quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

CYBORG COP - A GUERRA DO NARCOTRÁFICO (1993)


(Sim, esta é mais uma postagem da Série "Preferi rever isso do que ver o remake de Robocop". Desculpa aí, Padilhão!)


Antes de produzir blockbusters como "Invasão à Casa Branca", "Os Mercenários" e o remake de "Conan", com orçamentos entre 70 e 100 milhões de dólares, a companhia Nu Image Films tinha propósitos, digamos, mais humildes. Quando foi fundada, no começo dos anos 1990, ela basicamente buscava suprir uma lacuna surgida com a falência da mítica Cannon Films: produzir filmes de ação classe B (às vezes até C) para alimentar as videolocadoras da época, ávidas principalmente por produções de pancadaria.

Pois a Nu Image preencheu o espaço deixado pela Cannon com bastante eficiência e, pelo menos duas décadas antes de suas produções mais dinheirudas, lançou franquias populares estreladas por um star system próprio, formado por sub-Van Dammes ou sub-Steven Seagals tipo Jerry Trimble, Bryan Genesse, Joe Lara, Frank Zagarino e David Bradley. E foi este último que protagonizou uma das primeiras e mais bem-sucedidas séries da produtora, iniciada em 1993 com CYBORG COP.


Como o título original já entrega, CYBORG COP tenta faturar seus centavos na onda da "Robocopmania". Porque apesar de o filme original de Paul Verhoeven ser de 1987, era nos anos 90 que o personagem Robocop estava bombando graças às duas continuações (lançadas em 1990 e 1993), que geraram desenho animado para a TV, seriado, jogos de videogame, histórias em quadrinhos (publicadas pela Marvel!) e todo tipo de produto com a imagem do policial enlatado.

Só que a relação desta produção barateira da Nu Image com "Robocop" fica praticamente só no título, uma cópia descarada que apenas substitui o "Robot" pelo "Cyborg" (milagre nunca terem feito um "Android Cop" também). Já no filme em si não existe nenhum policial transformado em robô para combater o crime ou coisa que o valha, como o título faz supor.


Quer dizer, até tem um policial que vira robô (ou cyborg!), mas ele sequer tem participação direta na trama, que bebe muito mais da fonte de "O Exterminador do Futuro" e seus cyborgs malvados (a Parte 2 tinha saído dois anos antes, em 1991) do que na de "Robocop". Não por acaso, o projeto originalmente tinha outro nome: "Cyborg Ninja" (!!!), talvez pelo fato de o diretor ser o mesmo Sam Firstenberg do sucesso "American Ninja"!

(Pode-se dizer que dessa vez os distribuidores brasileiros foram muito mais honestos, já que mandaram CYBORG COP para as locadoras com um subtítulo em português que tem muito mais a ver com o assunto do filme: "A Guerra do Narcotráfico"!)


A escolha de Firstenberg para dirigir CYBORG COP confirma as pretensões do pessoal da Nu Image de ser a "Nova Cannon". Afinal, Sam foi um dos diretores que deu lucro na lendária produtora de Golan e Globus, assinando sucessos como o já citado "American Ninja" e também os ótimos "A Vingança do Ninja", "Ninja 3 - A Dominação" e "American Samurai". Não seria exagero dizer que o sujeito deu mais grana na Cannon do que nomes muito mais badalados cujos projetos naufragaram nas bilheterias - tipo Tobe Hooper.

Já para o papel de herói escalaram o texano David Bradley, um astro de ação da terceira divisão que nunca fez muito sucesso, embora seja melhor que gente que chegou bem longe. E pelo menos sabia lutar de verdade, ao contrário de caras tipo Michael Dudikoff - que, quando estrelou "American Ninja", não sabia patavinas de artes marciais. Bradley, por outro lado, treinava karate e aikido, e essas habilidades aparecem em cada cena de luta do filme.

(Ironicamente, já que citamos o nome dele, Bradley substituiu Dudikoff na série "American Ninja", estrelando as partes 3 a 5 no lugar do loirinho!)


Com roteiro de Greg Latter e Glen A. Bruce, CYBORG COP começa com dois agentes do D.E.A. (a Divisão de Narcóticos norte-americana) lidando com um maluco que ameaça uma refém dentro de um depósito abandonado. E eu não sei se faz parte da jurisdição do D.E.A. resolver problemas de malucos com reféns, mas lá estão os irmãos Ryan, Jack (Bradley) e Phillip (Todd Jensen), tentando salvar o dia.

E você não leu errado: o nome do herói é JACK RYAN, mesmo nome do personagem criado por Tom Clancy para uma série de livros de sucesso, que depois deu origem a diversos filmes também de relativo sucesso, como "Caçada ao Outubro Vermelho" e "Jogos Patrióticos". Obviamente que o Jack Ryan de CYBORG COP não tem nada a ver com o outro mais famoso, mas bem que seria divertido colocar David Bradley no mesmo patamar de Alec Baldwin, Harrison Ford, Ben Affleck e Chris Pine (os astros que interpretaram o Jack Ryan "oficial" no cinema).


