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quarta-feira, 3 de abril de 2013

UMA BALADA PARA DJANGO (1972)


"Audaciosamente desonesto". É assim que um dos raros comentários sobre UMA BALADA PARA DJANGO na internet resume esta terceira e última aventura não-oficial do famoso personagem escrita e dirigida por Demofilo Fidani. E acredite, quando alguém se refere a um filme de Fidani, o "Ed Wood do western spaghetti", como "audaciosamente desonesto", é porque a coisa é mesmo da pesada!

Para começo de conversa, o que temos aqui não é exatamente um filme, mas sim uma picaretagem (ou esperteza) da grossa: Fidani filmou no máximo uns 15 minutos de cenas novas e depois completou um longa-metragem inteiro de 84 minutos na sala de edição, reaproveitando cenas dos outros dois "sotto-Djangos" que dirigiu ("Django e Sartana no Dia da Vingança" e "Django Desafia Sartana"), e até de alguns de seus outros westerns! Esperteza ou picaretagem? Julgue como quiser, mas antes vamos analisar a bagaça mais a fundo...


UMA BALADA PARA DJANGO começa num saloon de Black City (que, segundo indica uma placa na beira da estrada, fica perto de Tombstone), onde ocorre um insólito encontro de um ainda jovem e não tão famoso Wild Bill Hickok (Gerardo Rossi, creditado como "Jerry Ross") com o lendário caçador de recompensas Django (Jack Betts, creditado como "Hunt Powers"), em versão envelhecida, de bigode e mancando, usando uma bengala para caminhar. A maquiagem de envelhecimento feita no ator, que tinha pouco mais de 40 anos na época das filmagens, é até bem convincente.

Logo estoura uma pancadaria entre bêbados e arruaceiros no bar, resolvida por Hickok e pelo próprio Django (a bengaladas!). Quando o xerife finalmente chega para manter a paz e a ordem, alerta os bebuns sobre o perigo de terem mexido com o velhote ali presente: "Se vocês não o reconheceram, podem dar graças a Deus que não estão mortos. Ele é o mais famoso caçador de recompensas do Oeste, Django!".


Muito interessado no lendário personagem sentado ao seu lado, Hickok se apresenta, dizendo ser um grande fã de Django, e pede para ele lhe contar algumas de suas aventuras. O velho caçador de recompensas nunca foi um sujeito muito simpático e paciente, mas concorda - desde que o rapaz pague as bebidas e o seu jantar.

Depois desse prólogo de 8 minutos que realmente traz material novo, o velho Django começa a contar como derrotou os terríveis "Irmãos Sanchez", e aí começamos a ser bombardeados com uma infinidade de cenas de arquivo de outros filmes de Fidani, que representam as histórias da "juventude" do herói narradas ao ilustre fã.


A primeira "história" é a mais longa, durando pouco mais de meia hora, e mostra como o jovem Django (o próprio Jack Betts, sem maquiagem de envelhecimento e em cenas dos dois filmes anteriores que fez com o diretor) caçou e matou dois bandidos mexicanos que eram irmãos gêmeos, Manuel e Paco Sanchez.

Quase todas as imagens desse segmento foram retiradas de "Django Desafia Sartana", em que Benito Pacifico interpretava um bandido mexicano chamado Paco Sanchez. Como no original não existia irmão gêmeo, Fidani foi obrigado a chamar Pacifico de volta para gravar algumas cenas adicionais dele como Manuel (o irmão gêmeo), e, graças ao milagre da montagem, o ator passou a contracenar com ele mesmo dois anos mais novo (imagens abaixo), nas cenas filmadas para "Django Desafia Sartana" (tem até uma luta de Benito contra ele mesmo que só vendo para crer!!!)


Sem limites para a reutilização de material antigo, o diretor também reaproveitou cenas de outros filmes: quando a narração em off de Django explica que os Irmãos Sanchez deixaram uma longa trilha de roubos pelo Oeste, vemos cenas do ataque a um jantar de grã-finos originalmente mostrada em "Sou Sartana... Venham em Quatro para Morrer" (1969). Ironicamente, os bandidos nessa cena sequer são mexicanos!

