quinta-feira, 3 de abril de 2014

LA MANSIÓN DE LOS MUERTOS VIVIENTES (1982)


LA MANSIÓN DE LOS MUERTOS VIVIENTES (nos EUA, "The Mansion of the Living Dead") é uma grande traquinagem de Jess Franco: apesar do título, não existe nenhuma "mansão" (a história se passa num hotel e num velho mosteiro) e nem um único morto-vivo (as criaturas que aparecem lá pelas tantas estão mais para fantasmas do que para zumbis na sua definição clássica, e elas sequer se alimentam de carne humana).

Para compensar, e isso não está no título, tem cinco mulheres gostosas que passam praticamente o filme inteiro peladas e/ou atracadas em inúmeras cenas de sexo lésbico softcore. Ok, Jesus, com essa você está até perdoado pelo título enganoso!


Em seu retorno à Espanha, depois de quase uma década morando na França por causa da ditadura do General Francisco Franco, Jess rodou diversos filmes nas Ilhas Canárias, praticamente um após o outro: "Oásis dos Zumbis", "Macumba Sexual" (uma refilmagem disfarçada do seu clássico "Vampyros Lesbos", com a transexual Ajita Wilson no lugar da musa Soledad Miranda), e este aqui, entre outros que vieram depois.

Segundo o livro "Obsession: The Films of Jess Franco", "Macumba Sexual" e LA MANSIÓN... foram rodados ao mesmo tempo em 1981. O primeiro ficou pronto no mesmo ano, enquanto o outro foi concluído logo depois, em 1982. Já o IMDB data os dois filmes, respectivamente, como sendo de 1983 e 1985. É possível que estas sejam as datas que eles chegaram aos cinemas, mas, na dúvida, fico com a informação do livro "Obsession" (um letreiro de agradecimento que aparece no começo de LA MANSIÓN... também traz a data 1982).


Apesar de ter filmado um horror com mortos-vivos antes ("Oásis dos Zumbis"), Franco já manifestou publicamente sua antipatia pelas criaturas (que considerava "estúpidas") e até pelos clássicos do gênero dirigidos por George A. Romero (que considerava um diretor "primitivo"). Logo, não é surpresa que os mortos-vivos aqui sejam radicalmente diferentes daqueles com os quais o público estava acostumado no começo dos anos 1980.

Ao invés daqueles cadáveres redivivos, apodrecidos e cambaleantes que se multiplicavam às centenas nos filmes da época - graças às cópias italianas dos filmes de Romero -, os zumbis de LA MANSIÓN DE LOS MUERTOS VIVIENTES estão mais para os Cavaleiros Templários ressuscitados da clássica série dos Mortos Cegos, dirigida pelo espanhol Amando de Ossório na década de 70.


Portanto, o que temos aqui não são exatamente mortos-vivos, como o título anuncia, mas monges fantasmagóricos representados em pelo menos três diferentes estilos: alguns são humanos "normais", outros têm usam uma máscara imóvel de caveira, e outros ainda uma maquiagem tão tosca representando "podridão" que mais parece que eles esfregaram pasta de dente no rosto!

Na entrevista que acompanha o DVD do filme, lançado nos EUA pela Severin, Franco inclusive confessou sua inspiração nos Mortos Cegos do compatriota Ossorio: "Gosto bastante do primeiro ("La Noche del Terror Ciego", 1972). As imagens, aquele trem à noite, com os mortos aparecendo, são muito criativas. Não se parece em nada com os outros filmes de mortos-vivos que eu vi".


LA MANSIÓN DE LOS MUERTOS VIVIENTES conta a história de quatro turistas alemãs safadinhas (garçonetes ou strippers, dependendo da fonte pesquisada), que viajam para as Ilhas Canárias em busca de férias inesquecíveis e de homens viris para satisfazerem seus desejos sexuais - embora também joguem no outro time e transem umas com as outras conforme a necessidade. Enfim, as típicas garotas liberais de uma época pré-Aids.

