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sexta-feira, 26 de junho de 2020

EU QUERO ELE MORTO (1968)


(A resenha de hoje é dedicada ao amigo português Pedro Pereira, do excelente blog sobre faroeste italiano Por um Punhado de Euros. Recentemente ele me convidou para ajudar a eleger os melhores western spaghetti de todos os tempos no seu blog, e sei que é um grande fã deste filme em questão.)

Nascido em Roma em 1931, Paolo Bianchini não é exatamente dos nomes mais populares ou respeitados quando se fala em western spaghetti, aquele faroeste tipicamente italiano que lançou gênios como Sergio Leone e Sergio Corbucci. A bem da verdade, Bianchini só dirigiu quatro produções do gênero num curto período de tempo, entre 1968 e 1970. E uma delas, “Deus os Cria, Eu os Mato!”, está entre os meus faroestes favoritos (além de ter, disparado, um dos melhores títulos do ciclo).

Só recentemente comecei a redescobrir a filmografia do cineasta, que, segundo o IMDB, continua na ativa. Dos seus quatro únicos faroestes, três chegaram aos cinemas italianos só no ano de 1968: “Deus os Cria, Eu os Mato!” foi o primeiro, em abril; LO VOGLIO MORTO logo em seguida, em junho, e “O Maldito Dia de Fogo” fechou a “trilogia” e estreou em dezembro daquele ano.


Embora tenham sido filmadas num curto espaço de tempo, são três obras completamente desiguais em ritmo, proposta e resultado, talvez pelo fato de também terem sido dirigidas para produtores diferentes e com orçamentos diferentes. Camillo Fantacci e Gabriele Crisanti produziram “Deus os Cria, Eu os Mato!” com certo tom de galhofa e de absurdo. É o único western spaghetti “puro” dos três, porque os seguintes seriam coproduções Itália e Espanha (um misto de spaghetti western com paella western, para ficarmos nas analogias gastronômicas).

Tanto LO VOGLIO MORTO (produzido por Corrado Ferlaino e Enrico Verga) quanto “O Maldito Dia de Fogo” (produzido por Edmondo Amati) são aventuras mais sérias e com pano de fundo histórico: suas tramas se situam durante a Guerra Civil norte-americana, que dividiu e sangrou o país entre 1861 e 1865. Mas enquanto “O Maldito Dia de Fogo” tem sérios problemas de ritmo, LO VOGLIO MORTO funciona até hoje como uma história de vingança à moda antiga valorizada por uma intriga política que se desenrola em segundo plano!


Mesmo que passe longe da energia e do senso de humor bizarro de “Deus os Cria, Eu os Mato!”, o filme tem elementos suficientes para agradar tanto aos fãs ferrenhos do western spaghetti como àqueles que estão começando a conhecer esse tipo de filme só agora. Nada nem próximo da genialidade dos Sergios (Leone e Corbucci), porém com algumas boas ideias “inspiradas” por ambos.

LO VOGLIO MORTO foi originalmente lançado nos cinemas brasileiros com um daqueles títulos dramáticos que as distribuidoras nacionais adoravam colocar no período: “Meu Sangue Chama Vingança”! Não duvido que foi obra dos mesmos poetas que inventaram “Meu Ódio Será Sua Herança” para o “The Wild Bunch” do Sam Peckinpah... Sensacionalistas que só, os anúncios nos jornais brasileiros (acima) prometiam um banho de sangue: “Brutalidade! Vingança! Uma caçada implacável aos mais desumanos abutres do Oeste!”.

Mais recentemente, o filme foi relançado no Brasil em DVD com um título em português mais fiel ao original, EU QUERO ELE MORTO, que é o que adotaremos a partir daqui.


Trata-se de um daqueles faroestes (ou “bangue-bangues”, como meu avô gostava de chamar) que prende o espectador só pela cena inicial antes dos créditos: um homem e uma mulher cavalgam por uma região desolada, em completo silêncio. Quando param para descansar e tomar café ao relento, um cavalo que se aproxima sem ninguém na sela chama a atenção do homem. Pelo reflexo no café em sua xícara, ele percebe que dois mal-intencionados estão lhe preparando uma emboscada pelas costas. E o cavalo sem cavaleiro na verdade traz um terceiro atirador pendurado na lateral do quadrúpede. Ele então levanta fulminante, saca sua colt e... BANG! BANG! BANG! Em questão de segundos, e sem que uma única palavra tenha sido mencionada, três corpos estão espichados no chão. A essa altura, sequer sabemos o nome do personagem principal!


