sábado, 17 de novembro de 2018

TARGET EARTH (1954)


Filme antigo em preto-e-branco. A humanidade está sendo ameaçada por um inimigo desconhecido. A cidade tornou-se um túmulo. Um pequeno grupo de desconhecidos busca abrigo num local abandonado e tenta sobreviver, embora os avanços do Exército contra o inimigo sejam em vão. Isolados e assustados, os personagem começam a lutar e se matar entre eles, demonstrando que diante de uma ameaça desconhecida o ser humano ainda é um inimigo muito pior...

Até parece que estamos falando do clássico "A Noite dos Mortos-Vivos”, de George A. Romero, que redefiniu o horror ao ser lançado lá atrás, em 1968, correto?

Mas não: a descrição acima pertence a uma produção ANTERIOR ao Romero, lançada quase 15 anos antes (em 1954), e que por uma série de fatores (como veremos) não fez o mesmo sucesso, nem é tão memorável quanto o clássico “A Noite dos Mortos-Vivos” - embora talvez tenha influenciado o diretor; é uma pena que ninguém nunca perguntou enquanto ele estava vivo. Estamos falando de TARGET EARTH, uma esquecida ficção científica classe B que, apesar de trazer uma situação-limite bem parecida, não tem mortos-vivos comedores de carne humana, e sim... robôs assassinos do planeta Vênus!!!



TARGET EARTH (exibido nos cinemas brasileiros como “Invasão do Mundo”) foi produzido nos anos 1950, quando os cinemas norte-americanos estavam sendo invadidos por... bem, invasores alienígenas! A febre dos filmes com discos voadores, monstros cheios de tentáculos e robôs assassinos têm uma explicação psicológica: no livro “The Monster Show: A Cultural History of Horror”, o pesquisador David J. Skal argumenta que o fantástico, tanto na literatura quanto no cinema, sempre usou a ansiedade coletiva para provocar uma catarse, de maneira a preparar massas de espectadores para suportar a paranóia e o medo da morte iminente.

Nos anos 1950, quando esses filmes foram produzidos praticamente em escala industrial, o que causava ansiedade no cidadão norte-americano era a Guerra Fria entre os Estados Unidos e a extinta União Soviética, e o medo de que sua grande nação fosse invadida pelo “perigo comunista” (percebam que certos medos volta-e-meia retornam...).



Assim, o cinema de gênero aproveitou para explorar a ameaça, de maneira simbólica, nos filmes sobre invasões “alienígenas” do período, onde os monstros muitas vezes não apenas dominavam e aniquilavam a raça humana (leia-se Estados Unidos da América), mas também controlavam seus cidadãos ou os substituíam por réplicas sem emoção (em produções como “It Conquered the World”, “Vampiros de Almas” e “Invasores de Marte”), numa alegoria aos “inimigos comunistas” infiltrados entre os “cidadãos de bem”.

TARGET EARTH começa com uma sequência de imagens que lembra outro clássico posterior - o “Psicose” (1960) de Alfred Hitchcock: uma câmera aérea vai se aproximando lentamente do conjunto de prédios de uma grande cidade até “entrar pela janela” de um deles, onde uma moça seminua (para os padrões da época, claro; na verdade ela veste uma recatada camisola) está deitada na cama.

O contexto da cena, entretanto, é completamente diferente de “Psicose”: se lá Marion Crane (Janet Leigh) tinha acabado de fazer sexo, aqui Nora King (Kathleen Crowley, cujo visual e figurino parecem ter inspirado a personagem de Sherilyn Fenn em “Twin Peaks”) acorda de uma mal-sucedida tentativa de suicídio - antes de chegar na moça, a câmera “passeia” pelo chão e passa por sua mão caída ao lado de um vidro de pílulas para dormir, aberto e com alguns comprimidos espalhados, num daqueles belos planos que explicam tudo sem que uma única palavra seja dita.


 
Frustrada por não ter conseguido morrer (o que é irônico, já que ela passará o restante dos 65 minutos do filme lutando pela vida!), Nora levanta, se veste e sai do quarto para descobrir que seu apartamento está sem luz e sem água. Ela sai e não encontra ninguém nos corredores do prédio. Do lado de fora, um silêncio mortal e nenhuma pessoa ou carro nas ruas. É como se ela fosse a última pessoa sobre a terra, tipo Robert Neville no clássico livro “Eu Sou a Lenda”, de Richard Matheson, que por coincidência foi publicado no mesmo ano.

Os próximos minutos mostram o desespero da garota zanzando por ruas completamente desertas de uma grande cidade (segundo o filme, Chicago) sem encontrar ninguém. Até que, virando uma esquina, ela topa tanto com o cadáver de uma garota quanto com um homem bem vivo, Frank Brooks (Richard Denning, que no mesmo ano enfrentou o Monstro da Lagoa Negra no filme homônimo de Jack Arnold).


 
O medo fala mais alto e a mocinha tenta fugir, mas é perseguida e acalmada como os homens costumavam acalmar as mulheres nestes filmes dos anos 1950 (ou seja, com umas porradas). Ele explica que está na mesma situação: após uma noitada num bar, foi drogado, roubado e deixado para “dormir” num beco, e ao acordar também encontrou a cidade deserta. O que terá acontecido?

Pelos primeiros 35 minutos de TARGET EARTH, Nora e Frank irão caminhar pela cidade deserta em busca de um veículo para darem o fora (nenhum deles funciona porque foi convenientemente retirada uma peça do motor), um rádio para ouvir as notícias (igualmente nenhum deles funciona porque convenientemente as baterias também desapareceram) ou outras pessoas vivas que possam explicar o mistério.



Acabam encontrando um bizarro casal (Virginia Grey e Richard Reeves) que aproveita o apocalipse para comer e beber à vontade num restaurante chique. Mas logo a sombra ameaçadora de um perigo desconhecido assusta os sobreviventes, que buscam abrigo num hotel deserto e, através de uma manchete de jornal, finalmente descobrem o que aconteceu: a Terra está sendo invadida por alienígenas vindos de Vênus, que desembarcaram um exército formado por milhares de robôs indestrutíveis para patrulhar as ruas e eliminar qualquer humano que encontrem pela frente com seu “raio da morte”. Chicago foi completamente evacuada pelo Exército (e os sobreviventes deixados para trás estavam ou dormindo, ou muito ocupados para perceber o que acontecia), mas os robôs continuam à solta para eliminar quem sobrou.

E assim, após uns bons 35 minutos atormentando o espectador com o medo do desconhecido, TARGET EARTH finalmente materializa a sua ameaça. E o faz na frustrante forma de um desconjuntado robôzão de borracha, que se locomove a zero quilômetros por hora e é tão ameaça quanto uma tartaruga assassina. Pior: o suposto “exército de milhares de robôs” anunciado pelo jornal (e pela bela arte do pôster de cinema) nunca dá as caras, porque os produtores só tinham dinheiro para fazer um único traje de robô, então é sempre o mesmo robô zanzando solitário de lá para cá atrás dos protagonistas!



Com uma ameaça tão tosca e tão pouco assustadora ou ameaçadora, a trama acaba se beneficiando da tensão entre os humanos, relegando os robôs venusianos a um segundo plano (como Romero faria depois com seus zumbis): não bastasse as discussões entre os dois casais, logo aparece um quinto sobrevivente, um psicopata chamado Davis (Robert Roark), que, armado com um singelo revólver, acaba se demonstrando um horror muito pior (e mais real) do que o raio da morte dos invasores alienígenas.

Infelizmente, a narrativa começa a ser interrompida com bastante frequência por cenas envolvendo reuniões de emergência do Exército para tentar deter a ameaça (pffff...) dos inca... opa, robôs venusianos. Chatíssimas, estas cenas tiram todo o impacto e sensação de tensão e isolamento dos momentos com os sobreviventes na cidade deserta; enquanto os milicos conversam sem parar sobre planos para deter os invasores, cientistas estudam alternativas para eliminar os robôs, que são imunes a balas e bombas.

Lá pelas tantas, finalmente, ondas sonoras surgem como alternativa eficaz para o problema, numa solução que depois apareceu em filmes tão díspares quanto “Invasores Invisíveis / Invisible Invaders” (1959), “Invasão de Discos Voadores / Earth vs. the Flying Saucers” (1966), “Marte Ataca” (1996) e, mais recentemente, “Um Lugar Silencioso” (2018).



TARGET EARTH foi dirigido por Sherman A. Rose, que até então era conhecido como um exímio editor de filmes B de faroeste. Entre 1937 e 1943, ele montou 23 aventuras do hoje esquecido herói Hopalong Cassidy, um valente Texas Ranger que era interpretado por William Boyd no cinema. Depois foi trabalhar como editor em seriados de TV, até ser convidado para seu primeiro trabalho na direção com esta mirabolante trama sobre robôs assassinos do planeta Vênus.

Rose não teve uma carreira muito expressiva na função: depois deste só assinou outros dois filmes, incluindo o clássico trash “Tank Battalion”, de 1958 (um filme de guerra construído ao redor de cenas de arquivo de guerras verdadeiras!). Aí desistiu desse negócio de dirigir e voltou para o departamento de edição, onde trabalhou até o final dos anos 1960. Rose morreu em 1986.

Fica claro que Sherman Rose era apenas um diretor de aluguel, contratado por alguns trocados para tocar o projeto pelo verdadeiro cérebro por trás de tudo: o famoso produtor Herman Cohen, que notabilizou-se por espetáculos sensacionalistas e com nomes apelativos como a cópia feminina de King Kong, “Konga” (1961), e as clássicas picaretagens com monstros adolescentes “I Was a Teenage Werewolf” e “I Was a Teenage Frankenstein”, ambos de 1957.



Numa entrevista à revista Fangoria, em janeiro de 1992, Cohen lembrou que TARGET EARTH nasceu quando ele comprou uma daquelas revistas de pulp fiction tão comuns na época, que traziam contos de ficção científica e horror, e encantou-se com uma história chamada “Deadly City” (Cidade Mortal), escrita por Paul Warren Fairman (1909-1969) usando o pseudônimo “Ivar Jorgensen”. A revista em questão foi a IF Magazine de março de 1953, que inclusive anunciava “Deadly City” na capa.

“Jim Nicholson [James H. Nicholson, então presidente da American International Pictures, que produziu os primeiros filmes de Roger Corman] estava comigo, se interessou pela história e começou a escrever um tratamento, e eu o comprei de Jim por 250 dólares. Mudei o título para TARGET EARTH e comecei a escrever um roteiro com um sujeito chamado Bill Raynor”, explicou o produtor.

Bill Raynor era William Raynor, que roteirizou alguns outros filmes B de ficção científica do período (como “Phantom from Space”, de 1953, e “Killers from Space”, de 1954), antes de também terminar na TV, escrevendo episódios dos seriados “Agente 86” e “Os Gatões”.



À época, Cohen ainda não era o “super-produtor” que acabaria se tornando - ele tinha trabalhado como produtor executivo e produtor associado em outros seis filmes. TARGET EARTH foi sua primeira grande aposta, que ele tirou do papel praticamente sozinho, conforme relatou à Fangoria: “Eu era um jovem com vinte-e-poucos anos e consegui marcar um encontro com Harold Mirisch e Steve Broidy, da Allied Artists. Eles leram minha primeira versão do roteiro e gostaram. Eu disse que poderia filmá-lo por menos de 100 mil dólares, e eles entraram com parte deste dinheiro. No fim gastamos menos que isso, acho que foram uns 85 mil dólares”.

Como é sabido, no universo do cinema barato um orçamento apertado exige vários sacrifícios e muita malandragem dos realizadores para que as coisas funcionem sem gastar muito. No caso de TARGET EARTH, as filmagens tiveram um cronograma apertadíssimo (apenas SETE DIAS!) e aconteceram em julho de 1954, principalmente em estúdio.



Já as cenas que mostravam os atores caminhando pela cidade deserta foram filmadas sem nenhum tipo de permissão e a mais de 3.000 quilômetros da Chicago de verdade, em Los Angeles! L.A. era muito mais movimentada que Chicago, mas também livrava os realizadores de bancarem os custos de transporte até a outra cidade (e vá entender porque simplesmente não trocaram de cidade na história, considerando que a geografia não afeta a trama em absolutamente nada!).

Sem permissão oficial para fechar ruas e desviar o tráfego, Cohen e sua trupe filmavam cedinho da manhã (o céu cinzento começando a clarear é perceptível em várias cenas), quando ainda era possível circular pelas ruas praticamente desertas. “Filmamos nos finais de semana e sem autorização nas ruas desertas de Los Angeles do início da manhã para conseguir as cenas da cidade evacuada”, explicou Cohen. “Um amigo meu era policial e nos acompanhou algumas manhãs vestido com seu uniforme para tornar 'oficial', mas não tínhamos nenhuma autorização e poderíamos acabar com sérios problemas”.