A mocinha Candy é interpretada por Lina Romay, esposa e musa de Jess. Como na época ela já tinha aparecido em dezenas de filmes do maridão, o casal resolveu criar um "disfarce" e um nome falso para a atriz, que, em algumas ocasiões, se fazia passar por "Candice Coster" (o nome foi depois abreviado para Candy), usando uma peruca chanel loira para mudar o visual (abaixo). Em tempos pré-internet e com poucas fontes de pesquisa, ainda mais de produções obscuras como essa, muita gente deve ter acreditado que se tratavam realmente de duas atrizes diferentes.


Já as amigas safadinhas são Mabel (Mabel Escaño), Lea (Mari Carmen Nieto, creditada como "Mamie Kaplan") e Caty (Elisa Vega, creditada como "Jasmina Bell"). Todas as três já haviam trabalhado com Franco antes ou depois, em diversos outros filmes.

Quando as quatro garotas com fogo no rabo chegam ao luxuoso hotel para suas tão sonhadas férias, encontram o local completamente deserto - apesar de o suspeito gerente Carlo Savonarola (Antonio Mayans, outro colaborador habitual de Franco) garantir que todos os quartos estão ocupados e que só restaram dois, um para cada casal de amigas, em lados completamente opostos do edifício.


As inocentes moçoilas não desconfiam de nada. Afinal, imaginam elas, os outros hóspedes estão na praia curtindo suas férias. Entregam-se, então, aos prazeres da carne entre elas mesmas, no momento em que chegam aos seus quartos. Mas quando resolvem descer até a praia, encontram o local tão deserto quanto o hotel. Além do gerente Carlo e de um misterioso jardineiro (Albino Graziani), parece não haver viv'alma nas redondezas!

As confusões começam no momento em que as moças resolvem se separar para zanzar pelas redondezas. Perto do hotel, existe um velho mosteiro abandonado com uma trágica história do passado, que será explicada em determinado momento da trama. E seus habitantes não são exatamente humanos, mas sim fantasmagóricos monges que querem punir os "pecadores" justamente praticando o pecado - nesse caso, estuprando e matando suas vítimas!


Apesar de o título anunciar outro filme comum de zumbis devoradores de carne humana, e da inspiração confessa de Jess na série dos Mortos Cegos, LA MANSIÓN DE LOS MUERTOS VIVIENTES tem muito mais elementos em comum com - pasmem - "O Iluminado", de Stanley Kubrick.

É impossível não lembrar de uma espécie de Overlook tropical nas inúmeras cenas com as garotas perambulando sozinhas pelos corredores escuros e desertos do hotel, assim como as súbitas aparições de Carlo, do jardineiro e até de uma misteriosa mulher acorrentada em um dos quartos (interpretada por Eva León) lembram os fantasmas do clássico de Kubrick baseado em Stephen King!


Pode até ser que esta seja uma leitura muito ambiciosa do filme, já que, ao invés de Jack Nicholson com cara de psicopata, o que temos aqui são quatro garotas seminuas desfilando pelo hotel deserto. Mas é possível que Jess tenha se inspirado inconscientemente em "O Iluminado" na hora de escrever o roteiro - embora o hotel em questão seja menos assombrado que o velho mosteiro vizinho.

Ele consegue até criar um climão depressivo de solidão e isolamento com as imagens daquele hotel "abandonado" à beira mar, numa paradisíaca paisagem ensolarada que torna o "vazio" do local ainda mais melancólico - o extremo oposto do Overloook, de "O Iluminado", que estava isolado por causa do inverno e das tempestades de neve! Nesse aspecto, a aparição das quatro moças espavitadas e cheias de vida, usando roupas coloridas ou nenhuma roupa, cria um curioso contraste com o cenário deserto.


Mas é bom não conjecturar muito nesse sentido, pois é possível que a ambientação no hotel vazio seja uma simples solução improvisada para contornar custos de produção (como a contratação de figurantes para interpretarem os demais hóspedes). Nunca há uma explicação satisfatória para o fato de o local estar deserto, e, no fim, o espectador também nem se preocupa com isso.

Acontece que esta é uma daquelas produções tão baratas que o velho Franco teve que fazer praticamente tudo para economizar. Embora os créditos iniciais apresentem diversos nomes, como se a equipe técnica fosse bem variada, a maioria deles é o próprio Jess usando pseudônimos diferentes: ele assinou a direção de fotografia como "Joan Almirall" e repetiu a velha piadinha do roteiro baseado em livro de "David Kuhne", autor inexistente que aparece nos créditos desde os seus primeiros filmes! Franco assinou ainda o roteiro e a edição, e, se bobear, também serviu a marmita nos intervalos para almoço!

