WebsiteVoice

Mostrando postagens com marcador Enzo G. Castellari. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Enzo G. Castellari. Mostrar todas as postagens

domingo, 21 de março de 2010

MISSÃO COBRA (1986)


"Cobra Mission"... Não sei exatamente por que, mas sempre adorei este título. E assim como o Tarantino se apropriou do título "Inglorious Bastards" por gostar muito da obra do Enzo G. Castellari, o dia em que eu fizer um filme de ação e guerra também vou batizá-lo "Cobra Mission". Claro que isso não quer dizer que a produção barata italiana originalmente batizada com ele seja um clássico do gênero. Ou mesmo um bom filme.

Estamos nos anos 80. Os mesmos italianos que deixaram bem mais interessante um gênero tipicamente norte-americano (o western) agora tentam fazer o mesmo com os filmes sobre uma guerra tipicamente norte-americana, a do Vietnã. E tome produções baratas e repletas de tiros e explosões, copiando de "Rambo" a "Apocalypse Now", normalmente rodadas a toque de caixa nas selvas filipinas por diretores tão diferentes quanto Antonio Margheritti e Bruno Mattei.

MISSÃO COBRA foi inspirado principalmente por "Rambo 2 - A Missão", mas traz ainda um toque de "Braddock - O Super Comando" e "De Volta para o Inferno", aquele filme do Ted Kotcheff em que Gene Hackman liderava um pelotão de mercenários de volta ao Vietnã para resgatar seu filho prisioneiro de guerra.


A boa notícia é que essa produção de 1986 tem uma contagem de cadáveres mirabolante (semelhante à de "Rambo 4", feito 22 anos DEPOIS) e inúmeras cenas de explosões de praticamente todo tipo de veículo (caminhões, helicópteros, barcos...). É estrelada por Christopher Connelly ("Os Caçadores de Atlântida"), John Steiner ("Tenebre"), Manfred Lehmann ("Casablanca Express") e Oliver Tobias ("Mata Hari"). E tem pequenas participações de gente como Donald Pleasence, Gordon Mitchell, Ennio Girolami e até do diretor Enzo Castellari, aqui como ator. Também tem uma eficiente trilha sonora composta pelo especialista Francesco De Masi (uma de suas últimas, por sinal).

Quantas boas notícias, não é? Bem, agora vem a má: MISSÃO COBRA é dirigido pelo péssimo Fabrizio De Angelis, usando seu habitual pseudônimo Larry Ludman.

Como produtor, De Angelis foi responsável por alguns dos grandes filmes italianos dos anos 80, de "Zombie" e "The Beyond", do Lucio Fulci, a "1990 - Os Guerreiros do Bronx" e "Fuga do Bronx", do Castellari.

Como diretor, entretanto, o sujeito é uma nulidade, que só ganhou certa fama por ter dirigido a trilogia "Thunder" (aquela com Mark Gregory interpretando um índio metido a Rambo). O trabalho do homem vai do regular ao ridículo, e é claro que um especialista em ação faria a diferença no comando de MISSÃO COBRA. Ainda assim, pelo menos neste caso a ruindade geral do filme acaba transformando-o num passatempo bastante divertido.


Antes de mais nada, você precisa esquecer todas as leis da física e da lógica. Este é um daqueles filmes em que helicópteros explodem no ar, mas não são vistos caindo no chão; em que quatro homens de pé disparando metralhadoras, sem qualquer tipo de cobertura ou escudo, conseguem detonar um batalhão de 40 soldados sem tomar um mísero tirinho de raspão; em que granadas demoram de 3 segundos a 10 minutos para explodir, dependendo do tempo que o herói precisa para escapar do local da explosão, e por aí vai. Sabe, todas estas bobagens que você comenta em voz alta e entre risadas quando assiste ao filme com um grupo de amigos ao redor...

MISSÃO COBRA começa apresentando nossos "heróis": quatro fracassados veteranos do Vietnã cuja vida não vai nada bem. Roger Carson (Connelly) é um panaca casado com uma megera rica, e cuja única alegria consiste em jogar "Enduro" no seu velho videogame Atari (!!!); James Walcott (Steiner) é um perdedor que precisa empenhar suas medalhas conquistadas na guerra para faturar uma graninha; Mark Adams (Lehmann) é um homem que vive de bar em bar de beira de estrada, comendo as proprietárias em troca de uns trocos; e Richard Wagner (Tobias) está internado num hospital psiquiátrico, fingindo-se de louco para poder ganhar comida e hospedagem grátis!!!


Certo dia, Roger, James e Mike se encontram no casamento da filha de Roger. E, enquanto tomam uns tragos num boteco, descobrem pela TV que um prisioneiro norte-americano dos tempos da guerra conseguiu escapar de um campo de concentração no Vietnã (onde estava preso desde os anos 70) e voltar para os EUA. Curioso, o trio vai visitar um velho amigo da época, o major Morris (interpretado por Castellari), que está obcecado com a idéia de resgatar todos os prisioneiros norte-americanos que ainda estão apodrecendo nos campos de concentração vietnamitas.

E assim, sem mais nem menos, nossos heróis quarentões resolvem tirar o parceiro Mark do hospício e voltar para o Vietnã para tentar ganhar a guerra que seu país inteiro perdeu da primeira vez. E quando escrevo "sem mais nem menos", é porque é assim mesmo: o filme corta de uma cena em que um deles diz "Devíamos ir ao Vietnã dar uma olhada nestes campos de prisioneiros", para outra cena em que os quatro já estão em Saigon e prontos para a guerra, como se fosse a coisa mais simples do mundo (e vai saber de onde os fracassados tiraram o dinheiro para bancar a viagem e todas as despesas da operação...).

O mais engraçado é que o quarteto de veteranos nem ao menos tem um plano: eles não sabem onde ficam os campos de prisioneiros, não têm armas nem equipamentos, e muito menos apoio do exército para tocar adiante sua pequena operação - ao contrário do Rambo, por exemplo. Mesmo assim, tudo é facilitado para os caras no momento em que eles pisam no Vietnã. Primeiro, ganham uma grana preta de um ex-combatente que agora é proprietário de um cassino (!!!).


Depois, topam com um padre francês chamado Lenoir (Pleasence), que guarda um arsenal completo no porão da igreja (!!!) e, pelo visto, estava só esperando um grupo de desocupados aparecer para lhes entregar as armas. Para facilitar ainda mais, Lenoir também conhece bastante a região e até a localização dos campos de prisioneiros!!! Assim até eu...

