domingo, 22 de dezembro de 2013

Entrevista com Dedé Santana - Parte 1


Há alguns meses, quando eu soube que o ex-Trapalhão Dedé Santana estaria de passagem pela minha cidade-natal como atração principal do Circo Mix, decidi que não perderia a chance de entrevistar o meu segundo preferido do quarteto (depois, claro, do Mussum).

Nascido em 1936, descendente de ciganos e filho de artistas de circo, Dedé sempre viveu nos picadeiros (consta que apareceu em seu primeiro espetáculo circense quando tinha apenas alguns meses de vida!). Não demorou para ele levar esse humor circense para a TV e para o cinema, primeiro com a dupla humorística Maloca e Bonitão (com o falecido irmão Dino Santana), e depois na famosa parceria com Renato Aragão que daria origem aos imortais Trapalhões.

Várias entrevistas com Dedé Santana já foram feitas, mas eu queria abordar um aspecto que geralmente meus colegas jornalistas deixam de fora: o diretor de cinema Dedé Santana. Porque hoje pouca gente lembra, mas ele assinou quatro filmes da fase de ouro do quarteto ("Os Trapalhões e o Mágico de Oróz", "A Filha dos Trapalhões", "Os Trapalhões no Reino da Fantasia" e "Os Trapalhões no Rabo do Cometa"), mais um quinto sem Renato, "Atrapalhando a Suate", dos tempos em que os Trapalhões estavam separados.


Inicialmente, o contato com o pessoal do circo em que ele iria se apresentar foi complicado, já que dias e horários para a entrevista eram marcados e desmarcados (depois descobri que o astro teve queda de pressão num dos dias e precisou passar algumas horas no hospital em observação). Mas não desisti: numa das noites em que o circo se apresentaria, fui acompanhar o show normalmente como espectador, e, ao final, quando Dedé distribuía autógrafos, aproveitei para me infiltrar entre os vários fãs e o abordei:

"Sr. Manfried Sant'Anna?" - este é o nome de batismo do Trapalhão.

Ao ouvir seu nome completo, Dedé fez uma daquelas suas típicas caretas de Trapalhão e respondeu fingindo medo: "Rapaz, para me chamar por este nome, só pode ser encrenca!". Estava quebrado o gelo. Mesmo sendo um dos artistas mais populares do Brasil, que teve sua cara associada a programas de TV, filmes, discos, camisetas, produtos diversos e até revistas em quadrinhos, Dedé Santana é uma pessoa simpaticíssima e humilde!

Ao mestre, com carinho: presenteando Dedé com o DVD de um dos meus filmes, "Canibais & Solidão" (que presente de grego!)

Comentei sobre minha intenção de entrevistá-lo e ele ficou animadíssimo; especialmente quando disse que não iria lhe questionar sobre Renato Aragão ou Os Trapalhões, como já é costume entre os colegas de profissão. Não demorou para Dedé revelar-se um verdadeiro apaixonado pelo trabalho atrás das câmeras, que inclusive ficou feliz por ser entrevistado como cineasta, e não como ex-Trapalhão pela milionésima vez.

Infelizmente, Dedé Santana continua um astro com agenda cheia. Eu só tive direito a uns 40 minutos com ele, no intervalo entre uma apresentação e outra. O resultado o leitor acompanha a seguir. Percebam que usei "Parte 1" no título dessa postagem, justamente porque essa entrevista não foi concluída - ela foi interrompida quando estava mais ou menos na metade!

Mas Dedé percebeu meu interesse e garantiu que no futuro me concederia mais tempo para uma possível segunda parte. Enquanto isso, vejamos o que o carismático Manfried Sant'Anna comentou sobre amazonas alemãs, macacos, as lições que aprendeu com Ary Fernandes, J.B. Tanko e Adriano Stuart, a influência dos musicais de Hollywood nos seus filmes, e muito mais...



FILMES PARA DOIDOS: Dedé, você estreou como diretor no "Atrapalhando a Suate"...
DEDÉ SANTANA (interrompendo): Na realidade, o primeiro filme que eu fiz se chamava "Os Desempregados", em preto-e-branco e tal. Esse foi o primeiro que escrevi e dirigi, e também é conhecido como "Os Irmãos Sem Coragem". Naquela época eu não podia colocar meu nome como diretor porque não tinha carteira.

FPD: Quem assinou a direção foi...?
DS: Foi o [Antonio Bonacin] Thomé, que era só o diretor de fotografia. Mas como eu não podia assinar como diretor, eu falei: "Olha, assina você, Thomé. Eu assino só como roteirista". Isso foi em mil novecentos e antigamente, eu nem lembro o ano mais! [Nota: o filme foi lançado em 1972]

FPD: E era um filme do Maloca e Bonitão.
DS: Isso, e quem fazia o Bonitão era meu irmão. Com esses personagens nós fizemos... Deixa eu ver... Esse "Os Desempregados", "Deu a Louca no Cangaço", "2000 Anos de Confusão" (ambos de 1969)...

FPD: E uma participação no "Se Meu Dólar Falasse" (1970), lembra?
DS: Isso, isso. Eu fazia várias participações nessa época, fiz até para filme estrangeiro.

FPD: O alemão aquele, "Lana, Rainha das Amazonas" (1964)!
DS (arregalando os olhos): Você já viu "Lana, Rainha das Amazonas"?

FPD: Sim pô, eu gosto muito desse filme! (risos)
DS: Por sinal, consegui uma cópia dele só agora, eu não tinha. Aí fui assistir e pensei comigo mesmo: "Belo canastrão esse cara!". (risos)


FPD: Já que estamos falando nele, o que você acha de "Lana, Rainha das Amazonas"?
DS: Rapaz, para a época ele foi muito bem. Na Alemanha, todo filme que tratava de amazonas e essas coisas fazia sucesso, tanto é que esse filme estourou lá fora. Na Alemanha, fiquei sabendo que chegou a ter filas na porta dos cinemas para ver "Lana, Rainha das Amazonas"! (risos) Inclusive aquela menina... A loira... Uns dois anos depois ela trocou de nome e ficou muito famosa. Ela trocou para Maria Schell, e, pode ver, fez até filmes famosos. Mas naquela época ela ainda não era a Maria Schell. (risos)

[Nota: Dedé na verdade fez confusão, já que a atriz de "Lana, Rainha das Amazonas", chamada Catherine Schell, não tem nada a ver com Maria Schell, que é uma outra atriz. Em todo caso, Catherine também apareceu em filmes famosos, como "O Prisioneiro de Zenda" e "007 - A Serviço Secreto de Sua Majestade".]

