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terça-feira, 10 de janeiro de 2012

MCQUADE, O LOBO SOLITÁRIO (1983)


É com MCQUADE, O LOBO SOLITÁRIO que começa o MITO Chuck Norris. Antes ele já tinha estrelado várias aventuras, algumas muito acima da média até. Mas você consegue ver Steven Seagal no lugar de Chuck como o Sean Kane de "Ajuste de Contas". Ou Jason Statham como o Josh Randall de "Golpe Mortal". Ou ainda um Clint Eastwood quarentão estrelando "Os Bons Se Vestem de Negro".

A partir de MCQUADE, entretanto, torna-se impossível separar astro e personagens: ele VIVE os heróis de maneira que fica impossível dissociá-los. Stallone jamais poderia ser Braddock; Schwarzenegger não convenceria como o Major McCoy, de "Comando Delta". Mas, principalmente, não consigo imaginar nenhum outro ator na pele do ranger barbudo, sujo e mal-encarado J.J. McQuade - talvez o melhor personagem de toda a carreira de Chucko.


O irônico é que este filme não foi desenvolvido pensando nele, mas sim como um projeto originalmente estrelado por Kris Kristofferson! Quando Kris pulou fora - para estrelar o interessante, mas muito inferior "Por Trás de um Assassinato" -, Norris entregou-se de corpo e alma ao papel. Como eu falei lá atrás, Chuck Norris É J.J. McQuade, e você simplesmente não engoliria um outro ator no papel (e espero que pensem bem nisso antes de sequer cogitarem um remake do filme).

MCQUADE também é, disparado, o grande trabalho dessa primeira fase da carreira do ator, que vim analisando na última semana. Eu sempre tive um carinho muito grande pela obra desde moleque, quando foi exibido no SBT, mas é revendo-o agora, como adulto, que percebo com mais clareza a qualidade do conjunto da obra.

(Só uma rápida interrupção: não é irônico que "Ajuste de Contas" e MCQUADE tenham sido tantas vezes exibidos pelo SBT, mas lançados em vídeo pela GLOBO Vídeo???)


Bem, para começo de conversa, este trabalho do Chucko também é um dos mais belos tributos ao western spaghetti já feitos, superior até à homenagem feita por Tarantino em "Kill Bill".

E isso fica muito evidente desde os créditos iniciais, que trazem imagens de rotoscopia e freeze frames de um lobo correndo pela planície (emulando as vinhetas animadas dos faroestes italianos, tipo "Por um Punhado de Dólares"), e nomes dos atores escritos com uma fonte típica de western, tudo sublinhado pela MA-RA-VI-LHO-SA trilha sonora do mestre italiano Francesco De Masi .


E se só os créditos iniciais já deixam qualquer fã de western spaghetti empolgado, espere só para ver a cena de abertura: vestido como um autêntico cowboy do século 19, o Texas Ranger McQuade observa, pela mira telescópica do seu rifle, a ação de um grupo de ladrões de cavalo na fronteira com o México, desde o momento em que eles organizam a "carga" até uma ação desastrada de um grupo de policiais, que são facilmente mortos ou subjugados pelos bandidos. Finalmente, nosso herói intervém e salva alguns dos homens da lei, explodindo carros com tiros de rifle, quebrando dentes a chutes e massacrando quase todos os bandidos com tiros de metralhadora.

Descontando alguns elementos evidentemente modernos, como as metralhadoras Uzi, os veículos motorizados e um helicóptero, parece que o que estamos vendo é um autêntico filme de faroeste, e o diretor Steve Carver demonstra ser um grande conhecedor do gênero ao usar closes nos olhos e no rosto dos personagens, e ações embaladas pela trilha sonora de Francesco De Masi. Simplesmente perfeito.


Embora tenha eliminado a quadrilha, prendido o chefão dos bandidos e salvado a vida dos policiais aprisionados, McQuade leva uma puta mijada do seu superior, que acha que o herói precisa ter uma imagem mais apresentável (em outras palavras, limpinha, perfumada e barbeada), agir mais burocraticamente e, pasmem, frequentar a igreja e formar família.

