sábado, 26 de janeiro de 2019

Mais resenhas (nem tão) curtinhas para analfabetos funcionais

PLANO-SEQUÊNCIA DOS MORTOS (One Cut of the Dead / Kamera o Tomeru na!, 2017,
Japão. Dir: Shin'ichirô Ueda)

Quando “Plano-Sequência dos Mortos” venceu o Fantaspoa – Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre, no ano passado, fiquei surpreso. Já estou cansado de filmes de zumbis, os orientais (principalmente) os produzem em escala industrial, e este parecia ser apenas mais um numa longa lista de “...of the Dead” com mortos-vivos de olhinhos puxados. Mas como todo mundo estava elogiando, e o filme ainda saiu vencedor do festival, fui conferir o que havia de diferente na história ou na maneira de contá-la. “Plano-Sequência dos Mortos” acompanha uma equipe de filmagem que está rodando um filme de zumbis sem orçamento (auto-crítica?), mas não demora para mortos ambulantes de verdade invadirem o set e transformarem o terror de mentirinha numa luta pela sobrevivência. Mesmo considerando que minhas expectativas já eram baixas, me deparei com uma tosquice além da conta, aquele tradicional filme de zumbis ruim e sem nada de novo. A única diferença para centenas de outros títulos descartáveis era o fato de (como o título anuncia) este ser narrado num plano-sequência - ou seja, um único take sem cortes em que a câmera não pára de filmar nem mesmo quando a lente fica suja de sangue, ou o operador de câmera cai no chão (e se há “cortes disfarçados”, eles estão muito bem escondidos). Não que a opção narrativa torne a coisa melhor; pelo contrário, o plano-sequência atravanca a coisa toda com loooongos momentos em que a câmera fica mostrando nada para dar tempo de as ações serem realizadas “em tempo real” pelos atores. Enfim, a julgar pelo início parecia mais uma daquelas bobagens que dão a sorte de ganhar as graças de jurados de festivais de gênero por qualquer motivo, e eu quase mandei tudo às favas e desisti. Só que esta, meus amigos, é apenas a primeira meia hora de “Plano-Sequência dos Mortos”. E então acontece uma inacreditável reviravolta que muda completamente o foco e o tom da obra, que se transforma de filme de zumbis genérico numa apaixonada e bonita homenagem ao cinema B/de guerrilha. De repente todos aqueles problemas gravíssimos da primeira meia hora se justificam dentro da narrativa, inclusive as loooongas cenas com a câmera parada filmando o nada. Quem sobreviver ao terrível início (e acredite, ele faz parte da brincadeira e se justifica) vai encontrar aqui um pequeno grande filme, barato, impressionante, criativo, original e filmado com uma energia que contagia - dá até vontade de voltar a gravar produções vagabundas com os amigos depois!



PERIGO EXTREMO (Close Range, 2015, EUA. Dir: Isaac Florentine) 
Mini-Maratona Scott Adkins 1/5. Como eu já havia escrevido na resenha sobre o posterior "Acts of Vengeance", está ficando difícil defender o diretor B Isaac Florentine. O sujeito está há anos no mercado de cinema de ação barato, rápido e rasteiro, e alguns dos seus filmes anteriores, como “Ninja” (2009), “Bridge of Dragons” e “Cold Harvest” (os dois últimos de 1999), demonstram que ele é um dos melhores diretores-de-filmes-de-ação-que-ninguém-conhece em atividade no momento. A cada novo filme você fica esperando aquele que será o ponto de virada, aquele que vai carimbar seu passaporte para a primeira divisão. Pois bem, este ponto de virada ainda não é “Close Range”, por aqui rebatizado genericamente como “Perigo Extremo”. Se bobear, este foi o filme mais barato que Florentine dirigiu na vida inteira - ou pelo menos assim aparenta. A trama, acéfala, se desenvolve em apenas duas locações. Praticamente não existe roteiro, e os diálogos se resumem a algumas ordens do vilão para que seus capangas tentem matar o herói (há economia até em frases de efeito para o protagonista, um detalhe obrigatório em produções do gênero). Qualquer tentativa de desenvolvimento de personagens é abandonada desde o prólogo, uma grande pancadaria filmada em plano-sequência nos corredores de um prédio, quando o astro lado B Scott Adkins - há anos implorando para ser descoberto e virar “o novo Jason Statham” - distribui porradas e facadas para resgatar a sobrinha sequestrada por traficantes. Depois disso entram os créditos iniciais e o filme se resume ao restante do cartel perseguindo o herói para dar o troco. O problema, para quem vem acompanhando a carreira de Florentine nos últimos anos, é que tudo parece ainda mais barato e improvisado do que de costume. Os tiroteios são pavorosos (com efeito digital de fogo saindo do cano de armas de plástico; os caras sequer tinham dinheiro para usar festim!), e todas as trocas de tiros são looooongas e intermináveis (aparentemente as armas têm munição infinita). É nas lutas corpo a corpo que Adkins mostra toda sua técnica (Florentine também, filmando com esmero e dedicação, sem entregar-se à edição de videoclipe que arruinou o gênero), mas estas não são tantas e nem tão boas para valer o filme. Tá, tem pelo menos uma cena espantosa, feita sem dublê, em que Adkins usa um barranco para tomar impulso e saltar, evitando no último segundo ser esmagado de verdade por um carro de verdade. Mas ainda é muito pouco para uma dupla com tanto potencial; o tempo todo a gente fica aguardando por aquele grande momento, e ele nunca vem. E embora “Close Range” possa valer como filmeco de ação rápido e descartável para empenhar 90 minutos da vida, infelizmente cada novo trabalho do diretor Florentine parece mais frustrante que o anterior - e aquela oportunidade de subir para a primeira divisão, cada vez mais distante.


O ALVO 2 (Hard Target 2, 2016, EUA. Dir: Roel Reiné)
Mini-Maratona Scott Adkins 2/5. No começo dos anos 1990, quando o público ocidental mainstream estava começando a descobrir a demência do cinema de ação oriental (graças especialmente às divertidas aventuras de Jackie Chan), o diretor chinês John Woo foi para Hollywood mostrar aos ianques como fazer bonito. Seu primeiro trabalho ocidental foi o incrível “O Alvo” (1993), que trazia o Van Damme de mullet dando saltos acrobáticos em câmera lenta para desviar de explosões, e disparando 40 tiros seguidos de voadora em cada bandido. Enfim, aquela espécie de “ballet de ação” afetado e estilizado que virou moda e clichê logo em seguida. Nenhum outro diretor oriental importado para Hollywood na mesma época (e teve muita gente boa, como Tsui Hark e Ringo Lam) atingiu o mesmo nível de excelência de Woo em “O Alvo”. Pois bem: um salto de 23 anos no tempo (23 anos!!!), e eis que sai uma sequência bastarda e direct-to-video do filme de Woo. Confesso que estava razoavelmente entusiasmado pelo projeto, estrelado por um dos caras mais fodas do cinema de ação atual (Scott Adkins); se o filme fosse bom, poderia fazer pela carreira dele o que “O Alvo” fez pela do Van Damme lá atrás. Infelizmente, esqueceram que o filme riginal também tinha John Woo na direção, e para fazer algo minimamente à altura, e não desperdiçar um sujeito do calibre do Adkins, precisaria de um diretor que entendesse de ação e estivesse doido para mostrar serviço. Mas quem acabou ocupando o posto foi o holandês pau-pra-toda-obra Roel Reiné, que fez um filme legalzinho nos anos 1990 (“A Encomenda”) e depois especializou-se em assinar continuações vagabundas direto para locadora de filmes dos outros (tipo “Corrida Mortal” 2 e 3 e “Atrás das Linhas Inimigas 4”!). O resultado é uma “continuação” só no nome, que não continua porcaria nenhuma, cansativa (com absurdos 105 minutos, tem pelo menos meia hora a mais do que deveria), sem nenhuma novidade e dirigida no piloto automático. Desperdiça um lutador espetacular dando ao astro apenas uma ou duas oportunidades para mostrar seu talento em câmera lenta. O herói que ele interpreta também é inexpressivo e completamente imbecil; um sujeito que, de mãos vazias e sendo perseguido por homens armados numa floresta, consegue matar um rival que tem uma metralhadora e uma faca, mas mesmo assim vai embora desarmado! Do tipo que, com a vida por um fio, sendo perseguido por dezenas de homens armados, encontra tempo para parar e meditar com uma nativa bonitinha (que cai de pára-quedas na trama e começa a ajudar o herói sem questionar, claro). Reiné já tinha mostrado antes que era um grande copiador de John Woo - um tiroteio infernal em câmera lenta que ele dirigiu em “O Jogador”, um dos seus filmes anteriores com Steven Seagal, já lembrava muito as peripécias do chinês. Mesmo assim, as cenas de ação de “O Alvo 2” são bem fraquinhas, com sangue digital e pouquíssimas daquelas acrobacias e saltos mortais que fazem o primeiro filme ser tão divertido. A cena num campo minado poderia ser tensa nas mãos de um diretor de verdade; aqui, é apenas burocrática. E ele ainda desperdiça a Rhona Mitra numa vilã secundária ou terciária que nada acrescenta. As únicas coisas que Reiné realmente emulou de Woo foram aquelas que ficaram mais “demodê” de 1993 para cá: os sujeitos apontando arma um para o nariz do outro, ou as pombas brancas voando em câmera lenta. Um completo desperdício - pra não dizer vexame!


CÃO SELVAGEM (Savage Dog, 2017, EUA. Dir: Dir: Jesse V. Johnson)
Mini-Maratona Scott Adkins 3/5. Curto e grosso: se tivesse saído nos anos 1980, “Savage Dog” poderia ter sido um sucesso nas videolocadoras. Afinal, é um filme de ação dirigido por um sujeito que fez coreografia de dublês para blockbusters (entre eles, “Missão Impossível 3” e “O Espetacular Homem-Aranha”), e estrelado por pelo menos quatro pessoas que sabem lutar e demonstram isso sem firulas de edição ou computação gráfica, no esquema “Quem sabe faz ao vivo”. São eles Scott Adkins, o chileno Marko Zaror (que fez bonito em filmes do seu país-natal, como “Miracle Man” e “Mandrill”), o lutador de MMA Cung Le e a chinesa JuJu Chan (vista na sequência de “O Tigre e o Dragão”). Infelizmente, as coisas boas que podemos escrever sobre “Savage Dog” param por aí: mesmo com tanto potencial, o diretor-roteirista Jesse V. Johnson desperdiçou tudo para contar, pela enésima vez, a história do sujeito forçado a lutar num torneio ilegal de artes marciais. É o tipo de “argumento” que já era velho nos tempos do Bruce Lee (quando ele fez “Operação Dragão”), e que foi espremido até virar bagaço pelo Van Damme nos seus primeiros filmes dos anos 1980-90. Como se não soubesse disso, Johnson tenta dar um ar solene à coisa toda, inclusive situando a trama na Indochina de 1959 (algo que não chega a fazer qualquer diferença na narrativa). Adkins é o soldado inglês que está num campo de prisioneiros e passa a ser obrigado a lutar para a diversão dos seus captores. Lá pelas tantas ele ganha a liberdade e vai trabalhar como leão-de-chácara no bar de um amigo (Keith David), mas o passado lhe persegue, obrigando-o a lutar novamente - agora por vingança. Poderia e deveria ser non-stop action, conforme o pôster e o trailer fazem acreditar, mas o ritmo dá uma bela caída lá pelos trinta-e-poucos minutos e o diretor demora a recuperar o gás (muita gente já vai ter pegado no sono, ou trocado de filme/canal até isso acontecer). E se não há nada de novo na trama, tampouco nas cenas de ação e pancadaria. As lutas finais com Cung Le e depois com Zaror (usando facas, e lembrando o duelo final de “Comando para Matar”) são muito boas, mas não conseguem salvar uma produção ancorada em clichês saturados. E o desperdício de tanta gente boa também soa a amadorismo, pois tanto Adkins quanto Zaror demonstram imenso potencial para virar novos astros de ação (Zaror, especialmente, é a melhor coisa de “Machete Kills” e merecia seu próprio filme de pancadaria nos EUA). Depois deste trabalho, o diretor Johnson e o astro Adkins ficaram parceiros e abriram uma verdadeira linha de produção de filmes, com constantes altos e baixos, como veremos a seguir.