A malandragem deu certo e estas cenas funcionam muito bem, chegando a lembrar “Mortos que Matam / The Last Man on Earth”, a primeira adaptação do livro “Eu Sou a Lenda”, que foi feita dez anos depois de TARGET EARTH. Infelizmente, o material filmado não deve ter sido suficiente na hora da edição, e por isso o filme também usa freeze frames (imagens congeladas) de algumas ruas desertas, num recurso perceptível e muito tosco.

E por falar em tosco, muitas vezes o estilo Sherman Rose/Herman Cohen de fazer cinema lembra bastante um certo Edward D. Wood Jr, ou simplesmente Ed Wood. Tipo o uso de cenas de arquivo de exercícios militares e caças voando para economizar dinheiro com a FILMAGEM destas cenas - algo que Wood faria, cinco anos depois, em “Plan 9 From Outer Space”.

Outro elemento "edwoodiano" diz respeito à maneira como foi feito o casting: o ator Robert Roark, que interpreta o psicopata à solta, faz parte do elenco do filme não exatamente por seu talento como intérprete, mas apenas porque seu pai foi um dos principais investidores! E o próprio produtor Cohen aparece no filme, “interpretando” um dos técnicos do laboratório militar, para economizar dinheiro com figurantes.


É uma pena que TARGET EARTH comece tão bem, explorando a sensação de isolamento, de solidão e de não saber o que está acontecendo, e a partir da entrada em cena dos patéticos robôs venusianos o filme despenque direto para o panteão da comédia involuntária. Porque é impossível assumir como ameaça aquele trombolho que anda se arrastando e dispara um único “raio mortal” por vez, e sem muita mira.

O famigerado robô alienígena de Vênus deveria aparecer aos milhares, para dar a impressão de uma invasão em larga escala, mas os realizadores resolveram economizar dinheiro construindo um único traje de robô - usado por ninguém menos que Steve Calvert, um “ator” que especializou-se em vestir roupa de gorila para interpretar macacos assassinos em filmes como “A Noiva e a Besta” (1958) e “Bela Lugosi Meets a Brooklyn Gorilla” (1952)!


“Atacamos Los Angeles com um único robô!”, divertiu-se o produtor Cohen, ainda na entrevista para a Fangoria. “David Koehler era um técnico de efeitos especiais com quem eu ocasionalmente trabalhava, e ele construiu o negócio na minha garagem”. A julgar pelo robô fajuto de TARGET EARTH, está explicado porque Koehler nunca mais trabalhou em filmes de ficção científica e horror, preferindo migrar para efeitos mais “realistas” em grandes filmes de grandes diretores, como “O Grande Golpe” (1956), do Kubrick, “Morte Sem Glória” (1956), do Robert Aldrich, e “The Chase” (1966), do Arthur Penn.

Ironicamente, no conto “Deadly City”, que deu origem ao filme, a narrativa permanece o tempo inteiro acompanhando a interação entre os personagens humanos, e não traz um único robô alienígena, quem dirá do planeta Vênus. Somente perto do final os protagonistas descobrem, por meio da manchete num jornal esquecido, que a cidade foi evacuada por conta da ameaça de uma invasão extraterrestre, mas os seres de outro mundo nunca aparecem diretamente na história e nem ameaçam os humanos, que ficam à mercê da maldade deles mesmos - personificada pelo sádico assassino Davis.
No final do conto, numa reviravolta ao estilo “Guerra dos Mundos”, descobre-que os alienígenas que chegaram a dominar a cidade estão morrendo vitimados por alguma substância na nossa atmosfera para a qual seu organismo não tem imunidade. Ao contrário do filme, também, o conto de Fairman nunca corta para o Exército planejando o contra-ataque, permanecendo o tempo inteiro com seus confusos e solitários personagens principais. Para quem se interessou, clique aqui para ler “Deadly City” (em inglês).

Mas se o conto não tem robôs, por que diabos eles acabaram em TARGET EARTH?

Bem, primeiramente pela facilidade: era mais prático (e barato) construir um traje de robô do que um de monstro alienígena. E depois porque o cinema de ficção científica do período estava fascinado pelas criaturas mecânicas do espaço sideral desde o Gort do clássico “O Dia em que a Terra Parou” (1951), que foi a inspiração direta para praticamente tudo que veio depois - dos robôs venusianos de TARGET EARTH ao humanóide marciano de “Devil Girls From Mars” (1954), todos iguais na simplicidade do visual e principalmente no raio mortífero disparado pelo que parece ser o “olho” da criatura, tipo Gort já fazia no filme de Robert Wise.


Descontando este pequeno grande detalhe de ter inventado uma ameaça robótica inexistente no material em que se inspirou, até que TARGET EARTH é razoavelmente fiel ao conto de Fairman. Numa interessante inversão de papéis que não era tão comum no período, a adaptação para o cinema deu o protagonismo a Nora, e não a Frank (no conto é ele o personagem principal apresentado por primeiro).

Mas é claro que a Nora de Kathleen Crowley passa longe das mulheres fortes da ficção científica, surgidas principalmente a partir dos anos 1970. Está mais para a típica “mocinha em perigo” da década de 1950, sempre gritando - ou, o que acontece com mais frequência, evitando um grito com as costas da mão - e buscando o abraço do “macho” Frank para tranquilizá-la em momentos de horror. Ainda assim, este é o grande momento da atriz no cinema, ela que depois passaria a ser coadjuvante em seriados de TV como “Bonanza” e o “Batman” do Adam West.



Hoje, mais de 60 anos depois do lançamento de TARGET EARTH, a Terra ainda não foi invadida por extraterrestres, muito menos por robôs - sejam eles de Vênus ou de qualquer outro planeta. Os robôs cinematográficos também evoluíram bastante e perderam o visual de monstrengo de lata para ganhar feições e agilidade humanas, em obras-primas como “Westworld - Onde Ninguém Tem Alma” (1973) e “O Exterminador do Futuro” (1984). 

Mas as latas-velhas que ameaçavam Terra e terráqueos nestas saudosas produções baratas de ficção científica dos anos 1950 conquistaram um lugarzinho de destaque no coração dos cinéfilos e se recusam a morrer. Vide Robby the Robot, criado em 1956 para o clássico “Planeta Proibido”, e que desde então faz participações espaciais (muitas vezes como “Itself”) em seriados de TV e nos filmes dirigidos por Joe Dante!

PS: O autor do conto que deu origem a TARGET EARTH, Paul W. Fairman, está praticamente esquecido hoje, apesar de ter escrito 15 romances e dezenas de contos de ficção científica na sua época. Uma curiosidade sobre o trabalho de Fairman é que um de seus contos, “Beast of the Void”, publicado em 1956 nestas revistas vagabundas de pulp fiction, é considerado o primeiro ou um dos primeiros a apresentar uma substância alienígena inteligente capaz de assumir a forma de outras criaturas através da memória de suas vítimas - uma ideia que seria explorada filosoficamente anos depois, em 1961, por Stanislaw Lem no livro “Solaris”, que por sua vez foi adaptado para o cinema por Andrei Tarkovsky em 1972 e por Steven Soderbergh em 2002!



Trailer de TARGET EARTH





terça-feira, 6 de novembro de 2018

O retorno das resenhas (nem tão) curtinhas para analfabetos funcionais

HALLOWEEN (2018, EUA. Dir: David Gordon Green)
"Halloween", a obra-prima dirigida por John Carpenter em 1978, completou quatro décadas este ano, e a comemoração teve um sabor especial com o lançamento de um novo filme - vamos chamá-lo de  "Halloween 2018" para não confundir. E não é uma sequência qualquer, nem um remake desastroso como aqueles do Rob Zombie: a proposta ambiciosa do diretor-roteirista David Gordon Green e seus corroteiristas foi de dar seguimento à história do filme original 40 anos depois, passando a borracha em todas as continuações feitas desde então. Não se trata de nenhuma inovação, já que "Halloween H20", que marcou os VINTE anos do original em 1998, já tinha apagado tudo depois de "Halloween 2" (1981). Mas é o tipo de projeto autoral, de fã para fã, que não se vê com frequência, e como tal merece respeito. Analisando como fã da série, tem coisas muito boas neste "Halloween 2018". E também coisas muito ruins. O grande ponto positivo é que os realizadores entenderam o filme original e tentaram emular o clima de medo e tensão do clássico do Carpenter (algo que o Rob Zombie, por exemplo, não passou nem perto de fazer). Em alguns momentos, o novo filme chega bem perto do clássico: ele também é lento na primeira metade, construindo a trama aos poucos, e o suspense criado pela IMINÊNCIA do ataque de Michael Myers é muito mais interessante que o ataque em si (vide a cena praticamente silenciosa num quarto cheio de manequins). E não pensem que o vilão está pra brincadeira: Michael mata até criança, algo considerado tabu e geralmente evitado nas produções de gênero, ainda mais quando financiadas por grandes estúdios. Gostei, também, da forma como o roteiro enfocou o trauma provocado pelo ataque original de Michael Myers em 1978 e como toda uma geração cresceu traumatizada por ele, especialmente a ex-babá Laurie Strode (interpretada mais uma vez por Jamie Lee Curtis, em seu quinto "Halloween", mostrando que envelheceu junto com a série). Pena que "Halloween 2018" não trabalhe tão bem esta ideia de uma Haddonfield traumatizada, permanentemente enlutada e amedrontada, quanto uma das continuações que "apagou" da cronologia, o "Halloween 4" de 1988, onde há até um pelotão de linchamento formado por pais que perderam filhos para o psicopata em filmes anteriores. Por ter decidido apagar todas as sequências, também é curioso que filme empreste ideias de quase todas elas: Michael entrando em casas para roubar facões (como no início de "Halloween 2"), Laurie Strode mais velha e traumatizada tentando proteger um filho do psicopata ("Halloween H20"), Laurie criando uma elaborada armadilha para tentar eliminar Michael de vez ("Halloween Ressurreição")... Até uma péssima reviravolta envolvendo o novo psiquiatra de Myers (a pior coisa do filme, disparado) lembra o pavoroso "Halloween 6", e as antológicas máscaras de "Halloween 3" fazem uma participação especial! Entre mortos e feridos, "Halloween 2018" garante seu lugarzinho de honra entre os melhores momentos da série (até porque é muito difícil ser pior que "Halloween 5", ou que os remakes do Rob Zombie), mas não traz nada exatamente novo, que já não tivesse sido visto nas outras sequências que os caras optaram por desconsiderar. E, ainda no lado negativo, a trama desperdiça o personagem do jornalista que está fazendo um especial sobre Michael (e que poderia funcionar melhor como elo de ligação entre o vilão e sua "final girl" preferida), e o núcleo adolescente é muito, mas muito chato (talvez o filme se beneficiasse de um foco maior nos adultos, considerando que a molecada não é o público-alvo do projeto). Mas sempre é uma delícia ver Michael Myers na tela grande, ainda mais com a trilha sonora original de John Carpenter tocando de maneira reverente, nos fazendo lembrar daquele pequeno grande filme de 1978 que revolucionou o gênero. Será que teremos um novo "Halloween" nos 50 anos do original, em 2028?


SEREI AMADO QUANDO MORRER (They'll Love Me When I'm Dead, 2018, EUA.
Dir: Morgan Neville)
De todos os projetos que Orson Welles deixou inacabados ao morrer (o thriller "The Deep", com Jeanne Moreau; a tão sonhada adaptação de "Don Quixote" que o diretor foi filmando ao longo de décadas...), "The Other Side of the Wind" sempre foi considerado - junto com o "The Day the Clown Cried", de Jerry Lewis - uma espécie de Santo Graal por cinéfilos do mundo inteiro; a possível obra-prima nunca lançada que todo mundo sempre sonhou ver, mesmo sabendo que isso era impossível. Afinal, um falso documentário sobre um grande diretor de cinema (interpretado por um grande diretor de cinema verdadeiro, John Huston!) que cai em desgraça soa como uma autobiografia bem particular do próprio Welles. "The Other Side of the Wind" foi filmado ao longo dos anos 1970, com grandes dificuldades técnicas e financeiras, e de maneira obsessiva por um envelhecido e esquecido Orson, que acreditava ser esta a sua última chance de redenção artística. Infelizmente, por motivos absurdos que envolvem falta de grana, mortes, traições e até o sequestro dos negativos pelo Xá do Irã (!!!), este último filme de Welles permaneceu inacabado durante 40 anos, até ser recentemente resgatado e lançado pela Netflix (ironicamente, aquela plataforma de streaming que muitos cinéfilos adoram condenar). "Serei Amado Quando Morrer" é um documetário da própria Netflix que analisa todo o imbróglio, trazendo preciosas entrevistas com vários dos envolvidos no processo de filmagem de "The Other Side of the Wind" - e que infelizmente são identificados apenas no final, confundindo o espectador que não sabe quem são várias daquelas pessoas que estão falando e qual seu exato envolvimento no processo. Ao mesmo tempo, resume os últimos anos de vida de Orson Welles, quando, falido, fracassado e morando de favor na casa do amigo Peter Bogdanovich, ele ainda sonhava com um retorno em alto estilo. Trata-se de um documentário sobre a loucura do fazer cinema, para deixar qualquer cinéfilo com lágrimas nos olhos enquanto testemunha a genialidade, teimosia e paixão de um diretor que foi vítima da grandiosidade de seus sonhos e do próprio perfeccionismo. E também sobre como esta paixão contaminou as pessoas ao seu redor, tipo o já falecido diretor de fotografia Gary Graver, que trabalhou no projeto durante anos sem ganhar um centavo e acabou dirigindo pornôs para pagar as contas. Repleto de incríveis imagens dos bastidores de "The Other Side of the Wind", o documentário serviria, por si só, como um grande tributo ao lendário filme inacabado, caso este não estivesse sendo finalmente lançado. Neste aspecto, lembra outro documentário sobre uma obra-prima nunca finalizada e dirigida por um cineasta obsessivo - "O Inferno de Henri-Georges Clouzot", de 2009. Este e "Serei Amado Quando Morrer" deveriam ser exibidos em faculdades de cinema, para esta nova geração de cineastas mal-acostumados que choraminga por não conseguir verba de edital para fazer seu filme. Agora é esperar que a Netflix dê o mesmo tratamento para o tão sonhado "The Day the Clown Cried"...