O restante de MISSÃO COBRA é rotina: os quatro amigos perambulando pela selva e detonando inimigos com a maior facilidade. Eles chegam a um dos campos e conseguem libertar boa parte dos prisioneiros, entre eles o jovem Mike (que é interpretado por ninguém menos que Ethan Wayne, filho de uma das lendas do cinema americano, o eterno John Wayne!!!). Milagrosamente, apesar de os caras estarem presos há 10 anos, sendo torturados e agredidos de tempos em tempos, eles estão em perfeitas condições físicas para sair correndo e atirando de volta nos inimigos!

Com os vietcongues em seu encalço, nossos heróis passam o restante do filme metralhando e explodindo o que quer que apareça pela frente, enquanto quase todos os prisioneiros resgatados vão perdendo a vida pelo caminho (!!!), até restar apenas Mike. É então que o diretor De Angelis termina a trama de forma surpreendente (e totalmente debilóide), numa conclusão pessimista e trágica que é de deixar qualquer ser humano com vontade de dar um chute na TV!


Apesar de algumas tentativas de seriedade e de crítica social, felizmente, na maior parte do tempo, MISSÃO COBRA é apenas uma bobagem divertida. Nossos heróis são completos mentecaptos sem estratégia, que conseguem tudo na sorte - e também pelo fato de seus inimigos serem ainda mais burros. Uma cena histórica mostra o personagem de John Steiner posicionando-se na saída de uma casamata e mandando chumbo nos soldados que tentam correr por ali. E eis que, mesmo depois que os primeiros dez ou vinte caem fulminados pelas rajadas de metralhadora, os inimigos restantes continuam vindo correndo PELO MESMO LUGAR, somente para morrer como moscas e cair por cima dos cadáveres dos companheiros que tentaram passar pelo mesmo caminho, ao invés de voltar e buscar uma rota alternativa!!!

Porém o ponto alto da película é a forma como um dos heróis morre, não por causa das incontáveis rajadas de metralhadora dos inimigos, nem pelas muitas explosões, mas sim por culpa de um rabo-de-saia - uma prostituta que queria vingança pelas marcas de queimadura que cobrem seu corpo, provocadas pelo napalm jogado pelos americanos nos tempos da guerra! O mais incrível é a forma como o rapaz seduz sua futura algoz: simplesmente se aproxima da moça e larga um papo do tipo "Você me lembra uma garota que comi em Saigon e que logo depois morreu num bombardeio"!!!! hahahahaha.


Christopher Connelly, para mim, sempre foi um dos mais carismáticos atores destas tralhas italianas, ao lado de David Warbeck e Timothy Brent. Aqui, infelizmente, o roteiro não lhe dá muitas oportunidades. Já os veteranos Pleasence e Mitchell aparecem em duas cenas cada (o último como um general malvado que explica o "acordo" dos EUA com o Vietnã para manter os prisioneiros de guerra por lá); juntas, estas cenas não somam 5 minutos no total. E o finado John Wayne deve ter se revirado no túmulo com o desempenho do filho, que, além de não atuar, nem mesmo se envolve nas cenas de ação (pior é que o marketing da película exaltava justamente a presença do "filho de John Wayne" no elenco!!!).

É claro que existem filmes italianos de guerra (e especificamente sobre a Guerra do Vietnã) muito melhores do que este. Só para arrematar, cito um dos meus preferidos: "The Last Hunter", do Antonio Margheritti. Mesmo assim, MISSÃO COBRA é uma hilária e divertida aventura de guerra com o maior climão trash.


Só fico pensando o que é pior para os americanos: terem levado o maior laço na verdadeira Guerra do Vietnã (mesmo possuindo muito mais tecnologia e armamento que os pobres vietcongues que combatiam), ou terem que agüentar, até hoje, estas bisonhas e delirantes aventuras que insistem em mostrar seus soldados como heróis invencíveis, que sozinhos poderiam ter ganhado a guerra...

PS 1: O filme teve uma seqüência em 1989, dirigida por Camillo Teti. Entretanto, apesar do nome "Cobra Mission 2", não tem absolutamente nada a ver com o original, além do fato de também ser produzida por Fabrizio De Angelis.

PS 2: Quem foi criança/pré-adolescente no início dos anos 90 certamente tem boas recordações de um antiquíssimo jogo de RPG para computador chamado, justamente, "Cobra Mission". Ele marcou época pelo seu farto teor pornográfico, já que o jogador (normalmente recém-ingresso na puberdade) dividia a matança de inimigos com momentos em que precisava seduzir e satisfazer belas moças na cama! Ah, como era boa a juventude naqueles tempos politicamente incorretos...


*******************************************************
Cobra Mission/Operation Nam (1986, Itália)

Direção: Larry Ludman (aka Fabrizio De Angelis)
Elenco: Christopher Connelly, Oliver Tobias,
John Steiner, Manfred Lehmann, Ethan Wayne,
Donald Pleasence, Enzo G. Castellari,
Ennio Girolami e Gordon Mitchell.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

TUAREG - O GUERREIRO DO DESERTO (1984)


Quanto mais vezes revejo TUAREG - O GUERREIRO DO DESERTO (e só até esta semana foram umas 30, no mínimo), mais vezes me pergunto como é que esta produção ítalo-espanhola não se tornou um clássico do gênero. Afinal, fechando-se um olho para pequenos defeitos que revelam o baixo orçamento da película, o resultado é uma ambiciosa e bastante inspirada aventura épica, que consegue unir ótimas cenas de ação e violência (a especialidade do diretor italiano Enzo G. Castellari) com uma trama inspiradíssima e repleta de momentos poéticos (cortesia do escritor Alberto Vázquez Figueroa, autor do livro que deu origem ao filme). Pessoalmente, acho este o segundo melhor filme de Castellari, atrás apenas da obra-prima "Keoma".

Quem já leu o livro "Tuareg" sabe que é a história de Gacel Sayah, líder de uma aldeia de "tuaregs" (nome dado aos guerreiros que vivem no deserto), um personagem dúbio e originalíssimo: homem de honra, ele obedece, de maneira cega, às culturas e tradições milenares do seu povo (o que ele chama de "lei do deserto"), mas é completamente ignorante às leis da sociedade dita "civilizada". Em outras palavras, para ele, governo, exército, fronteiras entre países e outros tipos de "autoridade" não fedem e nem cheiram, bem como suas leis.


