sábado, 20 de outubro de 2018

O IMPÉRIO DAS FORMIGAS (1977)


Seu nome de batismo é Bert Ira Gordon, mas ele sempre assinou como Bert I. Gordon. As iniciais do seu nome deram origem ao apelido “Mr. B.I.G.”, que sempre lhe fez jus: desde a sua estreia como diretor no impagável “King Dinosaur” (1955), nosso Mr. B.I.G. sempre gostou de monstros gigantes, ainda que o orçamento minúsculo que geralmente tinha à disposição não acompanhasse a grandiosidade de suas ideias e pretensões - para comparação, imagine o James Cameron tentando trabalhar com os valores de produção da The Asylum ou do SyFy Channel.

Gordon e seu alter-ego Mr. B.I.G. surgiram num momento apropriado em que os cinemas norte-americanos estavam sendo invadidos por monstros gigantes, geralmente criados pela radiação - um reflexo imediato, mea culpa para alguns, das bombas atômicas que aniquilaram Hiroshima e Nagasaki em 1945.


Neste período, monstros góticos como vampiros, lobisomens e múmias não estavam com nada: a onda era fazer filmes com dinossauros, animais gigantes e imensos monstros marinhos ou alienígenas. E isso numa época em que os ingênuos “efeitos especiais” ainda se resumiam a trucagens fotográficas, bonecos de borracha e stop-motion.

Foi o período de mestres como Ray Harryhausen (e os monstros em stop-motion que ele animou para clássicos como “O Monstro do Mar / The Beast from 20,000 Fathoms”, de 1953, ou “O Monstro do Mar Revolto / It Came from Beneath the Sea”, de 1955), Jack Arnold (e sua aranha gigante de “Tarântula”, em 1955) e principalmente o japonês Ishirô Honda, o criador de “Godzilla” (cujo primeiro filme é de 1954). Jogando pela lateral, e com um terço do orçamento de qualquer um dos anteriormente citados, surgiu o homem que viria a ser conhecido como Mr. B.I.G.


Bert I. Gordon nasceu em Kenosha, Wisconsin, a mesma cidade de Orson Welles (coincidentemente, os dois trabalhariam juntos em 1972, quando um Welles em fim de carreira foi dirigido por Gordon no terror “O Feiticeiro”). Aos 9 anos de idade, o ainda pequenino Mr. B.I.G. já se divertia fazendo filminhos com a câmera da família; curtas com efeitos fotográficos simplórios no estilo Georges Méliès.

Vinte-e-poucos anos depois, quando apareceu a chance de fazer seu primeiro filme “profissional”, o rapaz-prestes-a-se-tornar-Mr. B.I.G. pensou grande e atacou copiando os sucessos da época com criaturas gigantescas. Seu “King Dinosaur” era uma produção tão furreca que não havia qualquer dinheiro para fazer o monstrão que o título anunciava, muito menos em stop-motion, que era como mestres tipo Harryhausen davam vinda a essas criaturas antes do surgimento da computação gráfica.

A solução encontrada pelo diretor foi hilária: arrumar um monstro-de-gila, aqueles lagartões que realmente se parecem com monstros pré-históricos, e colocá-lo para contracenar com o elenco humano por meio de um truque tão simples quanto eficiente: as cenas com o bichão em tamanho normal eram aplicadas diretamente no negativo, e faziam com que ele parecesse gigante ao lado dos atores!


A partir de então, a “grandiosidade” (que, repito, não se aplicava aos orçamentos) tornou-se uma constante na carreira de Mr. B.I.G.. Talvez para compensar qualquer coisa (insira aqui a sua própria piadinha), ele resolveu se especializar em filmes com coisas gigantes tipo “Beginning of the End” (1957), com gafanhotos gigantes invadindo Chicago; “The Amazing Colossal Man” (1957), sobre um sujeito que fica gigante após contaminação radioativa (e que era o extremo oposto ao “Incredible Shrinking Man” do Jack Arnold); “Earth vs. the Spider” (1958), uma cópia vagabunda de “Tarântula” com outra aranha gigante, e por aí vai.

Apesar da grandiosidade dos seus monstros, o mais perto que Mr. B.I.G. chegou de um “grandioso” sucesso foi em 1976, com sua adaptação do livro “O Alimento dos Deuses”, de H.G. Wells. Neste belíssimo filme B, que aqui no Brasil foi rebatizado “A Fúria das Feras Atômicas”, Marjoe Gortner, Ida Lupino e outros pobres-coitados enfrentam abelhas, galinhas e ratos gigantes. A obra foi distribuída pela American International Pictures (AIP), do lendário Samuel Z. Arkoff, e foi a maior renda da distribuidora naquele ano.


O sucesso de “A Fúria das Feras Atômicas” deve ter subido às cabeças de Mr. B.I.G. e de Arkoff, pois já no ano seguinte eles tentaram repeti-lo filmando outra história de H.G. Wells (desta vez um conto), e novamente com animais gigantes - seria o oitavo filme de Gordon nesta temática. Só que desta vez o resultado foi um clássico da tosqueira chamado O IMPÉRIO DAS FORMIGAS - que o nosso querido SBT rebatizou com um título mais chamativo, “Formigas Gigantes”, e reprisou uma centena de vezes com outros nomes.

“The Empire of the Ants”, o conto de Wells que “inspirou” o filme, só tem em comum com a adaptação o título original e a imagem de um barco em chamas. Para começo de conversa, as formigas de H.G. sequer são gigantes (a maior delas mede 5 centímetros); o caso é que elas desenvolveram inteligência para atacar os humanos e se organizar num grande exército. Escrita no começo do século passado, a história foi publicada pela primeira vez na revista “The Strand Magazine” em 1905, e depois republicada na “Amazing Stories” de agosto de 1926. A partir de 1927, o conto ganharia espaço em “The Short Stories of H.G. Wells”, uma antologia com as histórias curtas do autor. Desconheço se chegou a ser traduzido e publicado no Brasil. Falando nele, a história de Wells se passa, vejam só, aqui no Brasil, onde um capitão da Marinha recebe a missão de liderar um navio de guerra até a vila de Badama, na Amazônia, para investigar relatos de que hordas de formigas estariam ameaçando os humanos. Ele chega ao local e descobre que as bichinhas dizimaram uma aldeia e devoraram seus habitantes até os ossos. Quando um oficial da sua tripulação também morre, vitimado pelo veneno dos insetos, o protagonista assume que não há a menor lógica em combater um inimigo tão pequeno com canhões, e volta para reportar o fracasso da missão. Na conclusão pessimista, projeta-se que em poucos anos as formigas terão dominado a América do Sul e começarão a subir para devastar a do Norte também...

(Quer ler “The Empire of the Ants” em seu idioma original? Então clique aqui!)