Quando Django finalmente dá cabo dos Sanchez, encerrada a primeira "história" e o jantar, Hickok pergunta: "Mas por que você resolveu se tornar um caçador de recompensas?". O envelhecido herói se reclina na cadeira e responde: "Ah, essa é outra história. Quer ouvir?". E aí começa o segundo "episódio", em que o jovem Django persegue Dean O'Neal, o assassino frio que matou seu grande amigo.


"O'Neal" na verdade é Bud Willer, o vilão que Dino Strano havia interpretado também em "Django Desafia Sartana", cujas cenas foram novamente reaproveitadas. Mas também sobra um espacinho para imagens de "Django e Sartana no Dia da Vingança", que, ironicamente, fazem mais sentido aqui do que no filme para o qual foram gravadas!

Por exemplo, quem (re)ler minha resenha sobre "Django e Sartana no Dia da Vingança" vai ver que descrevo uma cena aleatória em que Django visita uma cidade-fantasma, encontra um sujeito vestindo farrapos e tenta conversar com ele, mas, não obtendo resposta, vira as costas e vai embora, transformando tudo aquilo num momento sem sentido algum. Em UMA BALADA PARA DJANGO, Fidani reutilizou esta mesma cena, mas, usando uma nova dublagem, fez com que o sujeito em farrapos dessa vez CONVERSASSE com Django, dando-lhe informações úteis sobre o paradeiro de O'Neal!


Finalmente, com a morte deste e o fim do segundo "episódio", o velho caçador de recompensas se despede e diz que tem um último servicinho para fazer antes de se aposentar. Ele tira uma lista do bolso repleta de nomes e valores, quase todos riscados, onde sobrou um único, "Buck Bradley". E esse será o seu último trabalho, com bengala e tudo.

Bradley é interpretado por Gordon Mitchell, que já havia enfrentado o mesmo Django de Jack Betts no anterior "Django e Sartana no Dia da Vingança". As cenas do novo duelo entre os dois são novas e inéditas, mas Fidani novamente reaproveita na montagem alguns takes antigos. E é uma coisa realmente mágica ver takes de Betts com maquiagem de envelhecimento disparando seu revólver, nessas novas cenas de UMA BALADA PARA DJANGO, para matar capangas que originalmente morreram em "Django e Sartana no Dia da Vingança"!


UMA BALADA PARA DJANGO é um daqueles legítimos FILMES PARA DOIDOS, para públicos beeeeem específicos. Não tenho certeza de como iria reagir um espectador que visse o filme sem saber que na verdade se trata de uma colcha de retralhos de obras antigas, mas ele provavelmente estranharia a esquisita narrativa episódica, que mostra Django em três missões diferentes e sem se aprofundar muito nos personagens de cada uma delas.

Particularmente, eu acho UMA BALADA PARA DJANGO um negócio de gênio, mesmo. Porque é preciso ser muito genial (e cara-de-pau) para fazer um longa inteiro com cenas antigas, e que funciona razoavelmente bem - pelo menos muito melhor que as picaretagens de Godfrey Ho, aquele maluco que inseria cenas com ninjas no meio de dramas e filmes policiais feitos anos antes, e muito melhor que "Predadores da Noite", o filme de zumbis que Bruno Mattei fez usando cenas de um velho documentário sobre a Nova Guiné.


O curioso, também, é que essa colcha de retalhos é a mais interessante das três aventuras de Django escritas e dirigidas por Fidani. Porque se nas outras duas as histórias iam do meia-boca ao inexistente, aqui realmente há uma boa ideia para se fazer um filme, que é o encontro entre uma lenda da vida real (Wild Bill Hickok) com outra da ficção, como se o velho Django tivesse sido a inspiração para o jovem Hickok ter se tornado um histórico pistoleiro.

A ideia de um envelhecido Django narrando seus feitos, e ainda encontrando disposição para enfrentar um último desafeto, também é absolutamente genial, e muito me admira que após tantos "sotto-Djangos" ninguém tivesse pensado nisso antes! Eu até acreditei que aconteceria algo semelhante em "Django Livre", com um velho Franco Nero passando o revólver à nova geração representada por Jamie Foxx, mas o Tarantino foi bunda-mole e desperdiçou esta rara participação do Django original!