Ocorre que Jack é o típico agente cabeça-quente que não segue as normas e todo aquele bla-bla-bla típico do cinema de ação do período; ele prefere encher o malucão de tiros ao invés de esperar pela chegada do negociador da SWAT e o escambau. Só que o finado era filho de um magnata da imprensa, e a campanha do pai enfurecido contra o herói nos jornais faz com que ele seja expulso do D.E.A.

Algum tempo depois, Phillip comunica o irmão de que está partindo para o Caribe (as filmagens foram na África do Sul, para economizar), numa operação secreta para destruir o império de drogas mantido por um cientista louco chamado Kessel (John Rhys-Davies!!!). Só que a operação é um desastre, todos os homens são mortos e o próprio Phillip é gravemente ferido num confronto com Quincy (?!?), o "cyborg de estimação" do vilão!


Péra lá! Aqui é necessário abrir um parêntese...

Acontece que o filme nunca deixa claro qual é a do tal vilão Kessel. Quer dizer, ele possui uma refinaria de cocaína no Caribe que lhe rendeu uma fortuna considerável, ou pelo menos o suficiente para ter uma mansão e um laboratório de alta tecnologia. Nesse laboratório, repleto de cientistas que certamente não cobram barato para estar ali à disposição do vilão, ele ainda torra ainda mais dinheiro transformando seres humanos em cyborgs.

E esses cyborgs são usados não só como capangas indestrutíveis, mas também como assassinos cibernéticos para crimes políticos, serviço pelo qual Kessel cobra dinheiro dos contratantes. Mas peraí um pouquinho: será que ele precisaria desse dinheiro caso não tivesse investido a grana que ganhou produzindo/vendendo drogas na fabricação de cyborgs em primeiro lugar? Não bastava ficar com a venda de drogas como fonte principal de renda?


Pois Quincy, o capanga cibernético do vilão (interpretado por Rufus Swart, que lembra uma versão mais jovem do Larry Drake, de "Darkman" e "Dr. Giggles"), é indestrutível e forte o bastante para atravessar o crânio de um sujeito com um único soco. Também pode fazer surgir lâminas, saídas das pontas dos dedos, tipo um "RoboFreddy Krueger". Ele usa essas lâminas para decepar a mão de Phillip num único golpe.

Como sobrevivente da mal-sucedida batida, o agente é levado até o laboratório de Kessel para ser transformado num novo cyborg, o "Cyborg Cop" do título, embora Phillip não seja exatamente um policial (tá, eu assumo que "Cyborg D.E.A. Agent" não seria um título tão legal assim!).


Só mais um parêntese...

Por que diabos Kessel, um sujeito razoavelmente inteligente, resolve transformar um POLICIAL (arre, agente do D.E.A.!) em assassino cibernético, sendo que são enormes as chances de dar merda e ele perder o controle sobre a criação quando a parte humana dela se manifestar (e é claro que isso vai acontecer mais cedo ou mais tarde para o esperado duelo cyborg bom x cyborg mau)?

Em defesa dos roteiristas, existe um diálogo em que um dos cientistas que trabalham para o vilão diz que a memória de Phillip ainda não foi completamente apagada quando Kessel resolve ativá-lo para entrar em ação. Mesmo assim, continua sendo uma ideia de jerico: se tudo que ele precisava era de um corpo humano fresco para "robotizar", por que não usou um dos seus muitos capangas que são originalmente malvados, ao invés de um honesto agente do D.E.A.?


Mas voltemos ao filme: nos Estados Unidos, Jack Ryan (hehehe) recebe uma encomenda do irmão pelo correio. No interior do pacote, encontra uma fita contendo uma gravação de Phillip, alertando para a possibilidade de se meter em apuros na operação então vindoura. Sem querer ser implicante, mas... não seria mais fácil ter telefonado?

Jack resolve ir até o Caribe em busca do irmão, depois de surrar figurões do D.E.A. num bar (claro!) e descobrir o local para onde ele foi enviado. Chegando na ilha, o herói acaba fazendo uma parceria à força com a jornalista Cathy (a gracinha Alonna Shaw, de "Duplo Impacto"). E, ajudado/atrapalhado por ela, descobre tudo sobre os planos maléficos de Kessel e o terrível destino do seu irmão. Prepare-se para o confronto final e para o i-na-cre-di-tá-vel duelo motocicleta x cyborg!!!


CYBORG COP é barateiro em tudo (mais uma característica da Nu Image que lembra as antigas produções da Cannon), mas eficiente durante a maior parte do tempo. Os efeitos dos cyborgs, por exemplo, são econômicos e não atrapalham, com direito à tradicional mãozinha robótica abrindo e fechando.

Só podiam ter caprichado mais nas placas peitorais "metálicas" das criaturas, que são péssimas e dobram e amassam mais do que metal normalmente faria, mas não se pode esperar muito da merreca de orçamento que havia à disposição. E sim, é claro que o cyborg malvado vai acabar ficando com metade do rosto "humano" destruído para mostrar a parte metálica por baixo, à la "O Exterminador do Futuro"!