Rodado em novembro de 1976 e lançado no ano seguinte, O IMPÉRIO DAS FORMIGAS, o filme, começa com uma bisonha introdução mostrando imagens de singelas formiguinhas trabalhando, enquanto um narrador mais entusiasmado do que deveria destaca algumas das qualidades do bichinho. A voz pertence a Marvin Miller, e se você reconhecê-la de cara é porque Marvin também dublou o mitológico Robby the Robot no clássico da ficção científica “Planeta Proibido”, de 1956.

“Esta é a formiga. Trate-a com respeito, pois ela pode se tornar a próxima espécie dominante do planeta”, alerta a cavernosa voz do narrador. Segundo ele, existem mais de 15 mil diferentes espécies de formigas no mundo, e elas poderiam usar uma substância conhecida como feromônios para “forçar obediência” em seus inimigos. Na vida real não é bem assim, claro, mas como algo semelhante acontecerá no ato final eles precisavam justificar de alguma forma.

Do pequeno documentário sobre formigas, o filme corta para um barco em alto-mar, onde técnico vestidos exatamente como os ginecologistas de “Gêmeos, Mórbida Semelhança” (1988), do Cronenberg, despejam barris de lixo radioativo em pleno oceano. O diretor faz questão de frisar a periculosidade do ato com incontáveis takes, de todos os ângulos possíveis e imagináveis, da mensagem gravada na lateral dos barris: “Danger: Radioactive Waste - Don't open” (acho que o espectador conseguiu entender...).

   
Corta novamente para a costa da Flórida, onde tem início nosso drama pequeno-burguês (e deveras desinteressante) sobre um grupo de pessoas endinheiradas que foi convidado pelos sócios e amantes Marilyn Fryser (interpretada pela inglesa Joan Collins) e Charlie Pearson (Edward Power) para visitar um novo loteamento de luxo chamado Dreamland Shores, que fica numa ilha próxima e terá mansões, campos de golfe, quadras de tênis, marinas, etc etc...

Por ora, entretanto, o local não passa de uma armadilha para os futuros investidores: primeiro, é uma área pantanosa que em nada lembra um loteamento de luxo, com lotes superfaturados localizados simplesmente no meio do nada; e segundo porque um daqueles barris com lixo radioativo identificados com “Danger: Radioactive Waste - Don't open” (o diretor dá um novo close na gravação para não deixar dúvida) foi levado pelas ondas até o local e começou a vazar, atraindo inofensivas formiguinhas que, ao consumir o material tóxico, ficam gigantes e razoavelmente inteligentes.


Ou pelo menos elas deveriam ser inteligentes segundo o roteiro do filme, mas a verdade é que o requisito sequer é exigência diante da completa imbecilidade de todos os personagens humanos de O IMPÉRIO DAS FORMIGAS.

Aliás, deve-se destacar desde já que o filme provavelmente reúne a maior coleção de pessoas desagradáveis da história do cinema fantástico - dos sócios picaretas de um loteamento de luxo fuleiro aos velhinhos que só foram visitar o local para comer e beber de graça, sem esquecer do sujeito casado que acha a coisa mais normal do mundo quase violentar uma colega de viagem estando ambos a 100 metros do resto da turma!


Felizmente, o capitão da lancha que levou essas pessoas até a ilha, Dan Stokely, é interpretado por Robert Lansing, o “Homem 4-D” em pessoa do filme “Quarta Dimensão”. E ele empresta alguma dignidade a tamanho grupo de calhordas, embora seu personagem seja aquele tipo antissocial que não quer muita conversa com ninguém; perto de pessoas tão horríveis, é o único com quem o espectador pelo menos consegue simpatizar.

Depois de meia hora de lenga-lenga e personagens desagradáveis falando e fazendo coisas desagradáveis, finalmente as formigas gigantes entram em cena para dizimar o elenco humano, praticamente nos levando a torcer para que os insetos não apenas matem todo mundo, mas também conquistem a humanidade inteira.


Num elenco repleto de nomes de pouca expressão e/ou vindos dos seriados de TV, dois destaques são Jacqueline Scott de cara limpa (ela interpretava a chimpanzé Kira no fracassado seriado d'O Planeta dos Macacos, em 1974) e Pamela Susan Shoop como a principal mocinha (ela que é mais lembrada como uma das vítimas de Michael Myers em “Halloween 2”, quando também mostrou as peitolas que nunca vemos aqui em O IMPÉRIO DAS FORMIGAS).

Já os dois grandes astros do filme, Joan Collins e Robert Lansing, sempre renegaram a produção. À época, ambos já tinham passado um pouquinho da idade para ganhar propostas melhores em grandes produções de Hollywood (ela estava com 43 anos, ele com 48), e tinham que se virar com os poucos roteiros que chegavam às suas mãos, tipo esse, para pagar as contas.


Ironicamente, a carreira de Joan ganhou uma sobrevida quatro anos depois, quando ela começou a fazer muito sucesso no elenco do seriado-novelão “Dinastia”, que ficou no ar durante oito anos. A atriz interpretava a charmosíssima perua Alexis Carrington Colby e sua personagem era um sucesso (apareceu em 204 dos 217 episódios!). Por conta desta valorização tardia, O IMPÉRIO DAS FORMIGAS foi relançado em vídeo com uma vexaminosa campanha que fazia referência ao seriado, com chamadas como “Uma DINASTIA de formigas ataca Joan Collins!” e “Veja Joan Collins gritar e ainda parecer maravilhosa!”.

Em sua autobiografia “Past Imperfect”, Joan disse que trabalhar em O IMPÉRIO DAS FORMIGAS foi um pesadelo e uma das experiências mais difíceis de sua carreira (talvez ela tenha que atualizar o livro, pois apareceu no abominável “Os Flintstones - Viva Rock Vegas” anos depois). Em 1976, quando o roteiro caiu em suas mãos, a situação estava tão complicada que ela chegou a procurar agências de emprego em busca de qualquer trabalho, distribuindo autógrafos para fãs desempregados enquanto preenchia formulários.


Segundo a atriz, os “ataques” com as formigonas de borracha arranhavam e machucavam os atores (ela inclusive), e, na filmagem de uma cena em que os protagonistas nadavam num pântano, o elenco estava rodeado por crocodilos reais que tinham que ser afastados por um contra-regra! O fato da pobre Joan passar o filme inteiro zanzando ou correndo por uma floresta bastante real, boa parte do tempo molhada por causa de chuva bastante real ou do lodo de um pântano bastante real (que lhe causou uma infecção bastante real nas pernas), deve ter contribuído para a atriz não guardar boas memórias da produção...

Numa entrevista à revista Starlog, em dezembro de 1989, o já falecido Lansing também detonou Mr. B.I.G. e seu filme: “Eles compraram o título do conto do H.G. Wells, mas não acho que havia qualquer interesse em realmente filmar a história. Meu Deus, aquilo era horrível! O problema principal era o diretor, ele era um monstro. Um cara que descobriu uma maneira de fazer efeitos especiais, e, rapaz, isso era a única coisa que ele sabia!”.