A execução pode até não ser das melhores, mas as ideias, tanto do roteiro quanto de reaproveitar cenas antigas, são fantásticas. O filme em si segue o padrão de qualidade "fidaniano" (ou seja: nenhum) e é bem ruinzinho, mas tem lá seus méritos como diversão trash, e pelo menos serve como coletânea dos "melhores momentos" do diretor em seus filmes anteriores. Ele até usa um pseudônimo novo, "Lucky Dickinson", ao invés do tradicional "Miles Deem".

O legal é que Fidani pôde pegar apenas as cenas de ação e de tiroteio dessas obras antigas, separando-as daquela infinidade de takes de pessoas cavalgando ou papo furado. Por isso, UMA BALADA PARA DJANGO também é um trabalho mais dinâmico do cineasta, trazendo apenas o que realmente interessa de "Django e Sartana no Dia da Vingança" e "Django Desafia Sartana", até eliminando a necessidade de ver esses filmes por inteiro.


UMA BALADA PARA DJANGO também traz o melhor duelo final de toda a trinca de "sotto-Djangos" de Fidani, entre Betts e Mitchell. (SPOILER) Django parece vencido sem o seu revólver, e o vilão diz que quer guardar a bengala do velho caçador de recompensas como lembrança. Nesse momento, nosso herói ergue a bengala e revela uma derringer (aquelas arminhas minúsculas, que parecem de brinquedo) presa ao cabo, que usa para balear seu último inimigo! (FIM DO SPOILER)

Na conclusão, voltamos ao saloon do início e uma nova briga entre bêbados e arruaceiros se inicia. Django, talvez esquecendo que está aposentado, ajuda seu fã Hickok a dar um jeito nos encrenqueiros, e o último take do filme é o herói dando um sopapo diretamente na lente da câmera - como se estivesse esmurrando o nariz do próprio espectador!


Talvez até pelo aspecto de picaretagem, de ser mais uma colagem de cenas do que um filme completo, UMA BALADA PARA DJANGO acabou se tornando uma raridade conhecida apenas por quem é muito fã de Django ou do diretor Fidani. Sequer circula em cópias boas na internet, e a mais fácil de encontrar é tirada de VHS com legendas em grego!

Também não encontrei nenhuma resenha sobre a obra nas minhas fontes de costume, além de um simples parágrafo no The Spaghetti Western Database. Mesmo no IMDB não há qualquer comentário dos usuários, e o verbete do filme no "Dizionario del Western all'Italiana", de Marco Giusti, resume-se a meia dúzia de linhas pouco esclarecedoras. Assim, as raríssimas manifestações a respeito da obra estão em fóruns de discussão, e bem sucintas.


Para quem gosta de encontrar referências e conexões (às vezes inexistentes), o título original italiano é "Giù le Mani... Carogna", que pode ser traduzido no sentido literal como "Abaixe as Mãos... Carniça", e parece indicar algo na linha de "Quando Explode a Vingança", de Sergio Leone, que na Itália é "Giù la Testa" (não por acaso, o próprio Fidani já havia dirigido outro western chamado "Giù la Testa... Hombre", que no Brasil foi lançado como "Minnesota - Caçado Vivo ou Morto"!!!).

Por falar em títulos brasileiros, a obra foi originalmente exibida em nossos cinemas como "Django, Pistoleiro Implacável". UMA BALADA PARA DJANGO é o título com que ele foi exibido na TV e lançado em VHS pelo selo Studio T, e que também achei mais apropriado considerando a história do filme.


Só gostaria de enfatizar que UMA BALADA PARA DJANGO não é, de maneira alguma, um bom filme. Seus defeitos são mais do que evidentes (conforme meu breve relato deve ter deixado bem claro), e a ideia de reutilizar cenas antigas é, como já disse/escrevi, tanto coisa de gênio quanto de picareta, cabendo a cada espectador julgar por si próprio.

