitores que já fui um apaixonado por filmes de zumbis, mas hoje não posso mais nem ouvir falar do assunto, tal a quantidade de produções do gênero (extremamente repetitivas e pouco originais) lançadas todo ano. Não é o caso aqui: com um roteiro inspiradíssimo em mãos (assinado por Christopher Bond e Trevor Martin), o diretor Walker realizou uma comédia despretensiosa com um pé na fantasia (graças à insólita dupla de caçadores de zumbis guiados por uma... bola de cristal!) e, o que importa, ENGRAÇADÍSSIMA! A trama acompanha dois casais passando o final de semana numa casa de campo. Um dos rapazes - um pateta que está prestes a se casar - é infectado por um vírus-zumbi e começa a manifestar bizarro gosto culinário por cérebros, preferencialmente frescos. Mas sua noiva, que não quer desmarcar o casamento nem que tenha que entrar na igreja com o noivo putrefato, resolve ajudá-lo a adaptar-se à "nova condição". Segue-se um festival de piadas de rolar de rir, como o ataque do protagonista "meio-zumbi" à mascote da noiva (um inocente coelhinho). E o veterano Stephen McHattie (o Coruja original de "Watchmen") rouba toda cena em que aparece como o troglodita caçador de zumbis. "Um Pouquinho Zumbi" guarda certas semelhanças com outro filme independente chamado "The Revenant" (2009), em que um morto-vivo de primeira viagem também precisava lidar com sua nova condição. Mas narra a história parecida com frescor e originalidade. O que me faz pensar: por que diabos continuam fazendo vinte filmes de zumbis iguais uns aos outros todo ano (incluindo personagens que precisam aprender que morto-vivo só morre com tiro na cabeça), se ainda é possível enfocar novas olhares sobre um mesmo tema, como vemos aqui? Um filme que mereceria um grande lançamento comercial.


VINGANÇA SEM LIMITES (The Girl from the Naked Eye, 2012, EUA. Dir: David Ren)
Esta aventura simples e divertida, que parece uma mistura de "Sin City" e "Drive" com os filmes de pancadaria made in Hong-Kong, foi outra das simpáticas surpresas do festival. Jake é um motorista calado e valentão (hmmm, onde já vi isso antes?), que transporta prostitutas de um cabaré local para seus programas, zelando também pela segurança das garotas. Quando uma delas é assassinada, e justamente aquela por quem o herói era apaixonado, a porrada rola solta numa sangrenta busca por vingança. O filme surpreende com sua atmosfera ora noir, ora comicamente exagerada e cartunesca, lembrando história em quadrinhos (tanto que o filme começa e termina com uma revista abrindo e se fechando, como se fosse uma legítima "pulp fiction" de ação barata). E o herói Jason Yee, também roteirista, luta pra caramba - anos atrás ele já tinha dirigido, escrito e estrelado (!!!) a aventura "Dragão Negro", que passou batida. Por sinal, uma das melhores coisas de "Vingança Sem Limites" é que as cenas de pancadaria são filmadas como deve ser: câmera imóvel em planos mais abertos, permitindo que o espectador enxergue (e entenda) o que se passa. A grande cena do filme é uma recriação de um plano-sequência de "Oldboy", em que o protagonista lutava contra vários oponentes ao longo de um corredor, sempre seguido pela câmera. Arrisco afirmar que a homenagem feita aqui ficou bem melhor que a cena original, com o pau comendo ao som de "Bolero", de Ravel - numa união perfeita de imagem e som. O resultado é uma aventura bem-realizada e sem frescura, que talvez só peque na insistência em tentar soar "moderninha" ao copiar os filmes que Guy Ritchie e Tarantino faziam nos anos 90 (e que já não são "modernos" há mais de uma década). Os personagens excêntricos com diálogos engraçadinhos parecem ter fugido do universo de "Snatch" ou "Pulp Fiction", algo que hoje pode até soar meio jurássico. Perdoando esse defeito (que para alguns pode até passar como qualidade), o filme funciona que é uma beleza. E não tem câmera tremida nas lutas. Precisa de mais algum argumento? Não leve a sério, divirta-se e olho vivo para reconhecer as pequenas participações da musa pornô Sasha Grey e da ex-Lolita Dominique Swain.


O INFERNO (El Infierno, 2010, México. Dir: Luis Estrada)
Você já viu "O Inferno" antes, só que ele se chamava "Traffic", "Scarface", "Profissão de Risco"... Há bem pouco de novo na história de um chicano que volta miserável ao seu país, depois de anos trabalhando como ilegal nos EUA, e precisa virar capanga de um poderoso traficante de drogas para conseguir viver. Seu irmão mais novo teve o mesmo destino alguns anos antes, mas acabou crivado de balas, portanto nosso protagonista herda não apenas a profissão e a esposa do finado (uma prostituta de bordel barato), mas também o provável mesmo destino. Considerando a falta de novidades na tradicional historinha de ascensão e queda de um bandido, é questionável a longa duração desse filme, que torna-se um tanto repetitivo ao longo de suas quase 2h30min de projeção. Mesmo assim, "O Inferno" não é nem um pouco desprezível e consegue manter-se um tantinho acima da média ao desmistificar o "trabalho" dos traficantes de drogas, usando um bizarro humor negro para retratar a sangrenta rotina dos criminosos - como na cena em que o protagonista e um colega dissolvem um cadáver em ácido às gargalhadas, e ao som de uma música festiva, como se aquela fosse uma tarefa corriqueira do dia-a-dia! Lembrando um Tarantino mexicano, o diretor-roteirista Luis Estrada põe seus traficantes e assassinos frios para falar bobagem e discutir amenidades, além de resgatar atores outrora conhecidos do cinema mexicano (como Mario Almada e Isela Vega) em pequenas participações. Só não pense estar diante de uma comédia; pelo contrário, Estrada às vezes pega pesado em cenas brutais que têm o impacto de um soco no estômago, como a execução de um informante com serra elétrica, numa citação mais do que escancarada a "Scarface". Ou o final irônico, em que praticamente todas as instituições sociais (Família, Igreja, Políticos, Forças Armadas) são chacinadas de uma única vez. Para quem não se assustar com a longa duração (que nunca se justifica, pois o filme podia tranquilamente ter uns 40 minutos a menos), é um passatempo divertido, engraçado e sanguinolento, que aborda um problema social sério - o narcotráfico nas pequenas cidades da fronteira mexicana - sem soar chato e pedante como uma aula de sociologia (ou como 90% das produções brasileiras sobre o mesmo tema).


ALUCARDOS - RETRATO DE UM VAMPIRO (Alucardos, 2010, México. Dir: Ulises Guzmán)
Misturando documentário e ficção através de imagens belíssimas, o mexicano Guzmán conta aqui os bastidores de um clássico do cinema de lá - "Alucarda" (1978), de Juan López Moctezuma -, a partir de duas linhas narrativas: a vida sui generis do seu diretor e a impressionante história real de Manolo e Lalo, dois amigos tão obcecados por "Alucarda" que chegaram a sequestrar Moctezuma do sanatório onde ele estava internado para ouvir do próprio cineasta o seu relato pessoal sobre a realização da obra. Para melhor apreciar ambos os temas, porém, é necessário ter um mínimo de conhecimento sobre "Alucarda", já que o filme é mencionado durante 80% do tempo - e a exibição de cenas-chave com os respectivos comentários pode estragar a surpresa de quem ainda não viu. "Alucardos" acaba sofrendo um pouco com o excesso de informação, já que tanto a trajetória bizarra de Moctezuma quanto a obsessão da dupla de fãs pela obra do diretor são histórias reais igualmente interessantes e renderiam seus próprios filmes separadamente. E como ambas são contadas de maneira intercalada - pulando o tempo inteiro do diretor para os fãs e então de volta para o primeiro, e assim sucessivamente -, às vezes a narrativa parece perder um pouco o foco. Mas fãs de horror em geral têm a obrigação de conhecer, seja pelas hilárias histórias dos bastidores de "Alucarda" e anedotas sobre a carreira do seu diretor, seja pelo amor incondicional de Manolo e Lalo pelo seu filme preferido - uma paixão cinéfila de emocionar.


CENTOPÉIA HUMANA 2 (The Human Centipede II - Full Sequence, 2011, Holanda. Dir: Tom Six)
O pior filme que vi no Festival, ao lado do patético "Shiver". Só para deixar claro desde o início: eu realmente achei o primeiro filme bem legal. Lá, o diretor-roteirista Tom Six teve uma ideia extremamente escrota, mas executou-a com certa elegância e muita sutileza - e acho que a situação ficou mais tensa e asquerosa dessa forma apenas sugerida. Aí chega o segundo filme e Six joga a sutileza no lixo, com direito a uma quantidade absurda de grosserias por minuto. Claro, para alguns espectadores é JUSTAMENTE ISSO que interessa, bem como a capacidade do sujeito conseguir ser mais e mais ofensivo. Para mim, soou menos como filme e mais como uma provocação infantil do diretor para aqueles que reclamaram que o primeiro não era tão explícito ("Ah é? Agora vocês vão ver!"). O resultado é um autêntico tiro no pé: as cenas que deveriam ser chocantes são apenas engraçadas, o exagero torna tudo ridículo, e a melhor ideia (a questão da metalinguagem, já que o psicopata aqui é obcecado pelo primeiro filme) é esquecida em segundos - até porque o título em si é uma armadilha, e o diretor precisa mostrar uma "centopéia humana" para não parecer propaganda enganosa, embora o mais interessante dessa continuação seja a forma como o filme original afetou o vilão, e não propriamente a criação do "bicho"! Isso sem contar a pretensão "artística" de filmar em preto-e-branco, algo sem qualquer justificativa, ou o final dúbio que permite pelo menos duas interpretações completamente diferentes - e ambas bem embaraçosas. Six sequer tem um roteiro para desenvolver, e prefere catalogar um asqueroso festival de agressões e mutilações perpetradas por um vilão gordo e escroto. Os personagens das vítimas não têm nomes ou prévia apresentação, e a maioria nem ao menos tem diálogos! Até as intermináveis continuações de "Sexta-feira 13" tinham mais história para contar. E confesso que também saí da sessão vendo "Centopéia Humana 2" como o ponto mais baixo que o cinema "comercial" já atingiu - e, sinceramente, se alguém quiser bater esse recorde, eu não estarei lá para ver. Os defensores de Six e dessa bobagem de mau gosto alegam que sua principal "qualidade" (tá certo...) é justamente a falta de vergonha na cara do diretor e a maneira como ele não se importa em pegar cada vez mais pesado (tipo o sexo anal com arame farpado enrolado no pinto). Tudo bem, só que esse argumento também autoriza qualquer um a fazer qualquer coisa. Confesso que esse não é o meu tipo de filme: eu gosto de um mínimo de narrativa e de propósito, não de uma mera sequência de tortura e morte, como a mostrada aqui. E Six já anunciou um terceiro filme para breve. Vem cá, cara, não está na hora de mudar de assunto, não?