Falando no dito cujo, o diretor Gordon declarou (em sua autobiografia “The Amazing Colossal Worlds of Mr. B.I.G.”) que tinha o sonho de adaptar “The Empire of the Ants” para o cinema desde a tenra juventude, pois este era um de seus contos preferidos de H.G. Wells. Por que exatamente ele resolveu trocar as formigas de tamanho normal, organizadas com inteligência e estratégia, por formigas gigantes nunca saberemos, porém eu imagino que tenha sido para ficar alinhado com seu apelido e a fama a ele atribuída.

Por outro lado, talvez tenha algo a ver com o lançamento, três anos antes, de uma obra-prima chamada “Fase IV - A Destruição” (1974), o único longa-metragem dirigido pelo artista Saul Bass, e que já mostrava, de forma magistral, a humanidade sendo desafiada por uma raça de formiguinhas inteligentes, que combatiam o inimigo maior de tamanho com esperteza, e não com força bruta.


É possível que, num momento de extrema humildade indigno do seu apelido, Mr. B.I.G. tenha imaginado que não conseguiria fazer nada minimamente parecido com “Fase IV” usando formigas de tamanho normal. Ou então ele simplesmente quis fazer um remake disfarçado e colorido de “Them! - O Mundo em Perigo” (1954), de Gordon Douglas, que já trazia formigonas tocando o terror - essas tinham sido criadas pelos famosos testes atômicos no Novo México.

Na primeira meia hora de O IMPÉRIO DAS FORMIGAS, num toque à la “Tubarão” (1975), Mr. B.I.G. esconde suas formigas do espectador. A única coisa que as identifica como antagonistas é um curioso efeito fotográfico de imagem multiplicada, como se fosse a “visão em primeira pessoa” dos bichinhos. Nunca entendi se existe qualquer evidência científica de que as formigas enxergam desse jeito, embora esta “certeza” me acompanhe desde a primeira vez que vi O IMPÉRIO DAS FORMIGAS. Eu já li que, na realidade, elas são quase cegas e se guiam mais pelas antenas e por substâncias químicas deixadas pelas colegas. Algum entomologista de plantão gostaria de esclarecer o caso?


Quando as formigas gigantes anunciadas pelo título brasileiro do SBT finalmente entram em cena... Bem, digamos que não é exatamente a mais crível das ameaças! Quando eu vi o filme ainda criança, por volta de 1988, tudo parecia muito mais convincente; talvez porque a transmissão do SBT lá em casa era bem ruim, e a gente via mais sombras do que qualquer outra coisa. Revendo o filme agora, com imagem cristalina, salta aos olhos a vagabundagem dos truques fotográficos adotados por Mr. B.I.G.

O que o diretor faz é intercalar planos gerais em que os atores “interagem” com os monstros graças à magia da ampliação fotográfica com outros planos mais fechados em que, aí sim, uma formiga gigante “real”aparece atacando os protagonistas!


No primeiro caso, formiguinhas de verdade foram filmadas em outra hora e lugar e ampliadas por meio de uma técnica conhecida como “macrofotografia”; depois, usando o recurso do split screen, ou tela dividida, estas imagens ampliadas dos insetinhos foram sobrepostas nas cenas em que elas precisavam aparecer (sempre em alguma das extremidades do quadro), dando a impressão de que as formigas são maiores do que os atores (como Gordon faz desde os tempos de “King Dinosaur”).

No segundo caso, trata-se de um óbvio bonecão inexpressivo e que mal se mexe. O diretor tentou consertar a falsidade do seu monstro filmando todo e qualquer ataque com a câmera sacudindo freneticamente, de maneira que o espectador não consiga reconhecer nada com muita clareza, muito menos o bonecão inexpressivo - visionário, Gordon adotou o “operador de câmera epilético” 25 anos antes de Danny Boyle transformar isso em tendência com “Extermínio”, de 2002.


Devo dizer que eu particularmente prefiro as cenas em que os atores interagem com algo “físico e palpável”, mesmo que seja o tal bonecão, do que com as trucagens terríveis que colocam formigas reais junto com os atores. Porque é óbvio que, nestas montagens, os coitados estão olhando para nada, fingindo que veem formigas que serão inseridas apenas na pós-produção, numa pré-histórica montagem pré-CGI que é artificial tanto para o ator quanto para o espectador que assiste.

Mas não se engane: as formigonas de O IMPÉRIO DAS FORMIGAS são muito menos eficientes do que aquelas que ameaçaram a humanidade em “Them! - O Mundo em Perigo”, vinte anos antes, e que também eram uns bonecões bem inexpressivos, só que aproveitados com mais estilo e criatividade.

Boa parte do orçamento miserável que Gordon tinha deve ter ido para a confecção dessas formigonas, projetadas e construídas pelo mestre Ellis Burman Jr., do Burman Studios, que no mesmo ano  faria as máscaras dos alienígenas de “Contatos Imediatos de Terceiro Grau”, do Spielberg, e em 1985 criou a maquiagem do lendário Sloth, de “Os Goonies”. O número de agosto de 1977 da Famous Monsters of Filmland, que era “a” revista sobre cinema fantástico antes da popularização da Fangoria, trouxe um passo a passo do making-of da construção das formigonas pelo pessoal do Burman Studios, que você pode ver abaixo (clique na imagem para ampliar).


Para os que acham que estou sendo muito injusto com os “defeitos especiais” de um filme que já tem 40 anos, é bom lembrar que este departamento já estava sendo criticado NA ÉPOCA DO LANÇAMENTO DO FILME, quando boa parte do que se vê na tela já era considerado tosco tanto pelo público quanto pela crítica - ainda mais depois do diretor Gordon ter dado dezenas de entrevistas louvando os “revolucionários” processos fotográficos que tinham sido usados na produção. Claro que o fato de o filme ter estreado no mesmo ano de 1977 de produções repletas de ÓTIMOS EFEITOS, como “A Ilha do Dr. Moreau” do Don Taylor e o próprio “Guerra nas Estrelas” original do George Lucas, não ajudou em nada.

Justiça seja feita: algumas das trucagens ópticas de O IMPÉRIO DAS FORMIGAS até enganam, como as formigas andando pelo píer para chegar a uma lancha. Outras, entretanto, ficaram mais ou menos, como o casal de velhinhos que precisa fingir horror por encontrarem-se supostamente rodeados de formigas gigantes que não estavam ali quando a cena foi filmada (e algumas delas parecem estar voando, já que aparecem “caminhando” onde não há nenhuma superfície para tanto). E há momentos que chegam às raias da tosquice, com formigas “aplicadas” sobre o negativo que lembram um borrão escuro desenhado com caneta hidrocor. (Os exemplos citados podem ser conferidos nas imagens abaixo)


Anos atrás, em uma entrevista a Mike Gencarelli, do site MovieMikes, o diretor Gordon explicou que uma parte considerável das filmagens de O IMPÉRIO DAS FORMIGAS aconteceu num quarto de hotel na América Central: “As formigas reais eu filmei no Panamá. Entrei na selva com um entomologista da UCLA (Universidade da Califórnia) e filmamos as cenas que aparecem no início do filme. Então o entomologista coletou um montão de formigas ali mesmo. Elas eram venenosas, mas tinham corpos maiores. Eu as levei para o meu quarto de hotel, onde tinha uma tela azul e luzes, e filmei ali mesmo todas as cenas com as formigas reais, até porque eu não queria trazer nenhuma delas comigo para os Estados Unidos!”