MANDY (2018, EUA/Reino Unido/Bélgica. Dir: Panos Cosmatos)
Um dos filmes mais badalados de 2018 entre os fãs de cinema alternativo, "Mandy" também é uma daquelas experiências audiovisuais que dividem a humanidade entre  "Amei" e "Odiei" sem meio-termo. E embora eu tenha enxergado várias qualidades no longa (assinado pelo filho do saudoso George Pan Cosmatos, diretor de "Stallone Cobra"), confesso que não consegui embarcar 100% na viagem lisérgica proposta. Muitos se referiram a "Mandy" usando a expressão "um filme grindhouse dirigido como se fosse cinema de arte", e isso não é exatamente uma novidade - vide "Thriller - A Cruel Picture", de Bo Arne Vibenius. Trata-se de uma história de vingança que se passa nos anos 1980 e tem duas metades bem distintas: na primeira, Nicolas Cage e sua namorada Andrea Riseborough têm um encontro fatal com uma seita de hippies assassinos estilo Charles Manson; na segunda, um Cage completamente descontrolado e atuando no nível mil de loucura fabrica um machado gigante para dar o troco nos bastardos. O diretor Panos Cosmatos faz o possível e o impossível para agradar tanto ao público "de arte" quanto a quem curte o cinema exploitation que o filme tenta emular. Considerando esta mistura, o resultado tanto é lindo e introspectivo - com fantástico uso de cores, cenários que lembram um sonho (ou pesadelo) e inserções de animações - quanto grosseiro, barulhento e apelativo, dando verdadeiros banhos de sangue no protagonista. Cosmatos Filho aproveita para levar o cine-podreira ao circuito de arte: Cage assiste ao maravilhoso filme trash "Criatura da Noite", de Don Dohler, na TV, e depois participa de um duelo de motosserras extremamente fálico, estilo "A minha é maior", que lembra muito uma cena parecida de "Fantasma 2", de Don Coscarelli. Mas homenagens e bizarrias à parte, sobra pouco para ver e quase nada de novo. Quando eu percebi que era "só isso", que a proposta era apenas sentar e ficar estupefato com a fotografia e a direção de arte enquanto acompanhava o extermínio sistemático dos vilões por um descontrolado Nicolas Cage, confesso que me senti um tanto enganado e entediado. Fãs do recente e famigerado Episódio 8 de "Twin Peaks - O Retorno", dirigido por David Lynch, vão amar de paixão; já quem espera um pouco de substância além do estilo provavelmente achará "Mandy" excruciante durante boa parte do tempo - mesmo com a generosa quantidade de sangue, violência explícita e canastrice do protagonista na segunda metade.


BUSCANDO... (Searching, 2018, EUA/Rússia. Dir: Aneesh Chaganty)
Primeiro longa de Aneesh Chaganty, "Buscando..." é uma bela surpresa: a narrativa inteira se passa na área de trabalho de um computador, onde o personagem principal (John Cho, da série besteirol "Harry & Kumar") abre vídeos, sites, e-mails, manda mensagens, dá telefonemas, etc. Neste mesmo espaço, o protagonista também interage com os outros personagens do filme através de diferentes ferramentas tecnológicas, sem nunca "sair" da área de trabalho do computador para a "vida real". Ao mesmo tempo em que isso exige uma criatividade tremenda do roteirista - para poder amarrar uma história inteira num "ambiente" aparentemente tão limitado quanto uma área de trabalho de computador -, "Buscando..." também comprova o quanto nossas vidas estão "virtuais", e podemos fazer praticamente tudo pelo computador e pela internet. Inclusive uma complicada investigação policial, no caso do filme: Cho interpreta um pai assombrado pelo misterioso desaparecimento da filha adolescente, e que, sem pistas, começa a revirar os arquivos do computador da garota, "interrogando" seus amigos via Facebook e Skype para tentar juntar as peças do que aconteceu com ela. Embora pareça inovador, já que a coisa toda é relativamente nova, "Buscando..." não inventou este formato (os anteriores "Open Windows" e "Unfriended" também se passavam integralmente ou quase numa tela de computador). Mas, dos longas citados, foi o que melhor aproveitou a fórmula até agora, e ainda leva o espectador a pensar em como sabemos pouco sobre as pessoas ao nosso redor "fora da internet". O ponto negativo (sempre tem um, né?) é a reviravolta final completamente desnecessária, que mais parece exigência de um cinemão comercial movido a absurdas revelações-surpresa e um grande "vilão de James Bond" sempre por trás de tudo. Tira um pouco do impacto da história, que poderia se concluir de outra maneira, mas de forma alguma compromete a interessante experiência narrativa que é "Buscando...". Boa sorte para quem tentar fazer algo parecido a partir de agora, pois me parece que o filme de Chaganty meio que esgotou o formato para sempre (ou por um bom tempo).


APÓSTOLO (Apostle, 2018, EUA/Reino Unido. Dir: Gareth Evans)
Existe um filmaço em algum lugar de "Apóstolo"; o problema é encontrá-lo por baixo de toneladas de gordura, pretensão e subtramas dispensáveis. Parece ser uma constante no trabalho do diretor Gareth Evans, que surgiu arrebentando com "Operação Invasão / The Raid" (2011, o melhor filme de ação desde "Fervura Máxima") e com o segmento "Safe Heaven", da fracassada antologia "VHS 2" (2013). Desde então, o jovem cineasta não apenas se acomodou numa zona de conforto entre estes dois trabalhos, como começou a se levar a sério demais. Peguemos "The Raid 2", por exemplo: embora tenha cenas de ação insanas, também é um filme inchado, cheio de personagens desnecessários, com quase três horas de duração que perdem feio para a simplicidade do original. Já "Apóstolo", seu longa seguinte, feito com a liberdade do selo "Uma produção original Netflix", mistura as cenas de ação de "The Raid" com o climão de "Safe Heaven", mas decepciona. A trama do sujeito que viaja até uma ilha para resgatar a irmã sequestrada por um perigoso culto começa lembrando "O Homem de Palha", mas não demora a se transformar numa bagunça completa e absurda - para uma ilha dominada por uma seita que impõe toque de recolher, é impressionante a quantidade de personagens zanzando à vontade DEPOIS do horário sem sofrer qualquer represália! A atmosfera de ameaça iminente e o interessante clima misterioso/assustador dos primeiros 20 a 30 minutos - que tratam principalmente de idolatria e fanatismo religioso - logo são sacrificados em prol da pancadaria, do corre-corre e de algumas cenas insanas de violência (uma delas envolvendo um elaborado dispositivo de tortura que arranca cérebros). No começo Evans deixa o espectador propositalmente no escuro, oferecendo múltiplas possibilidades para o que pode estar acontecendo na ilha (algumas delas Lovecraftianas). O problema é quando ele começa a tentar responder as perguntas que criou, e estica a história pelo menos uns 40 minutos além do necessário. Fiz força para gostar de "Apóstolo" e, como disse lá no início, existe um filmaço aqui em algum lugar, principalmente na metade inicial. Pena que seja o resultado seja todo torto e caótico, com vários elementos sendo jogados aleatoriamente na narrativa, na esperança de que funcionem todos juntos. Mas não funcionam. Melhor sorte em "The Raid 3".


HOMEM-FORMIGA E A VESPA (Ant-Man and the Wasp, 2018, EUA. Dir: Peyton Reed)
Quando o filme do "Homem-Formiga" apareceu, gostei dele como um sopro de renovação num Universo Cinematográfico Marvel obcecado por megassagas interligadas: era uma história fechadinha, redonda, extremamente divertida e que funcionava sem ser necessário assistir outros dez filmes (embora tenha a "participação especial" de um dos heróis do núcleo do Capitão América). Me lembrou muito a pegada do primeiro "Homem de Ferro", aquele pequeno grande filme que deu início à invasão da editora de quadrinhos no cinema, e que ainda é um dos meus títulos preferidos da Marvel Studios. Pena que tudo que havia de bom e independente em "Homem-Formiga" desapareceu desta sua primeira sequência, "Homem-Formiga e a Vespa". Agora que o personagem foi definitivamente integrado ao "Grande Universo Marvel", a trama obriga o espectador a ver pelo menos outros dois filmes (as continuações de "Capitão América") para entender o que está acontecendo, e porque o protagonista Scott Lang (Paul Rudd sendo Paul Rudd) está cumprindo prisão domiciliar. Se o primeiro funcionava na sua simplicidade, esta continuação tenta abraçar o mundo: tem uma nova heroína, a Vespa; uma nova supervilã chamada Ghost, e AINDA a tentativa de resgatar a esposa do Dr. Pym (Michael Douglas), mentor do novo Homem-Formiga, do microcosmo onde ela ficou aprisionada. E mesmo com tanta coisa acontecendo, é assustador como o filme é desinteressante - a única parte que eu realmente acompanhei com interesse ao invés de ficar olhando para o relógio foram os malabarismos que o protagonista precisa fazer para convencer o FBI de que continua "preso" em casa, quando na verdade está por aí tentando salvar o mundo. O desinteresse é agravado pelo fato de o diretor apelar para constantes cenas de ação abusando do recurso "ficar pequeno/ficar gigante", sem muita criatividade e provocando bocejos após a primeira ou segunda lutinha. Nem mesmo a participação de atores conhecidos, como Lawrence Fishburne e Michelle Pfeiffer, torna "Homem-Formiga e a Vespa" mais atrativo, e praticamente todas as piadas erram o alvo - especialmente aquelas envolvendo a equipe de segurança dos amigos do herói, que parecem ter saído diretamente de uma comédia ruim do Adam Sandler. Em duas horas de projeção, a melhor cena é o gancho pós-créditos, diretamente ligado a "Vingadores: Guerra Infinita" - embora eu duvide que muita gente estará realmente preocupada com o destino do Homem-Formiga depois deste segundo filme...