"Tuareg", o livro, não era de forma alguma uma história de ação. Pelo contrário, estava mais para um drama épico que narrava as terríveis provações de Gacel em uma terra dura (o deserto) e sua luta contra as injustiças dos civilizados, que não respeitavam suas tradições nem a sua cultura.

Infelizmente, nunca consegui encontrar nenhuma entrevista ou comentário de Figueroa sobre o filme de Castellari, mas acredito que o autor não deve ter gostado nada do que a italianada fez com sua obra, já que TUAREG - O GUERREIRO DO DESERTO adiciona uma boa dose de tiroteios e lutas à história original, criando algo que muitos críticos definiram como uma mistura de "Rambo" com "Lawrence da Arábia".

Gacel Sayah continua sendo o personagem principal, e confesso que sempre é um choque ver um guerreiro nômade do deserto com o rosto californiano e os olhos azuis do ator Mark Harmon (aquele mesmo que interpretou o professor boa-pinta no clássico da Sessão da Tarde "Curso de Verão").


Obviamente, Harmon aparece estrelando esta produção barata ítalo-espanhola anos antes da fama, quando só tinha feito alguns papéis secundários e participações em seriados de TV. Ele se tornaria astro nos EUA alguns anos depois (hoje estrela a série de TV "Navy NCIS"), e acredito que morre de vergonha desse seu início de carreira como guerreiro do deserto. É mais um ator que está na minha lista de "entrevistas que eu adoraria fazer algum dia", para questioná-lo sobre suas experiências no set do filme de Castellari, já que os repórteres "de verdade" não costumam fazer essa pergunta.

Passado o choque inicial, até que Harmon consegue convencer como um tuareg, já que passa a maior parte do tempo com o rosto todo coberto, ficando apenas com os belos olhos azuis à mostra.

Líder de uma pequena aldeia, Gacel Sayah é um dos guerreiros mais corajosos do deserto. No início do filme, um ancião conta a história da "grande caravana", com mais de mil homens, camelos e tesouros, que tentou cruzar um mítico deserto sem fim e desapareceu sem deixar rastros. Para espanto do ancião e dos seus ouvintes, surge nosso herói dizendo que atravessou a tal terra desolada sem fim não uma, mas duas vezes. Ou seja, o homem é foda!


Alguns dias depois, dois homens sedentos aparecem no acampamento. Gacel, honrando as milenares tradições de hospitalidade do seu povo (que dizem que ninguém pode negar abrigo a pessoas necessitadas cruzando o deserto), os recebe em sua aldeia. Mas logo surgem jipes do exército atrás dos dois hóspedes do tuareg.

Ele se recusa a entregá-los e tenta fazer valer a velha tradição, mas é claro que os soldados não a respeitam, dizendo que, ali, a lei são eles.

Os milicos então matam um dos homens e levam o outro com eles. Resultado: enfurecem o tuareg, que se sente desonrado e "indigno" por não ter conseguido proteger os "hóspedes". Segue-se 1h30min de um duelo solitário de Gacel contra todo o exército e até contra o governo do país!


Se TUAREG - O GUERREIRO DO DESERTO é um filmaço, parte do mérito se deve à força de seu herói: Gacel Sayah é um homem que não pára diante de nada, não tem medo da morte e não quer viver "desonrado", por isso lutará até o fim para libertar seu "hóspede" levado pelos militares.

Ele então descobre que o sujeito é Abdul El Kabir (Luis Prendes), presidente deposto do país, que estava fugindo do exílio.

Embora a luta sem trégua do tuareg ganhe a simpatia de um dos milicos, o capitão Razman (Paolo Malco, que trabalhou com Castellari em "Fuga do Bronx"), pois ele reconhece o guerreiro honrado que está enfrentando, o restante do exército sente-se humilhado pelas ações de Gacel e resolve caçá-lo e matá-lo a qualquer preço. Isso logo conduz às mirabolantes cenas de ação em câmera lenta, filmadas com a costumeira maestria maestria por Castellari.


Consta que o roteiro inicial de TUAREG - O GUERREIRO DO DESERTO teria sido escrito pelo próprio autor do livro, o espanhol Figueroa, junto com Vicente Escrivá. Mas Castellari garante que reescreveu a maior parte com a ajuda de seu colaborador de longa data Tito Carpi, mantendo apenas os diálogos de Figueroa.

Bem, para quem leu o livro, torna-se bastante óbvio que cenas como o ataque do tuareg à base onde Abdul é mantido prisioneiro só podem ser coisa de Castellari e Carpi!

Enquanto no livro Gacel penetrava silenciosamente na base, à noite, e cortava a garganta de todos os soldados enquanto eles dormiam, no filme temos uma mirabolante cena de ação onde Gacel encarna Rambo e sai fuzilando soldados em câmera lenta, além de usar galões de gasolina como se fossem explosivos para mandar metade da base para os ares!!!


Castellari também modificou o final original do livro, em que Gacel Sayah era morto pelo exército após cometer um crime que não pode ser explicado em detalhes aqui para não estragar a surpresa. O tal crime, porém, foi mantido no filme, garantindo um final trágico e bastante triste, que apenas realça a total ignorância do herói pelas "leis dos homens" (lembre-se que ele segue a lei do deserto).

Mas, ao invés de morrer, como nas páginas da obra literária, na telinha o tuareg absurdamente escapa com vida, e o filme ainda tenta dar um tom heróico à conclusão, quando na verdade é um desfecho totalmente irônico! Mas é bom ressaltar que essa nova conclusão acaba se encaixando perfeitamente no tom mais aventuresco adotado por Castellari no filme inteiro.

Para compensar a mudança no desfecho, TUAREG - O GUERREIRO DO DESERTO traz todas as melhores passagens do livro de Figueroa, como a dramática travessia pelo deserto sem fim (com direito ao consumo de corcovas de camelo para dar energia!!!); o momento em que o tuareg é cercado pelos soldados e obrigado a ficar sem água e sem comida no meio do deserto, acabando por beber o sangue quente do seu camelo (argh!!!) para não morrer de sede ou inanição, e ainda o encontro com o que sobrou da "grande caravana" desaparecida!


São cenas belíssimas, que o próprio escritor deve ter aplaudido, realçadas pela maravilhosa fotografia de John Cabrera e sublinhadas pela linda trilha sonora épica do mestre Riz Ortolani. Em algumas cenas, parece ter sido usado um filtro vermelho na lente da câmera, criando um clima tão desértico e quente que chega a deixar o espectador com sede no conforto da sua casa!