FPD: Também nesse filme o vilão é o Átila Iorio, que teve presença marcante na sua vida, já que foi seu sogro durante muitos anos e você até batizou um filho com o nome dele (Attila Iorio Santana, mais conhecido como Dedé Santana Jr.).
DS: Isso aí. Pô, o cara sabe tudo de mim! (risos) Eu não vou te dar meu livro! Você já sabe tudo, por que quer o meu livro?

Átila Iorio (esq.) e um jovem Dedé em "Lana, Rainha das Amazonas"

[Nesse momento, Dedé pega uma sacola que estava do lado do sofá e tira dois exemplares do livro "Eu e Meus Amigos Trapalhões", que escreveu sobre sua carreira e vida religiosa, e deu de presente para mim e para meu irmão Rodrigo, que estava presente filmando a entrevista.]

FPD: Eu nem sabia que existia esse livro. É novo?
DS: Na verdade saiu agora, eu fiz ele mais para venda interna. Mas fala de todos os filmes, dos meus grandes amigos, tipo... Olha aqui... (mostra fotografia de Carlos Alberto de Nóbrega) O grande Carlos Alberto... E olha essa aqui... (pára numa foto dele com Renato Aragão, ambos jovens nos anos 1960) Olha só como era Dedé e Didi no começo! O Dedé tinha o corpo que o Didi tem hoje, e o Didi era ainda mais magro!

FPD: E o Didi tinha cabelo...
DS (apontando para a foto): Pô, olha só que cabelão! (passa para outra foto com Renato e Roberto Guilherme, o Sargento Pincel, nos anos 90) Essa aqui é em Portugal. Muita gente não sabe, mas quando pensavam que eu estava fora da televisão, na verdade eu estava em Portugal. O Didi continuou fazendo o Criança Esperança, mas eu saí. Pensavam que eu estava desempregado, mas na verdade estava em Portugal. Ficamos três para quatro anos em primeiro lugar de audiência lá, três anos batendo o primeiro lugar, e depois, lá pelos três anos e meio, caiu um pouco, mas ainda era uma audiência muito alta.


Abertura do programa "Os Trapalhões em Portugal"
 


FPD: Foi boa essa experiência em Portugal?
DS: Olha, foi a primeira vez que eu me senti artista na vida. (abre um sorrisão)

FPD: É mesmo?
DS: Foi. porque o tratamento lá era fora de série. Eu tinha o meu próprio camarim, meu próprio camareiro, meu próprio maquiador. Aí pensei: "Pô, agora sim tou me sentindo um artista!". Mas menos de um ano depois, a Globo já tinha mais estrutura que eles. Hoje a Globo... Rapaz, eu tenho muito orgulho de trabalhar com eles. Você vê, eu moro em Itajaí (Santa Catarina). Quando eles me contrataram, eu falei que queria continuar em Itajaí. Disseram que não tinha problema, e hoje me dão passagem de avião, hotel, carro à disposição e tudo mais quando tem gravação! Mas claro que nunca vou esquecer de outras emissoras que mataram a minha fome, como a Record, onde fiquei dois anos com "A Escolinha do Barulho", e o SBT, onde fiz "Dedé e o Comando Maluco" por quatro anos.

FPD: Voltando ao "Lana, Rainha das Amazonas", acho que foi um dos seus raros papéis sérios, não foi?
DS: Na verdade meu papel era meio comédia, porque o cara batia palmas para uma cobra e ela saía correndo! (risos)

Capanga dos vilões, Dedé atira num montão de índios e acaba levando flechada nas costas em "Lana, Rainha das Amazonas"!

FPD: Ah, mas você é da turma dos bandidos, mata um montão de índios e até toma uma flechada nas costas!
DS: É mesmo, levo uma flechada! (risadas sonoras) Na realidade mesmo, eu me assustei quando fui no cinema na época. Não com a versão alemã, mas com a versão brasileira...

FPD: Por causa da quantidade de mulher pelada? (risos)
DS: Não, porque... Bom, para a época isso aí também foi uma coisa chocante. E o filme deu bilheteria no Brasil, talvez até por causa disso. (risos) Naquela época ainda era muito difícil ver mulher pelada no cinema. Mas o que aconteceu foi o seguinte: estou lá eu olhando o letreiro (créditos iniciais) do filme e aparece Christian Wolff, que era tipo o Kirk Douglas da Alemanha, depois Átila Iorio, depois o nome da menina, e depois Dedé Santana sozinho na tela, bem grande! Eu, no cinema, pensei: "Meu Deus do Céu, o que é isso?". Porque eu esperava meu nome bem pequeno. Já na versão alemã não, lá meu nome aparecia bem pequeno.

FPD: Como foi que você começou a dirigir?
DS: Rapaz, eu sempre tive o sonho de dirigir! Inclusive estudei para isso, fiz um curso com o Ary Fernandes (ao lado), que você sabe que foi o Vigilante Rodoviário. O Ary fazia um verdadeiro milagre naquela época porque se encarregava de tudo: ele escrevia, dirigia, montava... Ele fazia tudo! E o filme, na época, demorava uns dois ou três dias para ver depois que você filmava, mas mesmo assim ele conseguia fazer um episódio do Vigilante Rodoviário a cada 10 dias! E com cachorro! É muito difícil trabalhar com criança e qualquer animal, porque você não consegue dirigir, falar "Vai ali" e fazer ele ir. Enfim, fiz um curso com o Ary e, no primeiro dia, perguntei quanto ele iria me cobrar. Ele respondeu: "Olha Dedé, não vou te cobrar nada, mas você tem que vir lá em casa". Então eu acordava às quatro, cinco horas da manhã e ia para a casa dele. Geralmente, acabava tomando café na casa dele, oito da manhã, porque ele só saía de casa pelas onze. E o Ary se interessou tanto por mim que às vezes passava do horário. Tipo, "Te dou mais uma horinha", mas passávamos duas horas ali discutindo roteiro. Eu aprendi muito com ele, principalmente em matéria de enquadramentos. Outro grande professor meu foi o J.B. Tanko. Ele era um grande diretor, mas o que mais aprendi com ele foi como construir um roteiro. Começou assim: uma vez eu tive uma ideia de fazer um filme baseado em "O Planeta dos Macacos".

