quarta-feira, 26 de março de 2014

NA TRILHA DA MORTE (1976)


Sempre que sai um novo "Os Mercenários", ou o último filme de ação estrelado por Stallone e Schwarzenegger (que estão chegando na casa dos 70 anos!), é comum que a molecada leite-com-pêra comece a reclamar e/ou fazer piadinhas envolvendo a idade dos veteranos. Talvez eles não saibam, mas dos anos 1970 até começo dos 1980 os astros de ação mais legais não eram jovenzinhos raquíticos, mas sim coroas cinquentões ou sessentões, de cabelo branco ou sem cabelo algum, e que nem por isso faziam feio!

Lee Marvin, por exemplo, foi um dos grande durões dos anos 1970, quando já era cinquentão, e tinha 62 anos ao fazer "Comando Delta" (1986) - isso porque, à época, era o único sujeito casca-grossa o suficiente para convencer como superior do astro Chuck Norris. Charles Bronson tinha 52 anos ao estrelar o primeiro "Desejo de Matar" e 63 quando fez "Desejo de Matar 3". E Clint Eastwood, antes de ser um diretor respeitado, era criticado (pelos mesmos críticos que hoje lhe rasgam seda) por estrelar descerebrados filmes de ação tipo "Firefox - A Raposa de Fogo" e "Impacto Fulminante" quando já tinha passado dos 50 anos!


E não dá para esquecer de Yul Brynner, dono de uma das carecas mais famosas do cinema. Nos anos 70, já cinquentão mas ainda em forma, o russo naturalizado norte-americano estrelou dois ótimos filmes em que dá um show na maioria dos moleques que você vê na telona do cinema hoje. Um é a aventura pós-apocalíptica "O Último Guerreiro" (1975), já resenhada aqui; o outro é NA TRILHA DA MORTE, que seria o seu último filme (Brynner estava com 56 anos na época das filmagens).

Mesmo com o rosto sulcado por rugas e pelas marcas do tempo, os 56 anos do astro não transparecem neste policial bem decente, dirigido por um dos grandes artesãos do cinema italiano, "Anthony M. Dawson", ou Antonio Margheritti. Ele era bastante popular pelos filmes de horror gótico e de ficção científica que dirigiu nos anos 60-70; mas àquela altura, como muitos outros cineastas da Terra da Bota, já se aventurava pelos mais diversos gêneros (no caso, o que quer que estivesse dando lucro no momento).


Yul Brynner era um daqueles atores tão fodões que, mesmo se ficasse parado o filme inteiro, só olhando para a câmera, sem socar ou atirar em ninguém, já bastaria para o espectador se convencer do quanto ele é fodão. E isso só por causa do seu semblante sério e de um característico olhar gélido e ameaçador que poucos atores depois dele conseguiram imitar - um daqueles olhares que deixaria muito brutamontes sem dormir de noite.

Esse "olhar 43" é uma das grandes armas de Brynner também em NA TRILHA DA MORTE, onde ele interpreta um assassino da Máfia aposentado chamado Peter Marciani, que está trabalhando como freelancer em Nova York e passa as horas de folga pescando na margem da famosa Ponte do Brooklyn!


Marciani resolveu abandonar o trabalho com os mafiosos depois que seu irmão mais novo foi executado na sua frente alguns anos antes, e ele próprio quase morreu no mesmo atentado. O ocorrido lhe deixou com um problema de visão (que pode ser puramente psicológico) permanente: sofre "bloqueios" diante de luzes muito fortes, porque isso lhe lembra o momento da morte do irmão.

Enquanto isso, em Nápoles, o mafioso Sal Leonardi é assassinado pelos homens de uma quadrilha rival, chefiada por Gennaro Gallo. O grupo de Leonardi resolve partir para a "vendetta" (vingança), mas decide que o melhor a fazer é mandar seu melhor homem para a guerra. E este é o ex-assassino Marciani, convencido a voltar para a Itália ao descobrir que Gallo, seu novo alvo, teria sido o mandante do assassinato do seu irmão anos antes.


Sem demora, o veterano matador viaja para Nápoles, onde acaba juntando forças com um jovem vigarista chamado Angelo (interpretado pelo cantor pop, e ídolo das adolescentes da época, Massimo Ranieri). A principal ocupação do rapaz é manipular os resultados das apostas no hipódromo local: ele convence clientes a fazerem grandes apostas em determinado animal e depois atinge o cavalo com um tiro de arma de pressão, forçando-o a acelerar e vencer a corrida!

Embora seja um mero vigarista, Angelo tem planos de subir para a "primeira divisão" do crime, e por isso acredita que associar-se a uma lenda do ramo, como Marciani, será muito bom para o seu currículo. A ligação entre eles fica tão forte que o rapaz chega a entregar a amada, uma stripper chamada Anny (Barbara Bouchet), para ser amante do veterano!