HAN SOLO - UMA HISTÓRIA DE STAR WARS (Solo: A Star Wars Story, 2018, EUA.
Dir: Ron Howard)
Naquele que poderia ser o clímax de "Han Solo - Uma História Star Wars", o jovem Han Solo e seus amigos estão a bordo da Millenium Falcon e enfrentam uma violenta batalha contra o Império, ao mesmo tempo em que correm contra o tempo para viajar do ponto X ao ponto Y levando um material explosivo extremamente instável, que pode explodir junto com a nave e com os heróis a qualquer momento. É o tipo de cena tensa e repleta de suspense com a qual todo diretor sonha, não fosse por três pequenos problemas:
1. O espectador já sabe de antemão que ninguém vai explodir porque isso aqui é uma 'prequel' e Han Solo precisa estar vivo para envelhecer e participar da trilogia original;
2. Deveria ser uma cena de ação cascuda, mas foi filmada da maneira mais burocrática e sonolenta possível - no piloto automático, já que estamos falando de naves;
3. Ainda tem mais 50 minutos de filme pela frente.
Depois que "Rogue One" provou que é possível contar boas histórias sobre o universo de "Star Wars" que se passam ENTRE os filmes da série original, e sem a necessidade de reciclar seus personagens principais, "Han Solo" soa como um gigantesco caça-níqueis. Não sei de quem exatamente é a culpa por esta tragédia (os diretores originais Phil Lord e Chris Miller foram demitidos e o batedor de cartão Ron Howard entrou no lugar), mas "Han Solo" é aquele típico filme que você assiste com um olho na tela, outro olho no relógio. 50 bocejos depois, 30 pauses para ir ao banheiro ou fazer qualquer outra coisa, e inúmeros questionamentos de "Por que estou vendo isso mesmo?" depois, o filme termina sem qualquer tesão, tornando-se o pior momento da franquia desde os Episódios 1 a 3. Com um pouco de criatividade e alguém emocionalmente conectado ao projeto no controle, poderíamos ter aqui um vislumbre da história pregressa do jovem Han Solo, e de como ele se transformou num anti-herói que trafica drogas e atira primeiro nos inimigos, ao mesmo tempo em que tem um grande coração cheio de nobres intenções. Na prática, é um filme preguiçoso que simplesmente se dedica a mostrar, em imagens, tudo que já sabemos ou nunca tivemos curiosidade de saber (como Han ganhou o sobrenome Solo, como Han conheceu Chewbacca, como Han ganhou a Millenium Falcon do Lando num jogo de azar...), além de tudo que já ouvimos antes na série original (do surgimento de todo e qualquer bordão usado por Harrison Ford até a Corrida de Kessel, da qual ele fala com tanto orgulho a Luke e Obi Wan no "Star Wars" de 1977). A única coisa digna de nota - mas nem por isso vale suportar os intermináveis 135 minutos de martírio - é a impagável brincadeira com a polêmica do "Han atirou primeiro". (Tem, também, a participação especial de um personagem conhecido da série, mas como ele é do repertório dos Episódios 1 a 3, que são igualmente descartáveis, não faz a menor diferença.)


JOGADOR NÚMERO UM (Ready Player One, 2018, EUA. Dir: Steven Spielberg)
Se o livro "Ready Player One", de Ernest Cline, foi uma das coisas mais legais e divertidas que li este ano, como é que "Jogador Número Um", o filme de Steven Spielberg, foi sair tão ruim e errado? A dúvida fica ainda mais pertinente ao percebermos que o próprio Cline escreveu o roteiro (e estragou tudo que era divertido na fonte), e que Spielberg foi a principal referência do cinema blockbuster infanto-juvenil dos anos 1980, que por sua vez é a grande influência do próprio livro! Obviamente, o trailer já deixava transparecer que o clima de nostalgia e de citações espertas da obra literária seriam substituídas por visual de videogame e pancadaria na versão para o cinema. Dito e feito: a única coisa que ambos têm em comum é a "caça ao tesouro" num ambiente virtual e os nomes dos personagens; todo o resto - inclusive as motivações dos protagonistas - foi alterado para pior. Sei que são mídias diferentes, mas a adaptação para o cinema é tão insípida e desprovida de emoção que me pergunto como terá funcionado com o espectador que não conhece o livro - e, portanto, o 'background' por trás da trama e dos personagens. Isso porque em nenhum momento "Jogador Número Um", o filme, consegue passar a impressão de que os heróis estão correndo contra o tempo para encontrar as três chaves que lhes darão acesso ao cobiçado prêmio (sim, eles estão), e nem que enfrentam qualquer perigo, seja no ambiente virtual ou no mundo real. Spielberg higienizou tanto a parada que limou até a morte de um dos personagens principais, algo que dava um gás extra para seus companheiros seguirem em frente lá pela metade do livro. O mundo do futuro do Spielberg sequer parece tão terrível quanto o de Cline, onde as pessoas se refugiavam na realidade virtual para fugir dos horrores da "real", e nem fica claro o fato de que todo mundo se tornou "autoridade em cultura pop dos anos 1980" para poder ter mais chances de decifrar as pistas da caça ao tesouro. Já que estamos falando delas, "Jogador Número Um" arruinou todas as "provas" que os protagonistas precisam enfrentar para conseguir as tais chaves. Se no livro elas envolviam conhecimento de cultura pop e inteligência (ou a capacidade de virar jogos de Atari e citar frases de filmes de cor), na adaptação para o cinema tudo é trocado pela força bruta e pela correria. Nem mesmo as esporádicas referências a clássicos obscuros como "Beastmaster" e "As Aventuras de Buckaroo Banzai", e alguns poucos momentos bem bolados para adoradores de cinema e videogame (como a imersão no filme "O Iluminado", ou a homenagem ao jogo de Atari "Adventure"), salvam "Jogador Número Um" de ser um porre, excessivamente longo e com cenas de ação grandiosas que devem ter funcionado no Imax 3D, mas viram uma miniatura na tela da TV de casa e só provocam bocejos. Toda e qualquer mensagem importante do livro foi deletada em prol da ação e dos efeitos especiais. E enquanto a obra do Cline tinha um ar nostálgico de aventura dos anos 1980, com alguns dos personagens mais interessantes e "humanos" que aparecem em muito tempo, o filme do Spielberg é artificial, inexpressivo e vazio, disparando referências bem óbvias apenas para provocar sorrisinhos de quem sacar as citações. Melhor ficar com o livro.


ENQUANTO VOCÊ DORME (Mientras Duermes, 2011, Espanha. Dir: Jaume Balagueró)
Um dos thrillers mais perturbadores que vi nesses últimos tempos, e sem precisar apelar para cenas escabrosas de tortura, escatologia ou violência explícita - embora tenha uma cena bem sanguinolenta envolvendo uma jugular cortada. Conta a história de Cesar (Luis Tosar, incrível), um assustador sociopata que foge dos clichês do vilão de cinema de gênero: ele trabalha como porteiro de um edifício, onde compensa a mediocridade do seu dia-a-dia (e uma possível depressão severa) alimentando-se da tristeza alheia, fazendo tudo ao seu alcance para infernizar os inquilinos. Lembra do "Clube da Luta", quando o Edward Norton começa a frequentar grupos de doentes terminais porque aquilo torna a vida dele menos ruim? Então, por aí. Cesar fica obcecado por Clara, uma jovem que passa pela portaria sempre feliz e simpática, e resolve fazer tudo para destruir a vida dela. A relação complexa entre os dois não pode ser esmiuçada para não estragar as surpresas, mas é o que justifica o título do filme. "Enquanto Você Dorme" foi dirigido em 2011 por Jaume Balagueró, uma das cabeças por trás da série "REC". O ponto de partida lembra vagamente "O Encanador", um filmão do Peter Weir. Balagueró dispensa sutilezas para chocar o espectador, mas, reforçando, o faz sem abusar da violência ou da escatologia, como fariam cabeças-de-bagre tipo Rob Zombie e Eli Roth. Numa das cenas mais terríveis (e tristes) do filme, Cesar destrói o eterno otimismo de uma velha solteirona usando de falsa simpatia e mentiras cruéis, sem nunca alterar a voz ou parecer ofensivo. O final, então, é um autêntico soco no estômago. Se você ainda precisa de algum argumento para perder a fé na humanidade, assista este filme correndo! Até porque logo logo sai o inevitável remake hollywoodiano... PS: A exemplo do que o Hitchcock fez anteriormente na obra-prima "Frenesi" (1972), o safado do Balagueró nos faz torcer sem querer pelo escroto do vilão numa cena de inacreditável suspense!


MINHA GRANDE NOITE (Mi Gran Noche, 2015, Espanha. Dir: Álex de la Iglesia)
Trabalho injustamente menos conhecido do diretor espanhol Álex de la Iglesia (que está lançando praticamente um filme por ano), "Minha Grande Noite" é uma comédia sensacional que, se houver justiça neste mundo, ainda vai virar cult movie. Álex reúne um colorido e divertido grupo de personagens excêntricos durante a gravação de um daqueles programas de TV de final de ano (tipo o infame "Réveillon do Faustão"). Estes programas não acontecem ao vivo, são gravados meses antes do verdadeiro fim de ano, então já rola um clima natural de falsidade porque vemos artistas e convidados festejando e brindando por um novo ano que nem começou ainda. No filme de Iglesia, o clima de falsidade fica ainda mais evidente porque as gravações já duram dias, há uma greve de funcionários da emissora querendo sangue do lado de fora do estúdio, e quem está dentro não pode sair sob pena de não conseguir voltar. Ganhando uma miséria e repetindo as mesmas ações o tempo inteiro, ninguém no estúdio se aguenta mais, mas todos precisam fingir que estão super-felizes no momento em que as câmeras começam a gravar. Rolou uma simpatia imediata pelo filme porque ele me lembrou um cruzamento de duas das minhas comédias preferidas de todos os tempos: "Get Crazy", do Allan Arkush, que também é sobre um show de final de ano que vira zorra total, e "Britannia Hospital / Hospital dos Malucos", do Lindsay Anderson, onde os personagens centrais também estão cercados por uma turba de grevistas enfurecidos que a polícia não consegue conter. Além de ser realmente muito engraçado (com direito a humor negro e piadas bem pesadas envolvendo fluidos corporais), "Minha Grande Noite" tem um dos grupos de personagens mais impagáveis já reunidos num único roteiro, um melhor e mais interessante do que o outro - com destaque para o ex-galã de novela Mario Casas interpretando um desses cantores fuleiros movidos a 'auto-tune', e que está no programa para cantar seu impagável hit "Bombero", acompanhado pelo empresário argentino especializado em livrá-lo dos processos de paternidade e assédio sexual de menores! Num toque de gênio, o elenco também traz um mítico cantor romântico espanhol da vida real chamado Raphael (um rival de Julio Iglesias, algo com o que o roteiro inclusive brinca) interpretando Alphonso, um arrogante e vilanesco astro veterano da música que, está na cara, é uma versão cinematográfica e exagerada do próprio Raphael! Para dar uma ideia do bom humor do artista em aceitar fazer piada com a própria persona, seria o equivalente a alguém fazer uma comédia dessas aqui no Brasil e colocar o Roberto Carlos no papel de um cantor cheia de frescuras e manias! Enfim, corram atrás de "Minha Grande Noite" e divirtam-se com este belíssimo filme, dificilmente vai sair comédia melhor e mais divertida por um bom tempo!


A MORTE TE DÁ PARABÉNS (Happy Death Day, 2017, EUA. Dir: Christopher Landon)
"O Feitiço do Tempo" encontra a Geração "Pânico" na divertida mistura de horror e comédia "A Morte Te Dá Parabéns", que, a exemplo dos excelentes "O Segredo da Cabana" e "The Final Girls / Terror nos Bastidores", usa elementos de fantasia para tirar onda dos clichês dos filmes slasher. A trama acompanha as desventuras de uma estudante cabeça-oca que descobre estar presa num bizarro "loop" temporal, que a faz acordar toda manhã no mesmo dia horrível em que foi assassinada por um psicopata mascarado. À medida que este dia se repete, ela tenta várias vezes evitar a própria morte, usando as "repetições" para acumular informações e experiência sobre o que virá pela frente (como Bill Murray fez antes em "O Feitiço do Tempo"), e também para investigar a identidade do assassino mascarado e tentar detê-lo antes que seja tarde. O resultado é uma grande bobagem que entretém mais do que assusta ou surpreende, já que - como já havia acontecido em "The Final Girls" - os níveis de violência e nudez tão tradicionais dos filmes slasher foram mantidos num mínimo aceitável para não ofender as novas gerações de espectadores. Não que estes elementos realmente façam falta aqui; confesso que o que mais estava me incomodando era o fato de a trama reciclar uma ideia já conhecida como se fosse algo original, sem ninguém nunca citar "O Feitiço do Tempo" para referir-se à situação da protagonista - ainda mais considerando que este filme já está imortalizado na cultura popular. Felizmente, o roteiro corrige isso nos minutos finais, inclusive brincando com a bobice da protagonista (que nem sabe quem é o Bill Murray!). Para quem também gosta de "O Feitiço do Tempo" e de filmes slasher, "A Morte Te Dá Parabéns" deve render pelo menos uma bela Sessão da Tarde, embora não traga absolutamente nada de novo ao conceito já tão bem abordado naquele inesquecível Dia da Marmota.