quarta-feira, 23 de maio de 2012

Os filmes que eu vi no Fantaspoa - Parte 1

INATO (Inbred, 2011, Reino Unido. Dir: Alex Chandon)
Uma das grandes surpresas do Fantaspoa 2012, e que eu ia deixar passar se não fosse a recomendação do Cristian Verardi. Para ir direto ao assunto, este aqui é o grande filme sobre caipiras psicopatas que o Rob Zombie tentou fazer duas vezes (com "A Casa dos Mil Corpos" e "Rejeitados Pelo Diabo"), mas cagou fora da panela. Já o diretor inglês Alex Chandon dá uma aula de conhecimento do tema e do gênero, citando uma infinidade de filmes dos anos 70-80 ao contar a história de quatro jovens problemáticos levados por seus tutores até uma cidadezinha da região rural da Inglaterra. Era para ser um final de semana de diversão, mas no momento em que o pessoal da cidade grande cruza com os caipiras, começa um banho de sangue que remete a clássicos como "Amargo Pesadelo", "O Massacre da Serra Elétrica" e "2.000 Maniacs". A exemplo dos clássicos citados, a história tem um desenvolvimento lento na primeira parte, descambando para o horror explícito apenas da metade para o final. E tome sangue, mutilações e tripas em cenas gráficas e exageradas (a câmera nunca desvia do alvo), produzidas ora com efeitos práticos (aleluia!), ora com uma ajudinha de retoques digitais. E é um caso raro em que a computação gráfica ajuda ao invés de comprometer: a lenta decapitação de um sujeito a golpes de cutelo é digna de figurar entre os melhores momentos do gênero desta década! Felizmente, "Inato" não é sério e pesado como as produções que reverencia, e Chandon prefere entregar um humor negro crudelíssimo, inclusive com uma asquerosa "homenagem" ao modismo do cinema 3-D. No fim, essa pérola é mais uma prova de que os estúdios não entendem porra nenhuma, pois funcionaria muito melhor como refilmagem de "2.000 Maniacs" do que aquele lamentável remake oficial feito pelo Tim Sullivan em 2005. Também demonstra a notável evolução do diretor Chandon num período de dez anos, considerando que ele foi o sujeito responsável pelo péssimo "Nascido do Inferno" (2001), aquele terror podreira estrelado pelo roqueiro poser Dani Filth. É uma evolução praticamente da água para o vinho, e eu espero MESMO que Chandon continue fazendo filmes de horror tão divertidos, descerebrados e sanguinolentos quanto este. E vê se aprende uma ou duas coisas com "Inato" antes de fazer um novo filme sobre caipiras psicopatas, Rob Zombie!


CELL COUNT (2012, EUA. Dir: Todd E. Freeman)
Em um lugar e em uma época não-identificados, um marido desesperado aceita submeter sua esposa acometida por doença terminal a um misterioso tratamento revolucionário que promete a cura instantânea. Mas, como estamos numa história confessadamente inspirada na obra do canadense David Cronenberg, é claro que a tal cura logo vai se revelar bem mais perigosa do que a doença... "Cell Count" foi o filme de encerramento do Fantaspoa 2012, e teve sua estréia mundial no festival gaúcho, o que criou um ar de forte expectativa pela obra do diretor-roteirista Todd E. Freeman (um sujeito muito simpático que participou do festival desde o primeiro dia). Apesar das referências explícitas a Cronenberg e a "O Enigma do Outro Mundo", o horror médico-científico orquestrado pelo jovem cineasta lembrou-me muito mais o filme australiano "Corrosão - Ameaça em Seu Corpo", de Philip Brophy, com o qual tem em comum a narrativa fragmentada que vai empilhando efeitos repulsivos de mutações dos personagens - todos submetidos à "cura" e mantidos em quarentena num laboratório de segurança máxima. Algumas cenas são visualmente impactantes, como a do sujeito que tem a cabeça toda coberta por uma segunda pele e vira uma criatura asquerosa (em destaque na arte do pôster). Freeman também acerta em fugir dos clichês, e mantém o espectador entre interessado e incomodado ao não explicar direito o que está acontecendo. Infelizmente, "Cell Count" tem uma conclusão de certa forma decepcionante, anunciando que a história continuará em uma futura Parte 2. Como nada é resolvido e não há sequer algo parecido com um desfecho - pelo contrário, a ação é interrompida literalmente no meio! -, não deixa de ser injusto com a audiência, a exemplo do que já havia feito, anos atrás, o filme espanhol "O Legado Valdemar" (que também parava na melhor parte e obrigava o espectador a esperar pela Parte 2). É algo tão brochante quanto coito interrompido. Mas, entre erros e acertos, o negócio agora é esperar (à força) pela conclusão da trama, já que Freeman promete que "Cell Count 2" será completamente diferente do primeiro e uma mistura de "Aliens - O Resgate" e "Mad Max 2". E, conversando com o sujeito, percebe-se claramente que ele usou este primeiro filme para apresentar as ideias que pretende desenvolver de maneira mais ambiciosa no próximo filme. Certamente estarei no cinema quando estrear.


A ESCALA DA AGRESSÃO (The Aggression Scale, 2012, EUA. Dir: Steven C. Miller)
Se "Esqueceram de Mim" tivesse sido dirigido por Wes Craven, o resultado seria algo bem próximo desse "A Escala da Agressão" - outra das boas surpresas do Festival. A trama é simples e vai direto ao assunto sem enrolação: Ray Wise (em participação minúscula) é um chefão do crime que manda um grupo de capangas truculentos atrás de um traidor que roubou seu dinheiro. Vários inocentes são mortos brutalmente, até que os bandidos chegam ao verdadeiro responsável. Só que eles também encontram um obstáculo inesperado: um garotinho problemático que começa a combater os sádicos criminosos de igual para igual, com muita esperteza e armadilhas cada vez mais tenebrosas. A "versão malvada" de Macaulay Culkin é Owen (Ryan Hartwig), um pequeno diabinho que faria a órfã do filme homônimo mijar nas fraldas de medo. E, felizmente, o roteiro de Ben Powell não tenta inflar o "heroísmo" do garoto e nem esconder o fato de que, na verdade, ele é um verdadeiro psicopata mirim, mais ou menos como se o Michael Myers moleque deixasse a série "Halloween" para invadir um outro filme. O diretor Miller não poupa na violência e na brutalidade (em cenas com participação direta da criança, sem frescura), de maneira que não fica absurdo quando os experientes bandidões (incluindo o gigante Derek Mears, o Jason do remake de "Sexta-feira 13") começam a ficar com medo do moleque. Uma curiosidade (e também uma bela surpresa) é a participação de um envelhecido Dana Ashbrook, ator medíocre que, aqui, está muito bem como Lloyd, o líder dos capangas, e quem mais sofre nas mãos do garoto. Temos, assim, dois atores do seriado "Twin Peaks" no mesmo filme: o pai (Wise) e o namorado (Ashbrook) de Laura Palmer. Despretensioso, sem lero-lero, rápido e rasteiro, "A Escala da Agressão" é um belo argumento para ficar de olho no trabalho de Steven C. Miller, que já havia chamado a atenção com o independente "Automaton Transfusion" e está terminando de filmar o remake de "Natal Sangrento" (com Malcolm McDowell no elenco!).


CALIBRE 9 (2011, França. Dir: Jean-Christian Tassy)
A estréia cinematográfica do diretor-roteirista francês Jean-Christian Tassy é uma aventura tão absurda e tão estúpida que, em vários momentos da projeção, eu realmente comecei a me questionar porque diabos estava assistindo aquilo. É necessário desligar o cérebro para poder engolir melhor a história de um burocrata do governo, Yann (Laurent Collombert), transformado da noite para o dia em super-assassino invencível quando encontra uma pistola possuída pela alma de uma prostituta assassinada!!! Não, você não leu errado: o cara encontra uma arma que contém a alma de uma mulher, e ela não apenas conversa o tempo inteiro com o herói (!!!), mas também pode obrigá-lo a fazer coisas, no estilo daquela velha comédia "Um Espírito Baixou em Mim". Esse "pequeno detalhe" fantasioso serviria para transformar "Calibre 9" em uma absurda comédia de humor negro, caso seus realizadores não levassem a piada muito a sério durante a maior parte do filme. E as cenas de ação são bem convencionais, resumindo-se ao mira-atira-faz sangue jorrar. Tudo embalado com uma irritante embalagem "moderninha" de cortes ultra-rápidos, câmera sacolejante, filtros coloridos e efeitos visuais de todos os tipos e tamanhos, remetendo a um videoclipe grosseiro de alguma banda do momento. Mas quem conseguir abstrair tudo isso encontrará um filminho razoavelmente divertido para tardes chuvosas, e que começa a ficar melhor na metade final, quando o diretor perde completamente a vergonha na cara e vai deixando a coisa cada vez mais exagerada - com direito a um tiroteio em que o vilão metralha, sem dó nem piedade, dezenas de vítimas inocentes, incluindo garotinhos que brincam num parque infantil! E o herói interpretado por Collombert até que funciona, lembrando muitas vezes uma cópia pobretona de Jason Statham na série "Carga Explosiva", com a mesma careca e o mesmo terninho sujo de sangue. Para públicos específicos, que não se importem com a imbecilidade da proposta (arma falante? pfffff...).