Claro que McQuade é aquele tipo de ranger que prefere defender a lei à moda antiga - ou seja, à bala -, e sempre agindo sozinho, por isso o apelido "lobo solitário". É um legítimo personagem de western italiano: fala pouco, está sempre barbudo e coberto de poeira, e raramente - para não dizer jamais - dá um sorriso. Para fazer jus ao apelido, prefere viver sozinho numa cabana bagunçada e suja, acompanhado apenas de um lobo de estimação, e onde passa o dia treinando tiro em alvos de madeira.


E vou além: J.J. McQuade é um personagem tipicamente Sam Peckinpah-esco. Afinal, um tema que permeia todos os trabalhos de Bloody Sam também tem bastante destaque aqui: o herói ultrapassado, símbolo de um passado recente, que recusa-se a viver no "presente" e prefere resolver as coisas à moda antiga.

Ora, McQuade é um autêntico dinossauro, daquele tipo que pensa ainda estar no Velho Oeste, onde qualquer dilema poderia ser resolvido à bala, sem as amarrar burocráticas da lei. Ele é um sujeito que vive fora do seu tempo, e a cena que sintetiza isso é aquela em que o ranger olha entre desconfiado e assustado quando um colega tenta "encontrar pistas" utilizando um computador!


A diferença é que se nos filmes de Peckinpah os heróis "ultrapassados" geralmente encontravam a morte diante da modernidade (como no final de "Meu Ódio Será Sua Herança", em que os pistoleiros tentam enfrentar a "moderna" metralhadora), aqui o ranger à moda antiga representa a única solução em tempos "modernos", mas ainda bárbaros sob o manto da "civilidade".

(Parece até que Peckinpah deu umas escapadinhas do set de "O Casal Osterman", filmado no mesmo ano, para trocar umas ideias com Steve Carver e sugerir-lhe algumas características para o herói McQuade...)


Mas, apesar de durão e casca-grossa, o "lobo solitário" tem uma ex-esposa (Sharon Farrell, de "Nasce um Monstro") e uma bela filha adolescente, Sally (a gracinha Dana Kimmell, que um ano antes enfrentou Jason em "Sexta-feira 13 - Parte 3").

Certa noite, Sally e seu namoradinho vão curtir um momento romântico no deserto e dão o azar de testemunhar o roubo de um carregamento de armas do Exército. Os bandidos são liderados pelo sádico Rawley Wilkes (David Carradine!), um campeão europeu de karatê que adora exibir suas habilidades - e dirige um veículo cuja placa diz "Karate"!!! Como o grupo não pode deixar testemunhas, o rapaz é metralhado e o carro em que Sally está é jogado de um penhasco.


A moça sobrevive por detalhes, e, ao descobrir o que fizeram com sua filha, McQuade fica furioso e começa a investigar quem são os responsáveis, ajudado/atrapalhado pelo policial Kayo (Robert Beltran), um dos homens da lei que ele salvou no começo do filme, e por um ranger veterano chamado Dakota (L.Q. Jones).

Lá pelas tantas, também entra em cena a belíssima nicaraguense Barbara Carrera, interpretando Lola Richardson, a amante de Wilkes, que acaba trocando de lado e passando para a cama de McQuade. Barbara era a grande "sex symbol latina" dos anos 1980 e uma musa da minha infância/adolescência - o equivalente, hoje, a Jennifer Lopez e Salma Hayek, mas muito mais linda, gostosa e talentosa.


A delícia protagoniza duas cenas fantásticas em MCQUADE, uma extremamente sensual e outra de muito mau gosto. A primeira é o rala-e-rola com o herói: ele é tão durão que se atraca com a moça no meio da lama mesmo! Já a cena de mau gosto acontece quando, após trocar um único beijo com McQuade, Lola assume o papel de esposa, enfurecendo o ranger ao fazer faxina em seu casebre, chegando ao cúmulo de jogar toda a sua comida gordurosa e cervejas no lixo, trocando-a por vegetais e vitaminas!!!

(No mesmo ano, Barbara Carrera enfrentaria outro grande herói, o James Bond interpretado por Sean Connery em "Nunca Mais Outra Vez", conquistando um lugar de honra na galeria das Bond Girls mais fogosas!)


Na conclusão, MCQUADE abandona um pouco o tom de western para virar uma aventura exagerada e barulhenta, como já havia acontecido antes em "Ajuste de Contas", o filme anterior que Carver dirigiu com Chuck Norris.

Aí McQuade, Kayo e um terceiro ajudante, o agente do FBI Jackson (Leon Isaac Kennedy), armam-se até os dentes com pistolas, metralhadoras e bazucas para enfrentar o exército de Wilkes numa "hacienda" mexicana. E tome granadas, tiros, explosões, mortos e feridos, num daqueles finais apoteóticos e exagerados que os filmes de ação dos anos 1980 adoravam mostrar. Claro que tudo evolui para uma luta final entre Norris e Carradine - depois que o vilão tenta deter o herói com um... tanque de guerra?!?.


Hoje pode até parecer difícil mensurar a importância desta luta final para os fãs do gênero daquele período, mas vale lembrar que não apenas Chuck Norris era um talentoso campeão de karatê, como Carradine era um hábil lutador de kung fu, arte marcial que começou a praticar depois de estrelar o popular seriado "Kung Fu", na década de 70.

Sendo assim, o combate Norris versus Carradine foi algo na linha de um "Marvel Vs. DC". E ambos deixaram os produtores de cabelos em pé ao protagonizar a cena em carne e osso, sem o auxílio de dublês - como Chuck já havia feito com Bruce Lee em "O Vôo do Dragão".

O resultado é uma daquelas lutas de cair o queixo, bem filmada, extremamente bem coreografada e, principalmente, intensa, como se os dois atores estivessem realmente querendo machucar um ao outro - consta que Chuck chegou a reclamar com Carradine sobre a força dos seus chutes "cenográficos"!

McQuade versus Bill!



A luta, claro, ganha contornos épicos graças à música do italiano De Masi (veja o vídeo acima e se emocione), lembrando aqueles climáticos duelos finais dos filmes de Sergio Leone. Inclusive muito da riqueza e da beleza de MCQUADE vem da trilha sonora. Por exemplo, o tema romântico de McQuade e Lola, com coro feminino lembrando muito o tema de Claudia Cardinale em "Era Uma Vez no Oeste", é de arrepiar de tão lindo!

(De Masi foi um dos grandes compositores de temas de western spaghetti, ao lado de Morricone e Bruno Nicolai. Entre seus trabalhos, estão as belíssimas trilhas de filmes como "Vou, Mato e Volto", "Arizona Colt" e "Sete Dólares para Matar").

"Lola and McQuade Theme"



É uma pena que Steve Carver não tenha dirigido mais filmes com Norris, já que foi responsável por dois dos melhores da carreira do astro. É uma pena, também, que não tenha realizado outros westerns contemporâneos como este, em que usa e abusa da paisagem árida e desértica da cidade texana de El Paso, na fronteira com o México.

Na verdade, Carver não assinou outros trabalhos expressivos depois de MCQUADE - o mais memorável é "O Rio da Morte", com Michael Dudikoff, que ele dirigiu para a Cannon Films em 1989. Seu último filme é de 1996. E, enquanto isso, patetas como Rob Cohen e Stephen Sommers continuam arrumando emprego...


Quentin Tarantino deve ter visto MCQUADE várias vezes. Afinal, seu grande tributo ao western e aos filmes de artes marciais, "Kill Bill", divide com este filme o fato de ter David Carradine como grande vilão e de mesclar o clima de faroeste com exibições de artes marciais. Principalmente, ambos têm uma cena em que o herói é enterrado vivo!

Aqui, o próprio Norris acaba sendo sepultado sob toneladas de terra no interior do seu jipe, depois de apanhar feito cachorro de Carradine. Mas, por ser Chuck Norris, nem se abala: abre uma cervejinha no interior da sua "cova", engata a primeira no jipe e sai com a maior facilidade de debaixo da terra, numa cena hilária de tão absurda!

(Numa outra cena de ação, McQuade também fica pendurado no capô de um carro em alta velocidade, em momento que lembra bastante o que acontece com Zoe Bell em "À Prova de Morte".)


Para fechar a conta, MCQUADE tem todas aquelas frases prontas que tornam as aventuras de Norris ainda mais divertidas. Como quando o herói encara um guarda-costas em quem já bateu duas vezes e apenas pergunta, com sua característica cara de buldogue: "Quer tentar uma terceira vez?".

Ou quando o ranger dá uma sova em vários capangas de Wilkes que estavam surrando seus amigos. O vilão aparece cínico e tenta minimizar o negócio: "Os rapazes estavam apenas se divertindo". Aí McQuade olha para o vilão, novamente com aquela cara de cachorro bravo, e questiona: "E você? Quer se divertir também?".


Resumindo: MCQUADE, O LOBO SOLITÁRIO é um excelente filme de ação não só para a época em que foi feito, mas principalmente em comparação com todas essas porcarias que se faz hoje. É só analisar a qualidade do filme, a beleza da fotografia e o casamento perfeito entre a música e as imagens para perceber que o negócio é trabalho de artesão, feito com amor por um cara apaixonado por western, e não só para embolsar o cheque no final das gravações.

Além disso, a luta entre Norris e Carradine é uma coisa de louco, sem os exageros, cabos de aço, câmeras tremidas, dublês evidentes e cortes rápidos do cinema de ação atual - são três minutos de pancadaria que valem por "Os Mercenários" inteirinho!


E McQuade, como eu escrevi lá no começo, pode muito bem ser o melhor e mais interessante personagem que Chuck Norris interpretou em seus mais de 30 anos de carreira. Tanto que nunca conseguiu se livrar dele, e entre 1993 e 2001 interpretou um outro homem da lei durão no seriado televisivo "Walker, Texas Ranger".

Diz a lenda que o ranger do seriado seria o próprio McQuade originalmente, mas a emissora que o produziu (CBS) não tinha os direitos sobre o personagem, e então criou um outro, Cordell Walker, como uma espécie de "versão envelhecida" de McQuade. As semelhanças entre um e outro são tão evidentes que os realizadores de MCQUADE, O LOBO SOLITÁRIO entraram com um processo contra os criadores do seriado, resolvido posteriormente com um acordo entre as partes.

Infelizmente, o ranger televisivo não passava de um "McQuade da terceira idade", como se o herói do filme tivesse resolvido entrar nos eixos depois de todas aquelas pressões do seu superior, inclusive optando por andar ajeitadinho e prender os bandidos dentro da lei ao invés de enchê-los de chumbo. Porque, sabe como é, não se fazem mais heróis como antigamente...


Assim, com a resenha desse filmaço, completo essa maravilhosa MARATONA CHUCK NORRIS. Foi ótimo revisitar algumas obras que eu tinha visto originalmente há muito tempo atrás (como "Ajuste de Contas" e "Comboio de Carga Pesada").

Acompanhe o calendário de atualizações para ler as resenhas que perdeu:
COMBOIO DE CARGA PESADA (Breaker! Breaker!, 1977)
OS BONS SE VESTEM DE NEGRO (Good Guys Wear Black, 1978)
FORÇA DESTRUIDORA (A Force of One, 1979)
OCTAGON (The Octagon, 1980)
AJUSTE DE CONTAS (An Eye for an Eye, 1981)
GOLPE MORTAL (Forced Vengeance, 1982)
MCQUADE, O LOBO SOLITÁRIO (Lone Wolf McQuade, 1983)


O que aconteceu depois desse seleto grupo de filmes é bem conhecido: Norris, já transformado em super-astro mundial, assinou um contrato com a Cannon Films e foi, durante quase uma década, o seu principal e mais lucrativo astro. E a partir de então estrelou uma longa série de sucessos: "Braddock - O Super Comando", "Código do Silêncio", "Invasão USA", "Comando Delta", e por aí vai.

Mas todos eles ficam para uma próxima Maratona, pois o excesso de testosterona desta fez com que minha barba crescesse dez vezes mais rápido e minha voz engrossasse. Além disso, passei a acreditar que todos os problemas do dia-a-dia podem ser resolvidos com Rondhouse Kicks. Maldito Chuck Norris!


E se é uma pena que Chucko tenha se aposentado em 2005 com um filme extremamente convencional e indigno do seu talento ("Resgate de Risco"), ao mesmo tempo será ótimo poder rever o cara-de-buldogue na tela grande no futuro "Os Mercenários 2", em que Stallone finalmente conseguiu reunir o dream team do cinema de ação (só faltou Steven Seagal).

Seu personagem se chamará Booker (homenagem/citação a "Os Bons Se Vestem de Negro", talvez?), e eu espero sinceramente que Stallone não cague fora da panela e dê ao velho Norris um papel à altura do seu mito. Porque, como eu já brinquei anteriormente por aí, com Chuck Norris no time, todos os outros "mercenários" tornam-se absolutamente dispensáveis!

PS: Quem tem olho vivo para enxergar um jovem Kane Hodder, posteriormente imortalizado como Jason Voorhees, "interpretando" um dos muitos bandidos que tomam porrada de McQuade?

Trailer de MCQUADE, O LOBO SOLITÁRIO



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Lone Wolf McQuade (1983, EUA)
Direção: Steve Carver
Elenco: Chuck Norris, David Carradine, Barbara Carrera,
Leon Isaac Kennedy, Dana Kimmell, R.G. Armstrong,
Robert Beltran, L.Q. Jones e Sharon Farrell.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

GOLPE MORTAL (1982)


Quando GOLPE MORTAL chegou aos cinemas, Chuck Norris estava em plena escalada rumo ao posto de grande astro do cinema de ação: em poucos anos, já havia estrelado um grande sucesso de bilheteria ("Octagon"), um ótimo filme policial ("Ajuste de Contas") e até uma mistura de aventura com ficção científica e horror ("Fúria Silenciosa", em que enfrenta um pseudo-Michael Myers).

Não por acaso, esta aqui foi a sua produção mais caprichada até então, com uma major por trás (o filme foi produzido pela MGM) e um diretor que já havia trabalhado duas vezes com Clint Eastwood (James Fargo, de "Sem Medo da Morte" e "Doido para Brigar... Louco para Amar"). Funcionou, e no ano seguinte Norris estouraria de vez com "McQuade, O Lobo Solitário".


Infelizmente, GOLPE MORTAL acabou se tornando um capítulo meio obscuro na trajetória do astro, talvez por ter ficado "ensanduichado" bem no meio de dois puta filmes ("Fúria Silenciosa" e "McQuade").

Pura injustiça: é uma aventura boa pra caramba, e eu inclusive colocaria tranquilamente num Top 3 dessa primeira fase da filmografia de Chuck (logo abaixo dos dois já citados).

Antes de partirmos para a resenha, faça um intervalo de dois minutinhos, vá até o final do texto e assista o trailer do filme para pegar o espírito. Vai lá.

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E aí, já assistiu? Então vamos combinar: do "mapa de ferimentos do corpo" à profissão semelhante do herói, GOLPE MORTAL não parece ter sido a inspiração para "Matador de Aluguel", aquele filmaço de 1989 estrelado por Patrick Swayze como um leão-de-chácara bom de briga?

Eu achei as duas obras tão parecidas, em história e proposta, que o personagem de Chuck aqui bem que poderia ser o pai do personagem de Swayze em "Matador de Aluguel". Ambos têm profissões bem semelhantes, ambos têm um rígido código de honra, e ambos buscam evitar a briga até o último momento. Claro, ambos também são lutadores furiosos daquele tipo com o qual você não quer comprar briga...


Norris interpreta Josh Randall, um veterano do Vietnã que trabalha em Hong-Kong como segurança e "cobrador de dívidas de jogo" no cassino do pai adotivo oriental, Sam Paschal (David Opatoshu). O lugar é administrado pelo seu meio-irmão, David (Frank Michael Liu), que reprime violentamente caloteiros e ladrões.

O problema (sempre tem um) é que uma rede criminosa chamada Osiris está fazendo pressão para comprar o Lucky Dragon, o cassino da família Paschal. Todos os outros estabelecimentos de jogo da cidade já estão sob controle da organização, que quer construir uma nova Las Vegas em Hong-Kong, mas cobrando "proteção" dos proprietários de cassinos.


Obviamente, o velho Sam - que tem muito orgulho por ter começado seu negócio do zero - recusa-se a vender o cassino e fazer parte da mutreta. Até porque é um sujeito honrado (embora explore jogo ilegal e extorsão), e não quer saber de envolvimento com a bandidagem.

Na mesma noite, Sam e David são assassinados numa emboscada, e Josh descobre que um empresário inescrupuloso ligado à Osiris e ao ramo de cassinos, o almofadinha Stan Raimondi (Michael Cavanaugh), colocou sua cabeça a prêmio.


Agora, ele precisa lutar para sobreviver nas perigosas ruas de Hong-Kong, e também proteger a única sobrevivente do clã Paschal, Joy (Camila Griggs), herdeira do Lucky Dragon por direito, e portanto na mira dos vilões.

Sobra também para a sua própria namorada, a gostosona Claire (Mary Louise Weller), que corre risco de vida apenas por estar ligada ao herói (e em filmes nunca é seguro namorar com Chuck Norris ou Charles Bronson, como todos sabemos...).


Lançado em VHS no Brasil pela Video Arte como GOLPE MORTAL, mas exibido na TV com uma tradução literal e bem mais apropriada do título original ("Vingança Forçada"), este trabalho da primeira fase da carreira de Chuck Norris é obrigatório para quem gosta de filmes de ação descerebrados, principalmente porque o astro mantém (e leva adiante) aquele tom fanfarrão e brincalhão que começou a demonstrar em "Ajuste de Contas".

Novamente com seu característico bigodão, e usando chapéu de cowboy 24 horas por dia - apesar de estar em Hong-Kong, e mesmo quando veste smoking!!! -, Norris está perfeito como Josh Randall, personagem por quem o espectador simpatiza desde a sua primeira aparição em cena.


Isso acontece quando vemos Randall cobrando uma dívida de jogo nos Estados Unidos. O caloteiro recusa-se a pagar, dizendo que "dívidas de jogo são ilegais", mas o herói responde: "Bem, eu não sou advogado". Um guarda-costas do sujeito tenta intervir, e primeiro Randall tenta contê-lo "na boa"; quando o grandalhão passa dos limites, é chegada a hora de dar um corretivo à la Chuck Norris, o que inclui muitos sopapos e chutes giratórios. Desnecessário dizer que o caloteiro opta por pagar a dívida depois de ver seu segurança ser moído na pancada...

Por sinal, desde esta primeira cena o filme já dá o tom do personagem: Randall sempre fica puto quando os inimigos aprontam com seu chapéu (o que acontece com bastante frequência), e um close do seu punho cerrado é a senha para o início da pancadaria, quando ele percebe que não conseguirá resolver a situação só na conversa.


Josh Randall também é um dos personagem mais "humanos" que Norris interpretou em toda a sua filmografia. Se nas aventuras anteriores ele fez indestrutíveis mestres do karatê, policiais durões e veteranos do Vietnã, Randall é um personagem mais verossímil, que, embora bom de briga, tenta escapar do confronto sempre que possível e tem medo por si mesmo e pelas pessoas ao seu redor (algo que não acontece, por exemplo, em "Octagon").

Randall também apanha muito, algo difícil de ver nos filmes de Norris (geralmente ele bloqueia os golpes dos inimigos, ou então bate primeiro). Diretor e roteirista parecem querer mostrar a todo momento que o herói é de carne e osso, desde o exame médico em que ele revela o corpo cheio de cicatrizes até a luta em que Randall sangra aos borbotões a cada golpe que leva (outra coisa difícil de acontecer nas aventuras do astro).


Entretanto, embora mais "frágil", o personagem não deixa de fazer gracinhas e piadinhas a todo momento, um lado fanfarrão que Norris começou a explorar em "Ajuste de Contas". Numa cena hilária, Randall percebe que está sendo seguido por um brutamontes. Para evitar o confronto direto, ele belisca a bunda de uma bela garota à sua frente e diz que o culpado foi o sujeito no seu encalço. Dito e feito: a moça parte para cima do bandido e Randall tem tempo para contra-atacar!

E tem um momento à la "Os Caçadores da Arca Perdida" em que um rapaz armado de nunchaku cruza o caminho do herói fazendo malabarismos, como se fosse o guerreiro mais fodão de Hong-Kong. Pois Chucko simplesmente saca seu revólver e o sujeito sai correndo apavorado!


Finalmente, também tem uma cena em que o herói está no cassino quando o sujeito com quem ele joga dados (guarda-costas do vilão Raimondi) dá um tapa na cara de uma garota que puxou conversa. Sem titubear, nosso herói devolve um tapa na cara do sujeito mal-educado, e ainda pergunta: "Não foi legal, não é?".

O protagonista narra o filme em primeira pessoa, mas nada a ver com aquela narração afetada e redundante de "Octagon". Pelo contrário, a narração em off em GOLPE MORTAL permite até que o herói faça mais algumas piadinhas, como "Nunca entregue uma arma à sua namorada", após quase ser morto por um tiro disparado acidentalmente por Claire.


Mas vale destacar que, embora seja um sujeito brincalhão e divertido durante a maior parte do tempo, Randall também sabe ser fodão quando necessário - até ameaça queimar vivo o amante de um dos vilões para obter informações sobre quem são as pessoas à sua caça.

Na conclusão, depois que os bandidos forçam a barra para cima dos seus amigos, o herói resolve partir para a guerra literalmente, inclusive vestindo seu velho uniforme dos tempos do exército para atacar Raimondi e sua turma, num final eletrizante.


Curioso é que o roteiro - redondinho e bem bolado - foi escrito por um sujeito chamado Franklin Thompson, que não teve outras oportunidades no mundo do cinema (pelo contrário, só trabalhou em um telefilme e em episódios de dois seriados!). Enquanto isso, malas como Akiva Goldsman ganham Oscars...

Claro que não há nada de shakesperiano em GOLPE MORTAL, uma típica aventura de Chuck Norris, que, como tal, mostra o herói tentando evitar os problemas até que os bandidos começam a ameaçar sua família e amigos.


Tem até um amigo veterano do Vietnã (Bob Minor, de "Comando Para Matar") que aparece brevemente só para morrer. Outros detalhes da trama repetidos das aventuras anteriores do ator são a família adotiva de origem oriental (como em "Octagon") e um empresário almofadinha como grande vilão (como em "Ajuste de Contas"); mas, ao contrário de Christopher Lee no outro filme, aqui o bandidão luta, e até faz Norris suar para conseguir vencê-lo!

E tem também um capanga gigantesco do vilão que dará muita dor de cabeça a Randall, na mesma linha do Professor Toru Tanaka em "Ajuste de Contas". Ele é interpretado por Seiji Sakaguchi, campeão japonês de luta livre que mede impressionantes 1,96m de altura!


O combate final entre Seiji e Chuck é memorável: ao som da ótima trilha composta por William Goldstein, que dá um tom épico ao confronto, os dois parecem se matar de verdade, arrebentando móveis, portas e janelas como se fossem de papel.

Digno de registro: o grandalhão é um dos raros oponentes a tirar MUITO sangue de Norris numa luta cinematográfica, e seu destino gorezento lembra o desfecho do vilão de "Ghost - Do Outro Lado da Vida".


E os clichês acabam ficando em segundo plano graças à direção eficiente e estilosa de Fargo. Ele nunca deixa o ritmo cair (e nem o espectador pensar muito), aproveitando bem as locações em Hong-Kong - principalmente quando Randall, Claire e Joy precisam fugir dos homens de Raimondi por umas vielas apertadas e superlotadas de pessoas, onde o perigo pode estar em cada esquina.

Estilosos também são os créditos iniciais do filme, que mostram apenas as silhuetas de Chuck Norris lutando, em câmera lenta, com um adversário anônimo em frente a um grande letreiro luminoso de cor vermelha. Infelizmente, a mesma cena é repetida mais tarde no filme, em velocidade normal, tirando parte do seu impacto (e tornando questionável sua utilização anteriormente).


Se GOLPE MORTAL tem menos atores conhecidos do que outras obras do astro, pelo menos marca a estréia no cinema do ator chinês Tony Leung, em pequena participação. Nos anos seguintes, Leung se transformaria num grande astro, aparecendo em filmaços como "Fervura Máxima", "Herói", "Conflitos Internos" e "Amor à Flor da Pele".

Também se repete aquele clima familiar de outros trabalhos de Chuck, com participações de seu irmão Aaron Norris (como coordenador dos dublês), de seu filho Mike (numa ponta) e de Richard Norton. Ele foi dublê do astro e faz uma ponta, em que aparece com cabelo e bigode bem semelhantes a Norris, já que o substituía nas cenas mais delicadas.


Mas se há alguém que merece destaque em GOLPE MORTAL além do astro é seu par romântico, a gata Mary Louise Weller, provavelmente uma das mais lindas atrizes a contracenar com Chuck em toda a sua filmografia.

Mary Louise infelizmente não aparece tanto na trama, mas tem um belíssimo par de peitos que é de parar o trânsito. Aqui eles só aparecem de relance, mas foram exibidos em toda a sua glória na comédia "Clube dos Cafajestes", onde a moça interpretou Mandy Pepperidge (dá uma olhada na imagem aí embaixo, taradão!).


É uma pena que a moça tenha abandonado o cinema ainda lá atrás, na metade dos anos 1980, para investir na criação de cavalos, privando-nos do seu talento dramático (e da sua comissão de frente). Esta aventura com Chuck Norris acabou sendo um de seus últimos trabalhos.

GOLPE MORTAL também é um dos últimos filmes em que Norris prefere resolver os conflitos no karatê, e não com armas de fogo. A partir do ano seguinte, em "McQuade", ele já apareceria exterminando bandidos com revólveres, rifles, metralhadoras e até bazucas, o que se repetiria nas séries "Braddock" e "Comando Delta".


Claro, em todos estes filmes ele continuou distribuido seus chutes giratórios e sopapos. Mas sua trajetória como "indestrutível mestre das artes marciais que usa os punhos e pernas como armas" terminou por aqui. Afinal, os tempos eram outros, graças a produções como "Rambo" e o posterior "Comando Para Matar"...

Mais um motivo para redescobrir GOLPE MORTAL, que merece inclusive uma Sessão Dupla com "Matador de Aluguel" - dois filmaços que dão um laço na maioria dos filmes de ação recentes que eu assisti!

PS: "Bem-vindo à Selva" (2003), de Peter Berg, traz The Rock na pele de um personagem "cobrador de dívidas" bem parecido com Josh Randall. Não sei se é plágio ou homenagem, mas o filme não chega aos pés desse aqui, mesmo tendo Christopher Walken como vilão e trama ambientada no Brasil.

Trailer de GOLPE MORTAL



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Forced Vengeance (1982, EUA)
Direção: James Fargo
Elenco: Chuck Norris, Mary Louise Weller, Camila Griggs,
Michael Cavanaugh, David Opatoshu, Seiji Sakaguchi,
Frank Michael Liu e Bob Minor.