Eu, particularmente, acho que filmes como este representam a verdadeira mágica do cinema, e o que sempre me atraiu na Sétima Arte. Qualidade da película à parte, ela é bem-sucedida em enganar o espectador ao colocar um ator brigando com ele mesmo em cenas filmadas com dois anos de diferença, ou um herói atirando em vilões de um outro filme! Hoje até uma criança de cinco anos faz tudo isso sem a menor dificuldade usando seu computador e um fundo verde, mas na época (1972) essas trucagens exigiam muita criatividade e disposição do seu realizador. Sem contar que é muito divertido assistir o filme e tentar identificar o que é cena nova e o que é cena de arquivo...


Enfim, Demofilo Fidani pode até ser o Ed Wood do gênero, mas certamente ninguém poderá acusá-lo de falta de imaginação ou de criatividade. E eu não sei quanto ganharam os responsáveis pela edição do filme (Piera Bruni e Gianfranco Simoncelli), mas eles certamente mereciam o triplo pelos milagres que fizeram para costurar uma narrativa minimamente coesa da forma como fizeram aqui.

Vale ressaltar que, durante um longo intervalo de tempo (exatos 15 anos), UMA BALADA PARA DJANGO foi a última aventura do herói a chegar às telas - descontando, é claro, outros westerns quaisquer cujos títulos foram mudados para virarem sub-Djangos desonestos. Isso até a volta (nada) triunfal do personagem em "Django, A Volta do Vingador", um filme que consegue ser pior do que todas as barbaridades que caras como Fidani e Luigi Batzella fizeram usando este mesmo nome...


Trailer de A BALADA DE DJANGO



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Giù le Mani... Carogna (1972, Itália)
Direção: Demofilo Fidani
Elenco: Jack Betts, Gordon Mitchell, Gerardo Rossi,
Benito Pacifico e um montão de cenas de arquivo
com Dino Strano, Celso Faria e outros.

terça-feira, 2 de abril de 2013

UM HOMEM CHAMADO DJANGO (1971)


Um verdadeiro abismo de qualidade separa a primeira aventura não-oficial de Django dirigida por Edoardo Mulargia (o péssimo "Django Não Espera... Mata", 1967) de sua segunda incursão por essas veredas, UM HOMEM CHAMADO DJANGO. Apenas quatro anos se passaram, mas é como se as duas obras fossem dirigidas por pessoas completamente diferentes; ou isso, ou Mulargia aprendeu muito sobre técnica cinematográfica e narrativa no período (aliás, neste curto espaço de tempo entre um Django e outro, o sujeito dirigiu mais seis obras diferentes!).

Não estou dizendo que UM HOMEM CHAMADO DJANGO seja um filmaço, muito menos que figura entre os melhores "sotto-Djangos" daquele áureo período do western spaghetti. O que mais salta aos olhos ao final do filme é a notável evolução no trabalho do diretor Mulargia em comparação a "Django Não Espera... Mata", já que esta sua segunda aventura do personagem é muito mais movimentada, violenta e principalmente DIVERTIDA do que a anterior.


Se lá em 1967 Mulargia havia desperdiçado um adequado Ivan Rassimov numa trama soporífera e cheia de reviravoltas, personagens e complicações desnecessárias, dessa vez ele se atém ao básico: o roteiro de Nino Stresa requenta aquela velha e manjada trama de vingança, inclusive retomando as origens do personagem no "Django" de Sergio Corbucci: aqui também o herói está em busca dos assassinos da sua esposa.

A diferença é que enquanto no filme original havia um único assassino (o Major Jackson), aqui são quatro os homens responsáveis pela morte da pobre mulher - apenas morte, mas sem estupro, ao contrário do que informam algumas fontes desavisadas. Esta é a cena que abre o filme, e há um mistério envolvendo a atriz não-creditada que aparece rapidamente interpretando a esposa do herói (há quem jure que trata-se de Ida Galli, famosa mocinha dos westerns de Giuliano Gemma, mas tudo não passa de especulação).


Como Django estava fora de casa no momento do crime (na guerra?), ele agora precisa resgatar um ladrão mexicano de quinta categoria, Carranza (Glauco Onorato), o único que conhece a identidade dos assassinos. Juntos, eles partem em busca da vingança, este tema tão comum no universo do western spaghetti.