ACCIDENT MAN (2018, Reino Unido. Dir: Jesse V. Johnson)
Mini-Maratona Scott Adkins 4/5. Quando vi “Accident Man”, no comecinho de 2018, postei no Facebook que se o Scott Adkins não virasse astro de ação depois deste filme é porque sofria da terrível Síndrome de Mark Dacascos - aquela doença degenerativa que condena o sujeito a ficar eternamente no lado B, por mais potencial que demonstre para subir de liga. Infelizmente foi o que aconteceu, e não adiantou nem ganhar papel de destaque em um blockbuster da Marvel Studios (“Doutor Estranho”, de 2016). O que é uma tremenda injustiça: em “Accident Man”, Adkins não apenas dá o montão de porrada de costume, mas também FALA pra caramba, inclusive contando a história para o espectador em off. E convence, soando muito mais simpático do que caras como Steven Seagal jamais conseguiram ser. Adkins ainda é um dos roteiristas do filme, adaptação para o cinema de uma obscura história em quadrinhos publicada na revista inglesa Toxic! em 1991. Ele interpreta Mike Fallon, um matador de aluguel que, como o título já anuncia, tem por especialidade fazer seus assassinatos parecerem acidente - tipo Charles Bronson fazia nos anos 1970 em "Assassino a Preço Fixo". Porém, quando uma ex-namorada é morta num “serviço” do gênero, Fallon declara guerra aos colegas matadores profissionais para tentar descobrir quem foi o responsável. E tome e leve porrada, tiro e até machadada! O diretor Jesse V. Johnson - que havia desperdiçado Adkins em seu filme anterior, “Savage Dog” - leva o filme na flauta e de uma forma bem caricatural, lembrando o universo inconsequente e exagerado das histórias em quadrinhos. Isso fica bem claro na maneira colorida e excêntrica com que são representados os matadores de aluguel que Fallon enfrenta. E Ray Stevenson, o melhor Justiceiro do cinema (infelizmente desperdiçado num filme mais ou menos), aparece como o mentor do protagonista, num elenco que também tem Michael Jai White e o “Darth Maul” Ray Park, aqui de cara limpa. Infelizmente, embora “Accident Man” seja bem divertido e a melhor coisa que Adkins fez nestes últimos anos, também tem dois grandes pecados: é longo demais para uma história tão boba, que inclusive desperdiça o talento do protagonista para forjar assassinatos como acidentes (um detalhe abandonado ainda na primeira meia hora); e tem um longo flashback no meio do filme que trava a narrativa (seria melhor se aparecesse no início). Mas é um belo filme de ação, unindo porradaria com um senso de humor afiado; ótimo para desligar o cérebro e curtir sem culpa, e a prova de que Adkins pode fazer bonito em produções mais “chiques”. Aposentem o Jason Statham e o Liam Neeson de uma vez e chamem o homem para fazer uns blockbusters aí!


O COBRADOR DE DÍVIDAS (The Debt Collector, 2018, EUA/Reino Unido. Dir: Jesse V. Johnson)
Mini-Maratona Scott Adkins 5/5. O fato de Scott Adkins acertar pra caramba num filme (“Accident Man”) e mesmo assim continuar topando tudo que vem pela frente sem muito critério é prova inconteste de que ele precisa trocar de agente com urgência. Veja-se o caso deste “O Cobrador de Dívidas”, um filme decepcionante dirigido novamente por Jesse V. Johnson. O roteiro do próprio diretor com Stu Small é corajoso por tentar humanizar os “cobradores de dívidas” do título - um nome bonitinho para os brutamontes que quebram narizes e joelhos de pessoas que fizeram a burrada de ficar devendo dinheiro para criminosos. Adkins interpreta French, um lutador de artes marciais (obviamente...) que está falido e, para não perder seu ginásio, precisa tornar-se um debt collector para o bandidão local. A frase do cartaz já anuncia os pré-requisitos do trabalho (“Violence first, questions later”), e ele forma dupla com um veterano da área, Sue (Louis Mandylor), que lhe ensina todas as manhas do negócio. A primeira metade chega a lembrar vagamente “Repo Man”, do Alex Cox, com o sujeito que cai de pára-quedas num emprego de merda e é treinado pelo veterano cínico (Mandylor faz as vezes de Harry Dean Stanton naquele filme); em ambos o novato é aconselhado a usar terno e gravata para causar uma melhor impressão e acaba tragado para um submundo violento e excêntrico sem querer. Mas logo “O Cobrador de Dívidas” deixa transparecer a absoluta falta de história para contar e até uma indecisão de estilo; o que começa como uma historinha de humor negro sobre os percalços de trabalhar para o crime organizado se transforma numa sequência de lutinhas randômicas, em que a dupla precisa simplesmente encontrar e surrar uma série de brutamontes para cobrar dívidas. Aí, inexplicavelmente, da metade para o fim o tom da história muda completamente, os roteiristas tiram do chapéu uma situação em que o protagonista precisa escolher entre os lados do Bem e do Mal, e a coisa desanda feio - sem sutilezas, o diretor usa até uma alegoria comparando a novíssima vida de French com vaquinhas felizes no pasto rumo ao matadouro! O resultado é meio insalubre, pois soa como dois roteiros diferentes costurados num filme só. E em nenhum momento se justifica porque, exatamente, o protagonista se meteu naquela furada, já que, como sujeito educado, habilidoso e boa pinta, poderia ter procurado um emprego honesto como guarda-costas, por exemplo. O ponto positivo é que esta é uma rara chance para notar Louis Mandylor, um sujeito que já apareceu em mais de 100 filmes e episódios de seriados de TV, mas que eu, pelo menos, nunca tinha percebido antes. Sua interpretação como o capanga envelhecido e cansado daquele mundo de porradaria é a melhor coisa do filme, e o sujeito rouba a cena facinho. A química entre os dois protagonistas também é muito boa, principalmente no início, quando o clima ainda é de buddy film. Agora é esperar por melhor sorte em “Triple Threat” e “Avengement”, os próximos dois filmes que o mesmo e incansável Jesse V. Johnson está dirigindo com Scott Adkins (a manter-se o padrão, pelo menos um deles será bom!).


HEREDITÁRIO (Hereditary, 2018, EUA. Dir: Ari Aster)
Décimo ou vigésimo filme dos últimos anos a ser anunciado como “O mais assustador de todos os tempos” (uma arriscada estratégia de marketing que muitas vezes queima a própria obra ao criar exagerada expectativa no público), “Hereditário” foge da propaganda enganosa e dá uns bons arrepios mesmo no espectador que acha que já viu tudo em matéria de cinema de horror. Em seu primeiro longa, o diretor-roteirista Ari Aster toma seu tempo para contar a história, com um roteiro simples e bem amarrado que evita o máximo possível as armadilhas e lugares-comuns do gênero - é até melhor assisti-lo sem saber absolutamente nada sobre a trama, pois a história começa cheia de enigmas e pistas falsas. Toni Collette, no papel da mãe completamente impotente diante de fenômenos sobrenaturais que ameaçam sua família, entrega uma performance única na carreira, que eclipsa completamente o colega de cena mais famoso Gabriel Byrne. E os novatos Milly Shapiro e Alex Wolff estão, ambos ao seu jeito, assustadores. A impactante cena com os dois num carro em movimento é, disparado, um dos grandes momentos do cinema de horror em anos! Só é uma pena que o último ato de “Hereditário” troque o bem-sucedido clima de angústia e horror desconhecido por um festival de explicações estapafúrdias e forçadas de barra - como se outro roteirista tivesse assumido as páginas finais do roteiro quando Aster ficou sem ideias para terminar a história. O ponto de virada na qualidade da obra é um momento bem tolo perto do fim, quando, tentando não spoilear nenhuma grande surpresa, a protagonista convenientemente encontra um livro onde não apenas há um conveniente marcador de página assinalando o local onde ela encontrará a explicação para tudo que vem ocorrendo, mas na tal página o trecho com a explicação está convenientemente destacado com caneta marca-texto - e, se já não fosse o bastante, a frase mais importante do parágrafo ainda está convenientemente destacada com um sublinhado em caneta esferográfica, para saltar aos olhos da personagem e do espectador! A partir de então, efeitos especiais deslocados, sustos frouxos e pessoas caminhando no teto (à la “O Exorcista 3”) começam a pipocar, contrastando bastante com o clima de medo legítimo que o diretor suou para criar até então. Não é, claro, um problema exclusivo de “Hereditário” - a maioria dos filmes de horror recentes celebrados por crítica e/ou público despenca horrores (desculpem o trocadilho) perto do final. Pelo menos este aqui fica assombrando o espectador durante dias, levando-o a pensar e repensar seus melhores momentos, e isso nem o final didático consegue arruinar. Considerando a média do gênero hoje, especialmente a média do que chega aos cinemas, não é pouca coisa. E julgando por este primeiro e arrepiante trabalho, Ari Aster é um nome a ser acompanhado de perto.


UM LUGAR SILENCIOSO (A Quiet Place, 2018, EUA. Dir: John Krasinski)
“A Quiet Place” é um daqueles filmaços de monstro que aparecem de vez em quando e que, na mesma linha de “Pitch Black/Eclipse Mortal” e “The Descent/Abismo do Medo”, se destacam não por tentar inventar a roda, e sim por contar a mesma história de uma maneira que o público ainda não ouviu/viu. A pegadinha aqui é que os personagens vivem num futuro próximo em que a Terra foi devastada por ferozes monstros cegos que caçam guiados pelo som (e cuja origem ninguém se preocupa em explicar, felizmente). Por isso, a família que protagoniza o longa precisa fazer o possível e o impossível para evitar sons, falas ou gritos, mesmo nos momentos de maior horror ou dor - a cena do prego é particularmente excruciante. Deve ter sido uma experiência horrível assistir ao filme no cinema (e por isso mesmo eu deixei para ver em casa), já que 99% da trama acontece em silêncio e com os personagens se comunicando por linguagem de sinais. Ou seja, uma experiência de imersão que não deve funcionar bem em público, ainda mais rodeado pelo público grosseiro que frequenta nossas salas de cinema atualmente. Há detalhes sutis e geniais, como as crianças jogando Banco Imobiliário com pecinhas feitas de pano (pois o simples ruído dos peões de plástico batucando no tabuleiro de cartão poderia atrair as criaturas). E, justamente pela impossibilidade de os protagonistas falarem, o filme evita aqueles irritantes diálogos expositivos que infestam o gênero. Eu seria ainda mais radical e cortaria completamente a trilha sonora também, porque ela telegrafa além do necessário os momentos de drama e suspense. Com a experiência ainda mais silenciosa, o horror surgiria naturalmente dos (poucos) sons dissonantes. Nem mesmo as péssimas criaturas de computação gráfica conseguem estragar “A Quiet Place” - pelo menos o diretor foi esperto de mostrá-las o mínimo necessário, mas bem que podia ter desviado a câmera e usado apenas sombras ou silhuetas. Que bela surpresa que um filme tão eficiente e redondinho tenha sido dirigido não por um veterano do gênero ou alguma nova promessa do horror, mas sim pelo ator John Krasinski, mais conhecido pelos seus trabalhos na TV (principalmente o seriado cômico “The Office”), que aqui acumula as funções de protagonista (junto com a esposa Emily Blunt) e corroteirista. Em sua primeira experiência com o cinema de horror, Krasinski dá uma aula daquilo que os jurados do MasterChef adoram repetir: “Menos é mais”. E ainda furou o olho (com a perdão do trocadilho) da superprodução original Netflix “Caixa de Pássaros”, saindo meses antes dela (mais a seguir).


CAIXA DE PÁSSAROS (Bird Box, 2018, EUA. Dir: Susanne Bier)
No mesmo ano em que um dos filmes de horror mais elogiados por público e crítica conta a história de uma família sendo obrigada a fazer silêncio para sobreviver num mundo dominado por criaturas assassinas, soa um tanto oportunista você lançar um filme de horror sobre uma família sendo obrigada a manter os olhos fechados para sobreviver num mundo dominado por criaturas assassinas. Mas a verdade é que “Bird Box”, uma das principais produções da Netflix de 2018, foi baseado num livro homônimo escrito por Josh Malerman em 2014, portanto ANTES de “A Quiet Place” (veja acima), embora várias ideias do próprio livro remetam a filmes anteriores, como “Fim dos Tempos”, do Shyamalan. (Mais uma evidência de que, no mundo do entretenimento, nada se cria e tudo se transforma.) Tirando o óbvio fato de trocar o silêncio pela cegueira, “Bird Box” também é muito parecido com “A Quiet Place” ao optar pelo foco no drama de uma família, cujo dia-a-dia é obsessivamente construído em torno de pequenas estratégias de sobrevivência com os olhos vendados, num mundo devastado por monstros desconhecidos que, como a mitológica Medusa, não podem ser vistos diretamente, do contrário enlouquecem a vítima e forçam-na a cometer suicídio. As melhores partes são justamente estas que mostram os sacrifícios e dificuldades do novo universo, que obriga Sandra Bullock e duas crianças pequenas a zanzarem por aí num mundo de permanente escuridão, tateando seu caminho ou guiando-se por fios esticados e passos contados. Há diversas boas ideias, como dirigir um carro com os vidros escurecidos por tinta e guiando-se apenas pelo GPS, ou os pássaros sendo usados como alerta para a aparição das criaturas (embora o recurso seja menos aproveitado do que deveria). O conceito é intrigante (lembra uma versão terror de “Ensaio Sobre a Cegueira”), e me parece que viver num mundo dominado por criaturas que te obrigam a não VER é muito pior que o mundo silencioso de “A Quiet Place”. Mas infelizmente “Bird Box” não é tão eficiente na construção do suspense e da tensão como o filme de John Krasinski, tampouco funciona tão bem quanto o “rival”. Ao contrário da narrativa econômica deste, “Bird Box” apela para um vai-e-volta no tempo que se propõe a explicar a maneira como o mundo foi dominado por tais criaturas, e como a personagem de Sandra acabou com a guarda de duas crianças. Aí aparecem vários coadjuvantes muito mal-construídos (alguns somem um tempão e voltam apenas quando sua presença é necessária, tipo a velhinha), sendo obrigados a conviver num mesmo lugar fechado sem entender o caos que se passa no exterior, estilo “A Noite dos Mortos-Vivos” ou “O Nevoeiro” (John Malkovich inclusive interpreta o típico personagem escroto dos dois filmes citados). E, ao contrário de “A Quiet Place”, “Bird Box” não demora a apelar para absurdos exageros hollywoodianos, como a protagonista que é obrigada a correr pelo meio da floresta, vendada e sem enxergar um palmo na frente da cara, mas convenientemente segue por uma trilha aberta ao invés de ficar batendo a cabeça em árvores ou tropeçando em pedras. Pelo menos a diretora Susanne Bier não cai na burrada de MOSTRAR suas criaturas, nem recorre a qualquer tipo de ponto fraco dos monstros para ensejar uma possível resistência e retomada do planeta pelos sobreviventes. Mas é um filme que, considerando o conceito curioso e aterrador, termina um tanto frustrante - e perde feio na comparação, injusta ou não, com o rival “A Quiet Place”.