FPD: "O Trapalhão no Planalto dos Macacos" (1976)!
DS: Isso, "O Planalto dos Macacos". Eu vi o filme original no cinema e pensei: "Pô, a gente podia fazer uma sátira disso!". Um dia nós estávamos filmando numa gruta, não lembro para qual filme, e eu falei: "Seu Tanko, tive uma ideia para um filme que vai estourar na bilheteria! Vamos fazer uma sátira do Planeta dos Macacos". E ele: "Mas o quê? Pára com isso! Vamos continuar a filmagem!". Depois, na hora do almoço, ele me puxou para o lado e disse: "Dedê, vem aqui almoçar comigo e me fala mais desses macacos". Porque era assim que ele me chamava por causa do sotaque, de “Dedê”. [Nota: Tanko era originário da antiga Iugoslávia]. Aí o Tanko me levou para Muriqui, onde ele tinha uma casa de praia, e falou: "Dedê, te convidei para passar uns dias aqui comigo, mas quero que você faça aquele roteiro sobre o qual me falou". Respondi: "Mas como, Seu Tanko?". E ele repetiu: "Faça o roteiro". Eu insisti: "Mas como assim 'faça o roteiro'?". Aí ele me explicou: "Olha, os diálogos não precisa, você apenas construa o roteiro, faça uma sinopse". Depois disso eu não demorei, fiz praticamente de um dia para o outro, e entreguei. Ele leu, leu, e falou: "Não, não, tudo errado!". (risos)


FPD: Qual era o problema?
DS: O próprio Tanko me explicou: "Você entra num ambiente fechado e não sai mais. Não é assim! O povo precisa respirar! Se você começar fechado, você abre depois, deixa o povo respirar! Acho melhor você fazer outro roteiro". Aí ele me deu mais alguma dicas, eu reescrevi tudo, o Tanko leu e falou: "Tá ótimo!". Tanto é que você vê, em "O Planato dos Macacos", o crédito "Colaboração no roteiro: Dedé Santana". Não só nesse, mas em outros também. E eu aprendi isso com ele. Agora, sobre humor no cinema, eu aprendi muito com o Adriano Stuart.

FPD: Adriano Stuart, grande mestre!
DS: Ele era ligeiro, inteligentíssimo, sabia tudo! Aí de repente ele mudava tudo, falava: "Olha, ao invés de abrir aqui, você abre ali. Aí o Didi vem por ali, você tropeça nele e cai aqui". Ele inventava tudo na hora! E o Adriano era um mestre mesmo, porque o pai dele era um mestre do humor, o Walter Stuart. Ele criou o primeiro circo de televisão, o Cirquinho Bombril. [Nota: Walter Stuart foi o idealizador e apresentador do programa semanal "Circo Bombril", da TV Tupi, em que artistas circenses se apresentavam ao vivo.] Eu aprendi muito com esses dois caras, o Tanko e o Adriano Stuart. Agora, o Tanko era muito corajoso... Eu dava muito palpite, até me chamava de palpiteiro. Teve uma vez que ele me chamou a atenção: "Ô Dedê, deixa eu fazer o meu filme? No dia que você fizer o seu filme pode falar, mas agora eu estou fazendo o meu!". Mas eu realmente dava muito palpite, chegava nele e dizia: "Ô Tanko, você não acha que essa cena devia ser de tal jeito?". Aí tinha uma coisa engraçada... Às vezes eu dizia "E se o senhor fizesse assim, assim e assim", e ele me cortava: "Dedê, faz favor! Me deixa trabalhar!". Aí quando ele começava a gravar, pensava um pouco e perguntava: "Ô Dedê, como você falou mesmo para fazer a cena?". (risos) Aí eu dizia: "Olha, Seu Tanko, eu faria assim, assim e assim". E ele: "Isso! Isso! Vamos fazer assim!". Acabava fazendo muita coisa do jeito que eu sugeria para ele. Na verdade, eu tinha mais prática em circo, em humor, em como cair. Tanto que em todos os filmes do Tanko, todas as lutas que você viu foram marcadas por mim, às vezes eu até dirigia.

Foi Dedé quem sugeriu a aventura no "Planalto dos Macacos"

FPD: E nos primeiros filmes vocês mesmos faziam tudo, sem dublês.
DS: Isso. Hoje ficou fácil, hoje tem dublês e trazem até gente dos Estados Unidos para marcar as lutas. É tudo muito bem feito, claro, mas naquela época não tinha, e aí quem se defendia nesse setor era o "Dedê"! (risos) Mas voltando ao "Planalto dos Macacos": quando eu expliquei minha ideia para o Tanko, ele achou que as máscaras dos macacos seriam um problema. E realmente, na época, isso ficaria muito caro, porque o ator só podia usar uma vez, no fim da cena arrancava tudo e precisava construir outra depois. Então ele disse: "Olha Dedê, a tua ideia é boa, mas é impossível". Eu perguntei: "Mas, Seu Tanko, e se eu fizer a máscara?". Ele respondeu: "Bom, se você fizer a máscara, esse vai ser o nosso próximo filme!". (risos) Então eu comprei uma máscara de macaco, que na época estavam vendendo por causa do sucesso de "O Planeta dos Macacos", recortei ela toda e deixei só a parte do nariz e da boca. Colei ela, fiz uma maquiagem no resto do rosto e filmei com uma câmera Super 8, porque o Tanko queria ver na tela. Quando ele viu, ficou surpreso: "Mas como você consegue isso? Se eu chamar uma maquiadora, você explica tudo?". Aí ele chamou a melhor maquiadora do Rio e compramos uma outra máscara melhor, de borracha. A maquiadora viu e disse: "É possível, mas vamos ter que usar uma maquiagem especial para enrugar o resto do rosto que fica fora da máscara". Aí fizemos o filme, e foi um sucesso de bilheteria!

FPD: Você quase morreu durante as filmagens, né? [Dedé sofreu um acidente grave ao bater a motocicleta que pilotava contra um poste, onde bateu a cabeça. Precisou ficar internado durante um tempo e inclusive se submeter a cirurgia plástica no rosto antes de retornar ao set do filme].
DS: Deus me livre! E não só isso: eu inventei sarna para me coçar com aquela história de me transformar em macaco. Porque eu não gosto de dublê, nunca usei nos meus filmes...