É claro que não será nada fácil: aqueles bandidos pé-de-chinelo e assassinos de esposas de um ano atrás agora viraram militares corruptos, poderosos traficantes de armas ou grandes reis do crime como Jeff (Chris Avram, o arquiteto do clássico "Banho de Sangue", de Mario Bava), que controla uma cidade inteira com sua quadrilha. E embora Django busque vingança contra apenas quatro homens, o filme ironicamente termina com uma contagem de corpos estratosférica!


UM HOMEM CHAMADO DJANGO não é apenas o segundo "sotto-Django" do diretor Mulargia (novamente assinando com seu tradicional pseudônimo americanizado, "Edward G. Muller"), mas também a segunda vez que o astro mezzo italiano, mezzo brasileiro Anthony Steffen interpreta o anti-herói do título, depois do superior "Django, O Bastardo" (1969), de Sergio Garrone.

Pouca gente se dá conta, mas, depois de Franco Nero, Steffen foi o ator que mais ficou marcado como Django, mesmo que um não-oficial. Além destes dois filmes em que ele encarnou personagens que efetivamente são chamados de Django em algum momento da narrativa, Steffen também estrelou vários outros westerns cujos títulos foram posteriormente alterados (principalmente na Alemanha) para se transformar em aventuras de Django, mesmo que os personagens principais tivessem outros nomes. Logo, se contabilizarmos também esses "falsos Djangos", o astro com sangue brasileiro interpretou o famoso pistoleiro em nada mais nada menos de sete filmes! Nada mau...


Se em "Django, O Bastardo" o velho Antonio De Teffé (nome de batismo de Steffen) compôs um personagem calado, misterioso e fantasmagórico, aqui em UM HOMEM CHAMADO DJANGO ele mostra que também pode ser versátil (apesar de notório canastrão), interpretando seu segundo Django de uma forma completamente diferente, dessa vez fanfarrão e engraçadinho, inclusive usando divertidos artifícios para despachar seus desafetos.

Perceba que o filme de Mulargia é de 1971, época em que o western spaghetti tentava se reinventar apelando para o cômico, o burlesco e o absurdo. No ano anterior, "Trinity é o Meu Nome", de Enzo Barboni, foi um grande sucesso de bilheteria apresentando as palhaçadas de Terence Hill e Bud Spencer no Velho Oeste (eles já tinham feito outros filmes antes, mas sem a mesma repercussão). E diretores como Giuliano Carnimeo passaram a explorar esta fórmula até cansar, criando personagens cada vez mais cartunescos e absurdos, tipo o Aleluia vivido por George Hilton em dois filmes.


Esse contexto da época talvez explique as fanfarronices e gracinhas de UM HOMEM CHAMADO DJANGO, que nunca se decide entre ser uma história séria sobre busca de vingança ou uma comédia escrachada.

Algumas cenas até parecem ter saído de um desenho animado, como aquela em que um sujeito joga uma banana de dinamite em Django. Calmamente, nosso herói pega a bomba e usa a chama do pavio para acender seu cigarro. Depois, quando ela está para explodir, ele atira de volta contra seu agressor, explodindo-o, mas não em pedacinhos: no momento seguinte vemos a vítima inteirinha, apenas meio atordoada, soltando fumaça e com o rosto e as roupas chamuscadas pela explosão! Só faltava escrever "Indústrias Acme" na banana de dinamite para ficar mais cartunesco...


Django também usa uma série de truques sujos e cômicos dignos de Trinity, Aleluia, Espírito Santo ou Trissete (os principais pistoleiros engraçadinhos do western spaghetti), e bem diferentes de esconder uma metralhadora num caixão, como fez no original. Para salvar Carranza da forca, por exemplo, ele se veste de monge e pede para um dos seus inimigos segurar uma vela - na verdade, uma banana de dinamite!

Mais além, o herói se esconde atrás de um cadáver para atirar nos companheiros do finado (colocando um dos seus braços no lugar do braço do desencarnado!), e até usa um braço falso para fingir que está desarmado, quando na verdade esconde o verdadeiro, com a arma em punho, por baixo do casaco! Coincidência ou não, Johnny Depp usa o mesmo artifício em "Era Uma Vez no México", de Robert Rodriguez, feito mais de 30 anos depois.