Numa reviravolta que lembra bastante "Assassino a Preço Fixo" (1972), de Michael Winner, o personagem de Brynner também começa a treinar o rapaz para ser um matador frio e implacável como ele, a exemplo do que Charles Bronson fez com outro jovem pupilo naquele filme.

Assim, entre um tiroteio e outro, o espectador acompanha o "embrutecimento" de Angelo e sua transformação de simples vigarista a assassino sem sentimentos. Quando Marciani executa um capanga que havia lhe dado informações importantes, o rapaz questiona: "Mas ele contou o que você queria, por que o matou?". O mentor rapidamente justifica sua frieza: "Para que não dissesse aos outros que sabemos". Mais adiante, Marciani explica as três etapas importantes do "negócio": preparação, tiro e fuga. "Se cometer um erro em alguma delas, você está morto", resume.


Ao mesmo tempo em que capangas de Gallo pipocam por toda parte, para tentar impedir o velho assassino de cumprir sua missão, a dupla Marciani/Angelo também enfrenta a própria polícia, representada por um comissário veterano interpretado pelo norte-americano Martin Balsam, que, encarnando o típico xerifão de western, quer evitar uma guerra sangrenta nas ruas da "sua" cidade.

Produzido pelo cineasta Umberto Lenzi (que dirigiu ele mesmo alguns policiais ultraviolentos na mesma época), NA TRILHA DA MORTE provavelmente não se diferenciaria muito de outros exemplares do cinema policial italiano se não fosse pela hipnótica presença de Brynner. Sempre vestido de preto, e raramente esboçando algo sequer parecido com um sorriso (a não ser quando vê Barbara Bouchet pelada, mas quem pode culpá-lo?), seu Peter Marciani é um daqueles personagens incríveis que o espectador até lamenta por não ter aparecido em mais filmes.


O roteiro de Guy Castaldo (este é o seu único crédito) é bastante eficiente em apresentar Marciani como uma figura cuja fama o faz ser ao mesmo tempo temido e respeitado, tanto pela polícia quanto pelos seus rivais. E isso acontece sem que seja preciso mostrar Brynner matando 30 ou 40 pessoas no começo do filme; pelo contrário, o ator convence o espectador da sua periculosidade apenas com a (falta de) expressão e atitude.

Numa cena fantástica, que resume o quanto Marciani é "o cara", ele é rendido por um dos capangas de Gallo, que aponta uma arma para a sua cabeça. "Se eu fosse você, atiraria agora mesmo", diz Brynner, com aquela sua cara de poucos amigos. Quando o capanga explica que Marciani vale muito mais caso seja entregue vivo, o temido matador retruca: "Se eu fosse você, atiraria mesmo assim!".


E o que acontece depois é relevante; a força da cena é a mítica do personagem e do ator que o interpreta - já que qualquer espectador que tenha visto "Sete Homens e um Destino", "Adios Sabata" ou mesmo "Westworld - Onde Ninguém Tem Alma", sabe que Yul Brynner é um sujeito com quem não se deve mexer...

Nesses tempos em que vigora o politicamente correto, e heróis são exemplos de conduta chatos como coroinhas, sempre é bom ver um filme cujo protagonista é um anti-herói que não faz prisioneiros e nem fica com a consciência pesada depois de executar rivais desarmados.

Para arrancar informações de um capanga ferido, por exemplo, Marciani cutuca o buraco de bala do sujeito com sua arma, sem fazer cerimônia. O que só evidencia aquilo que eu escrevi acima: que não se deve mexer com Yul Brynner!


Embora NA TRILHA DA MORTE não esteja entre os melhores trabalhos de Margheritti, e muito menos entre os mais memoráveis, tem muita coisa boa que ajuda a valorizar a trama de vingança mafiosa já batida. Um dos diferenciais é o trauma/problema de visão do protagonista, que se manifesta sempre que uma luz forte incide sobre os seus olhos, seja o sol ou a passagem de um trem no metrô.

Quando isso acontece, Marciani é bombardeado por imagens que até lembram uma viagem de LSD, enxergando, em cores vivas, as últimas imagens do momento da execução do irmão. Mais tarde o espectador descobre que este trauma surgiu do reflexo do sol no pára-brisa de um carro, que atingiu os olhos de Marciani durante aquele evento traumático.


Outra coisa boa (ou, neste caso, maravilhosa) de NA TRILHA DA MORTE é a alemã Barbara Bouchet, interpretando a stripper por quem Marciani e Angelo são igualmente apaixonados. A moça não regula no quesito nudez e aparece completamente pelada em frente e verso, embora as cenas mais "ousadas" tenham sido cortadas em algumas versões do filme que circulam por aí.