Firstenberg também trabalha dobrado para não deixar a peteca cair no quesito ação, e filma tantas sequências de explosões por minuto que parece ter o triplo do orçamento que realmente gastou. O ataque inicial dos agentes à refinaria de Kessler, por exemplo, é um festival ininterrupto de tiros e explosões, algo que se repete no ataque final do herói à fortaleza do vilão, com direito a sangrentos tirambaços no peito e nas costas que você certamente não vai ver no "Robocop" do Padilha!

Já o herói Jack Ryan (hehehe) faz exatamente o que se espera dele: arrebenta um montão de bandidos com seus golpes, distribui tiros pra todo lado sem se preocupar em fazer prisioneiros, e ainda dá uns pegas na jornalista gatinha, numa cena pra lá de gratuita de sexo e nudez, com direito a várias posições e caras e bocas dignas dos erotic thrillers da época (aqueles mesmos que passavam na extinta Sexta Sexy).


Bradley convence como galã invocado, mas bem-humorado, que solta umas gracinhas de vez em quando para lembrar o espectador de aquilo tudo é uma grande bobagem, descartável até, feita direto para o mercado de vídeo. Sua relação de amor e ódio com a mocinha é um clichê tão velho quanto o próprio cinema, numa situação que até lembra comédias românticas em alguns momentos!

O único departamento em que Jack Ryan fica devendo é no de bom gosto: numa decisão questionável do pessoal do figurino, o pobre herói passa o filme inteiro usando uma cafonérrima pochete de couro preta (veja abaixo), mesmo quando está dando voadoras nos vilões! Deve ser o único herói de ação que usa pochete da história do cinema - quem sabe ela seja o segredo da sua força, tipo a cabeleira de Sansão!


Embora se segure muito bem em matéria de ação e pancadaria, CYBORG COP também tem todas aquelas imbecilidades e incongruências típicas desse tipo de aventura barata. O vilão interpretado por Rhys-Davies, por exemplo, é engraçadíssimo: não faz nada o filme inteiro além de dar ordens para os capangas e soltar umas risadas malignas de vilão de James Bond, mas a interpretação do ator britânico é tão afetada e exagerada (e consciente da presepada em que estava metido) que provoca gargalhadas a cada aparição de Kessel.

Vale lembrar que, na época, Rhys-Davies não era tão conhecido quanto hoje, já que passou a ser idolatrado pela sua participação como anão (milagres da tecnologia...) na série "O Senhor dos Anéis", de Peter Jackson. Até então, o inglês era figurinha carimbada como vilão ou personagem secundário de filmes B, e o auge da sua carreira tinha sido as duas participações como amigo de Indiana Jones em "Os Caçadores da Arca Perdida" e "Indiana Jones e a Última Cruzada".


Ainda no departamento de bobagens, vale lembrar que os cyborgs, que parecem indestrutíveis ao fogo, tiros e explosões, podem ser facilmente destruídos com... eletricidade?!? Mas peraí, qual é a vantagem de você gastar milhões de dólares para criar um robô que sobrevive a tiros e bombas se ele pode pisar num simples fio desencampado e pifar?

Também podiam ter criado uma forma melhor de aproveitar o "Cyborg Cop" do título (ou "Cyborg D.E.A. Agent", se preferirem), já que o "robo-Phillip" só entra em operação nos 15 minutos finais, e LOGICAMENTE tem um conflito de consciência quando lhe ordenam que mate o próprio irmão. É tão pouco tempo em cena para o personagem que CYBORG COP pode decepcionar quem espera uma cópia vagabunda de "Robocop" estilo "Robo Vampire". Vai saber por que não usaram algo ainda mais genérico, como "Cyborg Attack" ou "Cyborg Force"...


Mas o que importa é que CYBORG COP cumpriu seu propósito: fez relativo sucesso de locações (talvez até por causa dos clientes desatentos, que alugavam o filme pensando que era "Robocop"), foi o primeiro grande sucesso da recém-criada Nu Image e ajudou a colocar a produtora no mapa das companhias realizadoras de filmes de ação classe B (ou C, ou mesmo Z!).

Para ver se o raio caía duas vezes no mesmo lugar, a produtora realizou dois novos "Cyborg Cop" em curtíssimo espaço de tempo: a Parte 2, lançada em 1994, reúne o time Firstenberg/Bradley para um novo round, mas é inferior ao original; já a Parte 3, de 1995, partiu para o vale-tudo, mudou o diretor, colocou uma dupla de atores no lugar de Bradley (Frank Zagarino e Bryan Genesse, outros dois "astros" da terceira divisão da ação "direct-to-video") e tem toda cara de ser um roteiro qualquer adaptado para se encaixar na série e faturar uns trocados.


Bradley fez mais alguns filmes de ação nos anos seguintes (incluindo uma cópia dos clássicos de John Woo chamada "Justiça à Bala") e acabou se metendo no universo dos erotic thrillers vagabundos, feitos na esteira do sucesso de blockbusters tipo "Instinto Selvagem" e "Invasão de Privacidade". Seu último filme é de 1997, e desde então o ator tomou chá-de-sumiço.