THE ASSIGNMENT (2016, França/Canadá/EUA. Dir: Walter Hill)
Retorno do veterano cineasta Walter Hill aos filmes de ação depois do ótimo “Alvo Duplo/Bullet to the Head” (que é de 2012), “The Assignment” passou em brancas nuvens na época do lançamento e não foi muito comentado nem mesmo pelos fãs mais ardorosos do diretor. Quando vi, entendi o porquê do silêncio: o filme é pavoroso em todos os sentidos! Começa com uma premissa completamente absurda: um assassino profissional é aprisionado por uma desafeta em busca de vingança - que calha de ser uma cirurgiã brilhante -, e acaba sendo submetido a uma cirurgia de mudança de sexo, que o transforma em... Michelle Rodriguez! Ao despertar do pós-operatório e descobrir o que houve com o próprio corpo, a agora assassinx declara guerra ao seus inimigos (pois é, vamos combinar que não foi a melhor das ideias como vingança, né?). Hill parece estar reciclando temas e ideias de pelo menos um de seus filmes anteriores, o fraquinho e pouco lembrado “Johnny Handsome/Um Rosto Sem Passado” (1989), em que Mickey Rourke interpretava um bandido de rosto deformado que passava por cirurgia plástica e ganhava... bem, a cara de galã de Mickey Rourke! O grande problema de “The Assignment” é que, apesar do elenco cheio de caras conhecidas (Rodriguez, Sigourney Weaver como vilã, Tony Shalhoub, Anthony LaPlagia), a produção é paupérrima e lembra uma daquelas porcarias realizadas para canais vagabundos de TV a cabo. O roteiro é preguiçoso, há um excesso de rococós narrativos que só existem para encher linguiça (história contada em flashback durante interrogatório, vídeos em primeira pessoa da protagonista “conversando com o espectador”), e as cenas de ação são indignas de um cara que já fez filmaços como “O Limite da Traição” (citando Peckinpah!) e “O Último Matador”. Aliás, o termo “cenas de ação” é generosidade minha, pois estas se resumem a Michelle Rodriguez entrando no quadro, atirando em alguém e saindo do quadro. Também há um quê de comédia involuntária no fato de Hill ter colocado a própria Michelle Rodriguez no papel da sua contraparte masculina, pré-mudança de sexo. Com maquiagem tosca e algumas trucagens digitais risíveis, a impressão que passa é de estarmos vendo uma mulher barbada de circo, ou simplesmente Michelle Rodriguez com uma barba falsa de fantasia de carnaval, mas jamais um homem “de verdade”. Pior: depois da cirurgia de troca de sexo, o rosto permanece mais ou menos igual e parece que ela foi apenas barbeada! Não vale nem mesmo pela ironia de ter a atriz no papel de homem transformado em mulher, considerando que ela que está marcada pelos papeis de garota-machona em filmes tipo “Velozes e Furiosos” e “Resident Evil”. Já Sigourney Weaver imitando Hannibal Lecter, citando Shakespeare e Poe o tempo inteiro numa cela apenas para mostrar o quanto é culta e refinada, é puro constrangimento. Walter Hill poderia muito bem ter encerrado sua carreira com o filme do Stallone e pulado esse mico.


CRYSTAL LAKE MEMORIES - THE COMPLETE HISTORY OF FRIDAY THE 13th (2013, EUA.
Dir: Daniel Farrands)

Baseado no livraço homônimo escrito por Peter Bracke, que já era a coisa-mais-linda-desse-mundo, o documentário “Crystal Lake Memories: The Complete History of Friday the 13th” é absolutamente viciante: trata-se de um filme com SETE HORAS DE DURAÇÃO, mas tão interessante e bem editado que você assiste tranquilo e sem olhar para o relógio o tempo inteiro (o que já é mais do que eu posso dizer sobre muito filme de 90 minutos que vi recentemente). Aborda exaustivamente cada filme da interminável série iniciada em 1980, reservando entre 40 e 45 minutos para cada episódio, e não esquece nem mesmo do seriado de TV picareta do começo dos anos 1990 - cuja trama envolvia uma loja de antiguidades amaldiçoada e não tinha nada a ver com Jason. Perfeccionista como poucos, o diretor Daniel Farrands entrevistou nada mais nada menos de 150 pessoas ligadas ao universo da série: diretores, roteiristas, produtores, atores, técnicos de efeitos especiais e até o velhinho que alugou seu acampamento de férias para servir de cenário a um dos filmes! Sabendo da metragem assustadora do negócio (400 minutos!), eu coloquei o documentário para rodar pensando em assistir por etapas. Quando acabou o trecho sobre o filme original, pensei comigo mesmo: “Vou ver o que fala sobre o segundo”. Terminado o segmento sobre a Parte 2, e embora eu não goste tanto assim da Parte 3, pensei: “Ah, vamos adiante até a Parte 4, que é a minha preferida”. E ali chegando resolvi que veria também o segmento sobre a terrível Parte 5, apenas pelas risadas. E terminado este trecho, por que não dar uma olhada no que diziam sobre a Parte 6? E assim fui indo... Sem perceber, sem sequer notar a passagem do tempo, já tinha assistido a quase QUATRO HORAS do negócio sem parar! E apenas pela necessidade humana de dormir é que deixei as três horas finais do documentário (da Parte 7 até o pavoroso remake dos anos 2000) para depois! O documentário é simplesmente viciante porque histórias já bastante conhecidas são intercaladas com anedotas novas, e é bom perceber que os envolvidos em algumas das piores sequências têm vergonha na cara de assumir que fizeram cagada (dá até dó ouvir o diretor James Isaac falando sobre sua decepção com o resultado final de “Jason X”; aliás, por aqui descobri que o sujeito morreu anos atrás e eu nem sabia). Também é lindo ver as scream queens de cada uma das sequências reaparecendo em versões quarentonas ou cinquentonas, mas ainda muito bonitas e radiantes por serem lembradas por esses filmes toscos que estrelaram 30 anos atrás. Faltou o depoimento de astros como Kevin Bacon e Crispin Glover, que antes da fama também foram vítimas da série “Sexta-feira 13” (ambos falaram ao livro, mas não quiseram aparecer no documentário), porém é fácil perdoar sua ausência diante da riqueza do material reunido por Farrands e equipe - incluindo toneladas de cenas inacreditáveis de bastidores, finais alternativos e mortes mais sangrentas que foram cortadas pela censura. Curiosamente, à medida que os anos e sequências avançam, o interesse vai diminuindo - não por defeito do documentário ou de seu realizador, mas porque fimes como “Jason Vai para o Inferno” e o remake dirigido por Marcus Nispel são terríveis! Obrigatório para qualquer fã da série, e para fanáticos por slasher movies em geral, “Crystal Lake Memories: The Complete History of Friday the 13th” é narrado por Corey Feldman, um dos atores mais emblemáticos da franquia - que, ainda criança, interpretou Tommy Jarvis, o nêmesis-mirim de Jason na maravilha Parte 4. Desligue o celular, prepare um lanchinho, esvazie a bexiga e prepare-se para ficar hipnotizado diante da TV por muitas horas ininterruptas! E quem diria que um negócio tão divertido seria realizado justamente pelo roteirista de uma das piores sequências da série “Halloween” (Farrands escreveu a sexta “aventura” de Michael Myers, de 1995!).


NEVER HIKE ALONE (2017, EUA. Dir: Vincente DiSanti)
Pegando o gancho da resenha anterior, vale postar algumas linhas sobre “Never Hike Alone”, de Vincente DiSanti, um fan film que explora o universo de “Sexta-feira 13” e a melhor coisa situada nele desde a Parte 6 (que é de 1986; parece que foi ontem!). Extremamente bem produzido e bem filmado, este média-metragem de 53 minutos foi lançado numa sexta-feira 13 de 2017 (claro!), e é especialmente dedicado aos fãs das antigas. A história acompanha um mochileiro que está fazendo videozinhos (YouTuber?) da sua última trilha pela floresta, até topar com os escombros do que um dia foi o famoso Camp Crystal Lake. Ele resolve explorar o local com sua câmera em busca de mais views, mas não demorará a descobrir que a “lenda urbana” de Jason Voorhees é bem real. É o início de um longo jogo de gato e rato entre os dois e uma tensa luta pela sobrevivência. Ora narrativa tradicional, ora found footage (com imagens registradas pela camerazinha do protagonista), e com toneladas de referências à série “Sexta-feira 13” (tipo as fitinhas da polícia marcando as cenas de crime dos assassinatos da Parte 1, inclusive a cama onde morreu o personagem interpretado por Kevin Bacon!), “Never Hike Alone” ainda se dá ao luxo de trazer a participação especialíssima de um dos personagens mais queridos da série clássica, e interpretado pelo mesmo ator - o tipo de coisa que um estúdio jamais iria fazer porque eles parecem produzir filmes para imbecis, e não para fãs. DiSanti, que além de dirigir também “interpreta” o próprio Jason, consegue resgatar aquele clima de suspense e nostalgia dos, digamos, quatro primeiros filmes da série, onde o monstruoso assassino mascarado não era uma presença constante na tela e muito menos o protagonista dos filmes; pelo contrário, estes primeiros capítulos funcionavam justamente porque Jason aparecia pouco e nunca se sabia quando ou de onde ele iria surgir para atacar. Fica o apelo: se um dia algum estúdio quiser revisitar “Sexta-feira 13” com mais algum remake, reboot ou sei lá o quê, POR FAVOR chamem Vincente DiSanti para dirigir, ou ao menos para escrever o roteiro. (Clique aqui para ver o filme gratuitamente.)


THE GREEN INFERNO (2013, EUA/Chile/Canadá/Espanha. Dir: Eli Roth)
Na cena mais ridícula de “The Green Inferno”, o tão aguardado filme sobre canibalismo de Eli Roth, um maconheiro tenta escapar do cativeiro numa tribo de selvagens canibais amazônicos recheando o cadáver de uma amiga recém-falecida com seu suprimento particular de maconha (?!?). E eu nem vou entrar no mérito da imbecilidade de você tentar dopar uma tribo inteira de índios com, sei lá, 200 gramas de maconha, mas o fato é que funciona: a menina recheada de droga é colocada no forno e os índios ficam doidões. Só que o tiro sai pela culatra quando, em desenfreada larica (a fome incontrolável provocada pelo consumo excessivo de marijuana), eles atacam e devoram o próprio maconheiro como se fossem zumbis! E infelizmente essa não é a única cena ridícula despejada por Roth durante os 100 minutos de sua desastrada e decepcionante incursão pelo inferno canibal visto naqueles clássicos filmes italianos dos anos 1970, como “Cannibal Holocaust” e “A Montanha dos Canibais”. Sabe-se que as grandes atrações de todas essas obras, que declaradamente inspiraram o diretor a fazer o seu filme, eram sexo brutal, cenas de violência extremamente gráficas contra seres humanos e também as inevitáveis cenas de matança real contra animais, abatidos com precisão cirúrgica e pornográfica diante da câmera para tornar o espetáculo ainda mais grosseiro e realista. Portanto, sabe-se que estes filmes eram produto do seu meio e da sua época, e que jamais poderiam ser reproduzidos nos dias de hoje (para o bem e para o mal). Não se pode dizer que Eli Roth não tenha sido corajoso ao tentar, mas o fato é que sua tão prometida homenagem e declaração de amor a “Cannibal Holocaust” soa mais como uma sátira à obra-prima de Ruggero Deodato do que como um filme referencial ao subgênero ou uma homenagem séria. Vejam bem: não tenho nada contra humor em filmes de horror, a não ser que a proposta da obra em questão seja outra. Tenho certeza de que a mencionada cena envolvendo canibais emaconhados teria me feito rolar de rir num outro contexto, mas aqui não funciona - e, como já disse, quem me dera essa fosse a única cena ridícula! Se Roth pretendia apresentar a uma nova geração àqueles horrores da selva que os italianos filmaram nos anos 1970, errou feio. Seu filme não só não é sério o suficiente, mas também não é violento o suficiente. Não tem o mínimo de suspense ou tensão - simplesmente salta de uma cena de morte para outra, sem o menor desenvolvimento de personagens e situações. E consegue a proeza de reunir um dos piores grupos de protagonistas dos últimos tempos, de maneira que o espectador urra de satisfação a cada morte e quase tem vontade de participar do churrasquinho com os canibais. Isso é triste, pois a proposta do filme era quase genial: se os filmes italianos eram extremamente moralistas, mostrando personagens malvados que invadiam o território canibal e provocavam os nativos primeiro, levando o troco em seguida, aqui temos a ironia de um grupo de ativistas estilo Greenpeace que são aprisionados e mortos pela própria tribo que tentavam proteger. Mas nem isso Roth consegue aproveitar; pelo contrário, nos faz torcer pelos canibais diante da completa inexpressividade dos seus “heróis”! E embora alguns dos efeitos práticos sejam bem convincentes, na maioria das cenas sangrentas quase dá para sentir o cheiro de látex (e as formigas em computação gráfica são de lascar). É triste constatar que mais de 30 anos DEPOIS de “Cannibal Holocaust” os caras, com muito mais dinheiro e recursos, não conseguem sequer simular uma pessoa empalada como Deodato conseguiu na sua época de forma praticamente improvisada. Mesmo que Eli Roth sempre tenha sido mais falastrão do que um autêntico “mestre do horror”, seus filmes anteriores ainda não tinham descido a um nível tão baixo. Até agora, claro. “The Green Inferno” é uma bomba de proporções épicas, um dos piores filmes de horror da década. Sorte que canibais não se alimentam de filmes, ou esse aqui lhes daria uma bela dor de barriga...