Entra uma montagem com frames congelados e tingidos com cores diversas, mais o título do filme e os nomes da equipe técnica. A música-tema de Nico Fidenco, imitando à perfeição o estilo de Ennio Morricone ou Riz Ortolani, inclui uma voz feminina (da cantora Lida Lu) que praticamente faz um resuminho da trama que veremos a seguir: “♪ Clayton, oh Clayton, forget your hate / Clayton, oh Clayton, forget your fate / God only knows why / Mallek's so mean”.

Quando o filme retoma a narrativa, descobrimos que o Clayton mencionado na letra da canção é justamente o tal pistoleiro que enxerga adversários em xícaras de café. Ele é interpretado por Craig Hill e, apesar de dividirem o sobrenome em inglês, e de parecerem clones, NÃO é o irmão mais velho de Terence Hill (cujo nome de batismo é Mario Girotti).


A mulher que acompanha Clayton não é uma esposa ou amante, como se suspeita, mas sim sua irmã, Mercedes (Cristina Businari). Nosso protagonista passou os últimos três anos trabalhando como cowboy durante a Guerra Civil norte-americana, com o objetivo de juntar dinheiro para comprar um pequeno rancho e ficar de boas enquanto o país se explode.

A má notícia é que o Sul está perdendo a guerra, e portanto os dólares confederados que Clayton juntou já não valem mais nada. [Filmes para Doidos também é cultura: com a divisão dos Estados Unidos da América em Norte versus Sul durante a Guerra Civil, cada lado emitia seu próprio dinheiro. Os “dólares confederados” passaram a ser impressos pelos 11 Estados sulistas em 1861. Com a guerra se estendendo além do esperado, tornou-se necessário imprimir muito mais dinheiro do que seria recomendável, e a moeda foi desvalorizando até sumir oficialmente com o fim do conflito, em 1865.]


Rico num minuto e pobre no outro, sem poder comprar seu sonhado rancho e ficar de boas enquanto o país se explode, o cowboy ainda está para receber outro duro golpe: a irmã Mercedes, que ficou no hotel da cidade enquanto ele negociava com o dono do rancho, foi estruprada e morta por dois vagabundos – belíssimo estabelecimento comercial, não?

Ainda que o ato em si não seja mostrado, o estupro seguido de morte é particularmente incômodo porque acontece de repente. Os dois marginais batem o olho em Mercedes nos míseros dez segundos em que ela sobe as escadas para o seu quarto no hotel, e imediatamente decidem que vão até lá barbarizar com a moça – sem maiores “justificativas”, tipo o desejo de vingar-se de Clayton, ou alguma “ofensa” por parte da moça; é a barbárie pura e simples!


E como nada está tão ruim que não possa piorar, quando desce ao saloon em busca de ajuda, Clayton é provocado por um bêbado (José Terrón, de “Django”), que fala o que não devia para alguém que está de cabeça quente. Um porrada aqui, um tiro em legítima defesa acolá, e o pobre-coitado do herói descobre que acabou de matar o irmão do xerife local (Remo De Angelis).


Este obviamente esquece qualquer prioridade na investigação do estupro e assassinato de Mercedes para dedicar-se ao próprio desejo particular de vingar a morte do irmão e executar Clayton sem cerimônia! Nosso herói é forçado a fugir da cadeia e partir em busca de justiça pelas próprias mãos. Como um dos estupradores esqueceu no quarto de hotel a sua bolsa de tabaco, daquelas bem características que permitem identificar seu proprietário, Clayton descobre que o dito-cujo é Jack Blood (José Manuel Martín, de “Django Atira Primeiro”).