Houve muita boataria nos fóruns de discussão sobre o que teria acontecido com o ator: alguns juravam que tinha morrido, outros, que tinha deixado de atuar por causa de um grave problema cardíaco; também tinha quem garantisse que ele voltou para o Texas para abrir uma escola de artes marciais. Pouco se sabe sobre a vida do sujeito hoje, mas Bradley realmente voltou para o Texas, onde vive afastado da indústria cinematográfica.


Mesmo assim, em 2009, ele apareceu vivo e bem nas cenas do trailer de um filme de ação semi-amador chamado "Dagger: Operation Montenegro". O filme não chegou a ser produzido: apenas o trailer foi rodado para tentar levantar fundos, mas aparentemente não rolou. Portanto, David Bradley ainda aguarda pelo retorno à ribalta - alô, produtores!

Bem que num futuro próximo o pessoal da Nu Image poderia voltar às origens e produzir uma espécie de "Os Mercenários" lado B (ou C, ou mesmo Z!), juntando todos os seus ex-astros dos tempos do direto para vídeo, como Bradley, Zagarino, Genesse, Lara... Podia ser dirigido por Firstenberg, Yossi Wein ou Bob Misiorowski, os caras que levaram as produções da Nu Image nas costas nos primeiros anos. Sonhar não custa nada, não é verdade?


Porque o fato é que às vezes me dá saudade desses filmes de ação baratos e bestas feitos para abastecer o mercado de vídeo dos anos 80-90. Nesses nossos tempos de filmes de (enrol)ação (ou preten-ação), em que o que vale é a quantidade de efeitos especiais e de cenas parecidas com videogame, revisitar as velhas produções da Nu Image e seus "Cyborg Cops" não é apenas pura nostalgia, mas uma certeza de diversão.

Com todos os tiros e explosões, tramas simplórias e absurdas, nudez gratuita e deliciosos clichês que você definitivamente não vai encontrar no "Robocop" do Padilha e outras asneiras feitas hoje. Muito menos um herói que usa pochete de couro - e sim, Jack Ryan volta em "Cyborg Cop 2" vestindo sua indestrutível pochete outra vez!!!

PS: CYBORG COP é o último filme da loirinha Alonna Shaw, que preferiu trocar as cenas gratuitas de sexo com brucutus (Bradley aqui, Van Damme em "Duplo Impacto") pela carreira de escritora. Ela recentemente lançou seu primeiro romance, "Eleven Sundays", e tem um site pessoal onde comenta sua carreira longe dos "Cyborg Cops" e criaturas do gênero...


Trailer de CYBORG COP



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Cyborg Cop - A Guerra do Narcotráfico 

(1993, EUA)
Direção: Sam Firstenberg
Elenco: David Bradley, Alonna Shaw, Todd Jensen,
John Rhys-Davies, Ron Smerczak, Rufus Swart,
Anthony Fridjhon e Robert Whitehead.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

ROBO VAMPIRE (1988)


Tem algo de podre no reino da Dinamarca quando o cineasta brasileiro José Padilha, conhecido por dois filmes violentos como "Tropa de Elite" 1 e 2, vai para a gringa dirigir o remake de "Robocop" e transforma um dos melhores filmes de ação dos anos 1980 (corrigindo: um dos melhores FILMES dos anos 1980 PONTO!) numa aventura infanto-juvenil quase censura livre. E, para piorar, ainda troca o homem transformado em máquina que era o herói do original por um Jiban pós-moderno.

Esqueçamos, portanto, do "Robocó" do Padilha, que merece o boicote e o esquecimento, e nos concentremos numa outra tentativa de faturar em cima do "Robocop" de Paul Verhoeven. Uma tentativa feita na Ásia, bem longe da Hollywood de Verhoeven e Padilha, com muitos milhões de dólares a menos (ou TODOS os milhões de dólares a menos) e sem um pingo de glamour.


É claro que estou falando do absurdamente hilário ROBO VAMPIRE, um daqueles filmes que redefinem o sentido da palavra "ruim". E que, justamente por isso, é divertidíssimo e inesquecível no mesmo nível de um "Star Wars Turco" ou "As Aventuras de Sergio Mallandro", e continuará sendo comentado e discutido muito tempo depois da refilmagem do Padilha cair no esquecimento.

Produzido às pressas e lançado em 1988 (ou assim diz a lenda) para pegar carona no sucesso da obra de Verhoeven (que é de 1987), ROBO VAMPIRE é mais um daqueles esquizofrênicos "filmes de colagem" realizados por picaretas de Hong-Kong para faturar uma graninha no mercado ocidental de vídeo, que estava bombando naquela época e aceitava todo tipo de produção de fundo de quintal, sem nenhum preconceito.


No começo da década de 80, dois espertalhões chamados Joseph Lai e Tomas Tang descobriram que podiam fazer uma boa grana adquirindo os direitos de velhos e obscuros filmes chineses, taiwaneses, tailandeses, filipinos e sul-coreanos para remontá-los e redublá-los especialmente para o mercado norte-americano.

Aventuras de artes marciais com ninjas estavam na moda no Ocidente graças ao sucesso de "Ninja - A Máquina Assassina". Assim, esses malucos filmavam de 15 a 30 minutos de cenas novas com ninjas e as inseriam nessas obras já prontas, dando origem a "filmes-Frankenstein" que geralmente encontravam o seu público graças a títulos escalafobéticos como "Diamond Ninja Force". E os caras eram tão malandros que chegaram a transformar até velhos dramalhões sobre doença terminal na família em aventuras com ninjas!