UPGRADE (2018, Austrália. Dir: Leigh Whannell)
Em 2004, eu vi no cinema este pequeno filme chamado "Saw / Jogos Mortais" e saí da sala embasbacado. Primeiro porque ele conseguia se distanciar das cópias vagabundas de "Seven" que infestavam cinemas e videolocadoras no período, criando um "serial killer humanitário" deveras original; segundo porque o final-surpresa era uma cacetada na cabeça e realmente nos pegava de surpresa. E também era uma produção visivelmente barata, baseada mais em ideias do que em efeitos, realizada por pessoas que pareciam apaixonadas pelo projeto. Fiquei tão impressionado que comecei a acompanhar os trabalhos do roteirista, um ator chamado Leigh Whannell. Pois foi preciso esperar 14 anos (e mais dois "Jogos Mortais", e quatro "Insidious", e outras coisas que quase ninguém viu) para o sujeito me impressionar novamente. "Upgrade", thriller de ficção científica que o Whannell além de escrever dirigiu, é uma daquelas boas ideias tão difíceis de aparecer no cinema contemporâneo: uma trama que se passa num futuro próximo, mas não perde tempo (nem gasta dinheiro) mostrando muito deste futuro; pelo contrário, se desenvolve de maneira enxuta e vai direto ao que interessa. Não vou falar muito sobre a história para não estragar a experiência, mas basicamente é sobre um sujeito que fica tetraplégico e se oferece como cobaia para o implante de um novíssimo e revolucionário chip capaz de lhe devolver os movimentos - e também acessar o seu cérebro, e consequentemente controlar seus reflexos, para transformá-lo numa espécie de super-herói. Às vezes lembra um episódio esticado de "Black Mirror" (o que não é, de maneira alguma, demérito), e também aproveita ideias vindas diretamente do universo de William Gibson, como os bizarros implantes que transformam o ser humano em máquinas biológicas (as armas sob a pele do braço são geniais). "Upgrade" é apenas o segundo filme dirigido pelo roteirista (que antes assinou o terceiro "Insidious"), mas já comprova que Whannell aprendeu bastante com o amigo e parceirão James Wan: as cenas de ação são muito boas, e inesperadamente sanguinolentas em alguns momentos. Mas a cereja do bolo é mais um final-surpresa porrada, justo quando você estava reclamando do quão previsível parecia a conclusão. Não sei exatamente quanto "Upgrade" custou, mas dá para ver que este é um pequeno e brilhante filme que certamente custaria 50 porradilhões a mais nas mãos de um Spielberg ou de um Zack Snyder - que também filmariam uma hora a mais de cenas só para poder explorar o "mundo do futuro" em computação gráfica. Particularmente, prefiro o filme assim como está. E sigo de olho nos próximos projetos do Leigh Whannell, que está muito mais interessante do que o parceirão Wan.


THAT GUY DICK MILLER (2014, EUA. Dir: Elijah Drenner)
Eu ainda era criança quando percebi esse carinha engraçado que aparecia em praticamente TODOS os filmes que eu gostava, sempre em pequenos - porém memoráveis - papéis. Em "O Exterminador do Futuro", era ele quem "vendia" as armas para o Schwarzenegger; em "A Noite dos Arrepios", era ele quem providenciava o lança-chamas para o Tom Atkins liquidar as sanguessugas do espaço sideral; em "Gremlins" ele era o velhinho rabugento que batizava, sem querer, as criaturas; em "Viagem ao Mundo dos Sonhos", era o piloto de helicóptero que via nos garotos protagonistas o menino que um dia ele foi, e assim por diante. Aquele carinha estava por toda parte e, só descobri tempos depois, se chamava Dick Miller. "That Guy Dick Miller" (Aquele Cara, Dick Miller) é um documentário excepcional que finalmente dá o devido protagonismo a este ator maravilhoso. Ele apareceu em tantos filmes que eu já nem lembrava que estava em alguns, e sua riquíssima trajetória como "coadjuvante" é contada sem poupar em emoção - como o triste fato de Dick continuar relegado a pequenas participações quando muitos jovens atores com quem contracenou nas produções de Roger Corman tornaram-se grandes astros (Jack Nicholson, por exemplo). Descobrimos que aquele cara, Dick Miller, não apenas apareceu em praticamente todo filme já feito, mas também roteirizou alguns (incluindo uma das piores comédias do Jerry Lewis!!!), e ainda foi um talentoso desenhista que talvez tenha desperdiçado uma lucrativa carreira como artista para fazer pontas em filmes vagabundos apenas pelo amor ao cinema! O mais interessante é que "That Guy Dick Miller" não se limita a ser um documentário sobre o ator, mas acaba narrando também a trajetória de várias pessoas com quem ele trabalhou mais diretamente, de Roger Corman a Joe Dante. Com toneladas de cenas de filmes e imagens de arquivo pertencentes ao próprio ator, além de entrevistas com tanta gente boa que não dá nem para enumerar (diretores e atores famosos, inclusive), o filme é obrigatório para todo e qualquer cinéfilo. E nos faz ficar com ainda mais raiva do Quentin Tarantino, que foi bunda-mole de cortar a participação de Miller como Monster Joe em "Pulp Fiction" (algo que o ator lamenta até hoje) quando havia tantas outras coisas sobrando para cortar naquele filme. O único problema do documentário é que depois dá a maior vontade de sair catando todos os filmes com Dick Miller para ver ou rever. E, como se sabe, são quase 200! Que pena que ninguém nunca fez um documentário parecido com o Wilson Grey, o "Dick Miller do cinema brasileiro", que também apareceu em todo filme nacional produzido entre os anos 1960-90!


DESEJO DE MATAR (Death Wish, 2018, EUA. Dir: Eli Roth)
O mais assustador do remake de "Desejo de Matar", dirigido por Eli Roth e estrelado por Bruce Willis, não é a violência e nem a apologia à "justiça pelas próprias mãos" num momento em que se discute, nos EUA e no mundo, a facilidade para obter e usar armas sem maiores consequências. O que realmente assusta é o quanto o filme é burocrático, esquemático, e não tem nada de novo para dizer mais de 40 anos depois do original. O roteiro de Joe Carnahan até tenta atualizar o tema ao colocar a internet na jogada, quando um vídeo mostrando o vigilante em ação cai no YouTube - mesma plataforma que o "herói" utiliza para descobrir informações preciosas em sua cruzada contra a bandidagem. E é claro que ele também se transforma em meme! Mas o grande pecado é desperdiçar um dos raros elementos interessantes da "modernização": ao mudar a profissão do protagonista Paul Kersey de arquiteto no original para médico agora, o "Desejo de Matar" do século 21 poderia ter criado um debate minimamente interessante sobre a pena de morte, já que o mesmo homem que se dedica arduamente a salvar vidas durante seu plantão (seja de policial, seja de bandido, como visto na ótima cena inicial) mais tarde irá tirá-las por conta própria nas horas de folga, aparentemente sem nenhum conflito de consciência. Isso é muito bem ilustrado numa montagem paralela em que Willis carrega uma pistola ao mesmo tempo em que o vemos extraindo a bala de um ferimento na mesa de cirurgia. Mas Roth, Carnahan e Willis não estão muito interessados nas implicações sérias das ações de um vigilante, pelo menos não tanto quanto Michael Winner lá nos anos 1970. O próprio Willis interpreta seu Paul Kersey como mais um herói de ação clichê, idêntico a vários que já fez, sem esboçar qualquer emoção minimamente humana ao matar ou torturar bandidos. Neste aspecto, o recente e bastante irregular "Sentença de Morte" (2007), de James Wan, é muito mais realista ao mostrar que quando o protagonista começa a dar o troco na mesma moeda, entra num caminho sem volta que o transformará para sempre, e não para melhor. Willis bem que poderia ter tentando emular seu famoso John McClane no primeiro "Duro de Matar" - um herói mais humano, que tentava evitar o confronto com os criminosos e tinha medo de morrer. Mas não: o "novo" Paul Kersey poderia muito bem ter sido interpretado por Chuck Norris ou Steven Seagal. A boa notícia é que a patrulha do politicamente correto não precisa boicotar o filme nem ficar de chiadeira pela "mensagem", pois ele é devidamente acéfalo para não gerar polêmicas como o original lá em 1974. Li um sem-número de bobagens, de pessoas que nem viram o filme, sobre como o remake seria uma "panfletagem da Era Trump", com "Willis mandando bala em negros e latinos". Curiosamente, a maioria absoluta dos criminosos abatidos por Kersey no remake - todos eles bandidos desumanos que atiram primeiro, para não deixar dúvida - são homens brancos. E o que resta é uma história rasa e vazia sobre justiça pelas próprias mãos, nem pior nem melhor do que as 300 outras cópias de "Desejo de Matar" produzidas desde o seu lançamento.


VINGANÇA (Revenge, 2017, França/Bélgica. Dir: Coralie Fargeat)
Existe um lance chamado "suspensão de descrença" (melhor no inglês, suspension of disbelief), que é basicamente até onde você pode forçar a amizade com o espectador sem que ele comece a se sentir um idiota. A paciência deste costuma ser bem elástica, mas é bom não abusar! Pois é justamente isso - abusar da suspensão de descrença até tomar o espectador por completo imbecil - que a francesa Coralie Fargeat faz em "Vingança", a incontável variação de um dos temas mais tradicionais do cinema de exploração dos anos 1970 - o "rape & revenge". Vejamos: estuprada, agredida e cercada por três brucutus no meio do nada, a italiana Matilda Lutz é empurrada para a morte de um precipício. Ela cai de uma altura de uns dez metros e acaba empalada pela barriga no tronco de uma árvore, mas não apenas sobrevive a uma queda que a teria matado instantaneamente (ou pelo menos quebrado sua espinha nuns três pontos diferentes), e a um ferimento que deveria ter arrebentado suas tripas, como ainda escapa da "situação desconfortável" INCENDIANDO a árvore em que se encontra espetada até que o tronco se parta e caia - correndo o risco de ser queimada viva no processo. Aí ela passa boa parte do resto do filme zanzando pelo meio do deserto, descalça, sem água nem comida, perdendo litros de sangue até ficar à beira da anemia, e com um toco de árvore ainda atravessado no peito e remoendo seus órgãos internos, mas de alguma maneira miraculosa consegue correr, lutar e ainda dar o troco nos infelizes que fizeram tudo isso com ela (e que estão descansados, armados e sem nenhum ferimento gravíssimo no peito)! Se houvesse uma explicação sobrenatural para a parada até seria mais fácil de engolir; afinal, foi exatamente o que fez um eficiente filme de 2013 chamado "Savaged", em que uma garota muda é violentada e possuída por um espírito indígena para se vingar dos agressores. Mas quando o máximo que a também roteirista Coralie consegue pensar é que a mocinha tomou peyote, uma droga alucinógena, para "esquecer a dor", começa a forçar a amizade além do suportável. Inquestionavelmente bem dirigido e fotografado, o filme tem pretensões artísticas que ficam até meio esquisitas num negócio que é apenas uma variação melhor filmada de produções tipo "A Vingança de Jennifer". "Vingança" (Jesus, até o TÍTULO é de uma falta de criatividade atroz!) consegue manter certo interesse apenas pelo banho de sangue orquestrado pela diretora, já que seus personagens parecem ter cinco vezes mais líquido vermelho no corpo do que os seres humanos normais - e Coralie faz questão de mostrar isso várias vezes. Exatamente como o "Mandy", resenhado mais acima, o filme é uma celebração do "estilo sobre conteúdo". Mas, por se levar excessivamente a sério, o resultado é esquisito e irregular, com uma trama que vai se transformando progressivamente em comédia involuntária. Antes tivesse assumido que era uma desde o início!


BECOMING BOND (2017, EUA. Dir: Josh Greenbaum)
É preciso tirar o chapéu para um sujeito que tomou um das piores decisões da história do cinema (desistir do multimilionário contrato para interpretar James Bond em mais seis filmes para passar o resto da carreira interpretando pequenos papéis em ordinárias produções classe B) e, quando questionado se mudaria alguma parte da sua vida, responde com um "Absolutamente nada". "Becoming Bond", de Josh Greenbaum, é parte documentário, parte dramatização da vida do australiano George Lazenby, que nunca se formou no Ensino Médio, trabalhou como mecânico, vendedor de carros usados e modelo publicitário, e milagrosamente, sem nenhuma experiência com interpretação, foi o escolhido para substituir Sean Connery como James Bond na superprodução "007 A Serviço Secreto de Sua Majestade" (1969) - um papel cobiçado por todos os grandes atores da época. Mesmo tendo ganhado na loteria, ele chutou tudo para o alto por um pouquinho de convicção e integridade artística, e um tantinho de arrogância. O próprio e envelhecido Lazenby narra a história do início ao fim, e protagoniza pelo menos dois momentos muito bonitos e emocionantes: o já citado, quando diz que não se arrepende de nada e nem mesmo da cagada cometida, e quando vai às lágrimas ao lembrar do momento em que abandonou a mulher que amava. No restante do tempo, o ator Josh Lawson empresta seu corpo para interpretar o jovem Lazenby nas cenas dramatizadas - cujo foco, surpreendentemente, é na comédia. Lá e cá, aparecem fotos e imagens de arquivo do verdadeiro Lazenby quando jovem, que comprovam seu ar de arrogância (e completa falta de noção) durante o curto período em que foi superstar. Como toda narrativa dramatizada, "Becoming Bond" tem diversos momentos em que o espectador se pega duvidando da veracidade dos fatos. Também roteirista do filme, Greenbaum diverte-se com isso e, lá pela metade, questiona o velho Lazenby se ele realmente está falando a verdade. "Eu não lembraria disso se não fosse verdade", é a resposta do ex-Bond, o que permite que o filme inteiro seja a fantasia de um velho ator maluco. Mesmo assim (ou principalmente por causa disso), a história de vida de Lazenby é incrível e muito divertida, e "Becoming Bond" ainda coloca o único 007 estrelado por ele no seu devido lugar como um dos melhores da franquia. Só é uma pena que a história termine com George deixando de ser James Bond, sem abordar nadica de nada do restante da carreira dele como ator, que teve pelo menos dois momentos bem interessantes: como herói de ação porradeiro em "Stoner" e como vilão lutando com a roupa em chamas (de verdade!) na obra-prima "The Man From Hong-Kong" - dois puta filmes que veremos em breve aqui no FILMES PARA DOIDOS.