BACANAL DO DIABO! (2013, Brasil. Dir: Ivan Cardoso)
Imagine se você tivesse acesso ao acervo de imagens de um cineasta veterano e ganhasse liberdade total para divertir-se com o material. O resultado provavelmente seria algo próximo a “Bacanal do Diabo!”, um filme-colagem editado pela celebridade do cinema udigrudi brasileiro contemporâneo Gurcius Gewdner, a partir de quase 40 anos de cenas de arquivo, out-takes de filmes, curtas nunca finalizados e bobagens diversas gravadas pelo grande Ivan Cardoso nos anos 1970-80. O resultado é uma coisa linda: provavelmente influenciado pela maravilhosa comédia “As Amazonas na Lua” (do qual inclusive pega emprestadas algumas vinhetas de passagens de tempo tipo zapping), “Bacanal do Diabo!” é uma sequência de pequenos filmetes (ou esquetes), trailers falsos de filmes que nunca existiram e nunca existirão (chupa, “Machete”!), um videoclipe com Jackson do Pandeiro, uma entrevista com Zé do Caixão, e por aí vai - como se alguém estivesse trocando os canais sem muita paciência numa TV a cabo from hell. Graças à criatividade (e/ou cara-de-pau) dos realizadores, cenas cortadas de “O Segredo da Múmia” são reaproveitadas e se transformam em vinhetas curtas, mostrando Wilson Grey e Felipe Falcão dançando com figurantes vestidas como egípcias; ou, mais tarde, Wilson Grey tocando o terror numa câmara de torturas, dublado com o discurso “instinto x razão” proferido pelo Mojica em “O Estranho Mundo de Zé do Caixão”. Lá pelas tantas, uma jovem Cláudia Ohana aparece sentando num prato de leite em imagens inéditas de um curta nunca lançado, e mais adiante ainda uma também jovem Cissa Guimarães chupa sorvete e anda de montanha-russa com (de novo ele) Wilson Grey, em imagens de outro curta nunca finalizado. Enfim, é um festival de imagens inacreditáveis que provavelmente mofariam na casa do Ivan se não fossem resgatadas nessa coletânea. E que coisa linda ver o Wilson Grey “ressuscitar” e marcar presença novamente como a grande figura que era - o Dick Miller do cinema brasileiro, onipresente em toda e qualquer produção nacional até sua morte! Esta não foi a primeira vez que trabalhos antigos do Ivan acabaram compilados numa espécie de antologia. Mas enquanto as coletâneas anteriores (“Ivampirismo” e “A Marca do Terrir”) eram um tanto maçantes, bombardeando o espectador com imagens desconexas e sem se preocupar em identificar onde um segmento começava e outro terminava, “Bacanal do Diabo!” faz um belíssimo uso da estrutura do zapping. É uma pena que, lá pelas tantas, a dupla Ivan/Gurcius apele para extremos totalmente desnecessários (tipo o close de um c* piscando), que não combinam com o clima maroto do restante da obra. Mas, pelo resgate (e registro) histórico, e pela proposta inusitada, esse “Amazonas na Lua” tupiniquim é altamente recomendado. Bem que alguém poderia fazer algo semelhante com a cacetada de material inédito/não-utilizado que o Mojica deve ter em casa...


AFTERSHOCK (2012, EUA/Chile. Dir: Nicolás López)
Nos anos 1970, os grandes filmes-catástrofe de Hollywood, como “Terremoto”, “Aeroporto” e “Inferno na Torre”, começavam com alguma tragédia descomunal que se tornava o estopim para histórias destacando a coragem e a superação humanas - o bombeiro idealista, o arquiteto corajoso, a aeromoça que precisa a qualquer custo pousar o avião em perigo. Não demorou para que realizadores mais distantes de Hollywood passassem a usar a mesma fórmula para apresentar não o heroísmo, mas sim o lado negro do ser humano em situações-limite. Por exemplo, o traumatizante “Ciclone”, do mexicano René Cardona Jr., começa com um furacão que deixa um pequeno bote à deriva no meio do oceano, e a partir de então vira um pesadelo de dimensões apocalípticas: seus tripulantes enfrentam fome, sede e tubarões, tendo que apelar até ao canibalismo (mostrado da forma mais gráfica possível) para tentar sobreviver. Esta vertente sensacionalista do cinema-catástrofe parece ter inspirado a produção chilena “Aftershock”. Nela, jovens fúteis que estão curtindo uma balada em Valparaíso, no litoral do Chile, sobrevivem a um terrível terremoto que devasta a cidade, mas percebem que o pior acabou de começar: feridos e perdidos num lugar que não conhecem, eles precisam enfrentar não apenas ruínas prestes a demoronar sobre suas cabeças, mas também bandidos violentos que fugiram do presídio e andam pelas ruas escuras matando e estuprando (nem sempre nesta ordem) qualquer coisa que ande em duas pernas - embora possam ter aberto algumas exceções. O filme é tosco e nem sempre convence, mas nesses tempos em que os realizadores parecem estar sempre com o pé no freio, com medo de ofender alguém, “Aftershock” faz o contrário: pisa fundo no acelerador e parece decidido a representar o lado mais escroto do ser humano, sem poupar nada nem ninguém. O roteiro foi co-escrito por Nicolás López, Guillermo Amoedo e pelo cineasta norte-americano Eli Roth, que na época estava zanzando pelo Chile dirigindo seu “The Green Inferno”. Roth também soma as funções de produtor e ator, interpretando um gringo paspalhão (ele mesmo, em suma), e deve ter influenciado bastante no resultado final, já que a estrutura lembra muito seu “Hostel - O Albergue”. Em ambos os filmes, jovens machistas que só querem farra e pegar mulher acabam envolvidos numa situação-limite em que terminarão cobertos de sangue; em ambos, testemunhamos uns 30 minutos de palhaçada adolescente estilo “American Pie” antes do horror começar; e ambos não poupam nem os personagens mais simpáticos de destinos terríveis (nos dois filmes, inclusive, o sujeito mais simpático do grupo é o primeiro a morrer). Outra semelhança entre “Aftershock” e “Hostel” parece ser a objetificação da mulher, mas aí há sérias divergências. Critique-se à vontade as representantes femininas em “Hostel”, gostosonas que aparecem o tempo inteiro peladas, mas pelo menos elas cumprem uma função na trama: se típicos turistas americanos idiotas pensam que as mulheres do Leste Europeu são bonecas infláveis ambulantes, nada melhor do que tornar-se a fantasia para atraí-los para a morte, como as sereias da Grécia Antiga. Em “Aftershock”, por outro lado, não tem desculpinha. O desfile de bundas com shortinhos e/ou biquínis atolados, e garotas fúteis que não cumprem nenhuma função na trama além de serem gostosas pegáveis para os protagonistas, chega a incomodar tanto quanto os membros decepados e pessoas queimadas vivas - e o fato de, em 2018, o diretor chileno López ter sido acusado de assédio sexual por atrizes e modelos explica muita coisa.


WHEELMAN - MOTORISTA DE FUGA (Wheelman, 2017, EUA. Dir: Jeremy Rush)
Se Michael Mann fosse convidado para dirigir um remake de “Drive”, do Nicolas Winding Refn, mas para a TV, no estilo de suas incursões pela mídia lá nos anos 1980 (nas séries “Miami Vice” e “Crime Story”, ou no telefilme “Os Tiras de Los Angeles”), o resultado provavelmente seria algo próximo de “Wheelman”, mais uma produção original Netflix. Não que seja um grande filme, longe disso. Mas o primeiro longa de Jeremy Rush é muito interessante enquanto experimento: o sujeito fez um filme inteiro com a câmera posicionada dentro de um carro ou próximo dele (sobre o capô, nas laterais, ao lado das rodas). Sempre que seu motorista - o protagonista solitário da trama - abandona o carro para entrar em algum edifício, a câmera aguarda pacientemente no banco de trás do veículo até ele voltar a dirigir, muitas vezes filmando a ação de longe, forçando o espectador a imaginar o que está acontecendo. A trama é sobre o tal wheelman, que trabalha como motorista de fuga para criminosos, mas na verdade é bonzinho - ele precisa pagar a dívida que tem com uma quadrilha. Em certa noite de trabalho, o cara começa a receber misteriosas ligações pelo celular ameaçando-o, e à sua família, caso ele não cumpra uma série de ordens transmitidas pelo misterioso interlocutor. É o início de um curioso thriller automobilístico que lembra, de certa maneira, a situação de Jamie Foxx em “Colateral”. As luzes da cidade refletidas no capô do carro em movimento, ou vistas fora de foco pelo pára-brisa, também lembram muito a fotografia dos filmes do Mann (por isso citei o nome do diretor várias vezes ao longo da resenha). O lance da câmera fixa no carro pode até parecer chato - e no começo é mesmo, já que só acompanhamos o motorista falando ou berrando ao celular dentro do veículo em movimento -, mas “Wheelman” tem algumas belas cenas de perseguições em alta velocidade e tiroteios, filmadas com bastante realismo (novamente, à la Michael Mann), para premiar a paciência do espectador. O grande problema é que se trata de um one-man show, com um protagonista que aparece sozinho durante 90% do filme, e ainda fala sozinho boa parte do tempo. Frank Grillo, o escolhido para a difícil tarefa, até se esforça para dar conta do recado, mas não tem carisma para carregar o filme inteiro nas costas. Seu motorista é inexpressivo e não consegue alternar emoções (passa o tempo todo com a mesma expressão facial). Talvez o filme ficasse bem melhor com outro protagonista. Curiosamente, a BMW que ele dirige torna-se um personagem tão ou mais marcante do que seu motorista. Mas fãs de clássicos como o “The Driver”, do Walter Hill, devem achar a proposta no mínimo interessante - nem que seja pela tentativa de se contar uma história já batida de forma ligeiramente diferente e original.