O irônico é que embora Anny e Marciani interpretem um casal apaixonado, nos bastidores não havia nenhuma química entre Brynner e Barbara: eles simplesmente se odiavam! Segundo entrevistas da atriz, o quebra-pau teria começado por causa da maneira tirânica com que Yul tratava a equipe. Ao testemunhar o envelhecido astro jogando as meias sujas no rosto da figurinista e mandando que as lavasse, Barbara ficou revoltada e passou a tratar seu colega de cena com a mesma grosseria.

O auge da provocação foi quando ela descobriu que Yul era supersticioso e não gostava de cravos, por temer uma reação alérgica às flores. Sem pensar duas vezes, Barbara mandou um enorme buquê de cravos para o camarim do ator!


Curiosamente, o resto da equipe sempre manteve uma relação de cortesia com o careca. Massimo Ranieri, que interpretou seu pupilo no filme, e teve que passar mais tempo com ele, falou sobre isso em entrevista publicada no livro "Yul Brynner: A Biography", de Michelangelo Capua. O rapaz teve um contato anterior com Yul durante as filmagens de "O Farol do Fim do Mundo" (1971), e na ocasião havia achado o ator muito arrogante e pretensioso.

Nesse segundo trabalho juntos, entretanto, Yul teria mudado praticamente da água para o vinho: "Eu descobri um ser humano fantástico, com uma sensibilidade extraordinária", disse Ranieri no livro, lembrando das suas conversas com o astro sobre os trabalhos humanitários que ele fazia, voltados a crianças refugiadas da guerra (Brynner inclusive teria realizado diversas viagens ao Vietnã por aqueles anos, colaborando com as Nações Unidas para ajudar órfãos do conflito).


O diretor Margheritti também gostou muito de trabalhar com Yul e realizou um grande sonho ao dirigi-lo, já que era fã declarado do astro. A experiência foi tão boa que Margheritti prometeu fazer um segundo filme estrelado por ele, em que o careca interpretaria um caçador na África. Só que o projeto nunca sairia do papel porque a carreira de Brynner ganhou uma sobrevida na Broadway: a partir do seu retorno aos EUA, naquele mesmo ano, o ator passou a fazer mais sucesso nos palcos do que seus últimos filmes no cinema!

Em 1977, ele resolveu repetir um dos seus papéis mais famosos, o Rei Mongkut de "O Rei e Eu", que já havia feito nos palcos e no filme homônimo de 1956, numa nova montagem da obra para a Broadway. O espetáculo foi um sucesso estrondoso e teve diversas turnês pelos Estados Unidos e pela Europa durante os oito anos seguintes, até 1985. Neste ano, em 30 de junho, Yul comemorou 4.625 performances em "O Rei e Eu" (!!!), e morreria quatro meses depois (em 10 de outubro de 1985), por complicações decorrentes do câncer de pulmão diagnosticado algum tempo antes.


Embora não tenha concretizado a anunciada parceria seguinte com o astro, pelo menos Margheritti deu a última oportunidade para Yul Brynner no cinema. E parece ter se divertido bastante na direção, já que NA TRILHA DA MORTE não se leva tão a sério como parece: tem até um momento em que os vilões tentam eliminar Marciani usando um... colírio assassino?!?

Mas a cena mais divertida é aquela em que Marciani executa uma vítima durante o show de uma banda de rock tipicamente setentista; atingida pelo tiro fatal, a vítima se contorce em câmera lenta, com os braços abertos, e a imagem se confunde com a do vocalista da banda na mesma posição!


As cenas de ação também são eficientes, com a quantidade certa de tiroteios e perseguições de automóvel, ao som da bela trilha sonora dos irmãos De Angelis, Guido e Maurizio (o mausoléu da família De Angelis aparece em certa cena num cemitério, talvez numa homenagem/citação à dupla).

Mas o filme não abusa da violência explícita característica dos filmes policiais (ou de Máfia) produzidos na Itália na época, e pouquíssimo sangue é mostrado - o oposto do que promete o violento pôster italiano, reproduzido acima.


E por falar em pôster, vale destacar uma inacreditável picaretagem relacionada ao filme. NA TRILHA DA MORTE chama-se, originalmente, "Con La Rabia Aggli Occhi" ("Com a Raiva nos Olhos"), um título que diz muito sobre o personagem de Brynner, sua sede de vingança e mesmo o seu problema ocular/psicológico.

Mas quando ele foi lançado nos Estados Unidos, o distribuidor resolveu transformá-lo numa continuação de "Desejo de Matar" (!!!), mesmo que um filme não tenha absolutamente nada a ver com o outro.