Assim, quem espera ver um típico filme desmiolado de ação como os que Castellari fez aos montes nos anos 80 (estilo "Guerreiros do Futuro" e "Fuga do Bronx"), irá se decepcionar. Ação há, mas não em doses cavalares, como em outras obras do diretor italiano. Em TUAREG - O GUERREIRO DO DESERTO, ele prefere adotar um tom mais poético e contemplativo (certamente a herança do roteiro original de Figueroa), mais centrado nos momentos solitários do tuareg no deserto e em seus diálogos inspirados, que revelam a estupidez da sociedade "civilizada" - como quando ele tenta entender porque Abdul passou 22 anos na cadeia e apenas quatro no poder, e mesmo assim acha que o sacrifício valeu a pena.


Além de Mark Harmon e Paolo Malco, outros nomes conhecidos aparecem no filme: o espanhol Aldo Sambrell (figurinha carimbada nos westerns de Sergio Leone) é o sargento Malick, um dos milicos linha-dura que querem a cabeça do tuareg de qualquer jeito; o italiano Antonio Sabato (de "Fuga do Bronx") é o capitão que se dá mal ao questionar as tradições milenares do herói; Romano Puppo e Massimo Vanni, que aparecem em quase todos os filmes de Castellari, aqui são dois soldados; Ritza Brown (de "Ator, A Águia Invencível") é a esposa de Gacel, e o próprio diretor Enzo aparece como um soldado que comanda uma sessão de tortura do tuareg - e, claro, acaba mal.

Apesar de ser uma ótima aventura, e apesar de todos os pontos altos mencionados ao longo do texto, TUAREG - O GUERREIRO DO DESERTO foi um fiasco de bilheteria, por razões bem óbvias: não conseguiu encontrar o seu público. Afinal, quem buscava um épico no estilo "Lawrence da Arábia" não estava a fim de ver tiroteios, explosões e muito menos Mark Harmon no papel de um guerreiro árabe falando inglês; já quem queria ver justamente tiroteios e explosões ficou decepcionado com o tom poético da maior parte do filme (há ação de menos, ainda mais depois da comparação com a série "Rambo").


Anos depois de seu lançamento, a obra tornou-se uma espécie de cult movie, principalmente depois das suas inúmeras reprises na TV (até hoje você encontra, em fóruns da internet, pessoas querendo saber o nome do filme em que o herói bebe o sangue do seu camelo).

Embora tenha se feito justiça tardia a este belo filme de Castellari, ele ainda não recebeu o devido reconhecimento, já que os DVDs que circulam no Brasil e no exterior são ripados de VHS sem a menor vergonha na cara, arruinando a belíssima fotografia original. Continuo esperando uma versão decente com imagem remasterizada e em widescreen.

No fim, este foi o último grande filme de Enzo, que depois se perderia em aventuras mais rotineiras, como o divertido "Lightblast" e o péssimo "Striker".

O próprio cinema italiano começou a entrar em decadência, e a maioria dos cineastas foi obrigada a trabalhar na televisão - o que aconteceu com o próprio Castellari. Uma pena, porque hoje dificilmente veremos um novo TUAREG - O GUERREIRO DO DESERTO saindo da terra da bota...


*******************************************************
Tuareg - Il Guerriero del Deserto/
Tuareg - The Desert Warrior (1984, Itália)

Direção: Enzo G. Castellari
Elenco: Mark Harmon, Luis Prendes,
Paolo Malco, Antonio Sabato, Aldo
Sambrell e Ritza Brown.

domingo, 3 de maio de 2009

LIGHTBLAST (1985)


Quando eu acabava de assistir LIGHTBLAST, fiquei imaginando o diretor Enzo G. Castellari e o roteirista Tito Carpi, alguns meses antes da produção do filme, compartilhando uma sessão de cinema de "Os Caçadores da Arca Perdida". Fascinado com a cena do derretimento do rosto dos vilões nazistas no filme de Spielberg, Castellari viraria para Carpi e iniciaria um diálogo mais ou menos assim:

- Caramba, Tito! Temos que fazer um filme assim!
- Mas Enzo, o Antonio Margheritti já está filmando uma série de cópias do Indiana Jones estreladas pelo David Warbeck, como "Os Caçadores da Serpente Dourada"...
- Você não entendeu: o que eu quero é fazer um filme onde as pessoas DERRETAM desse jeito!


E mais ou menos dessa forma pode ter surgido esta pequena e desconhecida produção misturando gêneros (policial, ação e ficção científica), em que o final de "Os Caçadores da Arca Perdida" é triplicado e temos pelo menos cinco derretimentos de pessoas muito legais em stop-motion.


Estas cenas, por sinal, são a principal atração de um filme um tanto rotineiro, que viraria produto descartável em outras mãos, mas acaba um tantinho acima da média por ter como diretor o hábil Castellari. Sem nunca deixar a peteca cair, o veterano Enzo recheou um roteiro raso como um pires (que pode ser reduzido a meia dúzia de linhas) com muitas cenas de ação, que tornam o resultado final bem melhor do que deveria ser.

LIGHTBLAST marca o início de uma época ruim para Castellari e para o cinema italiano em geral. Após o fracasso de seu ambicioso filme anterior, "Tuareg - O Guerreiro do Deserto" (1984), Enzo embarcou numa série de filmes padronizados para atingir o público norte-americano, sem muito destaque e anos-luz distante do que ele fazia antes, como "Striker" (1987, estrelado por Frank Zagarino), até acabar no comando do seriado de TV "Extralarge", com Bud Spencer.


O próprio LIGHTBLAST já tem aquela cara de produto de rotina para americano ver, com filmagens em San Francisco e a presença de um ator popular por lá, mas na época já meio decadente - Erik Estrada, astro do seriado "CHIPS" entre 1977 e 1983.

Erik interpreta um policial durão chamado Ronn Warren, que passa o filme inteiro perseguindo um cientista louco e psicótico, o dr. Yuri Sbovoda (Thomas Moore, aka Ennio Girolami, irmão de Enzo). O vilão desenvolveu um fantástico e mortífero raio laser, e ameaça a cidade com atos de terrorismo, pedindo dinheiro sob a ameaça de derreter pessoas com a arma.


A investigação do herói é relativamente descomplicada (ele encontra todas as pistas facilmente para identificar o cientista), e percebe-se logo que a investigação policial não será o grande destaque do filme. Na verdade, Castellari deu mais atenção para os tiroteios e perseguições de automóvel. Estas, para o leitor ter uma idéia, chegam a cansar, de tanto que se repetem: é praticamente uma perseguição de automóvel a cada 10 minutos.