OLHOS FAMINTOS 3 (Jeepers Creepers III, 2017, EUA. Dir: Victor Salva)
Em 2001 assisti a um filme sem maiores referências e expectativas chamado “Olhos Famintos”, e fiquei impressionado com a forma como o diretor-roteirista Victor Salva fugiu das amarras do slasher movie padrão para criar um universo novo, com sua própria mitologia, suas próprias regras e um monstro interessantíssimo. Infelizmente, Salva não conseguiu repetir a dose em “Olhos Famintos 2” (de 2003), e passou os próximos anos da sua vida tentando fechar a trilogia com um terceiro capítulo que ninguém queria produzir - uma das ideias originais era que fosse uma prequel no Velho Oeste. Muita água rolou, o criador da franquia virou persona non grata no mundo do cinema graças a um caso de pedofilia no seu passado, e isso obviamente comprometeu sua carreira e a possibilidade de um novo filme. Isso talvez explique a decepção que é “Olhos Famintos 3”, finalmente filmado e lançado quase 15 anos depois da Parte 2. Salva surpreende ao situar a trama no espaço de tempo entre as Partes 1 e 2, ao invés de continuar a história do segundo filme. Assim, a narrativa começa imediatamente após a fuga da criatura da delegacia (levando consigo um Justin Long jovenzinho, conforme visto no final do original). A polícia está às voltas com o sinistro veículo que o monstro dirigia pelas estradas para coletar suas vítimas, e estes primeiros 15 minutos são bem legais, expandindo a mitologia da série e transformando a criatura num “monstro caçador” estilo Predador, com um verdadeiro arsenal de armas e armadilhas no interior do seu veículo. É saindo da delegacia que a história começa a degringolar, pois Salva fica trocando o foco para diversos personagens, um mais desinteressante do que o outro, enquanto seus caminhos cruzam com o da criatura devoradora de carne humana. Até existe um fiapo narrativo muito interessante no meio disso, envolvendo um grupo fortemente armado que se dedica a caçar o monstro há anos, e que tenta detê-lo de uma vez por todas. Mas as boas intenções acabam indo para o buraco porque, como já falei, a história acontece ANTES de “Olhos Famintos 2”, quando o monstro estava bem vivinho, então já sabemos desde o começo que a caçada do tal grupo será completamente infrutífera! Já a conclusão cria um elo direto não apenas com a Parte 2 (ao mostrar o ônibus de estudantes que é perseguido pelo monstro neste filme), mas também com o original, trazendo de volta uma personagem de “Olhos Famintos 1” e prometendo uma quarta continuação, provavelmente o “Capítulo Final” que eu duvido que Salva conseguirá fazer nesta vida. Mesmo sendo bem fraco enquanto filme e enquanto continuação, “Olhos Famintos 3” é minimamente louvável pelo esforço do realizador em revisitar as histórias anteriores, ao invés de apelar para o caça-níqueis puro e simples. Ele chega ao cúmulo de colocar o ator Brandon Smith, que aparecia cinco minutos como xerife no final da Parte 1, como um dos personagens principais deste aqui! Isso inclui o esforçado Victor entre os poucos diretores que conseguiram conduzir suas próprias séries de horror originais e com considerável liberdade, escrevendo e dirigindo todos os episódios sem a interferência de “invasores” (assim como Sam Raimi na trilogia “Evil Dead” e Don Coscarelli na quadrilogia “Phantasm”). E por mais irregulares que sejam estes três filmes, Salva conseguiu criar um universo relativamente original; portanto, é uma pena que este terceiro episódio simplesmente não funcione, mostrando demais o monstro e transformando-o numa espécie de Jason ou Freddy, arruinando o suspense que funcionou tão bem nos filmes anteriores, e apelando para efeitos de computação gráfica de quinta categoria. O resultado é ainda mais frustrante quando teve gente que esperou 14 anos por uma nova sequência. E é claro que o fato de o criador da bagaça ter sido condenado e preso por violência sexual contra uma criança torna a trilogia “Olhos Famintos” ainda mais bizarra e assustadora, já que o monstro pode ser visto como uma representação do desejo sexual do realizador por garotinhos. Mas é óbvio que os monstros da vida real, como o próprio Victor Salva, são muito mais aterrorizantes...


SIN CITY - A DAMA FATAL (Sin City: A Dame to Kill For, 2014, EUA. Dir: Robert Rodriguez
e Frank Miller)

Tem algo de muito errado quando você assiste a um filme repleto de tiros, carros velozes, atores famosões, cabeças decepadas com espada ninja e Eva Green peladona, mas passa a maior parte do tempo olhando para o mostrador do DVD ou para o relógio para ver quanto tempo ainda falta para a terminar. Pois assim é “Sin City - A Dama Fatal”, continuação atrasadíssima do belo filme dirigido por Robert Rodriguez e Frank Miller em 2005 - ambos baseados na HQ estilizada escrita e desenhada por este último. Assim como o original, a sequência também narra três histórias sem ordem cronológica definida (inclusive algumas se passam ANTES das histórias contadas no original, logo personagens que morreram naquele reaparecem aqui ainda vivos). Muito já foi dito e escrito sobre o quanto o filme já nasceu ultrapassado (visualmente e narrativamente), por sair uma década depois do original, e como é fraco em comparação ao primeiro e ao material (HQ) em que se baseia. Por conta disso eu já esperava algo tão feio quanto um acidente de caminhão, mas o filme até que é assistível, embora tão meia-boca e repetitivo quanto praticamente tudo que o Rodriguez dirigiu na última década (“Machete”, alguém?). O principal problema de “Sin City - A Dama Fatal” é que os segmentos são fraquíssimos e não trazem nenhum momento realmente impressionante - ou pelo menos novo - em relação ao filme anterior. As duas histórias novas e inéditas, que o Miller escreveu especialmente para filmar, são péssimas. E já faz algum tempo que o Rodriguez desaprendeu a filmar cenas de ação e acha que basta colocar alguém cortando cabeças, ou flechas disparadas no olho, para quebrar o galho e satisfazer o espectador. Só que o subterfúgio da violência exagerada/engraçadinha perde a graça bem rápido, ainda mais depois da sexta ou sétima flechada no olho. E aí nem a Eva Green peladona consegue manter a atenção do espectador por um filme inteiro. Como eu já escrevi, é mais assistível do que eu esperava pelas críticas que li, mas é a tal da continuação que não acrescenta absolutamente nada, e que você esquece meia hora depois de ver. Não é nem ao menos divertida, embora sempre seja legal ver atores fodões e um tanto esquecidos, como Ray Liotta e Powers Boothe, de volta às telas (esse último finalmente num papel de destaque, como grande vilão de duas das histórias). Talvez funcionasse melhor se as histórias fossem separadas e vendidas como episódios de 25 minutos para um seriado de TV a cabo, mas como longa é frustrante. Para dois caras que já foram referência de modernidade em suas áreas, Rodriguez e Miller estão soando beeeeem ultrapassados...


FESTA ASSASSINA (Murder Party, 2007, EUA. Dir: Jeremy Saulnier)
Esta é mais uma daquelas produções independentes fadadas ao completo esquecimento, apesar de o diretor estar fazendo uns filmes celebrados agora (entre eles, o angustiante thriller “Green Room”). Uma daquelas produções pelas quais você provavelmente passará batido, a não ser que algum amigo de confiança recomende, como aconteceu comigo. E é uma pena, porque se trata de uma divertida mistura de thriller com comédia sem medo de dar banho de sangue com efeitos práticos e à moda antiga. Trata-se da obscura aventura de um abobado sem namorada e sem amigos que, na noite de Halloween, encontra na rua um convite para o que promete ser uma festa de arromba. Como parece uma alternativa melhor do que passar a noite assistindo filmes vagabundos com seu gato, ele improvisa rapidão uma armadura de cavaleiro medieval usando papelão e fita-tape (uma criação na tênue linha entre o genial e a vergonha alheia) e parte serelepe para o endereço do convite - um suspeito armazém numa área distante do centro da cidade. Ali, encontra um “coletivo de artistas” que está preparando sua última intervenção artística: um assassinato real. No caso, o dele. Com menos de 80 minutos de duração e sem perder tempo com bobajadas, “Murder Party” engrena rapidão e bombardeia o espectador com piadas grosseiras que funcionam (especialmente aquelas envolvendo os virjões do “coletivo”) e situações inesperadas. O sangue só começa a jorrar no último ato, mas vale a pena: tem até serra elétrica na cabeça. E é uma autêntica catarse ver artistas mimados se ferrando! Plenamente consciente de suas limitações técnicas e narrativas, o diretor-roteirista Saulnier mantém sua história dentro do armazém durante a maior parte da narrativa (estilo “Cães de Aluguel”), e ainda adiciona uns leves toques de “Depois de Horas” à trama, incluindo um desfecho bem parecido. Definitivamente não é para todos os públicos, mas quem entrar no espírito da brincadeira deve curtir - e recomendar para outros amigos.


VOCÊ É O PRÓXIMO (You're Next, 2011, EUA/Reino Unido. Dir: Adam Wingard)
No conceito, “You're Next” tinha tudo para ser um thiller arrepiante. O trailer inclusive prometia uma mistura do recente “Os Estranhos” com o clássico da TV aberta “A Fortaleza”, ao mostrar uma família que se reúne num local ermo e é atacada por misteriosos assassinos usando máscaras sinistras de animais. Mas na prática o filme é uma decepção desde os primeiros minutos, tornando-se mais um belo argumento de que deveriam criar uma categoria no Oscar para os trailers. Sabe-se que, em geral, filmes de terror exigem algo chamado suspension of disbelief do espectador (ou, em outras palavras, ser generoso e fechar um olho para a lógica). Mas “You're Next” exige generosidade DEMAIS, e poderia até ser engraçado caso fosse uma comédia e não se levasse tão a sério. Digamos apenas que os personagens passam o filme inteiro tomando atitudes mais estúpidas do que as da garotada de “Sexta-feira 13” mais de 30 anos atrás (e merecidamente morrendo por causa delas), e nenhum destes personagens têm uma única reação que lembre um ser humano normal passando por aquela situação. Aí, lá pelo final do segundo ato, o roteiro se mete a explicar o motivo por trás da ação dos assassinos desconhecidos, e nesse momento a trama descamba ainda mais, pois as ações de alguns personagens soam mais absurdas (e o próprio uso da frase “You're Next”, que parecia tão importante no começo, perde totalmente o sentido). Entre uma frustração e outra(s), a melhor coisa além das máscaras sinistras dos assassinos (que mereciam estar num filme melhor e, principalmente, ser vestidas por vilões melhores) é o fato de o diretor-indie e mala-sem-alça de carteirinha Ti West fazer uma ponta como “cineasta culti” e morrer por primeiro com uma flechada no meio dos cornos. Fora isso, o diretor Adam Wingard (um dos envolvidos no igualmente insuportável "V/H/S") falha em todas as categorias, não conseguindo criar qualquer suspense ou tensão (mesmo com aquelas máscaras tão legais...), e reunindo um grupo de personagens tão desagradáveis e insuportáveis que o espectador passa a torcer pelo massacre do grupo inteiro. A evitar. Caso contrário, “você será o próximo” a se enfurecer com essa bomba! (Maaaaaas o filme pode ter certo interesse para o público pós-2019 por mostrar que, sim, um liquidificador pode ser usado como arma mortal, numa cena que ironicamente dialoga com uma recente e lamentável declaração do ministro da Casa Civil Onyx Lorenzoni.)


HOMEM-FORMIGA (Ant-Man, 2015, EUA. Dir: Peyton Reed)
Como nas resenhas curtinhas anteriores eu detonei a sequència, achei interessante resgatar minhas mal-traçadas linhas sobre o original. O Homem-Formiga não é exatamente um dos heróis mais conhecidos e/ou amados do Universo Marvel. E, embora tenha feito parte da formação clássica dos Vingadores durante anos, nunca foi tão popular para ter uma revista só sua, como os colegas Homem de Ferro e Homem-Aranha. Também não é um dos personagens mais fáceis de adaptar para o cinema, dada a sua trajetória bizarra nos quadrinhos: começou com o poder de encolher e depois mudou para o poder de aumentar até ficar gigante; lá pelas tantas desenvolveu esquizofrenia e uma segunda identidade, a do anti-herói Jaqueta Amarela; foi o criador de Ultron, aquele robô indestrutível que até hoje toca o terror nos quadrinhos; para arrematar, costumava sentar a porrada na esposa Janet/Vespa, que pediu o divórcio em um momento histórico dos gibis lá nos anos 1980. Por tudo isso, é uma verdadeira surpresa que não só tenham feito um filme solo do herói, como também um belo filme. Concebido como projeto dos sonhos do diretor Edgar Wright (“Shaun of the Dead”, “Baby Driver”), que pulou fora na metade do segundo tempo alegando diferenças criativas, “Homem-Formiga” foi dirigido por Peyton Reed, um cara que até então praticamente só tinha comédias no currículo. A julgar pela sua filmografia pregressa, ele saiu-se bem demais. O filme escapa daquela necessidade infantil e mercadológica da maioria das aventuras de super-heróis de mostrar uma explosão a cada cinco minutos (pelo jeito, Reed deixou para fazer isso na frustrante sequência). Prefere deter-se no desenvolvimento dos personagens, usando boa dose de humor no processo. Por causa disso, me lembrou bastante o primeiro filme do Homem de Ferro, que não por acaso também tinha um diretor sem muita afinidade com o negócio (Jon Favreau, outro egresso das comédias), que também soube ver o humor das situações ALÉM das explosões. O roteiro de “Homem-Formiga”, que ainda mantém muitas das ideias de Wright, espertamente relega o problemático personagem original (Hank Pym) ao papel de tutor de um novo “herói”, o bandido regenerado Scott Lang. Michael Douglas interpreta o velho Formigão e Paul Rudd o novo, numa química que lembra “A Máscara do Zorro” (onde o velho herói interpretado por Anthony Hopkins também ensinava e passava o traje para um jovem bandido, Antonio Banderas). O grande vilão, como no debut cinematográfico do Homem de Ferro, é um ambicioso magnata da indústria armamentista, coincidentemente também careca, como Jeff Bridges naquele filme! Ao contrário de presepadas tipo “Os Vingadores 2” e “Guardiões da Galáxia”, em que a quantidade de lutinhas e explosões acaba se tornando repetitiva e cansativa a ponto de enterrar a narrativa, “Homem-Formiga” prefere explorar o treinamento do pupilo e as maravilhas de um novo universo que se abre para o protagonista, onde até mesmo gotas de água transformam-se em perigos mortais. Convenhamos que o Homem-Formiga não tem o mais prático dos superpoderes, pois ao encolher acaba se tornando mais frágil e vulnerável às ameaças; por isso, os roteiristas tiveram que sacrificar as cenas de ação e pancadaria por momentos criativos em que Lang usa mais sua astúcia e esperteza do que os músculos (além da ajuda das amigas formigas, é claro). O “Jaqueta Amarela” também aparece, mas agora como vilão declarado, e o filme tem pelo menos uma grande cena: herói e vilão em miniatura lutando dentro de uma maleta fechada, desviando de chaves, balas e celulares gigantes. Michael Douglas aparece mais do que eu imaginava (pensei que ele iria cumprir o papel de Tio Ben em “Homem-Aranha” ou do Prof. Yinsen em “Homem de Ferro”), e o passado do diretor Reed com comédias familiares ajudou a humanizar os personagens, criando uma interessante situação que envolve o herói, a filha e o novo marido da sua ex-mulher. Tem lá seus deslizes (um trio de bandidos engraçadinhos que tenta funcionar como alívio cômico, mas exagera na dose), mas mostra o potencial de levar ao cinema personagens do segundo escalão da Marvel, menos visados (e menos “superprotegidos” pelos fãs) do que astros como Capitão América e Homem-Aranha. Outro ponto positivo de “Homem-Formiga” é que ele não te obriga a ver três ou quatro filmes relacionados para entender a trama, como já é tradicional no universo cinematográfico da Marvel. Há algumas referências pontuais aos outros heróis e a participação especial de um deles, mas nada que exija fazer um intensivão com todos os outros longas para poder seguir a história. Não sei o que Edgar Wright planejava para a sua versão do personagem, mas do jeito que está saiu bem melhor que a encomenda. Pena que, né, estragaram tudo na sequência...