Já o ator Robert Pine, um dos pobres-coitados que foi obrigado a “interagir” com os monstros no filme, lembrou como eram as filmagens numa entrevista ao livro “A Sci-Fi Swarm and Horror Horde”, de Tom Weaver: “É claro que nós nunca víamos as nossas inimigas, as formigas. Para dar uma ideia da importância dos seres humanos neste filme, o plano de filmagem era de 11 semanas, sendo cinco para os seres humanos e seis para as cenas com as formigas de verdade! Então nós todos pensamos: 'Bem, espero que corra tudo bem nas seis semanas de filmagem com as formigas, ou então nós vamos parecer muito estúpidos no filme finalizado'. E infelizmente não correu tudo bem, porque as formigas que eles ampliaram com trucagens ficaram parecendo... Isso mesmo, formigas comuns que foram ampliadas com trucagens!”.


O ator lembrou também do famigerado bonecão com quem teve que contracenar na cena em que “morre” atacado pelas terríveis formigas gigantes (imagens acima): “Para os planos de detalhe eles tinham essas formigas enormes de borracha que eram cortadas na cintura. Então um dos caras da equipe precisava segurar esses bonecões de borracha e sacudi-los para cima de nós. Era tão ridículo!”.

Diante do exposto, O IMPÉRIO DAS FORMIGAS poderia ser apenas mais um terror de baixo orçamento sobre humanos enfrentando insetos gigantes, só que o roteiro de Jack Turley (um veterano roteirista de TV, em seu único crédito para cinema) ainda reserva um ato final abominável e completamente absurdo, que lança o filme inteiro no território da comédia involuntária.

Quando os sobreviventes finalmente conseguem deixar a ilha e chegar à civilização, descobrem que a humanidade (ou parte dela, pelo menos) foi dominada pelas formigas gigantes inteligentes, e que a rainha do formigueiro - convenientemente montado numa refinaria de açúcar! - está transformando os humanos em escravos para trabalhar para elas, usando os tais “feromônios” citados na abertura (ahá!) para dominá-los.


Assim, os protagonistas que mal escaparam vivos ganham uma nova motivação: salvar o mundo da ameaça das formigonas escravizadoras de humanos, numa reviravolta tão tosca quanto mal-encaixada - até porque não faz sentido o fato de, durante toda a hora inicial do filme, as formigas parecerem mais preocupadas em MATAR os humanos do que em escravizá-los. Quando foi que elas mudaram de ideia, e por quê?

E se O IMPÉRIO DAS FORMIGAS termina com uma falsa sensação de segurança, é bom lembrar que os caras vestidos como os ginecologistas de “Gêmeos, Mórbida Semelhança” lançaram um montão de barris com lixo radioativo no oceano lá no começo do filme, e logo logo algum deles deve chegar a outra praia para reiniciar o processo de criação de insetos monstruosos...


O IMPÉRIO DAS FORMIGAS chegou aos cinemas norte-americanos em julho de 1977, mas passou longe de repetir o sucesso de “A Fúria das Feras Atômicas” - quem sabe porque ratos gigantes parecem muito mais ameaçadores do que formigas. Talvez Mr. B.I.G. estivesse certo em aumentar o tamanho dos insetos, porém: no mesmo ano, o telefilme “Formigas Assassinas”, de Robert Scheerer, foi um fracasso completo ao mostrar atores pagando mico, tentando que fingir total terror diante de minúsculas e inofensivas formiguinhas de tamanho normal!

Em parte por causa do sucesso de Joan Collins em “Dinastia” (lá fora) e das incontáveis reprises pelo SBT (aqui), O IMPÉRIO DAS FORMIGAS ganhou ares de filme de culto com o passar do tempo; mais uma daquelas tralhas divertidas que permanecem no imaginário popular, para o horror principalmente dos atores envolvidos - que esperavam, com razão, que o negócio fosse esquecido para sempre.

Revisto hoje, este filme que me impactou na infância parece não apenas datado em tudo, como ainda extremamente desinteressante, com personagens ruins agindo de maneira estúpida em uma narrativa titubeante, até chegar à escalafobética meia hora final na refinaria de açúcar que até parece outro filme. Se havia algum potencial na produção, Bert I. Gordon não soube explorá-lo tão bem quanto em “A Fúria das Feras Atômicas”. E é óbvio que um roteiro melhorzinho, com protagonistas e situações mais interessantes, ajudaria bastante.


Curiosamente, as formigas gigantes sobrevivem no imaginário popular, volta-e-meia reaparecendo inclusive em superproduções de Hollywood, ainda que como criaturas inofensivas (tipo aconteceu em “Querida, Encolhi as Crianças”, ou nas duas aventuras do Homem-Formiga).

Como monstros, elas também foram vistas recentemente na tosquice “Glass Trap / Armadilha de Vidro” (2005), de Fred Olen Ray, e numa produção obscura sem maiores referências chamada “GiAnts” (o trocadilho, pelo menos, é genial!), de 2008. A diferença é que aqueles terríveis efeitos fotográficos do Mr. B.I.G. deram lugar a criaturas de computação gráfica ainda menos convincentes!

PS 1: Embora seu último fime para cinema seja “Força Satânica”, de 1989, Bert I. Gordon continua vivo e atuante, ou pelo menos estava “até o fechamento desta edição”. Em 2015, ele lançou o pouco visto “Secrets of a Psychopath” direto em DVD, e logo logo deve estar completando a invejável marca de 100 anos de idade (em 24 de setembro de 2022, para ser mais exato).

PS 2: Para quem gosta de checar os créditos dos filmes em busca de nomes curiosos, O IMPÉRIO DAS FORMIGAS reserva uma curiosa surpresa: a assistente do diretor chamava-se “Adrienne Bourbeau”, e por um momento cheguei a imaginar que tratava-se de Adrienne Barbeau, a atriz cult de “Fuga de Nova York” e “A Bruma Assassina”. Mas não: trata-se de uma quase-homônima que, logo depois, foi assistente de Tobe Hooper no fantástico “Pague para Entrar, Reze para Sair” (1981).



