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sexta-feira, 29 de maio de 2020

A DUPLA EXPLOSIVA (1974)


Na semana passada, a resenha sobre “Super Snooper – Um Tira Genial” provocou uma onda de nostalgia aqui no blog (e no Facebook, Twitter e Instagram do blog também). Um exército de marmanjos e algumas poucas marmanjas relembraram suas respectivas infâncias movidas a filmes da dupla Terence Hill e Bud Spencer, e pediram por mais.

Achei que era o momento perfeito para tirar da manga uma resenha que eu estava querendo escrever já há bastante tempo, sobre o meu filme preferido desses dois astros italianos. Então tomem lá A DUPLA EXPLOSIVA (1974), este clássico da Sessão da Tarde que foi o responsável por me apresentar a Terence Hill e Bud Spencer e é, até hoje, meu filme preferido dos que fizeram em parceria.


Se você está nos seus trinta-e-poucos pra quarenta-e-muitos, certamente deve lembrar de A DUPLA EXPLOSIVA com riqueza de detalhes: é aquele em que Terence e Bud encarnam dois rivais que primeiro lutam entre si por um “buggy vermelho com capota amarela”; depois, distribuem tapões-de-mão-aberta nos malvados da história que destruíram seu amado carrinho.

Enquanto boa parte das aventuras da dupla envelheceu bem mal, e perdeu a graça à medida que seus espectadores foram amadurecendo, esta é uma das raras que segue divertidíssima. Porque sua narrativa está ancorada não apenas na simpatia dos dois astros e nos sopapos que distribuem, mas especialmente em situações e piadas visuais bem realizadas que seguem engraçadas – vide o antológico momento em que os dois estão em meio a um coral cantando “la la la la la, pó pó pó pó”, enquanto tentam fugir de um assassino profissional (confira no vídeo abaixo)!


“La la la la, pó pó pó pó”



A DUPLA EXPLOSIVA é o oitavo filme que Terence Hill e Bud Spencer fizeram juntos, depois de cinco westerns seguidos por duas aventuras com ambientações distintas – “O Corsário Negro”, de 1970, e “Dá-lhe Duro, Trinity!”, de 1972; o primeiro uma história de piratas, o segundo uma aventura na selva. Ainda havia uma química perfeita entre os dois astros, que iria se diluindo à medida que começaram a fazer praticamente um filme juntos por ano.

E eles seguiram estrelando produções solo no tempo livre. Terence tinha acabado de sair do western cômico “Meu Nome é Ninguém” (1973), que foi provavelmente sua produção mais classuda – dirigida por Tonino Valerii e escrita e produzida por Sergio Leone, com Henry Fonda no elenco. Bud, por sua vez, tinha feito uma comédia de máfia chamada “Os Anjos Também Comem Feijão” (1973), em que contracenou com o super-astro italiano Giuliano Gemma, formando uma dupla cômica que não deu a liga e não funcionou tão bem quanto se esperava.


Realizado numa parceria Itália-Espanha (e filmado em território espanhol entre 1973-74), A DUPLA EXPLOSIVA foi produzido por ninguém menos que Mario Cecchi Gori, um dos grandes empresários do cinema italiano. Responsável por mais de 200 filmes, Cecchi Gori produziu clássicos de diretores respeitados como Damiano Damiani, Dino Risi, Mario Monicelli e Ettore Scola. Isso dá uma ideia da moral que a dupla de astros tinha na época, e garantiu ampla distribuição mundial ao filme através de grandes companhias estrangeiras, como Warner e Columbia.

Embora o título em português faça total justiça à história contada, o nome original em italiano é um diálogo do filme, “...Altrimenti ci Arrabbiamo!”. Em países de língua inglesa ele foi rebatizado com outro título fiel ao espírito, “Watch Out, We're Mad” (Cuidado, Nós Somos Malucos, em tradução literal), e em Portugal virou “Juntos São Dinamite”. Todos servem.


A DUPLA EXPLOSIVA começa com os acordes beeeeem característicos da música-tema “Dune Buggy”, executada pelo duo Oliver Onions (composto pelos prolíficos compositores italianos Guido e Maurizio De Angelis). Com uma levada country, a canção repete umas 40 vezes ao longo do filme (tipo a música-tema de “Super Snooper”), e fala do quanto é maravilhoso e divertido dirigir um buggy: “Come with me for fun in my buggy / Come along let's go for the hell of it”.

