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quinta-feira, 30 de abril de 2020

WATERWORLD (1995)


(Esta, meus amigos, é a 400ª postagem do FILMES PARA DOIDOS, este blog que eu criei por pura diversão em 2008 e que acabou virando um monstro que me consome mais e mais – um trabalho que levo muito a sério sem ser remunerado! Para comemorar a festividade, nada melhor do que um artigo épico. E para escrever um artigo épico, nada melhor do que pedir a ajuda dos leitores do blog, que são a principal razão para que ele siga existindo. Entre as três opções apresentadas via Twitter e Facebook, esta foi a escolhida pela maioria! Com vocês, os culpados: pelo Facebook votaram Cristiano Moura, Everton Soares, Fabiano Nunes, Henrique Guerreiro, Ismael Chaves, Israel Andrade, Jean Luca Vedovato, Jeferson Ferreira dos Santos, Rafael Holanda, Raphael Rolemberg e Titara Barros; pelo Twitter, Alex Barizon, Bronsonbêbado, Bruno Canassa, Pablo Mendonça, Ricardo Bertalha, Sebastião Uellington Pereira, @oneripper e @o mundo segundo jamal. Nosso agradecimento a eles e a todos que participaram deste belo processo democrático. Caso você ainda não siga as redes sociais do FILMES PARA DOIDOS, faça-o já no Facebook e no Twitter! Não sei se haverá uma 500ª postagem, então por via das dúvidas aproveitem bastante esta aqui...)


Num mundo pós-apocalíptico, os poucos sobreviventes que tentam reconstruir algo parecido com uma sociedade civilizada enfrentam a ameaça dos violentos bárbaros liderados por um fanático, que se preocupam apenas em destruir, pilhar e matar o que restou do planeta. O vilão cobiça algum elemento que esta comunidade pacífica possui, e pretende tomá-lo à força. Até a chegada de um anti-herói solitário, que inicialmente só pensa na própria sobrevivência, mas acaba sendo tragado para aquela situação e, contra a sua vontade, precisa defender os sobreviventes bonzinhos dos bárbaros malvados.

O resumo acima descreve uma caralhada de filmes: da preciosidade que praticamente lançou a tendência (“Mad Max 2”, de George Miller) às suas centenas de variações e cópias produzidas na Itália (“O Guerreiro do Mundo Perdido”, “Guerreiros do Futuro”...), nas Filipinas (“Stryker – O Sobrevivente”, “Equalizer 2000”, “Rodas de Fogo”...) e no resto do mundo (“Guerreiros do Apocalipse”, “Blindado Mortal”, “Império das Cinzas”, etc etc), onde quer que houvesse um deserto para filmar e roupitchas de couro para os vilões vestirem.


Mas troque a ambientação deste argumento de um deserto pós-guerra nuclear para um planeta submerso pelo derretimento das calotas polares, e restará apenas uma aventura inconfundível: WATERWORLD – O SEGREDO DAS ÁGUAS, a problemática superprodução dirigida por Kevin Reynolds e estrelada por Kevin Costner – o mais perto que Hollywood chegou de brincar de “Mad Max”, embora torrando muito mais dinheiro que o pequeno filme australiano no processo.

WATERWORLD chegou aos cinemas em 1995. Para quem nasceu ontem e não lembra, 1995 também foi o ano de “Toy Story”, a obra que apresentou ao mundo as animações feitas por computador (e uma tal de Pixar); do retorno de Bond, James Bond em “007 Contra Goldeneye”, e de outros dois lucrativos heróis pós-modernos em “Batman Eternamente” e “Duro de Matar – A Vingança”. Também foi o ano de títulos bastante populares até hoje, como “Coração Valente”, “Fogo Contra Fogo”, “Seven”, e até o clássico da Sessão da Tarde “As Patricinhas de Beverly Hills”!


Mesmo assim, naquele ano de 1995 – e falo com conhecimento de causa porque o vivi – praticamente só se falava em WATERWORLD. E não pelos motivos certos.

Meses antes da estreia oficial do filme nos cinemas, numa era antes da popularização da internet, das redes sociais e do whatsapp, WATERWORLD sofreu uma impiedosa campanha “do contra”, promovida primeiro pelos tablóides e programas de fofocas, depois pela mídia tradicional. Todo mundo o anunciava como um dos maiores desastres da história do cinema: era, até o momento, o filme mais caro já produzido, e realmente sofreu com uma produção infernal, que era dissecada implacavelmente pelos jornalistas do mundo todo (a confusão ganhou capas de Ilustradas e Cadernos B até no Brasil!).


A situação era tão insólita que o filme rapidamente virou uma piada de mau gosto. Na comédia “The Cable Guy”, de Ben Stiller, lançada em 1996 (e que no Brasil ganhou um título horrendo que me recuso a reproduzir), Jim Carrey declara lá pelas tantas: WATERWORLD... Nunca entendi porque criticaram tanto. Já vi nove vezes, e é demais!”. Obviamente, o personagem de Carrey é um doido varrido.

Mas confesso que talvez eu seja tão louco quanto Jim Carrey em “The Cable Guy”. Tenho WATERWORLD em alta conta, e não me envergonho em dizer que o coloco entre minhas aventuras preferidas. Não sei se já cheguei a vê-lo nove vezes, como Carrey, mas sim, acho demais, e lembro inclusive da cara de surpresa do balconista da videolocadora que eu frequentava quando pedi se ele me daria o pôster do filme depois de tirar da vitrine.

Estamos falando do último grande blockbuster, a última mega-aventura hollywoodiana feita à moda antiga – e se tiverem paciência para me acompanhar até o final deste megalomaníaco texto (tão megalomaníaco quanto a obra que analisa) tentarei justificar tal afirmação.

O dilúvio no globo da Universal


WATERWORLD começa com uma brincadeira simples, porém muito boa: assim que passa a vinheta da Universal, o estúdio por trás da obra, a câmera se aproxima do próprio globo terrestre da logotipia da produtora e nos mostra o nível dos oceanos subindo até submergir os continentes (reveja acima)! “O futuro. As calotas polares derreteram, cobrindo o planeta de água”, explica um narrador estilo Morgan Freeman genérico. “Os poucos que sobreviveram tiveram que se adaptar a um novo mundo”.

Entra o título WATERWORLD, que em boa tradução significa “O Mundo das Águas” (que mané “Segredo” o quê!), e a câmera “desce” das nuvens para a superfície da Terra, agora coberta com água até perder de vista – fazendo o antigo nome do planeta parecer uma piada de mau gosto. Uma pequena e curiosa embarcação se destaca na paisagem, e a câmera se aproxima lentamente até apresentar nosso herói: um guerreiro solitário e anônimo que todos chamam apenas de “Mariner” (termo em inglês para Marinheiro), interpretado por um Kevin Costner quarentão, emburrado e cabeludo, bem distante dos galãs românticos pelos quais era bastante popular no período.


Em sua resenha do filme lá atrás, em 1995, o lendário crítico de cinema Roger Ebert lembrou que a maneira como um herói é apresentado num filme pela primeira vez não apenas dará o tom deste personagem, mas também ficará registrada para sempre na memória de quem está vendo. Tipo James Bond atirando em direção ao espectador, na vinhetinha que antecede as aventuras do 007. Ou Indiana Jones fugindo da enorme pedra que rola em sua direção no início de “Os Caçadores da Arca Perdida”. Ou Darth Vader tocando o terror no início do “Star Wars” de 1977.

Isso torna ainda mais bizarra a forma como o Mariner de Kevin Costner é apresentado ao público (lembrando que estamos falando de uma obra pensada para ser o grande blockbuster daquele verão). A primeira coisa que vemos do nosso protagonista são suas pernas abertas com um filete de urina descendo entre elas para dentro de um copinho plástico! Sim, o grande herói de WATERWORLD começa seu filme mijando! E não termina por aí: o personagem de quem ainda nem vimos o rosto pega o copinho com urina, joga o líquido numa engenhoca visivelmente improvisada e, através de um processo manual, purifica o xixi, que sai por uma torneirinha transformado em água filtrada, ou algo muito próximo disso. Aí o Mariner pega a caneca com o produto final da máquina e bebe o próprio mijo sem cerimônia, saboreando cada gota como se fosse refrigerante! Sacou? O primeiro grande close no rosto do astro Costner no grande blockbuster de 1995 mostra o galã bebendo xixi reciclado!


Passado o choque, percebe-se que esta introdução funciona à perfeição para jogar o espectador no mundo sinistro e perversamente irônico de WATERWORLD: um planeta coberto por água, onde os personagens estão rodeados o tempo inteiro pelo elemento fundamental da vida, mas não podem consumi-la porque é água salgada. Assim, precisam filtrar a própria urina para beber, ou esperar que chova – algo que, pelo menos durante o tempo de projeção do filme, nunca acontece.

O Mariner desbrava este “Mundo das Águas” em seu trimarã, uma curiosa embarcação visivelmente construída a partir de restos e formada por um casco central e dois cascos mais finos nas laterais, o que em teoria lhe garante maior velocidade que outros barcos comuns – ou pelo menos foi o que descobri pesquisando em sites sobre navegação.

O trimarã está repleto de relíquias de um mundo que não existe mais, além de um pé de limão plantado num vasinho, que o herói trata como um autêntico tesouro. Seu cotidiano é de silêncio e solidão, além de um vigiar perpétuo do horizonte em busca de possíveis inimigos.


A narrativa nos dá mais algumas informações sobre a curiosa rotina deste futuro quando o Mariner volta de um mergulho (algo que ele faz com frequência, conforme veremos mais adiante) e descobre que há outro barco ancorado ao lado do trimarã. Sua primeira reação é de suspeita, mas o sujeito no barco ao lado informa que há um atol (o nome dado às colônias de sobreviventes) oito dias a leste. Os viajantes falam inicialmente na língua usada em alto-mar, o portugreek, que mistura português e grego. Depois, começam a conversar em inglês como idioma em comum.

Descobrimos que existe um “código de conduta” no Mundo das Águas: quando dois viajantes se cruzam pelos mares, algo precisa ser trocado entre eles. O outro marinheiro diz que não quer nada pela informação, fazendo com que nosso herói suspeite: “Nada é de graça em Waterworld”. E logo fica claro o porquê da generosidade: o sujeito esteve futricando no barco do Mariner enquanto ele mergulhava, e roubou todos os preciosos limões da muda do protagonista!


Um confronto entre ambos é inevitável, mas precisa ser adiado com a chegada dos Smokers (Fumantes), os grandes vilões deste mundo que já parece bem terrível. São os típicos criminosos de aventuras pós-apocalípticas, que aproveitam o fim das noções de lei e de ordem para roubar e matar livremente. Também estão sempre fumando e cobertos de fuligem, o que explica o apelido.

O Mariner e o ladrão de limões sabem que não têm chance nenhuma contra os bandidos, mais numerosos, armados até os dentes e com embarcações velozes (além de jet-skis). Eles sobem as velas de seus barcos para poder escapar a tempo, mas nosso herói não esqueceu da desfeita proporcionada pelo desafeto. Assim, antes de se mandar para longe dali, passa com o trimarã sobre a embarcação do outro, destruindo o mastro do navio alheio e deixando-o para trás como presa fácil para os Smokers que se aproximam. Quem mandou roubar os limões do Mariner?


Sem mais delongas, nosso herói veleja até o atol que o finado colega marinheiro havia lhe indicado. Na natureza, atol é o termo que define uma ilha oceânica de corais em formato circular, que acaba criando uma pequena lagoa natural no seu interior. No mundo de WATERWORLD, atóis são gigantescas estruturas metálicas circulares e flutuantes construídas por colônias de sobreviventes, com o objetivo de poderem viver fora da água e também de impedir outras pessoas de entrar em seu vilarejo – mais ou menos como a refinaria de gasolina dos sobreviventes de “Mad Max 2”, mas na água!

Ali, gerações inteiras nasceram sem ter nenhuma terra firme onde pisar, e tiveram que adaptar a sua sobrevivência e modo de vida a isso. Eles recuperam e reaproveitam tudo, inclusive os mortos da aldeia. Na chegada, o Mariner testemunha o ritual em que o cadáver de uma velhinha é “reciclado” e absorvido numa espécie de caldo verde natural, depois usado como fertilizante para o plantio dos poucos vegetais que também sobreviveram ao dilúvio (há uma árvore enorme dentro do atol). Como o local já está superpovoado, viajantes são recebidos apenas para compra e venda de mercadorias, durante tempo limitado.


Ao mostrar que possui um pote de terra para trocar – obviamente a mercadoria mais valiosa em um mundo submerso –, o Mariner consegue garantir um par de horas  no interior do atol. Depois de pesar a terra e saboreá-la (o que chega a lembrar uma negociação de cocaína), o responsável pelos pagamentos declara: “Terra pura!”, para a surpresa de todos ao redor. O herói recebe 120 chits pelos seus 3,2 quilos de terra, sendo esta a moeda usada no atol para adquirir recursos – especialmente “hydro”, que é como os sobreviventes chamam a água potável.

A lojinha local é administrada por Helen (a gatíssima Jeanne Tripplehorn), mas ela já não tem muita coisa para comercializar. Os tempos são difíceis e não há mais tantos mercadores e viajantes como antigamente. Com suas moedas, o Mariner compra dois copos de pura hydro, um pé de tomate num vaso para fazer companhia ao seu limoeiro, e até as estantes vazias do agora falido estabelecimento.


Ele está a caminho do trimarã com as compras quando é abordado pelos líderes locais, que na lata, sem meias-palavras, sem nem ao menos convidar para jantar ou preparar um clima, pedem que ele engravide uma jovem local – como tiveram uma morte recente entre os seus, abriu vaga para poderem “fabricar” um novo bebê sem superlotar o espaço.

Mas nosso herói não é chegado em ter relações tão próximas e íntimas com outros humanos. Sua recusa em ser um “reprodutor” ofende a alta cúpula do atol, que ordena que ele seja preso. Enquanto luta para se libertar, o Mariner acaba revelando que não é um ser humano, e sim uma mutação meio homem, meio peixe: tem gelras escondidas atrás das orelhas, que lhe permitem respirar debaixo d’água, e os dedos dos seus pés são ligados por uma membrana, formando uma espécie de “pé-de-pato natural” que lhe permite nadar com mais destreza.


E aí a porra fica séria, porque se há algo que a humanidade não conseguiu superar nem mesmo depois do apocalipse é a questão do preconceito: sendo DIFERENTE, o Mariner é considerado uma aberração e uma blasfêmia, e portanto condenado à morte. O fato de ele ter esfaqueado e matado um dos sentinelas do atol na sua tentativa de escapar também não ajuda muito. Pelo menos a execução é adiada para o dia seguinte, já que o protagonista também será “reciclado” no tal caldo verde – embora ainda vivo, o que não me parece uma experiência muito agradável.