Steffen não é o único nome conhecido para os fãs de western spaghetti. Seu parceiro em cena, Glauco Onorato, foi um grande dublador nas versões em italiano de filmes gravados em inglês, e bastante conhecido como a "voz italiana" do grandalhão Bud Spencer nas primeiras obras do ator.

Também aparecem Benito Stefanelli, figurante em quase todos os westerns mais importantes do período ("Por um Punhado de Dólares", "O Dólar Furado", "Três Homens em Conflito", "Era Uma Vez no Oeste", "Quando Explode a Vingança"...), Riccardo Pizzuti (um habitué nas aventuras de Terence Hill e Bud Spencer) e a linda Simonetta Vitelli, filha do diretor Demofilo Fidani, novamente usando seu pseudônimo americanizado "Simone Blondel". Momento Nelson Rubens: consta que Simonetta se apaixonou por Steffen em meio às filmagens, mas o galã pulou fora porque ela era muito jovem (uma famigerada "chave de cadeia").


Como já acontecera com várias outras imitações anteriores de "Django", esta também reaproveita mais elementos da "Trilogia do Dólar", de Sergio Leone, do que do filme original de Corbucci. Por exemplo, o herói leva uma caixinha de música com a foto da esposa assassinada, que lembra muito o relógio com a foto da irmã morto de Lee Van Cleef em "Por uns Dólares a Mais". E Django salva Carranza de ser enforcado no último segundo, atirando na corda estendida, como Clint Eastwood fez com Eli Wallach em "Três Homens em Conflito".

O próprio relacionamento de amor e ódio entre Django e Carranza lembra uma versão podreira dos personagens de Eastwood e Wallach naquele clássico de Leone, e os créditos iniciais são com vinhetas coloridas à la Leone, embora aqui o diretor use imagens do filme em negativo, ao invés de desenhos, como nas aberturas da "Trilogia do Dólar".


O engraçado é que tanto o diretor Mulargia quanto o roteirista Stresa parecem ter um mínimo de conhecimento do filme de Corbucci, já que volta-e-meia também o citam: Steffen entra na cidade a pé e carregando sua sela numa longa cena inicial que lembra Franco Nero caminhando e arrastando seu caixão na abertura de "Django" (ou seja, em nenhum dos filmes o herói conta sequer com um cavalo), e um dos assassinos procurados pelo herói também é major, como o Major Jackson do original.

Mas a inspiração em Leone é tão mais evidente que, ao gravar a versão em inglês dos diálogos de UM HOMEM CHAMADO DJANGO, os dubladores não resistiram e fizeram uma brincadeira de cinéfilo: na já citada cena em que Django joga a dinamite num inimigo, o herói depois comenta "Este truque vale um punhado de dólares", em diálogo inexistente na versão original em italiano!


Mas, apesar das piadinhas e absurdos, não se engane: em número total de mortos, esse é um dos títulos mais violentos da "série"! Franco Nero matava 95 inimigos em "Django", que tinha uma contagem de cadáveres geral entre 138 e 163 vítimas (as fontes variam e eu que não sou louco para contar).

Em comparação com Nero, nosso representante "quase brasileiro" no universo do personagem faz bonito: entre os mais de 90 exterminados em UM HOMEM CHAMADO DJANGO, significativos 57 desencarnam graças ao implacável Django - exato, aquele que só queria se vingar de QUATRO HOMENS! Não perca as contas: ele matou "apenas" 15 vezes isso! Menos mal que Mulargia nos relembra da verdadeira missão do protagonista ao fazê-lo abrir a caixinha de música da esposa diante dos cadáveres dos seus assassinos...


O roteiro de Stresa tenta uma reviravolta bem batida no ato final, quando descobrimos que Carranza na verdade era o quarto homem entre os assassinos da mulher de Django, obrigando o herói a duelar contra seu próprio companheiro. Na verdade não é nenhuma surpresa, pois há evidências nada discretas disso ao longo do filme (como quando Carranza mata um dos seus ex-cúmplices antes que ele possa revelar toda a verdade a Django).