JOGO PERIGOSO (Gerald's Game, 2017, EUA. Dir: Mike Flanagan)
Adaptações boas de Stephen King para o cinema são coisa cada vez mais rara. Quem diria, então, que num mesmo ano (2017) sairiam dois belos filmes inspirados no trabalho do autor, e ambos produzidos pela Netflix? Quem deu a largada foi "Jogo Perigoso", ironicamente baseado num dos piores livros de Stephen King (no julgamento deste que vos escreve, claro). É uma daquelas histórias que explora uma única situação do começo ao fim, e que funciona muito melhor como filme de 90 minutos do que como livro de 300-e-poucas páginas: a pobre Carla Gugino fica presa algemada a uma cama, em uma casa de campo distante da civilização, após uma brincadeira sexual que dá errado. Enquanto o livro é prolixo e arrastado, centrado unicamente na protagonista solitária e suas "vozes internas", o filme felizmente escapa de virar monólogo dando uma forma humana a estas vozes, e criando uma interação bastante curiosa entre a vítima numa ridícula situação de vida ou morte e sua consciência. Mas o mais impressionante é que a adaptação não tenta suavizar os detalhes mais barra-pesada do trabalho de King, como o marido misógino que se excita com "simulação de estupro", ou todo o drama envolvendo um cachorro faminto que não demora a se deliciar com carne humana (uma autorreferência ao velho Cujo, talvez?). Até uma cena asquerosa de abuso sexual de criança é apresentada em incômodos detalhes, comprovando que ninguém estava para brincadeira. Foi o primeiro filme do diretor Mike Flanagan que vi, e a maneira como ele manipula o suspense e a tensão (principalmente os momentos envolvendo um copo de água, inteiro ou quebrado) me deixaram bastante curioso pelo seu trabalho. Porém nem tudo são flores: assim como o livro em que se inspira, "Jogo Perigoso" tem um ato final desnecessário e simplesmente horroroso (toda a parte no tribunal), e explora menos do que deveria uma possível ameaça real escondida na escuridão. Bem que os roteiristas (Flanagan foi um deles) poderiam ter sido menos reverentes a King e bolado todo um novo ato final por conta própria. Mas o que importa é que até ali a história é muito bem conduzida, comprovando que bons diretores (e escritores) conseguem tirar horror, medo e tensão de algo tão simples quanto uma protagonista imobilizada contra a vontade numa situação do tipo "seria cômico se não fosse trágico"...


1922 (2017, EUA. Dir: Zak Hilditch)
Segunda adaptação decente de Stephen King produzida em 2017 pela Netflix, "1922" é inferior a "Jogo Perigoso", mas funciona bem melhor que muitas superproduções hollywoodianas baseadas em King. Isso comprova que o autor pode ter encontrado uma bela alternativa para ver seu trabalho chegando às telas, no meio do caminho entre a frieza das minisséries de TV (onde seus livros foram bastante populares nos anos 1990) e os frustrantes blockbusters, onde suas histórias acabam desfiguradas pelo excesso de gente palpitando. Dirigido pelo estreante Zak Hilditch, "1922" é tão reverente à sua fonte literária (uma novela de 150 páginas publicada no livro "Escuridão Total Sem Estrelas") que praticamente repete os diálogos palavra a palavra. Conta a história da cumplicidade de pai e filho matutos para sumir com a esposa/mãe e apossar-se da fazenda que ela pretende vender. Tanto filme quanto novela não escondem sua fonte de inspiração - uma reciclagem stephen-kinguiana de "Crime e Castigo" -, mas o diretor novato consegue dar conta do recado de maneira eficiente, apresentando sem muita enrolação a jornada para o inferno do pobre fazendeiro interpretado por Thomas Jane. Em comparação a "Jogo Perigoso", entretanto, Hilditch caiu numa armadilha impossível de escapar: por mais que a adaptação seja correta e fiel, o filme não consegue transpor para a tela a parte mais macabra da história original. Em sua encarnação literária, "1922" traz aquela que deve ser a descrição mais gráfica, brutal e chocante de um assassinato covarde que lembro de ter lido na vida. Seria impossível transpor tal carga de brutalidade para o cinema, a não ser que o diretor fizesse um 'snuff movie' e matasse a atriz de verdade, então o filme já sai perdendo por não conseguir mostrar ao espectador exatamente o quão horrível foi o crime perpetrado pelos seus protagonistas (e o porquê deste crime assombrá-los sem sossego desde então). Já para quem gosta de mais morbidez e putrefação nas suas narrativas, recomendo ler a novela "1922" como complemento, já que a narrativa de King traz algumas descrições bem perturbadoras sobre o estado de cadáveres antes e depois da putrefação - algo que também seria muito difícil traduzir em imagens...


ASSASSINOS MÚLTIPLOS (Acts of Vengeance, 2017, EUA/Bulgária. Dir: Isaac Florentine)
Sempre defendi que o diretor Isaac Florentine representava o futuro do cinema de ação, que se tivesse mais dinheiro ele faria filmes melhores, que era injustiça o Michael Bay e o Marvel Studios torrarem milhões enquanto o coitado fazia seus lances à míngua, etc etc. Mas a verdade é que depois de dois filmes bem fraquinhos ("Ninja 2" e "Close Range"), e do novo "Assassinos Múltiplos", está ficando cada vez mais difícil defender o homem. "Assassinos Múltiplos" (Jesus, de onde tiraram este título em português???) parece ter uma produção melhorzinha do que a média dos filmes de Florentine, e um elenco cheio de caras conhecidas capitaneado por espanhóis (Antonio Banderas e Paz Vega), mais o Juiz Dredd Karl Urban e o veterano Robert Forster em participação especial de dez segundos. Mesmo assim, é um filme de ação trivial e formulaico, a enésima variação de "Desejo de Matar" lançada, ironicamente, às vésperas do remake oficial da bagaça (resenhado mais acima). Banderas interpreta um advogado que, da noite para o dia, vira exímio lutador para vingar o assassinato da mulher e da filha. Provavelmente por causa do astro, que de lutador não tem nada, o filme não traz nenhuma daquelas maravilhosas cenas de ação vistas em produções muito mais baratas do mesmo diretor (onde está Scott Adkins quando precisamos dele?). O maior problema do filme é o roteiro desconjuntado, que parece mais um "copia-cola" de diferentes argumentos do que uma história coesa. O fato de Banderas fazer voto de silêncio até encontrar os assassinos da família não serve para nada considerando que o sujeito narra O FILME INTEIRO em off. A personagem de Paz Vega cai de pára-quedas na trama para ser um gratuito interesse romântico para um 'latin lover' cinquentão. Há lutinhas randômicas apenas para nos lembrar que este deveria ser um filme de ação (inclusive uma espécie de "clube da luta" que também cai de pára-quedas na narrativa). E, para coroar a coisa toda, uma das "revelações-surpresa de identidade de vilão" mais caducas da história do cinema recente! Parece que, quando chegou o fim do filme, alguém lembrou que só faria sentido se tal personagem tivesse aparecido antes, aí filmaram rapidão um encontro entre Fulano e Banderas apenas para justificar a "surpresa" quando o bandidão é "desmascarado" no final - mas a maior parte do público certamente terá esquecido que ele existia até chegar ali! E agora, Florentine, qual vai ser a desculpa?


INGRID VAI PARA O OESTE (Ingrid Goes West, 2017, EUA. Dir: Matt Spicer)
O primeiro longa de Matt Spicer é uma interessante mistura de comédia de humor negro com thriller - ora engraçada, ora assustadora, mas terrivelmente atual. Conta a história de Ingrid, uma jovem solitária que stalkeia um pouco além da conta os seus amigos virtuais para simular a vida feliz que não vive. Depois que a obsessão por uma "amiga virtual" acaba mal, ela se muda para Los Angeles e começa a invadir a vida de uma nova vítima - uma "digital influencer" fútil mas com milhares de seguidores, que está bombando no Instagram. Embora tenha ecos de "Mulher Solteira Procura", a trama me lembrou muito mais uma versão modernizada para a Geração Internet de um filme que eu (e só eu) gosto muito: "The Cable Guy", do Ben Stiller (no Brasil rebatizado... "O Pentelho"!). Para quem não lembra ou não viu, é uma comédia de humor negro lançada vinte anos atrás em que o pobre Matthew Broderick sofria com o assédio do stalker ao vivo, sem internet, interpretado por Jim Carrey. Se já houvessem redes sociais na época, "The Cable Guy" seria "Ingrid Vai para o Oeste" sem tirar nem pôr - Carrey passava os dias solitários vendo TV; Ingrid os ocupa rolando a telinha do celular e distribuindo likes sem sequer olhar para o quê ou para quem. O mais interessante da "atualização" da trama é que acaba representando muito melhor a sociedade dominada pela futilidade em que vivemos, onde a personagem principal basicamente troca todo o dinheiro que tem, e que precisa para sobreviver no "mundo real", pelos likes e emojis que acha que precisa para manter-se popular no "mundo virtual". E ainda faz coisas terríveis para poder manter o número crescente de seguidores. Por mais que o final seja extremamente condescendente com uma perigosa psicopata, ele também faz parte da crítica e da brincadeira: é a única conclusão que se espera neste universo de celebridades esdrúxulas e vazias que o filme retrata - este universo em que, cada vez mais, nós vivemos.


78/52 (2017, EUA. Dir: Alexandre O. Philippe)
"78 planos e 52 cortes que mudaram o cinema para sempre.""78/52", de Alexandre O. Philippe (diretor do ótimo "O Povo Contra George Lucas"), é mais um daqueles documentários essenciais para quem faz e para quem gosta de cinema. Sem nunca soar chato, pedante ou excessivamente técnico e acadêmico, o filme analisa obsessivamente, praticamente quadro a quadro, a famosa cena do assassinato no chuveiro de "Psicose" (1960), de Alfred Hitchcock, destrinchando-a como Norman Bates destrinchou Marion Crane a facadas neste momento icônico da história do cinema. Toneladas de imagens de arquivo e dezenas de entrevistas com pesquisadores e celebridades (Peter Bogdanovich, Jamie Lee Curtis, Bret Easton Ellis e o Oscarizado Guillermo del Toro entre elas) contextualizam "Psicose", a cena e o momento, além de oferecer novos ângulos e informações sobre uma das imagens mais conhecidas e vistas do século passado. Rolam até revelações surpreendentes, como quando um convidado analisa O QUADRO que Norman Bates usa para tapar o buraco na parede por onde espia Marion tomando banho; trata-se justamente de uma pintura famosa sobre voyeurismo e abuso! Eu revi a cena do chuveiro certamente algumas centenas de vezes, mas nunca tinha percebido - como explica outro entrevistado - a maneira como a histriônica (e antológica) música de Bernard Herrmann parece reproduzir o batimento cardíaco acelerado (e depois reduzido até finalmente parar) da vítima pega de surpresa enquanto toma banho, em outra colocação interessantíssima do documentário. Mas o momento mais emocionante, disparado, é a aparição, aos 79 anos, de Marli Renfro - a coelhinha da Playboy que foi dublê de corpo da atriz Janet Leigh (é ela quem aparece na cena a maior parte do tempo). Finalmente resgatada do esquecimento para os holofotes, já que Janet sempre foi considerada "a" estrela da cena, Marli explica que passou SETE DIAS seminua sendo "esfaqueada" no chuveiro para dar origem a um trecho com menos de 50 segundos de um filme que, na época, ninguém pensou que chegaria tão longe! Ou seja: "78/52" é uma análise única e fantástica sobre uma cena, um filme e um diretor não menos únicos e fantásticos!