Trailer de O IMPÉRIO DAS FORMIGAS




quinta-feira, 11 de outubro de 2018

FÉRIAS DO BARULHO (1985)


Com uma carreira de ator que já soma 30 anos, Johnny Depp deu vida a uma galeria invejável de personagens excêntricos, reais ou imaginários: Edward Mãos de Tesoura, o Chapeleiro Maluco, Donald Trump (!!!), Willy Wonka, Ed Wood, Don Juan DeMarco, John Dillinger, Sweeney Todd, Ichabod Crane, Hunter S. Thompson, Donnie Brasco, Cry-Baby e, claro, o excêntrico Capitão Jack Sparrow, da interminável saga “Piratas do Caribe”.

Pois duas décadas antes do primeiro “Piratas do Caribe” (que é de 2003), Depp interpretou outro Jack, este “só” Jack, em FÉRIAS DO BARULHO (1985), uma daquelas comédias eróticas que faziam a alegria da molecada na década de 1980 - principalmente de quem ainda não tinha a idade apropriada para assisti-las. Na época, o jovem Johhny estava com 21 anos de idade e não havia muito trabalho para atores nesta faixa etária: era mais comum que acabasse ou mostrando a bunda numa comédia erótica tipo “Porky's”, ou sendo eviscerado pelo vilão num filme de horror, ou interpretando um adolescente estereotipado em algum seriado de TV (lembra do Michael J. Fox em “Family Ties / Caras e Caretas”?).


E Depp teve a distinção de passar por todas as etapas do processo: em 1984, na sua estreia no cinema, ele foi eviscerado pelo Freddy Krueger no primeiro “A Hora do Pesadelo”, de Wes Craven; logo depois mostrou a bunda magricela em FÉRIAS DO BARULHO, e dois anos depois ganhou o papel de protagonista do seriado “21 Jump Street / Anjos da Lei”, onde interpretava um jovem policial investigando casos relacionados à sua faixa etária. Depp fez 82 episódios entre 1987 e 1991, quando enfim disparou para a fama com “Edward Mãos de Tesoura” (1990), de Tim Burton, que o dirigiria outras tantas vezes no futuro.

Em sua defesa, no que se refere a FÉRIAS DO BARULHO, o jovem ator pode pelo menos argumentar que não estava pagando mico sozinho. Aliás, ele sequer é o protagonista do filme, aparecendo em segundo lugar nos créditos iniciais. O verdadeiro “astro” da presepada é Rob Morrow, fazendo sua estreia no cinema - ele que depois seria indicado a prêmios como Emmy e Globo de Ouro por suas interpretações em seriados como “Northern Exposure” e “Numb3rs”, e ainda apareceu no elenco de um grande indicado ao Oscar, “Quiz Show - A Verdade dos Bastidores” (1994), de Robert Redford. Obviamente, hoje nenhum dos dois têm lá muito orgulho de seu trabalho conjunto em FÉRIAS DO BARULHO...


A gênese do filme remonta ao princípio dos anos 1980, quando este tipo de comédia sexista sobre a primeira vez (e às vezes também a segunda, a terceira, a quarta... mas enfim, sobre a iniciação sexual de adolescentes) estava na moda, e era dinheiro garantido nas bilheterias. O pai de FÉRIAS DO BARULHO é um produtor isralense de segunda categoria, e surpreendentemente não estamos falando nem de Yoram Globus, nem de Menahem Golan (os cabeças da mitológica Cannon Films), mas sim de um sujeito chamado R. Ben Efraim.

Provavelmente inspirado pelos compatriotas Golan & Globus, que lá em Israel tinham produzido uma bem-sucedida série de comédias juvenis com sacanagem chamada “Lemon Popsicle” (que depois deu origem a “O Último Americano Virgem” nos Estados Unidos, como você pode ler na nossa postagem sobre ambos os filmes), Efraim resolveu ir para os EUA fazer a mesmíssima coisa. E ele deu uma sorte danada ao produzir “Private Lessons” (1981, de Alan Myerson). Aqui no Brasil o filme se chamou “Uma Professora Muito Especial”, e traz a eterna “Emmanuelle” Sylvia Kristel como uma professora particular que seduz um moleque virjão.

“Private Lessons” foi um estouro e rendeu uma grana preta ao produtor, que resolveu tentar de novo para ver se o raio caía duas vezes no mesmo lugar. Seu filme seguinte, outra comédia erótica, se passa numa escola só para meninas e tem os jovens Phoebe Cates e Matthew Modine no elenco. Como em time que está ganhando não se mexe, Efraim trouxe de volta o mesmo roteirista de “Private Lessons” (Dan Greenburg), a mesma Sylvia Kristel (agora em participação especial e interpretando outra personagem), e ainda manteve a palavra private no título, justamente para tentar atrair o público da obra anterior (até a arte do cartaz dos filmes é bem parecida!).

Estamos falando de “Private School” - por aqui, “Uma Escola Muito Especial... Para Garotas” -, que foi dirigido por Noel Black. Enquanto “Private Lessons” tinha sido produzido e distribuído de maneira independente, “Private School” já teve um grande estúdio por trás (a Universal). Não faturou tanto quanto o anterior, mas teve melhor distribuição e fez relativo sucesso.

Foi quando R. Ben Efraim resolveu se especializar em filmes “Private... qualquer coisa”, para ver se o raio caía três, quatro, cinco vezes no mesmo lugar. Numa entrevista à Variety, em dezembro de 1983 (logo após “Private School” chegar aos cinemas), o produtor anunciou que ia investir 14 milhões de dólares nos próximos anos para financiar outras três pornochanchadas juvenis: a primeira seria “Yearbook”, a se passar numa faculdade; a segunda seria “I Love You, Miss Kristel”, cuja existência obviamente estava condicionada à hipótese de a atriz holandesa querer participar de mais uma comédia erótica, e finalmente PRIVATE RESORT - com o questionável Private no título para tentar criar uma conexão inexistente com “Private Lessons” e “Private School” -, o único dos três que acabou saindo do papel e acabaria se tornando FÉRIAS DO BARULHO no Brasil.

Porém, ao contrário dos seus dois “Privates” anteriores, PRIVATE RESORT foi um fracasso. O produtor tinha trocado a Universal por outro estúdio, a Tri-Star, em busca de um acordo melhor de distribuição dos lucros. Mas a Tri-Star, talvez consciente da ruindade deste novo filme, optou por lançá-lo em alguns poucos cinemas, numa única região dos Estados Unidos, ao invés de fazer uma estreia nacional, antes de desová-lo nas videolocadoras para o eterno esquecimento.


E provavelmente FÉRIAS DO BARULHO teria sido esquecido entre outras tantas comédias eróticas juvenis ruins daquela época, se não fosse por dois fatores: primeiro, a presença dos posteriormente famosões Depp e Morrow pagando mico e mostrando a bunda, que anos depois gerou um enorme reinteresse pela produção; segundo, e especialmente para nós, brasileiros, o fato de o filme ter caído nas graças do Homem do Baú Silvio Santos, que gostou tanto de FÉRIAS DO BARULHO que o reprisava com uma frequência completamente absurda na sua grade de programação - e em diferentes horários, da Sessão das Dez nos domingos ao Cinema em Casa no começo da tarde.