Só que o Mariner não foi o único forasteiro no atol naquele dia. Um pouco mais cedo, esteve por ali Nord (Gerard Murphy), um espião dos Smokers, em busca de informações sobre o mapa para um lugar lendário: Dryland (Terra Seca), onde supostamente ainda haveria solo firme para pisar. Dryland é considerado um mito pelos sobreviventes – algo próximo ao Eldorado para os conqusitadores espanhóis, ou mesmo o Paraíso na mitologia cristã –, mas há quem não tenha desistido de procurar. E tal mapa para este lugar paradisíaco estaria tatuado nas costas da misteriosa menina Enola (Tina Majorino), que calha de ser enteada de Helen.


No momento marcado para a execução do Mariner (ótimo timing!), os vilões lançam um ataque devastador ao atol, forçando os pacíficos habitantes armados com bestas, lanças e canhões de água a enfrentar inimigos armados até os dentes com metralhadoras de grosso calibre e explosivos. Esta cena é impressionante e dá uma bela amostra do tom esbanjador de WATERWORLD, onde tudo precisava parecer grande e espetacular para justificar o dinheirão investido!

Lá pelas tantas, um velho avião impulsiona capangas sobre esquis por uma rampa, fazendo-os saltar sobre as muralhas do atol para dentro do laguinho no seu interior! E tudo é DE VERDADE, acrobacias completamente malucas feitas por dublês insanos DE VERDADE, em cenas que até hoje sáo de cair o queixo – e que agora seriam facilmente replicadas com computação gráfica, mas sem um terço da graça de vermos o troço acontecendo diante de nossos olhos!


Um dos barcos dos Smokers também está equipado com uma gigantesca metralhadora de artilharia anti-aérea, operada por um sujeito cuja viseira fica completamente escurecida pela fuligem dos disparos de grosso calibre. Enquanto ele atira sem parar, outros capangas ao seu redor recolhem as cápsulas de munição vazias em baldes para poder reaproveitar o metal depois, já que tudo precisa ser reciclado naquele mundo sem terra. É outro momento de deixar qualquer um embasbacado, e consta que só para a filmagem desta cena eram disparados mais de 3.000 tiros por dia!


Para encurtar uma longa história, enquanto o inferno se abate sobre o atol, com tiros, explosões e jet-skis voadores por toda parte, Helen resolve ajudar o Mariner a escapar da jaula onde ele continua aprisionado – e afundando lentamente no suquinho verde de cadáver. Como contrapartida, a comerciante exige que o herói também ajude ela e a pequena Enola a escaparem da morte certa.

Sem muita opção (ou melhor, a outra opção é virar adubo), nosso protagonista que odeia interagir com seres humanos, menos ainda com seres humanos que 24 horas antes queriam matá-lo, é obrigado a formar um trio indesejado com as duas garotas, passando a maior parte do restante do filme querendo ou matá-las, ou vendê-las como escravas – e sim este é o “herói” do filme!


A partir daqui, WATERWORLD se transforma numa longa perseguição pelo oceano. Os Smokers não desistirão tão fácil de colocar as mãos em Enola e em sua misteriosa tatuagem, já que seu líder, Deacon, prometeu Dryland para seus homens em meio a sermões absurdos.

No ato final, a menina finalmente é aprisionada pelos vilões e levada até o quartel-general dos Smolers – um imenso petroleiro em ruínas, que uns pobres-coitados impulsionam com remos, como se fossem aquelas antigas galés movidas a trabalho escravo! Demonstrando que ainda tem um pingo de humanidade apesar de tudo, o Mariner parte para resgatar Enola e enfrentar os Smokers no mano a mano, em mais uma cena de ação explosiva estilo “Quanto maior, melhor”.


Críticas da época do lançamento de WATERWORLD se referiam ao filme, pejorativamente, como “Mad Max na água”. Muitos replicam a expressão até hoje como se fosse um demérito, mas não consigo entender porque alguém acharia negativo ser comparado a uma das maiores aventuras cinematográficas já filmadas.

A relação entre os dois filmes inclusive é explícita e confessa: a ideia original de um dos roteiristas, Peter Rader, surgiu justamente de um projeto para a enésima cópia vagabunda de “Mad Max” (como veremos mais adiante). Alguns personagens secundários parecem ter sido inspirados diretamente no filme de George Miller: o atrapalhado piloto de “girocóptero” interpretado por Bruce Spence em “Mad Max 2” ganha uma versão igualmente atrapalhada no cientista Gregor (Michael Jeter), que aqui pilota um balão, enquanto Pappagallo (Michael Preston), líder dos sobreviventes no filme australiano, ganha uma versão marítima personificada por R.D. Call, que interpreta uma espécie de “xerife do atol”.

Até mesmo o australiano Dean Semler, que foi o diretor de fotografia de George Miller em “Mad Max 2” e “Mad Max – Além da Cúpula do Trovão”, repetiu a função em WATERWORLD – ele que já havia trabalhado com Costner em “Dança com Lobos”, quando ganhou o Oscar de Melhor Fotografia.


Então WATERWORLD não esconde sua inspiração em “Mad Max 2”. Mas além de trocar a ambientação de árida e desértica para submersa e encharcada, além de ter custado o equivalente a oitenta “Mad Max 2”, e além de estender-se pelo dobro do tempo da sua inspiração australiana, WATERWORLD tem uma outra diferença fundamental para as aventuras de George Miller e praticamente todas as suas cópias: um olhar menos caricatural e mais realista.

Porque por mais que eu ame “Mad Max 2” de paixão, é óbvio que analisando friamente a gente percebe o ridículo da coisa toda; ou alguém engole que sobreviventes do fim do mundo que vivem num ambiente desértico adotem visual e maquiagem punks e vistam roupas de couro e/ou figurinos S&M, que sequer são práticos ou confortáveis naquele ambiente e àquela temperatura?


Em WATERWORLD, por outro lado, nenhum esforço é poupado para passar uma impressão de verossimilhança, de que na possibilidade de um futuro submerso as pessoas realmente viveriam daquela maneira. Barcos, roupas e utensílios são produzidos ou com materiais reciclados trazidos das profundezas, e que já não fazem mais sentido às novas gerações de sobreviventes, ou com os ossos e o couro de peixes e criaturas marítimas.

Percebe-se que as equipes de direção de arte e props (objetos de cena) torraram muito dinheiro e muito material para dar vida a este universo, e a cada vez que se revê o filme (na hipótese de alguém mais querer rever, é claro) descobre-se um novo objeto do dia-a-dia sendo reciclado de maneira original pelos sobreviventes do Mundo das Águas – um dos elementos decorativos no trimarã do Mariner é um caríssimo Ovo Fabergé, que no mundo pós-apocalíptico já não tem mais valor algum, nem mesmo como moeda de troca.


Além disso, o futuro imaginado por WATERWORLD é realmente terrível e mortal. Ok, o de “Mad Max” e suas imitações também era, mas não há comparação: se você ficar a pé no deserto, ainda pode caminhar e ter uma mínima chance de sobreviver. Aqui, por outro lado, se você cai de um barco você está no meio do oceano e sem ter meio metro de terra firme ao redor para poder escapar; se o seu barco ou suas velas forem destruídas, deixando-o ilhado em alto-mar, tanto pior.

É um mundo sem “chão firme”, onde os personagens se obrigam a passar suas vidas em barcos ou em estruturas metálicas construídas sobre a água – e, em qualquer um dos casos, sujeitos à movimentação pela água, que nunca pára, e pelo vento. Enfim, um mundo em permanente movimento, onde a maioria adota uma vida nômade e sai navegando pelos mares até morrer ou ser morto.


O roteiro assinado por Peter Rader em parceria com David Twohy (entre outras pessoas mais ou menos famosas que colaboraram sem receber crédito, como veremos mais pra frente) é uma salada de frutas que se inspira não apenas em “Mad Max”, mas também numa das maiores fábricas de mitos da nossa civilização, a Bíblia. Por exemplo: a menina Enola (cujo nome é “alone”, a palavra em inglês para “sozinha”, de trás para frente) chegou ao atol num cesto quando ainda era bebê, tipo o bebê Moisés no Antigo Testamento.

Os sobreviventes do apocalipse também acreditam piamente que um dilúvio CRIOU a Terra, e não que a destruiu – e quem sugere o contrário é acusado de blasfêmia, óbvio. Sem equipamentos de mergulho, eles obviamente não têm como descer às profundezas e ver as ruínas de nossas cidades. O Mariner, por outro lado, consegue respirar debaixo d’água e vive desta curiosidade meio mórbida, meio antropológica de explorar o mundo submerso e trazer para a superfície objetos desconhecidos para as novas gerações, além da cobiçada terra que o torna um homem rico.

Numa das cenas mais incríveis do filme (apesar de alguns efeitos de computação gráfica terem envelhecido bem mal), o protagonista leva Helen para um passeio pelo que sobrou de uma cidade desconhecida, que os espectadores gringos pelo menos reconheceram como sendo Denver.


Um aspecto curioso de WATERWORLD é que ele vai na contramão da estrutura básica dos filmes de ação da época, em que o protagonista geralmente era um sujeito bonachão que disparava não apenas tiros, mas também toda sorte de piadinhas e gracejos, enquanto os vilões, como contraponto, eram totalmente sérios e soturnos. Esta tendência começou na década de 1980 e nos anos 1990 já era regra.

Em WATERWORLD, por outro lado, encontramos o completo oposto: o Mariner é um herói calado e soturno, tão violento e ameaçador quanto seus inimigos, enquanto os Smokers são vilões caricaturais que parecem ter saídos de um desenho do Pica-Pau. Entrevistas da época confirmam que Costner embarcou no projeto especialmente por isso, já que tinha feito mocinhos simpáticos e de bom coração em filmes como “Os Intocáveis” e “Robin Hood, O Príncipe dos Ladrões”, mas pretendia diversificar.


“Eu não queria fazer o típico filme de ação focado apenas em piadinhas e frases de efeito. Você sabe, algo explosivo acontece e alguém fala uma gracinha logo depois”, disse o astro, em entrevista à revista Starlog em outubro de 1995, duas semanas antes da estreia de WATERWORLD nos cinemas. “Não que seja um filme totalmente sério, mas eu queria que o humor viesse da dureza do meu personagem e da sua situação. Eu sabia que indo por este caminho o filme se tornaria mais complexo para o público médio, mas achei que valia o risco de tentar fazer algo diferente”.

Na mesma entrevista, Costner tentou defender os excessos de seu Mariner, um anti-herói que foi bastante criticado lá atrás, em 1995: “Não penso no personagem como um completo bastardo, mas sim como um urso enjaulado que tem uma placa dizendo: ‘Não mexa com ele’. Se você apresenta um personagem assim e depois o amacia durante o filme, então você está enganando o público, dizendo que ele é um cara durão, mas no fundo não era tão durão assim. Sempre achei que você deve ser consistente com o comportamento do personagem”.


Por isso, mais até do que o Mad Max que o inspirou, o Mariner é um protagonista duro de simpatizar, porém coerente com o meio em que vive. É um mundo duro e cruel, e ele precisa ser duro e cruel para sobreviver. Na linha do Snake Plissken de “Fuga de Nova York” e “Fuga de Los Angeles” (e um dos anti-heróis cinematográficos por excelência), o personagem nutre profundo desprezo pela humanidade e não poderia ligar menos para os bonzinhos do atol ou para os malvados Smokers – quer apenas ser deixado em paz e navegar para longe de qualquer conflito.

Como disse Costner na entrevista, é um protagonista distante daquele bom-mocismo característico do herói típico hollywoodiano, e que tampouco é amaciado ao longo da narrativa. “Ah, mas no final ele vai enfrentar os Smokers para resgatar Enola, a menina que ele passa o filme todo odiando”. Sim, ele vai, mas a narrativa usa este artifício mais como uma vingança particular do Mariner contra os vilões (para não lhes dar o gostinho de ter o mapa e chegar a Dryland) do que propriamente de afeto pela garotinha.

E quando os sobreviventes finalmente encontram terra firme na conclusão, o Mariner quase que imediatamente volta para o mar e põe-se a navegar para longe dali – ele não serve para “viver em sociedade”, menos ainda num lugar pacífico.


O tratamento do “herói” em relação às suas companheiras forçadas Helen e Enola foi motivo de muitas críticas ontem, hoje e sempre. Há quem afirme que um dos grandes problemas do filme é que o espectador não consegue simpatizar com o Mariner, um protagonista que não hesita em usar as mulheres como moeda de troca com um náufrago, oferecendo meia hora de sexo com Helen pelas páginas de uma revista, e mais tarde ainda cogita vendê-las como escravas para se livrar do pepino. De fato, não é fácil simpatizar com o herói de Costner, mas é preciso no mínimo tentar entendê-lo.

Num primeiro momento ele cogita até mesmo matá-las para economizar água e comida: logo após fugirem do atol e dos Smokers, o “herói” anuncia a Helen e Enola que o melhor seria que ele jogasse uma das duas ao mar imediatamente. “Não teremos água por 12 dias. Melhor uma de vocês morrer agora do que as duas morrerem lentamente. Aliás, por que eu não jogo as duas no mar agora mesmo? Vocês não têm nada que eu precise!”, justifica.


Enfim, ele definitivamente não é flor que se cheire, mas não acho que seja um machista – até porque o conceito de “machismo” não tem mais lugar no mundo pós-apocalíptico em que se passa a trama, onde todo e qualquer direito que as mulheres conquistaram foi zerado com o dilúvio, rebaixando-as à condição única de empregadas dos homens e reprodutoras.

O comportamento do do Mariner é o comportamento que se espera de alguém incapaz de demonstrar gentileza ou empatia pelo próximo. Logo, seu relacionamento recheado de grosserias com as duas garotas serve para comprovar que o personagem não vai pegar mais leve com elas só porque são mulheres, e dane-se o que pensa o espectador.


Relembrando: ele tenta matar Enola atirando-a ao mar quando a menina começa a reclamar demais, agride Helen violentamente com um golpe de remo depois que ela o ameaça com um arpão (a moça já tinha sido desarmada e a pancada era desnecessária, mas o “herói” precisa provar o quanto é impiedoso), e pune ambas cortando seus cabelos a faca quando elas descumprem sua ordem de não mexer no barco, a única coisa no mundo com que ele realmente se importa.

Goste ou não, este é o herói para aquele mundo e aquele momento. Tanto que no ato final, enquanto é mantida presa pelos Smokers, Enola não se deixa impressionar pelas ameaças de Deacon: “Ele é muito mais ameaçador que você”, responde, referindo-se ao Mariner.