HOMEM-ARANHA: DE VOLTA AO LAR (Spider-Man: Homecoming, 2017, EUA. Dir: Jon Watts)
Eu já estava suficientemente satisfeito com os altos e baixos da trilogia do Homem-Aranha pelo Sam Raimi para evitar qualquer nova versão do herói - até porque a vida é muito curta para acompanhar não um, mas dois 'reboots' de um troço que mal completou 15 anos. Mantive o boicote aos dois Aranhas do Marc Webb, já que a série foi cancelada e não faz mais o menor sentido, mas algo (talvez a participação em "Capitão América - Guerra Civil") me atraiu ao "novo Aranha" da Marvel. E confesso que me surpreendi. Lembrando as origens do personagem lá nos gibis dos anos 1960, "Homem-Aranha: De Volta ao Lar" trata muito mais dos percalços do adolescente Peter Parker no colegial do que dos seus heroísmos como Homem-Aranha (nesta nova "encarnação", o personagem é interpretado por Tom Holland). O clima de comédia juvenil é tão legal que, confesso, eu até ficava chateado quando começava alguma lutinha ou cena de ação para quebrar a narrativa - é como se o finado John Hughes fosse chamado para dirigir um filme de super-herói! Mais até do que os filmes do Raimi, e da maioria das produções do Marvel Studios, este novo filme preza a HUMANIDADE dos personagens aos seus feitos super-heroísticos (o extremo oposto de coisas tipo "Homem-Formiga e a Vespa", devidamente achincalhado mais para cima). Não só do herói nerd e de seus amigos do colégio cuja grande preocupação é o baile de formatura, mas também do vilão bem decente interpretado por Michael Keaton - que não é o típico malvadão louquinho para dominar o mundo, mas sim um pai de família preocupado em dar uma vida melhor à esposa e filha. A aventura também se beneficia bastante da relação pai-filho/mestre-aprendiz entre Peter Parker e Tony Stark. É o Homem de Ferro quem providencia um uniforme high-tech para o garoto melhorar suas habilidades, algo muito mais fácil de engolir do que um jovem pobre e nerd fabricar seu próprio uniforme, como acontecia nos quadrinhos e nos filmes anteriores. Só é uma pena que às vezes o filme exagere um pouco neste departamento: o novo uniforme das Indústrias Stark é dotado de mil apetrechos e de uma inteligência artificial que interage com Peter, fazendo com que ele pareça mais um "Homem de Ferro Jr." do que o herói solitário e "gente como a gente" que o leitor conhece dos gibis. Mas é um filme bem decente, e que ainda permite várias possibilidades para uma franquia que seja ao mesmo tempo divertida e bem diferente daquelas aventuras com o Tobey Maguire que todo mundo já conhece de cor. Como bônus, uma trilha sonora inspiradíssima, citações ao "Damage Control" (que, nos gibis da Marvel, é a empresa que reconstrói prédios e cidades depois de lutas entre super-heróis e supervilões) e uma cena final inesperada de rolar de rir, que lembra muito o desfecho do primeiro "Homem de Ferro".


EU, TONYA (I, Tonya, 2017, EUA. Dir: Craig Gillespie)
Lembra quando as cinebiografias de figuras históricas eram unicamente sobre grandes exemplos de conduta, tipo a Madre Teresa? Pois é, eu também não tenho a menor saudade desses tempos! E entre 2017 e 2018 foram lançadas CINCO cinebiografias sobre personalidades, digamos, polêmicas - duas delas até participaram de premiações importantes, como o Oscar e o Globo de Ouro! O surpreendente "Eu, Tonya" foi uma das primeiras. Eu era adolescente quando rolou a lendária treta Tonya Harding x Nancy Kerrigan, vinte-e-poucos anos atrás. E, não sei porque, até pouco tempo atrás a imagem que guardava na retina do episódio era a de Tonya quebrando a perna da rival com um cano de chumbo. E pelo jeito não estou sozinho nessa: "Eu, Tonya" inclusive brinca com o fato de tal momento ter ficado imortalizado no imaginário popular sem nunca ter acontecido de fato! Um dos grandes trunfos do filme é fugir da "abordagem Supercine" da tragédia da semana, até porque já houve um telefilme sobre o episódio em 1994. Prefere abordar a dura vida de Tonya Harding (muito bem representada pela Arlequina Margot Robbie) sem nunca apresentá-la como "vilã", mas ao mesmo tempo sem vitimizá-la. É facinho chegar ao final do filme com sentimentos conflitantes pela patinadora, já que esta cinebiografia não deixa dúvidas de que Tonya não era exatamente um exemplo de simpatia ou de conduta, mas ao mesmo tempo também estava cercada de pessoas horríveis, da mãe dominadora ao marido imbecil que lhe sentava a porrada. O filme é narrado num estilo documental fajuto em que os atores volta-e-meia dão depoimentos diretamente para a câmera como se fossem as pessoas reais, o que nem sempre funciona (vide "Carandiru"), mas aqui também não atrapalha. E o roteiro foge da armadilha de mostrar a rival Nancy como a pobre vítima em contraponto a Tonya - acredite se quiser, o tempo em cena da intérprete de Nancy Kerrigan não chega a 60 segundos, sendo que ela teoricamente é a "boazinha" da história. Mas ok, o nome do filme não é "Eu, Nancy", ela que arrume sua própria cinebiografia! Sem fazer julgamentos e sem apelar para o dramalhão, contando ainda com algumas doses de humor negro e uma trilha sonora cheia de hits, "Eu, Tonya" é uma surpresa ainda maior quando se percebe que foi dirigido (e muito bem dirigido) por Craig Gillespie, o cara que fez aquele absolutamente asqueroso remake de "A Hora do Espanto". Liberto das convenções do cinema de horror contemporâneo movido a CGI, Gillespie entrega momentos memoráveis como o plano em que a câmera atravessa a casa vazia do marido de Tonya e sai rua afora; ou a belíssima montagem perto do final que compara a acrobacia mais linda e difícil que a patinadora conseguiu fazer em competição com uma luta de boxe. Méritos, ainda, para o responsável pelo elenco: no final aparecem imagens de arquivo dos verdadeiros protagonistas deste incrível drama da vida real, e o espectador pode constatar que os atores que os desempenharam até parecem clones. Pode constatar, também, que uma das falas mais ridículas do patético amigo gordo do marido de Tonya também aconteceu na vida real!


ARTISTA DO DESASTRE (The Disaster Artist, 2017, EUA. Dir: James Franco)
Se existe um culto a grandes diretores e grandes filmes, é justo que também exista um culto a quem passa longe disso: Ed Wood, as produções da Troma, a cópia turca de "Star Wars", etc. E se a vida de Ed Wood, supostamente "o pior diretor da história do cinema" (passa longe), já tinha dado origem a uma obra-prima dirigida por Tim Burton em 1994, nada mais justo que agora o mesmo seja feito com Tommy Wiseau - e, como honraria dupla, enquanto Wiseau ainda está vivo, ao contrário de Wood. Mas quem diabos é Tommy Wiseau? Na verdade, este é um completo mistério que nem mesmo "Artista do Desastre", o divertidíssimo novo filme que narra suas desventuras no mundo do cinema, tenta responder. Vindo sabe-se lá de onde, com um visual excêntrico, um sotaque curioso e uma conta bancária aparentemente inesgotável (até hoje não se sabe nada sobre qualquer uma destas questões), Wiseau escreveu, produziu, financiou, dirigiu e estrelou um mítico filme ruim chamado "The Room" (2003), que inscreveu-se imediatamente nos anais da história do cinema mundial como uma das maiores barbaridades já filmadas. Não demorou para a má fama transformar "The Room" em cult movie de toda uma geração, e o resto é história. Agora literalmente. Segunda cinebiografia de personalidade bizarra do ano, e tão premiada quanto "Eu, Tonya" (embora tenha sido boicotada no Oscar após polêmicas), "Artista do Desastre" traz James Franco como diretor e ator no papel de sua vida: ele não está apenas interpretando Tommy Wiseau, ele o ENCARNA em todos seus maneirismos já bastante conhecidos por qualquer um que tenha visto "The Room", inclusive as risadinhas algo forçadas. Seria muito fácil pegar tal personagem excêntrico e transformá-lo em piada para consumo de massa, tipo fizeram com o pobre Zé do Caixão naquela patética minissérie do Space. Felizmente, Franco faz como Tim Burton fez com Ed Wood e foge de transformar Wiseau no seu palhaço. Claro, há humor e o personagem é naturalmente engraçado na sua postura, excentricidade e completo desconhecimento da maneira de fazer cinema, mas "Artista do Desastre" é mais sobre o artista que Tommy acredita ser e seu idealismo de fazer, contra todas as adversidades e o ceticismo geral da própria equipe, um filme que acabou se transformando em lenda. É mais do que muito diretor bom consegue em vida fazendo filmes bons. E não é por acaso que Franco escalou o próprio irmão Dave Franco como Greg Sestero, o ator de primeira viagem que embarca de cabeça na loucura de Wiseau; afinal, a relação entre os dois beira os laços de sangue - embora alguns certamente queiram enxergar certo homossexualismo ali. O verdadeiro Sestero faz uma ponta, num filme que inclui gente famosa como Sharon Stone e Melanie Griffith em pequenas participações estilo "piscou, perdeu" - e, claro, o verdadeiro Wiseau, que aparece numa hilária cena pós-créditos contracenando diretamente com sua versão hollywoodiana. Não satisfeito em encarnar Tommy Wiseau de maneira quase mediúnica, James Franco ainda recriou diversas cenas icônicas de "The Room" em seus mínimos detalhes (e em toda a sua ruindade), o que dispensa o público em geral de conhecer "The Room" para divertir-se com "Artista do Desastre". Embora, obviamente, o prazer seja dobrado quando já se conhece a duvidosa obra-prima dirigida por Wiseau - confesso que fiquei surpreso ao descobrir de onde saiu a clássica frase "You're tearing me apart, Lisa" e seu gestual exagerado! Com um final emocionante, de deixar qualquer cinéfilo com os olhos marejados, o filme ainda comprova o respeito que os gringos têm pelos seus "artistas do desastre". Por aqui, infelizmente, nunca teremos um filme do mesmo calibre sobre Simião Martiniano (o "cineasta-camelô") ou Afonso Braza, que são a versão Terceiro Mundo de Tommy Wiseau e só recebem o desprezo e a chacota dos mesmos "especialistas" e "críticos" que agora babam ovo pelo filme do James Franco.


PROFESSOR MARSTON E AS MULHERES-MARAVILHAS (Professor Marston and the Wonder Women, 2017, EUA. Dir: Angela Robinson)
Terceira biografia de uma personalidade 'sui generis' lançada entre 2017 e 2018, "Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas" é uma versão romanceada da vida de William Moulton Marston, o inventor do sistema que deu origem ao detector de mentiras E da super-heroína Mulher-Maravilha! Nos ultraconservadores Estados Unidos dos anos 1920-30, Marston viveu uma relação liberal com duas mulheres (que por sua vez também se relacionavam entre elas), e descobriu nas histórias em quadrinhos o veículo perfeito para transmitir às novas gerações não apenas ideais feministas, mas também algumas de suas fixações eróticas, como bondage e sadomasoquismo - não é por acaso que a "arma" da Mulher Maravilha é um laço, nem a quantidade de vezes que a personagem foi amarrada e torturada em suas primeiras aventuras! Escrito e dirigido por uma mulher, "Professor Marston e as Mulheres-Maravilhas" deu o pé-quente de sair no mesmo ano da primeira aventura blockbuster da super-heroína ("Mulher Maravilha", de Patty Jenkins), mas mesmo assim acabou passando em brancas nuvens. Tudo bem, o filme tem seus defeitos: começa devagar e melhora bastante da metade para o fim (quando começa a enfocar a relação de Marston com os quadrinhos); e há pelo menos uma cena constrangedora envolvendo aviões produzidos em CGI mequetrefe no nível comercial do Dollynho. Também poderia ter explorado melhor a histeria anti-gibis que varreu os Estados Unidos nos anos 1950. De qualquer maneira, a história de Marston e suas duas Mulheres-Maravilha (ou três, se contabilizarmos a personagem fictícia que ele criou) é tão incrível que o filme funciona apenas pela trajetória de vida do biografado, nem que seja para pesquisar melhor sobre ele depois (recomendo o livro "A História Secreta da Mulher-Maravilha", de Jill Lepore, para quem quiser saber mais sobre o tema). E um dos pontos altos do longa é a maneira como os elementos icônicos da Mulher Maravilha vão aparecendo na narrativa antes mesmo de a super-heroína ser criada, lembrando o divertido curta "George Lucas in Love" (1999), que romantizou o processo de criação da saga "Star Wars".