Para isso, rebatizou o policial italiano como "Death Rage" (Fúria Mortal), e providenciou um pôster completamente enganoso (ao lado), onde se lê, em letras garrafais: "O segundo capítulo do Vigilante da Cidade Grande! Bronson começou, Brynner termina!".

Mais embaixo, para forçar a relação com o sucesso dirigido por Michael Winner em 1974, há um "Primeiro 'Death Wish'. Agora... 'Death Rage'!".

Não sei se a picaretagem do distribuidor surtiu algum efeito, mas com certeza o público que esperava ver uma nova aventura na linha de "Desejo de Matar" saiu frustrado ao encontrar uma história sobre guerra de mafiosos que sequer se passa em Nova York, mas sim na Itália!

(A continuação "oficial" de "Desejo de Matar" sairia apenas em 1982, e com Charles Bronson de volta ao papel de protagonista, e não Yul Brynner!)


NA TRILHA DA MORTE pode até não ser o mais memorável dos trabalhos do astro no cinema (embora bastante decente como um fim de filmografia, já que ele interpreta um personagem de classe e ainda dá uns pegas numa gatinha com a metade da sua idade). Mas sempre é bom ver o mitológico Brynner em ação e constatar como esses coroas mandavam bem no cinema de outrora.

Principalmente em comparação com o que se tem hoje, pois o posto de careca durão do cinema de ação deixado por ele espera desde 1985 para ser preenchido. Até existem dois bons concorrentes contemporâneos à vaga (Vin Diesel e Jason Statham), mas ambos ainda precisam comer muito feijão com arroz para ficar à altura do bom e velho Yul Brynner...


Trailer de NA TRILHA DA MORTE



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Con La Rabbia Aggli Occhi (1976, Itália)
Direção: Anthony M. Dawson (aka Antonio Margheritti)
Elenco: Yul Brynner, Massimo Ranieri, Martin Balsan,
Barbara Bouchet, Giacomo Furia, Salvatore Borghese,
Rosario Borelli e Giancarlo Sbragia.

sexta-feira, 21 de março de 2014

BEOWULF - O GUERREIRO DAS SOMBRAS (1999)


Escrito entre os séculos 7 e 8 por autor desconhecido, "Beowulf" é o mais antigo poema épico em inglês ainda existente - e, por isso mesmo, uma das obras mais importantes da literatura inglesa. Conta a história de Beowulf, herói que viaja até um castelo na antiga Escandinávia para enfrentar Grendel, um monstro que está semeando morte e destruição por lá. O manuscrito sobrevivente, a partir do qual foram feitas todas as traduções posteriores, seria do século 10, e hoje "Beowulf" é obrigatório tanto nas aulas de literatura quanto de história para alunos de língua inglesa.

Bem, seja lá quem for que tenha escrito o poema (seu nome se perdeu na poeira dos tempos), fico imaginando a cara do sujeito caso ele viajasse no tempo até 1999 e visse uma das adaptações cinematográficas do seu épico, a bizarra (na falta de adjetivo melhor) aventura BEOWULF - O GUERREIRO DAS SOMBRAS.

Afinal, lá pelas tantas, Beowulf e Grendel lutam ao som de música eletrônica, como se estivessem numa rave, e não num duelo até a morte, e o herói pratica acrobacias e piruetas dignas das pancadarias envolvendo Neo e o Agente Smith em "Matrix" (por coincidência, lançado no mesmo ano)!


E isso não é nem de longe o mais estranho de BEOWULF, que merece, com distinção, o rótulo de "Filme para Doidos", conforme veremos ao longo dessa resenha. É tanta maluquice, doideira e coisa fora de lugar que dá para entender porque o filme foi tão mal-recebido na época do seu lançamento - embora seja exatamente pela maluquice, pela doideira e pelas coisas fora de lugar que eu tenha gostado tanto dele em primeiro lugar!

Para começar, o roteiro de Mark Leahy e David Chappe (este é o único crédito de ambos, e Chappe até já morreu) não esconde suas intenções de atualizar o velho épico "Beowulf" para uma nova geração.

Imagine, caro leitor, que o poema é, para os jovens norte-americanos e ingleses, o mesmo que Machado de Assis é para os brasileiros: um texto arcaico (nesse caso, escrito há mais de mil anos), que eles terão muita dificuldade para ler (o inglês antigo tem diversas expressões em desuso, por isso a leitura exige constantes consultas a um glossário) e dificilmente vão entender (se quiser tirar a prova por conta própria, confira a obra na íntegra nesse link do Projeto Gutenberg).