FPD: Coisa de artista de circo.
DS: É... E o Tanko tinha me avisado para usar um dublê quando eu me transformava em macaco, mas eu insisti: "Não, Seu Tanko, quero fazer eu mesmo". E foi a maior mancada que eu dei! (risos) Eu botava a maquiagem às seis da manhã e tinha que ficar daquele jeito até a última cena! Na hora de comer, não tinha comida: era vitamina tomada com canudinho! Me arrependi e hoje acho que devia ter usado dublê mesmo, porque eu sabia que era eu ali, mas o público só vê um macaco!

Dedé como "macaco": era ele mesmo por baixo da máscara!

FPD: Podia ser qualquer um!
DS: Sim! E "O Planalto dos Macacos" foi um filme que me deu muita alegria, mas também muito cansaço. Quando a gente bateu em 30 dias de filmagens eu já estava até meio traumatizado, rapaz! Já estava me dando pânico, não queria mais colocar aquela máscara! Fiquei num mau humor que eu mesmo não me aguentava, só de saber que tinha que colocar a máscara toda hora! Meu Deus do Céu! Mas no final deu tudo certo.

FPD: E por que você não dirigiu mais nada até "Atrapalhando a Suate" (1983)?
DS: Para falar a verdade, eu dirigi todas aquelas cenas de "Os Saltimbancos Trabalhões" (1981) nos Estados Unidos, no Universal Studios, com o tubarão e tal. E dirigi nos Estados Unidos sem falar inglês, eu tinha um intérprete, e acabou que me saí bem. O engraçado é que eu recebi uns três palpites muito bons lá, e me lembrei de quando eu fazia isso com o Tanko. (risos) Acontece que eles lá (se referindo à equipe norte-americana) são muito éticos para falar com o diretor, para eles o diretor é um deus e eles me tratavam como tal. Mas eu era muito popular, brincava com todo mundo, brincava de falar inglês e eles morriam de rir, e tal. E me lembro muito bem que eu fiz uma cena em que o Didi vinha lá de trás, no cenário do "Guerra nas Estrelas", e coloquei a câmera para pegar metade do boneco do "Guerra nas Estrelas" vindo por cima dele. Aí eu senti uma espécie de mal-estar na equipe... Não exatamente um mal-estar, um clima esquisito. Perguntei para o intérprete o que estava acontecendo, e ele disse: "Sabe o que é, aqui eles não dão nenhum palpite, mas o diretor de fotografia tem uma ideia e queria transmitir pra você". Eu pedi para ele contar sua ideia, e o cara me explicou que se eu colocasse a câmera embaixo, nos pés, o Didi apareceria pequeninho no fundo, mas conforme chegasse perto ele ia crescendo cada vez mais, e aí eu abria a câmera e ele apareceria bem no ombro do boneco. Na mesma hora eu disse: "Ótimo, vamos fazer assim!".

Dedé filmou as cenas na Universal de "Os Saltimbancos Trapalhões"

FPD: Mas o pessoal estava com vergonha de sugerir para o diretor. (risos)
DS: Pois é, eles não queriam falar. Mas rapaz, esse diretor de fotografia acabou ficando meu melhor amigo lá, só porque eu aceitei a ideia dele. Outro palpite foi numa cena em que a gente saía correndo de dentro de um foguete. Eu gravei várias cenas e já ia terminar a filmagem, porque era quatro e meia da manhã e estava um frio danado. De novo, ele pediu para falar comigo, me deu uma dica para posicionar a câmera, e aquilo me salvou a sequência inteira!

FPD: A sua volta como diretor, em "Atrapalhando a Suate", foi por causa daquela separação do Renato dos demais Trapalhões...
DS (interrompendo): Na verdade não foram os Trapalhões que brigaram, foram as empresas, a Renato Aragão Produções e a Demuza. O irmão do Renato [Francisco Paulo Aragão] me ligou avisando que eles iam fazer um filme sem a gente, aquele do dinossauro Papangu ["O Trapalhão na Arca de Noé"]. E quando ele falou que iam fazer o filme sem a gente, na verdade eles já estavam até filmando! O Renato não quis se meter muito, era uma briga de empresas, e um dia o Mussum ligou para a minha casa e disse: "Ô compadre, você não falou que era diretor de cinema? Então vamos fazer o nosso filme!". Aí nós nos reunimos e foi quando surgiu a ideia do "Atrapalhando a Suate", porque tinha aquele seriado "SWAT" no ar, na Globo, e fazia muito sucesso.

[Nota: Aqui Dedé tentou suavizar um pouco a história, já que, na época, houve uma briga dos três Trapalhões com Renato Aragão - ou seja, não foi apenas uma separação de "empresas". A reportagem abaixo, publicada pela Folha de São Paulo na época da produção de "Atrapalhando a Suate", traz inclusive declarações magoadas dos três Trapalhões contra seu então ex-líder Renato Aragão.]

Reportagem sobre "Atrapalhando a Suate" na Folha de 09/10/83

FDP: Foi muito difícil escrever um roteiro para os três Trapalhões sem o Didi?
DS: Não, no dia seguinte eu já tinha toda a história do filme. Eu queria fazer uma cena meio trágica, com os heróis sendo expulsos da Suate e agindo por conta própria. [Nota: É bem possível que seja uma referência à "expulsão" do trio do novo filme de Renato Aragão na época.] Aí eu falei: "Mussum, vou precisar de umas músicas específicas para o filme, porque quero fazer várias cenas musicais no meio". E o Mussum disse: "A música pode deixar comigo!". E logo ele veio com aquela letra (cantarolando) "Tã-na-nam que a Suate chegou". Foi ele e alguns sambistas amigos dele, agora não me recordo o nome, mas eram famosos pra caramba! [Nota: Um dos compositores da trilha do filme foi Jorge Aragão.] Ele levou os caras na casa dele e fizeram tudo. Outra coisa sobre a trilha sonora é que o Mussum, certa vez, me contou uma história da infância dele sobre uma babá, e eu pedi para ele fazer uma outra música em homenagem às babás. Também tive a ajuda de um grande amigo meu, o Victor [Lustosa] que fez todos os filmes dos Trapalhões e é meu compadre, sou padrinho da filha dele. A gente era muito amigo e eu o convidei, o Victor arriscou a carreira e largou tudo para ficar comigo!

FPD: Ele também ajudou você a dirigir, não foi?
DS: Ajudou, tanto no "Suate" quanto no "Mágico de Oróz" (1984).