No momento em que testemunhamos nosso protagonista pregar uma cruz de madeira no solo, numa precária tentativa de identificar a tumba anônima da irmã, um ato embalado pelas notas tristes da trilha de Fidenco – sublinhando uma imagem já vista inúmeras vezes no gênero –, sabemos que o personagem foi forçado ao limite. No curto espaço de algumas horas, ele perdeu a irmã, todo o dinheiro que tinha, seu projeto de futuro (o rancho onde pretendia “sossegar”) e a própria liberdade, já que agora é perseguido pelo “assassinato” do irmão do xerife.

É claro que a única coisa que lhe resta na vida é o desejo de vingança; assim, enquanto a câmera segue enquadrando a tosca cruz de madeira em primeiro plano, nosso herói cavalga determinado para o horizonte em busca do canalha. Uma cena que sintetiza muito sem verbalizar nada!


Jack Blood, por sua vez, está na folha de pagamento do grande vilão anunciado pela música-tema, Mallek (Andrea Bosic) – aquele que, segundo a canção da sequência de créditos, “só Deus sabe porque é tão malvado”. Mallek é um rico contrabandista de armas que investiu toda a sua fortuna em suprimentos para a Guerra Civil, porém acabou de ser informado que generais do Sul e do Norte vão se reunir num encontro secreto para discutir os termos de rendição e acabar com a guerra.

Como isso representaria sua falência imediata, Mallek resolve que é melhor organizar um atentado, explodir a negociação de paz e manter o confito aquecido enquanto ainda tiver um estoque de armas e munições para vender. Ah, as maravilhas do capitalismo e do livre mercado...

E adivinhem quem é o sujeito inescrupuloso que Mallek contrata para organizar o atentado? Exatamente, Jack Blood! Então Clayton, apenas em busca de vingança pela morte da irmã, e sem saber absolutamente nada sobre as intrigas políticas de bastidores, ironicamente acaba se tornando uma peça-chave para assegurar que o fim da Guerra Civil seja assinado!


Se visualmente, narrativamente e até musicalmente EU QUERO ELE MORTO não chega a se destacar de outros tantos western spaghetti produzidos no período, um dos grandes trunfos do filme é o roteiro assinado por Carlos Sarabia. Segundo o IMDB, este é o único crédito de Sarabia no cinema – logo, pode ser tanto um ‘one-hit wonder’ quanto um nome falso.

O roteiro é muito inteligente na maneira como vai isolando progressivamente o protagonista. Se outras aventuras do gênero trazem um pistoleiro que voluntariamente prefere estar e agir sozinho desde o início, aqui Clayton é forçado a tornar-se um solitário por armadilhas do destino: ele perde a irmã e a liberdade, tendo que fugir como o fora-da-lei que não é.


Duplamente irônico é o fato de o herói ser obsessivamente perseguido por um xerife que, assim como Clayton, que fazer justiça pelas próprias mãos: o herói quer vingar a irmã assassinada; o xerife quer vingar o irmão que o próprio Clayton matou num rompante de fúria e idiotice. Isso exemplifica direitinho a máxima atribuída a Confúncio: “Antes de sair em busca de vingança, cave duas sepulturas”.


Outra grande qualidade do roteiro de EU QUERO ELE MORTO é deixar o seu personagem na mais completa ignorância durante a maior parte do tempo, algumas vezes O TEMPO INTEIRO. Embora o espectador saiba desde o início (porque “testemunhou” o crime) que a irmã de Clayton foi estuprada e morta não apenas por Jack Blood, mas também por um amigo dele (interpretado por Andrea Scotti), o protagonista nunca chega a ficar sabendo disso, e o segundo criminoso é justiçado pela mão do destino, e não pela do herói!

Clayton também ignora, durante a maior parte do filme, a existência do atentado armado por Mallek  contra os generais que discutem o fim da guerra. Então não é como se ele quisesse impedir o atentado para salvar vidas; ele só se envolve no caso porque quem vai acender o pavio que explodirá os generais é Jack Blood, o homem que ele está caçando por motivos particulares. Se o seu ato impedirá um crime que pode alterar os rumos da guerra, isso é absolutamente indiferente para nosso herói!