A proposta de Leahy e Chappe foi ambiciosa: manter a "essência" do poema, mas ao mesmo tempo adicionando coisas que a molecada dos anos 1990 curtia (e com as quais se identificava muito mais), tipo música tecno, as lutas cheias de piruetas típicas do cinema de ação da época (e dos videogames) e muitos efeitos especiais. Os puristas acharam uma heresia, é claro. Mas confesso que sempre acompanho com interesse essas tentativas de modernizar textos clássicos.

Eu gosto muito de uma atualização de "Hamlet" dirigida por Michael Almereyda em 2000, que traz o personagem-título como um videomaker (ele filma os longos monólogos que Hamlet recitava na peça original), enquanto a disputa pelo trono da Dinamarca foi alterada para a luta pela presidência de um grande conglomerado empresarial chamado... Dinamarca! O Hamlet clássico, aquele escrito por Shakespeare no século 17, continuará existindo e continuará sendo filmado e encenado, mas essa versão "modernizada" provavelmente conseguiu atingir um outro público que não teria nenhum interesse no Hamlet "antigo".


Porém, no caso de BEOWULF, a sofisticação do "Hamlet" modernizado de Almereyda passa longe: a adaptação transformou um dos grandes épicos da literatura anglo-saxônica num videogame cheio de ação e música eletrônica.

Talvez tenha algo a ver com o fato de o produtor, Lawrence Kasanoff, ser o mesmo homem por trás da adaptação do videogame "Mortal Kombat" para o cinema em 1995 (com direção de Paul W.S. Anderson). Tem muitas semelhanças estilísticas entre as duas obras, incluindo uma sequência de abertura muito parecida e a já citada trilha sonora tecno.


BEOWULF também altera o cenário do poema clássico da antiga Escandinávia para um espaço-tempo indefinido, que pode ser tanto um futuro pós-apocalíptico em que a humanidade regrediu de volta a uma Idade Média forçada, mas mantendo resquícios da "modernidade" nas roupas, armas e outros elementos de cena (o trailer faz menção a isso), ou mesmo a Idade Média de algum universo paralelo.

Este tipo de ambientação é o que se convencionou chamar de steampunk: um subgênero da ficção científica que estava no auge no início dos anos 1990, e que trata de um passado "alternativo" onde a tecnologia avançou mais rápido do que na vida real, gerando um bizarro cruzamento entre, por exemplo, cavaleiros medievais e máquinas a vapor.


O universo esquisitão de BEOWULF é apresentado desde os primeiros minutos, já que a ambientação da trama é um castelo que parece saído do pesadelo de algum arquiteto modernista: todo construído em metal, e com chamas de gás metano e fumaça saindo eternamente por toda parte, o cenário lembra o cruzamento entre um velho forte medieval com uma fábrica dos primórdios da Era Industrial, ou uma refinaria de petróleo pós-apocalíptica!

Este excêntrico palacete é governado pelo Rei Hrothgar (Oliver Cotton), e está sendo assombrado noite após noite por um monstro que aparece e desaparece - o Grendel do poema, embora o nome seja usado pouquíssimas vezes -, e que sempre deixa uma vítima esquartejada.


Do lado de fora do castelo, moradores das aldeias próximas delimitaram um cerco para não deixar que ninguém entre ou saia da construção, temendo que a "maldição" se espalhe para o resto do reino. É uma mudança bem-vinda ao texto original, pois no poema Hrothgar e seu povo não abandonavam o palacete assombrado por puro patriotismo (de não querer sair do lar construído pelos antepassados), enquanto aqui há uma explicação mais lógica e aceitável (o cerco que impede a fuga do castelo).

Logo no início, os aldeões aprisionam uma garota que acabou de fugir do palácio maldito (interpretada pela gatinha venezuelana Patricia Velasquez, de "O Retorno da Múmia"), e se preparam para executá-la, para não deixar "o Mal se perpetuar", quando aparece o herói Beowulf para acabar com a farra.


Se o espectador ainda não tinha percebido que estava vendo um filme... digamos... diferente, a partir deste momento terá a confirmação de que BEOWULF é um legítimo "Filme para Doidos". Afinal, não só a garota é amarrada em um excêntrico instrumento de tortura que lembra o formato de uma navalha gigante (acima), mas também o herói Beowulf é interpretado por... Christopher Lambert!!!

Completamente diferente do Beowulf do poema (conforme veremos mais adiante), o herói interpretado por Lambert surge vestindo roupas de couro e um grande sobretudo preto por cima de tudo, estilo "Matrix". E ele resgata a moça da execução utilizando todo tipo de "gadgets" futuristas, inclusive duas bestas que dispara como se estivesse num filme do John Woo - segurando uma em cada mão e apontando-as ao mesmo tempo para a fuça dos inimigos! Ah, e as bestas se carregam automaticamente com novas flechas, não me pergunte como...