FPD: Que foram os únicos dois filmes que ele dirigiu...
DS: Não, ele fez... (pensando) É, acho que foram só esses dois mesmo! Mas ele escreveu muitos filmes para a gente, e nesse momento inclusive está escrevendo um roteiro para mim. Eu tenho que levar ele para Santa Catarina, porque a gente trabalha muito rápido eu e ele. É uma coisa incrível, cara! Eu visualizo a cena e conto para ele representando, e ele vai anotando e assimila muito bem. Ele é ótimo! Há pouco tempo ele fez um roteiro para um filme sobre uma mulher muito famosa de Santa Catarina, não lembro o nome, mas é um fato histórico bem conhecido. E o projeto só não foi aprovado porque uns caras passaram na frente e fizeram um documentário sobre o mesmo assunto. Eu ia aparecer no filme, ia fazer um papel lindo, de marinheiro, acho que seria meu primeiro papel sério de verdade no cinema, mas não deu.


FPD: E o que você acha do "Atrapalhando a Suate", Dedé?
DS: Olha... Bom, você sabe que todo filme pertence à sua época, e para aquela época ele foi muito bem feito. A gente não tinha recursos, usamos uma câmera só, e eu cismava em fazer umas cenas difíceis. Dizia pro Victor: "Quero fazer um cara andando num cabo de aço com uma moto!". E ele: "Não dá, não temos trucagens". Aí eu respondia: "Mas tem um número de circo que o cara faz isso, eu vou buscá-lo!". O cara que fazia o macaco também era de circo, todo mundo jura que é um macaco de verdade, mas não é. Fui catar esse cara também. E eu tinha um sonho, quando era pequeno queria ser escoteiro, e o Zacarias parece que até foi escoteiro. Então aproveitei e coloquei isso no filme, aquele final com os escoteiros bombardeando os vilões com farinha, e a minha sorte é que foi tudo aprovado pelo Mussum e pelo Zacarias. Acho que deu muito certo, graças a Deus. A parte musical ficou lindíssima, e teve uma música que, mais tarde, nós gravamos com todos os Trapalhões, e foi a única música do quarteto que tocou no rádio direto. Sabe aquela (cantarolando) "Todo mundo deve entrar na dança...".

FPD: Caso as empresas não tivessem voltado, a Demuza tinha outros projetos em vista? Vocês chegaram a falar sobre futuros filmes sem o Didi, ou não deu tempo?
DS: Na realidade, eu não queria! Eu fui muito contra isso porque esperava... Eu queria voltar. Não adianta... O Boni inclusive me falou naquela época... Minto, foi o Roberto Marinho quem falou, ele nos chamou e disse: "Vocês são a galinha dos ovos de ouro, por que vão matar a galinha? Vocês têm que voltar". E eu provoquei muito essa volta através de um grande amigo, o Beto Carrero, que era meu amigo de infância. Eu o conheci com 17 anos de idade. Ele apareceu no circo do meu pai querendo ser artista, dizia: "Eu quero ser o Cowboy Brasileiro!". E meu pai brincava: "Olha, se for cowboy não é brasileiro! Para ser brasileiro, você precisa ser vaqueiro, boiadeiro...". (risos) Mas não adiantou, ele ficou nessa de "Cowboy Brasileiro" e foi! Anos depois, eu convidei o Beto para fazer um dos meus filmes, aquele com a Xuxa...

Renato Aragão e Xuxa no "Reino da Fantasia"

FPD: "Os Trapalhões no Reino da Fantasia" (1985).
DS: Sim, que foi um filme muito difícil para filmar, porque era difícil de reunir todo mundo naquela época. Então eu tive que fazer muito plano fechado dos atores sozinhos e depois, na montagem, intercalar para parecer que eles estavam todos juntos conversando, quando na verdade foi tudo filmado separado!

FPD: Sei como é, eu faço muito dessas malandragens... (risos) Mas depois do "Atrapalhando a Suate" os Trapalhões voltaram e você virou o diretor oficial dos filmes do quarteto durante alguns anos. Era muito difícil dirigir o Renato?
DS: Na verdade, eu sempre digo que os Trapalhões não são dirigidos, eles são marcados. Como é que você vai dirigir os Trapalhões? Era meio difícil... Então funcionava mais na base de dicas, uma coisa que eu aprendi com o Tanko. Por exemplo, eu tenho esse ambiente aqui. O que eu preciso filmar aqui? (Gesticulando) Bom, o Mussum vem dali, o Didi surge pelo teto e cai aqui, eu venho por baixo e o Zacarias vem de lá... Então eu não dirigia, eu explicava a cena e cada um fazia do seu jeito. Eu não ia mandar em como o Mussum tinha que falar, tipo "Chega aqui e fala 'tranquilis'", ou "Didi, você fala 'psit'". Não, eu apenas indicava a cena. Como na Renato Aragão Produções eu tinha mais recursos, várias vezes trabalhei com duas câmeras: uma ficava no geral e a outra cercando os atores, o que era muito bom. Eu dizia para esse segundo câmera: "Fica na cara do Renato, porque ele é muito imprevisível. Agora fica no Mussum". Inclusive no "Reino da Fantasia" teve cenas que filmei com três câmeras para não precisar refilmar: coloquei uma no plano geral, outra em plano médio e a terceira só em detalhes. O pessoal me dizia: "Mas Dedé, você não vai conseguir montar isso depois". Mas eu consegui fazer! Todas aquelas cenas de teatro do "Reino da Fantasia" foram feitas numa batida só, e depois eu mesmo montei na moviola, olhava as cenas e dizia: "Peraí, eu sei que tem um plano fechado disso que dá para aproveitar". Hoje é tudo no computador, mas naquela época era na moviola, filminho por filminho. (pausa) Dos filmes que eu dirigi, você sabe qual é a minha menina dos olhos?

FPD: "A Filha dos Trapalhões" (1984).
DS: "A Filha dos Trapalhões"! Eu adoro esse filme! Agora, "O Mágico de Oróz" acho que foi um filme que eu fiz muito bem, consegui transmitir bem até na figuração, e isso eu agradeço ao meu compadre Victor, porque ele me ajudou muito a escolher os figurantes. As cenas musicais também são lindas. Bom, você viu que todo filme meu tem musical, né?

FPD: Por falar nisso, Dedé, quais são as suas influências cinematográficas?
DS: Eu via muito filme musical americano. Posso até te dizer: "Sete Noivas para Sete Irmãos" (1954), se contar, acho que vi umas 12 vezes...

FPD: Por isso que depois vocês fizeram "O Casamento dos Trapalhões" (1988)?
DS: Isso mesmo. E "Amor, Sublime Amor" (1961) eu perdi as contas de quantas vezes vi. (começa a cantarolar a música-tema do filme).