(Algumas fontes informam que ele também fez a trilha sonora com o pseudônimo "Pablo Villa", embora este nome falso também seja usado pelo músico francês Daniel J. White - que, segundo o livro "Obsession", foi o verdadeiro compositor aqui.)


LA MANSIÓN DE LOS MUERTOS VIVIENTES foi produzido num momento interessante, em que a Espanha já vivia um gradual processo de reabertura depois da morte do ditador General Franco (em 1975). Se antes era proibido mostrar um simples peitinho de fora nos filmes espanhóis, agora os diretores já podiam escancarar tudo - e o espectador espanhol inclusive esperava por isso para "tirar o atraso"! Algo não muito diferente da época pós-Ditadura aqui no Brasil, também no começo da década de 1980.

Isso justifica a quantidade de mulher pelada e putaria no filme. Se essas cenas fossem estirpadas por um censor rancoroso, o longa-metragem de 97 minutos seria reduzido a um curta com no máximo 15, pois todo o restante do tempo é ocupado por imagens das garotas peladas ou se comendo (ou sendo comidas)!


Inclusive fica bem claro, desde o começo, que a trama não se passa num universo real e crível, mas sim no mirabolante universo "Franquiano" de história em quadrinhos de sacanagem, em que todo mundo se insinua e transa com todo mundo, e as garotas circulam peladonas sem a menor inibição, mesmo quando é para checar sons estranhos nos corredores do hotel (caso encontrem algum desconhecido, elas conversam normalmente, sem se preocupar em cobrir a nudez!).

Tem até uma cena engraçadíssima em que Candy, a personagem de Lina, sai do seu quarto e fica desfilando pelo hotel completamente nua, "vestindo" apenas um par de sapatos de salto agulha, completamente despreocupada com a possibilidade de alguém aparecer e flagrá-la daquele jeito (imagens abaixo)!

O calçado fetichista, aliás, é de uso obrigatório por todas as garotas do filme (imagino que não tenha sido muito confortável para as atrizes), mesmo quando elas vão à praia de biquíni ou saem para passear com minúsculos shortinhos enfiados na bunda!


As cenas de sexo não são explícitas (embora mostrem mais que o suficiente, sem deixar nadinha para a imaginação do espectador), porém em alguns momentos quase chegam lá. E o roteiro tosco de Franco tem um climão geral de filme pornô, com situações forçadas e diálogos simplesmente inacreditáveis para conduzir às trepadas entre os personagens.

Por exemplo: quando Candy e uma amiga decidem dormir juntas, preocupadas que estão com o desaparecimento das outras duas, não demora muito para esquecerem do medo e caírem de boca uma na outra. "Se eu não transar, não consigo dormir", justifica Candy. Depois de alguns momentos de "lambeção", ela interrompe a sessão de sexo oral para tirar um pêlo pubiano que ficou na sua língua, e a parceira sugere: "Assopre e faça um desejo, pode dar sorte!".


Embora não esteja entre os trabalhos mais memoráveis de Jess, e perca feio na comparação com suas grandes obras dos anos 1960-70, LA MANSIÓN DE LOS MUERTOS VIVIENTES é razoavelmente divertido e eficiente, desde que - e isso deve ser ressaltado - o espectador embarque no espírito da coisa!

Quem espera um filme de zumbis tradicional vai quebrar a cara, já que eles fazem apenas participação especial. Na maior parte do filme, inclusive, parece que a maior ameaça à integridade física das garotas é o misterioso gerente Carlo, que faz as vezes de um Norman Bates mais safadinho.


Quem espera um filme de horror tradicional também vai quebrar a cara, pois Franco está mais preocupado com a putaria do que com a parte "assustadora" da história, que é bem desleixada (tem até refletor aparecendo no quadro!). A narrativa bipolar começa em clima de comédia erótica, tipo uma pornochanchada brasileira, descambando para o "horror" apenas lá pelos 45 ou 50 minutos (mais ou menos como Eli Roth faria, duas décadas depois, em "Hostel", para citar um exemplo contemporâneo).