Depois de arregaçar vários rivais com suas armas engraçadas e desfilar todo tipo de piruetas e acrobacias, Beowulf tenta levar a garota resgatada de volta para o castelo. Só que entre a morte nas mãos dos aldeões ou nas garras do monstro, ela prefere correr de volta para seus captores - que, agora sim, conseguem finalmente executá-la antes que o herói consiga reagir.

Dessa forma, toda a cena do resgate foi completamente inútil - bem como todos os inimigos mortos por Beowulf neste prólogo morreram por nada! Que beleza de roteiro, não?


Sem mais delongas, nosso herói parte rumo ao castelo decidido a acabar com Grendel. Não demora para que se envolva nas intrigas palacianas, já que o Rei está sendo assombrado por um segredo do passado (que pode estar ligado à origem do monstro), e sua filha, Kyra (Rhona Mitra, explodindo de gostosa!), acabou de perder o marido de maneira misteriosa.

Quando a moça começar a se atirar para cima do recém-chegado cavaleiro, surgirá uma rivalidade-clichê com Roland (Gotz Otto), o melhor soldado do castelo e também um pretendente enciumado de Kyra.

E Grendel não se faz de rogado: alheio às tais intrigas, o monstro continua atacando toda noite, aparecendo e desaparecendo como que por mágica, ao mesmo tempo em que parece indestrutível às armas dos poucos guerreiros dispostos a enfrentá-lo. Será que Beowulf terá melhor sorte contra a ameaça?


BEOWULF foi dirigido pelo inglês Graham Baker, que tem uma pequena filmografia composta por conhecidos filmes divertidos e descartáveis como "A Profecia 3 - O Conflito Final", "Vìtimas do Desconhecido" e "Missão Alien" (1988, que foi provavelmente o ponto alto da sua carreira e rendeu até seriado de TV). Este aqui foi o último filme que Baker dirigiu, e o homem está sumido do mapa desde 1999!

Mas o grande culpado pelo resultado final não foi o diretor, e sim o produtor Kasanoff. Consta que Baker assumiu o comando do filme com a promessa de um orçamento de 25 milhões de dólares. Porém, durante as filmagens, a verba foi sendo cortada drasticamente. Segundo algumas fontes, o orçamento REAL teria sido de menos de 4 milhões (!!!), o que explica o ar de filme classe C da coisa toda (as filmagens aconteceram na Romênia, não só pelas belas paisagens, mas principalmente para economizar).


BEOWULF também deu azar de ter sido feito mais ou menos na mesma época de outra produção problemática, "O 13º Guerreiro", de John McTiernan, filme baseado no livro "Devoradores de Mortos", de Michael Crichton, que por sua vez é considerado uma releitura contemporânea (ou homenagem, se preferirem) ao poema "Beowulf".

Quando "O 13º Guerreiro", que era uma superprodução de 85 milhões de dólares, naufragou nas bilheterias (arrecadando menos de 30 milhões!), a Miramax decidiu não arriscar e cancelou o lançamento de BEOWULF nos cinemas, como estava inicialmente previsto. Assim, embora o filme tenha passado na telona em alguns poucos festivais europeus, acabou saindo direto em vídeo nos Estados Unidos.


Ainda que o filme tenha problemas evidentes, a adaptação "contemporânea" dos roteiristas Leahy e Chappe merece elogios, já que "Beowulf", o poema, é meio infilmável em versão integral. No texto original, Grendel ataca o palácio do Rei Hrothgar durante doze anos antes que o herói resolva se mexer para enfrentar a ameaça (e isso que ele vive a apenas um dia de viagem pelo mar!). Quando Beowulf finalmente resolve fazer alguma coisa pelos vizinhos, ele reúne 14 guerreiros de confiança e parte para o palácio assombrado, onde enfrenta e mata o monstro já na primeira noite, arrancando o braço de Grendel numa luta sem armas!!!

Na adaptação cinematográfica, fica claro que os ataques do monstro são coisa recente, e Grendel é representado como uma criatura monstruosa que usa camuflagem para "desaparecer", estilo Predador. Ao invés de ser derrotado por Beowulf já na primeira noite, ele continua aparecendo de repente para matar vítimas que insistem em perambular sozinhas pelo castelo - uma desculpa para as cenas de suspense e ação que o poema, obviamente, não traz!


Outra grande liberdade poética de BEOWULF é em relação ao personagem-título. Enquanto no poema ele é descrito como o típico guerreiro musculoso ao estilo Hércules ou Sansão, e sempre cercado por seus fiéis soldados, no filme o Beowulf de Lambert é uma figura mais trágica e solitária, uma espécie de anti-herói sempre vestido de preto e assombrado por questões existenciais - muito diferente do fortão bonachão do original.