Com um mocinho tão carrancudo e violento, que mal fala ou sorri o filme inteiro (a única coisa em que os realizadores economizaram, aparentemente), WATERWORLD tenta fazer algum humor usando seus vilões. Os Smokers são adversários absurdos que funcionam como um contraponto aos “bonzinhos”, e o fato de um jovem e ainda desconhecido Jack Black (numa das fotos mais abaixo) aparecer em atuação exagerada como um dos bandidos parece confirmar esta ênfase no humor do lado dos antagonistas.

Kevin Reynolds sempre disse que queria que o filme fosse uma aventura de ficção científica com tom ecológico, na linha de “Corrida Silenciosa”, “No Mundo de 2020” e “Jornada nas Estrelas 4”. Por isso existe este constraste nada sutil: enquanto os sobreviventes do atol e o próprio Mariner reciclam tudo e se preocupam com os recursos limitados, os Smokers não pensam no amanhã, se reproduzem como coelhos e pilham as colônias de sobreviventes que encontram pelo caminho para arranjar água potável e comida para sua questionável sociedade em crescimento descontrolado.


Os vilões têm seu quartel-general num petroleiro que está sendo permanentemente desmantelado por dentro, com capangas arrancando pedaços inteiro do casco para poder produzir munições. O grande vilão Deacon percorre o interior do imenso navio pilotando um carro esporte com um adesivo que diz “Nuke the Whales” (Bombardeie as Baleias), em contraste com o movimento “Save the Whales”, muito popular nos anos 1980.

Num toque genial do filme (e uma das sugestões particulares do diretor Reynolds), o quartel-general dos vilões é o petroleiro Exxon Valdez, uma referência que talvez já não faça o menor sentido para os novinhos. Na vida real, a embarcação foi responsável por um dos maiores desastres ambientais da história, ocorrido em março de 1989, quando derramou 11 milhões de litros de petróleo na costa do Alasca. Além de usar o nome do petroleiro, um quadro de seu capitão na vida real, Joseph Hazelwood, aparece no filme sendo venerado por Deacon (que o chama de “Saint Joe”!).


Ainda no petroleiro dos vilões, um dos detalhes preferidos é o pobre capanga deixado permanentemente no interior do depósito de combustível sobre um barquinho. Sem noção do tempo, sozinho, branco como leite e na mais completa escuridão, o papel do coitado é controlar os níveis de petróleo estocado para informar Deacon sobre quanto ainda resta de combustível para queimar! Vá lá que a vida no Mundo das Águas não é exatamente flor que se cheire, mas o dia-a-dia deste sujeito é tão cruel e terrível que no final, quando um sinalizador em chamas é jogado pelo Mariner para dentro do reservatório, o sujeito chega a murmurar um rápido “Graças a Deus” como últimas palavras antes de ir para os ares junto com o restante do petroleiro!


Como contraponto ao calado e sério Mariner, o grande vilão Deacon é um falastrão impossível de levar a sério, interpretado por um impagável Dennis Hopper. Ele foi o vilão por excelência do cinema de ação da década de 1990, em produções tão díspares quanto “Super Mario Bros”, “Boiling Point – Em Ponto de Bala” (ambos de 1993) e “Velocidade Máxima” (1994). Depois ainda faria toda uma série de bandidos, psicopatas e terroristas em filmes classe B e C direto para VHS/DVD.

Em WATERWORLD, Hopper está se divertindo horrores como o fanático que lidera um grupo de pessoas ainda piores, distribuindo maços de cigarros e latas de comida processada enquanto faz discursos insanos que, por ironia, funcionam (qualquer semelhança com líderes contemporâneos é mera coincidência). Seu vilão parece até estar num outro filme completamente diferente, pois responde pelo humor numa aventura em que o “herói” é excessivamente soturno. Aparece jogando golfe, sonhando com planos de especulação imobiliária para Dryland e até tendo problemas com um recém-aplicado olho de vidro depois que perde uma das vistas no ataque ao atol – estes momentos envolvendo a prótese ocular são de puro humor negro.


Por mais que eu goste deste contraste, e da troca de papeis entre protagonista e vilão, consigo entender perfeitamente porque WATERWORLD não funcionou com o grande público. Algumas vezes o tom é bobo demais para convencer como uma aventura grandiloquente e séria (especialmente graças aos vilões caricaturais); outras vezes, é “épico” e introspectivo demais para ser considerado uma aventura pauleira como o trailer e a publicidade prometiam. No fim, parece tudo menos o típico “blockbuster de verão”, algo que as pessoas queriam consumir como se fosse fast food.

Enquanto “Mad Max 2” era ação do início ao fim, WATERWORLD tem, sim, sua cota de cenas colossais e impressionantes, mas elas estão espaçadas por loooongas cenas mais silenciosas e dramáticas, mostrando a interação entre o Mariner, Helen e Enola enquanto eles navegam pelo Mundo das Águas. Depois do explosivo ataque ao atol, o espectador atraído apenas pelas cenas de ação terá que esperar pelo terceiro ato para ver mais tiros e explosões, o que deve ter frustrado muita gente.


O ritmo mais parado não me incomoda, e acho até que combina com a proposta. Quem tiver paciência será brindado com momentos até hoje impactantes, de uma época em que explosões e destruição ainda eram filmadas on camera, e não produzidas por computação gráfica na pós. Até porque as poucas cenas de WATERWORLD que recorrem à computação gráfica já envelheceram muito mal. Hoje, parecem gráficos de um videogame de 8-bits.

O pior momento, disparado, é aquele em que o Mariner usa a si próprio como isca para pescar um gigantesco monstro marinho (!!!) e garantir alimento por alguns dias. Ele se pendura numa corda como se fosse uma minhoca no anzol, se atira ao mar e é engolido inteiro pela criatura; depois, de dentro da barriga do monstro, o protagonista dispara um tiro para matá-la e se libertar.

Se o efeito digital da criatura já não fosse ruim o suficiente, a “pescaria” em si é ridícula: e se o monstrengo tivesse partido o Mariner ao meio com sua bocarra ao invés de engolir a “isca” inteira? Devem existir maneiras mais fáceis e menos perigosas de pescar no Mundo das Águas. A propósito, tais monstrões absurdamente nunca mais dão as caras nos 99% restantes do filme, mesmo quando tem muito mais gente dentro da água para eles poderem fazer um verdadeiro banquete...


Algumas cenas envolvendo o balão de Gregor (uma imagem que parece saída de “As Aventuras do Barão de Munchausen”, de Terry Gilliam) e uma espécie de pipa improvisada usada pelo Mariner para conseguir mais velocidade no trimarã também resultam em efeitos primitivos de computação gráfica, quebrando aquele clima de espetáculo grandioso e realista que o diretor Reynolds constrói com tanta habilidade durante a maior parte da narrativa.


O resultado pode não ser o típico blockbuster de verão que todo mundo esperava, mas é melhor (e menos infantilóide) que quase todas as superproduções hollywoodianas desses últimos anos. E tem um dos anti-heróis mais cascudos que o cinema já mostrou. E tem Dennis Hopper loucão como vilão cartunesco. E tem jet-skis velozes no lugar de motos velozes. E tem perseguições de barcos e até balões. E tem uma quantidade absurda de explosões para um filme que se passa totalmente no meio da água – mais uma das inúmeras ironias desta produção com um senso de humor muito esquisito. Enfim, WATERWORLD é um grande filme, que precisa ser redescoberto, e ao mesmo tempo um Filme para Doidos por excelência, com a distinção de ter sido bancado por um grande estúdio e ter torrado rios de dinheiro como se não houvesse amanhã!

Leitores do blog inclusive irão reconhecer várias caras conhecidas para fãs de cinema alternativo: Leonardo Cimino e Zakes Mokae (vilão de “A Maldição dos Mortos-Vivos”, de Wes Craven) aparecem brevemente como membros do conselho do atol, Kim Coates como um enlouquecido náufrago que é uma bela amostra do que a solidão do Mundo das Águas pode fazer com o indivíduo, Robert A. Silverman (dos primeiros filmes de David Cronenberg) como o falastrão que conta sobre a tatuagem para os Smokers, e Robert Joy, praticamente irreconhecível, como um dos assistentes do vilão Deacon.


Em 1996, WATERWORLD foi sumariamente ignorado na cerimônia do Oscar, embora tenha conseguido emplacar pelo menos uma indicação (Melhor Design de Som, cuja estatueta ficou com “Apollo 13”, de Ron Howard). Até mesmo o Framboesa de Ouro, o prêmio para os “piores”, pegou leve: o épico aquático teve apenas quatro indicações, a Pior Filme, Pior Diretor, Pior Ator e Pior Ator Coadjuvante, sendo que Dennis Hopper levou o troféu nesta última categoria. O grande “vencedor” de pior entre os piores daquele ano foi “Showgirls”, que ganhou sete merecidíssimos prêmios – e, numa amostra de humildade, seu diretor Paul Verhoeven foi a primeira pessoa desde o início da cerimônia, em 1980, a estar presente para recebê-los!

Mesmo sem a consagração da crítica, sem prêmios e sem atrair o público gigantesco que precisaria para ser considerado lucrativo, WATERWORLD acabou se inscrevendo quase que imediatamente no imaginário coletivo e na cultura popular. Foi zoado em quase todas as séries cômicas da época, de “Saturday Night Live” e “Married with Children” a “Os Simpsons” (que brincou com a ideia de uma máquina de fliperama baseada no filme cobrar 40 fichas para dar crédito).

Até um seriado como “As Novas Aventuras de Superman” tirou sarro: num episódio durante uma tempestade que não termina, a Lois Lane de Teri Hatcher comentava que Metrópolis parecia WATERWORLD, “mas sem gastar tanto dinheiro”.

Finalmente, ainda em 1995, o épico aquático ganhou uma sátira pornô, o que sempre funciona como confirmação de que algo atingiu status pop/cult. Claro que “Deep Waterworld” (capinha ao lado) nem sequer tentou reproduzir os cenários e figurinos marítimos da superprodução que “homenageia”, contentando-se em mostrar gente trepando numa piscina simples...



NADA É DE GRAÇA EM WATERWORLD...
Embora troque o deserto pelo oceano, e adote certo tom épico e grandiloquente, WATERWORLD continua se parecendo muito com aquelas aventuras pós-apocalípticas classe B que imitavam “Mad Max 2”. Então como caralhos ele se tornou o filme mais caro de todos os tempos da sua época?

A história já é conhecida, mas é boa demais para não ser recontada: este grandiloquente épico marinho nasceu, quem diria, como um projeto muito menos ambicioso a ser produzido por Roger Corman, o rei dos filmes baratos de Hollywood!


Corria o ano de 1986 e o jovem Peter Rader queria trabalhar com cinema. Ele tinha se formado em Artes Visuais em Harvard e era amigo de Brad Krevoy, um executivo que trabalhava para a New Horizons (a então produtora/distribuidora de Roger Corman). Quando Rader, sem nenhuma referência ou trabalho pregresso na área, se candidatou para dirigir qualquer coisa para a New Horizons, Krevoy ofereceu-lhe o projeto de uma aventura pós-apocalíptica estilo “Mad Max” para a qual já tinha financiamento estrangeiro garantido. Caso o novato escrevesse um roteiro rapidão, também poderia dirigir o filme, prometia o produtor.

Rader voltou para casa animado e pôs-se a pensar numa cópia de “Mad Max” um pouquinho diferente, pois já estava cansado de aventuras baratas com perseguições de carros e motos pelo deserto (o próprio Corman tinha produzido uma porção à época). Inspirado em Titã, uma das luas de Saturno que é coberta por água, o rapaz concebeu este mundo do futuro em que a Terra estava submersa devido ao derretimento das calotas polares, provocado por uma guerra nuclear entre Estados Unidos e União Soviética (ainda eram tempos de Guerra Fria).


Assim nascia WATERWORLD: ao invés de um deserto à la “Mad Max”, água até perder de vista; ao invés de carros construídos com sucata, barcos construídos com sucata; ao invés de motos, jet-skis modificados; ao invés de heróis e vilões se matando por água ou gasolina, a luta seria por terra firme. Animado, Rader concluiu seu roteiro em poucos dias e foi correndo mostrar a Krevoy. Só de ouvir que a trama toda se passaria em alto-mar, o executivo já começou a vociferar: “Você ficou completamente maluco? Um filme como este custaria 5 milhões de dólares para fazer!”.

Não se sabe se Brad Krevoy era extremamente otimista ou simplesmente muito ruim em matemática, mas quando WATERWORLD foi finalmente filmado, quase dez anos depois, custou algo em torno de 195 milhões de dólares A MAIS do que aqueles cinco milhões que soavam tão impeditivos para a New Horizons. Isso, claro, dependendo da fonte consultada: o orçamento final do problemático blockbuster teria ficado entre 172 e 235 milhões de dólares, variando conforme quem conta a história.


É um dinheirão, sem sombra de dúvida; mas também parece mixaria perto de qualquer blockbuster lançado nos últimos dez anos. “Vingadores: Ultimato”, de 2019, custou quase 350 milhões. Mas no começo dos anos 1990 a situação era diferente, e o orçamento inflacionado de WATERWORLD foi considerado um completo absurdo.

Para comparação: um filme hollywoodiano “normal” custava algo ao redor de US$ 35 milhões em 1995, enquanto um grande blockbuster, daqueles feitos para estrear no concorrido verão gringo, podia bater na casa dos 100 milhões, mas já era considerado um investimento de altíssimo risco porque teria que faturar alto para conseguir se pagar.


Dois dos filmes mais caros daquele ano foram “Jumanji”, com orçamento de 120 milhões, e “A Ilha da Garganta Cortada”, que quase encostou nos 100 milhões de dólares redondos. Pois WATERWORLD não apenas custou quase o dobro de “Jumanji”, como também consumiu mais dinheiro que as (até então) trilogias “Star Wars” e “Indiana Jones” SOMADAS! Sentiu a responsa?

E o que mais escandalizou a todos na época (crítica, público, imprensa...) é que aquilo que se vê na tela realmente não passa de um filme classe B com orçamento de filme classe A! Repito a pergunta: por que diabos um negócio tão tosco custou tão caro para fazer? Calma...


Antes que aquele roteiro escrito para Roger Corman se tornasse o blockbuster mais caro da sua época, muita água passou por baixo da ponte. Voltemos a 1986: logo depois de ouvir um “não” do executivo que trabalhava para New Horizons – que em teoria produzia qualquer coisa –, Rader ficou frustradíssimo e engavetou seu roteiro. Ele retomou aquela ideia de dirigir filmes, mas pensando em histórias mais “pé no chão”, que pudessem ser feitas com pouco dinheiro.