PEQUENOS MONSTROS (Little Monsters, 2012, EUA. Dir: David Schmoeller)
O retorno de David Schmoeller depois de 14 anos sem fazer um filme para cinema é uma bela surpresa. Para quem não lembra, o sujeito tem um passado repleto de preciosidades do horror barato feitas para as produtoras Empire e Full Moon, de Charles Band (entre elas, "Armadilha Para Turistas", "Bonecos da Morte" e "Catacumbas"). Em seu retorno às telas, ele preferiu explorar a maldade humana em uma produção mais séria e dramática a fazer outro horror barato e sanguinolento. A história de dois garotos de 10 anos que matam um menino de 3 anos sem motivo algum é inspirada num chocante episódio real, o assassinato do menino James Bulger, acontecido em Londres no começo dos anos 90. Schmoeller pula os detalhes macabros do crime e muda a localização da história para os EUA, dando assim a sua própria versão do que teria acontecido aos dois pequenos assassinos quando eles atingiram a maioridade e foram libertados da prisão com identidades falsas e novas famílias adotivas. A reintegração à sociedade não é tão simples, e um dos rapazes decide procurar pelo ex-colega de crime para "acertar as contas". Paralelamente, o roteiro critica o circo da mídia sensacionalista, na pele de dois repórteres de tablóide que recebem a missão de descobrir e revelar as novas identidades dos "pequenos monstros". A produção é barata até para os padrões de Schmoeller, que revelou não ter pagado nenhum dos atores - a maioria em seu primeiro filme. O diretor também não escapa de alguns clichês, como o garoto malvado que aparece sempre fumando e que exagera nos trejeitos de psicopata. E não dá a devida atenção a um personagem interessante: o homem que caça os dois rapazes com a intenção de matá-los para "tranquilizar" a opinião pública. Descontando esses defeitos, "Pequenos Monstros" é uma mistura eficiente de suspense e drama, curiosa também por resgatar um episódio trágico que estava quase esquecido, e com uma conclusão irônica que não faz nenhum julgamento. Pode até não ser o filme que se esperava do mesmo David Schmoeller que dirigiu "Armadilha Para Turistas" e "Bonecos da Morte", mas é um retorno bem decente ao cinema depois de mais de uma década de curtas e produções para a TV.


SHIVER (2011, EUA. Dir: Julian Richards)
Indiscutivelmente um dos piores filmes do Fantaspoa 2012, "Shiver" é uma produção extremamente convencional que narra, pela enésima vez, a história de um terrível assassino obcecado por uma jovem vítima, e que passa o restante do tempo de projeção enganando a polícia e perseguindo a pobre coitada. Ou seja, uma trama trivial mais apropriada para o Supercine do que para as salas de cinema. Só que o resultado consegue ser ainda pior graças ao roteiro do produtor Robert D. Weinbach (baseado num livro de Brian Harper), praticamente uma coletânea de todos os clichês mais batidos do gênero - do assassino que se disfarça de policial até o cobertor colocado nas costas da vítima que escapou de um ataque (e eu realmente queria saber se, na vida real, a polícia norte-americana distribui cobertores para as vítimas de crimes!). Parece que não pode piorar, mas a coisa só vai ladeira abaixo: o serial killer, auto-intitulado "The Griffon", é interpretado pelo australiano John Jarratt (o vilão de "Wolf Creek"), mas não tem como acreditar que um velhinho como ele possa fazer tanto estrago, com direito a uma cena final parecida com o ataque de Schwarzenegger à delegacia em "O Exterminador do Futuro". Isso sem contar que o vilão é tão chato que poderia matar suas vítimas de tédio. Já a mocinha em perigo é interpretada por Danielle Harris, que enfrentou Michael Myers quatro vezes (duas na série original e duas nos remakes de Rob Zombie), mas pelo visto não aprendeu nada, pois tem 200 chances de fugir e/ou matar o vilão, mas sempre as desperdiça. E, para arrematar, temos a presença de dois veteranos do cinema classe B, Casper Van Dien e Rae Dawn Chong (!!!), mas eles passam pelo filme como mero enfeite, sem fazer absolutamente nada que justifique suas presenças. "Shiver" é, portanto, um filme constrangedor, e a presença do próprio produtor e roteirista Weinbach no Fantaspoa tornou tudo mais surreal, pois ele falava do filme como se fosse a oitava maravilha do mundo! A direção do inglês Julian Richards ("The Last Horror Movie") é convencional, e algumas poucas cenas bastante violentas (como a vítima que tem o pescoço brutalmente cortado pelo vilão com um garrote) não salvam o projeto do fiasco. Não consegue nem mesmo ser divertido de tão ruim: é apenas ruim, e totalmente deslocado no tempo, já que talvez conseguisse atrair alguma atenção se fosse feito vinte anos atrás, na época de "O Silêncio dos Inocentes", e não hoje, depois de dezenas (quiçá centenas) de filmes idênticos sobre serial killers à solta...


A MEMÓRIA DO MORTO (La Memoria del Muerto, 2012, Argentina. Dir: Valentín Javier Diment)
Já virou clichê dizer que o cinema argentino está dando uma surra no cinema brasileiro. Quando o assunto é cinema fantástico, então, a surra passa a ser um autêntico linchamento: infelizmente ainda vai demorar um bom tempo para que o Brasil consiga produzir algo no nível de "A Memória do Morto", esta surpreendente fábula de horror dos hermanos, que cita desde o cinema europeu (no uso das cores em cenários e figurinos) até "Evil Dead" (nos frenéticos movimentos de câmera). O roteiro conta a história de uma viúva que reúne um grupo de amigos para honrar a memória do seu recentemente falecido marido, num casarão perdido no meio do nada. Quando a noite cai, ela confessa que tudo faz parte de um diabólico plano para trazê-lo de volta à vida. A partir de então, os convivas não podem mais sair da casa, pois serão atacados pela força diabólica que cerca o local, mas tampouco estão seguros lá dentro, onde começam a ser brutalmente assassinados um a um. A melhor coisa do filme é que ele escapa de ser apenas mais um slasher ao mergulhar personagens e espectadores num clima opressivo de pesadelo, fazendo uso de uma direção de arte fascinante que lembra muito os filmes de Guillermo del Toro. Numa das melhores cenas, aparece até uma pequena fantasminha sem olhos que é bem parecida com aquele famoso monstrengo de "O Labirinto do Fauno". E os hermanos não economizam na violência, promovendo um banho de sangue que inclui até cabeça decepada com serra elétrica! Para completar, a conclusão fecha o filme com chave-de-ouro, num final que não apenas é surpreendente, mas também tragicamente irônico. Resumindo: uma obra a ser conhecida - e lembrada com pesar toda vez que um novo "filme de horror brasileiro" chegar aos cinemas ou ao circuito alternativo. Dá até uma tristeza lembrar que ainda vai demorar bastante para atingirmos o nível de excelência demonstrado pelo diretor Diment e sua trupe aqui em "A Memória do Morto"...


PRAGA ZUMBI: REVOLUÇÃO TÓXICA (Plaga Zombie: Revolución Tóxica, 2011, Argentina. Dir: Pablo Parés, Hernán Sáez e Paulo Soria)
E se as produções profissionais made in Argentina já nos dão um baile (vide acima), o que dizer dos filmes independentes? Esse "Praga Zumbi" teoricamente é uma brincadeira feita por amigos no fundo do quintal e com alguns poucos trocados, mas parece superprodução hollywoodiana perto da maioria dos "independentes" brazucas. Trata-se da terceira parte de uma série de filmes de baixíssimo orçamento que começaram a ser produzidos pela mesma turma de amigos lá no começo dos anos 90 (o primeiro ainda filmado em VHS!). A diferença é que agora a produção é um pouquinho mais profissional, embora mantenha as piadas infames e escatológicas no nível das obras da Troma. A história começa exatamente onde a segunda parte (feita em 2001!!!) terminou, com o trio de heróis Max Giggs, Bill Johnson e John West descobrindo que os zumbis que invadiram sua cidade são, na verdade, hospedeiros de criaturas alienígenas. Agora, eles precisam destruir a nave-mãe que sobrevoa o local e impedir que os aliens dominem o mundo, utilizando para isso um "zumbi de Tróia" (!!!) com o bucho cheio de pólvora. O fiapo de história é mera desculpa para um festival de trapalhadas e gore cômico à la "Fome Animal". As piadas nem sempre funcionam, mas divesas delas são hilárias, como o agente do FBI que passa o filme sendo atacado e perdendo partes do corpo, ou a relação afetiva de um dos heróis com o "zumbi de Tróia". Talvez o filme seja longo demais (e os ataques de zumbis começam a ficar repetitivos e arrastados na segunda metade), mas é impossível não se surpreender com a qualidade do que é, na essência, uma produção independente e amadora. Destaque também para a fabulosa sequência musical, quando os heróis e os zumbis param tudo para dançar e cantar (e a musiquinha é daquelas grudentas, que o espectador se pega assobiando semanas depois de ter visto o filme). Uma grande bobagem, mas divertida e bem produzida, além de realizada com visível paixão.