Na conclusão, Warren persegue o veloz automóvel do vilão pilotando um igualmente veloz carro de stock-car (!!!), voando por aquelas ladeiras de San Francisco que já haviam sido imortalizadas na clássica perseguição do filme "Bullit", dirigido por Peter Yates em 1968. A cena serviria como lição para ensinar cabeças-de-bagre moderninhos a dirigir filmes de ação.


LIGHTBLAST é relativamente curtinho e, com 86 minutos repletos de ação, o espectador praticamente nem vê o tempo passar. Assim, acaba relevando os inúmeros furos de roteiro, e principalmente a inexistência de qualquer desenvolvimento dos personagens. O herói Warren, por exemplo, tem uma esposa, Jacqueline (Peggy Rowe), que só aparece em cena por alguns míseros minutos para ser baleada pelos vilões, e assim motivar uma vingança pessoal do policial contra a organização terrorista. Esta vingaça se dará através de incontáveis e mirabolantes tiroteios em câmera lenta, um dos artifícios preferidos do diretor Castellari.

A verdade é que o filme valeria apenas pelas cenas de derretimento de pessoas em stop-motion, que são muito bem feitas para uma produção barata como esta. Começa com um casal de adolescentes que está transando dentro de um vagão de trem e é acidentalmente destruído quando o dr. Sbovoda está testando o seu raio da morte. Depois vai para uma dupla de locutores de uma corrida de automóveis, derretida pelo vilão como "alerta" para o prefeito de San Francisco. Finalmente, termina com a típica justiça poética: o próprio cientista acaba morto pela sua arma!

Estes "derretimentos" são bastante violentos (clique na montagem abaixo para vê-la em tamanho ampliado), mas o filme ainda traz muitos e ensangüentados buracos de tiro à la Sam Peckinpah, não só no peito, como é tradicional, mas também na cabeça e no pescoço.


E há também tentativas de humor. No início do filme, Warren é enviado disfarçado de garçom para levar comida a uma dupla de seqüestradores que não pensa em se render(isso não tem nada a ver com a trama principal). Para não correr riscos, os meliantes exigem que o "garçom" compareça completamente nu, para não poder levar armas escondidas. E assim somos brindados com uma divertida cena em que Erik Estrada, metido numa ridícula cueca preta, dá cabo dos dois seqüestradores usando uma pistola com silenciador escondida dentro de um frango assado!!!

Talvez o grande problema de LIGHTBLAST - problema este que faz o filme ser tão facilmente "esquecível" - é a falta de um protagonista forte ou mais simpático. Afinal, quem engole Erik Estrada como mocinho fora da série "CHIPS"? Fosse um Franco Nero ou Fabio Testi no papel principal, o resultado seria completamente diferente. Do jeito que está, resta um herói pouco simpático, sem muita motivação, totalmente inexpressivo e apagado, que você esquece horas depois de ver o filme, lembrando apenas das ótimas cenas com efeitos especiais. Não tivesse a violência característica do cinema de Castellari, poderia até ser uma produção feita para a TV, tal a rotina das situações apresentadas.


LIGHTBLAST acabou se tornando uma peça rara na filmografia do italiano. Circula em raras cópias VHS e em alguns DVDs estilo Works Filmes, com cópia retirada da velha fita de vídeo mesmo, mas sem nenhuma remasterização. No Brasil, ele foi lançado em VHS pela Look Vídeo como "A Máquina do Extermínio", em outra fitinha que logo acabou se tornando raridade.

Via Emule ou torrents, infelizmente, a única maneira de localizar o filme é numa versão dublada em italiano, por sinal gravada direto da TV italiana. Mas, para quem quiser ter uma idéia, há algumas cenas da versão em inglês no YouTube, inclusive um dos derretimentos de pessoas.

E se o filme está longe de ser uma das grandes obras de Enzo G. Castellari, ainda assim diverte e traz algumas cenas bem acima da média. Afinal, até os filmes mais fraquinhos do diretor são melhores que muita bobagem que se faz hoje com um orçamento infinitamente maior - e por gente infinitamente MENOS talentosa!

Veja o derretimento de pessoas em LIGHTBLAST


****************************************************************
Colpe di Luce/ Lightblast (1985, Itália)
Direção: Enzo G. Castellari
Elenco: Erik Estrada, Thomas Moore (Enio
Girolami), Michael Pritchard, Peggy Rowe
e Massimo Vanni.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

THE BIG RACKET (1976)


Se tivesse Clint Eastwood no papel principal, THE BIG RACKET (inédito no Brasil; traduzido literalmente, o título ficaria "O Grande Golpe" ou "O Grande Crime") poderia muito bem passar por "prequel" do clássico "Perseguidor Implacável", dirigido por Don Siegel em 1971, e que trazia Eastwood no papel do violento policial Dirty Harry. Enquanto o filme de Siegel já começava com Harry mostrando métodos pouco ortodoxos de combate ao crime e uma total falta de confiança na justiça convencional, THE BIG RACKET explica como um policial correto, determinado e honesto acaba se transformando numa versão macarrônica de Dirty Harry ao encontrar bandidos que usam as brechas da justiça para escaparem do merecido castigo.

Dirigido por Enzo G. Castellari em 1976, na esteira do sucesso de policiais violentos como "Operação França", o próprio "Perseguidor Implacável" e "Desejo de Matar", este ainda obscuro filme de ação italiano mostra porque não é nenhum pecado dizer que Castellari, um dos meus diretores preferidos, é a versão italiana do norte-americano Sam Peckinpah: com apurada técnica e muito estilo, Enzo dirige as (muitas) cenas de ação da obra como se estivesse coreografando um número de ballet clássico, usando e abusando de violentos e estilizados tiroteios, toneladas de slow-motion (a popular câmera lenta) e criativos movimentos e trucagens de câmera (como aquela que acompanha o personagem principal dentro de um carro capotando).

O policial correto, determinado e honesto da vez é o inspetor Nico Palmieri (interpretado pelo sempre simpático Fabio Testi). Junto com o parceiro e amigão Salvatore (Sal Borgese), Palmieri está caçando obsessivamente uma gangue de arruaceiros que usa violência e vandalismo para convencer comerciantes de Roma a pagarem por "proteção", como faziam os mafiosos dos anos 20-30. A seqüência de créditos iniciais inclusive mostra diferentes ações dos bandidos, destruindo mercadorias e arrebentando vitrines, sempre em câmera lenta.