Estamos numa cidade espanhola não identificada (embora as filmagens tenham acontecido em Madri), onde vai acontecer um rally cujo primeiro prêmio é o tão sonhado buggy vermelho com capota amarela. Big Ben (Bud Spencer) é um mecânico local que está literalmente obcecado pelo carrinho, a ponto de ficar namorando o prêmio pela vitrine de uma loja; já Kid (Terence Hill) é um piloto rival que chega à cidade para participar do mesmo rally. Ele dirige um trailer com seu nome pintado na lateral, e leva uma daquelas máquinas pagas de café expresso no banco do caroneiro – que alimenta com moedinhas toda vez que quer tomar seu cafézinho enquanto dirige!


O filme deixa claro que há alguma rivalidade antiga (e nunca explicada em detalhes) entre Kid e Big Ben, ao apresentar certo tom de provocação do primeiro seguido pelo olhar furioso do segundo. Claro que também pode ser uma referência à parceria já consagrada do dois atores nos sete filmes anteriores, sempre repetindo basicamente o mesmo tipo de personagens: Terence Hill, de cara limpa, faz o gaiato charmoso que vive de sacanear o colega; Bud Spencer, barbado, faz o gigante calado e sério que usa melhor os punhos do que as palavras, e raramente sorri.


Sem delongas, nosso rally começa em alta velocidade, com carros voando em direção à câmera. Pelos próximos cinco minutos, somos brindados com uma sequência ininterrupta de veículos sendo projetados pelos ares por rampas, pechando ou capotando – juro, deve ter mais capotagens e batidas nessa cena inicial de A DUPLA EXPLOSIVA do que em toda a franquia “Velozes e Furiosos”!

O rally foi coreografado pelo francês Rémy Julienne, que à época era um dos principais especialistas da Europa em cenas de perseguição automobilística (tendo trabalhado no clássico “Um Golpe à Italiana”, com Michael Caine). O homem segue em atividade, agora pilotando e batendo carros para blockbusters como “007 Contra Goldeneye” (1995) e “O Código Da Vinci” (2006).


Depois de destruir quase todos os seus rivais ao longo do percurso, Kid e Big Ben terminam a prova empatados, atravessando juntos a linha de chegada, e precisam dividir o prêmio. Obviamente um não suporta o outro, e eles decidem que o melhor a fazer é competir em uma prova qualquer para desempatar a contenda e decidir quem ficará com o buggy.

Kid sugere que o façam no baralho: quem tirar a carta mais alta fica com o carrinho. Ben nega e sugere uma queda-de-braço. O outro, que não é bobo nem nada, resolve propor uma prova que combine os “talentos” de ambos: “Que tal uma competição de cerveja e salsicha? Você bebe uma cerveja e come uma salsicha, bebe uma cerveja e come uma salsicha. Quem parar primeiro, perde o buggy”.

Vale lembrar que essas piadas com excesso de comilança são recorrentes na obra da dupla, especialmente no caso de Terence – que várias vezes aparecia em seus filmes devorando quantidades absurdas de feijão, sem dublê.


A dupla vai a um parque de diversões ao lado da oficina de Ben, onde uma cantina se torna a arena para a emocionante competição de cerveja e salsicha. Kid devora uma salsicha atrás da outra com rapidez, enquanto Ben degusta a comida com calma; tudo regado a enormes canecas de cerveja aparentemente quente, o que torna o confronto ainda mais dramático.

Se o espectador de primeira viagem tiver qualquer dúvida sobre o potencial humorístico de Terence Hill e Bud Spencer, esta cena sozinha é puro ouro: cheios de si, cada um tenta provar ao outro que está melhor e na frente no tira-teima, seja com provocações, seja com tentativas de sabotagem, seja puramente com expressões faciais e corporais.

Os palitos na mesa revelam que Ben já comeu 13 salsichas e bebeu seis canecas de chopp, enquanto Kid já soma 16 salsichas e oito canecas. E não é qualquer salsicha não, o negócio é enorme. Nenhum dos dois parece inclinado a desistir, entretanto – são competidores de estômago forte!