SOBREVIVENTE (Backcountry, 2014, Canadá. Dir: Adam MacDonald)
Praticamente todo ano sai um survival horror envolvendo protagonistas civilizados sendo obrigados a comer o pão que o diabo amassou na natureza selvagem, e este “Sobrevivente” não é nem melhor nem pior do que a média. Poderia muito bem se chamar Open Forest, tamanhas as semelhanças com o filme “Open Water” (lançado no Brasil como “Mar Aberto”). Se naquele thriller angustiante um casal ficava perdido no meio do oceano à mercê dos elementos naturais e tubarões, e aproveitava o momento tenso para realizar uma longa D.R., tentando determinar qual dos dois foi o culpado pela situação, antes de resolver se unir para tentar sobreviver, aqui um casal se perde num imenso parque florestal à mercê dos elementos naturais e de um gigantesco urso, furioso por invadirem seu habitat, mas resolve aproveitar o momento tenso para realizar uma longa D.R., tentando determinar qual dos dois foi o culpado pela situação, antes de resolver se unir para tentar sobreviver. Primeiro longa do diretor Adam MacDonald, também roteirista, “Sobrevivente” funciona, e embora não acrescente absolutamente nada para quem já viu outros títulos no mesmo estilo, tem pelo menos duas cenas espetaculares que já valem a locação/download: o choque dos protagonistas quando eles sobem até o topo de uma montanha acreditando que vão ver um belo lago, porém se deparam com uma floresta intransponível para todos os lados (comprovando que estão irremediavelmente perdidos), e o violento e brutal ataque do urso a um pobre coitado, que é literalmente rasgado em pedaços como se fosse uma boneca de pano, dispensando o glamour e as mortes limpinhas que o cinema geralmente reserva a alguém atacado por um animal tão monstruoso (vale lembrar que os grandes ursos podem chegar a três metros de altura e 800 kg!). De resto, lembra até “A Bruxa de Blair” nas diversas cenas em que o casal é assombrado por barulhos noturnos do lado de fora de sua barraca, e traz uma longa e desnecessária cena com Eric Balfour, o clone ianque do Marcos Mion. Também faz falta uma última cena poderosa para fechar a trama à altura. Mas tenho certeza de que o filme vai aterrorizar aqueles moleques e molecas de apartamento, que só veem mato quando estão assistindo TV confortáveis no sofá e zapeiam rapidinho pelo canal da National Geographic.


MERCENÁRIOS 3 (The Expendables 3, 2014, EUA/França/Bulgária. Dir: Patrick Hughes)
Sonho de infância de algumas gerações de marmanjos, a franquia “The Expendables” acabou se revelando um grande desperdício. No mesmo nível do segundo, e ambos bem melhores do que o primeiro, “Mercenários 3” é tão descartável (será por isso o título original?) e esquecível quanto os demais. O fato de terem eliminado todo sangue e violência para baixar a censura para PG-13 nos Estados Unidos (e garantir mais ingressos vendidos nos cinemas) certamente atrapalha, porque obriga o diretor a desviar a câmera da ação, ou o editor a cortar as cenas muito rapidamente, aumentando aquela impressão de “videoclipão” que já permeia a cinessérie. Tem um momento em que o Stallone mata um vilão atirando através de um outro vilão que estava na sua frente, e que ficou praticamente incompreensível pois a classificação etária não permitiu mostrar as balas atravessando o corpo. Também é imperdoável que os realizadores não tenham filmado as benditas (ou malditas) cenas sangrentas para fazer duas versões, uma mais leve para os cinemas e outra sem cortes e com a carnificina intacta para DVD. Tudo considerado, este terceiro “Expendables” diverte, embora pudesse ser IN-FI-NI-TA-MEN-TE melhor. Para um cara que foi ícone do cinema de ação dos anos 1980, é espantoso que Stallone não tenha aprendido nada sobre o que fazia os filmes da época tão legais: não era apenas a contagem de cadáveres, não era apenas “mirar e atirar”, era filmar AÇÃO direito, cenas que faziam a diferença, que continuam memoráveis anos depois. Tipo Stallone emergindo da lama para matar um inimigo em “Rambo 2”, ou Schwarzenegger pulando do avião em “Comando para Matar”, ou toda e qualquer cena de “Duro de Matar”. Não existe nada assim em nenhum dos “Mercenários”: os atores famosões ou de segundo escalão se limitam a apontar suas armas para os inimigos e atirar, sem que nenhuma grande cena surja do processo; cinco minutos de um “The Raid” valem pelos três “Mercenários” inteirinhos! Então por mais que seja divertido rever Wesley Snipes, Harrison Ford (pagando um micão) e Antonio Banderas num filme de ação, logo a presença deles perde a razão de ser porque não fazem nada diferente de “mirar e atirar”. Já Mel Gibson como vilão é um verdadeiro desperdício: a luta final dele com Stallone não poderia ser mais fraquinha, ainda mais depois que já vimos o Rambo quebrando o pau com o Van Damme no final do segundo filme. Considerando que um dos grandes papeis de Gibson foi como Mad Max, como é que ninguém sugeriu fazer um último duelo entre herói e vilão numa perseguição de carros, ao invés de terminar na manjada luta física? Uma rara boa notícia é que aqui um diretor de verdade substituiu o charlatão da segunda parte: Patrick Hughes é um nome a se acompanhar (não deixem de ver seu excelente “Red Hill/Busca Sangrenta”), e menos videoclipeiro que o anterior Simon West - pelo menos dá para entender a maioria das cenas de ação. Também é bem legal finalmente ver uma “mercenária” em ação (a lutadora de MMA Ronda Rousey), que consegue ser mais valentona que muitos dos colegas homens, considerando que não arrega na hora de sair na pancadaria física com os vilões ao invés de só “mirar e atirar”. Embora perfeitamente assistível, “Mercenários 3” não consegue apagar a impressão de que o sonho de todo fã de filme de ação dos anos 1980 acabou virando, no máximo, um passatempo supérfluo e anos-luz aquém do potencial. Qualquer moleque que cresceu vendo os filmes da Cannon escreveria e faria um “Expendables” melhor que esses três.


BONE TOMAHAWK (2015, EUA/Reino Unido. Dir: S. Craig Zahler)
“Once Upon a Time in the West... a Cannibal Holocaust” seria uma bela frase para o cartaz do incrível “Bone Tomahawk”, filme de estreia do romancista S. Craig Zahler como diretor e roteirista. Além das duas obras-primas citadas, esta bizarra mescla de western clássico com horror antropofágico também poderia ser descrita como um mistura de “Rastros de Ódio”, do John Ford, com “Quadrilha de Sádicos”, de Wes Craven. Mais do que um belíssimo filme por si só, “Bone Tomahawk” ajuda a disfarçar o gosto amargo deixado por duas produções recentes que se propuseram a fazer o mesmo, mas separadamente, dentro dos dois gêneros ou subgêneros: o desengonçado “Django Livre”, de Quentin Tarantino, que pretendia prestar reverência aos arquétipos e clichês do western, e o ridículo “The Green Inferno”, de Eli Roth, que tinha a pretensão de ser um horror canibal ao estilo dos banhos de sangue italianos dos anos 1970 (imagino que tanto Roth quanto Tarantino devem ter morrido de vergonha dos seus respectivos filmes ao conferirem este aqui). A história é de uma simplicidade tremenda: no Velho Oeste, quatro homens embarcam numa missão de resgate à esposa de um deles, que foi sequestrada por uma tribo de canibais. O argumento simplório serve como desculpa para Zahler fazer um ótimo estudo de personagens clássicos do western, como o xerife durão interpretado por Kurt Russell (em seu melhor papel em... sei lá, décadas). Os diálogos excessivamente longos e rebuscados entre os personagens durante sua cavalgada denunciam o fato de o diretor Zahler ser, originalmente, um homem das letras, e lembram tanto Tarantino quanto a principal fonte de inspiração deste, o também escritor Elmore Leonard. E provocam um irônico contraste com o silêncio e a comunicação gutural entre os canibais no ato final. A violência não é constante, mas surge sempre em rompantes súbitos e inesperados, sem ser anunciada por cortes na montagem ou pelo súbito aumento da trilha sonora, desorientando o espectador. O preparo de um pobre coitado como jantar pelos canibais surpreende não apenas pela truculência mostrada sem cortes (de colocar no chinelo o “Green Inferno” inteiro), mas principalmente por ser historicamente fiel à maneira como os verdadeiros antropófagos esquartejavam suas vítimas, e não como o cinema acostumou-nos a ver o banquete. “Bone Tomahawk” é um western cruel e niilista como os bons títulos de Sergio Corbucci e Lucio Fulci, que contrasta de maneira inteligente a crueldade dos “civilizados” com a dos canibais, fazendo-nos questionar, como Ruggero Deodato sugeria mais de 30 anos atrás em “Cannibal Holocaust”, quem são os verdadeiros selvagens. E se já não bastassem as interpretações inspiradas dos protagonistas Russell, Patrick Wilson, Matthew Fox e Richard Jenkins (este quase rouba o show), o elenco ainda tem pequenas participações de atores conhecidos como David Arquette, Sid Haig, Sean Young, Michael Paré e James Tolkan! O resultado é brilhante, e transformou o novato Zahler em meu novo cineasta preferido, de quem comecei a acompanhar com entusiasmo cada novo projeto - como veremos a seguir...


CONFRONTO NO PAVILHÃO 99 (Brawl on Cell Block 99, 2017, EUA. Dir: S. Craig Zahler)
Surgido literalmente do nada e com uma obra-prima como filme de estreia (“Bone Tomahawk”, logo acima), o diretor-roteirista S. Craig Zahler escapou da pecha de one hit wonder, como diversos antes dele, acrescentando outro filmaço à sua curta trajetória no cinema. “Brawl in Cell Block 99” é um thriller que tem o impacto de uma tijolada na cara. Não por acaso, Zahler cita no título outro cineasta que não tinha meias-medidas, Don Siegel (que assinou um filmaço de prisão nos anos 1950 chamado “Riot in Cell Block 11”). Diferente do que se pode esperar pelo título e pelo argumento, “Brawl in Cell Block 99” lembra aqueles thrillers de vingança vindos da Coreia; violento e pesado, reúne uma impressionante galeria de personagens filhos-da-puta, onde o que parece mais civilizado (Udo Kier) ameaça mandar pelo correio os braços de um bebê ainda não-nascido - e ele não está brincando! Vince Vaughn está incrível como o criminoso pé-de-chinelo que tem seu próprio código de honra, e que está na bandidagem apenas para dar uma vida melhor à esposa. Após uma “negociação” que dá errado, o malandro acaba na pior das cadeias, envolvido no cruel esquema de vingança perpetrado por um desafeto. Poucos lembram que Vaughn surgiu como ator sério nos anos 1990 (ou alguém ainda lembra que ele foi o Norman Bates no remake de “Psicose”?), e toda uma geração deve conhecê-lo das comédias tipo “Com a Bola Toda” e “Penetras Bons de Bico”, gênero pelo qual ficou marcado nas duas últimas décadas. Para estes a surpresa será ainda maior: aqui o ator aparece truculento e ameaçador como nunca, e convence. Não contente em resgatar Vaughn do limbo, Zahler também deu ao veterano Don Johnson seu melhor papel desde sei-lá-quando como o sádico diretor do presídio - logo Johnson, que recentemente foi desperdiçado tanto por Robert Rodriguez quanto por Tarantino em “Machete” e “Django Livre”! Minha única reclamação é em relação à primeira parte do filme, desnecessariamente lenta na apresentação do personagem principal (com direito àquelas longas cenas do cara introspectivo dirigindo sem rumo, uma praga do cinema moderno). Mas pelo menos Zahler passou a borracha naqueles diálogos rebuscados de “Bone Tomahawk”, colocando frases mais realistas na boca dos personagens. E no momento em que o bicho começa a pegar não tem mais volta, com braços quebrados como gravetos e cabeças arrancadas. Já estou aqui esperando ansiosamente pelo terceiro filme do cineasta, que terá não apenas Vince Vaughn outra vez no elenco, mas também Mel Gibson! Recomendo que vocês façam o mesmo.