Crimes em slow motion



Certo dia, enquanto segue a quadrilha de carro, o inspetor descobre que o problema é maior do que aparenta: os arruaceiros na verdade integram um grande esquema de pilantragem (o "racket" do título original), que pretende ampliar seus "serviços" para o país inteiro, unindo todas as famílias mafiosas italianas sob o comando de um misterioso gângster inglês (Joshua Sinclair). O bandidão pretende centralizar todas as atividades ilegais de Roma sob seu comando, mais ou menos como o Rei do Crime dos quadrinhos da Marvel.

Quando Palmieri é pego no flagra bisbilhotando, os implacáveis integrantes da quadrilha nem se importam com o fato de ele ser policial: simplesmente rolam seu carro até que despenque de uma colina (o próprio Testi protagoniza a arriscada cena, filmada com a câmera dentro do carro enquanto o veículo rola ladeira abaixo, fazendo com que o ator receba uma chuva de vidro moído!).

Nosso herói passa uns dias se recuperando no hospital, e quando sai intensifica sua ação sobre a quadrilha. Mas suas tentativas de botar os bandidos atrás das grades sempre esbarram na Justiça, já que os marginais são espertos o suficiente para usar as brechas das leis ao seu favor - chega a ser revoltante o fato de um batalhão de advogados sempre conseguir tirar os sujeitos da cadeia, mais ou menos como acontece até hoje no Brasil. Pior: quando Luigi (Renzo Palmer), um dos comerciantes agredidos por membros do "racket", finalmente aceita testemunhar contra a quadrilha, os bandidos seqüestram e estupram sua filha de 15 anos, que morre após a agressão.

E Palmieri vai agüentando tudo no osso, tentando fazer a coisa da forma certa, dentro da lei. Ele até coloca um informante no mundo do crime, um velho batedor de carteiras chamado Pepe (o norte-americano Vincent Gardenia), para tentar prever os passos do "racket". Mas fica sempre de mãos amarradas para agir. Até que Salvatore é friamente executado pelos bandidos com tiros de metralhadora.

Afastado da delegacia pelos seus superiores, já que estava "fechando um olho" para os roubos do seu informante Pepe, Palmieri resolve que vai acabar com a quadrilha à sua maneira. E, como se trata de um filme de Castellari, já sabemos qual é esta "maneira": sangrentos tiroteios em câmera lenta. Não é por nada que a frase do cartaz de cinema é: "Alguém vai ter que pagar!"...

O diferencial de THE BIG RACKET em comparação a outros filmes com policiais durões da época de ouro dos poliziotteschi é que Nico Palmieri não aparece como o exército de um homem só, tão bem representado em outras produções por atores como Franco Nero e Maurizio Merli. Assim, para eliminar o "racket", que é formado por dezenas de marginais, o herói resolve recrutar vítimas da quadrilha que também perderam algo valioso por causa dos bandidos, como sua ex-testemunha Luigi, o bandido Pepe e Giovanni (Orso Maria Gerrini), um atirador olímpico que teve a esposa estuprada e queimada viva pelos criminosos, entre outros, numa espécie de mistura de "Os Doze Condenados" com "Desejo de Matar". Juntos e com armamento pesado, eles partem para um último confronto com o "racket".

Mas o Homem de Ferro não era o Robert Downey Jr.?



Em filmes de vingança, como este, a hora de dar o troco sempre é doce, para os personagens e para o espectador. Mas poucas vezes eu torci tanto pela morte dos antagonistas quanto neste filme. Os marginais do roteiro de Castellari, Massimo De Rita e Arduino Maiuri são um rascunho dos demônios do inferno. Além do cinismo com que cobram a proteção ("É como se você estivesse pagando taxas", minimiza um deles, ao ameaçar um comerciante), os bandidos são tão frios e sádicos que chega a dar nojo, como na cena em que um dos capangas mija sobre o corpo nu de uma mulher que acabou de estuprar, diante do olhar do marido atacado. Mais adiante, o chefão do "racket" orienta seus comandados que, se alguém não quiser pagar a proteção, basta matar um filho ou uma filha e ninguém mais irá se rebelar, isso com a maior frieza e naturalidade do mundo!

E como o roteiro deixa seus pobres heróis (incluindo Palmieri) com as mãos amarradas o tempo todo, chega a ser um alívio quando eles finalmente resolvem partir para o contra-ataque, com direito a quase pornográficas cenas em slow-motion dos bandidos sendo alvejados com tiros de grosso calibre (Peckinpah ficaria orgulhoso de ver o estilo que ele ajudou a popularizar atingindo a perfeição). E cada bandido que cai crivado de chumbo é um sorriso de satisfação a mais para o espectador!

Além do mérito de criar uma narrativa mais realista e pé no chão do que outros poliziotteschi do período, sem apelar para heroísmos exagerados dos protagonistas, THE BIG RACKET também tem o mérito de não negar fogo no quesito ação, com inúmeros tiroteios e pancadarias na narrativa. O único ponto fraco, pelo menos na minha opinião, é a desajeitada tentativa de incluir algumas cenas de artes marciais na narrativa (Nico e Salvatore ensaiam uns golpes contra os bandidos em duas cenas), talvez visando o público que curtia as produções de ação made in Hong-Kong. Mas a coreografia não convence (os atores ficam "duros" dando os golpes nitidamente ensaiados), e Fabio Testi parece um peixe fora d’água lutando kung-fu.

Outro ponto fraco é uma desnecessária revelação final sobre um segundo chefão do "racket", e que estaria envolvido diretamente com a polícia, mas que não faz muita diferença àquela altura do campeonato.

Fora isso, THE BIG RACKET é recomendadíssimo e um dos grandes filmes dos gêneros "vingança" e "men on a mission" já produzidos, de deixar envergonhados os responsáveis por recentes aventuras absurdas na mesma linha, como o exagerado e inverossímil "Sentença de Morte", com Kevin Bacon, que meio-mundo babou ovo. E como uma imagem vale mais que mil palavras, vou ficando por aqui, pois estes vídeos do YouTube que postei já são uma referência bem melhor que qualquer resenha minha.

Para quem não conhece o cinema de Castellari e quer um referencial, aqui está um dos seus filmes mais perfeitos e bem produzidos, antes que ele se entregasse à loucura das aventuras absurdas de baixo orçamento, tipo "Fuga do Bronx" e "Guerreiros do Futuro". Praticamente um western moderno, que Sam Peckinpah aplaudiria de pé.