THE ROAD (2011, Filipinas. Dir: Yam Laranas)
Um daqueles casos clássicos de "bonitinho, mas ordinário", esse curioso horror filipino conta uma história dividida em três partes interligadas. Começa na atualidade (no caso, em 2008), quando três jovens que roubam o carro dos pais de um deles se perdem numa estrada deserta e são assombrados por fantasmas. A partir daí, a trama começa a voltar no tempo para mostrar episódios acontecidos em 1998 e em 1988, e que explicam o porquê das assombrações da primeira parte, envolvendo um caso de desaparecimento nunca resolvido pela polícia. Segundo o diretor Laranas, que esteve no Fantaspoa, o roteiro foi baseado num crime real acontecido nas Filipinas e que também nunca foi resolvido pela polícia. O grande problema de "The Road" é que o filme é belissimamente fotografado (bonitinho), mas burocrático, sem surpresas e desprovido de emoção em seu desenvolvimento (ordinário). Além disso, nunca assusta ou surpreende o espectador, embora tente fazer isso várias vezes. A primeira história, principalmente, é tenebrosa no mau sentido, com uma quantidade absurda de clichês somada ao comportamente debilóide dos personagens. Já as outras duas eliminam um pouco o elemento sobrenatural para explicar os crimes que geraram a "maldição" e a própria infância e motivação do assassino, um dos pontos altos do filme, mas daí já é tarde demais para conseguir salvar o resultado final. A impressão que dá é que o diretor se perdeu nas curvas, podia ter enxugado o roteiro e enfocado a situação de uma outra maneira. Sem contar que o último episódio é tão melhor dirigido que os outros dois que até parece um outro cineasta comandando a câmera. No conjunto, um filme bem realizado tecnicamente, mas enfadonho e repetitivo (até tirei duas sonecas lá pela metade). E será particularmente irritante para quem já viu mais de um filme oriental sobre fantasminhas vingativos (tipo a franquia "Ju-On").


BAD ASS (2012, EUA. Dir: Craig Moss)
A grande piada de "Machete", de Robert Rodriguez, era colocar o feioso Danny Trejo, mais conhecido pelos seus papéis de vilão, como protagonista. Infelizmente, a brincadeira não passou disso e o resultado foi bem abaixo da média. Agora, "Bad Ass" repete o mesmo erro e também se demonstra um filme de uma piada só. Trejo interpreta Frank Vega, um veterano do Vietnã que, aos sessenta e poucos anos de idade, dá uma surra em dois neonazistas num ônibus e vira herói popular da noite para o dia graças ao YouTube. O mais bizarro é que o episódio foi baseado numa história verdadeira: em 2010, um coroa fortão de 67 anos chamado Thomas Bruso, usando uma impagável camiseta onde lia-se "I Am a Motherfucker", deu uma sova daquelas num rapaz negro que procurava confusão durante uma viagem de ônibus. O vídeo da surra, gravado com um celular, virou febre no YouTube (acompanhe toda a história do caso e da sua repercussão aqui). "Bad Ass" até é divertido e interessante em seus primeiros 20 minutos, quando enfoca o episódio real e a inacreditável transformação de Vega em herói do bairro. Sem contar que é curioso o fato de um filme basear-se num vídeo de sucesso do YouTube! Mas logo o diretor-roteirista Craig Moss perde a mão e transforma a história em mais um "Desejo de Matar" genérico e sem grandes ousadias ou reviravoltas. E nem dava para esperar coisa melhor de um cara que dirigiu duas comédias absurdamente ruins (uma delas é "A Saga Molusco: Anoitecer"!). As cenas de ação não empolgam, o roteiro é ridículo e cheio de furos (o que um velhote sem-teto faz com um pendrive contendo informações secretas envolvendo o prefeito da cidade?) e bons atores, como Ron Pearlman, fazem apenas participações especiais de poucos minutos. Tirando uma ou outra cena mais inspirada, como o sangrento interrogatório em que a mão do sujeito é colocada no triturador de lixo, o resultado é uma aventura burocrática que até diverte, mas some da memória tão logo os créditos finais começam a subir. Uma pena, considerando que, com um bom diretor e um bom roteiro, poderíamos ter uma curiosa variação de "Gran Torino" ou "Harry Brown", outras duas aventuras recentes com heróis geriátricos. Como não é o caso de bom diretor e de bom roteiro, até mesmo a idade avançada do herói é esquecida em poucos minutos! E se Trejo até se sai bem como protagonista, infelizmente "Bad Ass" cai nas mesmas armadilhas de "Machete" - e nosso herói novamente não aparece catando a mocinha bonita!

domingo, 7 de agosto de 2011

Os filmes que eu vi no Fantaspoa

A SERBIAN FILM (Srpski Film, 2010, Sérvia. Dir: Srdjan Spasojevic)
Esse originalmente estava na minha lista de boicote, mas resolvi conferir no Fantaspoa só para sacar de perto qual seria a reação do público ao tão anunciado "filme mais chocante dos últimos tempos". Claro, isso foi antes da palhaçada da censura à película no Rio de Janeiro. O irônico é que todo esse marketing em cima do "choque" não poderia ser menos apropriado: os espectadores que se preparavam para sair chocados e revoltados da sessão em Porto Alegre (eu inclusive) acabaram rindo o tempo todo, de forma que o título poderia ser modificado para "A Serbian Comedy". Vá lá que a cópia exibida no Fantaspoa era cortada em alguns minutos, mas mesmo as supostas cenas "mais fortes" não trazem nada de tão abominável (os "momentos snuff" do "Emanuelle in America", que Joe D'Amato fez mais de 30 anos antes, continuam muito mais fortes que essa tralha sérvia inteira). Além disso, vamos combinar que momentos dignos das obras da Troma, como o sujeito que é morto com um caralho enfiado no olho, não ajudam nada. Pelo menos, "A Serbian Film" revelou-se bem mais divertido do que eu imaginava. Confesso que esperava algo mais grosseiro e gratuito, estilo "Irreversível" ou aquelas sangreiras da série "Guinnea Pig". Mas o trabalho do estreante Spasojevic surpreende porque ele tenta contar uma historinha razoavelmente interessante que justifique a barbárie no ato final. Eu até achei a trama muito melhor ANTES que toda a brutalidade finalmente entrasse em cena. Porque, quando o sangue começa a rolar, a opção do diretor em querer ser fodão e "super-chocante" acaba levando a cenas absurdamente apelativas, idiotas até, como o tal "newborn porn". Só não vá na onda de certos críticos e nem acredite muito nas entrevistas do diretor sobre como "A Serbian Film" é uma história sobre a situação atual da Sérvia. Na verdade, este é mais um caso de muito barulho por nada, de cachorrinho que late demais mas não morde. E muito parecido com o filme norte-americano "8mm", de Joel Schumacher - inclusive a figura do cineasta maluco de "A Serbian Film" é uma cópia xerox do personagem interpretado por Peter Stormare no filme ianque. Se você está com medo do filme sérvio por tudo que leu por aí, não se preocupe que há muito de exagero e pouco de verdade nos relatos. Para quem já viu pérolas como "Cannibal Holocaust" e "Antropophagous" (que também tem violência contra fetos, mas de forma muito mais convincente), o tal "filme mais chocante dos últimos tempos" parecerá quase inofensivo. Cômico, até, em seus exageros e absurdos. Mas, definitivamente, não é para todos os públicos.


VERMELHO, BRANCO E AZUL (Red White & Blue, 2010, Inglaterra. Dir: Simon Rumley)
Curto e grosso: eu não gostei de "Vermelho, Branco e Azul". Mas vou humildemente pedir aos leitores que relevem minha opinião e assistam o filme por sua conta e risco. Afinal, eu sou a única pessoa que conheço que NÃO gostou de "Vermelho, Branco e Azul": o filme não só foi elogiado com louvor por todos que estavam na mesma sessão que eu em Porto Alegre, como ainda foi eleito Melhor Filme do Fantaspoa 2011! A obra tem dois atos bem distintos: (SPOILERS) o primeiro é um drama pesado sobre uma garota promíscua que se relaciona sexualmente com vários homens, na verdade contaminando-os com o vírus da Aids sem que eles saibam; o segundo mostra um psicopata, obcecado pela tal garota, "castigando" brutalmente as pessoas que julga responsáveis pela sua morte (FIM DOS SPOILERS). Cada ato dura cerca de uma hora, e o último é basicamente uma sequência de tortura-morte, tortura-morte, tortura-morte de pessoas, sem nenhuma reviravolta ou surpresa no processo. Me lembrou um filme exibido no Fantaspoa do ano passado, "O Cavaleiro" (lançado em DVD no Brasil como "Vingança Animal"), que também não foge muito disso. E confesso que não me agrada esse tipo de história que não chega a lugar algum, apenas vai de uma tortura-morte para a outra. Ora, até o mais básico dos "Jogos Mortais" tem uma historinha por trás. Não é o caso aqui: você logo percebe que o sujeito vai pegar, torturar e matar cada uma das pessoas que está perseguindo, e nenhuma delas vai tentar escapar ou reagir para pelo menos criar alguma situação de tensão ou conflito; e como nem ao menos há a polícia ou algum outro antagonista atrás do sujeito, o restante do filme se resume ao tortura-morte, tortura-morte, tortura-morte... Para piorar, é impossível simpatizar com qualquer um dos personagens! Vá lá, há algumas boas qualidades no conjunto, como a relação de um roqueiro rebelde com sua mãe que sofre de câncer, e a interpretação do irreconhecível Noah Taylor (que geralmente faz papel de bonzinho, e aqui está assustador como psicopata). Mas, como já falei, particularmente EU não engulo esse tipo de narrativa. E se todo mundo ficou extasiado menos eu, então provavelmente o errado da história sou eu, e é por isso que recomendo que todos confiram "Vermelho, Branco e Azul" para julgar por conta própria. Só sei que, além de ter achado o filme em si bem fraquinho, fiquei ainda mais puto acompanhando os comentários do diretor Simon Rumley ao final, quando ele tentou convencer o público de que seu filme era uma "alegoria sobre a situação sóciopolítica dos Estados Unidos hoje". Aham, tá bom...