Acontece que o Beowulf cinematográfico nasceu do cruzamento de uma mãe humana com o demônio Baal. Dividido entre Luz e Escuridão, ele está constantemente sendo tentado pelo seu "lado negro", e decide combater o Mal para evitar que ele mesmo passe para o outro lado (conforme justifica ao Rei Hrothgar no filme).

O fato de ser filho de um demônio também lhe garante algumas cartas na manga, como o poder de sobreviver a ferimentos graves e regenerá-los em tempo recorde, tipo o Wolverine. E, ao contrário do Beowulf do livro, que pode contar com 14 guerreiros, o do filme é uma alma amargurada e solitária que prefere enfrentar Grendel sozinho. Em alguns momentos, parece até que Christopher Lambert está interpretando o igualmente amargurado e solitário Connor McLeod, de "Highlander", novamente.


Na época do lançamento, BEOWULF foi destruído sem piedade pela crítica, principalmente por causa dessas inúmeras liberdades poéticas tomadas na "atualização" do texto clássico, mas também por causa da ambientação absurda e da direção de arte chapada.

Algumas resenhas resumiram o filme como "medíocre"; outras alegaram que "os filmes de gênero dificilmente ficarão mais idiotas do que este" (ah, se eles soubessem que dentro de alguns anos teríamos coisas como "Transformers" e "Avatar"...). Ninguém parece ter enxergado a aventura divertida e estúpida que Graham Baker dirigiu, e eu confesso que até me impressionei com o quanto BEOWULF era divertido quando finalmente resolvi assisti-lo; pelas críticas, já esperava a grande bomba do milênio.


Depois, eu até procurei ler várias dessas resenhas negativas para tentar entender o porquê de tanto ódio. E acabei me surpreendendo com o fato de muitas coisas que os críticos consideram pontos negativos representarem, pelo menos para mim, grandes acertos do filme! Porque se eu tivesse visto BEOWULF lá pelos meus 10 ou 11 anos, ele provavelmente se tornaria um clássico da minha infância como acabaram sendo "Os Caçadores de Atlântida" e "Fuga de Nova York"!

A ambientação e a direção de arte que misturam presente e passado, por exemplo, tornam a experiência muito mais interessante do que se a história se passasse apenas na Idade Média ou apenas no futuro. É como se "Army of Darkness" tivesse sido dirigido por Terry Gilliam; ou, para ser menos exagerado, um cruzamento entre "Mad Max 2" e "Excalibur".


O palácio meio medieval, meio industrial é um cenário incrível, assim como o design dos figurinos, objetos de cenas e principalmente armas (o Rei Hrothgar leva uma gigantesca espada serrilhada que lembra bastante uma motosserra, e os elmos lembram tanto capacetes de motociclista quanto escafandros de mergulhador!). Isso revela uma preocupação do diretor de arte em criar um universo excêntrico, sim, mas perfeitamente crível, onde passado, presente e até elementos futuristas convivem lado a lado.

Nesse aspecto, a trilha sonora eletrônica "moderninha" não soa tão deslocada quanto, por exemplo, a música de sintetizador de "O Feitiço de Áquila", de Richard Donner. Mesmo assim, o "tum-tum-tum" começa a incomodar os ouvidos depois da terceira ou quarta cena de ação ao som de tecno, quando você até começa a fazer uma analogia entre as múltiplas piruetas de Beowulf e alguém chapado de ecstasy dançando numa rave!


Muitas críticas da época também reclamaram do francês Christopher Lambert no papel principal. À época, Lambert já estava longe dos seus tempos de astro (com "Greystoke - A Lenda de Tarzan" e "Highlander", nos anos 80), e já começava o reinado nos filmes de ação direto para vídeo, muitos deles dirigidos por Albert Pyun.

Ao estrelar BEOWULF, Lambert deixou de repetir o papel de Rayden na primeira continuação de "Mortal Kombat". Assim, James Remar assumiu seu papel em "Mortal Kombat - A Aniquilação" (1997), e este filme é tão ruim que acho que o francês tomou a decisão certa.


Mas eu sou suspeito pra falar porque sou fãzaço de Lambert desde sempre, e acho que ainda chegará o dia em que ele será eleito o "ator que não sabe atuar" mais cool do Universo! Sua interpretação aqui é muito divertida, sempre com um sorrisinho cínico no canto da boca, de quem não está levando a coisa muito a sério.

E dando piruetas e saltos ornamentais durante as lutas como se fosse um ginasta olímpico (o astro é substituído por um dublê mais do que visível e que tem pelo menos 30 anos a menos). Por sinal, essas piruetas e pulinhos durante as lutas me lembraram as escalafobéticas cenas de ação do cinema trash turco!