Trailer de THE BIG RACKET



****************************************************************
Il Grande Racket (1976, Itália)
Direção: Enzo G. Castellari
Elenco: Fabio Testi, Vincent Gardenia, Renzo
Palmer, Orso Maria Guerrini, Romano Puppo,
Joshua Sinclair e Sal Borgese.

sábado, 8 de novembro de 2008

1990 - OS GUERREIROS DO BRONX (1982)


Nem Sam Peckinpah, nem John Woo: o filme que me apresentou ao terrível estrago provocado no corpo humano por um tirambaço em câmera lenta foi o trash italiano 1990 - OS GUERREIROS DO BRONX, de Enzo G. Castellari!

Eu tinha lá meus 10 ou 11 anos de idade e adorei "Fuga de Nova York", que o SBT havia exibido alguns dias antes "pela primeira vez na televisão". Então, fui na videolocadora da minha cidade e pedi para a balconista algum filme que fosse parecido com "Fuga de Nova York". E ela me sugeriu 1990 - OS GUERREIROS DO BRONX.

Até os primeiros 20 minutos de filme, tudo estava tranqüilo. Mas foi então que Hammer, o personagem interpretado pelo saudoso Vic Morrow, disparou dois tiros de espingarda em slow-motion num cara e numa mulher desarmados.


O resultado é uma explosão de roupa e sangue no peito das vítimas, mostrada em câmera lentíssima, que impressionou este pobre pivete a ponto de esquecer completamente de qualquer outra cena do filme, mas lembrar até hoje, com riqueza de detalhes, daqueles estilhaços ensangüentados voando lentamente pelo ar...

Descontando o detalhe de ter tirado meu cabaço no quesito violência estilizada, o filme de Castellari nunca esteve entre meus preferidos: gosto muito mais da sua seqüência, "Fuga do Bronx", que é ainda mais violenta e absurda que o original.

Há algum tempo eu revi 1990 - OS GUERREIROS DO BRONX numa versão melhor, ripada de DVD e em widescreen, e me surpreendi com coisas que eu nem lembrava (será que foram cortadas da nossa antiga versão em VHS?). Continuo preferindo a Parte 2, mas já vejo este original com outros olhos: como um divertido filme de ação repleto de cenas, personagens e detalhes cômicos, no estilo "divertido de tão ruim".


Escrito por Dardano Sacchetti, Elisa Briganti e pelo próprio diretor Castellari, o roteiro desta divertidíssima tralha é "Fuga de Nova York" e "Warriors - Os Selvagens da Noite", de Walter Hill, batidos no liquidificador com uma pitada de "Laranja Mecânica".

Do primeiro, a aventura italiana roubou a ambientação: ao contrário de Nova York inteira se tornar um presídio de segurança máxima, como no filme de John Carpenter, aqui é o bairro nova-iorquino do Bronx que se transforma numa "terra de ninguém", comandada pelas gangues e abandonada pela polícia, no então distante ano de 1990, que era futuro na época (lembre-se que a produção é de 1982).

Já "Warriors" inspirou os personagens principais: coloridas e violentas gangues com figurinos berrantes e nomes tipo Riders, Tigers e Zombies. Só que os italianos exageraram na caracterização. Seus delinqüentes são tão exóticos e excêntricos quanto os de "Laranja Mecânica", e parecem mais figurantes de algum musical da Broadway do que bandidos sanguinários!


Há patinadores com capacetes brancos e tacos de hóquei como arma, uma gangue que usa carros dos anos 20 e roupas inspiradas na Máfia Italiana e até um bizarro grupo de dançarinos que luta sapateando e parece ter saído direto do clássico de Stanley Kubrick!!! Ah, não faltam nem os mutantes que vivem no subterrâneo, também "inspirados" em "Fuga de Nova York".

Como em "Warriors", os heróis são a "gangue boazinha" do pedaço: os Riders, motoqueiros durões (pelo menos se vestem como tal) que ficam zanzando pelo bairro em motos com enormes crânios de plástico sobre os faróis.

Eles têm nomes "machos" como Hawk e Blade, alguns deles combinam óculos escuros espelhados e roupas de couro com bigodões (como se estivessem num videoclipe do Village People), e são liderados por um garotão cabeludo que anda sempre de peito de fora e tem pinta de roqueiro popstar.


Seu nome: Trash - interpretado pelo inesquecível, de tão ruim, Mark Gregory, ou Marco di Gregorio, que sumiu da face da terra após interpretar Trash e o índio Thunder na trilogia "Thunder - Um Homem Chamado Trovão".

O filme começa com Ann (Stefania Girolami, filha de Castellari), uma jovem burguesa, fugindo da parte "rica" de Nova York para o desolado Bronx, onde cai nas garras dos terríveis Zombies. Por sorte, aparecem bem na hora os heróicos Riders, que despacham a quadrilha rival com violência (incluindo rosto cortado pelas lâminas na roda da frente de uma das motocicletas!!!).

O líder Trash apaixona-se por Ann e, ao perceber que ela foge de algum problema terrível, convida-a para ficar com ele no quartel-general da gangue. "Romeu e Julieta" versão pós-apocalíptica italiana? É mais ou menos por aí...


O tal problema de que Ann foge é um pouquinho mais complicado do que Trash pensa: ela é filha do presidente da Manhattan Corporation, megacorporação que, além de fabricar e vender armas para conflitos ao redor do globo, também é responsável por controlar Nova York - uma espécie de OCP, a multinacional que controla Detroit na série "Robocop".

Como é herdeira da maquiavélica empresa, está para completar 18 anos e vai ter que assumir a cadeira de presidente, Ann resolveu fugir do seu destino e se esconder no Bronx. Afinal, nada melhor para resolver um problema do que correr para uma "terra de ninguém" sem polícia e repleta de bandidos sujos e sanguinários, ainda mais quando você é uma burguesinha bonitinha, não é verdade?

Só que os figurões que controlam a Manhattan Corporation querem Ann de volta - eles pretendem usar a moça como fantoche assim que ela assumir o controle da empresa.


Seu poderoso tio, Samuel Fisher (Ennio Girolami, irmão do diretor, assinando com o pseudônimo Thomas Moore), descobre que ela está escondida no Bronx, e contrata um violento agente chamado Hammer (Morrow, em seu último filme antes de ser decapitado em acidente de helicóptero no set de "No Limite da Realidade") para resgatá-la.

O caldo engrossa porque Hammer é um psicopata. Seu plano é exterminar todas as gangues do Bronx, fazendo-as lutas umas com as outras, e Ann que se exploda no meio deste inferno.