Mas aí o destino age para interromper o desempate pela posse do buggy: gângsters absolutamente estereotipados, usando terninho e chapéu como se tivessem saído daqueles filmes hollywoodianos dos anos 1930, invadem o parque e ameaçam a todos com violência.

Eles entram como um furacão na cantina onde a dupla está, e aqui acontece um dos primeiros momentos realmente hilários do filme: preocupados apenas com sua ridícula competição, os heróis seguem enchendo as bocas alheios ao tumulto que acontece ao seu redor, enquanto cadeiras voam em espelhos e machadadas certeiras dos bandidos destróem o balcão onde estão sentados!


Sem que jamais sejam importunados pelos vilões ou pareçam perceber o que se passa ao redor, Kid e Ben decidem que o local está muito barulhento e resolvem levar sua competição gastronômico-etílica para outro lugar. Eles saem calmamente da cantina em frangalhos e, quando já estavam indo embora sem incomodar ninguém, são finalmente abordados pelos bandidos.

Segue-se uma discussão que beira o surreal, e que, dependendo de como você queira interpretar, revela que ou a dupla de heróis tem muito sangue-frio, ou simplesmente são tão bobalhões que não entendem o que está acontecendo ao seu redor:
– Saiam do buggy ou eu vou arrebentá-lo! – ameaça o gânsgter.
– Como é? – pergunta Kid.
– Eu mandei sair!
– Mas por quê?
– Se não saírem, eu vou arrebentar o carro inteiro!
– Mas por que você iria arrebentar o carro inteiro? – questiona Kid, sorrindo.
– Porque sim!
– Não me parece um argumento razoável... – diz, finalmente, Ben.


O grandalhão tenta acelerar o buggy para longe do agressor, mas POW!, um dos vilões bate com seu carro na traseira do veículo da dupla e o destrói completamente! Enquanto permanecem sentados emsilêncio, com expressão triste, a olhar seu amado buggy em chamas, Kid e Ben começam a arquitetar um plano de vingança.

Os gângsters que demoliram o parque de diversões seguiam ordens de um chefão criminoso conhecido simplesmente como “The Boss” (o inglês John Sharp). Ele é um bandidinho de segunda linha que está querendo se tornar um vilão ameaçador, e para isso segue as orientações de seu consigliere, um psiquiatra alemão discípulo de Freud interpretado por Donald Pleasence! O plano de ambos é expulsar o parque de diversões daquela área na base da força para poder construir um arranha-céu no lugar.


Tanto o Chefão quanto seu consigliere são personagens ainda mais caricaturais, que parecem saídos de algum desenho animado: o bandidão é obeso, fala e age como uma criança e passa o tempo todo atrás de uma mesa gritando ordens para seus homens; o consigliere tem faniquitos e põe-se a berrar “Nein! Nein! Nein!” (não, em alemão) sempre que é questionado.

A relação entre ambos lembra muito a de Robert DeNiro e Billy Crystal em “Máfia no Divã”, a comédia de Harold Ramis feita mais de vinte anos depois, com Pleasence armando as estratégias mais mirabolantes para transformar o afetado chefão do crime em alguém realmente malvado – ou “truly evil”, algo irônico considerando que, quatro anos depois, Pleasence interpretaria outro psiquiatra perseguindo “pure evil” em “Halloween” (1978).


Seguindo um dos homens que destruiu seu buggy, Kid e Ben chegam até o restaurante que serve de quartel-general para a quadrilha, e recomendam ao Chefão que lhes dê um novo buggy vermelho com capota amarela até o dia seguinte, ao meio-dia. “Ou então nós ficaremos muito bravos”, sugerem, entre sorrisos, mencionando o título italiano do filme. Até então, destaque-se, nenhum ato de violência partiu da dupla: eles não reagiram nem mesmo enquanto os bandidos destruíam a cantina e ameaçavam inocentes no parque de diversões; seu único interesse é o bendito buggy!

Quando a dupla vai embora, o Chefão cogita comprar um novo buggy para evitar qualquer problema futuro. “Nein! Nein”, protesta o consigliere Pleasence. “Aqueles dois são crianças que pensam em você como um pai. Eles querem seu brinquedo de volta. Se você der, eles vão pedir outro. Você tem que ser o pai severo e bater neles para ter dois filhos obedientes!”. Brilhante psicologia...