Apesar de usarem as mesmas táticas picaretas de produção cinematográfica, Lai e Tang começaram como sócios e depois se tornaram rivais: o primeiro fundou a IFD Films and Arts e produziu aquelas insanas aventuras de ninjas dirigidas pelo Ed Wood asiático, Godfrey Ho (saiba mais lendo as resenhas de "Ninja Thunderbolt" e "Ninja - O Protetor").

Já Tang abriu sua própria empresa, a Filmark International, e estava tão metido em negócios "suspeitos" que até hoje as informações sobre as produções da empresa e sobre o próprio Tang são bastante nebulosas e incompletas! Digamos apenas que a maioria dos filmes produzidos pela Filmark sequer tem registro no Internet Movie DataBase, e alguns deles saíram em vídeo apenas em pequenos países, sendo resgatados e redescobertos somente agora graças aos sites de compartilhamento de filmes.


O próprio ROBO VAMPIRE é um verdadeiro enigma, e isso mais de 25 anos depois de seu lançamento: a direção do negócio, assinada com o pseudônimo "Joe Livingstone", até hoje é atribuída ao pobre Godfrey Ho, que já jurou de pés juntos que nunca trabalhou para a Filmark (até o IMDB caiu na conversa). Acredita-se que quem "dirigiu" ROBO VAMPIRE foi o próprio Tang, pelo menos até segunda ordem.

(Aliás, vale ressaltar que muita gente jura que Ho e Tang são a mesma pessoa, uma lenda urbana que já foi desmentida, mas que ainda gera todo tipo de teorias conspiratórias.)

E enquanto a IFD de Lai e Ho faturava seu ganha-pão com essa malandragem de inserir cenas com ninjas em dramalhões e policiais baratos já prontos, Tang resolveu dar um tempo nos guerreiros mascarados para investir num outro filão de sucesso na época: os filmes sobre "jiangshi", os vampiros chineses.


Completamente diferentes daquela nossa noção clássica de vampiros (à la Drácula de Bela Lugosi ou Christopher Lee), os "jiangshi" se caracterizam principalmente pela forma de locomoção, que é feita aos pulinhos, como coelhos, e com os braços esticados para a frente, como sonâmbulos, coisa que os torna monstros mais risíveis do que propriamente ameaçadores!

Mesmo assim, as criaturas estavam na moda no cinema asiático de então graças à comédia de horror "Mr. Vampire" (1985), dirigida por Ricky Lau e produzida por Sammo Hung, que deu origem a diversas sequências entre 1986-1992 e, claro, várias imitações. Por isso, Tang achou melhor investir nos vampiros saltitantes para se diferenciar da companhia rival e seus ninjas de uniforme colorido. Mas "Robocop" também estava na moda, então...


ROBO VAMPIRE começa com dois soldados ocidentais (calçando All Stars ao invés de botas ou coturnos!) escoltando um prisioneiro oriental pela selva. Sem nenhuma explicação lógica, o trio acaba no meio de um cemitério e resolve abrir os caixões - que, também sem nenhuma explicação lógica, não estão enterrados, mas dispostos tranquilamente por toda parte!

De dentro de um deles pulam apenas cobras (e "pulam" mesmo, atiradas por algum contra-regra no interior do caixão!), mas do outro sai um dos terríveis vampiros saltitantes, que mata os dois soldados - o primeiro é estrangulado de maneira caricatural, e o segundo tem um naco de carne crua arrancado do pescoço com uma dentada, no único momento em que os vampiros do filme agem como os vampiros que conhecemos!


Corta para o título do filme e os créditos iniciais, um festival de nomes em inglês que, na verdade, são pseudônimos (tem até uma "Nian Watts" que deve ser parente distante da Naomi Watts!). Se fizer uma rápida pesquisa no IMDB, você descobre que nenhum desses "nomes em inglês" aparece em outro filme além de ROBO VAMPIRE - ou talvez até apareceram, mas com outro pseudônimo.

O diretor, conforme já vimos, está creditado como "Joe Livingstone", e o roteirista como "William Palmer", mas não duvide se ambos forem o famigerado Tomas Tang, escondido atrás de pseudônimos diferentes para fazer parecer que sua equipe é muito maior do que realmente era!


Quando o filme recomeça ficamos sabendo, através de diálogos expositivos, que um agente da Narcóticos chamado Tom (interpretado por ator ocidental não-identificado) está dando grandes dores de cabeça a uma quadrilha internacional de traficantes de drogas - ele é o "Alex Murphy" da história. Por isso, o chefão resolve que a melhor maneira de se livrar do herói é treinando vampiros para liquidá-lo.

Opa, peraí... Como é que é? Sim, eu sei que parece ridículo lendo assim, e é! Tanto que, nesse momento, dois capangas olham um para o outro com aquela expressão de "Que porra é essa?" (ou "WTF?") que o próprio espectador deve estar manifestando na mesma hora. Mas ninguém questiona as ordens do chefão, claro! O negócio agora é arrumar os vampiros, por mais esdrúxulo que isso soe!