Facilmente manipuladas pelo vilão através de pistas falsas que jogam um grupo contra o outro, as quadrilhas se preparam para uma guerra iminente, e somente Trash percebe que a história está mal contada. Ele então tenta se aliar aos rivais ao invés de destruí-los. Porém, até que a situação se resolva, muito sangue vai rolar.


O espectador antenado vai perceber que, de original, 1990 - OS GUERREIROS DO BRONX não tem absolutamente nada: além de chupar "Fuga de Nova York" e "Warriors" em iguais proporções, a trama básica deste bem-sucedido filme de ação italiano bebe muito da fonte de "Por um Punhado de Dólares", de Sergio Leone (e conseqüentemente do anterior "Yojimbo", de Akira Kurosawa, que inspirou Leone).

Como nestes dois clássicos, um personagem (neste caso, Hammer) se infiltra entre gangues rivais para semear a discórdia e levá-las a uma guerra mortal. O toque inovador (e politicamente incorreto) é que nas obras de Leone e Kurosawa o membro infiltrado era o herói da história, e na versão de Castellari é o vilão, enquanto as quadrilhas de delinqüentes ficam com o papel principal.


As cenas foram gravadas no Bronx, quando parte do elenco italiano viajou para os Estados Unidos, e em Roma, quando alguns dos atores norte-americanos fizeram o caminho inverso. O engraçado é que, nas cenas filmadas no Bronx, Castellari utilizou vários membros de um grupo de Hell's Angels como figurantes da gangue de Trash. Já nas cenas rodadas na Itália, a gangue diminui para meia-dúzia de pessoas, porque os Hell's Angels ficaram todos nos Estados Unidos! hahahaha

Uma atração à parte é o elenco fantástico, repleto de caras conhecidas do cinema classe B norte-americano e das picaretagens italianas da época. Além de todos os já citados, também aparecem o saudoso Christopher Connelly ("Os Caçadores de Atlântida", "Manhattan Baby"), como o caminhoneiro Hot Dog, que ajuda Hammer a se infiltrar no Bronx; Fred Williamson (astro blackspoitation dos anos 70, que havia trabalhado com Castellari em "Assalto ao Trem Blindado") como Ogre, o chefe da gangue dos Tigers; Joshua Sinclar (vilão em diversos filmes de Enzo) como Ice, membro da gangue de Trash que se revela um traidor; Massimo Vanni (outra figurinha carimbada dos filmes de Castellari) como Blade, o melhor amigo do herói; George Eastman ("Antropophagus") como Golan, o líder dos Zombies; e o próprio diretor Castellari como o vice-presidente da Manhattan Corporation.


O filme está repleto de momentos impagáveis, como o "climão" que rola entre Trash e seu amigo Blade quando este é encontrado à beira da morte, após ser atacado e torturado pelos tais mutantes subterrâneos. Além de verter lágrimas de tristeza, nosso herói faz afagos no cabelo do companheiro (cafuné, em outras palavras!) e ainda põe a cabeça dele encostada no seu ombro, no estilo "encosta a tua cabecinha no meu ombro e chora...". De se mijar de rir!

Já os nomes dos personagens são outro toque hilário da película: parece que os roteiristas abriram um dicionário de inglês e foram copiando palavras curtas que soassem sonoras. Só isso explica o fato de heróis e vilões usarem nomes como Trash (lixo), Hammer (martelo), Ogre (ogro), Ice (gelo), Hot Dog (cachorro-quente), Blade (lâmina), Hawk (águia) e Leech (sanguessuga).


Comparando com a seqüência "Fuga do Bronx" (que foi feita já no ano seguinte, 1983, e tem pouca ou nenhuma conexão com o original), 1990 - OS GUERREIROS DO BRONX tem menos ação, já que a continuação é nitroglicerina pura, com uma das maiores contagens de cadáveres da história do cinema de ação.

Não que este primeiro filme negue fogo: a contagem de cadáveres é reduzida, mas há uma grande quantidade de lutas e tiros para agradar aos fãs de Castellari, embora ele desta vez economize na sua marca registrada, as cenas em câmera lenta.

Um problema sério do filme é que, por algum misterioso e inexplicável motivo, as gangues do Bronx NÃO USAM ARMAS DE FOGO, apenas porretes e bastões, o que limita bastante as cenas de violência - e facilita o trabalho de Hammer e seus homens, usando espingardas, revólveres e até lança-chamas!


Mas a conclusão é o esperado banho de sangue, que parece uma espécie de preparação do diretor para "Fuga do Bronx": Hammer invade o Bronx com incontáveis policiais a cavalo, usando metralhadoras de grosso calibre e lança-chamas para eliminar a "escória" do bairro. Aí é um Deus nos acuda, e 99% dos personagens perdem a vida.

Exagerado e implacável, Vic Morrow praticamente rouba o filme como Hammer graças ao seu olhar frio e à falta de consideração com suas "vítimas", ao ponto de atirar em pessoas desarmadas e comandar uma chacina de gangues usando lança-chamas!

O vilão parece ter encarnado Hitler na conclusão, gritando ordens entre risadas insanas de "vilão de 007", e tem um diálogo belíssimo com Christopher Connelly. Quando este comenta que Hammer está "brincando com fogo", o vilão responde: "I know. And I love it. I love it!".


Tirando o impacto daqueles dois tiros de espingarda que Hammer dispara em câmera lenta em vítimas desarmadas e indefesas, que me marcaram desde minha tenra idade, 1990 - OS GUERREIROS DO BRONX continua um filme tão divertido quanto esquecível, embora pareça hoje um pouco melhor do que na primeira vez que o vi.

Se não chega aos pés de outras pérolas que o artesão Castellari fez na mesma época - e que continuam injustamente desconhecidas neste nosso Brasil pós-VHS -, pelo menos é uma verdadeira aula de como fazer muito com pouco, uma especialidade dos realizadores italianos dos anos 70-80.

E qualquer filme onde Fred Williamson saia na porrada com o gigantesco George Eastman (aqui vestido como samurai estilizado, com rabo-de-cavalo e tudo mais) já é um programa obrigatório para fãs de "cinema alternativo".

Trailer de 1990 - OS GUERREIROS DO BRONX



***************************************************************
1990 - I Guerrieri del Bronx/1990 - Bronx Warriors
(1982, Itália)

Direção: Enzo G. Castellari
Elenco: Mark Gregory (Marco di Gregorio), Vic
Morrow, Christopher Connelly, Fred Williamson,
Stefania Girolami, Joshua Sinclair, Massimo
Vanni e George Eastman.