O MASSACRE DE REYKJAVIK (Reykjavik Whale Watching Massacre, 2009, Islândia. Dir: Júlíus Kemp)
Uma decepção. O título original, o pôster, a sequência de abertura nua e crua mostrando a pesca e matança de uma baleia (cena real?) e a presença do ator Gunnar Hansen (o Leatherface original) fazem pensar que estamos diante de um terrorzão sério, estilo "O Massacre da Serra Elétrica". Tem até uma família de psicopatas (provavelmente canibais) que vivem não no interior do Texas, mas num velho barco de pesca de baleias, e uma garota aprisionada e submetida a vários horrores para gritar o tempo todo, como Marilyn Burns no filme de Tobe Hooper. Infelizmente, se a ideia era homenagear ou emular o clima daquele clássico, "O Massacre de Reykjavik" erra feio. Até porque logo se entrega a um inesperado senso de humor, com mortes e diálogos engraçadinhos, personagens toscos e vilões patéticos. Uma qualidade do filme é não render-se ao tradicional clichê dos "adolescentes em férias", preferindo apresentar um elenco adulto e formado por estrangeiros de diferentes nacionalidades. Mas as piadas não funcionam - com exceção do herói que se confessa gay no "clímax romântico" com a mocinha -, o suspense e a tensão logo dão lugar a intermináveis correrias pelo navio, e os personagens são tão idiotas que acabamos torcendo para que todos morram de uma vez, tanto heróis quanto vilões. Gunnar Hansen tem uma participação minúscula e sai de cena sem muito brilho, e o roteiro é uma verdadeira bagunça, espalhando núcleos de pessoas para lá e para cá sem muito critério. O filme até tem sangue e violência, mas as cenas não são memoráveis e já foram vistas antes e melhor. Não falta nem o negro morto acidentalmente como se fosse vilão, à la "A Noite dos Mortos-vivos". Muitos talvez encontrem diversão nessa balbúrdia, mas é uma pena que o filme nunca se decida entre tensão ou humor negro, e nem tente contar uma história minimamente diferente (e mais séria). Como curiosidade, ele foi inicialmente marketeado como "Iceland's first thriller", mas após sua estreia nos cinemas os realizadores mudaram a tagline para "Should only be seen if you have a sense of humor"!!!


AURORA (Dawning, 2009, EUA. Dir: Gregg Holtgrewe)
Uma família passa uma noite de horror numa casa de campo quando um desconhecido aparece dizendo que há algo monstruoso "lá fora", na floresta. OK, o ponto de partida é interessante, embora nada original. O problema é que a tal família descrita no argumento é uma família disfuncional, detalhe que parece apenas uma desculpa do diretor-roteirista-produtor Gregg Holtgrewe para esticar o que podia ser um curta-metragem interessante durante insuportáveis 82 minutos. É isso mesmo, amiguinhos: embora o argumento, do jeito que se apresenta, não sobreviva a mais que 20 minutos, Holtgrewe faz o possível e o impossível para acabar com um longa nas mãos, e isso inclui intermináveis discussões da tal família disfuncional, cujos filhos ficam toda hora se pegando com os pais e vice-versa. Parece até que você está assistindo aqueles programas barraqueiros de TV, tipo "Casos de Família", ao mesmo tempo em que fica zapeando para algum filme de terror classe B em outro canal, pois as duas ideias parecem nunca funcionar juntas. E o interesse por qualquer coisa que possa acontecer aos personagens se esvai depois da décima briga e/ou discussão entre eles, quando você fica esperando desesperadamente que a tal "coisa" existente na floresta entre logo naquela maldita casa e mate todo mundo de um vez. O pior é que a trama até começa bem, apresentando a ideia de uma ameaça desconhecida (sobrenatural ou "humana"?) quando o cachorro da família some e depois reaparece mortalmente ferido. Aí você fica esperando que algo interessante aconteça a qualquer momento, mas a situação não se sustenta, a tensão é inexistente e a sensação de que o diretor está embromando de propósito e fazendo um curta esticado logo fica evidente. E é tão chato, mas tão chato, que um crítico gringo fez um trocadilho com o título original, mudando-o para "Yawning" (Bocejo). Uma boa opção para quem sofre de insônia, portanto!


LUNÓPOLIS (Lunopolis, 2009, EUA. Dir: Matthew Avant)
Até a metade de "Lunópolis", eu imaginei que estava diante do "8th Wonderland" do Fantaspoa 2011: com o já saturado formato de "falso documentário", o filme de estreia do norte-americano Matthew Avant narra uma intrincada, porém muito inteligente história que envolve viagens no tempo, teorias da conspiração, universos paralelos e até a existência de uma civilização avançada que vive na Lua e controla o destino da humanidade. Porém (e sempre tem um porém), a trama que começa intrigante e interessantíssima de repente "trava". É como se alguém desse "pause" na narrativa para que um montão de estudiosos e cientistas (atores, obviamente) entre em cena para teorizar sobre viagens no tempo e a criação de universos paralelos, tentando dar algum "embasamento científico" para a história que está sendo contada. Só que é um autêntico tiro no pé: os sujeitos falam, falam e falam sem parar para explicar o que, na essência, qualquer pessoa que viu a série "De Volta para o Futuro" já sabe! Talvez o objetivo dos realizadores seja fazer com que espectadores desavisados acreditem que tudo aquilo possa ser real; afinal, isso é um "mockumentary" (será que alguém ainda cai nessa?). Mas podiam ter feito a mesma coisa de outra maneira. Até porque, depois da chatíssima aula de física, o filme segue ladeira abaixo, com soluções fáceis e explicações idiotas (uma pedra mágica da Lua?) quase estragando o que começou tão bem. A sequência final, que remete de volta ao início (e também explica a primeira cena), é ótima, mas até chegar ali o estrago já foi feito. "Lunópolis" não é exatamente ruim, mas exige muita paciência e também que o espectador "embarque" no conceito, o que não é tão simples. Porém é preciso dar algum crédito a Avant, pois o sujeito fez absolutamente tudo na obra: dirigiu, escreveu, produziu, estrelou, editou e ainda assinou som, design de produção e direção de arte (!!!). Ainda assim, o filme se parece muito com um episódio de "Arquivo X" esticado.


O SANATÓRIO (El Sanatorio, 2010, Costa Rica. Dir: Miguel Alejandro Gomez)
Mais um falso documentário estilo "A Bruxa de Blair" e "Atividade Paranormal"? Aham. E foi um dos quatro ou cinco filmes nesse estilo exibidos no Fantaspoa, comprovando que os cineastas desse mundo andam precisando desesperadamente de novas ideias. Menos mal que "O Sanatório" tem pelo menos dois grandes motivos para ser descoberto: primeiro, é uma rara produção do gênero vinda da Costa Rica (!!!); segundo, é um daqueles raros filmes de horror que são mais divertidos e interessantes pelos momentos que ANTECEDEM os fenômenos sobrenaturais! Contada através de entrevistas feitas pelos protagonistas e cenas supostamente "reais" gravadas com câmera na mão, a história mostra jovens jornalistas e estudantes de cinema realizando um documentário sobre um sanatório com fama de assombrado. O horror e os fantasmas só aparecem nos 20 minutos finais; antes, no que considero a melhor parte do filme, acompanhamos o relacionamento entre os personagens, que vivem brigando e brincando entre si. O diretor-roteirista Gomez se esforça para transformá-los em personagens verossímeis, em momentos como o dos amigos jogando videogame (e discutindo, lógico), ou o rapaz tímido que convida a bonitona por quem é apaixonado para fazer parte da equipe, e depois vive levando foras diante da câmera. Esses momentos e detalhes são muito mais interessantes que os fantasmas propriamente ditos. Também são bem engraçados os depoimentos de pessoas que testemunharam os horrores do sanatório (a cena em que um jornalista fala, com os olhos arregalados, que "se cagou todo", naquele espanhol hilário, é de rolar de rir). Ao final, quando os fantasmas do sanatório finalmente dão as caras, cai-se na rotina das histórias do gênero, mas mesmo assim com alguns bons sustos. Por isso, mesmo que perca bastante no quesito "novidade", esse é um pequeno filme bem divertido que vale a pena conhecer. "Juancitoooooo"...