Para o público masculino, BEOWULF traz ainda dois verdadeiros colírios para os olhos (além da já citada Patricia Velasquez, que infelizmente aparece pouco). Rhona Mitra está um espetáculo, e aparece o tempo inteiro vestindo corselets tão apertados que parece que seus peitões vão pular para fora do figurino a qualquer momento (acima). O que, infelizmente, fica só na ameaça.

Hoje, mais famosinha, a moça já declarou que se arrependeu de ter feito o filme e que teve uma experiência terrível na Romênia. O curioso é que ela escapou de filmar uma cena em que seria abusada sexualmente por Grendel, quando o diretor Baker achou que não havia lugar para isso na história. Mas cacilda, como é que o cara não arruma espaço para uma gostosa sendo estuprada por um monstro num filme como esse???

O outro colírio é a Coelhinha da Playboy Layla Roberts, que aparece "quase nua" (abaixo) como uma "súcubo" que no passado seduziu Hrothgar, e de cuja relação nasceu Grendel (em outra grande liberdade poética do roteiro em relação ao poema, onde o monstro era filho de... Caim, o famoso assassino do irmão Abel!!!). O resto do elenco é predominantemente masculino, então essas três belas (Rhona, Layla e Patricia) fazem a diferença no meio das "feras".


Fãs de podreiras vão gostar de saber que BEOWULF vai ficando cada vez mais maluco conforme a trama progride, e o auge da porra-louquice é quando a súcubo gostosa se transforma num HI-LÁ-RIO monstrengo gigante lovecraftiano (abaixo), produzido a partir da pior computação gráfica disponível na época! É bater o olho no bicho para começar a gargalhar sem parar, embora o restante do filme utilize efeitos práticos bem eficientes até. Grendel, por exemplo, é um homem num traje de monstro (Vincent Hammond, especialista em "interpretar" criaturas).

Vale destacar que o monstrão em CGI é outra criação exclusiva dos roteiristas Leahy e Chappe. No poema em que se inspiraram, Beowulf volta para a sua terra-natal após matar Grendel, é proclamado rei e, 50 anos mais tarde (!!!), enfrenta uma nova ameaça, dessa vez um dragão - que, felizmente, não aparece aqui e talvez tenha ficado para um futuro e nunca realizado "Beowulf 2"!


Mesmo bem longe de ser uma obra-prima, BEOWULF tem qualidades mais do que suficientes para ser lembrado por fãs de tranqueiras (principalmente a direção de arte inspirada, algo que não é tão comum em produções barateiras como essa).

As cenas de ação a cada 10 minutos também seguram o clima numa boa, e a duração de 95 minutos não chega a incomodar como outros épicos cinematográficos contemporâneos (tipo a série "O Senhor dos Anéis"). Assim, o filme é redondinho, curto e grosso, e funciona dentro das suas limitações.

Quase dez anos depois, em 2007, Robert Zemeckis fez aquela que muitas consideram a adaptação definitiva do clássico literário para o cinema, "A Lenda de Beowulf". Mas o fez em forma de animação, com atores famosos de Hollywood emprestando seus movimentos e feições para os bonequinhos de computação gráfica (Ray Winstone para Beowulf, Anthony Hopkins para Hrothgar e Angelina Jolie para a mãe de Grendel), e ambientando a história na época em que ela acontece originalmente no poema (lá pelo ano 500 d.C.).


Nunca vi essa versão do Zemeckis para tirar a prova, já que não sou muito chegado em animação computadorizada. Mas, sinceramente, duvido que seja tão divertida quanto a dirigida por Baker. Assim como duvido que o Beowulf de Winstone seja tão eficiente quanto o de Christopher Lambert, capaz de disparar bestas como se fossem pistolas automáticas e cruzar o cenário dando saltos mortais.

Se "só pode haver um", como Lambert vivia dizendo na série "Highlander", prefiro que este seja o Beowulf pobretão de 1999...

PS: Qual clássico da literatura brasileira também mereceria uma versão anabolizada tipo BEOWULF? Que tal uma versão pós-apocalíptica de "Grande Sertão: Veredas"? Ou um novo "O Guarani", em que o índio Peri lutaria contra seus inimigos usando artes marciais e ao som de música eletrônica? Peraí, melhor não dar ideia...


Trailer de BEOWULF - O GUERREIRO DAS SOMBRAS



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Beowulf (1999, EUA/Reino Unido)
Direção: Graham Baker
Elenco: Christopher Lambert, Rhona Mitra, Götz Otto,
Oliver Cotton, Layla Roberts, Vincent Hammond,
Patricia Velasquez e Charles Robinson.