O SBT exibiu o filme pela primeira vez em 1988, e a chamada sequer mencionava o nome de Johnny Depp (à época fazendo “Anjos da Lei”, que era exibido no canal rival, a Globo). Deve ter sido um estouro de audiência, porque a partir de então a emissora colocou-o na grade de programação com bastante frequência. Eu não duvido que ele tenha sido exibido duas vezes NA MESMA SEMANA, de tanto que era reprisado pelo SBT. Por conta disso, FÉRIAS DO BARULHO virou uma espécie de “clássico” ou filme de culto para toda uma geração; eu mesmo perdi a conta de quantas vezes já revi.


Antes de mais nada, não quero defender que “Private Lessons” e “Private School” sejam grandes obras-primas do cinema ou algo assim. Mas, perto deste terceiro “Private...”, as duas produções anteriores do R. Ben Efraim parecem até ter sido escritas pelo Woody Allen...

O roteiro de FÉRIAS DO BARULHO foi assinado por Gordon Mitchell (não confundir com o ator de mesmo nome), veterano colaborador de séries de TV como “A Família Dó-Ré-Mi” e “Agente 86”. Em 1984, quando FÉRIAS DO BARULHO foi filmado (durante o mês de outubro), Mitchell estava com 52 anos de idade, e isso é perceptível - ele consegue “dialogar com a galerinha jovem”, que era o público-alvo do negócio, como se o roteirista de “A Praça é Nossa” resolvesse escrever um filme para a Kéfera.

Nossa história começa com os amigos Ben (Morrow) e Jack (Depp) chegando a um resort que devia ser o sonho molhado de todo homem hetero norte-americano dos anos 1980: a população feminina é cinco vezes maior que a masculina, e todas as mulheres são jovens gostosas com corpo perfeito, que ficam muito bem de biquíni ou fora dele. Gordinhas e idosas só aparecem em cena quando é para fazer piada de mau gosto com o contraste entre estas e as bonecas infláveis ambulantes que dançam e rebolam sensualmente ao redor da piscina.


O filme não identifica, claro, mas o “private resort” em questão é o Ocean Reef Club, um lugar super-exclusivo na Flórida que existe até hoje - e, pelas fotos, é brega pra cacete. Ou seja: você pode guardar uns trocos e se hospedar no mesmo resort em que Ben e Jack tiveram suas “férias do barulho”, mas não podemos garantir a mesma quantidade de gostosas de biquíni. Se interessar, pode conhecer mais sobre o local, e fazer sua reserva, clicando aqui.

Desde a primeira cena com os amigos chegando ao resort, fica claro que o roteiro não vai se preocupar em estabelecer qualquer coisa sobre estes dois jovens cujas aventuras acompanharemos pelos próximos oitenta-e-poucos-minutos. Quer dizer, nada além do fato de eles estarem no tal resort para pegar mulher sem compromisso. De maneira agressiva e inapropriada durante boa parte do tempo inclusive, mas lembre-se que estamos nos anos 1980 e ainda valia tudo para fazer rir.


Quem são Ben e Jack, afinal? Amigos curtindo as férias com as suadas economias de uma vida? Porque fica claro desde a primeira cena que a dupla não pertence àquele lugar, onde coroas ricaças desfilam com valiosos colares de diamante e os drinks no bar à beira da piscina custam caro - tanto que eles optam por econômica cervejinhas e passam por pobretões. Este é um dos motivos pelo qual ambos são perseguidos por Reeves, o chefe de segurança do local (interpretado por Tony Azito), que não acredita que aqueles dois pés-rapados possam ser hóspedes de um resort tão exclusivo.

Será que um dos amigos teve alguma grande decepção amorosa que o outro está tentando curar com a promessa de sexo fácil e sem compromisso num hotel cheio de gatas fogosas? Eles não parecem ser virgens - apesar de agirem como virjões, sem qualquer noção de como chegar nas mulheres ou de como tratá-las -, tampouco grandes pegadores...


Enfim, estou tergiversando aqui, mas o caso é que o roteiro não se preocupa em contar muito sobre os dois protagonistas ou como foram parar ali, e a única pista sobre a procedência de ambos é o fato de Jack vestir, na sua primeira cena no filme, uma jaqueta vermelha com o nome de uma agência funerária - seria ele um funcionário desta empresa, ou está usando o traje para fins humorísticos? (Uma das lendas não-confirmadas sobre a produção diz que havia uma cena pré-créditos que foi cortada, mostrando Ben e Jack ganhando a viagem para o resort como prêmio de um concurso.)

Obviamente, não demora para FÉRIAS DO BARULHO descambar para aquela cartilha moralistinha da maior parte dessas pornochanchadas juvenis do período: embora Ben e Jack estejam determinados a curtir o momento passando a vara no maior número possível de mulheres - desculpem pela expressão grosseira, mas basicamente é isso mesmo -, as poucas chances que eles têm com garotas “fáceis” acabam em confusão antes mesmo que se inicie qualquer tipo de relação sexual.


Aparentemente se trata de uma conspiração do destino, alertando os dois moços para o fato de sexo sem compromisso ser “errado”, pois não tarda para que a dupla encontre ali seus grandes amores: Jack mente que é médico para aproximar-se de uma herdeira rica chamada Dana (Karyn O'Bryan, péssima); já Ben se apaixona por Patti (Emily Longstreth), a garçonete gracinha que serve drinks na piscina, e terá que disputá-la com o chefe da moça, Scott (Michael Bowen, que anos depois interpretou o asqueroso enfermeiro cafetão de pacientes em coma de “Kill Bill Volume 1”).

Sem querer soltar spoiler sobre quem vai ficar com Patti, lá pelas tantas somos brindados com uma te-ne-bro-sa montagem de momentos românticos entre a moça e Ben ao pôr-do-sol, embalada por uma das mais preguiçosas baladinhas pop-rock já compostas para cenas assim (o vocalista nem se preocupou em cantar coisa alguma e foi de “Na-na-na-na, ô-ô-ô” o tempo inteiro, estilo Dinho Ouro Preto).


Também seguindo a cartilha das produções deste subgênero, a narrativa de FÉRIAS DO BARULHO é episódica, simplesmente saltando de uma confusão sexual para outra. Você pode inclusive começar a assistir o filme pela metade sem perder nada, já que o filme é movido a piadas do arco-da-velha e nudez gratuita.

Obviamente, esse tipo de produção nunca se sustentou apenas nas desventuras sexuais de jovens tapados: era preciso concluir a trama com algum grande confronto às regras sociais ou às instituições. Em “Porky's” os moleques enfrentavam um dono de puteiro e um xerife corrupto; em “O Último Americano Virgem”, um caso de gravidez indesejada e aborto, e por aí vai.