PRESSÁGIO (Presagi, 2010, Itália. Dir: Lamberto Bava)
Entre os famosos representantes do cinema fantástico italiano dos anos 70-80, Lamberto Bava é um dos poucos que continua na ativa, mesmo que seus filmes recentes ("A Tortura", "Mensagem do Além"...) fiquem bem abaixo da média. "Presságio", seu último trabalho, é uma produção feita para a TV italiana e estreou oficialmente no Fantaspoa - também foi a primeira vez que o diretor viu a obra junto com o público. O filme conta a história de uma médium que começa a ter visões com uma garotinha vestindo capa-de-chuva vermelha; um ex-agente do FBI investiga o caso, acreditando que são premonições envolvendo uma menina recentemente sequestrada. Não há grandes novidades na trama nem na forma de contá-la, embora o roteiro tenha alguns poucos detalhes visualmente criativos - como as visões da médium que mostram o vulto do assassino em forma de animal predador. No geral, entretanto, "Presságio" é um filme extremamente convencional e sem grandes atrativos, daquele tipo que mais cedo ou mais tarde acaba passando no Supercine e é ignorado. Essa não é a primeira vez que Bava faz filmes para a TV: "O Terror Não Tira Férias" e "Amantes Diabólicos", por exemplo, também foram produzidos para a televisão italiana e são infinitamente mais criativos e melhor dirigidos. Aqui, o veterano diretor trabalha de maneira burocrática e contida. Parece até de má vontade, como se estivesse apenas esperando para receber o cheque pelo trabalho no final do mês. E mesmo assim é possível encontrar pelo menos uma qualidade: a excelente interpretação do norte-americano Craig Bierko como o amargurado e traumatizado agente. E olha que o sujeito já se queimou fazendo "Todo Mundo em Pânico 4" e "Super-Herói - O Filme"!!! A propósito: Bava jura que a menina de capa-de-chuva vermelha é uma referência a Chapeuzinho Vermelho, e não ao clássico "Inverno de Sangue em Veneza". Então tá...


FAMÍLIA NUCLEAR (Nuclear Family, 2010, EUA. Dir: Kyle Rankin)
Assistindo a essa aventura pós-apocalíptica do simpático Kyle Rankin (com quem tive a felicidade de bater um papo e tomar umas cachaças durante os dias de Fantaspoa), me senti de volta aos anos 80. Como muitos filmes daquela década, "Nuclear Family" também se leva pouco a sério, atropelando explicações em prol da ação que nunca pára, e com um roteiro esquemático que apenas leva os heróis de um perigo para outro. O filme acompanha as aventuras de uma família (pai, mãe e filha pequena) que tenta sobreviver após um holocausto nuclear, num mundo devastado e repleto de criminosos bárbaros. Personagens e situações são caricaturais: há uma garota (interpretada por Danielle Harris) que atira facas com fantástica perícia, portanto o roteiro logo se adianta em explicar que, antes do holocausto, ela era atiradora de facas num circo (!!!); já o vilão era um escritor de livros de auto-ajuda antes do fim do mundo, interpretado pelo fantástico Ray Wise. Há algumas bobagens, como um misterioso vírus que afeta o comportamento humano, mas são falhas facilmente perdoáveis toda vez que Wise entra em cena, roubando o show como um vilão cruel e psicopata, sim, mas tão cheio de frases de efeito e momentos ensandecidos que o espectador fica do seu lado, torcendo para que ele apareça mais no filme. Wise parece um Jack Nicholson dos pobres, e "Nuclear Family" é a prova de que como ele rende quando bem-dirigido. Curiosamente, a história não tem uma conclusão, deixando a trama em aberto para uma possível sequência. Ou, quem sabe, para continuar a acompanhar as aventuras da "família nuclear" num futuro seriado. Até porque o filme tem a maior cara de piloto de série de TV. De qualquer jeito, continuando ou não no futuro, esse aqui cumpre o que promete: diversão descompromissada e muitas gargalhadas. Algumas propositais, mas outras visivelmente involuntárias.


MANÔUSHE (1992, Brasil. Dir: Luiz Begazo)
A grande curiosidade do Fantaspoa 2011. Esse filme brasileiro foi realizado em 1992, nunca lançado comercialmente no país (embora tenha sido exibido no exterior), e é o único trabalho do mineiro Luiz Begazo. Com um olhar bem particular, o diretor encena uma trama fantástica que se passa num universo mágico, envolvendo ciganos, artistas mambembes e uma floresta repleta de criaturas bizarras. Praticamente sem diálogos - as poucas conversas entre os personagens são num bizarro dialeto usado pelos ciganos, e, sem legendas, ininteligíveis -, "Manôushe" começa com o funeral de um velho cigano; sua viúva então começa a recordar-se dos dias em que se conheceram, e o filme conta a história em flashback mostrando a fuga do casal de apaixonados e sua passagem por uma floresta repleta de monstrinhos e ameaças. Visualmente deslumbrante e com uma fotografia belíssima, a obra tem elementos que lembram trabalhos tão díspares quanto os de Fellini, Alejandro Jodorowsky ou mesmo o cinema fantástico da década de 80 (especialmente obras como "A Lenda", de Ridley Scott, e "Labirinto", de Jim Henson). Mas não é um filme infantil. Aliás, se há um problema na obra, é justamente sua indecisão entre ser fantasia para adultos ou história fofinha para crianças. Embora o primeiro e o segundo atos sejam fantásticos, a narrativa começa a se tornar arrastada quando o casal entra na tal floresta mágica. O episódio se arrasta mais do que o necessário, e, pior, sem que exista um fio condutor para manter o interesse. Isso, mais a ausência de diálogos, são um convite ao sono, embora o belíssimo visual e a fotografia consigam prender a atenção do espectador até o final. "Manôushe" é uma obra mais bela e "diferente" do que propriamente memorável, mas conhecê-la é obrigatório para qualquer fã de cinema brasileiro, e principalmente para quem tem interesse no cinema fantástico feito no país. É uma pena que tenha permanecido obscuro, pois talvez tivesse incentivado a realização de outros filmes na mesma linha.


SANTOS E PECADORES (Sinners and Saints, 2010, EUA. Dir: William Kaufman)
Esse violento filme policial chegou ao Brasil após receber láureas em vários sites gringos, que compararam o trabalho do novato William Kaufman com obras consagradas como "Viver e Morrer em L.A." e "Fogo Contra Fogo". Não é para tanto, e no fim das contas "Santos e Pecadores" é até bem previsível e rotineiro. Se não fosse pelo elenco de primeira (com Tom Berenger e Jürgen Prochnow fazendo personagens secundários) e por alguns momentos mais exagerados de violência, graças aos vilões que torturam suas vítimas queimando-as vivas, a obra provavelmente passaria desapercebida e acabaria sua trajetória num Domingo Maior qualquer. Mas, ainda que o roteiro não ajude muito, sempre é bom assistir um filme policial violento e sem frescura feito nesses nossos tempos politicamente corretos, e protagonizado por um tira durão (Johnny Strong, muito bom) que sai enchendo a bandidagem de tiros sem pensar duas vezes. Somente um sujeito casca-grossa como esse para enfrentar a quadrilha de bandidos barra-pesada liderada por Costas Mandylor (um dos vilões de "Jogos Mortais"). Existe um "MacGuffin" cobiçado pelos bandidos, mera desculpa para levar a trama adiante, um detalhe que é rapidamente esquecido numa trama que privilegia a ação rápida e rasteira e os tiroteios, filmados de maneira estilizada e realista. Kaufman desfila um amplo repertório cinéfilo que prende a atenção de fãs de filmes policiais, como o duelo final entre herói e vilão, correndo em direção um ao outro e trocando tiros como os protagonistas de "O Ano do Dragão", de Michael Cimino. Embora não tenha nada de tão espetacular para justificar os elogios rasgados que recebeu, "Santos e Pecadores" diverte e não compromete - ainda que faça falta uma história melhorzinha e sem tantos clichês, onde não falta nem a mais do que batida dupla de policiais branco e negro que começa o filme se odiando e depois "descobre o valor da amizade"!

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Quatro dias com Lamberto Bava


Como toda uma geração de fãs de horror brasileiros, minha "alfabetização" no gênero se deu em meio à década de 80, atráves da grande variedade de fitas lançadas no país por uma infinidade de pequenas distribuidoras. E, como todo fã de horror do período, um dos clássicos da minha infância/adolescência foi "Demons - Filhos das Trevas", pequena pérola lançada em VHS no Brasil pela F.J. Lucas.

Assim, foi como um sonho realizado poder participar da primeira visita do diretor de "Demons", o italiano Lamberto Bava, ao Brasil, trazendo-o para participar de uma retrospectiva da sua obra no Fantaspoa - Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre, realizado no início de julho.

Para tornar a passagem de Lamberto ainda mais especial, foi realizada não só uma retrospectiva da sua obra, mas também do seu pai, o mestre Mario Bava (1914-1980), realizador de clássicos que influenciaram gerações inteiras de cineastas, como "A Máscara de Satã" e "Banho de Sangue".

O que se segue é um relato desses dias passados ao lado de Bava em Porto Alegre, já que, como curador das mostras realizadas no Fantaspoa, tive o prazer de acompanhá-lo durante sua passagem pelo RS, antes de seguir viagem, como turista, para o Rio de Janeiro...


Dia 1 - Terça-feira
Originalmente, Lamberto e sua esposa cubana Ileana chegariam na noite de segunda-feira, mas um problema com o voo adiou a chegada para a manhã de terça-feira. Lá vou eu buscar o casal no Aeroporto Salgado Filho.

Reconheci Bava sem maiores problemas - um italiano atarracado como ele não passa desapercebido -, e então percebi que ele e a mulher vestiam roupas leves para um clima tropical, e o inverno gaúcho estava de rachar! Para piorar a situação, a bagagem deles havia ficado retida no Rio de Janeiro, numa daquelas clássicas palhaçadas de nossas empresas aéreas, então o convidado teve que passar frio até a noite, quando suas malas finalmente chegaram a Porto Alegre.

No táxi a caminho do hotel, usei meu inglês improvisado para conversar sobre filmes e a carreira de Lamberto, que respondia num inglês macarrônico tão improvisado quanto o meu (porque apesar de entender razoavelmente bem o italiano, não conheço o suficiente para manter uma conversação no idioma).