Felizmente, o conflito é resolvido de maneira eficiente e sem frescura: (SPOILER) sem sequer dar uma chance para que o ex-parceiro se defenda, Django dispara quatro tiros contra ele após pronunciar um melancólico "Adios, amigo", esquecendo que ambos passaram por diversas aventuras juntos ao longo do filme! A cena é bem legal, usando freeze-frames do bandido se contorcendo a cada disparo. (FIM DO SPOILER)


Mas não se engane: Mulargia não é um Leone, nem sequer um Corbucci, e UM HOMEM CHAMADO DJANGO sofre, em diversos momentos, com as bobagens típicas do diretor. Além da indefinição entre ser comédia ou filme sério, há problemas técnicos graves - embora nada tão absurdo quanto a casa sem telhado do anterior "Django Não Espera... Mata", lembra?

Repare, por exemplo, no bonecão vagabundo que se estatela no chão, e que deveria ser uma pessoa (foto abaixo). Ou na cena em que Carranza amarra diversas bananas de dinamite numa roda de carruagem e põe a dita cuja para girar, mas ela simplesmente explode a alguns metros sem atingir nada de importante ou matar nenhum inimigo!


E mesmo que não tenha todas aquelas incompreensíveis tramas secundárias do anterior "Django Não Espera... Mata", a narrativa acaba perdendo tempo com personagens e situações completamente desnecessárias, como aquela envolvendo o dono do saloon e sua esposa infiel (interpretada pela brasileira Esmeralda Barros, em pequena e apagada participação, depois de ter sido uma vilão com bastante tempo em cena no anterior "Django Contra 4 Irmãos").

Felizmente, essas bobagens não comprometem a diversão, já que Mulargia dirige o filme com o pé no acelerador, saltando rapidamente de uma cena de ação para outra, e colocando até um velho calhambeque numa cena para fazer o contraste entre o "Velho Oeste" e o "Novo Oeste" (como Sam Peckinpah já havia feito, de forma bem mais eficiente, no clássico "Meu Ódio Será Sua Herança").


Agora, uma coisa que eu até hoje não consigo entender - e nenhum site ou fórum de discussão sobre western spaghetti se preocupou em explicar - é o título original do filme, "W Django!". O que diabos significa esse "W"? Será que ficaram sem inspiração para títulos genéricos e colocaram simplesmente uma letra qualquer para diferenciar do "Django" de Corbucci? Por que não "A Vingança de Django"?

Em outros países, como o Brasil, a obra foi sabiamente rebatizada como "A Man Called Django". Mas, para aumentar a confusão, algumas distribuidoras novamente o rebatizaram como "Viva Django!", ignorando que por esse título já era conhecido o anterior "Preparati la Bara", de Ferdinando Baldi (estrelado por Terence Hill). Por isso, é muito fácil baixar um filme e descobrir que na verdade é o outro!


É curioso constatar que UM HOMEM CHAMADO DJANGO é o último "sotto-Django" da chamada Era de Ouro do western spaghetti. Tudo bem, Demofilo Fidani lançou "Uma Balada para Django" no ano seguinte, mas esta é basicamente uma colagem de filmes antigos; e a única sequência oficial do clássico de Corbucci, "Django, A Volta do Vingador", foi feita nos anos 80, quando o sub-gênero já estava morto e enterrado.

Ao longo dos anos 70, a injeção de humor e exagero nos westerns da Terra da Bota acabou espantando uma boa parte do público que gostava daqueles filmes mais sérios e violentos. Em suma: não havia mais espaço para Djangos, oficiais ou imitadores. A partir de 1971, piadistas como Trinity e Aleluia tomaram conta do western spaghetti, mas felizmente os produtores tiveram a decência de aposentar Django antes de também transformá-lo em herói engraçadinho.


Trailer de UM HOMEM CHAMADO DJANGO



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W Django! / A Man Called Django (1971, Itália)
Direção: Edoardo Mulargia (aka Edward G. Muller)
Elenco: Anthony Steffen, Glauco Onorato, Stelio Candelli,
Chris Avram, Esmeralda Barros, Benito Stefanelli, Riccardo
Pizzuti, Simonetta Vitelli e Furio Meniconi.