FÚTIL E INÚTIL (A Futile and Stupid Gesture, 2018, EUA. Dir: David Wain)
"Esses foram alguns dos melhores dias que eu já ignorei."
"Fútil e Inútil" é uma dramatização da vida de Doug (Douglas) Kenney. O nome não deve dizer nada para os novinhos e nem para a maioria dos brasileiros, mas ele foi um dos cérebros por trás da revista humorística norte-americana National Lampoon, que fazia um humor ácido e adulto que não poupava nada nem ninguém (veja a resenha do documentário "Drunk Stoned Brilliant Dead - The Story of the National Lampoon" mais para baixo). Kenney também participou, como corroteirista, de duas das maiores comédias de todos os tempos, "Animal House" e "Caddyshack" (estupidamente rebatizadas "Clube dos Cajafestes" e "Clube dos Pilantras" aqui no Brasil). Uma espécie de perdedor que se deu bem, Kenney (interpretado por Will Forte no filme) era feio e desengonçado, por isso usou o humor para se destacar desde os tempos de colégio. Com um diploma na mão e sem saber o que fazer da vida, convenceu o amigo Henry Beard a fundar uma revista de humor na década de 1970, a National Lampoon, que notabilizou-se por reunir os grandes humoristas da sua geração, como Chevy Chase, John Belushi e Bill Murray (que depois sairiam para integrar o elenco do programa "Saturday Night Live"). Porém, como todo cara engraçadão, Doug era uma figura complexa, de baixa auto-estima, que não sabia aceitar críticas e viveu uma vida de excessos (excesso de cinismo, de drogas e de mulheres). Logo, uma vida curta - é até irônico que o filme seja narrado por um envelhecido Douglas Kenney, o que renderá uma bela piada na conclusão. Esta cinebiografia de David Wain não faz concessões e mete o dedo na ferida, mesmo quando mostra celebridades da época que continuam vivas (tipo Chevy Chase, aqui representado como um exímio cheirador), ao mesmo tempo em que impressiona pela quantidade de piadas e trocadilhos por minuto. Assim, "Fútil e Inútil" funciona em dois níveis: tanto quanto drama, quanto como comédia. E tem ainda a incrível e divertidíssima recriação dos bastidores das filmagens dos clássicos "Animal House" e "Caddyshack", confirmando inclusive que este último foi movido a cocaína. Como grande fã de ambos os filmes, eu queria até ter visto mais dessa parte da vida de Kenney, mas obviamente o foco da cinebiografia é no autor (o título original vem de uma frase antológica de "Animal House", para quem não pegou a citação). E embora "Fútil e Inútil" funcione melhor para quem conhece um pouco dos bastidores da National Lampoon ou dos dois filmes que Kenney corroteirizou, sua discussão sobre os limites do humor continua bastante atual e relevante.


MEU AMIGO DAHMER (My Friend Dahmer, 2017, EUA. Dir: Marc Meyers)
De Michael Myers a Jason Voorhees e de Hannibal Lecter à recente reinvenção do Leatherface, o cinema de horror gosta de nos lembrar que os monstros já foram, em algum momento, crianças e adolescentes - talvez para ressaltar que os monstros da vida real, como Hitler, também já foram "inocentes", e até o serial killer canibal Jeffrey Dahmer foi à escola quando novo. Pois eis que "Meu Amigo Dahmer" é a quinta cinebiografia bizarra recente sobre uma figura excêntrica e/ou execrável, comprovando que está rolando alguma conjunção astral bizarra no mundo das cinebiografias. Baseado numa graphic novel, o filme de Marc Meyers retrata a adolescência do jovem Jeffrey Dahmer e seus dias como o moleque esquisitão que ou sofre bullying ou é solenemente ignorado na escola. Pelo menos até descobrir que seu "talento natural" para fazer bizarrices, tipo fingir espasmos epiléticos em público para assustar as pessoas, lhe rende um inesperado fã-clube e o mais perto que ele já teve de "amigos" - embora seu círculo de adoradores esteja mais interessado em rir dele do que COM ELE. Ex-galã mirim de produções da Disney, Ross Lynch está perfeito como jovem Dahmer, num drama bastante atual sobre como nós convenientemente optamos por ignorar os "monstros" reais, sem tentar entender a maldade que existe neles até ser tarde demais. Um dos pontos questionáveis do filme é usar de certo vitimismo em relação ao sujeito que crescerá para se tornar um dos mais bárbaros assassinos da crônica policial contemporânea. Talvez até por isso, mais de uma vez o espectador se pega "torcendo" pelo jovem Dahmer - especialmente na cena do baile de formatura, que é de uma tristeza tremenda -, quem sabe fantasiando que, se algumas coisas tivessem acontecido de forma diferente ao longo do caminho, o final da história pudesse ser outro. Mas confesso que, pelo título, eu esperava que o filme fosse mais focado nos rapazes "normais" que acabam se envolvendo por acidente com o esquisitão que senta no fundo da sala do que no próprio Dahmer. Seria um ponto de vista completamente diferente, talvez mais curioso e interessante do que (re)vermos um futuro serial killer surgindo no seio de uma família disfuncional e demonstrando tendências de matar e eviscerar animais antes de partir para as vítimas humanas - porque este filme eu já vi, e várias vezes.


AO CAIR DA NOITE (It Comes at Night, 2017, EUA. Dir: Trey Edward Shults)
Basta eu reclamar do ritmo de qualquer coisa "alternativa" recente, seja a soporífera terceira temporada de "Twin Peaks" ou o chatíssimo "A Ghost Story", que logo aparece algum espertinho sentenciando: "Ainnn, tu que não gosta de filme lento...". Claro, como se "Era Uma Vez no Oeste", que não é exatamente conhecido por sua agilidade, não fosse meu filme predileto, e como se Sergio Leone, conhecido por esticar duelos por dez minutos (mas sem ser CHATO), não fosse um dos meus diretores preferidos. Ou, mais importante ainda, como se GOSTAR DE FILME LENTO justificasse a necessidade de ver alguém varrer o chão ou comer uma torta num plano sem cortes de cinco minutos. Uma bela prova recente de que você pode ser lento, silencioso e introspectivo sem ser chato é "Ao Cair da Noite", um thriller dirigido pelo (até agora) desconhecido Trey Edward Shults. O filme acompanha o dia-a-dia de uma família que vive isolada numa casa de campo após uma epidemia mortal ter aparentemente dizimado a humanidade. Eles adotaram uma rotina dura e repleta de regras para conseguir sobreviver até então, mas a chegada de uma outra família ao local acaba gerando um clima de medo e paranóia crescentes. Um diretor cabeça-de-bagre iria deitar e rolar com o mesmo argumento, enchendo a narrativa de tiros, gritarias, correrias e efeitos sonoros ensurdecedores, além daqueles famosos sustos "tcham!" quando alguém ou alguma coisa surge por trás do protagonista de repente. O novato Shults, por outro lado, descarta todas essas ferramentas fáceis e opta pelo ritmo "devagar quase parando". Mas seu filme nunca fica chato porque a história e a abordagem são interessantíssimas, e - principalmente - porque coisas estão acontecendo a todo momento e ninguém precisa ficar varrendo chão ou comendo torta por cinco minutos para matar tempo. É até muito válido que o filme opte por uma narrativa lenta, pois assim o diretor consegue enfatizar a situação dramática e a sensação de isolamento daquelas pessoas - o silêncio quase opressor da floresta que rodeia a casa é muito mais assustador que os efeitos sonoros ensurdecedores supracitados. Não que Shults não cometa lá seus deslizes, como um excesso de pesadelos barulhentos do personagem principal (não precisava), ou não saber exatamente quando terminar o filme (podia ter terminado um pouco antes, ou mostrar um pouco mais além daquela última cena). Mas está valendo, ainda mais depois que alguém ou alguns me recomendaram passar longe de "Ao Cair da Noite" porque supostamente não acontecia nada o filme inteiro. Para quem gostou e principalmente para quem não gostou, fica a dica: o thriller argentino "Fase 7" (2010), de Nicolás Goldbart, usa uma situação parecida (moradores de um prédio de Buenos Aires são colocados em quarentena durante uma epidemia mortal), mas prefere o humor negro à narrativa lenta. É como se fosse outra abordagem da mesma história, num dos melhores filmes de gênero argentinos desses últimos tempos.


MOM AND DAD (2017, EUA/Reino Unido. Dir: Brian Taylor)
O que pode dar errado quando você tem o malucão Nicolas Cage interpretando... um malucão? Primeira direção solo do Brian Taylor (que, junto com Mark Neveldine, dirigiu os retardados e divertidíssimos "Adrenalina" 1 e 2 com Jason Statham), "Mom and Dad" tem um ponto de partida genial: um fenômeno nunca explicado transforma pais e mães em assassinos homicidas cujo único alvo é seus próprios filhos. Quando Nicolas Cage e Selma Blair, um casal de pais na crise da meia-idade, é afetado pelo distúrbio, seus dois filhos (ele de 7 anos, ela adolescente) precisam se esconder pela casa e montar armadilhas estilo "Esqueceram de Mim" para tentar refrear a fúria assassina dos progenitores. Se Cage um dia foi um bom ator (nos tempos de "Despedida em Las Vegas" por exemplo, e lá se vão vinte anos), há muito ligou o "Foda-se" e nem se esforça mais para fingir que interpreta qualquer coisa. Em "Mom and Dad" ele encontra o veículo ideal para destilar sua maluquice, berrando, choramingando e até latindo como um cachorro-louco enquanto persegue uma vítima - parece que andou frequentando a Escola Tommy Wiseau de Atuação, e que este é o laboratório para sua performance ainda mais afetada em "Mandy" (resenha lá em cima). Pena que "Mom and Dad" fique aquém do argumento e da presença de um dos diretores de "Adrenalina". A violência é muito branda, a câmera poucas vezes mostra o genocídio de crianças e adolescentes que seria fundamental para que uma história do tipo funcionasse, e a montagem "moderninha", que vai e volta no tempo, não serve para nada além de soar como patética tentativa de tornar o filme mais "descolado". Acaba que o filme diverte quem estiver com a expectativa baixa, mas podia ser muito, muito melhor. Cage está engraçadíssimo, a pequena participação de um envelhecido Lance Henriksen é um dos pontos altos do filme junto com os criativos créditos iniciais (emulando produções dos anos 1970), e a bizarra cena em que uma mãe tenta matar o bebê logo após o parto dá uma ideia de como a mesma história poderia ter sido melhor desenvolvida. Do jeito que está, soa como um desperdício de esforços e de um bom ponto de partida - mais um daqueles filmes que o espectador esquece meia hora depois de ver.


DRUNK STONED BRILLIANT DEAD - THE STORY OF THE NATIONAL LAMPOON (2015, EUA/Reino Unido. Dir: Douglas Tirola)
Um dos grandes lapsos na minha formação em humor é nunca ter lido um único exemplar da revista norte-americana National Lampoon's. Mas cresci acompanhando o trabalho de caras que trabalharam ou colaboraram com a revista - tanto humoristas como Chevy Chase, Bill Murray e John Belushi quanto os filmes escritos e/ou dirigidos pelo staff da revista ("Animal House", "Férias Frustradas", "Caddyshack"). Sem essas pessoas e estes filmes, eu provavelmente seria hoje um adulto sério (argh!). "Drunk Stoned Brilliant Dead", documentário de 2015 que conta a história da revista, é uma bela maneira de conhecer melhor todas estas cabeças pensantes (?) por trás do humor anárquico que definiu toda uma geração. Fazendo piada com tudo e com todos, a National Lampoon's não ia durar um minuto no mundo de hoje (ou pelo menos precisaria de um belo time de advogados). E isso torna o documentário ainda melhor, porque ele traz alguns ótimos exemplos do melhor (ou, para alguns, pior) produzido pelos dementes que editavam a revista - incluindo a sátira da Playboy com as modelos se fingindo de mortas, o "Álbum do Bebê Vietnamita" (que trazia espaços para colocar o primeiro curativo e a primeira foto do funeral da criança!), e inacreditáveis gozações com políticos, celebridades e pessoas de todas as orientações sexuais, raças e credos. O diretor Douglas Tirola conseguiu entrevistar praticamente todo mundo que fez parte da época de ouro da Lampoon's na revista e no cinema (1970-80) e continua vivo, incluindo celebridades como Chevy Chase e Kevin Bacon (Bill Murray é uma ausência sentida, mas todo o resto da turma aparece!). É um belíssimo complemento para a recente cinebiografia "A Futile and Stupid Gesture" (veja mais acima), sobre o gênio por trás da revista Douglas Kenney - e dá para constatar que muitas das maluquices mostradas naquele filme aconteceram de verdade! Como cereja do bolo, "Drunk Stoned Brilliant Dead" traz ainda incríveis imagens de arquivo, tanto fotos quanto vídeos e gravações em áudio, onde alguns dos mestres forjados pela National Lampoon's que já se foram (Kenney, John Belushi, Michael O'Donoghue, Harold Ramis, Gilda Radner) podem ser revistos no auge da maluquice e da criatividade. Especialmente recomendado para quem quiser uma amostra do melhor do humor daquele período, nem que seja para constatar como este humor inspirou praticamente todo mundo que veio depois (incluindo as revistas brasileiras Chiclete com Banana, Casseta Popular e Planeta Diário), ou como estamos mal-servidos de "humoristas" hoje. Agora, se você é daqueles que acham que "deve haver limite no humor", recomendo passar longe - do documentário e também deste blog.