Mas é claro que, quando falo em "horror", estou sendo bem generoso, pois não há violência nem sustos, e a tensão é mantida num nível mínimo. Os efeitos de maquiagem também são mambembes e improvisados: os monges com cara de caveira são figurantes usando máscaras de plástico das mais vagabundas, daquelas que você compra na 25 de Março em época de Halloween - o completo oposto dos maravilhosos Templários Zumbis dos filmes de Amando de Ossorio!


Tudo considerado, passe longe de LA MANSIÓN DE LOS MUERTOS VIVIENTES principalmente se a sua ideia de diversão não envolve uma overdose de cenas com mulheres nuas e/ou se comendo, pois são mais raros os momentos em que as atrizes estão VESTIDAS.

A personagem de Eva León fica pelada o filme todo, e confesso que eu até estranhava quando Lina Romay aparecia com alguma roupa, de tanto que ela se pela ao longo dos noventa e poucos minutos!


Vendo a entrevista com o diretor no DVD da Severin, percebe-se que os monges fantasmagóricos estão na trama não apenas para justificar minimamente o título enganoso, mas também como um comentário crítico de Franco sobre a Inquisição Espanhola - afinal, os amaldiçoados religiosos buscam a punição dos "pecadores" cometendo atos tão ou mais horríveis do que aqueles que tentam combater!

Mas é uma leitura muito simplória para se tirar da meia dúzia de monges com máscara de carnaval que aparecem estuprando e matando garotas peladonas em LA MANSIÓN DE LOS MUERTOS VIVIENTES. O negócio é deixar de lado qualquer pretensão e entrar no clima de porra-louquice da coisa toda.


Assim, este não é o filme que eu indicaria para quem está começando a conhecer a obra de Jess Franco e quer entender porque o homem é tão cultuado. Fãs e conhecedores do trabalho do diretor já estão vacinados para vários dos elementos que aparecem aqui, como o ritmo lento e a ênfase no sexo e na nudez.

Mas os marinheiros de primeira viagem podem não curtir a proposta. A não ser que você encare de cabeça aberta e sabendo de antemão que não verá apenas mais um filme de zumbis como as outras dezenas (ou centenas) que já viu.

Pense numa mistura de "O Iluminado" com "La Noche del Terror Ciego", estrelada por lésbicas que raramente aparecem com roupas, e divirta-se - se puder.



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La Mansión de los Muertos Vivientes /
The Mansion of the Living Dead (1982, Espanha)

Direção: Jess Franco
Elenco: Lina Romay (aka Candy Coster), Antonio Mayans
(aka Robert Foster), Mabel Escaño, Elisa Vega (aka Jasmina
Bell) e Mari Carmen Nieto (aka Mamie Kaplan).

7 comentários:

Anônimo disse...

Jesus Franco podia até caminhar sobre as águas e nem fazer aleijado andar tal qual seu xará mais famoso, mas pelo menos, conseguia fazer o que para muitos homens é mais do que um milagre:

"Colocar a própria esposa em um filme transando com mulheres tão ou mais gostosas que ela".

Rafael

JB disse...

Vou assistir todos que puder.

Victor Miranda disse...

Esperando a crítica de "Macumba Sexual"! Grande abraço!

spektro72 disse...

lendo a sua critica sobre o filme ,entendi que ele é bem fraquinho e só vale por ver as mulheres nuas e se transando,pois terror é o minimo que filme em si tem a nos revelar,mesmo assim valeu pela a postagem, Mestre! este do filme do Jess Franco era inedito para mim , que sabe um dia ele seja lançado aqui em DVD ,pois nem sei se ele saiu em VHS aqui nos tropicos.
Aguardemos o proximo post na " Maratona Jess Franco ".
Um Abraço de Spektro 72

Jaws Dark disse...

Ja assisti faz tempo e realmente falei, cade os zumbis , mas lembro que me contentei com todo o resto do conteudo hehehe

El Thomazzo disse...

Philip, bondade sua dizer que Franco servia as marmitas para elenco e equipe... a julgar pelo orçamento que ele trabalhava é provável que ele cozinhasse a comida também...

Leonardo Peixoto disse...

Depois de ler essa resenha e a de El Retorno de los Templarios , fiquei curioso sobre a obra de Amando de Ossorio e espero que você possa falar mais sobre ela no futuro !