E foi justamente nesse momento que a equipe do circo interrompeu a entrevista, dizendo que Dedé precisava se preparar para a apresentação. Após uma rápida sessão de autógrafos - no meu pôster de “Atrapalhando a Suate” e na capa do LP de “Os Trapalhões na Serra Pelada” do meu irmão -, e de um elogio recebido do eterno Trapalhão pela minha curiosidade sobre a sua carreira de diretor, me despeço com a promessa de voltar a incomodá-lo num futuro próximo, para a já anunciada Parte 2 dessa entrevista.

Esperemos, portanto, que o reencontro seja breve, pois Dedé Santana é um artista com muitas histórias para contar, e que infelizmente poucos jornalistas e pesquisadores parecem dispostos a ouvir, já que sempre lhe perguntam as mesmas coisas de novo, de novo, de novo e de novo...

Eu e meu irmão Rodrigo com Dedé no picadeiro do circo!

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES (1976)


Em determinado momento de A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES, o proprietário do estabelecimento citado no título, que é interpretado por José Mojica Marins, diz para uma de suas funcionárias: "As emoções não fazem sentido". Confesso que não entendi o que o personagem quis dizer no contexto da cena, mas ele bem que poderia estar se referindo ao próprio filme.

Afinal, A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES não faz o menor sentido - e me refiro tanto à história quanto ao fato de um negócio como esse existir em primeiro lugar! Curto e grosso, o filme é desconexo, arrastado e redundante, e passa a impressão de ser um curta-metragem esticado para longa só para poder passar nos cinemas.

Mesmo assim, o resultado é uma daquelas maluquices estranhamente hipnóticas que, por mais que esteja odiando, o espectador não consegue parar de ver. E muito disso advém da criatividade do nosso "Zé do Caixão" para filmar com um mínimo de recursos e ainda assim conseguir tirar algo minimamente original de quase nada.


A história por trás de A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES já é bem conhecida: em 1975, quando enfrentava problemas financeiros e familiares, Mojica entregou o projeto para que um integrante da sua trupe, Marcelo Motta, dirigisse em seu lugar. O "discípulo" já fazia parte do seu grupo de colaboradores habituais desde 1969, e havia inclusive trabalhado como assistente de direção em seu longa anterior, "Exorcismo Negro" (1974).

A princípio, Mojica iria aparecer apenas como ator. Porém, lá pelas tantas, ele foi obrigado a assumir o controle sobre o filme, mexendo na edição e filmando novas cenas para o que acabou sendo a montagem final. Pesquisadores da obra do diretor são unânimes em afirmar que o resultado parece mais coisa dele do que de Marcelo Motta - e duvido que o próprio Mojica saiba dizer, hoje, quem filmou o quê, embora alguns momentos claramente "mojiquianos" sejam facilmente identificáveis.


Ninguém sabe ao certo, também, porque Mojica precisou assumir a cadeira de diretor que pertencia ao discípulo para terminar o filme. A versão mais comum indica a falta de experiência de Motta como motivo principal, já que o material filmado por ele estaria repleto de erros de continuidade e cenas fora de foco, acarretando em atrasos e custos desnecessários com refilmagens (e se um cara barateiro como o Mojica optou por refilmar cenas, é porque o negócio estava brabo MESMO!).

A outra versão (repetida pelo próprio Mojica numa entrevista que fiz com ele em São Paulo no ano passado) é um pouquinho mais complicada: na época das filmagens, Marcelo Motta estaria enfrentando problemas amorosos com uma namorada prestes a deixá-lo e isso se refletiu no trabalho, forçando Mojica a assumir o comando para que o filme não ficasse inacabado. A obra foi finalmente finalizada e lançada em 1976.


Seja como for, A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES marca uma espécie de fase de transição na carreira do popular Zé: ele tinha acabado de sair da sua primeira "superprodução" - "Exorcismo Negro", de 1974, bancada pelo todo-poderoso Aníbal Massaini Neto e sua Cinedistri -, onde pôde pela primeira vez trabalhar com um orçamento decente e atores mais famosos, tipo Joffre Soares.

Mas, a partir de então, Mojica despencaria de volta para os filmes de baixo ou nenhum orçamento, engatando uma sequência de obras inexpressivas que, assim como A ESTRANHA HOSPEDARIA..., ficariam muito melhores como curtas-metragens. E, caso fossem reeditados e transformados em episódios de meia hora, poderiam até compor uma coletânea estilo "O Estranho Mundo de Zé do Caixão Parte 2", e funcionar bem melhor.


A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES também marca o surgimento da própria companhia de Mojica, a Produções Cinematográficas Zé do Caixão. Só que esta primeira produção da empresa era tão barata que apenas ele, a editora Nilcemar Leyart e o diretor de fotografia Giorgio Attili eram técnicos profissionais; todos os demais, incluindo o diretor Motta e diversos dos atores, eram integrantes da trupe de Mojica ou alunos de sua escola de atores, que ajudaram a bancar o filme comprando cotas dele!

O roteiro é de Rubens Francisco Lucchetti e, segundo algumas fontes, teria sido adaptado de um dos episódios do velho seriado de horror apresentado por Mojica - só não se sabe se de "Além, Muito Além", exibido pela Bandeirantes entre 1967-68, ou de "O Estranho Mundo de Zé do Caixão", exibido pela Tupi entre julho e novembro de 1968. Inclusive o personagem do dono da hospedaria, aqui assumido pelo Zé, teria sido interpretado por Juca de Oliveira no episódio original do seriado.


A trama é bastante simples e poderia muito bem ser resumida num curtinha de 20 minutos ou até menos: Mojica é o misterioso proprietário da "Hospedaria dos Prazeres", que fica num local ermo, mas mesmo assim recebe dezenas de clientes numa noite de sexta-feira, 13 de agosto - e uma noite de tempestade, claro!

Apesar de o personagem a priori não ter nada a ver com Zé do Caixão, a única diferença entre eles é que aqui o ator usa um chapéu-coco no lugar de cartola; o resto, das divagações sem sentido às unhas compridas e olhos arregalados em close, é exatamente igual. Mas sempre é engraçado ver Mojica tentando interpretar um sujeito mais dócil e "refinado", bem diferente do sádico e fiasquento Zé do Caixão.