Talvez o único pecado do roteiro seja não dar maiores pistas sobre o passado de Clayton. Sabemos que ele é rápido no gatilho e implacável com seus inimigos, mas o personagem não é apresentado como um pistoleiro (ele tenta fugir dos confrontos, não provocá-los), nem como um fora-da-lei (pelo menos não antes de matar o irmão do xerife, claro). O protagonista também não parece ter se envolvido diretamente na guerra, alegando que trabalhou apenas como vaqueiro para os confederados.

Isso torna meio misteriosa a cena inicial pré-créditos, aquela em que o herói despacha os três anônimos perseguidores após ver o reflexo de um deles na sua xícara de café. Porque o episódio nunca mais é mencionado no restante do filme, o que me leva a pensar que foi uma cena extra filmada DEPOIS, quando alguém percebeu que demorava muito para a história engrenar e o primeiro tiroteio acontecer.

Considerando que Clayton não é apresentado como homem de muitos inimigos, não faz sentido que ele esteja sendo perseguido por pistoleiros no meio do deserto. (A não ser, claro, que fossem bandidos de olho nos dólares confederados que ele levava com a intenção de comprar seu rancho...)


Uma das grandes diferenças do chamado “western spaghetti” para o faroeste tradicional produzido nos Estados Unidos era a crueldade. E EU QUERO ELE MORTO não fica atrás neste departamento: a aventura se passa num universo estilo “Onde os Fracos Não Têm Vez”, particularmente violento com as poucas mulheres que dão o azar de aparecer no filme.

Como já escrevi, a irmã do protagonista é estuprada e morta por nada – apenas por estar respirando e ser do sexo oposto. Mais adiante na narrativa, Clayton se infiltra no rancho de Mallek e encontra outras duas garotas, Aloma (Lea Massari, estrela de Leone em “O Colosso de Rodes”) e Marisa (Licia Calderón, dirigida pelo mestre Jess Franco em “Tenemos 18 Años”). Criadas na fazenda, elas são usadas como escravas sexuais pelos capangas do vilão e, não raras vezes, torturadas gratuitamente, já que os homens costumam sacar um chicote para “castigá-las” entre gargalhadas sádicas!


A rotina de abusos é tão desumana que Aloma tenta pagar Clayton com um bolo de dinheiro que ela roubou dos capangas entre um estupro e uma porrada. Mas nosso herói, do alto do “heroísmo” de protagonista de western spaghetti, recusa a grana e a missão; afinal, ele tem outras prioridades. “Já tenho complicações demais. Uma coisa de cada vez”, argumenta.


No faroeste italiano, também, o personagem principal costuma comer o pão que o diabo amassou em algum momento da narrativa, não raras vezes sendo espancado, torturado, ou os dois. O Django de Franco Nero teve as mãos quebradas, o Homem Sem Nome interpretado por Clint Eastwood foi moído na pancada em “Por um Punhado de Dólares”, e assim por diante.

E é claro que EU QUERO ELE MORTO não poupa o pobre Craig Hill da sua cota de pancadas. Ele poderia até ganhar sua própria versão daquela musiquinha que tira sarro do Homem-Aranha, “Nunca bate, só apanha”: Clayton é espancado pelo xerife e seus homens, por capangas de Mallek, por Jack Blood e seus amigos; quase tem a cabeça enfiada dentro de uma lareira acesa, e quase é queimado vivo, escapando desta última provação apenas porque é salvo no último minuto pela mocinha Aloma – uma bem-vinda reviravolta no tradicional clichê do mocinho que salva a dama em perigo.


Por fim, fechando este bloco sobre crueldade, o filme reúne tantos canalhas da pior espécie numa mesma história que o pobre Clayton nem precisaria suar perseguindo os bandidos; ele poderia sentar-se na sombra e esperar, pois os caras inevitavelmente acabam voltando-se uns contra os outros por pura cobiça. Ajuda o fato de eles serem interpretados por faccias características entre os papéis de mau do gênero: José Manuel Martín, Andrea Scotti (de “O Filho de Django”), Frank Braña, ainda creditado com o nome real Francisco Braña (de “Por uns Dólares a Mais”), José Canalejas (de “Django”) e Federico Boido (de “Django x Sartana – Duelo Mortal”).

O desfecho da trama, em que os sobreviventes do bando de Jack Blood traem Mallek, roubam o dinheiro que iriam ganhar pelo atentado mal-sucedido e começam a se matar sistematicamente para não precisar dividir a bolada com os demais, é um comentário genial sobre a maldade e a imbecilidade humanas à la “O Tesouro de Sierra Madre”, com direito a facadas pelas costas e cabeças esmagadas a pedradas. Enquanto isso, o dinheiro que motivou a carnificina é levado pelo vento e acaba nas mãos de... Bem, não vou contar a história toda, mas você pode imaginar!


Embora, repetindo, não seja dos nomes mais lembrados ou celebrados quando se fala em western spaghetti,  Bianchini mais uma vez demonstra total domínio da narrativa e da câmera, como já havia feito em “Deus os Cria... Eu os Mato!”. Em conjunto com o diretor de fotografia espanhol Ricardo Andreu (que trabalhou com Jess Franco e Juan Piquer Simón), ele aproveita o máximo de seus quadros, seja abrindo belas panorâmicas que valorizam as maravilhas naturais do Deserto de Almeria, na Espanha, seja enchendo o enquadramento com o maior número possível de elementos – como a arma no chão em primeiro-plano enquanto dois homens lutam mais ao fundo, o espelho que reflete a expressão de Mercedes à entrada de seus dois algozes, ou a execução realizada ao fundo enquanto o personagem em primeiro plano conversa com Clayton (imagens abaixo).


Craig Hill também compõem um anti-herói bem decente, mais humano e menos super-herói que a média do gênero, já que apanha mais do que bate. É incrível descobrir que o ator não é italiano (ele nasceu na Califórnia!), já que tem todas as feições marcantes dos grandes astros “locais” do western spaghetti. Parece que alguém misturou o DNA de Terence Hill e Franco Nero, e o resultado foi Craig Hill! Vale destacar que ele foi um daqueles casos como Rick Dalton, o fictício personagem de DiCaprio em “Era Uma Vez em Hollywood”, do Tarantino: um ator que fez sucesso na TV dos Estados Unidos nos anos 1950, como protagonista de um seriado chamado “Whirlybirds” (que durou três temporadas), chegou a ser contratado de um grande estúdio (a 20th Century Fox), mas decidiu tentar a sorte no western europeu porque os papéis estavam começando a ficar escassos. Só que Hill não repetiu o sucesso de Clint Eastwood e Burt Reynolds, que voltaram para casa com moral e viraram grandes astros de Hollywood. Acabou passando o resto da vida na Espanha, onde foi dirigido até por Jess Franco e Bigas Luna. Ele morreu em abril de 2014, em Barcelona.


Ainda que EU QUERO ELE MORTO seja visivelmente pobre em dinheiro, não o é em criatividade: o filme usa diferentes artifícios para lembrar o espectador de que a trama se passa em plena Guerra Civil, e que violentas batalhas estão acontecendo ao redor dos personagens, tornando suas prioridades pessoais algo bem menor diante do massacre provocado pela guerra. Não há orçamento para mostrá-la, mas várias vezes escutamos o som de canhões explodindo ao fundo.

E há uma cena, na tênue linha entre a tosquice e a inventividade, em que Clayton e Aloma atravessam um campo por onde acabou de acontecer uma sangrenta batalha. Imagino que, na cabeça do roteirista, era para ser um momento épico tipo aquele em que Clint Eastwood caminha por fileiras de soldados mortos e/ou mutilados em “Três Homens em Conflito”, de Sergio Leone. Mas não havia centenas de figurantes à disposição, então Bianchini tenta replicar o momento usando apenas uns poucos figurantes “mortos” pelo chão, outros berrando de dor, e uma única carroça destruída!


Não posso deixar de mencionar, ainda, um momento divertido em que Clayton e um capanga de Mallek lutam do lado de fora da fazenda do vilão. Lá pelas tantas, os dois começam a rolar em meio aos cavalos (o que não me parece algo muito seguro de se fazer, e são os próprios atores, não dublês!). Aí o bandido agarra a pata de um dos animais e tenta usar como arma para acertar a cabeça do herói – ainda bem que não agarrou outra coisa do cavalo sem querer...


Bianchini só dirigiu mais dois westerns (“O Longo Dia de Fogo”, lançado no mesmo ano, e “Ei, Amigo... Descanse em Paz!”, de 1970). Ambos são bem mais fracos em comparação a este aqui e “Deus os Cria... Eu os Mato!”, sem a mesma energia, como se o cineasta tivesse esgotado as possibilidades.

O próprio faroeste made in Italy começava a entrar em decadência na virada da década. Assim, Bianchini dirigiu umas poucas comédias ao longo dos anos 1970, sumiu de circulação durante a década de 1980, e a partir de 1997 começou a trabalhar para a TV italiana. Segundo o IMDB, ano passado (2019) ele estava filmando uma comédia chamada “Frammenti” (Fragmentos), sobre a qual não há maiores referências ou notícias.


E embora EU QUERO ELE MORTO não tinha feito grande sucesso na época do seu lançamento, hoje ele é particularmente lembrado graças a uma picaretagem feita pelas distribuidoras alemãs. Como vimos na Maratona Viva Django! do blog, anos atrás, o filme de Sergio Corbucci foi um sucesso tão grande na Alemanha que os distribuidores do país começaram a rebatizar QUALQUER western spaghetti com “Django” no título, independente do nome verdadeiro do herói do filme.

Dessa maneira, EU QUERO ELE MORTO virou, na Alemanha, “Django - Ich will ihn tot” (Django – Eu Quero Você Morto, vide pôster ao lado), e na dublagem para o alemão Clayton passou a ser chamado “Django” (e dane-se se a música-tema cantava “Clayton, oh Clayton”).

Assim, o filme acabou ganhando uma sobrevida recente como Django falso, especialmente depois do “Django Livre” do Tarantino ter despertado uma corrida atrás dos Djangos originais dos anos 1960-70!

Claro que Clayton não é Django, e Craig Hill, apesar de bem parecido, não é Franco Nero nem Terence Hill (que fez sua própria versão do personagem em “Viva Django!”).

Mas acredite: um e outro não passam vergonha na comparação, e EU QUERO ELE MORTO é um western spaghetti bem decente que merece ser conhecido.



Trailer de EU QUERO ELE MORTO

4 comentários:

Pedro Pereira disse...

Primeiro que tudo agradecer a menção em tão ilustre espaço! Sou realmente um fã deste filme, não faltam razões mas sobretudo adoro os pormenores da fotografia. Uma curiosidade, em Portugal o filme é conhecido por um titulo não menos estapafúrdio: "Os Ambiciosos Também Morrem". Deste signore Paolo Bianchini, assisti a todos os seus westerns e só achei um fraco, a saber: "Ehi amigo... sei morto!". É um realizador a descobrir mas a trilha que recomendaria será mesmo a do Craig Hill que não é minimamente conhecido além duma facção mais hardcore do género e na verdade ele protagonizou alguns westerns-spaghetti de grande qualidade. Além deste aqui vale a pena procurar "15 forche per un assassino", "Per il gusto di uccidere"

makintochi disse...

Ele passou na rede familia nos anos 90 na epoca achavamos que era o franco nero,outro bom filme dele e a la mascara de cuero um western com toques de giallo

artur disse...

De fato, esse é um filme muito bom, realmente o filme mostra um velho oeste mais sujo e amoral até que a média italiana dos westerns do período,não tinha reparado que o nome do vilão tinha sido mencionado no tema de abertura, também recomendo e tem até no YouTube, não seria nada mau duas resenhas com os outros filmes do Bianchini, principalmente se forem toscos como um Django Não Espera, Mata da Vida, até hoje me lembro da casa sem teto😂😂😂😂

Leafar selaznog disse...

Achei completo no YouTube mas infelizmente está com aquela imagem "esticada" que a maioria dos DVDs de western spaghetti lançados no Brasil tem. Filme bem competente que garante uma boa diversão pra quem é chegado num Bang Bang. Mais uma boa indicação do filmes para doidos, obrigado Guerra