Isso dá início a uma sequência de confusões, envolvendo as tentativas cada vez mais violentas dos bandidos de tentar neutralizar a dupla antes que ela se torne efetivamente uma ameaça. E aí, e só aí, nossos heróis revidam e apelam para as bordoadas. Primeiro, o principal capanga do Chefão atrai ambos para um ginásio, onde a dupla enfrenta um exército de pugilistas e ginastas. Moleza.

No dia seguinte, no horário combinado para a entrega do buggy, o Chefão manda um sinistro grupo de motoqueiros vestidos de preto para “amaciar” a dupla. São figuras que parecem saídas de um filme do Enzo G. Castellari, que usaria vilões com figurino semelhante em “1990 – Os Guerreiros do Bronx” e “Fuga do Bronx”. Novamente, Kid e Ben dão conta do recado, enfrentando seus rivais sobre motos como se fossem cavaleiros medievais fazendo justas (estacas de madeira substituem as lanças). Coincidência ou não, sete anos depois George A. Romero fez um filme chamado “Knightriders – Cavaleiros de Aço” (1981), justamente sobre motoqueiros de armadura que encenam justas medievais!


Finalmente, furioso com o fato de a dupla se livrar facilmente dos seus homens, o Chefão é convencido a contratar um sinistro assassino profissional “de Chicago”, Paganini (Manuel de Blas). Seu nome homenageia o lendário violinista italiano Niccolò Paganini, porque o assassino vestido de negro carrega um estojo de violino para todo lado com um rifle de mira telescópica dentro dele. “The finest exterminator of people in the market”, celebra o consigliere Pleasence.

É com a chegada de Paganini que acontece um dos momentos mais hilários e mais lembrados por quem já viu A DUPLA EXPLOSIVA pelo menos uma vez na vida! Ben, que é um gigante desajeitado, nas horas vagas canta no coral do bairro. Durante um dos ensaios do grupo, o matador aparece querendo eliminá-lo. Aí Kid se infiltra entre os integrantes do coro para avisar o parceiro e tentar salvá-lo, e tudo isso acontece enquanto o grupo ensaia uma viciante musiquinha em que a ala feminina entoa “la la la la la”, e a ala masculina “pó pó pó pó”.


Ben tenta se concentrar no ensaio, mas começa a se atrapalhar com as interrupções de Kid, enlouquecendo o maestro. Lá pelas tantas, o gigante tenta sair à francesa e invade a ala feminina, quando afina a voz para cantar a parte do “la la la la” junto com as moças.

Para além do aspecto humorístico, é um momento brilhante, filmado e editado com maestria e conduzido em torno da música, praticamente sem diálogos, mas com um monte de coisa acontecendo ao mesmo tempo (os heróis tentando salvar a pele, o coro cantando, o maestro regendo e o pistoleiro tentando encontrar o melhor local para disparar contra seus alvos).

Eu me mijei de rir quando vi esta cena ainda criança, e continuo achando muito engraçada toda vez que revejo! Posso ser apenas um retardado mental, contudo...


Tendo sobrevivido à ameaça de Paganini, nossos heróis percebem que as coisas foram longe demais e que provavelmente não vale a pena arriscar o pescoço por algo tão fútil quanto um buggy. Ben quer voltar à sua velha rotina enquanto Kid se prepara para deixar a cidade. Mas aí são os vilões que, humilhados sucessivas vezes, acabam cometendo uma burrada: o conselheiro do Chefão o convence de que há um “gênio do crime” por trás das ações da dupla, e que ele seria o pobre Jeremias (Luis Barbero), um velho mecânico que, no passado, foi cozinheiro no restaurante dos gângsters.

Os bandidos enchem o velhote de porrada e provocam Ben e Kid ao limite, provocando-os a promover uma grande pancadaria no restaurante do Chefão no ato final. Belíssimo, o clímax começa com nossos heróis invadindo o recinto, e interrompendo um enorme jantar, com carro e tudo; depois, rola um verdadeiro festival de sopapos e tabefes em meio a balões coloridos.


Eu já havia feito esta comparação na resenha de “Super Snooper”, mas é inevitável repetir: as aventuras de Terence Hill e Bud Spencer como dupla são muito parecidas com os filmes do grupo humorístico brasileiro Os Trapalhões – especialmente os da primeira fase, na década de 1970, quando os astros nacionais e italianos eram praticamente contemporâneos.

A partir da segunda metade dos anos 1980, as produções d’Os Trapalhões se infantilizaram em excesso e ficaram desinteressantes. Mas as da década anterior, como “O Trapalhão na Ilha do Tesouro” (1975) e “O Trapalhão nas Minas do Rei Salomão” (1977), são aventuras destinadas mais a jovens adultos do que à garotada, movidas a ação e pancadaria, às vezes até alguma dose de drama.


Tanto Os Trapalhões quanto Terence Hill e Bud Spencer faziam referências ao mundo do circo em suas aventuras (vide, por exemplo, o western “Boot Hill”, em que o pistoleiro interpretado por Terence se esconde entre os integrantes de um grupo circense). Aqui, em A DUPLA EXPLOSIVA, temos pequenas intervenções de uma trupe que se apresenta no parque de diversões.

Numa subtrama romântica francamente descartável – porque mal-desenvolvida –, Kid se envolve com a equilibrista Liza (Patty Shepard, figurinha carimbada no horror espanhol, vista em “La Noche de Walpurgis” e “Hannah na Ilha dos Vampiros”). Mas a moça some do filme lá pelas metade e nunca mais é mencionada, então o affair não chega a fazer qualquer sentido – eu até imaginei que iriam apelar para o clichê dos vilões sequestrando a amada do mocinho, mas isso jamais acontece.


Também a exemplo d’Os Trapalhões, a dupla italiana iria começar a “infantilizar” o seu humor a partir dos anos 1980, mas aqui ainda se percebe que o público-alvo não são exatamente as crianças pequenas, e sim adultos bobões com senso de humor retardado. Embora, em geral, seja um filme praticamente inofensivo, A DUPLA EXPLOSIVA recorre a algumas piadas mais adultas (tipo aquelas envolvendo o consumo excessivo de cerveja), e outras um tantinho mais violentas.

Mesmo que quase sempre seja aquela violência cartunesca de desenho animado, em que os sopapos e cacetadas não provocam nada de muito grave, dois ou três momentos extrapolam essa ideia de que ninguém está se machucando com gravidade – não que eu esteja reclamando, só acho divertido constatar que o “humor censura livre” dos anos 1970 era muito mais sem-noção do que eu lembrava.


Por exemplo: enquanto vilão, o Chefão sem nome é uma grande piada – um gordo histérico e assustado, que se veste como o Nhonho do “Chaves”, e cuja maldade é incentivada pelo seu mal-intencionado (ele sim) consigliere. Ainda assim, em seus rompantes de fúria, o vilão gosta de cravar seu garfo na mão dos capangas, deixando hematomas visíveis (e pelo menos uma cena bem gráfica).

Mas é toda a sequência envolvendo a gangue de motoqueiros aquela que mais recorre à violência enquanto algo realmente grave e ameaçador. Primeiro porque os caras emparelham suas motos com as dos heróis para atingi-los com correntes (o que sempre me lembra o jogo de videogame “Road Rash”). Depois porque pelo menos dois dos antagonistas MORREM em confronto com a dupla, algo que não me passou desapercebido quando vi isso ainda criança.


A primeira cena mais violenta é realmente inesperada: um dos motoqueiros perde o controle do seu veículo e arrebenta a cabeça numa árvore, num momento que não deixa nada para a imaginação. Pelo rádio da moto, o Chefão pergunta: “Ele quebrou a cabeça?”. Terence, respondendo como se fosse um dos capangas, confirma: “Sim, ele está mortinho!”.

Depois, impulsionado por uma cacetada de Ben, outro dos motoqueiros sai voando e é abatido em pleno ar com um tiro de espingarda, disparado por um sujeito míope que estava caçando escondido numa moita próxima e confundiu o vilão com uma ave! São dois momentos de puro humor negro que não encontram paralelo nas aventuras posteriores da dupla, e demonstram que, em 1974, ainda desenvolvendo um estilo, os astros miravam um público mais amplo do que as criancinhas.


A DUPLA EXPLOSIVA foi dirigido e corroteirizado pelo italiano Marcello Fondato, que foi além e ainda escreveu a letra da música-tema (“Come with me for fun in my buggy / Come along let's go for the hell of it”). O filme teve quatro roteiristas no total (!!!), sendo dois espanhóis (Vicente Coello e Jesús R. Folgar) e dois italianos (Fondato e Francesco Scardamaglia).

Falecido em 2008, Fondato não é dos cineastas italianos mais lembrados, e eu mesmo só o conhecia por este filme aqui. Mais respeitado como roteirista, ele escreveu de tudo um pouco, incluindo clássicos dirigidos pelo mestre Mario Bava (“As Três Máscaras do Terror”, de 1963, e “Seis Mulheres Para o Assassino”, de 1964). Também roteirizou westerns, aventuras de época e comédias eróticas.


Este A DUPLA EXPLOSIVA é seu primeiro e único trabalho de direção e/ou roteiro com Terence Hill e Bud Spencer – o que é uma pena, considerando o quanto o filme é bom e como ele soube entender as idiossincrasias dos astros. Queria ter visto mais comédias dele nessa pegada.

Embora não tenha voltado a trabalhar com a dupla, Fondato desenvolveu uma longa parceria com Bud Spencer em sua carreira solo: voltou a dirigi-lo na comédia “Charleston – O Super Vigarista” (1977), que deve ter passado pelo menos oitocentas vezes no SBT nos velhos tempos, e escreveu outros cinco veículos para o astro (“Lo Chiamavano Bulldozer”, “O Xerife e o Pequeno Extraterrestre”, “O Super Xerife”, “Bomber” e até o trashíssimo “Aladim”).


Mesmo sem ter uma obra expressiva, o diretor demonstra um afetuoso olhar de cinéfilo, com o qual homenageia momentos e subgêneros populares do cinema italiano. Na cena em que os heróis enfrentam os motoqueiros, há uma cena em que ele orquestra um duelo entre Terence Hill e dois antagonistas como se fosse um western de Sergio Leone – com a música e os enquadramentos característicos do mestre, incluindo os planos de detalhe dos olhos do herói e dos rivais. Já a cena do ensaio do coral é uma referência direta às comédias musicais italianas, conhecidas como musicarelli, que faziam muito sucesso no país nos anos 1950-60.


Em A DUPLA EXPLOSIVA, Fondato soube potencializar as qualidades de seus astros como poucos: Terence Hill nunca esteve tão bem como o malandro simpático, que chega a provocar um acidente na corda-bamba em que Liza se equilibra apenas para poder “salvá-la” e pagar de bom moço.

Bud Spencer, por sua vez, abraça o papel de gigante indestrutível que é praticamente um super-herói. Além de as porradas desferidas pelos vilões não lhe provocarem qualquer dano (lá pelas tantas Ben até boceja enquanto um cara tenta lhe socar repetidamente as costas), o brutamontes demonstra uma força sobrenatural que nem sempre funciona em seu proveito – tipo quando tenta se equilibrar em duas argolas de ginasta e as arranca do teto com seu peso!


Ainda assim, os protagonistas não se comportam como se fossem invencíveis ou invulneráveis, algo bem diferente da maneira como seriam representados em aventuras seguintes. Kid e Ben têm medo de sair machucados, especialmente quando são obrigados a confrontar adversários em superioridade numérica. Ao ser despertado pelo som de um motor na sua oficina, Ben se assusta acreditando que são os motoqueiros voltando para um segundo round. E quando Paganini entra na jogada – e pela primeira vez um de seus antagonistas mostra uma arma de fogo, e não apenas os punhos –, os dois entendem que foram longe demais e começam a temer pela própria vida.

Embora seja impossível não simpatizar com ambos, Kid e Ben são protagonistas mais individualistas e imperfeitos do que aqueles heróis “modelos de conduta” que os astros passariam a interpretar em suas comédias posteriores. Fica claro desde o início que os sujeitos só querem o seu buggy e estão pouco ligando para a turma do parque de diversões ou do circo; se os vilões pagassem um novo carrinho, os dois valentões cessariam qualquer hostilidade e deixariam os bandidos seguirem com seus negócios ilegais sem importuná-los.


Isso posto, o diretor Fondato compôs um filme calcado em gags visuais, em que os atores fazem pouquíssimas piadas verbais e o humor é predominantemente físico. Com seus exageros e cenas explícitas de demolição de veículos e cenários, lembra muito as comédias-pastelão dos tempos do cinema mudo; no final, quando a dupla invade o jantar dos vilões, eu jurava que iria estourar uma guerra de tortas a qualquer momento, o que infelizmente não acontece. É um filme que você pode ver tranquilamente sem legendas, ou tirando o som da TV ou do computador, e ainda assim entender 100% – embora vá perder a hilária musiquinha “la la la la, pó pó pó pó”.


Indo além, A DUPLA EXPLOSIVA não se satisfaz apenas com a porradaria tradicional dos filmes da dupla (algo que inclusive começaria a ficar repetitivo muito em breve), tentando criar situações em que os heróis usam os diversos elementos do cenário contra seus inimigos – lembrando o que Jackie Chan faria posteriormente, em suas aventuras cômicas dos anos 1980.

Durante a pancadaria no ginásio, por exemplo, Terence Hill utiliza as argolas, barras e até o cavalo para dar golpes e voadoras nos inimigos, praticamente criando a hilária “Gymkata” daquele filme do Robert Clouse! Vale lembrar que, na vida real, o astro era um ginasta praticante, que se exercitava com esses aparelhos no dia-a-dia para manter-se em forma.


O resultado foi um dos maiores sucessos comerciais da dupla, tanto na Itália quanto no restante do mundo. Além de o filme continuar funcionando muito bem como comédia hoje, quase 50 anos depois do seu lançamento, podemos tirar várias lições importantes de A DUPLA EXPLOSIVA.

Há um comentário interessante sobre o lado negativo da rivalidade que permeia o filme inteiro (já que Kid e Ben são parceiros por acidente e “inimigos” desde o início), encerrando com uma situação irônica que leva ambos de volta ao ponto de partida – e a outra possível “competição de salsicha e cerveja”.

Outro comentário irônico está reservado para os bandidões, sobre como tudo teria sido mais fácil (e barato) e menos doloroso caso eles tivessem atendido desde o início à reivindicação da dupla. “Não mexa com quem está quieto”, já reza a sabedoria popular. Quando precisa desembolsar uma fortuna para pagar o matador Paganini, o Chefão protesta que teria custado muito mais barato comprar o diacho do buggy para aquietar os heróis.



Se ao final da resenha de “Super Snooper” eu dizia que talvez não pudesse recomendar o filme por qualquer outro fator que não fosse a nostalgia (e o mesmo vale para várias outras aventuras de Terence Hill e Bud Spencer, que não envelheceram bem), no caso deste A DUPLA EXPLOSIVA faço o contrário: é uma comédia muito divertida que recomendo com louvor inclusive para quem nunca viu outras aventuras da dupla, ou nem sabe quem foram Terence Hill e Bud Spencer.

Inclusive se você pretende se iniciar agora na obra dos astros, ou então quer ver um único filme deles só para saber do que se trata, A DUPLA EXPLOSIVA é certamente a melhor escolha. Até porque não fica melhor que isso depois, muito pelo contrário.

E mesmo que não curta as gags e as pancadarias coreografadas com mais zelo que o habitual, dificilmente alguém ficará indiferente à cena do coral, sem passar dias cantarolando o “la la la la, pó pó pó pó” imitando o finado Bud Spencer (se alguém souber que diabo de música é essa, caso ela exista “fora do filme”, favor informar nos comentários!).



Trailer de A DUPLA EXPLOSIVA


11 comentários:

Raphael Silvierri disse...

Nunca fui fã da dupla, mal assisti a alguns trechos de filmes. Mas fiquei com vontade de ver esse...vou procurar!

spektro 72 disse...

Eu acho que é o melhor filme da dupla Terence Hill & Bud Spencer que eu assisti na TV nos anos 80 eu morri de dar risada com essa cena da cantoria,acho que se eu assistir novamente eu darei umas boas risadas é uma cena hilaria , ,alias! tudo nesse filme funciona os dois atores estão muito bem em cena ,claro! o tempo está passando e muitos filmes já envelheceram inclusive esse filme ,mas outros filmes tambem estão envelhecendo com á medida em que os anos passam ,principalmente os filmes de comédia são os que mais se prejudicam com o passar dos anos ,faz tempo que eu não assisto esse filme acho que ha 22 anos ,campeoníssimo de reprise da TV Globo na década de 80 na "Sessão da Tarde " & "Festival de Ferias" sua última exibição foi no " Intercine 2" em 03/05/1998 as 02:30 da madrugada, eu gravei em VHS quando passou ele nesse dia ate hoje tenho á gravação dessa fita com á dublagem clássica da Herbert Richers ,pois muitos filmes dessa dupla lançadas em DVD em nosso mercado patético de home vídeo foram redublados matando os saudosistas que assistiram os seus filmes com á dublagem antiga na época de ouro da TV Aberta .
Ótima postagem ,senhor do filmes esquecidos do cinema e TV , Mestre Felipe ,um abraço de Spektro 72.

RODRIGO ALVES ( RAMS ) disse...

Spektro72 ainda houve outra reprise em 2001 com vários cortes no Corujão
Gravei nesse dia

Unknown disse...

ANSIOSO PARA AS RESENHAS DAS AVENTURAS SOLO DO SAUDOSO BUD SPENCER EM ESPECIAL BANANA JOE E SUA CANÇÃO TEMA INESQUECÍVEL

Anônimo disse...

Hoje á Infantilização dos filmes estão aí circulando ( logico! não agora por que á uma epidemia chinesa circulando pelo o mundo) principalmente nesse filmes horrorosos da Marvel & DComics todos feitos para agradar essa geração nova de nerds abilolados (que ainda se diverte lendo esse gibis bobos de ambas as empresas já citadas),com roteiros cheio de buracos e piadinhas bestas para um publico seleto e efeitos especiais duvidosos em ritmo acelerado e encher o rabo deles de dinheiro com venda de produtos licenciados ... um filme mais idiota do que o outro ,por fim ,outra saga estupida é Star Wars depois que franquia foi parar nas mãos de J.J.Abrams o mesmo criador do lixo da serie "LOST" conseguiu á proeza de um filme se pior que outro,sendo que o último que deu fim á saga criada por George Lucas que já não era grande coisa tambem ,os episódios que antecedem os primeiros filmes realizados por ele e Lucas vendeu á sua franquia para Disney e essa sepultou de vez colocando esse diretor de quinta categoria para dirigi-lo mas um lixo comercial para vender produtos licenciados e encher o rabo da Disney de dinheiro ,pior de tudo ambas as franquias são dela...
ótima resenha e um abraço.

spektro 72 disse...

Obrigado pela á informação Rodrigo Alves, eu não me lembro se assisti nesse dia em que esse filme foi exibido em 2001 ,acho que ele foi exibido em sábado ou em alguma dia da semana ,mas só sei que foi em um CORUJÃO . Á Globo ate hoje tem á mania estupida de programar filmes na suas madrugadas e corta-lo de forma descarada quando são exibidos.

Anônimo disse...

"DUPLA EXPLOSIVA (1974) " á sua última exibição na TV Aberta foi 31/07/2001 na de terça para quarta-feira no Corujão ,depois nunca mais ele foi exibido em TV alguma .

André disse...

Eu fico cantarolando essa música do Buggy até hj.
Adoro esse filme.
Não perdia um filme dessa dupla!
A dublagem de Newton da Matta casava perfeita para Terence Hill.
Excelentes resenhas!

Anônimo disse...

Cara, poderia fazer uma análise do filme Cabeças Voadoras?

Jonathan Nascimento disse...

Eu só fiquei sabendo da existência de Terence Hill e Bud Spencer , recentemente (vergonhoso, eu sei) por causa dos vídeos do canal Coleção em Ação (excelente canal, aliás).

Os vídeos e essas suas postagens incríveis sobre eles, me fizeram ter vontade de conferir os filmes e acho que vou seguir a sua dica e começar por esse.

Jau disse...

Legal, passou até tardiamente.