Os hóspedes - doze, no total - são um casal de noivos que passa o filme inteiro trepando (interpretados por Caçador Guerreiro e pela linda Marizeth Baumgartem), um grupo de motoqueiros/hippies, industriais preparando alguma negociata secreta, jogadores de pôquer, um sujeito (José Peres Ortega) que seduz coroas ricas para roubar-lhes o dinheiro, uma mulher desmemoriada, um suicida em potencial (Tomé Francisco) e até uma quadrilha de ladrões de joalherias!

Todos esses dementes chegam à Hospedaria dos Prazeres na mesma noite, com um curto intervalo de tempo entre um e outro.


A partir daí, não acontece muita coisa nem há qualquer tipo de conflito entre os personagens: confinados em seus respectivos quartos, o casal de noivos trepa; os hippies fazem uma suruba e ficam cantando "Tá todo mundo nu, oba!"; os jogadores de pôquer jogam pôquer e fumam muito; os industriais ficam assinando contratos; a mulher desmemoriada fica se perguntando "Quem sou eu? Onde estou?"; a quadrilha de ladrões fica dividindo o produto do roubo, e assim por diante.

Depois de uns bons 50 minutos simplesmente pulando de um quarto para outro até encher o saco, já que nada de muito emocionante acontece, finalmente surge a reviravolta, quando o espectador descobre que o dono do local na verdade é a própria Morte, e todos os seus hóspedes "desencarnaram" momentos antes de aparecer na hospedaria: os bandidos foram mortos num tiroteio com a polícia, o suicida explodiu os próprios miolos, o sedutor de coroas tomou um pipoco de uma amante enciumada, os hippies despencaram com suas motos de um barranco...


Assim, a Hospedaria dos Prazeres seria uma sucursal do Além, uma espécie de sala de espera para as almas dos falecidos antes que elas sejam encaminhadas ao seu destino final. Ou, talvez, o inferno particular de cada finado - e convenhamos que não seria nada mal um inferno particular onde você passasse a eternidade numa suruba de hippies, ou numa cama transando com a Marizeth Baumgartem!

Enfim, o filme não se preocupa em explicar o que exatamente é a hospedaria além de um local de concentração de almas desencarnadas, e cada um fica livre para imaginar o que quiser: se dali eles partirão para um local melhor/pior, ou se estão condenados a ficar presos em seus quartos pela eternidade sem saber que morreram.


Antes que me acusem de soltar spoilers sobre a "surpresa final" de A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES... Bem, digamos que o próprio roteiro não é lá muito eficiente em tentar esconder essa "reviravolta", jogando pistas o tempo todo para que até o espectador mais burro e desatento consiga enxergar o "final-surpresa" pelo menos uma hora antes de ele aparecer.

Por exemplo: a Hospedaria dos Prazeres tem um relógio-cuco na parede, mas ele não tem ponteiros; ao mesmo tempo, os relógios de cada hóspede pararam numa hora diferente (a hora da morte de cada um deles... dã!).

O fato de o nome dos hóspedes já estar anotado no livro de registro no momento em que eles chegam ao local, e de o proprietário da hospedaria ficar largando frases como "Sempre existirá vaga para quem voluntariamente ou involuntariamente for indicado à minha casa", ou "Os hóspedes querem descansar", também não ajudam muito a esconder a "surpresa".


Logo fica claro que, com um conceito simplório como esse, não há muita história para contar (e o fato de a montagem simplesmente alternar cenas dentro de um quarto ou outro durante a maior parte do filme comprova a falta de assunto).

Aí entram pelo menos duas sequências (aparentemente rodadas pelo próprio Mojica) que só estão no filme para encher linguiça e fechar o tempo de um longa-metragem, ambas no início, de maneira que o espectador impaciente pode pulá-las sem medo de perder algo importante para a trama principal.


A primeira dessas descartáveis cenas introdutórias mostra dançarinas de baby-doll colorido rebolando ao som de batuques num cenário surreal, que é formado por tendinhas feitas com lençóis e uma floresta mambembe habitada por criaturas bizarras.

As tais criaturas são de uma pobreza franciscana (figurantes vestindo máscaras de Carnaval e peitos e bundas de plástico, provavelmente comprados na 25 de Março), mas a visão delas incomoda - eu definitivamente não queria viver no mesmo universo ou dimensão que essas criaturas bizarras!


E depois de uns bons sete ou oito minutos da Dancinha do Baby-Doll entrecortada com as criaturas com máscara da 25 gritando, eis que a tampa de um caixão posicionado no meio do cenário se abre, e de dentro sai ninguém menos que... Zé do Caixão (Mojica reprisando seu famoso personagem, mas só para introduzir a história, já que o dono da hospedaria, como vimos, não tem nada a ver com o Zé).

Olhando diretamente para a câmera e para o espectador, dublada com uma voz grossa (e diferente daquela usada no restante do filme, que pertence a João Paulo Ramalho), a entidade diabólica de capa e cartola faz mais um dos seus tradicionais discursos escalafobéticos, que até vale a pena transcrever aqui:

"Viver para morrer ou morrer para viver? Existe a resposta certa? Não! Somente dúvidas. Somente deduções. Só a certeza do vazio. Da solidão. Da desesperada procura do tudo ou do nada. Da vastidão das trevas. Pois o desvendar desse enigma seria o fim do mistério, o fim do segredo da Eternidade, o apogeu da alegria diante de uma missão cumprida. Pois o homem estaria frente a frente com a sua maior conquista: o despertar da própria origem."


Quando o discurso se encerra (com direito a sujeira no negativo criando belos efeitos, como você pode ver acima), o espectador percebe que essa "introdução" já comeu uns bons 10 minutos de tempo corrido, e ela não tem absolutamente nenhuma relação com a história do filme, num verdadeiro teste de paciência para os espectadores que ainda não estão acostumados às doideiras (e malandragens) de José Mojica Marins.

Aí entram mais três minutos de créditos iniciais, desenhados sobre fotografias reais de um cemitério, com os nomes dos atores e técnicos pintados sobre lápides e túmulos, criando um belo (ainda que mórbido) efeito. E apesar de Mojica ter assumido a bronca, o único diretor creditado é Marcelo Motta.


Parece que o filme finalmente vai começar de verdade, certo? Errado!