CREED - NASCIDO PARA LUTAR (Creed, 2015, EUA. Dir: Ryan Coogler)
Aproveitando que a Parte 2 está chegando aos cinemas brasileiros, resgato também estas linhas sobre “Creed - Nascido para Lutar”. Enquanto o assistia - numa sala de cinema, como deve ser -, me peguei pensando: teve alguma outra vez que o cinema nos deu a oportunidade de acompanhar um personagem em seus altos e baixos durante 40 anos? Porque o mais comum é substituir atores quando estes já estão velhos demais, para dar a falsa impressão de que o personagem é imortal (James Bond, super-heróis diversos), ou descartar o herói quando ele já está velhinho demais para convencer e passar o bastão para a nova geração. Pois de “Rocky - Um Lutador” (1976) a “Creed”, tivemos a oportunidade de acompanhar o processo de amadurecimento e envelhecimento de Rocky Balboa durante quatro décadas, e sempre personificado pelo mesmo Sylvester Stallone, que aprendeu, errou e ficou velho junto com o personagem! Como é que ainda tem gente que acha “Boyhood” o máximo depois disso? Aqui, obviamente, o foco não é no Garanhão Italiano, e sim no novato filho de Apollo Creed, antigo rival e amigo de Rocky, morto no ringue durante uma luta com Ivan Drago no impagável “Rocky IV”. Mas quem viu todos os filmes da série vai acabar com os olhos marejados de qualquer maneira. Porque se o filme anterior, “Rocky Balboa” (2006), tratava do medo de envelhecer e de uma última tentativa de provar para si mesmo que não estava velho demais, “Creed” é sobre reinícios; sobre o fim de uma era (Balboa) e o início de outra (o legado de Apollo Creed pelo seu filho, Adonis). Se em 2006 Rocky ainda tinha medo de estar velho demais, aqui ele ESTÁ velho demais, já perdeu todo mundo que tinha junto de si e sabe que o próprio fim está próximo; em 2006 a luta era aguentar de pé (e vivo) até o último round no ringue, aqui é simplesmente conseguir subir os antológicos degraus da escadaria do Museu da Filadélfia sem sofrer um infarto no processo. Enfim, é emocionante ver um personagem do auge à aposentadoria, e a série “Rocky” deve ter sido uma das poucas que nos permitiu esse luxo. Tirando as cenas com Balboa (e obviamente Stallone é um ladrão de cenas), “Creed” é um belo filme com um protagonista simpático, interpretado por Michael B. Jordan (então se recuperando do mico de ter aparecido naquele reboot de “Quarteto Fantástico”). Desce redondo e não tenta inventar moda; pelo contrário, traz aquele mais do mesmo sobre o jovem lutador que precisa provar ao mundo que é foda, mas primeiro precisa convencer a si mesmo - aquele 'bla bla bla' que já vem desde o primeiro “Rocky”. Eu nunca encarei os filmes do Balboa como algo além de diversão fugaz, mesmo o primeiro e Oscarizado capítulo da “saga”. O único que acho realmente um filmaço (e relevante de alguma maneira) é “Rocky Balboa”; todo o resto é ou divertido, ou mais do mesmo/guilty pleasure. “Creed” pelo menos investe um pouco mais no humor (Balboa confuso sobre o que é a “nuvem” mencionada pelo jovem pupilo é genial), e também na técnica. Seria difícil surpreender o espectador depois de tantos filmes sobre boxe realizados antes e depois do “Rocky” original, mas este aqui mostra uma luta inteira filmada em plano-sequência sem cortes (pelo menos aparentes) que é simplesmente incrível em seu prodígio técnico, colocando o espectador no ringue junto com os lutadores - e demonstrando o talento do diretor Ryan Coogler, que daqui passaria ao comando do sucesso “Pantera Negra” para a Marvel. O confronto final tem direito a todos os clichês da série (inclusive sangue cuspido em câmera lenta depois da inevitável bordoada na cara) e à música-tema rimbombando épica, para todo mundo se sentir moleque outra vez. Nem melhor do que “Rocky Balboa”, nem pior que “Rocky 5”, este spin-off da franquia menina-dos-olhos de Stallone dá uma sobrevida (mas com o devido respeito) a uma história que já tinha sido concluída com chave de ouro pelo próprio Stallone lá em 2006. Pode-se até dizer que não acrescenta nada, mas e o que acrescentaram as Partes 2 a 5? E é tão raro ver um ator (mesmo um confessadamente limitado, como Stallone) entregar-se durante tantos anos a um mesmo personagem (mesmo um confessadamente limitado, como Balboa) que só por isso o retorno de Rocky à telona, ainda que como coadjuvante, já se torna obrigatório, tanto para fãs da série quanto para marinheiros de primeira viagem.



VOO 7500 (Flight 7500, 2014, Japão/EUA. Dir: Takashi Shimizu)
Houve um tempo, entre final dos anos 1990 e começo dos 2000, em que os filmes orientais com fantasmas eram meu tipo preferido de horror. O filão fez sucesso no Ocidente, deu origem a uma cacetada de refilmagens horríveis e durou tempo considerável para percebermos como seus clichês e sustos se desgastavam rapidamente. Criador da franquia “Ju-On/O Grito” (e diretor tanto dos originais quanto das refilmagens americanas), o japonês Takashi Shimizu foi um dos expoentes dos filmes com fantasminhas de rosto branco e olho puxado. Mas vendo seu recente “Voo 7500”, lançado em 2014, fica difícil de entender como é que Shimizu já foi algum dia considerado um mestre do gênero - ou como é que conseguimos ser enganados tanto tempo por ele. Trata-se de uma história de assombração que se passa num voo comercial entre Estados Unidos e Tóquio - um lugar fechado e apertado de onde não há saída, e onde os personagens estão aprisionados durante horas sem salvação. Para quem naturalmente já se caga de medo de avião, como eu, parece um ponto de partida fantástico para um filme de terror. Mas a execução é amadora e o filme até parece ter sido dirigido por um dos tantos songomongos que refilmaram o horror japonês nos EUA, e não por um dos seus expoentes. Repleto de sustos frouxos e de aparições fantasmagóricas já vistas antes (e melhor) em dezenas de outros terrores orientais, “Voo 7500” é muito mais interessante e assustador ANTES do horror sobrenatural efetivamente começar, quando tripulação e passageiros são obrigados a lidar com violentas turbulências que realmente podem acontecer durante um voo comum. Mas no momento em que os fantasminhas começam a pipocar o filme se torna sonolento e preguiçoso; tão preguiçoso que acaba optando, pela enésima vez, por um dos desfechos mais batidos e frustrantes do horror contemporâneo, um que os roteiristas adoram usar quando falta uma resolução real para a trama (não o “Foi tudo um sonho”, aquele outro que você já deve ter imaginado...). Ironicamente, um dos passageiros do condenado voo assiste a um clássico do terror nas alturas antes da bagunça começar: o episódio “Nightmare at 20.000 Feet”, com William Shatner, do seriado “Além da Imaginação”, sobre um passageiro assombrado por um monstro - que somente ele vê - na asa do avião em que viaja. Produzido há mais de meio século, ainda dá um banho em muito filme meia-boca com situação parecida, tipo o próprio “Voo 7500”.


KINGSMAN - SERVIÇO SECRETO (Kingsman: The Secret Service, 2014, Reino Unido/EUA.
Dir: Matthew Vaughn)

Enquanto os blockbusters de Hollywood vêm optando por um tom desnecessariamente solene (quem foi que pediu por um Batman sério e realista, por um James Bond sério e realista?), o inglês Matthew Vaughn se diverte como se ainda estivesse nos anos 1980, fazendo filmes-pipoca em que parece estar se divertindo junto com o espectador. Tipo “Stardust”, um filme de fantasia infanto-juvenil para adultos como “A História Sem Fim” foi para a minha geração; ou “Kick Ass”, tirando onda dos super-heróis no momento em que os grandes estúdios estão levando os carinhas fantasiados excessivamente a sério. Já com “Kingsman - Serviço Secreto” Vaughn tenta corrigir o desserviço prestado por Jason Bourne e pelo novo 007 ao universo dos filmes de espionagem: é um filme-pipoca sobre espiões para aquela geração que cresceu vendo os fimes LEGAIS do 007 dos anos 1960, 1970 e 1980! “Kingsman” foi inspirado numa HQ de Mark Millar, o mesmo maluco que escreveu “Kick Ass”. A adaptação para o cinema toma diversas liberdades poéticas, mas quase todas as mudanças foram para melhor. Vá lá que eu prefiro um nerdão-cabaço estilo Mark Zuckerberg como vilão (tipo acontecia nos quadrinhos do Millar) do que Samuel L.Jackson interpretando um nerdão-cabaço aqui, mas de resto ficou incrível. Apesar de ser uma história com um protagonista adolescente, que poderia gerar uma adaptação mais inofensiva para o público dessa faixa etária (estilo “Pequenos Espiões” ou bobagem que o valha), o diretor não se rende ao PG-13 e enche seu filme com piadas adultas e cenas de extrema violência. Tem um massacre numa igreja em que o espectador até se pega rindo de nervoso, tal a quantidade de atos de violência apresentados num curtíssimo espaço de tempo - e que, nem precisa dizer, você jamais veria numa produção da Marvel. Numa época em que “filme de ação” é concebido pensando apenas na quantidade de explosões e de CGI, “Kingsman” surpreende com lutas e tiroteios muito legais, quase sempre ao som de música pop. Tudo com aquele climão de filme do James Bond das antigas, em que o vilão tem um plano megalomaníaco e um esconderijo super-maneiro nas montanhas, uma assistente que usa próteses cortantes como arma (versão século 21 do chapéu do velho Odjobb em “Goldfinger”), enquanto os heróis utilizam aqueles gadgets absurdos e divertidos que foram aposentados nas aventuras novas do 007. Pra mim, “Kingsman” é a melhor aventura de espionagem desde “True Lies”, e lá se vão 20 anos. Infelizmente, o mesmo Vaughn deu uma derrapada feia na sequência, “Kingsman - O Círculo Dourado”, que falha em repetir as melhores coisas do original. Sabe como é, não se pode acertar sempre...


A.C.A.B.  - ALL COPS ARE BASTARDS (2012, Itália/França. Dir: Stefano Sollima)
Até que demorou para alguém fazer um filme sobre uma das profissões mais odiadas do momento: os policiais da tropa de choque, responsáveis pelo controle de multidões, e que tiveram atuação questionável e/ou desnecessariamente violenta em quase todas as grandes manifestações populares realizadas aqui no Brasil nesses últimos anos. Demorou, mas compensou: “A.C.A.B.” é um filmaço tenso, seco e cru dirigido por Stefano Sollima (filho do Sergio, um dos gigantes do cinema italiano dos anos 1960-70). A trama acompanha o dia-a-dia de alguns policiais da tropa de choque da polícia italiana, sem nenhum glamour, enquanto eles tentam controlar protestos, violentas torcidas organizadas e desocupações de imóveis por ordem judicial. Trata-se de uma produção italiana, mas se alguma distribuidora comprasse os direitos e dublasse em português passaria tranquilamente por produção brasileira, ainda mais pelas semelhanças entre os problemas abordados (principalmente os conflitos com os selvagens disfarçados de torcedores). E lá na Itália, segundo o filme, a polícia também sofre com baixos salários, altíssima pressão, despreparo para lidar com situações complexas e o ódio da opinião pública. Como o foco da narrativa recai sobre um novato que é rapidamente integrado à rotina violenta e com regras próprias dos veteranos da tropa, “A.C.A.B.” chega a lembrar um pouco o nosso “Tropa de Elite” - em ambos os filmes os policiais acabam cruzando o limite das leis para fazer o que acham que é “certo” (em outras palavras, fazer com que essas leis sejam cumpridas. não importa como). Embora eu obviamente (e moralmente) não concorde com as ações representadas, Sollima não cai na armadilha de representar seus policias como grandes heróis incorruptíveis, nem como vilões sedentos de sangue. Pelo contrário, prefere mostrar que, por trás do escudo e do cassetete, existem seres humanos que nem sempre concordam com as ordens que receberam, mas cuja função é fazer com que estas ordens sejam cumpridas, enquanto os homens responsáveis por elas ficam confortáveis em seus gabinetes e com a consciência tranquila. Em outras palavras, é uma classe que será odiada tanto se fizer quanto se NÃO fizer o seu trabalho. O resultado é um filmaço necessário no momento atual - menos para quem acha que “Tropa de Elite” é filme fascista e não tem discernimento para separar realidade de ficção, obviamente.