Ainda no táxi, uma revelação. Perguntei a Bava se era sua primeira viagem ao Brasil, e ele disse que sim. Então pedi se não havia conhecido a parte brasileira da Amazônia durante as filmagens do clássico "Cannibal Holocaust" (1980), de Ruggero Deodato, em que é creditado como assistente de diretor.

Lamberto então confessou que nunca pisou na Amazônia nem participou das filmagens de "Cannibal Holocaust", e que Deodato colocou seu nome nos créditos apenas porque tinha uma equipe muito pequena e queria fazer com que parecesse maior!!! Ah, a velha picaretagem italiana...

Entretanto, me contou Lamberto, ele foi assistente de diretor de Deodato em outro filme sobre canibalismo, o anterior "O Último Mundo dos Canibais" (1977), filmado na Malásia e nas Filipinas.

Ao lembrar do filme, ele mostrou pequenas cicatrizes na mão direita e relatou: "Isso é uma lembrança daquela filmagem. Tinha uma cena em que uma cobra enorme era mostrada rastejando pelo chão. Para filmar isso, nós soltávamos uma cobra que tínhamos numa gaiola, a cobra fugia rastejando, Deodato filmava e então precisávamos apanhar a cobra para fazer um novo take. O correto é pegar a cobra logo abaixo da cabeça, pois aí ela não pode morder. Mas depois de vários takes eu estava cansado e fui pegá-la mais embaixo, e então ela teve espaço para virar a cabeça e me encher de mordidas na mão!". Nem a esposa Ileana sabia dessa história, pela maneira assustada como olhou para as cicatrizes na mão do velhinho...

Falei a Lamberto que naquele primeiro dia exibiríamos quatro clássicos do seu pai, inclusive "The Whip and the Body", e ele se espantou ao saber que esse filme foi lançado nos cinemas brasileiros como "Drácula, O Vampiro" apenas por ter Christopher Lee no elenco (sendo que não há nenhum vampiro no filme, muito menos Drácula!). A sessão comentada pelo diretor naquela noite seria a do grande clássico de seu pai, "A Máscara de Satã".

Aproveitei para ir direto ao assunto: Lamberto dirigiu, em 1989, um remake da obra-prima do pai, e um filme tão ruim que nunca chegou a ser oficialmente lançado em lugar algum (no Japão, saiu em VHS como "Demons 5"!).

Originalmente, como curador, eu pretendia exibi-lo no Fantaspoa, até para que o público pudesse comparar o abismo de qualidade entre as duas versões, mas não encontramos uma versão com imagem boa o suficiente para exibir na tela grande. Expliquei isso a Lamberto e pedi se era verdade que ele não gostava da sua refilmagem, algo que tinha lido em algum lugar séculos atrás.

Para minha surpresa, ele não apenas disse gostar do estapafúrdio remake (que é mesmo muito ruim) como defendeu supostas qualidades da obra que eu não lembro de ter visto. Em todo caso, o "Mask of Satan" de Lamberto certamente entrou para a história como um daqueles raros casos em que o filho resolveu refazer um clássico do pai - e é uma pena que não conseguimos exibi-lo no Fantaspoa! (Numa dessas noites, num boteco, César "Coffin" Souza quase teve um treco quando citei este remake e pôs-se a xingá-lo das maneiras mais escabrosas!)

Após um rápido almoço com apresentações formais aos organizadores do festival, João Pedro Fleck e Nicolas Tonsho, Lamberto entregou-me o DVD de sua produção mais recente, um filme produzido para a TV italiana chamado "Presagi" (no Fantaspoa, "Presságio"). Como ele seria exibido na noite de quinta-feira, eu tinha menos de dois dias para fazer as legendas em português da obra.

As primeiras cenas de "Presságio" são promissoras: mostram uma menina vestida com capa-de-chuva vermelha ("Inverno de Sangue em Veneza"?) sendo perseguida por um homem de capa e chapéu pretos, figura típica dos filmes giallo. Infelizmente, o restante do filme cai na burocracia dos telefilmes - e a falta de violência ou cenas mais fortes é compensada com uma quantidade absurda de diálogos que o pobre coitado aqui teve que legendar.


À noite, fui buscar Lamberto e Ileana no hotel para a sessão comentada de "A Máscara de Satã". Aproveitei para perguntar se a menina de vermelho em "Presságio" era citação ao clássico de Nicolas Roeg, mas Bava desconversou: "Não, não, é uma referência a Chapeuzinho Vermelho". Tá bom...

Bava não quis ver pela milésima vez o filme do seu pai, então ficamos num restaurante ao lado do Cine Bancários, onde vários participantes do festival se encontravam para jantar antes das sessões da noite. Grandes fãs de Lamberto ficavam distantes, meio tímidos, e tive que chamá-los para apresentar formalmente ao "maestro".

Um deles foi Rodrigo Aragão, que estava lançando "A Noite do Chupacabras" no Fantaspoa e confessou seu amor por "Demons". Na foto abaixo, Aragão, eu, Bava e o zumbi do "Mangue Negro", grande filme do diretor brasileiro:


Na hora da sessão comentada, o organizador do Fantaspoa João Pedro me chamou para sentar ao lado de Lamberto e da tradutora de italiano, algo que se repetiu nas noites seguintes, para o meu desespero - ficar sentado calado diante de uma sala de cinema lotada não é minha praia.

Para tentar ser útil, resolvi fazer perguntas a Bava quando o público, por timidez, ficava mudo. Fui eu que pedi que ele falasse sobre seu remake de "A Máscara de Satã", por exemplo - mas tenho certeza que algum dos presentes na sessão, como Carlos Primati ou Carlos Thomaz Albornoz, acabaria fazendo a mesma questão.

Novamente, Lamberto falou com carinho do seu remake. Mas, se você ainda tem alguma dúvida sobre qual é o melhor, compare as imagens do original e da refilmagem abaixo:


Foi uma noite tranquila e de poucas perguntas, já que todo mundo queria mesmo era pegar autógrafo e foto ao lado de Lamberto, o que aconteceu depois da sessão. Percebi o enorme cansaço do convidado, que não havia dormido quase nada desde sua chegada ao Brasil, mas mesmo assim ele foi simpático, prestativo e não arredou o pé do cinema até dar seu último autógrafo, quando finalmente pediu que eu o acompanhasse de volta ao hotel porque não aguentava mais. Terminava o dia 1.


Dia 2 - Quarta-feira
Envolvido com a legendagem de "Presságio", só encontrei Lamberto no final da tarde.

Conversamos muito sobre cinema de horror italiano, histórias em quadrinhos (que lá eles chamam de "fumetti") e sobre a série de filmes de fantasia infanto-juvenil que ele dirigiu nos anos 90, "Fantaghirò", que foi um clássico do Cinema em Casa do SBT durante praticamente uma década.

Nesse ponto, talvez surpreso pela quantidade de cultura inútil sobre cinema que eu demonstrava (conhecendo alguns dos seus filmes melhor do que ele próprio!), Bava perguntou como eu sabia tanto sobre ele e seu pai Mario. Respondi que era fã e pesquisador de cinema desde a adolescência, ao que Lamberto respondeu: "Bravo, bravo".

Ainda na conversa sobre quadrinhos, falávamos sobre "Perigo: Diabolik", dirigido por Mario, quando Lamberto surgiu com uma curiosidade sobre a qual jamais tinha ouvido falar. Disse-me que, por conta de sua primeira esposa, acabou tornando-se parente do diretor argentino naturalizado brasileiro Hector Babenco (de "Carandiru" e "Pixote - A Lei do Mais Fraco").


Não me lembro direito qual era o grau de parentesco da sua ex-mulher com Babenco, mas o lance é que o jovem Hector, alguns anos antes de iniciar sua carreira como diretor, foi à Itália a convite de Lamberto para assistir as filmagens de "Perigo: Diabolik", quando teria feito uma ponta como um dos policiais que admiram a "estátua de ouro de Diabolik" na cena final!

Portanto, na próxima vez que vocês forem rever "Perigo: Diabolik", não esqueçam de prestar atenção num argentino com jeito atrapalhado na cena final: segundo Lamberto, ele é o próprio Hector Babenco!

Nesta noite, a sessão comentada foi sobre "Cani Arrabbiati" (1974), um dos grandes filmes de Mario Bava, e provavelmente o mais amaldiçoado. E lá estava eu outra vez, sentado ao lado de Lamberto e tentando fazer cara de inteligente (foto abaixo).


Após anos dirigindo filmes de horror gótico, este policial violento representaria um grande ponto de virada na careira de Mario, mas o produtor faliu e os negativos ficaram retidos pela justiça italiana como parte do seu espólio até os anos 90. Mario, portanto, nunca viu o filme pronto e exibido na tela grande, já que ele só ficou pronto uma década depois da sua morte.

Finalmente, em 1992, foi lançada uma primeira versão com o título em inglês "Rabid Dogs", mas Lamberto nunca a aprovou, conforme confirmou na sessão comentada - disse que era mais um copião das cenas filmadas pelo pai do que uma edição digna do que ele queria fazer.

Assim, junto com o produtor Alfredo Leone, o próprio Lamberto apropriou-se do material, reeditando-o, filmando novas cenas e relançando-o em 1996 com o título "Kidnapped". Esta foi a versão exibida no Fantaspoa.

Mais uma vez, o convidado não quis ver o filme inteiro, limitando-se a dar uma espiada pela porta para ver a cena final. "Que imagem maravilhosa", elogiou, surpreso com a qualidade da versão exibida.

Depois, na sessão comentada, o filho de Mario contou que foi complicado encontrar veículos dos anos 70 para poderem refilmar algumas cenas que foram adicionadas à edição. "Sua" versão também tem um final novo, razoavelmente diferente da conclusão original. Música e créditos iniciais também são diferentes, e a edição é mais rápida e dinâmica.