Digamos apenas que nem é uma tarefa tão difícil: os traficantes contratam um Monge Taoísta (Suen Kwok-Ming) para criar e "controlar" os vampiros-coelhinhos, de maneira a usá-los contra seus inimigos. É óbvio que crucifixos e água benta não funcionam contra vampiros orientais, que têm uma mitologia completamente diferente: colar um papel com um encantamento escrito sobre os olhos das criaturas é o suficiente para dominá-las, por exemplo!

Por outro lado, os vampirinhos saltitantes têm várias cartas na manga que os tornam mais letais do que os Dráculas e Nosferatus que conhecemos, tipo as habilidades em artes marciais e o poder de teletransporte (sem virar morcego!), de cuspir gás venenoso (!!!) e de disparar mísseis pelas mãos (sim, é sério!).


Aí as coisas começam a ficar (mais) esquisitas, para não dizer insanas. Primeiro, o tal Monge Taoísta cria uma nova espécie de vampiro, um "Super Vampiro" chamado... Peter (?!?!), que na verdade é apenas um sujeito com uma máscara de gorila! O problema é que o finado Peter que foi trazido de volta à vida pelo vilão era o amado de Christine, uma Bruxa Malvada (?!?!), que está furiosa por ter perdido seu amor pelo resto da eternidade.

Felizmente, o Monge resolve o problema celebrando o "casamento" (?!?!) do seu Super Vampiro Símio com a Bruxa Malvada (que veste uma roupa transparente que revela suas peitolas). Desde que, claro, o casal obedeça às suas ordens. Sei lá, não parece muito justo para mim. E sequer tem a menor lógica. Mas não se esforce muito para entender, a coisa só piora a partir daqui!


E onde entra o "Robocop" ou coisa que o valha nessa história toda? Calma, querido leitor... A coisa só se encaminha para o plágio do filme do Verhoeven lá pelos 25 minutos do primeiro tempo, quando, durante uma batida, o herói Tom (usando um ridículo lencinho vermelho amarrado no pescoço!) e seus homens são obrigados a enfrentar os capangas vampiros pela primeira vez.

Todos os homens são mortos e o próprio Tom é atingido por uma das rajadas explosivas disparadas pelos vampiros. O ator é substituído na hora H por um boneco bastante convincente, como você pode conferir nas imagens abaixo, numa trucagem tão realista que por breves instantes eu temi pela integridade física do ator!


E apesar do boneco ser claramente explodido em pedacinhos, no take seguinte vemos Tom caindo estatelado no chão, com um sanguinho pouco convincente jogado na cara (nem tiveram o trabalho de chamuscar a roupa do cara!)

Levado para o hospital, o nobre herói morre, provavelmente pelas condições indigentes da sala de cirurgia, que mais parece uma garagem ou depósito. Ou talvez por causa dos equipamentos utilizados na operação, como um trombolho com símbolos de "mais" e "menos" piscando que é o máximo de tecnologia que vemos no "laboratório" ("mais" provavelmente significa que o paciente está melhorando, e "menos" significa que está indo para o beleléu, mas também pode ser o contrário!).


É quando um cientista barbudo e anônimo, o Miguel Ferrer de ROBO VAMPIRE, resolve transformar Murphy... Err... Tom em cyborg. Segue-se um diálogo hilário do cientista com seu comandante:

- Já que Tom está morto, pretendo usar seu corpo para criar um robô-andróide, Sr. Glen. Eu gostaria muito que você aprovasse o meu pedido.
- Você tem certeza que será bem-sucedido?
- Aham.
- Certo, seu pedido está aprovado.


(Ah, como seria bom se todas as coisas importantes fossem resolvidas/decididas assim, sem nenhuma burocracia, também na vida real...)


Depois de uma montagem de cenas de "cirurgia" que dura, quando muito, uns 20 segundos, o Robocop... Err... "Robo Warrior" está prontinho e completamente funcional! Mas, visualmente, parece mais um espantalho inspirado no visual do Robocop do que um robô-andróide, cyborg ou coisa que o valha: Tang e sua trupe só tinham dinheiro para colocar um pobre-coitado andando para lá e para cá com uma roupa de nylon pintada de spray prateado, um capacete de plástico com uma velha antena de rádio acoplada e óculos de mergulhador (ou soldador), numa fantasia tão vagabunda que provocaria gargalhadas até num baile de carnaval infantil!


E não basta apenas a roupa ser pobre, os acabamentos também são grosseiros, com remendos e costuras visíveis num traje que deveria ser de metal ou aço. Já o "capacete" é preso à cabeça do ator com uma fivela por baixo do queixo, e não com parafusos direto no crânio, como acontecia com o pobre Murphy em "Robocop"!

Felizmente, os exagerados efeitos sonoros simulam os "sons metálicos" emitidos por um robô, e isso, somado aos movimentos "duros" do ator que interpreta o Robo Warrior, passa pelo menos uma mínima ideia de que aquela espantalho ambulante com roupa de nylon é um ser biônico! Aí o Robo Warrior ganha uma metranca de tamanho descomunal e está pronto para o batismo de fogo e para se vingar dos traficantes e vampiros que provocaram sua morte, certo? Bem... Mais ou menos!