No caso de FÉRIAS DO BARULHO, o roteirista Gordon Mitchell, não contente em já ter o conflito com uma figura de autoridade adulta (o tal segurança do resort), resolveu incluir também uma patética trama policial: no mesmo hotel está um bandidão conhecido apenas como “The Maestro” (o grande Hector Elizondo, ainda jovem, mas já com cara de velho), contratado por alguém para roubar o supramencionado colar de diamantes da coroa ricaça (Dody Goodman).

Supostamente, o tal Maestro é um ladrão profissional que age com extremo planejamento e meticulosa precisão. Não dá para entender, portanto, sua insistência em “aparar um pouco o cabelo” na véspera de dar o bote na velha. Graças a uma daquelas confusões que justificam o título FÉRIAS DO BARULHO, o pobre Ben acaba sendo confundido com o barbeiro do resort e destrói o cabelo do bandido, que passará o resto do filme perseguindo o rapaz em busca de vingança.


Tal situação nos leva a um aspecto curioso de FÉRIAS DO BARULHO: sim, o filme tem peitos e bundas desnudas à vontade para poder ser vendido como comédia erótica, mas na maior parte do tempo não passa de uma bobagem inofensiva, infantil até. O humor é menos sobre sacanagem e mais em tom de farsa, de comédia-pastelão, com piadas envolvendo identidades trocadas, correrias, peladões se escondendo no armário, entra-e-sai de quartos por portas e janelas... Tem até homem disfarçado de mulher e guerra de comida no final, e se alguém usasse a tesourinha para limar a nudez ficaria parecendo um legítimo filme dos Trapalhões!

Para dar uma ideia da bobice do humor apresentado, pelo menos cinco piadas envolvem golpes no saco, outras duas têm cachorrinhos pequeninos que colocam sujeitos com o dobro do tamanho para correr de medo, e duas personagens femininas aparecem dando porrada em um homem como se isso fosse algo completamente impossível. Um punk doidão, lutadores de sumô e um sem-número de tombos e tropeções completam o excêntrico catálogo, confirmando que os realizadores tentaram de tudo um pouco para fazer o público rir, nem sempre com sucesso.


Em pelo menos dois momentos, o filme ainda apela para um injustificável humor nonsense, absurdo, que destoa completamente numa história que, mesmo caricatural e exagerada, parecia se passar num universo “real”.

O primeiro momento acontece logo no início, quando um garoto que está na piscina testemunha o início de um dos planos mirabolantes de Ben e Jack para pegar mulher. Ele então se vira intencionalmente para a câmera, lançando um olhar cúmplice para o próprio espectador e quebrando a quarta parede, para comentar conosco: “Rapaz, eu pagaria para ver isso!” (talvez para fazer o espectador acreditar que valeu a pena ter pagado ingresso para assistir o filme).

O segundo momento nonsense acontece no final, quando o Maestro está tentando matar Ben a tiros. No momento em que seu revólver fica sem munição, ele simplesmente puxa UMA METRALHADORA de trás das costas que simplesmente não existia antes!


Mas, apesar de o humor disparar para todos os lados em busca de risadas fáceis, nenhum dos atores demonstra muito timing para o humor, abusando das caretas e olhos arregalados sempre que o momento pede.

A exceção vai para Hector Elizondo, anos antes de sucessos como “Uma Linda Mulher”, interpretando o bandidão atrapalhado. Deve-se dizer que seu personagem fica ainda mais hilário na versão em português, graças ao tom de voz e a alguns improvisos do sujeito que lhe dublou.

Um deles é o impagável “Malhação por aqui também, é? Que que há, que que há, que que há, que é isso?”, quando no original Elizondo dizia apenas: “Bodybuilders aqui também? Que negócio é esse?”. Acho o improviso brasileiro tão estupidamente engraçado que fiz questão de colocar o diálogo no YouTube (clique aqui para relembrar).


Vale registrar que em 1985, quando FÉRIAS DO BARULHO enfim chegou aos cinemas, estas pornochanchadas adolescentes já não eram mais o sucesso estrondoso de alguns anos antes, principalmente por causa do excesso de repetição nas piadas e situações. Putarias no colégio ou na faculdade estavam mais do que batidas, então roteiristas de obras do gênero começaram a mudar a ambientação (e apenas a ambientação) para praias, acampamentos de férias ou, no caso em questão, resorts - uma grande desculpa para poder mostrar mulheres de biquíni, certamente.

Só que criatividade não era exatamente o forte dessa gente, e FÉRIAS DO BARULHO ainda deu o azar de ser lançado no mesmíssimo ano de outros TRÊS filmes que mostravam uma turminha do barulho aprontando altas confusões em resorts: “Hot Resort / Hotel dos Prazeres” (de John Robins), “Hot Chilli / Férias Ardentes” (de William Sachs) e “Fraternity Vacation / Quando a Turma Sai de Férias” (de James Frawley). Não é por nada que mal estreou e FÉRIAS DO BARULHO já parecia piada contada duas vezes - ou, neste caso, quatro vezes!


Embora eu até agora tenha tecido várias considerações sobre a bobice geral do filme, é preciso dar a mão à palmatória: ele tem pelo menos uma situação absolutamente genial, quando o pobre Ben é atraído pelo amigo-da-onça Jack para um programa duplo com a “Prima Shirley”.

Eis que a moça é seguidora do bizarro Baba Rama Nana, uma gozação com os gurus indianos que proliferavam no Ocidente do período (tipo o famigerado Osho). Inquestionavelmente um cara legal, Baba Rama Nana exige que seus seguidores “removam a casca exterior” - ou seja, fiquem peladões -, no mais próximo que Ben chega de traçar alguém durante o filme inteiro.

Infelizmente, Baba Rama Nana também é um puritano que não permite que “a carne seja maculada”, ainda que o impagável mantra entoado pela gostosíssima Shirley seja “Come to me... Come to me...”. Numa das mais antológicas dublagens brasileiras de todos os tempos, o cântico virou o clássico “Venhaaaa a miiiim”, que toda uma geração aprendeu a reconhecer imediatamente assim que escuta. É o ponto alto do filme e sua cena mais famosa, sem sombra de dúvida.


A cena toda fica ainda mais divertida quando a gente lembra onde terminou a atriz Hilary Shepard, que interpreta a Prima Shirley. Após alguns papéis de destaque em filmes B como “Caçada Alienígena” (1990) e “Scanner Cop - O Destruidor de Mentes” (1994), Hilary virou a vilã Divatox (ao lado) no seriado dos “Power Rangers” ao longo dos anos 1990, aparecendo inclusive em um dos filmes baseados na série! Quem diria: de seguidora peladona de Baba Rama Nana a pirata intergaláctica com roupa de baile de carnaval, e ainda ganhou sua própria action figure!