Rader aliou-se a outro nome popular do cinema B, o produtor grego Nico Mastorakis, e enfim conseguiu escrever e dirigir “A Morada do Terror” (1988), um horror de baixo orçamento. Seu projeto seguinte seria o impagável filme de ação “Comando Ryan”, com Brian Thompson e Oliver Reed, que ele escreveu e codirigiu junto com o próprio Mastorakis. E foi quando percebeu que não tinha nascido para essa coisa de “classe B”: durante as filmagens, em maio de 1989, um dublê morreu num acidente de helicóptero, num episódio que afetou a moral de todos os envolvidos com a produção.


Convencido que devia tentar a sorte em produções maiores e com mais dinheiro, Peter resolveu tirar da gaveta o roteiro de WATERWORLD. Relendo-o, percebeu que havia ali uma aventura sólida e eficiente, que poderia interessar algum grande estúdio – especialmente porque, naquele ano de 1989, estavam estreando várias aventuras filmadas na água, ou mais especificamente debaixo dela, como “O Segredo do Abismo”, de James Cameron, “Leviathan”, de George Pan Cosmatos, e “Abismo do Terror”, de Sean S. Cunningham.

Só que este primeiro tratamento (termo usado para a versão de um roteiro), pensado como uma aventura barata a ser produzida por Roger Corman, ainda era um tanto cômico, com referências que iam do Antigo Testamento à mitologia grega. A trama se passava no ano de 2500, o herói se chamava Noah (Noé, como o da Bíblia) e o vilão, Poseidon (em homenagem ao deus grego dos oceanos). O líder dos Smokers tinha um tridente sempre à mão e sentava num trono feito de conchas. Já Helen, a mocinha, foi batizada em homenagem a Helena de Tróia, e havia um personagem secundário chamado “Troy” para deixar a referência ainda mais explícita.


Rader passou os próximos meses mexendo na história e gerando um segundo tratamento um pouquinho mais sério, agora com um herói chamado Morgan e menos absurdos por metro quadrado. Morgan sequer era um mutante, como o Mariner do filme finalizado, e sim um humano normal, que chegou a ter família. Até ser atacado pelos Smokers, que mataram sua esposa e levaram seu filho pequeno. No ato final, invertendo o clichê do “Luke, I’m your father”, ele descobre que um dos vilões que enfrenta é o filho que os Smokers lhe roubaram.

Esta primeira versão também faz uso curioso de animais: o herói Morgan viaja pelos mares levando um cavalo branco (!!!) em seu barco, enquanto os Smokers adestraram tubarões para usar como cães de guarda, soltando-os para perseguir sobreviventes em seu ataque ao atol!


Agora, uma ideia realmente curiosa era o fato de os navegantes levarem gaiolas com pássaros em seus barcos. Eles libertavam as aves com frequência; se os passarinhos não voltassem, era sinal de que havia algo grande próximo, seja um atol ou uma embarcação inimiga, quiçá terra firme. Todos esses elementos foram limados pela dificuldade de filmar com animais de verdade em 1995 – hoje, com os avanços da tecnologia, seria facinho reproduzi-los com computação gráfica.

Para quem ficou curioso, o segundo tratamento de Rader para WATERWORLD pode ser lido aqui, e percebe-se que alguns elementos sobreviveram até a versão final transformada em filme. No geral, entretanto, ainda era uma história bem diferente, e numa escala muito menor.


No segundo semestre de 1989, este novo roteiro começou a circular e acabou gerando aquilo que os gringos chamam de bidding war – uma espécie de leilão não-oficial, quando vários grandes estúdios começam a dar lances cada vez mais altos para tentar ficar com algum projeto que parece interessante, inflacionando seu valor no processo. Nem sempre a intenção é fazer o filme; às vezes, os caras simplesmente compram algo promissor para roubar de um estúdio rival e engavetar!

Enfim, a tal bidding war encerrou-se com final feliz. Nos últimos dias de dezembro de 1989, o roteiro foi adquirido pelo produtor Lawrence Gordon, da modesta Largo Entertainment, por 350 mil dólares, mais um bônus de 150 mil caso o filme realmente viesse a ser feito – o que daria ao jovem roteirista meio milhão de dólares por algo que deixou três anos abandonado na sua gaveta!


Numa entrevista à revista Total Film & SFX em 2016, Rader lembrou deste belíssimo Natal que nunca mais se repetiu em sua vida: “Foram duas semanas extraordinárias. No espaço de algumas noites, eu deixei meu roteiro com este jovem agente, que conheci graças a um casal de amigos, e consegui vendê-lo para um estúdio. Eu estava dirigindo um Corolla detonado e sofrendo para pagar o aluguel, mas de repente tinha um contrato de seis dígitos com um grande estúdio, que também queria comprar meu próximo roteiro qualquer que fosse!”.


“Alto lá: se o roteiro foi comprado no finalzinho de 1989, por que WATERWORLD chegou aos cinemas apenas em 1995?”, o atento leitor pode começar a se perguntar nesse ponto da narrativa. “O que os caras ficaram fazendo durante estes seis anos?”.

Pois é aqui que a nossa história começa a ganhar contornos dramáticos: o projeto entrou naquilo que os gringos chamam de development hell (inferno do desenvolvimento, em tradução literal): quando um roteiro começa a ser mudado primeiro para agradar um diretor, depois para agradar um astro, depois para agradar os produtores, depois para caber no orçamento, etc etc, até ficar praticamente irreconhecível.


Lawrence Gordon, o sujeito que ganhou o leilão e adquiriu os direitos para fazer WATERWORLD, não era nenhum novato. Nos anos 1970 ele trabalhou para a American International Pictures, produtora de James H. Nicholson e Samuel Z. Arkoff, onde por ironia também trabalhou um jovem Roger Corman (olha ele de novo!). Na década de 1980, Gordon foi presidente de um grande estúdio (a 20th Century Fox) e produziu sucessos de bilheteria como “48 Horas”, “Predador”, “Duro de Matar” e o fantasioso drama “Campo dos Sonhos”, com Kevin Costner.

Ele associou-se à dupla de produtores Andy Licht e Jeff Mueller, que ganhou muito dinheiro com a comédia adolescente “Sem Licença para Dirigir” (1988), e a ideia inicial do trio era fazer WATERWORLD com um orçamento maior que a média de Roger Corman, mas ainda relativamente baixo para os padrões das superproduções de Hollywood: algo na faixa dos 40 milhões de dólares.


O primeiro diretor contratado para a empreitada foi o norueguês Nils Gaup, indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro com “Fugindo da Morte” (1987), e que tinha acabado de fazer uma produção da Disney chamada “Náufragos em Luta” (1990). Os produtores pretendiam rodar a maior parte do filme na Ilha de Malta, no Mediterrâneo, onde havia um gigantesco tanque geralmente usado para filmar blockbusters com cenas aquáticas (como “O Resgate do Titanic” e “Leviathan”).

Mas as dificuldades não demoraram a aparecer: mesmo num ambiente controlado, seria simplesmente impossível filmar aquele roteiro com “apenas” 40 milhões de dólares. O produtor Gordon chegou a cogitar diversas alternativas para baratear os custos, inclusive eliminar o petroleiro onde viviam os vilões, e onde se passava todo o ato final do roteiro. Obviamente, o roteirista Rader se opôs: “É um filme sobre pessoas navegando em barquinhos, você precisa entregar algo gigantesco no final”.


Rader, por sua vez, passou os dois anos posteriores à venda do roteiro (1990 e 1991) reescrevendo seu próprio trabalho a pedido dos produtores. No livro “The Big Deal”, de Thom Taylor, ele explicou o exaustivo processo que seguiu-se à sua primeira e única grande aventura hollywoodiana: “Em janeiro [de 1990] descobri a realidade do ‘development hell’. Só eu escrevi oito versões do roteiro. Diretores chegavam e saíam o tempo inteiro. Foi assim que eu perdi a minha ingenuidade e descobri que um blockbuster não é escrito por uma pessoa só, mas por inúmeras”.


Pouco a pouco, Lawrence Gordon começou a perceber que WATERWORLD era muita areia para seu caminhãozinho e para a pequena produtora que presidia na época. Por isso, resolveu associar-se a um grande estúdio com cacife, a Universal. No processo, os co-produtores Licht e Mueller foram “convidados a se retirar” do projeto, mantendo apenas seus nomes nos créditos.

Em fevereiro de 1992, Gordon e a Universal assinaram um contrato para que o estúdio coproduzisse e co-financiasse WATERWORLD. Não perca as contas: nesta altura do campeonato, já passaram-se seis anos desde que Peter Rader escreveu a primeira versão do roteiro recusada pela New Horizons, e dois anos desde que ele vendeu a segunda versão a Lawrence Gordon. Neste ínterim, o coitado já tinha revisado e reescrito seis novas versões de WATERWORLD, com mais ou menos alterações.


Com a Universal entrando em cena, e mais dinheiro fluindo, gente famosa começou a se interessar pela ambiciosa aventura aquática. Entre eles Kevin Costner, que àquela altura era um dos astros mais bem-sucedidos do mundo graças a sucessos de bilheteria como “Os Intocáveis”, “Campo dos Sonhos” e “Robin Hood – O Príncipe dos Ladrões”. O homem tinha dupla moral porque, no começo daquela década, também havia se tornado um cineasta premiado: o faroeste “Dança com Lobos”, que ele dirigiu em 1990, ganhou sete Oscars, incluindo Melhor Direção.

Embora tivesse feito “Robin Hood” e “Os Intocáveis”, Costner não era reconhecido exatamente como um herói de ação, e queria que WATERWORLD fosse seu primeiro filme do gênero.


A Universal já tinha feito contatos com Robert Zemeckis, da trilogia “De Volta para o Futuro”, para dirigir o filme. Mas Costner tinha outros planos: desde a juventude, ele vivia uma relação de amor e ódio com o cineasta Kevin Reynolds, que o dirigiu em “Fandango” (1985) e “Robin Hood”. Terminadas as filmagens deste último, entretanto, a dupla saiu do set brigada. Especialmente depois que Costner expulsou Reynolds da sala de edição e, cheio de moral por causa de “Dança com Lobos”, remontou o filme inteiro à sua maneira.

Reynolds declarou que jamais trabalharia com o ex-amigo depois da experiência em “Robin Hood”. Mesmo assim, Costner achava que os dois se entendiam bem e que ele seria o nome mais indicado para dirigi-lo numa aventura tão ambiciosa. O produtor Gordon fez a ponte entre os dois, os Kevins assinaram o tratado de paz, e logo começavam a se preparar para tirar WATERWORLD do papel.


Kevin Reynolds assinou o contrato para dirigir WATERWORLD em fevereiro de 1991. Não se perca nas datas: ainda estamos quatro anos distantes de 1995, quando o filme finalmente chegou aos cinemas. Ocorre que com a entrada do diretor e de Costner, tudo ficou maior e mais caro.

Peter Rader, que ainda estava tentando reescrever seu roteiro para acomodar as ideias de todos os envolvidos, foi logo dispensado. Em seu lugar, os dois Kevins colocaram um nome mais experiente: David Twohy. Vindo do cinema B, como Rader, na época Twohy era considerado um dos roteiristas mais cobiçados em Hollywood. Anos antes, ele tinha escrito um dos maiores sucessos da década: “O Fugitivo”, com Harrison Ford. Assim, Twohy embarcou no projeto com a missão de escrever cenas de ação melhores para Kevin Costner.


Só que o timing não era dos melhores: Twohy já tinha contrato assinado para escrever um filme para a Disney (“Velocidade Terminal”), enquanto Costner estava comprometido com “O Guarda-Costas”, que começaria a ser filmado no finalzinho de 1991. Por isso, os produtores resolveram deixar WATERWORLD em banho-maria até que os dois estivessem livres.

E não seria assim tão rápido. Costner ainda fez outros três filmes antes de finalmente dedicar-se a encarnar o Mariner: “Um Mundo Perfeito”, “Wyatt Earp” e “A Árvore dos Sonhos”, todos filmados ao longo de 1993. Para manter Reynolds no barco enquanto as filmagens não começavam, o astro aceitou produzir um projeto dos sonhos do amigão diretor: o épico “Rapa Nui”, filmado na Austrália.


A partir daí, os anos voaram. Em setembro de 1993, enquanto Reynolds finalizava “Rapa Nui” e Costner filmava o ambicioso faroeste “Wyatt Earp” com Lawrence Kasdan, Twohy finalmente começou a mexer no roteiro de WATERWORLD. A pré-produção da megalomaníaca aventura marinha recebeu sinal verde; cenários, barcos e figurinos começaram a ser desenhados e construídos. A essa altura, o filme já era anunciado como uma superprodução de 65 milhões de dólares – uma estimativa bastante otimista.

Ao livro “The Big Deal”, de Thom Taylor, o segundo roteirista Twohy explicou que a história original escrita por Peter Rader parecia mais um filme de piratas do que uma aventura pós-apocalíptica. E Reynolds também queria que a história tivesse “consciência ecológica”. Assim, o novo roteirista resolveu trocar a tradicional guerra nuclear das primeiras versões da história pelo aquecimento global como causa do derretimento das calotas polares. Sabe como é, nos anos 1990 os grandes líderes mundiais ainda se preocupavam com o meio ambiente; ainda não éramos governados por retardados que acham que as mudanças climáticas são uma “invenção marxista”...


Prestes a escrever e dirigir seu primeiro blockbuster (“A Invasão”, com Charlie Sheen), Twohy despediu-se após entregar algumas novas versões do roteiro.

Só que os Kevins ainda não estavam satisfeitos: embora apenas os nomes de Peter Rader e David Twohy sejam creditados como roteiristas, consta que várias outras pessoas mexeram, reescreveram e adicionaram coisas em WATERWORLD antes que as filmagens iniciassem. Ao todo, foram 36 tratamentos do roteiro, de maneira que hoje fica muito difícil saber quem são os responsáveis pelo que vemos na tela – para citar um exemplo, tanto Rader quanto Twohy juram que o balão usado por um dos personagens, e que tem bastante destaque no ato final do filme, não estava em seus respectivos roteiros.


Um desses script doctors não-creditados foi R.J. Stewart, criador do seriado “Xena: A Princesa Guerreira”. E outro deles acabaria se tornando uma grande celebridade mais tarde: ninguém menos que Joss Whedon! Ele já era bem cotado em Hollywood por ter feito alterações cruciais para melhor o roteiro do hit “Velocidade Máxima” – consta que Whedon praticamente reescreveu o original de Graham Yost, que no fim ganhou crédito sozinho.

O futuro diretor de “Vingadores” foi chamado para dar uma mão em caráter de emergência, quando as filmagens de WATERWORLD já estavam rolando! Assim, ele viajou para o Havaí, onde o filme estava sendo gravado, para reescrever num dia as páginas que seriam gravadas nos próximos; sua missão era tornar as cenas de ação ainda maiores, os diálogos mais curtos e os personagens mais simpáticos.


Uma das modificações cruciais que Whedon fez no roteiro original foi o momento em que o Mariner recusa a oferta de sexo por Helen, num desesperado apelo da moça para que ele não as abandone no meio do oceano. No roteiro original, ao invés de recusar o herói se aproveitava da moça de qualquer maneira. Mas Costner queria que o protagonista fosse “bom e puro”, e optou pela recusa dos serviços sexuais da garota – que, afinal, já sofre bastante no filme.

Pelo menos a cena da proposta indecente permaneceu (apenas sem as vias de fato desta vez), nos poucos segundos em que vemos gente pelada num filme de mais de duas horas. E detesto estragar as fantasias de quem cresceu acreditando que aquela bundinha pertencia à própria Jeanne Tripplehorn: na verdade, a atriz usou uma anônima dublê de corpo, nunca creditada e até hoje desconhecida.


Enfim, Whedon foi recebido como celebridade, cumpriu todas as ordens dos Kevins e, pelo servicinho, faturou a mixaria de 100 mil dólares por semana, num trabalho que durou sete semanas ao todo. Anos depois, se referiria ao bico como “Sete semanas no inferno”.

Ele nunca chegou a enumerar quais foram as suas contribuições para o filme, mas sabe-se que achava que o fato de o Mariner ser um mutante era muito mal-aproveitado nos tratamentos existentes até então: “O mais legal desse cara era o fato de ele ter gelras e poder respirar debaixo d’água, mas as últimas 40 páginas do roteiro se passavam todas dentro de um barco ou em terra firme!”, comentou numa entrevista. Assim, eu não duvido que o próprio Whedon tenha escrito momentos que exploram justamente esta habilidade, como quando o herói mantém Helen viva debaixo d'água respirando “para ela” através de um beijo, até os vilões que estão na superfície irem embora.


Antes que qualquer cena fosse filmada, porém, ainda era preciso construir os barcos e cenários característicos de um mundo que já vive coberto pelo oceano há muitas décadas. O grande set de WATERWORLD era o bendito atol, uma estrutura que precisava convencer como o local onde centenas de sobreviventes levavam uma vida normal.

Inicialmente, cogitou-se representar o atol por meio de miniaturas, já que ele só apareceria no começo mesmo. Mas logo a ideia demonstrou-se impraticável, e o estúdio foi obrigado a construir uma estrutura faraônica por onde três centenas de extras pudessem caminhar e interagir.

O processo levou três meses e usou mil toneladas de aço. Eram oito pedaços diferentes, que precisavam ser rebocados até o oceano e unidos para parecer uma coisa só. Logo, cada pedaço independente precisava flutuar e ficar firme, do contrário a coisa toda iria a pique. Só este cenário custou, sozinho, entre 5 e 20 milhões de dólares, dependendo da fonte consultada. As imagens abaixo, chupadas do site The Unheard Nerd, mostram a evolução da estrutura do desenho de produção até sua construção e montagem.


O trimarã do herói também custou um dinheirão, e era completamente funcional. Foram fabricados dois: um para ser usado nas cenas próximas, que mostravam Costner operando o barco, e outro para planos mais abertos, que mostravam apenas a embarcação navegando no horizonte ou filmada de cima. Cada barco custou 500 mil dólares (o valor que Rader recebeu pelo roteiro!), um milhão no total.

E havia o petroleiro dos vilões. Embora tivessem cogitado alugar um petroleiro real, e mesmo comprar um já aposentado, os realizadores perceberam que não seria seguro filmar nele, pois a embarcação teria que ser completamente desmontada e limpa. Assim, decidiram usar miniaturas para mostrar o petroleiro de longe, cenários gigantescos quando a ação se passa no interior do barco, e construir um deck de quase 200 metros para a cena final, em que uma multidão de figurantes aparece sobre a embarcação escutando um discurso de Deacon! A imagem abaixo, também do The Unheard Nerd, mostra o uso da “miniatura” do petroleiro para filmar a cena em que o barco em chamas afunda.


O trabalho não foi menos complicado para a direção de arte e figurinos. Se em “Mad Max” e suas imitações bastava colocar uns figurantes vestidos com roupas de couro ou trapos dirigindo veículos construídos com sucata, e ninguém perguntava de onde vinham estes elementos, em WATERWORLD todo mundo se esforçou para criar figurinos, cenários e objetos perfeitamente críveis.

A produção teve que providenciar (pagando muito bem, obviamente) 2.000 figurinos monocromáticos e mais de 10 mil objetos de cena que parecem envelhecidos por estarem há décadas na água. Praticamente tudo que aparece em cena é fruto de reciclagem ou gambiarra, das armas aos barcos.


Tudo isso custou os olhos da cara, não resta dúvidas. Mas muito mais dinheiro ainda seria empenhado ao longo da problemática produção. O livro “Apocalypse on the Set – Nine Disastrous Film Productions”, de Ben Taylor, ajuda a entender melhor como a coisa rapidamente virou um inferno. Primeiro pelos motivos óbvios: para filmar um mundo completamente submerso, os realizadores foram obrigados a fazer o filme inteiro na água, e numa área onde não fosse possível enxergar terra firme em 360 graus – especialmente para as belíssimas cenas aéreas que mostram personagens e embarcações completamente rodeados por puro oceano.


Se WATERWORLD fosse filmado HOJE, um zé-ruela com um computador mais ou menos conseguiria apagar com facilidade qualquer pedacinho de terra que por ventura vazasse em alguma cena. Aliás, se fosse feito hoje, o filme inteiro poderia ser filmado em frente a uma tela verde, bem longe do oceano. Em 1995, porém, estes efeitos de computador ainda eram muito caros e trabalhosos, por isso usados com economia mesmo em blockbusters (vide os anteriores “O Exterminador do Futuro 2” e “Jurassic Park”, em que os impressionantes efeitos em CGI não aparecem o tempo todo).

Logo, a única maneira de filmar WATERWORLD em 1995 era literalmente dentro da água! O gerente de locações da equipe torrou rios de dinheiro em 18 viagens pelo mundo, durante 24 dias ininterruptos, procurando um local que permitisse filmar oceano até perder de vista. Ele buscou na Austrália, na Nova Zelândia, em Malta e nas Bahamas, até a equipe finalmente se decidir por fazer o filme mais perto de casa, no Havaí, porque era mais fácil voar de e para Los Angeles. O problema é que o local escolhido, Kawaihae Harbor, era particularmente popular entre os locais pelas águas turbulentas e ciclones.


WATERWORLD começou a ser filmado oficialmente em 27 de junho de 1994. A esta altura, sem que um único minuto de filme tivesse sido gravado, a produção já tinha gastado 30 milhões de dólares só com os cachês do astro e do diretor e com os vários tratamentos do roteiro (36 ao todo, não esqueçamos). Ou seja: já tinha sido atingido o chamado point of no return, em que sairia muito caro (e seria muito embaraçoso) abandonar o projeto, e a ordem era seguir em frente de qualquer jeito.


Já nas primeiras diárias, todo mundo percebeu que o trabalho não seria fácil. Consta que os realizadores de WATERWORLD chegaram a conversar com ninguém menos que Steven Spielberg durante a pré-produção, para pedir dicas sobre filmagem em mar aberto. Afinal, Spielberg teve uma péssima experiência filmando “Tubarão” na costa de Martha’s Vineyard, em Massachusetts, entre maio e dezembro de 1974: os 55 dias do cronograma viraram 155, e ele estourou em 100% seu orçamento!

Do alto da sua sabedoria, Spielberg orientou os novatos que pensavam em repetir a mesma cagada vinte anos depois: “Pelo amor de Deus, não importa o que vocês façam, não filmem a coisa toda na água! Filmem em estúdio!”. Infelizmente, a equipe de WATERWORLD ignorou a voz da experiência...


Filmar em alto-mar logo se revelou um pesadelo. Imagine que a câmera e parte da equipe técnica precisavam estar num barco para poder enquadrar, digamos, outros dois barcos para uma cena qualquer. Antes que o diretor pudesse gritar “Ação!”, o movimento natural do oceano, ou o vento, já teria levado pelo menos alguma das embarcações para fora do enquadramento, arruinado a luz preparada para a filmagem em determinado ponto, e por aí vai.

Para piorar, as cenas tinham que ser filmadas longe da costa, para que nenhum resquício de terra firme aparecesse no horizonte. E a logística para fazer isso era absolutamente surreal. Nas cenas do atol, por exemplo, um exército de figurantes tinha que ser levado de barco da terra firme até o cenário; eles faziam fila indiana para passar protetor solar, vestir os figurinos e ajeitar o cabelo. Aí a cena era preparada, Reynolds filmava alguns minutos, e logo batia a hora do almoço e todo mundo tinha que ser transportado de volta à terra firme para almoçar!


A isso somava-se todo tipo de dificuldades e de riscos relacionados a filmar em alto-mar e ainda fazer cenas de ação sem CGI. Um cenário inteiro (a colônia de vendedores de escravos que o Mariner encontra na metade do filme) afundou após um tornado e teve que ser resgatado, numa operação delicada que custou, por si só, quase meio milhão de dólares.

O elenco passava a maior parte do tempo ensopado, e de água salgada, o que não é exatamente das sensações mais confortáveis. Isso não contribuiu para melhorar o clima no set. Em seu primeiro dia de gravações, Jeanne Tripplehorn e Tina Majorino quase morreram afogadas quando o barco onde estavam virou. Foi uma experiência tão traumática que Tina (hoje um mulherão!) praticamente abandonou o cinema depois de WATERWORLD, preferindo dedicar-se à TV, enquanto Jeanne publicamente questionou se valia a pena se estressar tanto fazendo blockbusters. Seus trabalhos seguintes são todos produções menores e comédias românticas.


Para resumir o que foi o processo de fazer WATERWORLD, um integrante da equipe citado em entrevista da época, e que espertamente se manteve anônimo, comentou que era como tentar filmar uma avalanche estando bem no meio da avalanche!

O cronograma original de filmagens, que previa 96 dias de trabalho, acabou estourando, e muito. As filmagens terminaram em 15 de fevereiro de 1995, totalizando épicos e inesperados 166 dias – quase meio ano de gravações! Para comparação, “Coração Valente”, de Mel Gibson, lançado no mesmo ano e igualmente complicado por suas grandiosas cenas de batalhas com multidões de figurantes, foi filmado em “apenas” 100 dias.

E obviamente elenco, equipe técnica e serviços básicos ligados à produção (transporte, alimentação, hospedagem, etc) continuavam recebendo seu dinheirinho diariamente, inflando o orçamento dos 65 milhões inicialmente cogitados para mais de 175 milhões ao final. Ajustado pela inflação, WATERWORLD custou o equivalente a um filme dos Vingadores hoje.


Na Velha Hollywood, o custo milionário de um filme costumava ser motivo de orgulho, algo anunciado com pompa no pôster e no trailer. A partir de grandes e milionários fracassos de bilheteria, como “Cleópatra” (1963) e “O Portal do Paraíso” (1980) – destacando que a QUALIDADE destes filmes não está em discussão, mas sim o resultado ínfimo nas bilheterias –, os produtores começaram a pedir desculpas sempre que gastavam demais num filme.

Foi o caso com WATERWORLD. Os atrasos e gastos abusivos começaram a atrair a atenção da mídia. A imprensa dissecava os bastidores da problemática produção quase que diariamente (no caso dos jornais) e em reportagens de capa (no caso de revistas mensais). No melhor esquema “Falem mal, mas falem de mim”, isso serviu para deixar o filme sempre nos holofotes – e é por isso que WATERWORLD, goste-se ou odeie-se, foi um dos tópicos de discussão mais populares em 1995, pelo menos uma década antes do surgimento das redes sociais.


Pouco antes da estreia oficial do filme, a Vanity Fair de agosto de 1995 foi particularmente inquisitória. Sua chamada de capa dizia “200 milhões de dólares debaixo d’água”, e a reportagem assinada por Charles Fleming trazia toda sorte de números absurdos sobre a produção, nem todos verdadeiros: o cachê milionário de 14 milhões recebido por Costner, seu hotel de luxo que custava 1.800 dólares por noite, o iate que teria sido comprado exclusivamente para transportar o astro do hotel para a área das filmagens todo dia, etc.

Aos 45 do segundo tempo, Costner ainda resolveu dar um pé na bunda do compositor Mark Isham (“Caçadores de Emoção”), por acreditar que a trilha sonora que ele estava compondo não se encaixava com o tom futurista do filme. A música de Isham foi completamente descartada e, meses antes da estreia nos cinemas, James Newton Howard foi convocado às pressas para fazer uma nova (Costner tinha gostado do trabalho dele em “Wyatt Earp”).


Algumas reportagens traziam trocadilhos impagáveis: WATERWORLD começou a ser chamado de “Fishtar” e “Kevin’s Gate”, em referência a outras duas produções problemáticas que gastaram milhões de dólares e foram um fiasco de bilheteria, “Ishtar” e “Heaven’s Gate” (o já citado “O Portal do Paraíso”). Uma revista disse que Costner, de “Prince of Thieves” (Príncipe dos Ladrões, em referência ao subtítulo do filme do Robin Hood), tinha virado “Prince of Tides” (“O Príncipe das Marés”, um dramalhão de 1991 dirigido e estrelado por Barbra Streisand).

No Brasil, pelo menos dois jornais usaram como manchete o título nacional de um filmão do Peter Greenaway: “Afogando em números”. O Jornal do Brasil (ao lado) inclusive calculou que, com o dinheiro gasto no épico aquático dos Kevins, daria para fazer 100 “Menino Maluquinho”, produção nacional que estava estreando nos cinemas brasileiros no mesmo ano.

Com os repórteres e tablóides correndo atrás da próxima história polêmica, muitas mentiras se disseminaram como verdade. Uma das histórias mais bizarras dizia que Kevin Costner tinha exigido que se retocasse sua cabeleira (já com algumas entradas bem evidentes) por computação gráfica em todas as cenas do filme. Ou seja, ainda não havia tecnologia suficiente para apagar terra firme das cenas filmadas em alto-mar, mas, pelo menos na imaginação dos repórteres, já seria possível implantar fios de cabelos digitais no ator principal!

Em suma, o estrago já estava feito. E o fato de o astro ter se divorciado da esposa com quem estava há 15 anos DURANTE uma produção tão infernal não ajudou.

Para completar de vez a tragédia, os dois Kevins fecharam o pau de vez na reta final das filmagens, e já não concordavam sobre o tom que o filme deveria ter. Reynolds insistiu em fazer uma ficção científica com tom ecológico, em que o clima era bastante pesado; o Mariner, inclusive, era ainda menos simpático do que na versão que foi lançada. Costner, por sua vez, queria que o filme fosse principalmente uma aventura para todas as idades, e que ninguém saísse deprimido do cinema.

Dennis Hopper, que além de ator já havia dirigido filmes (e também teve sua cota de problemas com estúdios), ficou do lado de Reynolds e incentivou-o a entregar a montagem que ele queria; o que quer que o estúdio decidisse fazer depois, seria responsabilidade deles. Assim, o cineasta entregou um corte de WATERWORLD com três horas de duração.


Segundo o livro “Fiasco: A History of Hollywood's Iconic Flops”, de James Robert Parish, a versão do diretor assinou sua sentença de morte. Em maio de 1995, a Universal fez test screenings (exibições de teste) com esta versão longa para vários grupos de espectadores. Eles reclamaram de muita coisa, mas especialmente do ritmo do filme. Costner tinha acabado de enfrentar um dos primeiros fracassos de bilheteria da sua carreira, “Wyatt Earp”, faroeste com intermináveis 190 minutos de duração que literalmente espantou o público dos cinemas, e não queria correr o risco de o desastre se repetir.

Em caráter emergencial, Reynolds foi dispensado e Costner assumiu a remontagem e refilmagem de algumas cenas de WATERWORLD. Dependendo da versão que você lê ou escuta, ou Reynolds pediu pra sair, ou o próprio astro exigiu a cabeça do (ex-)amigo e assumiu a produção. Em julho de 1995, poucas semanas antes da estreia oficial (marcada para o dia 28 daquele mês), Costner ainda estava mexendo no filme. O estúdio insistia para que ele filmasse um final feliz em que o Mariner ficava com a mocinha, algo que o astro se negou a fazer.


Concluídas as intervenções do ator e do estúdio, o corte original de três horas foi reduzido para  2h15min. Não adiantou muito, pois os espectadores que foram aos cinemas continuaram reclamando – desta vez que parecia haver coisa faltando no filme, que tinha ficado “confuso”.

Numa decisão simplesmente estapafúrdia, a versão para o cinema eliminou até mesmo um curto trechinho do final que explica o que, afinal de contas, é Dryland – uma belíssima surpresa nos moldes da Estátua da Liberdade aparecendo na conclusão do “Planeta dos Macacos” original. Para Reynolds, este era um dos elementos mais importantes do filme, o que ajuda a provar que os envolvidos em WATERWORLD tinham ideias muito diferentes sobre como deveria ser o produto final...


Sejamos justos, porém: o filme não é nem a bomba anunciada pela imprensa da época, nem um fracasso estrondoso de bilheteria, como alguns alegam até hoje. Segundo o livro “The Big Deal”, de Thom Taylor, o orçamento final foi o seguinte: 172 milhões de dólares para filmar, 60 milhões em marketing mundial, mais 6 milhões gastos apenas durante os cinco anos que o projeto ficou em desenvolvimento, desde que o roteiro foi comprado (em dezembro de 1989) até o início das filmagens (em 1994). Arredondando para cima, dá um total de 240 milhões de dólares. Para um filme ser considerado “lucrativo”, ele precisa recuperar pelo menos o dobro do que custou – na época uma missão impossível, embora hoje os grandes filmes de super-heróis passem do um bilhão de bilheteria.

Nos cinemas dos Estados Unidos, WATERWORLD recuperou apenas 88 milhões de dólares, o que ajudou a alimentar a fama de que tinha sido um fiasco. Pelo mundo, porém, o filme faturou outros 167 milhões. As vendas para exibições de TV, a distribuição em VHS e o licenciamento para brinquedos, gibis e videogames ajudou a tapar o rombo: embora o tão sonhado lucro não tenha aparecido, a arrecadação total chegou aos 300 milhões de dólares, e metade disso voltou para o estúdio, que tudo considerado não pôde se queixar.


Para comparação, o grande fracasso de bilheteria do mesmo ano de 1995 (que como tal chegou a aparecer no Livro dos Recordes) foi “A Ilha da Garganta Cortada”, de Renny Harlin, que custou 100 milhões de dólares e faturou 10% disso nos cinemas dos EUA. Numa incrível coincidência, também era um filme com muitas cenas de ação em alto-mar e envolvendo barcos, além de um mapa tatuado na pele de alguém! O resultado pífio ajudou a afundar as contas da sua produtora, a Carolco, que pediu falência um mês depois do fracasso.

Mais recentemente, tivemos fracassos de bilheteria bem mais expressivos que as aventuras submarinas de Kevin Reynolds e Kevin Costner: “John Carter – Entre Dois Mundos” (2012) custou 260 milhões de dólares para a Disney, e foi concebido como a primeira aventura de uma trilogia; depois de recuperar apenas 73 milhões nos cinemas norte-americanos, a tal trilogia foi cancelada imediatamente e o presidente do estúdio, Rich Ross, foi forçado a se demitir por ter dado sinal verde para o projeto.


Ainda assim, a experiência com WATERWORLD não foi muito positiva para a maioria dos envolvidos. Os dois Kevins ficaram anos brigados e fizeram declarações duras à imprensa na época do lançamento do filme. Uma frase de Reynolds ficou famosa: “Costner deveria atuar apenas em filmes que ele mesmo dirige, assim poderia trabalhar com seu astro e seu diretor preferidos”. O ator, por sua vez, disse: “Reynolds e eu já não nos entendemos. Por muito tempo imaginei que éramos eficientes enquanto equipe, mas, conforme vi agora, não somos”.

Eles seguiram caminhos separados desde então: dois anos depois, em 1997, Reynolds trocou os blockbusters por uma produção menor, o drama “187: O Código” (1997), com Samuel L. Jackson. Costner não aprendeu nada com WATERWORLD e, no mesmo ano, voltou ao universo “épico pós-apocalíptico” com “O Mensageiro”, que ele dirigiu e estrelou – um fracasso retumbante com insuportáveis três horas de duração.

Os dois Kevins ameaçaram retomar a parceria em 2010, quando Reynolds iria dirigir e Costner estrelar a comédia de espionagem “Learning Italian”, com um orçamento muito mais modesto (35 milhões de dólares). Mas o projeto nunca saiu do papel. Assim, eles só voltariam a trabalhar juntos 17 anos depois, em 2012, quando Reynolds dirigiu Costner na minissérie “Hatfields & McCoys”, sobre a rivalidade entre duas famílias durante a Guerra Civil dos Estados Unidos. Aparentemente, a nova parceria serviu para que eles fizessem as pazes. E a série chegou a ganhar prêmios.


Menos sorte teve o roteirista Peter Rader, que acabou sendo um one-hit wonder e nunca mais vendeu um trabalho milionário como WATERWORLD. Dois dos autores que colaboraram na bagunça, David Twohy e Joss Whedon, conseguiram manter carreiras respeitáveis em Hollywood depois desta traumática experiência – e Twohy inclusive criou seu próprio anti-herói nos moldes do Mariner, o Riddick interpretado por Vin Diesel, que teve até trilogia.

Já Rader nunca se recuperou totalmente, e antes de sumir do mapa dirigiu um esquecido telefilme para a Disney (“Fuga para a Montanha Enfeitiçada”, em 1995). Mais recentemente, seu nome aparece como argumentista da aventura de época “A Última Legião” (filmada por Doug Lefler em 2007). Como produtor, ele vem assinando documentários sobre budismo e yoga. Um destino curioso para quem assinou o roteiro que deu origem ao filme mais caro da sua época.



THE ULYSSES CUT
Para um filme que até hoje é (erroneamente) considerado um grande fracasso, até que WATERWORLD teve uma generosa cota de produtos derivados: livros, gibis, brinquedos, jogos de videogame e até um bem-sucedido show de dublês que acontece ao vivo até hoje – ou pelo menos acontecia, antes do apocalipse promovido pelo coronavírus...

A novelização oficial por Max Allan Collins (ao lado) foi publicada ainda em 1995, dando mais detalhes sobre o passado do Mariner e sobre a rotina dos Smokers. Descobrimos, por exemplo, que nosso herói era frequentemente espancado pelo pai por ter nascido “diferente”, até que resolveu matar o velho e  fugir com seu barco. Descobrimos também que o grande vilão Deacon adora Elvis Presley como se fosse uma figura messiânica.

Mas a maior alteração do livro em relação ao filme é que Collins sugere que o Mariner ainda é virgem e tem sua primeira vez com Helen – mais do que isso, por baixo daquela figura envelhecida pelo sol e por múltiplas batalhas estaria um rapaz ainda muito jovem, o oposto de Kevin Costner nas telas. O livro está há anos fora de catálogo e nunca foi lançado no Brasil; sou o orgulhoso proprietário de uma edição em inglês.

Também em 1995, a Kenner lançou uma linha de brinquedos inspirada no filme, com oito bonequinhos (sendo quatro deles variações do próprio Mariner, incluindo um que vinha com uma arraia de estimação!!!) e um veículo, o trimarã. A imagem abaixo, emprestada do blog The Toy Box, mostra alguns desses bonequinhos, que não chegaram a fazer grande sucesso na época, mas hoje são disputados a tapas por colecionadores.

Dois anos depois do lançamento do filme, em 1997, a Acclaim Comics publicou uma sequência de WATERWORLD em quadrinhos. “Waterworld: Children of Leviathan” (abaixo) era uma minissérie em quatro edições escrita por Chris Golden e Tom Sniegoski e desenhada por Kevin Kobasic.

A trama do gibi se passa logo após o final do filme, com o Mariner deixando Dryland para perseguir suas origens e descobrindo que pode ser não uma mutação, e sim resultado de experiências genéticas. Surge também um novo vilão ainda pior, Leviathan, que seria o todo-poderoso por trás dos Smokers do finado Deacon. A maior curiosidade é que Costner não tinha permitido o uso de sua imagem fora do filme, por isso o Mariner dos quadrinhos tem feições totalmente diferentes. No editorial do último número, a editora revelava que tinha ideias de novas aventuras para uma série regular, caso os leitores pedissem por mais. Ninguém pediu.


Também em 1997, a Interplay lançou um jogo de PC baseado no filme, “Waterworld: The Quest for Dryland”. Pouco antes a Ocean  produzido adaptações para consoles como Super Nintendo e Game Boy, mas eram joguinhos simplórios. O que diferencia a versão para computador é o fato de que foram filmados vídeos com atores de WATERWORLD repetindo seus papeis. Não os famosões como Costner e Hopper, obviamente: R.D. Call, Jack Kehler e Zakes Mokae reaparecem como moradores do Atol, interagindo com o espectador em belas vinhetas que hoje podem ser vistas no YouTube e complementam a experiência do filme. Você pode ver estas cenas todas no vídeo abaixo.

Cenas do jogo “Waterworld: The Quest for Dryland” 


E não podemos esquecer de “Waterworld: A Live Sea War Spectacular”, um espetáculo de dublês ao vivo que estreou no mesmo ano do filme no parque temático do Universal Studios, em Hollywood, e tornou-se uma atração concorridíssima, que se bobear fez mais sucesso que o próprio filme. O show dura 20 minutos e mostra o Mariner e Helen lutando contra o vilão Deacon (que aparentemente sobreviveu ao final de WATERWORLD) e os últimos Smokers, enquanto tentam escoltar os remanescentes do atol até Dryland. Todos são interpretados por dublês profissionais que recriam grandes cenas de ação ao vivo, entre explosões e muita água (veja uma imagem abaixo). A atração é tão bem-sucedida que segue sendo apresentada até hoje (ou pelo menos até o surgimento do coronavírus, bem entendido). Desde 2001 e 2010, respectivamente, o espetáculo também acontece nos parques da Universal no Japão e em Singapura. Para mais informações sobre o show, clique aqui).


Mas talvez o maior legado de WATERWORLD seja o ressurgimento daquela versão mais longa que Kevin Reynolds entregou originalmente à Universal, e que foi preterida em favor de uma remontagem mais curta e “inofensiva” supervisionada pelo próprio Costner.

Esta versão longa, que passou a ser conhecida como “The Ulysses Cut” em função de um diálogo que acontece no final estendido, foi apresentada oficialmente ao mundo quase três anos após a estreia de WATERWORLD nos cinemas. A emissora norte-americana ABC adquiriu os direitos de exibição do filme em cadeia nacional, e resolveu colocar de volta aqueles 45 minutos de cenas excluídas, exibindo WATERWORLD durante duas noites consecutivas em março de 1998, dividido em dois segmentos de noventa-e-poucos minutos mais intervalos comerciais, como se fosse uma minissérie.


A atração deixou os (naquela época raros) fãs do filme animadíssimos, pois a Era do DVD estava pena começando e ninguém falava em blu-ray, logo a única maneira de ver “material extra” de qualquer produção era nessas raríssimas oportunidades que a televisão proporcionava.

Cópias gravadas da ABC em formato de TV mesmo, 4:3 com as laterais da imagem cortadas, começaram a ser vendidas no mercado negro (abaixo, a capinha de uma dessas edições piratex), e deram origem ao chamado “The Ulysses Cut”, que seria o WATERWORLD completo de Kevin Reynolds. Atualmente, esta versão longa pode ser encontrada facilmente para download, embora nunca tenha sido lançada oficialmente pela Universal, que pelo jeito já gastou dinheiro demais nesse filme para querer se incomodar com uma “director’s cut”. Tampouco se sabe se Kevin Reynolds teve qualquer participação na remontagem da ABC.


Mas afinal, o “Ulysses Cut” é superior ao corte que foi lançado comercialmente? Sim, bastante. O filme fica mais rico, com mais detalhes sobre a rotina do Mariner, dos costumes do atol e especialmente do dia-a-dia dos Smokers. Quem já não gostou do WATERWORLD de 135 minutos, entretanto, dificilmente irá suportar uma versão do filme com três horas.

O clima também é muito mais sombrio e pessimista, com diversas cenas e diálogos deixando bem claro que, no ritmo que as coisas vão, a humanidade não conseguirá sobreviver muito mais tempo caso não encontre terra firme. E isso não apenas por causa dos ataques dos Smokers, mas também pela drástica redução dos recursos naturais e pelas dificuldades de viver sobre a água.


Um dos aspectos mais interessantes desta versão estendida é que finalmente podemos ver o final original que Kevin Reynolds queria, e que ele considerava uma completa burrice terem cortado. Depois de encontrarem Dryland, os humanos começam a planejar sua nova vida enquanto o Mariner resolve voltar para sua vida errante pelo oceano. Ao subirem no ponto mais alto da ilha para acenar para o herói, Helen e Enola topam com uma placa que identifica aquele local: é o pico do Monte Everest!

Faz total sentido, já que geograficamente o topo do Everest é o ponto mais alto do mundo, com 8.848 metros de altura em relação ao nível do mar. Então se algo poderia suportar um dilúvio, certamente seria o Monte Everest. Curiosamente, esta revelação já fazia parte de WATERWORLD desde a primeira versão do roteiro de Peter Rader, e é um completo mistério o fato de ter sido subtraída da versão de cinema (não é como se fosse uma cena longa, a descoberta dura alguns segundos, e tinha muita coisa que podia ser cortada para manter esta parte).


Ainda no final completo, Helen resolve dar um nome ao Mariner pouco antes de ele se mandar – lembre que “Mariner” não é o nome de batismo do nosso herói. E ela resolve chamá-lo de “Ulisses”, em homenagem ao protagonista de uma história que ela escutou muito tempo atrás e que também passou anos navegando pelos oceanos. Obviamente Helen está falando do protagonista dos poemas épicos “Odisseia” e “Ilíada”, escritos por Homero na Grécia Antiga, em mais uma referência a mitologia grega em WATERWORLD.

Nada contra, embora isso crie um rombo gigantesco na lógica interna da narrativa: quer dizer que aqueles sujeitos que vivem numa sociedade em alto-mar, não sabem da existência de uma sociedade terrestre anterior e nem lembram do cristianismo já ouviram falar da obra de Homero?


O “Ulysses Cut” também reforça o contraste entre a consciência ambiental da turma do atol e o “Foda-se, vamos esgotar os recursos que restam” dos Smokers. Quando o Mariner chega ao atol, encontra dezenas de pessoas em barquinhos do lado de fora tentando desesperadamente entrar. Preocupados com a superpopulação, os moradores da aldeia já não recebem mais ninguém que não seja um mercador de passagem.

Sobre um barquinho, um desesperado velho tenta trocar os longos cabelos brancos por um copo de água potável. Descobrimos que, num mundo sem matérias-primas sobre a superfície, as cordas são trançadas a partir de cabelos humanos! Durante um conselho com os sábios do atol, Helen diz que os atóis estão desaparecendo e que aquele lugar e aquele modo de vida não irão sobreviver. Um dos líderes do conselho concorda dizendo que, quando ele era criança, havia diversas outras colônias de sobreviventes próximas, e agora já faz anos que não encontram nenhuma outra.


Os Smokers, por sua vez, estão pouco ligando para o dia de amanhã. Num longo diálogo cortado, Deacon explica a Enola que preicsa encontrar Dryland porque o petroleiro onde vivem já está demasiadamente povoado, e os recursos a bordo já não são suficientes para todos. Quando a menina sugere que eles  deviam tentar controlar a natalidade e racionar água e comida, como faziam no atol, Deacon responde que seus homens jamais iriam aceitar.

Depois que os Smokers atacam o atol, um assistente de Deacon (interpretado por Robert Joy) faz a contabilidade do que conseguiram saquear e conclui que não vale a pena gastar combustível e munição para tão poucos recursos. “Lembro quando isso era divertido... Havia atóis por todo o horizonte. O que será que aconteceu?”, lamenta o vilão, e o assistente responde: “Bem, nós afundamos a maioria”.

Antes de saírem do atol destruído, os Smokers ainda demonstram seu total desprezo pela natureza ao desperdiçaram água potável de maneira irracional. Também usam motosserras para derrubar as árvores tão carinhosamente mantidas pelos sobreviventes, por pura maldade.


As cenas estendidas do “Ulysses Cut” mostram que a água potável existe em duas variedades. Quando o Mariner vai até o bar de Helen tomar um gole de hydro, ele imediatamente anuncia: “Pura”. Parece que existe algum outro tipo de água não totalmente purificada que custa mais barato. Tendo muito “dinheiro” por conta da venda do saco de terra, o protagonista pode se dar ao luxo de beber hydro purinha, ele que estava acostumado com o gosto do próprio xixi reciclado.

Ainda nesta cena do mercadinho, o espectador descobre quais são as coisas mais raras e valorizadas no Mundo das Águas. Quando o Mariner pergunta a Helen se ela tem sementes ou madeira para vender, a moça responde como se ele fosse maluco por ainda esperar encontrar qualquer uma dessas coisas. “Alguma revista?”, pergunta então o protagonista, e Helen se surpreende ainda mais: “Se eu tivesse uma revista, eu me aposentaria!”.


Itens do mundo de antigamente, que o Mariner resgata das ruínas submersas de nossas cidades, são completamente desconhecidos para os demais sobreviventes, e isso rende uma cena muito divertida: depois que o Mariner é preso pelos líderes do atol, procede-se um rápido “julgamento”, onde alguns dos objetos que ele leva em seu trimarã são analisados sob uma ótica um tanto ingênua e bastante paranóica. Um daqueles aparelhos domésticos de musculação é considerado um instrumento de tortura, e um velho clarinete é interpretado como um dispositivo para ouvir à distância, o que comprovaria que o Mariner seria um espião dos Smokers!

Sendo o único ser vivo naquele universo que consegue mergulhar até as profundezas e prescrutar as ruínas da nossa civilização, o protagonista parece ter um conhecimento muito maior da cultura antiga que os demais. Existe uma cena muito bonita em que ele navega solitário à noite enquanto escuta um CD de Miles Davis, tocado num velho discman alimentado por energia eólica!


Livros e revistas também têm um papel muito maior no “Ulysses Cut”. Gregor, o “cientista” do atol, consulta os poucos livros que têm em seu laboratório em busca de respostas para decifrar o mapa nas costas de Enola. Mas é uma tarefa infrutífera, já que as publicações em questão não são enciclopédias ou livros didáticos, e sim uma lista telefônica e um manual de proprietário de veículo!

O Mariner é um grande colecionador de livros e revistas, e valoriza até algumas poucas páginas soltas. A novelização de Max Allan Collins explica que o herói sabe ler, algo que teria aprendido com a mãe quando criança. Numa das cenas cortadas, ele aparece consultando um velho exemplar de National Geographic entre os seus “tesouros”, onde lê, letrinha após letrinha, a palavra “pity” (piedade), uma expressão que foi usada pouco antes por Helen e cujo significado, obviamente, ele não conhecia.


Finalmente, cenas inteiras ou fragmentos de diálogos do “Ulysses Cut” consertam alguns dos grandes furos na versão oficial do filme. Uma crítica de 1995 dizia que era estúpido que os personagens estivessem mais preocupados em purificar a própria urina do que em filtrar a água do mar para torná-la potável. Pois bem: numa cena cortada, Helen pergunta ao Mariner justamente porque ele não tenta reciclar água salgada, e o herói responde que o sal entope e destrói os filtros da máquina.

Outra crítica achava ridículo o fato de os personagens supostamente não cogitarem colher a água da chuva; pois em outro diálogo excluído, o Mariner diz às moças que elas podem beber quanta água quiserem porque naquela noite irá chover e ele poderá repor o estoque. Tomaram, papudos?


A versão estendida ainda explica como diabos o Mariner encontra o petroleiro dos Smokers para resgatar Enola no ato final. Na versão de cinema, ele simplesmente sobe num jet-ski saído sabe-se lá de onde e no momento seguinte já aparece se aproximando do QG inimigo. No corte do diretor, primeiro descobrimos de onde veio o jet-ski (dois Smokers solitários tentaram atacar os sobreviventes do atol e foram mortos pelo herói). Depois, como ele encontra o caminho até o petroleiro: os jet-skis estão vazando combustível, por isso o Mariner simplesmente incendeia a mancha de óleo e cria um longo rastro de chamas que leva até o quartel-general dos vilões. Me parece uma saída absurda de qualquer jeito – e o próprio efeito digital do fogo na água é bem ruim –, mas pelo menos TENTARAM explicar como o herói localizou os vilões...


Por último mas não menos importante, uma porção de cenas e diálogos cortados tentam justificar as atitudes antissociais do Mariner, deixando algumas pistas de um passado violento. Quando Helen o questiona sobre seu ódio pela humanidade, o herói diz que só precisa do seu trimarã: “O barco é meu amigo. Ele não corta minha garganta enquanto estou dormindo”. Depois, a mocinha protesta: “Não há nada humano em você. Deviam tê-lo matado quando nasceu”, ao que o Mariner responde lacônico: “Eles trentaram”.

E quem já achava difícil simpatizar com o anti-herói na versão de cinema simplesmente não vai suportar algumas das cenas adicionais do “Ulysses Cut”. Quando Enola agradece por ele não tê-las atirado ao mar, como ameaçou fazer logo depois da fuga do atol, ela complementa com um beijo no rosto do Mariner. Furioso pela demonstração de afeto, ele empurra a menina para longe.


Depois, numa cena que lembra muito um momento entre Mel Gibson, Bruce Spence e uma lata de ração para cachorro em “Mad Max 2”, o Mariner corta um tomatinho recém-colhido em várias metades sobre o deque do navio. Helen e Enola observam famintas, já que o “herói” considera ambas um peso morto e não as está alimentando. Lentamente, sob os olhos das mulheres, o Mariner vai comendo (ou melhor, DEGUSTANDO) cada suculenta fatia de tomate, sem dividi-las com ninguém, até que resta apenas o caldinho com algumas sementes sobre o deque, no local onde o fruto foi cortado. As moças estão prontas para se atirar sobre os restos, mas o Mariner não dá colher de chá e lambe ele próprio o que restou do tomatinho, deixando as duas a passar fome.

Então quem já achava o protagonista um cuzão na versão oficial do filme provavelmente vai odiá-lo na versão estendida, e consigo entender porque Costner preferiu cortar estas cenas depois dos test screenings. Eu, por outro lado, continuo achando que o Mariner é o “herói” perfeito para aquele mundo e aquele momento.


O “Ulysses Cut” ainda tem uma porção de fragmentos de maior ou menor interesse que tornam a experiência toda bem mais rica, mas que, como eu já escrevi, parecerão duplamente mais insuportáveis para quem já não simpatiza com a versão de cinema. Quem tiver interesse em saber mais sobre o que foi cortado, pode encontrar uma descrição detalhada das cenas adicionais neste link.



EPÍLOGO
WATERWORLD é aquele tipo de filme difícil de ver ou rever de cabeça aberta, sem ser influenciado por tudo que rolou durante a sua produção. Quem conferiu lá atrás, em 1995, provavelmente foi ao cinema ou à videolocadora com juízo formado pelo bombardeio diário da mídia que citei lá no início, e não entendeu o conceito de “filme B mais caro já produzido”.

E quem for se aventurar por esta aventura milionária hoje o fará já sabendo que ela destruiu a carreira e a reputação tanto do diretor quanto do ator principal, mas ao mesmo tempo não irá entender a comoção com a gastança de dinheiro – porque obviamente os blockbusters de hoje custam muito mais, e também são fracassos ainda maiores quando naufragam nas bilheterias (vide “John Carter”).


Naquela velha entrevista à revista Starlog em 1995, Costner tentou lançar mão de certa humildade que, sabemos, nunca foi o seu forte: WATERWORLD provavelmente não é a melhor história já contada, mas acho que é um belo filme de ação. E acho que fizemos alguns avanços em matéria de cinema de ação. Sei que o filme não é perfeito, mas estou muito feliz com o resultado”. Concordo plentamente. Apesar disso, até hoje o ator evita falar muito sobre a obra.

Após diversos anos sendo considerado uma bomba atômica, o filme começou a ser reavaliado com outros olhos. O ressurgimento da versão estendida ajudou a criar uma fama de filme de culto, resgatando o “problemático” WATERWORLD do limbo. Afinal, se até porcarias como “Showgirls” ganharam uma segunda chance recentemente, por que não um filme que realmente é divertido?

Depois de anos circulando em DVDs e blu-rays pelados da própria Universal, no começo de 2019 o épico aquático de Reynolds e Costner finalmente recebeu uma edição à altura: a Arrow Video lançou, na gringa, um blu-ray TRIPLO (abaixo) com as versões de cinema e estendida (tanto a exibida na TV quanto uma nova, em widescreen e sem censura), além de extras exclusivos, num tratamento reservado às grandes obras.



No fim, tudo pode ter sido uma questão de timing ruim. Alguns dos elementos mais polêmicos de WATERWORLD atualmente não incomodariam tanto. O orçamento inchado, que parecia uma afronta em 1995, hoje é mixaria perto do que custam as aventuras inspiradas nos gibis da Marvel e da DC.

E como é bizarro lembrar que o fato de o protagonista ser uma mutação era visto como piada pelo público dos anos 1990 – por alguns até com certo preconceito, já que o herói mutante, uma “aberração”, chega a ter uma relação amorosa com uma humana “normal”. Quem diria que apenas cinco anos depois Bryan Singer faria o primeiro filme dos “X-Men” e transformaria mutantes em heróis cinematográficos extremamente populares...


Mais do que uma aventura bagunçada e divertidíssima (nem sempre pelos motivos certos), WATERWORLD hoje merece um lugarzinho de destaque na história como um dos últimos grandes blockbusters de Hollywood à moda antiga. Ou seja, antes que a era digital transformasse para sempre a indústria e a maneira de fazer cinema.

Você já pensou se em filmes como “O Senhor dos Anéis” aqueles exércitos de criaturas não fossem bonequinhos de CGI, mas sim figurantes trajados com centenas de milhares de figurinos e armas “de verdade”? Ou se o Titanic de James Cameron realmente fosse um navio em tamanho natural afundando, e não uma estrutura construída através de computação gráfica? Ou se mega-espetáculos digitais como “Matrix” e “Avatar” tivessem que ser reproduzidos com maquiagem e efeitos práticos?


Pois bem, WATERWORLD marca a transição para estes mega-espetáculos digitais, quando ainda era necessário construir tudo, dos cenários aos navios; ainda era preciso estar dentro da água, ao invés de colocar os atores em frente a uma tela verde num estúdio com ar condicionado: ainda se jogavam dublês de verdade de um lado para o outro ao invés de bonequinhos de CGI, e ainda era preciso reunir multidões de figurantes, vesti-los e equipá-los, explodir coisas de verdade, disparar tiros, ao invés de adicionar efeitos nas armas na pós-produção.

Já no ano seguinte (1996), a computação gráfica invadiria o processo de filmar as superproduções hollywoodianas de forma irreversível: os grandes sucessos “Independence Day” e “Twister” já são baseados quase que totalmente em efeitos digitais, e daí pra frente o cinema foi ficando cada vez mais artificial e “criado na pós-produção”. Diretores, atores, dublês e técnicos de efeitos especiais foram obrigados a interagir com telas verdes, deixando para os computadores o trabalho pesado depois de concluídas as filmagens.


Em suma, para o bem e para o mal, WATERWORLD é um dos últimos grandes espetáculos, feitos naquele estilo grandiloquente e irresponsável que Hollywood adotou desde os primórdios da sua indústria de cinema. Hoje seria muito mais fácil e barato fazê-lo, embora o resultado certamente não ficasse tão impressionante.

Notem que recentemente, em 2016, a produtora picareta The Asylum lançou uma aventura vagabundíssima chamada “Planet of the Sharks”, que é praticamente uma cópia tardia do filme dos Kevins: num mundo do futuro, submerso pelo derretimento das calotas polares, os moradores de uma vila marinha muito parecida com o atol de WATERWORLD enfrentam tubarões inteligentes, que começam a caçar fora d’água. Óbvio, quem assistir o trailer vai perceber que tudo é muito vagabundo; mas a questão é que hoje a tecnologia permite que se filme esse tipo de aventura com um orçamento minúsculo. Agora, talvez até o próprio Roger Corman conseguisse produzir aquele primeiro roteiro do Peter Rader, recusado em 1986, por mixaria.


Então ao final de WATERWORLD, quando o Mariner (agora rebatizado Ulisses, se você está vendo o “The Ulysses Cut”) volta ao oceano para continuar sua jornada sem rumo sabe-se lá para onde, estamos vendo uma dupla despedida: a do protagonista e a de um estilo mais artesanal e live-action de cinema, que hoje foi sepultado pela popularização dos efeitos, personagens e cenários digitais.

E é por isso que volta-e-meia eu me pego revisitando WATERWORLD e sua carnavalesca odisseia de perseguições de barco e explosões em alto-mar. Porque parece muito mais divertido. Porque parece muito menos artificial. Porque é possível ver o dinheiro na tela.

Porque éramos felizes e não sabíamos.

PS: Considerando que alguns dos grandes líderes mundiais passaram a negar o aquecimento global e as mudanças climáticas, recomendo a todos que preparem seus barcos, seus reservatórios de água potável e direcionem o GPS para o Monte Everest. A gente se vê em Dryland!



Trailer de WATERWORLD


39 comentários:

Raphael Silvierri disse...

Grande texto. Sem trocadilhos...
Parabéns, continua se superando Felipe!

Anônimo disse...

Obrigado Felipe, impecável como sempre eu tinha 13 anos quando assisti esse filme pela primeira vez, a sensação foi instantânea estou assistindo Mad Max em cima d água. Gosto muito do filme somente com seus textos posso saber curiosidade sobre meus filmes e atores favoritos. Adoro seu trabalho, talvez você poderia fazer vídeos com seu talento para pesquisa e escrita você seria ainda maior e com remuneração.

peterson disse...

Felipe faz um review desse filme no seu site O Rock do Dia das Bruxas 1986 https://www.youtube.com/watch?v=B9rsuZbBBFI e se possível faz do O sorveteiro também https://www.youtube.com/watch?v=SBHw8mhc8dc


Tony Sarkis disse...

E eu fiz meu pai ir comigo ao cinema!! Eu punha ele em cada fria!! Só lembro que ele não gostou e achou excessiva a duração do filme!! Eu como tinha meus 15 anos, amei o filme com toda aquela parafernália!!

Daniel I. Dutra disse...

Excelente texto.

Vi waterworld no cinema e lembro que pensei comigo mesmo que a tal "Dryland" poderia ser o Everest.

Nesse "Ulysess cut" existe alguma explicação de como a menina Enola conseguiu o mapa tatuado nas costas? Lembro que esse era uns dos principais pontos que as revistas e jornais da época criticavam.

Fabiano Nunes disse...

Meu nome imortalizado nas paginas páginas do Filmes Para Doidos... vou mostrar pro meu filho quando ele crescer! Provavelmente ele vai dizer: Ah tá, tá. Foda-se.

Cleidson disse...

Como sempre ótimo texto

Faz um da ilha da garganta cortada e aproveita que falou do Kevin Costner nesse e faz de O Mensageiro.

Felipe M. Guerra disse...

DANIEL DUTRA, a versão para o cinema já sugere que os esqueletos encontrados na cabana em Dryland, no final do filme, pertencem aos pais de Enola. Eles sabiam que iam morrer, tatuaram o mapa para a ilha nas costas da menina e a colocaram no mar dentro de um cesto para ver se chegava em algum lugar, tipo o Superman (hehehe). Não lembro se há mais alguma explicação neste sentido no Ulysses Cut, mas eu já tinha entendido desta maneira da primeira vez.

Colecaoema disse...

Um grande texto com grandes curiosidades, estando à altura da comemoração da incrível marca de 400 publicações. As quais aposto ter lido todas! Muito obrigado Felipe!!! Vida longa ao Filmes para Doidos.

@jb1969cinema disse...

Textão, verdade! Mas podemos sentir cada palavra dos esforço para ser escrito, Felipe! Parabéns! Meu trash movie vimeo.com/324407596 meu tem uma grande qualidade: é curto uma hora e cinco minutos Abraço!





artur disse...

Nossa, para conseguir ler tive que precisar de exatos DOIS DIAS para isso, que texto maravilhoso, não sabia que esse filme era bastante odiado, já que sempre assistia ele quando reprisava na antiga Sessão da Tarde com muita empolgação, se juntar esse filme e Apocalypse Now renderiam um filme só pelas histórias dos bastidores, de fato vendo hoje parece sim um Mad Max aquático e concordo plenamente com o fato de que antigamente as cenas de ação serem mais emocionantes por serem feitas em locações e com dublês e até mesmo astros de Hollywood que encaravam tais cenas, arriscando a vida DE VERDADE.

spektro 72 disse...

Texto brilhante,com o humor leve e com muitas curiosidades sobre um dos maiores fracasso de bilheteria de sua época no caso 1995 ." WaterWorld" e assisti esse filme em sua primeira exibição na TV Aberta na Tela Quente em 18/05/1998 e depois ele foi reprisado varias vezes na sessões de filmes da Vênus Platinada.Eu gostei muito desse filme que era um "Mad Max" com outra temática em vez de deserto,esse se passava nos oceanos e com uma bela fotografia marítima lembrando muito aqueles filmes antigos de barcos á vela ou caravelas ou nau capitânias como :Cisne Negro ,Falcão dos Mares ,O Grande Motim ,Capitão Blood,etc,etc.
Parabéns por nos abrilhantar com texto bastante explicativo de um filme que mesmo que tenha sido um fracasso merece ser apreciado por os novos cinéfilos e assistido por eles ,para tirarem as suas conclusões sobre essa obra cinematográfica do seculo passado .
Um abraço de Spektro 72

makintochi disse...

Esse e um filme que vale o tempo de duraçao ao contrario do Wyatt Earp e pensar que o costner recusou o tombstone que foi um sucesso pra fazer sua propria versao

Leonardo Peixoto disse...

Texto incrível e estou muito feliz pela marca atingida pelo blog . Desejo ao Felipe e ao Filmes para Doidos vida longa e prospera .
Espero que outras resenhas de filmes pós-apocalípticos sejam publicadas futuramente .

Ale Bueno disse...

Felipe, você finalmente viu Jurassic Park? Heheheheheh

Dan Cristoff disse...

Grande Felipe. Parabéns pela análise. Cara, sou um viciado em filmes da décade de 70, 80 e principalmente os anos 90, onde cresci. Waterworld me desperta muitas lembranças. Peguei na locadora. Assistimos eu, meu irmão e o meu primo (pirralhada enlouquecida por filmes de aventura). Cara, lembro que não cheguei a fazer essa comparação com o Mad Max II. Apenas foquei na levada. Quanto ao Mariner, sempre curti esses anti-heróis da década de 90. Carrancudos. Mal-humorados. Verdadeiros. E o Denis Hopper é um dos meus atores vilanescas ensandecidos preferidos. Frank Booth em Blue Velvet? Louco. Brando não topou filmar com ele em Apocalipse Now. Saudade desses filmes de ação de verdade. Abs, Dan Cristoff.

Jonathan Nascimento disse...

Cara que dossiê, meus parabéns é por isso eu eu amo esse site.
Sobre o filme eu me lembro de ver quando garoto e pensar:"- Esse protagonista é meio perverso".
Pois é, até criança eu saquei que era um filme diferente da média.
Tenho que reve-lo agora urgentemente.

Kaiketsu Zubat disse...

Ainda não li o texto mas meus parabéns, te acompanho desde o começo e quando teve aquele hiato quase eterno, ficava vindo aqui ou pra reler posts e ficava na esperança de você voltar com força total.

Que bom, que você voltou, suas críticas são tão completas que de fato é o único blog que ainda acompanho e que fico ansioso pra ver postagens.

Obrigado Felipe.

Jorge Verneti disse...

Parabéns pelo trabalho de pesquisa para esta longa e detalhada resenha e, claro, congratulações pela marca de 400 pastagens. Acompanho o blog desde o início de 2009 após o primeiro contato com seu trabalho no extinto Memórias Póstumas de Felipe M. Guerra, aliás você poderia, se possível, repostar algum material deste antigo blog aqui no Filmes para Doidos. Um dos primeiros filmes busquei assistir graças ao seu trabalho foi o divertidissimo O mestre da guilhotina voadora com o Jimmy Wang Yu.

Anônimo disse...

Vc poderia fazer uma análise dos filmes faces da morte e Traces of Death?

Anônimo disse...

Concordo com muita coisa que o Felipe menos quando ele desmerece o CGI. Há muito trabalho nisso, não é apenas sentar na frente do computador e apertar uma tecla. Tem que saber de fisica e matemática e horas e horas pra aperfeicoar.

Sem falar que por mais que tente com efeitos práticos algumas coisas só podem ser feitas com CGI. Por que há tantos filmes de super-heróis por exemplo hoje em dia? Porque só graças ao CGI os poderes podem ser tirados quadrinhos para as telas. E filmes como Harry Potter e trilogia Senhor dos Anéis só foram feitas graças ao CGI.

Anônimo disse...

Showgirls é muito bom sim pra bater umas punhetas vendo aquela atriz gostosa rebolando na tela.

Anônimo disse...

Adoros protagonistas cuzôes, pricipalmente porque me indentifico kkkkkkkkkk.

nick.tonsho disse...

Adorei o texto! Valeu, Guerrão!

Anônimo disse...

Assisti muito na TV, sessão da tarde e no domingo.

Unknown disse...

Só lembrando que Independence Day tá no livro dos recordes como o filme que mais teve uso de maquetes na história. Nem tudo ali foi Cgi

Céé. disse...

Cara, podia escrever um monte, mas PERFEITO é o suficiente para descrever o que seu trabalho.
Vida longa ao melhor blog do Brasil!

Alter-right disse...

A Lua se chama Europa e fica em Júpiter e não em Saturno!.

Ferdinando disse...

Adorei o blog. Vim parar aqui por causa das resenhas de filmes sobre ninjas. Um dia se possível , faça uma resenha do filme ninja negro, do glorioso Richard Harrison e do diretor...O G. Ho

Johnny Cool 31 disse...

Ótimo texto!
Meu sentimento é o mesmo: éramos felizes e não sabíamos!
Maldito cinema de plástico...
Grande abraço, desde 2009 aqui.

Anônimo disse...

Não faz sentido odiar o culpar o CGI pela falta de criatividade. Por exemplo acho que não poderia se fazer um filme do super-herói com apenas com efeitos práticos, algumas coisas só com CGI.

Unknown disse...

Excelente texto. Eu, por outro lado, já não sou dos maiores fãs do filme. Do lado positivo, acho que o futuro que ele pensa é realmente aterrorizador; um terror existencial aquático. As cenas de ação, quando acontecem, também são espetaculares e megalomaníacas, aliadas por uma fotografia de respeito. O dinheiro foi bem gasto, ali. Dennis Hopper é sembre bem-vindo também, especialmente quando ele está totalmente tresloucado (quase sempre...). Do lado negativo, e que pesa mais, acho o filme extremamente chato. Os personagens são chatos; Costner não convence ninguém como pescador parrudo e herói de ação (na verdade, não entendo como um cara sem graça como o próprio Costner tenha virado o astro que virou nos anos 90 - as coisas realmente mudaram); e a duração é imperdoável (vi a versão em HD e estendida lançada pela Arrow). Com uma duração mais enxuta, teria apreciado o filme. Mas, com uma duração mais enxuta, ele não seria Waterworld. Obrigado pelo texto.

Anônimo disse...


Por que todo mundo odeia tanto filmes com CGI?

Ok, tanto faz. Todo mundo sempre diz "é tão falso blá blá" bem surpresa, todo filme é falso. É tudo ficção e da última vez que verifiquei, filmes com muita animação exigem animadores extremamente talentosos que passam tantas horas animando quanto o roteirista para escrever.

Eu amo todos os tipos de filmes, então por que todo o ódio?

Anônimo disse...

Uma coisa que eu gosto desse filme é a imersão, vc se sente mesmo em um pós-apocalíptico. A rotina dos personagens, a dureza, dificuldades que passam e o estado das coisas.

Anônimo disse...

Os mistérios deste filme me escaparam por décadas, até agora. O JoBlo fez um trabalho INCRÍVEL ao longo da história desse belo desastre, desde seu roteiro de especificação até o legado, como um dos maiores filmes de ação que ninguém pediu.

Exceto eu, de 10 anos, que achou incrível!

https://www.youtube.com/watch?v=mLPqtDPd_7Y&feature=emb_title

Unknown disse...

Tive em VHS em minha locadora nos anos 90 e tinha um cliente fanatico pelo filme deve ter locado umas 15 vezes..ele aparecia e eu ja sabia ia levar a fita do Costner e era fita dupla cobrava mais caro rs.... Ate que um dia acho que ele dormiu e sentou em cima do estojo e estragou a fita.. Devolveu e confessou o crime e pagou uma nova fita para a locadora.. Nunca mais voltou para locar novamente..

João Paulo disse...

Descobri que o blog "Filmes Para Doidos" tinha voltado as atividades depois de ter visto um vídeo do "Coleção em Ação Show" sobre ninjas ter citado como uma das fontes.

João Paulo disse...

Ah, e parabéns por ter chegado e ultrapassado a marca das 400 postagens. Excelente texto sobre a tumultuada produção de Waterworld.

Julio Vei Pescador disse...

Post simplesmente espetacular, Felipe !! Espero q vc chegue não só ao 500 mas vá muito além do milésimo post.

Fica aí a sugestão de vc postar tb sobre esses grandes fracassos da década de 80, Ishtar e Portal do Paraíso. Grande abraço !!