Acontece que Tang tinha que misturar cenas de um filme antigo já pronto para economizar dinheiro, lembra? Ao invés de simplificar e escolher uma produção que tivesse algo a ver com robôs e vampiros, Tang optou por uma velha aventura tailandesa chamada "ผ่าโลกันต์" (sem título ocidental; veja o pôster ao lado), estrelada pelo "Stallone tailandês" Sorapong Chatri - um super-astro praticamente desconhecido no Ocidente, mas que lá por aquelas bandas já apareceu em mais de 500 filmes!!!

Mas como inserir essas cenas antigas na aventura nova? Bem, Tang simplesmente inventou uma trama paralela em que Sophie, uma agente da Narcóticos, é capturada por outra quadrilha de traficantes e levada para o meio da selva, e Ray, o personagem de Sorapong Chatri, é convocado para detonar os vilões e resgatá-la (imagens abaixo). Óbvio que o Robo Warrior seria muito mais eficiente nesta missão, mas não se esqueça de que estamos falando de cenas de filmes diferentes, e por isso seus personagens não podem se cruzar!


A partir de então, ROBO VAMPIRE se divide entre essas cenas da velha aventura tailandesa (que são razoavelmente bem feitas e garantem a cota de tiros e explosões que Tang não tinha dinheiro para filmar por conta própria) e as "cenas novas", que mostram o Robo Warrior enfrentando os vampiros comandados pelos traficantes.

O problema básico disso, além das duas narrativas que correm em paralelo e nunca se "encontram" (algo que já acontecia nas aventuras de ninjas de Lai e Ho), é que não faz o menor sentido colocar um robô indestrutível para enfrentar vampiros que também são indestrutíveis às armas "convencionais" utilizadas pelo herói, ao invés de traficantes e bandidos "humanos"! Isso é tão inútil quanto querer filmar um duelo de armas de fogo entre o Super-Homem e o Incrível Hulk, já que ambos são totalmente imunes aos tiros!


Assim, eu não sei exatamente o que o roteirista tinha na cabeça quando bolou esse enredo insano, mas como o robô não pode ser vampirizado ou sequer arranhado pelas garras e presas dos vampiros, e nem estes podem ser afetados pelos tiros disparados às centenas pelo herói, os esforços de herói e vilões são completamente inúteis!

(Claro que, no final, os tiros do Robo Warrior misteriosamente começam a fazer efeito e destruir os vampiros, algo que o filme nunca se preocupa em justificar, mas que lembra aqueles velhos jogos de videogame em que você tinha que atingir o chefão da fase 10 ou 20 vezes para conseguir destruí-lo!)


ROBO VAMPIRE é uma daquelas atrocidades que só podem ser curtidas e analisadas como comédias involuntárias. Nesse caso, até mesmo as cenas que não são responsabilidade direta de Tang, aquelas reaproveitadas do filme tailandês, têm sua cota de podreira, incluindo um boi verdadeiro sendo cortado para a colocação de pacotes de cocaína no seu interior, e a cândida cena em que o astro Sorapong Chatri espia uma garota tomando banho e solta a pérola: "Que bela visão! Você devia se banhar com mais frequência!". (Detalhe: ele pega a moça com esse papinho, então talvez valha a pena tentar na vida real.)

Num dos momentos mais engraçados dessas cenas reaproveitadas, uma garota se atira pela janela de uma cabana e, no take seguinte, é substituída por um dublê homem mais do que perceptível, até porque usa uma inexplicável peruca cinza (a atriz que o dublê deveria estar substituindo é loira)!!!


E se não bastasse o Robocop de quinta categoria provocar risadas toda vez que aparece, graças à pobreza do figurino e aos exagerados efeitos sonoros "robóticos", Tang nunca consegue aproveitar seu herói de forma convincente, já que ele não consegue lutar debaixo daquela roupa tosca e nem tem muito a fazer disparando tiros contra vampiros que são imunes a eles!

Felizmente, na cena final, o Robo Warrior subitamente se lembra que sua metranca também funciona como lança-chamas (hein?), e usa o fogo para destruir o Super Vampiro Símio Peter - que, por limitações orçamentárias, neste momento é substituído por uma simples camisa (sem ninguém dentro, nem mesmo um boneco!) em chamas, e presa por um fio que também acaba pegando fogo e ficando visível, levando o espectador às lágrimas de tanto rir (em algo que lembra o impagável duelo final da aventura turca "Death Warrior").


Tudo considerado, ROBO VAMPIRE não faz sentido algum, e é aí que reside grande parte da sua graça. No seu esdrúxulo micro-cosmo, traficantes podem contratar um monge para ressuscitar vampiros que são usados como capangas, enquanto um agente morto pode ser transformado em robô indestrutível em questão de segundos - e o fato de terem esperado que o herói morresse para criar o "Robo Warrior", ao invés de reaproveitar outro dos diversos agentes assassinados até então, é uma simples formalidade nunca justificada.