BARRACUDA - O PROJETO LÚCIFER (Barracuda, 1978, EUA. Dir: Harry Kerwin e Wayne Crawford)
Se “Piranha”, do Joe Dante, é considerado o primo pobre de “Tubarão” (1975), então “Barracuda - O Projeto Lúcifer” deve ser o primo crackeiro do filme do Spielberg. Curiosamente, este e “Piranha” foram lançados no mesmo ano de 1978 (o filme do Dante antes), e têm tramas parecidas envolvendo peixes transformados em armas assassinas graças ao tradicional projeto militar ultrassecreto. Numa hipotética competição entre os dois longas, “Barracuda” já sairia ganhando porque o seu peixe-monstro é muito mais legal: para quem não conhece, a barracuda parece um mini-tubarão, é muito maior do que a piranha e sua bocarra repleta de dentes também deve fazer mais estrago do que a minúscula boquinha da piranha (que só é realmente perigosa quando ataca em cardume). Mas enquanto “Piranha” era um óbvio filme B que conseguia disfarçar o orçamento baixo com criatividade, “Barracuda” esfrega esta pobreza na cara do espectador e parece ter sido produzido com centavos roubados da caixinha da igreja. Inclusive as danadas das barracudas assassinas fazem meramente uma ponta, aparecendo menos no filme do que o tubarão do Spielberg - na maior parte do tempo, só vemos o xerife e um oceanógrafo zanzando pela tela e “investigando”, de maneira desinteressante, se a poluição gerada por uma fábrica de produtos químicos estaria relacionada às mortes por ataques de peixes numa pequena cidade litorânea. No terceiro ato, os dois mais a filha adolescente do xerife saem num barquinho para caçar as barracudas, e só faltou mesmo um rude pescador como o Quint para parecer ainda mais plagiado de “Tubarão” - pelo menos colocaram uma garota bonita no lugar do brucutu do Robert Shaw! “Barracuda” teve dois diretores: o veterano Harry Kerwin foi o único creditado no filme e no pôster, fez a maior parte do troço e morreu logo no ano seguinte (este é seu último trabalho); o segundo é o também astro Wayne Crawford, que dirigiu as cenas submarinas. Estas são o ponto alto do filme, o que justifica o nome de Crawford como co-diretor. Os (poucos) ataques das barracudas mostram que os bichos não estão pra brincadeira e ilustram muito bem sua ferocidade, com direito a carne humana roída até o osso e membros decepados. Digamos que os momentos com os peixes em ação, pelo menos, são muito mais convincentes que os de “Piranha” e seus peixinhos de plástico, e é uma boa tática tingir a água de vermelho-sangue para esconder a falta de recursos para uma maquiagem mais elaborada. Logo, é uma pena que o restante do filme seja tão soporífero - mas quem aguentar acordado vai se surpreender com um desfecho trágico e corajoso.


AJUSTE DE CONTAS (Grudge Match, 2013, EUA. Dir: Peter Segal)
Rocky Balboa Vs. Jake LaMotta? Mas essa é a luta do século!!! Quando surgiram os primeiros boatos sobre “Ajuste de Contas”, uma história sobre a revanche entre dois velhos e amargurados boxeadores 30 anos depois de sua última luta, eu até lamentei que o possível “Rocky x Touro Indomável” fosse uma comédia, e não um drama sério. Depois de ver o filme, porém, percebo como estava enganado, pois narrar essa história de maneira cômica é o grande acerto dos realizadores. Stallone e DeNiro estão perfeitos satirizando os icônicos personagens que interpretaram (pela primeira vez) no final dos anos 1970/início dos 1980: DeNiro repete seu LaMotta como Billy 'The Kid' McDonnen, ex-boxeador gordinho e mulherengo, que é dono de um clube e até faz shows de stand-up comedy para aumentar a féria do dia; Stallone repete sua versão de Balboa vista em “Rocky Balboa” como Henry 'Razor' Sharp, um ex-lutador que preferiu ficar longe dos holofotes e acabou pobretão. Eles mantêm uma rivalidade de três décadas, depois que Sharp arregou e fugiu do tira-teima que definiria o grande campeão em 1984 (até então, cada um tinha ganhado uma luta). Mas um empresário espertalhão resolve ganhar dinheiro explorando essa revanche com os dois vovôs. “Ajuste de Contas” brinca o tempo inteiro com os dois filmes de boxe feitos por DeNiro e Stallone (esse último tira sarro até da famosa cena em que treina socando peças de carne num frigorífico), mas também é muito inspirado nas suas tiradas sobre rivalidade e idade avançada. Tem uma mensagem edificante sobre família e superação, mas felizmente não exagera na dose de melodrama e nem tem medo de brincar com a imagem de valentão dos protagonistas - só a cena do Stallone fazendo exame de próstata já vale o filme inteiro! As piadas realmente fazem rir, os diálogos entre os dois astros são afiadíssimos, Kim Basinger volta à telona em alto estilo, Allan Arkin quase rouba a cena como velhinho safado e há uma coleção de momentos hilários e antológicos para escolher, seja Stallone dando porrada no falastrão do MMA Chael Sonnen, seja a cena pós-créditos trazendo dois grandes ídolos verdadeiros do boxe que, assim como Stallone e DeNiro, não têm vergonha de brincar com a própria imagem. Uma bela surpresa, que talvez não tenha sido tão comentada e apreciada quanto deveria.


A HORA DO ESPANTO (Fright Night, 2011, EUA. Dir: Craig Gillespie)
Odeio quando aparece um novo filme de zumbis e seus personagens não sabem o que é um zumbi, ou não sabem que é preciso atirar na cabeça para matá-los. Quer dizer, com no mínimo meio século de mitologia sobre mortos-vivos em cinema, literatura, gibis, séries de TV e cultura pop em geral, chega a ser ofensivo (pra não dizer idiota) que você faça um filme de zumbis em pleno século 21 com personagens que precisam aprender do zero sobre essas criaturas. A mesma lógica pode ser aplicada a outros monstros populares, como os vampiros. E aí chegamos ao remake de “A Hora do Espanto”, de 2011 - uma produção medíocre, com uma história que chama o espectador de imbecil a cada segundo. Primeiro, é preciso entender o contexto em que o filme original foi feito, lá em 1985. Na época, além de obviamente não existir internet nem telefones celulares (e existirem roupas e cortes de cabelo terríveis), vampiros eram criaturas fora de moda que evocavam principalmente os velhos filmes da Hammer, ou Bela Lugosi. Enfim, motivo de piada para a molecada descolada da época, que vivia o auge da fase Spielberg/George Lucas. A última coisa relevante que havia sido feita com vampiros no cinema foi o “Drácula” do John Badham em 1979 (ou o “Fome de Viver” em 1983, que nem é um filme de vampiros strictu sensu, e mais um drama sobre a imortalidade). Nesse sentido, a gente entende muito melhor a dificuldade do jovem protagonista do “A Hora do Espanto” de 1985 para convencer seus amigos, seus pais e a polícia de que o seu novo vizinho é um vampiro. E embora ele saiba uma coisa ou outra sobre vampirismo graças aos filmes e livros que viu e leu, não existe Google para pesquisar e o protagonista precisa da ajuda da única pessoa com conhecimento sobre o tema: um velho e decadente ator que fazia filmes de vampiros nos anos 60 e 70. E se o caçador de vampiros é um tipo ultrapassado e cafona, o vampiro interpretado por Chris Sarandon não podia ser mais modernoso. O diretor-roteirista Tom Holland optou por não apresentá-lo como a típica criatura da noite no estilo do velho Drácula. Pelo contrário, “A Hora do Espanto” foi, provavelmente, uma das primeiras tentativas (junto com “Fome de Viver”) de recauchutar os sanguessugas para uma nova geração e transformá-los em algo mais sensual e contemporâneo. Outro detalhe absolutamente genial do “A Hora do Espanto” original é que embora a história se passe numa vizinhança contemporânea, o vampiro se muda para a única casa antiga e com um quê de gótica das redondezas - uma presença tão antiquada e deslocada naquele ambiente moderno quanto o próprio monstro. E aí saltamos 30 anos para o futuro e o que temos? Vampiros nunca foram tão populares quanto agora, especialmente graças ao (des)serviço prestado por franquias lucrativas como “Crepúsculo” na literatura e no cinema, e seriados tipo “Vampire Diaries” e “True Blood”. A quantidade de filmes e livros sobre vampirismo só não é maior que a quantidade de sites sobre o mesmo tema. Ainda assim, quando um vampiro de verdade aparece na sua vizinhança, o jovem protagonista de 2011 (Anton Yelchin, morto prematuramente em acidente bizarro) precisa se disfarçar de jornalista para invadir o camarim de um mágico de Las Vegas para tentar descobrir como pode matar um vampiro! Quer dizer, até os jovens do “A Hora do Espanto” de 1985 estavam mais atualizados, auto-conscientes do próprio universo de fantasia em que se inseriam, do que os jovens de 2011 com toda a tecnologia ao seu favor, e que, apesar da popularização do vampirismo, não sabem sequer as regras da coisa!!! O novo filme falha até em fazer piada com o conflito “cultura popular x realidade” (há uma única piada sobre “Crepúsculo”, e bem fraca), e não é nem ao menos uma atualização decente de um filme que sequer está datado. Pelo contrário: telefones celulares aqui não servem para nada (obviamente não há sinal quando alguém precisa de um), e nem mesmo a internet. Se transformar o caçador de vampiros Peter Vincent de um ator dos anos 1970 em ilusionista afetadinho estilo Criss Angel foi o máximo de moderno que os realizadores conseguiram pensar, sinto informar que em alguns anos esse detalhe vai deixar o novo “A Hora do Espanto” muito mais datado e ultrapassado do que o original. Porque ninguém vai lembrar quem foi Criss Angel, ao contrário do Peter Cushing que inspirou o Peter Vincent de 1985, devidamente enraizado na cultura pop (se não pelos seus filmes de vampiro, pela participação em “Star Wars”!). Além do quê o fato de o cara ser um ilusionista não faz diferença alguma na trama, visto que ele jamais usa seus poderes para qualquer coisa contra o vampirão. E já que tocamos nele, o novo Jerry Dandridge, interpretado por Colin Farrell, é de longe uma das piores coisas da refilmagem. O vampiro descolado de Chris Sarandon virou um arremedo de galã de rodoviária que sequer tem um criado morto-vivo para lhe servir. Ele não se muda para um velho casarão gótico, mas sim para uma casinha comum e sem graça no subúrbio, onde não demora muito tempo para criar uma labiríntica estrutura com corredores e celas para suas vítimas (mais para serial killer do que para vampiro), além de cavar uma imensa catacumba sem chamar a atenção de ninguém. E ao invés de ficar de boas e tentar se misturar, como Sarandon no original, Farrell parece fazer de tudo para chamar a atenção para si, inclusive dizimar a vizinhança inteira (o que misteriosamente nunca atrai a atenção da polícia ou parece intrigar os demais personagens). Outra das coisas geniais do filme de 1985 era o suspense gerado pela dificuldade que o jovem protagonista tinha para convencer todo mundo de que seu novo vizinho era um vampiro. Aqui no remake essa dificuldade praticamente não existe, pois Farrell é tão bandeirão que se denuncia mais e mais a cada minuto. Aí não demora para o filme se transformar naquele corre-corre/foge-foge do monstro sem a menor criatividade, com direito a uma longa e mal-filmada perseguição automobilística e até EXPLOSÕES (quando o vampiro resolve driblar a regra de que não pode entrar numa casa sem ser convidado EXPLODINDO A CASA!!!). Ah, será que preciso mencionar também que os belos efeitos práticos do filme original, um dos motivos pelo qual ele foi tão bem-sucedido em sua época, deram lugar a terríveis explosões de vampiros em CGI, sangue em CGI e a um Jerry Dandridge com maquiagem afetadíssima, que lembra mais um chefão de game de luta dos anos 1990 do que um vampiro? Que cenas icônicas como a cruz deixando uma cicatriz na testa do moleque-vampiro, ou a sedução do vampirão à namorada do herói, ou o derretimento do criado morto-vivo, não existem aqui? Que uma das coisas mais irritantes do original, o Evil Ed (“Maldoso”, na dublagem nacional) interpretado por Stephen Geoffreys, ganhou uma versão dez vezes mais irritante graças à interpretação afetada de Christopher Charles Mintz-Plasse? E só para arrematar: passados 30 anos entre um filme e outro, os caras não conseguem nem ao menos criar um cartaz tão legal quanto o de 1985, preferindo a típica montagem padronizada de Photoshop sem nenhuma criatividade! Se fosse para citar um único ponto positivo no remake de “A Hora do Espanto”, com muita boa vontade eu citaria a ponta de Chris Sarandon, que teve a presença de espírito de aparecer rapidinho como uma vítima do novo Jerry Dandridge (embora também nisso tenha faltado criatividade para fazer uma piadinha qualquer que linkasse a ponta com o original de alguma forma). De resto, um filme execrável que falha em todos os sentidos, e que não consigo imaginar para que tipo de público foi feito (se os realizadores pensam que o espectador é retardado mental, ou se eles mesmos o são). Que não atualiza nada, que não melhora nada (muito pelo contrário), que não consegue sequer se inserir decentemente numa longa série de títulos sobre o tema ou de gênero. Que não faz qualquer diferença, digamos, e que é esquecido cinco minutos depois de ser visto. É surpreendente que o mesmo diretor depois tenha feito um filmaço como “Eu, Tonya”...