Num elenco repleto de beldades com pouca ou nenhuma roupa, o espectador interessado em nudez gratuita tem, como grande destaque, a presença da maravilhosa Leslie Easterbrook. Para quem não associou o nome à pessoa, ela é mais conhecida como a Sargento Callahan de “Loucademia de Polícia”, onde a piada era sempre com o tamanho dos seus peitos - que ela nunca chegou a exibir em qualquer dos sete filmes da série.

Pois FÉRIAS DO BARULHO registra a única cena de nudez que Leslie fez em toda sua carreira: como Bobbie Sue, a namorada do Maestro, ela se despe sem saber que o personagem de Johnny Depp a espia de dentro do armário, num daqueles momentos clássicos de voyeurismo desse tipo de produção. E depois veste uma camisolinha transparente que não deixa absolutamente nada para a imaginação.


FÉRIAS DO BARULHO foi dirigido por George Bowers, que tem mais créditos de editor do que de diretor. Entre seus trabalhos mais famosos na montagem estão o cult movie “As Aventuras de Buckaroo Banzai” (1984) e a adaptação de Alan Moore “Do Inferno” (2001), que acabou se tornando seu segundo e último trabalho com um agora astro Johnny Depp (duvido que eles tenham se reencontrado durante a produção, mas seria engraçado).

Como cineasta, este foi o último dos seus quatro créditos para a tela grande, e certamente o mais lembrado. Os anteriores são um filme de horror (“The Hearse / O Carro Sinistro”, de 1980), uma versão 'black' de “Rocky” (“Body and Soul”, de 1981, com Leon Isaac Kennedy), e outra comédia erótica rasteira, aparentemente derivada de “Private Lessons” (“Minha Professora de Francês”, de 1983). Ele faleceu em 2012, e foi lembrado no obituário da cerimônia do Oscar do ano seguinte.


Visivelmente produzido e finalizado “nas coxas”, sem maiores cuidados ou pretensões, FÉRIAS DO BARULHO traz um dos erros de continuidade mais grosseiros da história do cinema. Reeves, o segurança que fica perseguindo Ben e Jack ao longo do filme, tem um olho roxo que aparece e desaparece ao longo do filme. A cena que mostra como ele ganhou o olho roxo aparece somente aos 57 minutos de tempo corrido, quando o coitado leva um soco desferido por um brutamontes que queria atingir os “heróis” - o agressor é interpretado por Andrew Dice Clay, que posteriormente virou celebridade fazendo stand-up comedy e, consequentemente, um ator cultuado.

O problema é que toda esta cena originalmente devia ter acontecido NO INÍCIO DO FILME, e deveria ser a primeira enrascada sexual envolvendo os protagonistas na trama. Em algum momento do processo de montagem, alguém deve ter decidido que era uma cena muito longa para estar ali e quebrava o ritmo do filme; aí os gênios a passaram lá para perto do final, esquecendo que o olho roxo do chefe de segurança não teria qualquer justificativa antes que o soco fosse desferido! O editor deve ter imaginado que o espectador nem perceberia, sendo constantemente bombardeado por peitos e bundas...


Por fim, mesmo um filme bobo como FÉRIAS DO BARULHO ganha uma nota triste quando o espectador descobre o triste destino que teve a namoradinha de Rob Morrow na história, Emily Longstreth. Ela chegou a ter papéis de destaque em vários filmes conhecidos nos anos 1980, incluindo este aqui, “A Garota de Rosa-Shocking” e a ficção científica “Cilada Implacável” (ambos de 1986), onde foi protagonista. No começo dos anos 1990, contracenou com jovens e promissores talentos como Kevin Bacon, Brad Pitt e Juliette Lewis.

E foi quando Emily desapareceu totalmente do meio artístico e familiar. Muitos fãs tentaram encontrá-la nos últimos 20 anos, principalmente depois do advento da internet, mas as informações são muitas e desencontradas. Em 2007, por exemplo, acreditava-se que ela tinha morrido no anonimato após ter que recorrer à prostituição para pagar as contas; no ano passado, um blog publicou e-mail de uma fonte anônima dizendo que ela abandonou o cinema por causa de transtornos psicológicos e hoje vive (ou sobrevive) como mendiga, em abrigos para moradores de rua. Qualquer que seja a verdade, é um destino muito triste para alguém que irradia simpatia aqui, e cuja carreira parecia prestes a decolar.


Pornochanchadas adolescentes como FÉRIAS DO BARULHO tiveram seu apogeu na primeira metade dos anos 1980. O subgênero foi riscado do mapa logo depois, ficando restrito a produções vagabundas produzidas direto para o mercado de vídeo. Numa reviravolta inesperada, “American Pie” chegou aos cinemas em 1999, foi um estrondoso sucesso e reacendeu o interesse por esse tipo de filme, como “Pânico” fez com os slashers na mesma época. Mas aí é outra história.

Por causa das incontáveis reprises no SBT, FÉRIAS DO BARULHO é muito mais conhecido aqui no Brasil do que no seu país de origem. Pouca gente o viu lá nos Estados Unidos na época do lançamento, e tem muito gringo descobrindo só agora que o super-astro Johnny Depp mostrou a bundinha numa comédia tosca de 1985 (esta também é a sua única cena de nudez até o momento, mas não é como se estivéssemos acompanhando...).


Como eu já mencionei, nenhum dos envolvidos na produção tem muito orgulho do filme para ficar comentando em voz alta. O astro em questão recusa-se até a falar sobre ele em entrevistas, o que é uma pena. Uma das suas poucas manifestações a respeito foi reproduzida no livro “Depp”, de Christopher Heard: “O filme é muito ruim, mas foi apenas um trabalho. O que mais me atraiu no projeto foi estar sendo pago para ir à Flórida ficar de bobeira por algumas semanas. Eu certamente não estava me queixando naquela época”.

No conjunto, o que temos aqui é uma comédia extremamente tosca, que funciona pelos motivos errados (tipo rir da falta de graça das piadas, ou dos erros técnicos, ou do mico que muitos atores hoje conhecidos estão pagando por uma mixaria, provavelmente). E que, como tal, continua valendo como passatempo cretino.


Volta-e-meia me pego revendo FÉRIAS DO BARULHO, e isso me remete à minha infância e adolescência, quando eu, meus irmãos e meus amigos costumávamos assisti-lo às gargalhadas. Também foi uma “inspiração artística” (putz!), já que a cena em que uma senhora toma comprimidos de quaaludes (uma droga afrodisíaca) por acidente me inspirou a criar um momento parecido no meu próprio filme “Canibais & Solidão”, de 2006.

Quem sabe o mundo tenha ficado mais triste no momento em que esse tipo de bobice parou de passar na TV. Pois tudo parecia tão mais simples, mais inocente e menos dramático naqueles tempos em que o SBT reprisava FÉRIAS DO BARULHO semana sim, a outra também...


SBT anuncia FÉRIAS DO BARULHO em 1988!