ROBO VAMPIRE é, principalmente, uma aventura imbecil, em que herói e vilões são praticamente indestrutíveis e podem ficar brigando eternamente sem que o conflito tenha fim - a não ser quando o diretor decide que está na hora de terminar o filme. Obviamente, não há nenhum espaço para abordar a "desumanização" do herói, como Verhoeven fez, e nem mesmo a ironia do confronto "ciência x sobrenatural" entre robôs e vampiros. O que importa, aqui, é empilhar as cenas de pancadaria, tiroteios e explosões que o público das videolocadoras esperava ao ver a capinha da fita, mesmo que o resultado seja completamente nonsense, como você pode conferir no vídeo abaixo:

Robo Warrior vs. Vampiros




Por sinal, algumas cenas de ação são até passáveis (muito mais que as lutas entre ninjas da produtora concorrente), principalmente quando os vampiros demonstram suas habilidades em artes marciais naquele velho esquema "atores pendurados por fios". Outras são simplesmente psicodélicas, como o confronto entre o Robo Warrior e Christine, a Bruxa Malvada - não é todo dia que você vê um Robocop genérico tomando porrada de uma bruxa voadora!

Já as cenas de tiros e explosões filmadas por Tang (não as do filme tailandês reaproveitado por ele) são bem precárias, com armas visivelmente falsas (parecem até de brinquedo!) e tiros de festim pouco convincentes, além do já citado uso de bonecos toscos entre takes. Lá pelas tantas, quando o Robo Warrior é atingido por tiro de bazuca, novamente o ator é substituído pelo que parece um espantalho envolto em papel laminado (abaixo)! Eu já vi produções semi-amadoras, filmadas na garagem da casa do cara, com efeitos e trucagens melhores do que essas de ROBO VAMPIRE!


Embora seja inacreditavelmente ruim (não tenha nenhuma dúvida sobre isso), ROBO VAMPIRE ainda consegue se manter um degrau acima de outras "colagens" feitas pela IDF e pela Filmark, principalmente pelo inusitado da sua mistura de temas e gêneros. Lembre-se que o que temos aqui é uma aventura de ficção científica e horror que joga no mesmo balaio um cyborg, traficantes de drogas, vampiros, um Super Vampiro com cara de gorila, uma Bruxa apaixonada por ele e ainda soldados "humanos" enfrentando traficantes na selva (nas cenas reaproveitadas do filme tailandês), e até dois alívios cômicos, interpretados por Sun Chien e Donald Kong To. Esperar um mínimo de coerência ou mesmo de sentido desse avacalhado coquetel de situações seria esperar demais, e tudo que o espectador pode fazer é sentar no sofá, desligar o cérebro e praticamente sentir seus neurônios sendo destruídos por Tang e sua obra.


Infelizmente, ROBO VAMPIRE não conquistou a mesma popularidade que outras tosquices do gênero, como o já citado "Star Wars Turco", e é uma pérola obscura mais conhecida de nome - principalmente graças ao seu impagável pôster, que traz a figura do Robocop "oficial" sem nenhum medo de processo! - do que propriamente vista ou analisada (e isso que chegou a sair em VHS no Brasil, pela saudosa Poderosa Filmes).

Tang até tentou reaproveitar seu Robo Warrior em um outro filme, o ainda mais inacreditável "Counter Destroyer" (1989), mas ali o robô faz apenas uma participação especial (o diretor deve ter encontrado a fantasia numa caixa na sua garagem e resolveu usar de novo).


É uma pena, porque o personagem tinha potencial. Afinal, depois de enfrentar traficantes de drogas e vampiros na sua aventura de estreia, o céu é o limite quando pensamos em futuras aventuras. Em "Robo Vampire 2", o herói poderia lutar contra terroristas iranianos que na verdade são lobisomens à procura da cidade perdida de Atlântida povoada por marcianos.

Ou tudo isso trocado. No fim, não faz nenhuma diferença mesmo...

PS: Como eu disse nos parágrafos iniciais, a vida de Tomas Tang é um completo mistério, bem como seu paradeiro. Nos anos 1990, saiu a notícia de que o produtor havia morrido no incêndio do prédio da sua produtora, mas há quem argumente que Tang estava atolado em problemas legais até o pescoço e simplesmente simulou a própria morte, a exemplo do que fez recentemente o brasileiro Sady Baby. Enfim, sua biografia é tão cheia de lacunas que certos pesquisadores defendem que nunca existiu um "Tomas Tang" de verdade: este seria o nome usado por diferentes cineastas para assinar produções vagabundas da qual não tinham nenhum orgulho, tipo um "Alan Smithee" asiático. Confesso que já nem sei mais em qual versão acreditar, mas a obscura trajetória do misterioso Tomas Tang certamente renderia um belo livro, ou pelo menos um documentário tão doido quanto os filmes que ele produzia!


Veja ROBO VAMPIRE na íntegra!



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Robo Vampire (1988, Hong-Kong)
Direção: Tomas Tang (provavelmente)
Elenco: Um monte de desconhecidos escondidos por trás
de pseudônimos em inglês, o que torna sua identificação
muito difícil mais de 25 anos depois!