Apesar disso, eu ainda prefiro o final da primeira versão lançada, que era muito mais macabro e filho da puta...


Dia 3 - Quinta-feira
Perto do meio-dia, eu estava concluindo as legendas de "Presságio" quando recebi a missão de fazer um passeio de ônibus pelo subúrbio de Porto Alegre com Bava e sua esposa. Esse passeio é uma verdadeira armadilha para turistas (já tinha feito com Luigi Cozzi no Fantaspoa do ano passado), 1h30min dentro de um ônibus que nunca pára e passa por raros locais interessantes. Meio contra a vontade, aceitei minha missão, mais pela oportunidade de passar o tempo papeando com Lamberto.

Dito e feito: após uns 10 minutos, o próprio Bava percebeu que havia pouco de interessante para ver naquele passeio, e, embora eu tenha tentado traduzir para o italiano algumas das informações sobre o Rio Guaíba e os prédios históricos porto-alegrenses, a conversa logo enveredou para anedotas da passagem de Cozzi pelo Brasil em 2010, características italianas da minha cidade-natal (fundada por imigrantes italianos) e, claro, cinema.

Quando a conversa chegou em Quentin Tarantino e sua paixão pelo cinema italiano, Bava contou que, numa das muitas visitas de Tarantino a Roma, os dois se encontraram e o diretor de "Bastardos Inglórios" disse que seu filme preferido de Lamberto, para a surpresa do próprio, era "Blastfighter" (1984), uma aventura estrelada por Michael Sopkiw.

O bate-papo sobre cinema italiano oitentista foi tão animado que Lamberto decidiu que queria ver um dos seus filmes à tarde, "O Assassino da Meia-noite" ("Morirai a Mezzanotte", 1986, nunca lançado no Brasil). A sessão tinha um público reduzido, mas fiquei honrado com a oportunidade de ver um filme sentado ao lado do seu diretor.

Como se estivesse gravando a faixa de comentário de um DVD, Bava ficava falando o tempo todo sobre sua obra - mas os comentários eram sobre como ele não lembrava quase nada do filme! Quando rolavam os créditos iniciais, por exemplo, ele perguntou: "Mas quem fez essa música?". Surge o crédito: Claudio Simonetti. "Ah, Simonetti, claro, só podia ser!".

A versão exibida era falada em italiano, o que deixou o diretor mais animado. Depois de meia hora de filme, entretanto, ele me cutucou e pediu para sair da sessão. Na rua, quando eu o escoltava até o hotel, Lamberto disse, envergonhado, que não lembrava do filme. "É como se outra pessoa tivesse dirigido!", afirmou.

O mais engraçado, porém, foi quando Bava me perguntou quem era o assassino do filme!!! Contei-lhe a revelação do final e ele fez uma expressão de surpresa, como se nunca tivesse visto "Morirai a Mezzanotte" antes. "Ah é? Faz sentido...", comentou, e então emendou uma declaração simplesmente genial: "Até que é uma revelação inteligente".

Após um breve descanso, nos encontramos para a estréia de "Presságio" na sessão comentada das nove da noite. Bava estava surpreendentemente nervoso pela primeira vez, e justificou dizendo que o filme foi feito para a televisão e essa seria a primeira vez que ele o assistiria num cinema, com o público, portanto não sabia que reação teriam os espectadores.

"Presságio" é mesmo bem fraquinho (embora seja válido destacar a ótima interpretação do norte-americano Craig Bierko). Mas o público educadamente compreendeu que estava diante de um produto televisivo e poupou Lamberto de maiores críticas. Preferiram fazer perguntas sobre outros filmes exibidos no dia, como "A Blade in the Dark", infinitamente mais interessante.


O diretor depois distribuiu mais alguns autógrafos. Quando Leandro Caraça, do Viver e Morrer no Cinema, pôs diante dele a capinha do VHS de "O Quebra-cabeça" ("Body Puzzle", 1992), Bava ficou encucado: "Mas que filme é esse?". Não reconheceu a foto genérica da capa, com uma cena sangrenta que, pelo que me lembro, nem está no filme. Quando eu disse que era "Boddy Puzzle", Lamberto ficou emocionado: "Não vejo esse filme há 20 anos! Vai passar aqui? Eu gostaria de rever". Para nossa sorte, a sessão de "Body Puzzle" seria no dia seguinte, antes de "Demons"...

Na saída, Bava pediu para conhecer um pouco da noite porto-alegrense. Queria ver samba, o que me deixou numa encruzilhada: como mostrar samba em pleno inverno gaúcho? A solução foi tentar entretê-lo com um show de bossa nova no Odeon, um pequeno barzinho próximo ao cinema, onde, após vários chopps, Lamberto entrou no clima de avacalhação, inclusive tirando fotos fazendo caretas.

Interessante é que Luigi Cozzi foi levado ao mesmo bar em 2010 e pacientemente deu papo para um bêbado chato que ficou lhe torrando a paciência. Bava escapou disso, mas teve que aguentar outro bêbado chato: seu curador e cicerone Felipe (abaixo)!



Dia 4 - Sexta-feira
Sexta era o "Dia D" da Retrospectiva Bava no Fantaspoa. Dia D literalmente: à noite, numa sessão concorridíssima, seria exibido "Demons", o grande clássico do diretor.

Ao meio-dia, nos encontramos todos numa churrascaria para a tradicional overdose de carnes do italiano. É interessante destacar que, na sua chegada ao Brasil, Lamberto disse que queria conhecer a culinária brasileira e ao mesmo tempo manter distância da comida italiana. Nas palavras do próprio, "No pasta!" (Nada de massas).

Corajoso, ele não arregou diante de feijoada, mocotó e cortes de carnes diferentes; provou guaraná, caipirinha, cachaças e até a graspa brasileira. Na churrascaria, Bava fez a festa junto com outros convidados, como o simpático casal Kyle Rankin e Emily Janice Card (ele dirigiu o divertido "Nuclear Family") e os argentinos Hernán Moyano e Marina Glezer (roteirista e atriz de "Suor Frio").

À tarde, os hermanos quiseram ir até uma videolocadora em busca de DVDs de filmes brasileiros. Lamberto foi junto, mas não encontramos filmes de José Mojica Marins para vender, que era justamente o que todos procuravam (Hernán só conseguiu o recente "Encarnação do Demônio"). Quando lembro que esses filmes do Zé do Caixão eram vendidos a R$ 9,90 nos balaios das Americanas em São Paulo, me dá vontade de comprar uns 50 e vender a peso de ouro para os gringos no Fantaspoa 2012...

Após uma rápida visita à Usina do Gasômetro e à exposição da obra de Kenneth Anger, Lamberto foi para a sessão de "O Quebra-cabeça" - depois inclusive ganhou o DVD importado, inédito na Europa, de presente do organizador do Fantaspoa, João Pedro.

Bava tem melhores lembranças de "Body Puzzle" do que de "Morirai a Mezzanotte", mas se espanta com algumas cenas (segundo ele, hoje faria tudo diferente). Diz que a atriz Joanna Pacula era muito frígida e não conseguiu arrancar dela a atuação desejada.

Ele não pareceu incomodado com as risadas do público diante de cenas verdadeiramente imbecis do filme, como quando o assassino mata uma de suas vítimas numa piscina - e, apesar da água ser transparente, a tal vítima não enxerga um sujeito mergulhado que nada em sua direção com uma faca! Como aconteceu no dia anterior, Lamberto não aguenta o próprio filme até o fim, saindo da sala quando faltam 15 minutos para terminar.

O público começa a chegar para a sessão de "Demons", tomando o hall de entrada do Cine Bancários. Enquanto o filme não começa, aproveito para gravar depoimentos em vídeo de Lamberto sobre "Demons", "Roleta Macabra" (outro de seus filmes exibido no Fantaspoa, e que para mim é um guilty pleasure) e seu remake de "A Máscara de Satã".

Bebemos caipirinha, chopp e champanhe depois, num rápido coquetel realizado como parte da homenagem à carreira do diretor, que recebeu uma placa comemorativa dos organizadores do Fantaspoa.


Finalmente, "Demons" começa com sala lotada e gente sentada nas escadas (foto acima). "Tem que deixar espaço para a moto passar", brinca alguém, lembrando a cena mais antológica do filme.

Assistir um clássico da nossa juventude no cinema pela primeira vez é uma experiência única - ainda mais considerando que os horrores da trama se passam também dentro de um cinema!

E foi o único filme além de "Presságio" que Lamberto viu inteiro, sentado entre fãs que riam e vibravam durante a sessão inteira, contagiando o diretor (cada frase do cafetão interpretado por Bobby Rhodes gerava um festival de sonoras gargalhadas, inclusive do próprio Lamberto!).

Seguiu-se a sessão comentada, quando Bava explicou que "A Catedral", de Michele Soavi, surgiu de um roteiro não-filmado para "Demons 3".

Na saída do cinema, mais um festival de autógrafos e fotos que Lamberto encarou com alegria e entusiasmo, aparentando felicidade por ver que seu grande filme, lançado no hoje longínquo 1985, ainda funciona, inclusive para as novas gerações.

Bava ainda ficaria em Porto Alegre no sábado, mas é a hora da despedida - eu tinha outros compromissos no dia seguinte. Ele me agradeceu por tudo e confessou ter ficado surpreso por participar de um festival em que todas as suas despesas, inclusive com alimentação e bebedeiras, eram pagas pelos organizadores (o que não acontece em eventos maiores lá fora).

Ainda autografou-me um pôster de "Demons" com a frase: "Ao Felipe com carinho, tchau e obrigado por tudo". Finalmente, nos despedimos com uma demonstração de carinho de Lamberto Bava pelo seu curador, cicerone e fã, como demonstra a foto abaixo: