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sexta-feira, 19 de abril de 2019

MURPHY'S LAW - O VINGADOR (1986)


Uma das poucas leis que funcionam neste país é a Lei de Murphy - aquela que diz que quando uma coisa pode dar errado, dará. Ela rege praticamente todos os pequenos horrores diários, do pão que sempre cai no chão com o lado da manteiga para baixo até a fila do lado que parece menor, mas sempre vai andar muito mais devagar se você resolver trocar da que você está para ela.

O “Murphy” nominalmente citado na expressão é o engenheiro aeroespacial norte-americano Edward Aloysius Murphy Jr. (1918-1990). Em 1949, enquanto ele e sua equipe faziam testes com um equipamento que media os efeitos da aceleração e desaceleração em pilotos, o pesquisador descobriu que as leituras estavam todas erradas porque alguém do grupo tinha feito uma burrada na hora de configurar os aparelhos. Irritado, jogou a culpa num assistente com a frase que daria a base para a “sua” lei: “Se esse cara tiver a mínima chance de fazer uma cagada, ele fará!”. A partir de então, para tirar onda do irritado engenheiro, seus colegas de trabalho cunharam a famosa Lei de Murphy - ou seja: “Se algo puder dar errado, dará”.


Pois é a Lei de Murphy que rege Jack Murphy, o policial problemático interpretado por Charles Bronson, em MURPHY'S LAW, uma daquelas produções barateiras que o envelhecido ator estrelou para a Cannon Films durante os anos 1980. No Brasil, a aventura ganhou um título absolutamente genérico (“O Vingador”, mesmo título nacional de outros três ou quatro filmes!!!), e por isso vamos manter aqui o título em inglês, que remete tanto à Lei de Murphy tradicional quanto à lei exercida de maneira implacável pelo policial interpretado por Bronson, que divide com o estressado engenheiro aeroespacial o sobrenome.

O próprio herói não perde a chance de fazer piada e criar sua própria lei, quando um bandidão faz trocadilho com o sobrenome do tira e pede se ele conhece a Lei de Murphy: “Eu só conheço a Lei de Jack Murphy...”, responde Bronson, “que diz: Don´t fuck with Jack Murphy!”. Um poeta!


Pois a Lei de Murphy descreve muito bem o inferno astral vivido pelo protagonista do filme: Jack Murphy é um tira veterano cuja esposa (Angel Tompkins, obviamente bem mais jovem que o astro Bronson) largou dele para virar stripper (!!!). Por causa disso, ele virou piada na delegacia e passou a afogar as mágoas em garrafas de uísque. Sem conseguir superar a perda, Murphy passa as noites na boate onde a ex-esposa se apresenta, observando-a tirar a roupa para desconhecidos enquanto enche a cara.

Mas “se algo puder dar errado, dará”, certo? Assim, num intervalo de poucos dias, Murphy entra na lista negra de um chefão da Máfia, Frank Vincenzo (Richard Romanus), depois de matar seu irmão num tiroteio. Também começa a ser perseguido por uma misteriosa serial killer (Carrie Snodgress) dedicada a transformar sua vida num inferno, e ainda é condenado por assassinatos que não cometeu e perseguido pelos próprios colegas de distintivo. Será que dá para piorar?


Bem, num filme batizado com o nome daquela famigerada Lei, sim, pode. Depois de ser preso pelos crimes que na verdade foram perpetrados pela serial killer, Murphy aguarda transferência para a penitenciária numa delegacia. Ali, é algemado com a mesma ladra pé-de-chinelo que tentou roubar seu carro dias antes. Chamada Arabella McGee (e interpretada por Kathleen Wilhoite), ela é uma jovem boca-suja que consegue inserir xingamentos delirantes em todo e qualquer diálogo.

Murphy decide que aquele é um bom momento para tentar limpar seu nome: arrastando Arabella à força consigo (eles estão algemados, lembra?), o tira foge da delegacia roubando um helicóptero (já que aprendeu a pilotar na Guerra da Coréia, apenas vinte anos antes!) e tenta resolver os múltiplos problemas em que se envolveu. Resta saber se continuará sendo uma vítima da Lei de Murphy, ou se fará valer a “Lei de Jack Murphy”...


MURPHY'S LAW não traz exatamente o mais original dos argumentos: o policial que se envolve em altas confusões em parceria forçada com algum criminoso de bom coração já tinha aparecido antes em “Rota Suicida / The Gauntlet” (1977), dirigido e estrelado por Clint Eastwood, onde o herói também tinha que arrastar consigo uma detenta (Sondra Locke). E no sucesso de bilheteria “48 Horas” (1982), de Walter Hill, onde o tira Nick Nolte somava forças com o malandrão interpretado por Eddie Murphy. Os três filmes têm a mesma dinâmica, inclusive: personagens em lados opostos da lei que começam a história se odiando, mas vão criando uma grande amizade ou paixonite no decorrer da história.

Em sua defesa, o roteirista Gail Morgan Hickman disse que a inspiração não veio nem de “Rota Suicida”, nem de “48 horas”, mas sim de um episódio do velho seriado de TV “I Spy” (1965-1968, rebatizado “Os Destemidos” no Brasil), que era estrelado por Robert Culp e Bill Cosby. No episódio em questão, o protagonista precisava unir forças com um ladrão de carros para concluir sua missão. “A relação entre eles era muito interessante e fiquei com aquilo na cabeça”, explicou em entrevista ao livro “Bronson's Loose Again”, de Paul Talbot.


Para um filme que cita e brinca o tempo todo com a Lei de Murphy, é irônico que MURPHY'S LAW tenha surgido de uma sequência de coisas que deram errado...

Deram errado para o astro Bronson, por exemplo, que saiu brigado do set de “Desejo de Matar 3”, criticando a extrema violência da obra e encerrando uma longa amizade e colaboração com o diretor inglês Michael Winner após outros cinco filmes. Seu trabalho seguinte foi um drama produzido para a TV, “Sindicato da Violência” (1986, de John Mackenzie), que pouquíssima gente viu.


Deram errado para o diretor de MURPHY'S LAW, J. Lee Thompson, um respeitado cineasta inglês que, nos bons tempos, havia feito superproduções de Hollywood como “Os Canhões de Navarone” (1961) e “O Ouro de Mackenna” (1969), mas já há algum tempo trabalhava como pau-pra-toda-obra para a Cannon Films, encarando orçamentos minguados e a regra do improviso total geralmente imposta pela produtora - algo indigno para um velho artesão do seu calibre.

Seu trabalho anterior para os irmãos Golan & Globus, o divertidíssimo “As Minas do Rei Salomão” (1985), foi um autêntico pesadelo para o septuagenário diretor, que teve inúmeros problemas filmando na África durante uma estação de fortes chuvas.


Deram errado para a própria Cannon Films, que tinha assinado um contrato para múltiplos filmes com Bronson desde “Desejo de Matar 2”. Na primavera de 1985, Golan & Globus anunciaram que seu próximo projeto seria “Comando Delta”, uma ambiciosa aventura a ser dirigida por Joseph Zito (de “Braddock - O Super Comando”) e juntando os dois grandes astros da casa, Bronson e Chuck Norris (se liga no anúncio abaixo, publicado em página dupla na revista Variety). Mas a Cannon logo viu o projeto tornar-se comercialmente inviável quando as pré-vendas do filme não foram suficientes para cobrir o cachê milionário pedido pela dupla (à época, Bronson recebia um milhão por trabalho, sem negociação).

A solução foi economizar sacrificando um dos astros - no caso, o mais velho -, e colocando outro veterano “mais barato”, Lee Marvin, para substituí-lo ao lado de Norris (Zito também rodou, e no fim o próprio Menahem Golan dirigiu o filme). Quando “Comando Delta” com Bronson e Norris foi cancelado, a Cannon resolveu que seu próximo projeto com o ator seria uma refilmagem de “O Passageiro da Chuva”, thriller de René Clément que ele fez na França no começo dos anos 1970, quando era mais popular na Europa do que nos Estados Unidos. Mas este projeto também acabou nunca saindo do papel.


E principalmente, as coisas deram errado para o roteirista Gail Morgan Hickman. Quase uma década antes, ele se tornou uma lenda em Hollywood por ser um jovem estudante de cinema que milagrosamente conseguiu vender seu primeiro roteiro para um galã do calibre de Clint Eastwood.

Sem agente e sem nenhum contato com grandes estúdios, mas com muita cara-de-pau, Hickman simplesmente tinha deixado seu script chamado “Moving Target” com o dono do restaurante onde Clint costumava almoçar com frequência; depois de muita encheção de saco, o sujeito rendeu-se e mostrou o roteiro ao astro, que gostou e comprou os direitos para transformá-lo em “Sem Medo da Morte / The Enforcer” (1976), a terceira aventura de Dirty Harry.


Mas o que podia indicar o início de uma carreira promissora acabou ficando por aí. Na década que separa “Sem Medo da Morte” de MURPHY'S LAW, Hickman só conseguiu emplacar mais um roteiro, e para um filme que passou em brancas nuvens (o policial “The Big Score”, de 1983, dirigido e estrelado por Fred Williamson, que não é nenhuma obra-prima, digamos).

Para piorar, seu primeiro envolvimento - ainda que indireto - com Charles Bronson terminou mal: ele havia sido contratado pela Cannon para escrever alguns argumentos para
“Desejo de Matar 3”, num momento em que o astro estava insatisfeito com o primeiro roteiro que lhe foi apresentado. Hickman chegou a entregar várias sugestões, mas no fim Bronson não gostou de nenhuma delas e resolveu aceitar aquele primeiro roteiro que não tinha gostado!



Considerando o episódio uma questão de honra, o roteirista decidiu que seu próximo projeto seria escrever uma aventura policial especialmente para Charles Bronson, uma que ele não pudesse negar. Assim surgiu MURPHY'S LAW.

Hickman inclusive usou a mesma estratégia que havia adotado para convencer Clint Eastwood, e praticamente forçou o agente e amigo de Bronson, Paul Kohler, a ler seu script. Conseguiu o emprego na hora, e o roteiro foi vendido para a Cannon para ser o próximo projeto do astro, com as filmagens acontecendo entre janeiro e fevereiro de 1986.


Vale ressaltar que o filme pronto é bem diferente do roteiro original, que tinha o clima de uma daquelas amalucadas aventuras dos anos 1980 e era cheio de tiroteios e explosões. O tom mudou primeiro a pedido de Bronson, que queria fazer filmes mais realistas e menos “rambônicos” depois de massacrar centenas de vilões em “Desejo de Matar 3”; e depois por exigência da própria Cannon, que começava a enfrentar problemas financeiros no período depois que suas produções mais careiras e/ou artísticas não deram o retorno esperado nas bilheterias, e por isso pediu que as cenas de ação mais explosivas fossem diminuídas ou completamente extirpadas do script.

Entre as cenas que nunca viram a luz do dia por conta da “cirurgia” no roteiro estão um tiroteio num estacionamento subterrâneo, Arabella pendurada para fora do helicóptero no momento da fuga da delegacia, a explosão da aeronave após o pouso forçado e um momento em que a garota leva o policial até um armazém repleto de carros roubados, onde Murphy é atacado por bandidos. Já o confronto final seria muito mais violento, com o mafioso Vincenzo ameaçando esquartejar Murphy com uma motosserra, estilo “Scarface” - obviamente, na luta que se seguia, era um dos capangas que acabava sendo serrado ao meio.


O resultado é que MURPHY'S LAW é um dos filmes mais burocráticos e fraquinhos da carreira oitentista de Bronson. Mas quase tudo que ele fez com a Cannon a partir de “Desejo de Matar 3” (na ordem: “Assassinato nos Estados Unidos”, “Desejo de Matar 4 - Operação Crackdown”, “Mensageiro da Morte” e “Kinjite - Desejos Proibidos”) é marromeno.

A narrativa é movida a clichês, e não falta nem o velho parceiro do herói, dos tempos da guerra, que lhe dá uma mãozinha quando todo mundo vira as costas, mas como “pagamento” pela boa ação se torna a próxima vítima dos vilões. O papel caiu como uma luva para o cantor de jazz transformado em ator Bill Henderson, que antes de morrer em filmes do Charles Bronson pôde cantar com lendas da música como Frank Sinatra, Tony Bennett e Quincy Jones.


O veterano J. Lee Thompson dirige literalmente no piloto automático, e as cenas de ação são especialmente burocráticas - ainda mais considerando que este é o longa posterior ao apocalíptico “Desejo de Matar 3”!!! Há carros atravessando vidraças, corre-corre, motos explodidas a tiros de metralhadora, carros explodidos a tiros, mas nada de especialmente emocionante.

O momento em que Bronson e Arabella cruzam com um grupo de plantadores de maconha é tão gratuito que parece ter sido filmado apenas porque todos perceberam que o ritmo estava titubeante e o herói não disparava nenhum tiro durante considerável parte do filme.


A verdade é que Bronson passa a maior parte da história fugindo da lei e suportando os insultos da parceira-mirim, e não metendo pipocos na bandidagem, como se espera dos seus personagens nas produções da Cannon. A coisa só melhora no ato final, que finalmente coloca todos os antagonistas uns contra os outros. Talvez o diretor já não tivesse mais o mesmo pique da juventude, ou estava cansado dos problemas no set de “As Minas do Rei Salomão”.

Uma evidência disso é que Thompson saltou direto daqui para o set de “Os Aventureiros do Fogo”, outra aventura morna e pouco memorável, esta estrelada por Chuck Norris. E dois anos depois chegou a ter um piripaque durante as gravações de “Mensageiro da Morte”, um dos filmes mais fracos de Bronson.


Mas o grande problema de MURPHY'S LAW é a total falta de química entre o protagonista e sua colega de cena, Kathleen Wilhoite - ele com 64 anos na época das filmagens, ela com vinte-e-poucos. Parece que nos bastidores rolou um clima de camaradagem e brincadeiras entre os dois, mas na tela, pelo menos, a dupla não convence. A culpa não é de Kathleen, pois nem uma artista oscarizada como Meryl Streep conseguiria tornar a personagem menos xarope da maneira como ela foi escrita.

Os “xingamentos engraçadinhos” de Arabella são irritantes, sua postura rebelde é pura pose (óbvio que por baixo da marginal boca-suja existe um grande coração), e há um momento extremamente constrangedor de “assédio geriátrico”, quando a garota pede, com um sorrisinho maroto, para Murphy “provar” que policiais não têm pinto pequeno. Felizmente, o telefone toca e livra o espectador da possibilidade de ver qualquer coisa próxima de sexo geriátrico, tipo a horrorosa cena de amor de Bronson com Deborah Raffin em “Desejo de Matar 3”!


No roteiro original, Arabella xingava “normalmente”, mas algum cabeça-oca achou que ficaria mais divertido se ela apelasse para expressões absurdas ao invés de xingamentos comuns. Não, não ficou mais divertido; pelo contrário (confira um glossário de xingamentos toscos no final da resenha). A própria Kathleen achou aquilo muito estúpido (ou “a bunch of silly shit”, conforme definiu em entrevista ao livro “Bronson's Loose Again”), mas preferiu não discutir com o roteirista e os produtores em seu primeiro grande papel num filme de relativo destaque.

O curioso é que ela não foi a primeira escolha para o papel. A Cannon queria-porque-queria uma cantora famosinha para interpretar a jovem rebelde, talvez imaginando (errado) que isso poderia atrair os “xóvens” para os cinemas e para um filme dirigido e estrelado por dinossauros.


A primeira opção, pasmem, foi ninguém menos que Madonna!!! À época já em alta com hits como “Holiday”, “Material Girl” e “Like a Virgin”, a cantora estava louca para virar atriz, mas pediu um cachê de um milhão de dólares, algo que a Cannon considerou indecente para “uma cantora”. No fim, Madonna escapou de pagar mico em MURPHY'S LAW, mas o fez no horroroso “Surpresa de Shanghai”, de Jim Goddard, que estreou no mesmo ano (dividindo a vergonha com o então namorado Sean Penn).

Depois de Madonna, a roqueira Joan Jett foi cogitada para o elenco e quase entrou no filme. Mas a ex-integrante da banda só de meninas The Runaways foi preterida por não ter nenhuma experiência prévia como atriz. Ironicamente, no ano seguinte ela foi dirigida por ninguém menos que Paul Schrader em “Luz da Fama”, um filme mal-distribuído e pouco conhecido.


Durante algum tempo, a Cannon considerou contratar a modelo e cantora de origem mexicana Apollonia Kotero, que dois anos antes estourou ao lado de Prince no musical “Purple Rain”. A decisão final estava entre ela e Kathleen Wilhoite, e consta que a esposa de Bronson (e produtora do filme) Jill Ireland fez campanha pela contratação da segunda.

Também era a opção mais barata, uma cantora ainda desconhecida que estava começando a investir na carreira de atriz - àquela altura, seu grande papel no cinema tinha sido na comédia erótica “Uma Escola Muito Especial... Para Garotas” (1983). Embora a Arabella de MURPHY'S LAW seja um dos seus personagens de mais destaque, Kathleen é especialmente lembrada por trabalhar no mesmo inferninho que Patrick Swayze no lendário “Matador de Aluguel” (1989). Kathleen escreveu e cantou a canção-tema que toca durante os créditos finais, e nos anos 1990-2000 voltou com força para o mundo da música, gravando dois álbuns.


Porém o grande destaque no elenco é Carrie Snodgress, interpretando a fria assassina que persegue Murphy com planos de vingança. Seu plano não faz muito sentido, já que ela perde tempo acusando Murphy de assassinatos mas o que realmente quer é matá-lo - se ele não tivesse fugido da cadeia, como exatamente a vilã faria para dar cabo dele?

Carrie - que no ano anterior havia contracenado com Clint Eastwood em “O Cavaleiro Solitário” - conseguiu compor uma assassina obcecada e assustadora que chega a lembrar uma versão feminina do Robert DeNiro em “Cabo do Medo”, sendo que este remake dirigido pelo Scorsese obviamente veio DEPOIS.


Richard Romanus também está marcante como o arquiinimigo de Murphy, ele que acabou se especializando em interpretar mafiosos - para Scorsese em “Caminhos Perigosos”, para John Landis em “Oscar - Minha Filha Quer Casar”, e obviamente no seriado “Família Soprano”. Seu Frank Vincenzo é um antagonista de respeito, infelizmente subaproveitado em MURPHY'S LAW porque a verdadeira vilã é Carrie Snodgress.


E tem uma fofoca muito boa de bastidores que vale a pena reproduzir aqui. No filme, o finado James Luisi aparece como um policial que não vai muito com a cara de Murphy, e os dois estão sempre se bicando. Lá pelas tantas, o personagem de Luisi comenta que passou na boate onde a ex-mulher do protagonista faz strip. “Nice tits”, caçoa ele, antes de tomar um soco na boca do estressado protagonista.

Pois eis que, à época e na vida real, o ator James Luisi estava namorando ninguém menos que a ex-esposa de Charles Bronson, Harriet Tendler. O casal se divorciou em 1967 e tinha dois filhos. Bronson obviamente não sabia do fato, mas a provocação de Luisi sobre peitos de uma ex-esposa torna-se mais realista graças ao fato. (Foi a própria Harriet quem comentou o detalhe em sua auto-biografia, divertindo-se com o fato de Luisi nunca ter contado a Bronson que estava saindo com ela, só por via das dúvidas e por amor aos dentes.)


Para cinéfilos doentes, como este que vos escreve, MURPHY'S LAW traz pelo menos duas locações muito interessantes e identificáveis de outras produções.

A casa de Ben, o velho amigo de Murphy, onde os heróis buscam refúgio após fugir da prisão, é a mesmíssima casinha de madeira simpática onde a Família Jarvis morava no antológico “Sexta-feira 13 Parte 4 - O Capítulo Final” (imagens abaixo). Logo, Charles Bronson esteve na mesma casa que foi invadida, dois anos antes, por Jason Voorhees! Já pensou se as duas máquinas de matar tivessem se cruzado?


Reconhece este hall de entrada e esta cozinha de algum lugar?

É que Jason visitou a casa da Família Jarvis dois anos antes! 

Já na cena final, o confronto de Murphy com a serial killer e com os homens da Máfia, tem como cenário o Bradbury Building (imagens abaixo), um edifício histórico no centro de Los Angeles que já apareceu numa cacetada de filmes, mas é especialmente lembrado pelos cinéfilos como o prédio onde morava o inventor J.F. Sebastian em “Blade Runner - O Caçador de Andróides” (1982).

Por ter custado pouco, e aproveitado a popularidade de Charles Bronson no período, MURPHY'S LAW estreou nos cinemas com relativo sucesso. Em Nova York, foi o segundo filme mais visto na semana de estreia, perdendo apenas para “A Lenda”, de Ridley Scott. Em todo o ano de 1986, foi a terceira produção mais rentável da Cannon, perdendo apenas para “Comando Delta” e “As Minas do Rei Salomão”.


Com o resultado positivo, o roteirista Hickman foi contratado para escrever mais dois roteiros para Golan & Globus: “Number One With a Bullet” (no Brasil, “Tiras Especiais”), inicialmente um veículo para James Belushi, mas que acabou sendo estrelado pelo “mais barato” Robert Carradine, e “Desejo de Matar 4 - Operação Crackdown”. Com o fim da produtora, ele não emplacou mais nada no cinema e começou a escrever filmes e séries de TV.

Analisado friamente mais de 30 anos depois, MURPHY'S LAW segue sendo um dos momentos menos memoráveis da carreira oitentista de Charles Bronson, e mesmo da Cannon Films, que produziu coisa bem melhor/mais divertida. Mas é como eu sempre digo: um filme mais ou menos do Bronson ainda é melhor que quase tudo que sai hoje com o Vin Diesel ou o The Rock, então não são 90 minutos completamente perdidos. E tenho visto filmes de ação recentes tão, mas tão ruins - incluindo alguns com uns caras fodas, tipo o Scott Adkins -, que até comecei a reavaliar estas aventuras descartáveis que não curti tanto na época.


Para encerrar, deixo aos distintos leitores uma relação dos ridículos xingamentos de Arabella McGee, com uma tradução aproximada para o português (as legendas do DVD nacional optaram por versões mais “normais” das ofensas, eliminando a maior parte da graça). Fiquem livres para usar na próxima oportunidade que vocês quiserem ofender alguém de maneira retardada, ou somente encher o saco alheio, como Arabella faz o filme inteiro. De nada.

GLOSSÁRIO ARABELLIANO:
- snot-rag (lenço de papel onde alguém assoou o nariz)
- camel-crotch (virilha de camelo)
- snot-licking donkey fart (peido-molhado de jumento)
- jism-breath (bafo de sêmen)
- scrotum-cheeks (bochechas de saco escrotal)
- dinosaur dork (dinossauro idiota)
- fart-brains (cérebros-peidados)
- monkey vomit (vômito de macaco)
- Sergeant Dick-Brain (Sargento Pinto no Cérebro).
- kiss my squirrel (beije meu esquilo, sendo que “esquilo” é obviamente um apelido para certa parte da anatomia feminina)
- go jump a flagpole (vá pular de um mastro)
- kiss my pantyhose, sperm bank (beije minha meia-calça, seu banco de esperma)
- mutant (mutante)
- booger bits (pedaços de meleca)
- snot-sucking garbage dump (depósito de lixo melequento)
- barf-bag (saco de vômito)
- jock itch (sarna de atleta, a popular “comichão”)
- buffalo shit (merda de búfalo)
- dog-snot (ranho de cachorro)
- anchovy-breath e pepperoni-breath (respectivamente, bafo de anchova e de pepperoni)
- weenie-roast (pinto assado)
- sperm-count (contagem de esperma)

PS: Curiosamente, dois anos depois do filme estreou na TV norte-americana o seriado de uma única temporada “Murphy's Law”, criado por Lee David Zlotoff, onde o protagonista (interpretado por George Segal) também era divorciado e alcoólatra, mas, ao invés de policial, trabalhava como investigador de fraudes em seguros. Desconheço se a série de vida curta - 13 episódios exibidos entre 1988-89 - chegou a passar no Brasil, ou se teve qualquer inspiração neste filme da Cannon.


Trailer de MURPHY'S LAW



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Murphy's Law (1986, EUA)
Direção: J. Lee Thompson
Elenco: Charles Bronson, Kathleen Wilhoite,
Carrie Snodgress, Robert F. Lyons, Richard
Romanus e Angel Tompkins.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

SORVETE DE LIMÃO (1978) e O ÚLTIMO AMERICANO VIRGEM (1982)


Desde 1978, pelo menos três gerações de pré-adolescentes aprenderam que, como diz aquela música, “love hurts” e toda mulher é ou uma vadia que só quer trepar sem compromisso, ou uma salafrária sem coração que vai partir seu coração quando você menos esperar. As culpadas por esta aula de gosto duvidoso sobre relacionamentos amorosos foram a comédia israelense SORVETE DE LIMÃO, de 1978, e principalmente a sua refilmagem norte-americana O ÚLTIMO AMERICANO VIRGEM, de 1982, ambas escritas e dirigidas pelo israelense de Tel-Aviv Boaz Davidson.

Claro, depois você vai crescendo e descobre que, na vida real, as mulheres não se dividem apenas nestas duas categorias mostradas nos filmes, embora existam muitas representantes de ambas as categorias zanzando por aí e um montão de homens tão ou mais terríveis. Mesmo assim, é difícil não simpatizar (e até se identificar) com o protagonista das duas obras, Benzi no original e Gary no remake, devido à forma de partir o coração como os filmes terminam.


Inclusive eu nunca me esqueço da primeira vez que vi O ÚLTIMO AMERICANO VIRGEM. Ainda era um moleque na faixa dos 10 ou 12 anos, e quando os créditos finais começaram a subir, sobre uma imagem do protagonista dirigindo sozinho e derramando lágrimas de decepção, eu pensei comigo mesmo: “Não acredito que o filme vai terminar assim!”.

Pois até hoje este mesmo pensamento passa pela minha cabeça toda vez que revejo o filme, motivo pelo qual já citei a conclusão de O ÚLTIMO AMERICANO VIRGEM como uma das mais tristes já filmadas. Além de comédias juvenis sobre sexo, tanto SORVETE DE LIMÃO quanto O ÚLTIMO AMERICANO VIRGEM podem ser encarados como dramas comoventes sobre um primeiro amor não-correspondido, incluindo até um caso de aborto no clímax das tramas de ambos os filmes.


E nossa "Sessão Dupla" de hoje é justamente sobre as duas versões dessa história saída da cabeça de Boaz Davidson. Como são igualzinhas (trata-se de uma daquelas refilmagens praticamente cena a cena), não havia razão para eu escrever resenhas separadas sobre cada filme, até porque iria acabar me repetindo. Sem contar que é muito divertido assistir às duas versões no mesmo dia para comparar onde as piadas e situações funcionam melhor, se em Israel ou nos Estados Unidos.

Por esse motivo, usei imagens tiradas das mesmas cenas nos dois filmes, para que o leitor possa conferir in loco como a refilmagem é fiel ao original até nos ângulos de câmera! Mas convém preparar os lenços; afinal, um coração partido dói tanto em Israel quanto nos Estados Unidos, e em qualquer lugar deste planeta.

(Uma boa dica é usar como trilha sonora da leitura este ótimo podcast da Daniela Monteiro, contendo a EXCELENTE trilha sonora dos dois filmes!)


SORVETE DE LIMÃO (1978)


Muita gente nem sabe que é o clássico do Cinema em Casa "O Último Americano Virgem" é a versão norte-americana de um grande sucesso do cinema israelense, a comédia "Eskimo Limon", popular no resto do mundo pelo título em inglês "Lemon Popsicle", e lançada em nossos cinemas em 1980 como SORVETE DE LIMÃO.

Trata-se da mesmíssima trama de "O Último Americano Virgem", mas com uma grande diferença: enquanto a versão norte-americana se passa na Los Angeles dos anos 80, mesma época em que o filme foi feito, o original tem um olhar mais nostálgico, com a trama situando-se na Israel da década de 50, nos moldes do que George Lucas fez em "American Graffiti - Loucuras de Verão" (1973).


É nesta época que acompanhamos as aventuras e desventuras de três jovens em busca de garotas fáceis e aventuras sexuais. Eles são Benzi (Yftach Katzur), que trabalha distribuindo blocos de gelo pelo bairro, numa época em que as geladeiras não eram iguais às de hoje; Momo (Jonathan Sagall, que depois teria papel de destaque em... "A Lista de Schindler"!), o comedor da turma, que passa o rodo geral nas meninas, e Yudale (Zachi Noy, de "Ninja, A Máquina Assassina"), o típico gordo atrapalhado estilo John Belushi.

(Quando o filme foi lançado nos cinemas norte-americanos, e dublado em inglês, os nomes "muito israelenses" dos três jovens foram mudados para versões americanizadas, pelas quais eles são mais conhecidos até hoje: Benzi virou Benji, Momo virou Bobbie, e Yudale passou a atender pela alcunha de Hughie!).


SORVETE DE LIMÃO começa com o trio reunido numa daquelas lanchonetes típicas dos anos 50, que tocavam rock-and-roll para animar os flertes da garotada. Os rapazes conseguem convencer duas meninas para uma sessão de cinema, mera desculpa para poderem bolinar as moças no escurinho, mas as trapalhadas começam desde cedo: sem dinheiro para comprar o ingresso, eles entram por uma porta lateral e são expulsos pelo lanterninha bem na hora em que a coisa está esquentando.

A partir de então, seguem-se várias confusões envolvendo sexo e promiscuidade, incluindo o encontro com uma prostituta daquelas em fim de carreira, que passa pediculose púbica (o popular "chato") para os três rapazes, e uma orgia com uma italiana fogosa que gosta de homens mais novos, interrompida na hora H quando seu namorado marinheiro volta de viagem. Tudo bem grosseiro, mas ainda assim engraçado, e com um olhar até meio ingênuo sobre a coisa toda.


A história muda de tom quando Benzi conhece uma garota nova na cidade, Nili (Anat Atzmon), e se apaixona por ela. Só que a moça também é cobiçada pelo pegador Momo, e o triângulo amoroso coloca em xeque a amizade entre os dois. Principalmente quando Momo tira a virgindade de Nili, e depois a abandona grávida e desamparada.

Benzi, que já tinha passado a maior parte do filme tentando fazer com que Nili abrisse os olhos e se apaixonasse por ele, resolve aproveitar a oportunidade para ajudar a moça: vende suas coisas, levanta uma grana e paga um aborto para que ela não se torne mãe solteira (suicídio social naqueles tempos repressores). Parece que a coisa vai entrar nos eixos e Benzi finalmente ficará com Nili, mas a história termina com a já mencionada cena final de estragar o dia de qualquer um. Embora seja uma comédia, não há nada sequer parecido com um final feliz, ou engraçado, em SORVETE DE LIMÃO...


Duvido que em pleno século 21 ninguém saiba como é que a história acaba (ou pelo menos como o remake "O Último Americano Virgem" acaba), mas vamos recapitular: Benzi vai à festa de aniversário de Nili com uma jóia que comprou e que lhe custou os olhos da cara, apenas para encontrá-la aos beijos e abraços na cozinha com... Momo!?! Exatamente, aquele mesmo cafajeste que semanas antes abandonou a garota depois de engravidá-la!

E sem direito a segunda chance: ao som da balada triste "Mr. Lonely", de Bobby Vinton (“Solitário... / Sou o Sr. Solitário / Não tenho ninguém / Para chamar de meu”), Benzi dá as costas para o (aparentemente) feliz casal e sai da festa com o caríssimo presente nunca entregue nas mãos, chorando, enquanto os créditos sobem devagar, sem uma última cena que redima os personagens ou pelo menos dê um mínimo de final feliz para o protagonista! Muita gente deve ter saído do cinema com a certeza de que mulher não presta, e convenhamos que o filme não ajuda a criar qualquer simpatia pela principal personagem feminina com esta conclusão...


O mais interessante é saber que a triste história de Benzi foi baseada num acontecimento da juventude do próprio diretor-roteirista Boaz Davidson, que também teve uma Nili em sua vida e também acabou com o coração partido no desfecho - motivo pelo qual ele deve ter lutado para filmar o inesperado final triste de SORVETE DE LIMÃO.

Talvez por isso, também, o enfoque no caso de aborto seja muito maior nesta versão do que no remake norte-americano (em que rápidas cenas da menina sendo preparada para a operação aparecem ao som de rock-and-roll). Aqui o processo é mostrado mais detalhadamente, quem sabe até com propósitos moralistas, tipo assustar a molecada da época para fazer sexo seguro.


Numa entrevista que consta como extra no DVD japonês de SORVETE DE LIMÃO, Davidson explica: "Quando eu era jovem, sofri com as dores da idade como todo mundo, e acho que algumas delas me acompanharam até a idade adulta, quando eu decidi voltar a elas e encerrar o ciclo, encerrar a história. O filme é baseado na minha vida: Benzi sou eu, seus pais são meus pais, os outros caras são os meus amigos da época e a garota por quem ele se apaixona é a garota por quem eu me apaixonei. Portanto, é um filme muito importante para mim".

Na mesma entrevista, Davidson assume que "American Graffiti" foi uma grande inspiração até para a escolha da trilha sonora, repleta de pérolas das décadas de 50-60, como "My Little One", de George Fenton, "Long Tall Sally", de Little Richard, "Rock Around The Clock", de Bill Haley and the Comets, "Lollipop", na voz das The Chordettes, e "Put Your Head On My Shoulder", de Paul Anka. Sabe-se lá se os israelenses pagaram direitos autorais para toda essa gente, mas a trilha é de primeira (você está escutando o DanyCast nesse momento, não está?).


SORVETE DE LIMÃO foi um grande sucesso no mundo inteiro na época do seu lançamento. Apesar de hoje ser visto (de forma preconceituosa e incorreta) como uma comédia rasteira de baixaria e mulher pelada, no final dos anos 70 o filme chegou até o circuito dos festivais de respeito, concorrendo ao Urso de Ouro no Festival de Berlim em 1978 e ao Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro em 1979!!! Digamos apenas que imitações posteriores, tipo o canadense "Porky's" (1982), jamais chegaram tão longe.

Para aproveitar o sucesso, foram produzidas nada menos de OITO continuações entre 1979 e 2001, quase todas estreladas pelo mesmo trio de atores na pele dos mesmos personagens (e sem nunca explicar como Benzi e Momo continuaram sendo amigos depois do que aconteceu na conclusão do filme original!).


Boaz Davidson dirigiu as três primeiras: "Yotzim Kavua/Going Steady" (1979), que é basicamente mais do mesmo; "Shifshuf Naim/Hot Bubblegum" (1981), que mostra Benzi voltando a se envolver com a mesma Nili do original (e se ferrando outra vez), e "Sapiches/Private Popsicle" (1983), em que os três amigos entram no Serviço Militar, mas continuam se metendo em confusões sexuais.

As sequências seguintes foram "Roman Za'ir/Baby Love" (1984), dirigida por Dan Wolman, em que Benzi se apaixona pela irmã de Momo; "Harimu Ogen/Up Your Anchor" (1985), em que Benzi e Yudale vão trabalhar como marinheiros num cruzeiro (desta vez sem Momo, pois o ator pulou fora); "Ahava Tzeira/Young Love" (1987), dirigido por Walter Bannert, reunindo outra vez os três amigos e colocando-os para trabalhar num resort de férias; e finalmente "Summertime Blues: Lemon Popsicle VIII" (1988), uma bizarra co-produção Israel-Alemanha (!!!) dirigida por Reinhard Schwabenitzky, e a última sequência a trazer os três atores principais da série (na época já acima dos 30 anos, mas ainda fazendo papel de adolescentes!).

Um nono filme foi produzido em 2001, "Lemon Popsicle 9: The Party Goes On", dirigido por
Tzvi Shissel, e com uma trama que se passa nos anos 60. Outros atores assumiram os papéis principais, já que os astros originais eram quarentões àquela altura.


Apesar de hoje a franquia ser praticamente desconhecida no Brasil, seus filmes foram muito populares nas grandes cidades nos tempos das salas de cinema de rua, e alguns também chegaram às nossas locadoras ou às telinhas via SBT. Para não se perder, confira o que chegou ao nosso país e o que permanece inédito:
* "Eskimo Lemon/Lemon Popsicle": exibido apenas nos cinemas como "Sorvete de Limão"; inédito na TV e em VHS/DVD.
* "Yotzim Kavua/Going Steady": inédito no Brasil.
* "Shifshuf Naim/Hot Bubblegum": exibido em nossos cinemas e no SBT como "Paquera e Curtição", mas lançado em VHS pela América Vídeo com um título escalafobético: "Os Americanos Virgens Agora Chupam Sorvetes" (!!!).
* "Sapiches/Private Popsicle": inédito nos cinemas e na TV, mas lançado em VHS pela América Vídeo como  "Recrutas da Pesada" (mesmo título de uma comédia estrelada por Bill Murray).
* "Roman Za'ir/Baby Love": exibido nos cinemas como "Doce Baby Love" e pelo SBT como "Amor de Menina"; inédito em VHS/DVD.
* "Harimu Ogen/Up Your Anchor": exibido nos cinemas e lançado em VHS pela América Vídeo com o título picareta "O Último Americano Virgem 2"!!! (Lembro que loquei esta fita para ver se a história realmente iria continuar do final de "O Último Americano Virgem", e obviamente me decepcionei bastante ao descobrir que era uma história completamente diferente.)
* "Ahava Tzeira/Young Love": exibido pelo SBT como "Loucuras de Verão" (mesmo nome brasileiro de "American Graffiti"!); inédito nos cinemas e em VHS/DVD.
* "Summertime Blues: Lemon Popsicle VIII": inédito no Brasil.
* "Lemon Popsicle 9: The Party Goes On": inédito no Brasil.


É comum ler por aí que "O Último Americano Virgem" teria sido influenciado pela comédia canadense "Porky's". Mas a verdade é que foi "Porky's" quem se inspirou em SORVETE DE LIMÃO. O filme de Bob Clark também trata das aventuras sexuais de adolescentes nos anos 50, e tem até algumas cenas bem parecidas com a comédia israelense.

Aqui, por exemplo, há um momento em que a garotada do colégio faz uma competição para ver quem tem o maior pinto, e Benzi e Yudale medem todos os membros da rapaziada com uma régua para eleger o vencedor. Pois a cena inicial de "Porky's" mostra justamente o looser Pee-Wee medindo o próprio pinto com uma régua e analisando o resultado num "gráfico de crescimento" que guarda debaixo da cama!


SORVETE DE LIMÃO provavelmente foi um dos precursores das comédias juvenis sobre sexo, um subgênero que seria explorado à exaustão nos Estados Unidos na década de 80, sempre mostrando jovens idiotas e tarados correndo atrás de belas garotas peladas. "Férias do Barulho", "Quando a Turma Sai de Férias" e "A Grande Encrenca" são alguns dos títulos mais conhecidos desse ciclo, que nos anos 90/2000 renderia ainda a série "American Pie".

Ironicamente, o filme israelense nem é tão safado assim - pelo menos não tanto quanto os que vieram depois, incluindo suas continuações. O nível de nudez é bem baixo, o sexo é bastante tímido, e quando um moleque espia as meninas do colégio tomando banho por um buraco na parede do vestiário, por exemplo, as garotas aparecem apenas de calcinha e sutiã. A única cena mais cabeluda é a visita dos rapazes à italiana ninfomaníaca, que aparece completamente nua. Fora isso, SORVETE DE LIMÃO é uma comédia até bem inocente para os padrões atuais.


Mas embora eu goste muito do filme de Boaz Davidson (principalmente por causa da sua trilha sonora, e da forma como as músicas casam com as cenas, uma coisa de gênio!), tenho que confessar que prefiro a versão norte-americana "O Último Americano Virgem". Talvez porque este aqui mostre um momento bem particular do seu diretor-roteirista, que teve a infância e a juventude nos anos 50, enquanto eu me identifico muito mais com a molecada anos 80 mostrada na refilmagem.

A ideia de refilmar SORVETE DE LIMÃO veio da cabeça dos primos Yoram Globus e Menahen Golan, que produziram a série original em Israel. Quando eles montaram a Cannon Films para fazer seus próprios projetos nos Estados Unidos, o remake de SORVETE DE LIMÃO foi um dos primeiros da lista, já que os originais faziam grande sucesso também nos EUA (onde eram dublados em inglês).

Inclusive "O Último Americano Virgem" seria o primeiro episódio da série "Eskimo Limon" norte-americana, mas infelizmente não fez o mesmo sucesso dos originais e acabou ficando somente neste único episódio mesmo. Portanto, vamos a ele...


O ÚLTIMO AMERICANO VIRGEM (1982)


Quando moleque, eu interpretava O ÚLTIMO AMERICANO VIRGEM simplesmente como uma comédia sobre sexo. Afinal, o filme trazia todas aquelas confusões típicas envolvendo jovens cabaços que tentam pegar meninas fáceis, piadas machistas como a competição de medir o tamanho do pinto ou o rapaz que espiona as garotas tomando banho no vestiário do colégio, e por aí vai.

Mas hoje a minha visão sobre O ÚLTIMO AMERICANO VIRGEM é completamente diferente: sim, o sexo e a safadeza estão lá, e em doses muito maiores que no original israelense "Sorvete de Limão". Porém o filme parece muito mais triste e melancólico do que eu me lembrava. E a conclusão... cacetada! Já escrevi no começo, mas vale lembrar que poucos finais me chocaram tanto na minha longa vida de cinéfilo quanto o desta comédia - talvez porque ninguém vai ver um filme chamado O ÚLTIMO AMERICANO VIRGEM esperando levar uma cacetada na cabeça no final!


Concebido como o primeiro filme da série "Lemon Popsicle" norte-americana (acabou sendo o único, pois os originais faziam mais sucesso que a refilmagem), O ÚLTIMO AMERICANO VIRGEM também foi escrito e dirigido pelo israelense Boaz Davidson, com algumas pequenas modificações aqui e ali.

A principal delas é que enquanto "Sorvete de Limão" se passava nos anos 50, a trama aqui se desenrola na própria década das filmagens, os anos 80. Por isso alguns espectadores (eu incluso) vão se identificar muito mais com a história e os personagens.


A ambientação também mudou: sai Israel, entra Los Angeles, onde mais uma vez acompanhamos as aventuras e desventuras de três jovens em busca de garotas fáceis e aventuras sexuais. Agora eles já andam de carro (e não de bicicleta, como no original) e trabalham em pizzarias (e não como entregadores de gelo), mas, na essência, são igualzinhos às suas versões israelenses lá de 1978.

O trio agora é formado por Gary (Lawrence Monoson, que também interpretou um cabação que se dá mal em "Sexta-feira 13 Parte 4 - O Capítulo Final), um tímido entregador de pizza; Rick (Steve Antin, vilão juvenil em "Os Goonies"), o comedor que passa o rodo geral sem ligar para os sentimentos das moças ou para a possibilidade de elas engravidarem, e David (Joe Rubbo), o gordo atrapalhado versão EUA.


Se "Sorvete de Limão" começava com o trio convencendo duas meninas a pegar um cineminha, mas cheios de segundas intenções, aqui a parada é mais pesada: eles convencem três garotas assanhadas a irem até a casa de Gary (cujos pais vão passar a noite fora) para uma festa que não existe regada a drogas que não existem (eles chegam a fazer linhas de açúcar para imitar cocaína, em cena que costumava ser cortada nas exibições na TV). Rick é o único que consegue transar com uma das garotas, enquanto os amigos se ferram quando os pais de Gary voltam para casa mais cedo.

(Esta é uma das poucas cenas de O ÚLTIMO AMERICANO VIRGEM que não existe no original israelense. Mas o diretor Davidson pegou-a emprestada do terceiro filme da série "Lemon Popsicle", mais conhecido por aqui como "Paquera e Curtição".)


O restante do filme segue fielmente o roteiro de "Sorvete de Limão", inclusive na ordem das cenas: o concurso de maior pinto, o encontro com uma coroa ninfomaníaca (aqui latina ao invés de italiana), a transa com a prostituta que rende chatos ao trio, e até a cena em que eles roubam o carro de um amigo nerd para ir namorar na praia e acabam afundando o conversível no mar!

Como também acontecia no original, a história começa a se complicar quando Gary se apaixona por Karen (Diane Franklin, de "Amityville 2 - A Possessão"), que por sua vez está na mira do pegador Rick. Apesar dos constantes esforços do tímido virgem para se declarar à menina, é Rick quem transa com Karen. E a engravida. Aí Gary tenta resolver a situação e... o final é aquele mesmo de "Sorvete de Limão", mas a versão "modernizada" parece ainda mais filha da puta do que a original!


Por que mais filha da puta? Bem, aqui a cena mostra Gary encontrando Karen e Rick aos beijos ao som de "Just Once", de James Ingram (“Eu dei o meu melhor / Mas eu acho / Que o meu melhor não foi bom o suficiente”). A diferença em relação à conclusão do original israelense é que lá o diretor fazia questão de mostrar que a personagem da menina (Nili) percebia que tinha pisado na bola, e até ficava consternada ao perceber que Benzi a pegara no flagra voltando para o outro rapaz; aqui, em compensação, Karen olha para Gary com um sorrisinho um tanto cínico, como se estivesse perguntando “Mas e o que você esperava, otário?”. Assim como já acontecia no original israelense, fica difícil simpatizar com a personagem considerando a forma como ela trata o ingênuo protagonista - talvez um simples diálogo com a menina tentando justificar a escolha, ou pelo menos um "Sinto muito", tornasse a situação menos pesada.

(Você pode comparar o final dos dois filmes nos vídeos abaixo, mas convém preparar-se para o choque, porque ambos são de rasgar e pisotear o coração!)

Cena final de "O Último Americano Virgem"



Cena final de "Sorvete de Limão"



Além de Monoson, que depois apareceu em "Sexta-feira 13 Parte 4", dois outros nomes ligados ao horror bateram cartão em O ÚLTIMO AMERICANO VIRGEM: o veterano Mel Welles, ator em "A Pequena Loja dos Horrores" e diretor de "A Mulher de Frankenstein", aparece como um farmacêutico, e Brian Peck faz o papel do nerd Victor. Para quem não ligou o nome à pessoa, Peck integrou o elenco dos três primeiros filmes da série "A Volta dos Mortos-Vivos", mas sempre em papéis diferentes, sendo mais lembrado como o punk Scuz no original (depois ele fez pontas como zumbis nas duas sequências).

E não dá para deixar de registrar a presença de Kimmy Robertson como Rose, amiguinha feia de Karen que acaba se apaixonando por Gary. Kimmy ficou imortalizada na cultura popular como a secretária da delegacia do seriado "Twin Peaks", e aqui já dá uma demonstração da sua voz chata, que depois seria tão marcante na série criada por David Lynch.


Ah, outra informação curiosa: Steve Antin na vida real era gay assumido, e inclusive namorou com o famoso executivo da música David Geffen em meio aos anos 80. O cara está bem convincente como pegador no filme, mas já era homossexual na época das filmagens. Mais recentemente, Antin abandonou a carreira de ator para concentrar-se na de diretor-roteirista: foi ele que assinou o musical "Burlesque" (2010), com Cher e Christina Aguilera. Assim, do elenco do filme, foi provavelmente o que chegou mais longe.

Por sinal, alguns sites alegam que Lawrence Monoson também saiu do armário nos anos 80, o que tornaria o triângulo amoroso mostrado em O ÚLTIMO AMERICANO VIRGEM bem suspeito (talvez os dois moleques no fundo estivessem disputando um ao outro, e não a mocinha!). Entretanto, como não encontrei referências confiáveis de que Monoson morde a fronha, fica a dúvida no ar. Já o gordinho Joe Rubbo apareceu como gordinho trapalhão (claro!) em outra comédia adolescente sobre sexo, "Férias Ardentes" (1985), e depois abandonou o cinema para virar corretor. Dizem as más línguas que chegou a ser preso por crimes contra a Receita.


Se "Sorvete de Limão" chamava a atenção pela qualidade da trilha sonora, repleta de pérola dos anos 50-60, aqui os realizadores repetiram a dose com outra trilha maravilhosa, agora formada por sucessos das décadas de 70-80, como The Police ("De Do Do Do, De Da Da Da"), K.C. and The Sunshine Band ("That's the Way I Like It"), Oingo Boingo ("Better Luck Next Time") e REO Speedwagon ("Keep on Loving You"), entre outros.

Também vale destacar algumas poucas mudanças feitas aqui, em comparação com o original israelense. Em "Sorvete de Limão", havia mais cenas em que Benzi era cobrado por sua família para tomar jeito e dar um rumo à sua vida, que não estão aqui. Já quando os amigos iam na farmácia comprar remédio para matar chatos, eram atendidos primeiro por uma funcionária, o que deixava a situação ainda mais constrangedora. Aqui, eles já são atendidos direto por um homem, mas aparentemente a cena foi filmada igualzinho à versão israelense e depois diminuída, pois os créditos finais indicam Sylvia Lawler, que não aparece no filme, como "Assistant Druggist".


Talvez o inesperado fracasso de bilheteria de O ÚLTIMO AMERICANO VIRGEM possa ser explicado pelo fato de o filme ter estreado nos cinemas no mesmo ano que "Picardias Estudantis", excelente comédia dirigida por Amy Heckerling, que ficou com todos os holofotes.

Como "Picardias Estudantis" também tem um toque dramático envolvendo o aborto feito por uma das personagens (Jennifer Jason Leigh), muitos críticos da época erroneamente afirmaram que O ÚLTIMO AMERICANO VIRGEM era uma cópia barata do filme de Heckerling, ignorando que na verdade era remake de um filme de 1978, e portanto se alguém copiou alguém foi o próprio "Picardias Estudantis"!


Pelo menos o tempo fez justiça à comédia de Davidson, transformando-a numa espécie de clássico cult, não só pelas incontáveis reprises na TV ao redor do mundo, mas principalmente pelo fato de o filme ser muito mais interessante e maduro (acredite se quiser!) do que várias outras comédias adolescentes sobre sexo do mesmo período.

Há alguns anos, um reencontro do elenco de O ÚLTIMO AMERICANO VIRGEM foi realizado nos Estados Unidos, juntando no mesmo palco alguns dos atores principais e secundários do filme, e reuniu uma multidão de fãs. O moderador dos debates foi ninguém menos que o cineasta Eli Roth, de "Hostel" e "Cabana do Inferno"!


Eu já disse antes que prefiro e me identifico muito mais com O ÚLTIMO AMERICANO VIRGEM, embora goste bastante de "Sorvete de Limão" também, e explico o porquê: enquanto o original era uma comédia farsesca mais descarada e escrachada, aqui existe uma química legal entre os protagonistas, como se os três fossem amigos de verdade na vida real, e não apenas jovens tarados em busca de sexo.

Além disso, quem nunca passou por situações parecidas com as de Gary e sua turma? Não estou me referindo a pagar abortos para meninas mal-agradecidas, mas de aspectos específicos da trama que são bem realistas, ao contrário dos exageros e absurdos vistos em filmes como "Porky's" e, mais recentemente, "American Pie". Se na vida real ninguém enfia o pinto em tortas (ou pelo menos eu gostaria de acreditar que não), é muito fácil identificar-se com algumas das situações apresentadas na comédia de Boaz Davidson.


Nunca esqueci, por exemplo, da noite em que eu, ainda um garoto em meus 14 ou 15 anos, fui a uma festa e encontrei a menina por quem eu era apaixonado aos beijos com um amigo meu, e aí enchi a cara até não conseguir ficar de pé, voltei para casa e fiz o maior fiasco diante dos meus pais. No filme há uma cena muito parecida, quando Gary "bebe para esquecer" ao ver Rick e Karen numa festinha e depois apronta todas ao chegar doidão em casa bem na hora de uma inesperada reunião de família!

E quem nunca fez um favor para um amigo ficando com a amiga feia da bela garota com quem ele iria sair, pois as duas só sairiam juntas? Lembro, desta vez com certo desgosto, que certa vez fui um verdadeiro herói encarando um tribufú daqueles só para que um amigo meu pudesse se dar bem. Pois aqui tem uma cena muito parecida, quando Gary precisa sair com Rose à força - e na verdade ele reclama de barriga cheia, pois Rose nem é tão feia assim, e certamente é uma Gisele Bündchen perto do tribufú que EU encarei para ajudar meu amigo!


Enfim, são esses pequenos momentos parecidos com a vida de gente como a gente que fazem de O ÚLTIMO AMERICANO VIRGEM uma comédia romântica clássica, ora safada e sem-vergonha, ora triste e melancólica. Pena que, hoje, os filmes sobre a iniciação sexual da rapaziada sejam tão moralistas e tão cheios de dedos, tipo as continuações de "American Pie" (o primeiro até se salva por alguns momentos mais sem-vergonha).

Pois se dependesse de mim, O ÚLTIMO AMERICANO VIRGEM teria exibição obrigatória para a molecada nas escolas. Afinal, a forma como o filme enfoca o sexo (in)seguro e suas consequências (aqui ninguém usa camisinha ou faz qualquer menção a preservativos, ao contrário do que acontecia em "Sorvete de Limão") é muito mais eficiente na educação sexual da garotada do que qualquer aula ou vídeo institucional.

Sem contar que a conclusão ainda prepara a meninada para ser um pouquinho mais forte e insensível nas inevitáveis desilusões amorosas que virão pela frente...


Trailer de SORVETE DE LIMÃO



Trailer de O ÚLTIMO AMERICANO VIRGEM



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Eskimo Lemon / Lemon Popsicle (1978, Israel)
Direção: Boaz Davidson
Elenco: Yftach Katzur, Anat Atzmon, Jonathan Sagall,
Zachi Noy, Ophelia Shtruhl, Dvora Kedar, Avi Hadash,
Rachel Steiner e Yehoshua Luff.

The Last American Virgin (1982, EUA)
Direção: Boaz Davidson
Elenco: Lawrence Monoson, Diane Franklin, Steve Antin,
Joe Rubbo, Louisa Moritz, Brian Peck, Tessa Richarde,
Kimmy Robertson, Mel Welles e Phil Rubenstein.