Aparentemente, A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES tinha tão pouca história que Mojica foi obrigado a filmar uma SEGUNDA INTRODUÇÃO, dessa vez mostrando imagens do "Cosmos" (bolinhas de isopor penduradas por fios de nylon visíveis, em frente a imagens do espaço), ilustrando um novo discurso sem pé nem cabeça de Mojica, dessa vez em off, e que também vale a pena transcrever:

"Perguntar qual é o tamanho do Universo é o mesmo que perguntar qual é o término da Eternidade. Qual é a verdadeira forma de Deus? Quantas estrelas? Quantos planetas? Quantas galáxias existem na vastidão do Universo? São perguntas sem respostas, para além existe uma dimensão inferior. Por que o término? Por que você não aceita a extinção? Por que o medo, o vazio da sua presença, se você é superior? O que lhe espera quando o manto mortífero descer sobre você? Só a sua imaginação lhe dirá. É o fim? É o início? O nada? O tudo? Sim. Você teme o materialismo. Você teme a si mesmo. Contempla o Cosmos. Dá vazão a uma fantasia mental. A ilusão das ilusões, em busca de uma verdade real. É um clarão na escuridão. É a magia da luz que desponta. São brisas do sopro divino que lhe acariciam o seio. É a alegria incontida que envolve sua mente. É uma palavra como em moto-contínuo, que se repete e se repete. Mas não despreze o quanto é majestoso o seu significado. A luz da existência. A camuflagem da morte é o despertar da vida."


Óbvio que este novo monólogo de Mojica também não faz o menor sentido e nem tem o menor valor para a trama do filme; é tão prolixo e desconexo quanto o discurso de Zé do Caixão na "primeira" introdução, e absurdamente redundante!

Mas o bla-bla-bla sobre as "imagens do Cosmos" come mais uns seis minutos do filme, e é então que a trama principal de A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES finalmente começa... depois de exatos 15min46s de asneiras e encheção de linguiça! Fico até imaginando a cara dos espectadores que viram a estreia disso nos cinemas na época, já que parece que o filme não vai começar nunca!


Para fechar a longa lista de problemas da obra, o roteiro de A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES é tão caótico que em vários momentos afronta a sua própria lógica (ou falta de lógica). Talvez isso tenha acontecido no processo de esticar a historinha simples para virar longa, mas o fato é que há furos monstruosos numa trama que, na essência, deveria ser bem simples.

Acompanhe: no momento em que descobrimos que a hospedaria é uma sucursal do Além, e que seus hóspedes estão todos mortos sem saber disso, é impossível não lembrar que, durante a narrativa, várias outras pessoas tentaram se abrigar no local para escapar da mesma tempestade, mas foram enxotadas pelo personagem de Mojica porque não havia "vaga" para elas - ou seja, essas pessoas ainda estavam vivas.


Mas ora bolas, se elas estavam vivas, teoricamente nem deveriam enxergar a "Hospedaria do Além" em primeiro lugar, não concordam? Isso parece ser apenas uma desculpa para a previsível cena de revelação no final, quando, na manhã seguinte aos acontecimentos mostrados, um dos clientes "vivos" enxotados volta à pensão com a polícia e encontra... um cemitério no lugar onde ficava a hospedaria!

A revelação do final também torna absurda a primeira cena do filme (não aquelas introduções fuleiras, me refiro à primeira cena do filme MESMO), que mostra um anúncio de jornal pedindo empregados para trabalhar na pensão. Vários interessados se oferecem, mas Mojica escolhe apenas dois que "já foram recomendados" (ou seja, provavelmente estão mortos, ou em breve estarão).

Bem, se Mojica é a Morte, e a hospedaria uma sala de espera para o Além, por que diabos ele precisou colocar anúncio no jornal, se os seus empregados-vítimas chegariam até ali de qualquer forma?


O caso é que talvez seja inútil procurar alguma lógica em A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES, já que, conforme o próprio hospedeiro anuncia, "as emoções não fazem sentido". E nem dá para esperar nada muito diferente de uma obra filmada nas condições em que esta foi filmada, pois a pobreza e o improviso são mais do que perceptíveis.

Era tão pouco dinheiro para fazer o filme que Mojica economizou uns trocados na dublagem reaproveitando músicas e efeitos sonoros de obras anteriores, tipo os sons esquisitos de "O Despertar da Besta", e até a cantoria dos hippies (o antológico "Tá todo mundo nu, oba!") de "Finis Hominis - O Fim do Homem"!


Mesmo assim, há momentos muito criativos como recompensa para quem resistir à repetição excessiva de takes e situações. Como na cena em que o suicida explode os miolos com um tiro, e uma cachoeira de sangue desce sobre a lente da câmera (acima). Ou quando, para simular um "milagre", uma fina folha de filme plástico é incendiada em frente à câmera, criando algo bem próximo a "estrelinhas" por apenas alguns centavos!

Ou, ainda, quando um coração batendo (cena provavelmente retirada de alguma filmagem real de cirurgia) é exibido em sobreposição à imagem do relógio sem ponteiros. A revelação da "verdadeira face" do dono da hospedaria também é fantástica, e eu não duvido que várias dessas belas imagens - se não todas - saíram da cachola do próprio Mojica, acostumado a se virar com o pouco que tinha.


Já outros improvisos não ficaram tão bons, tipo uma cena em que, para representar a periculosidade do dono da hospedaria, vários animais são mortos instantaneamente apenas com um olhar do vilão.

Para demonstrar esse efeito na prática, ratinhos brancos foram colocados sobre uma chapa metálica e eletrocutados para morrerem de verdade na hora da filmagem, numa trucagem que, além de não convencer, ainda pode ser considerada de péssimo gosto.


E vale destacar que a ideia dos mortos que não sabem que estão mortos ainda era relativamente nova na época, mesmo já tendo aparecido em filmes tão díspares quanto "Um Passo Além da Vida" (1944) e "Contos do Além" (1972), e em toda uma variedade de contos e histórias em quadrinhos de horror. Mais recentemente, o tema seria abordado ad nauseam até transformar-se num clichê pra lá de batido, graças aos "finais-surpresa" de filmes tipo "Alucinações do Passado" (1990), "O Sexto Sentido" (1999) e "Rota da Morte" (2003), entre tantos outros.

Mesmo assim, A ESTRANHA HOSPEDARIA... passou batido na época e está entre as obras menos comentadas e/ou conhecidas do diretor. Um dos poucos a enxergar pontos positivos - talvez mais até do que realmente existem - foi o mítico Jairo Ferreira, que escreveu uma engraçada crítica para a Folha de São Paulo de 28 de janeiro de 1977 (abaixo), mais uma vez comparando Mojica a Buñuel!

Jairo Ferreira achou o filme "bastante bom"

Mesmo que eu concorde com quase todas as críticas negativas ao filme, principalmente aquelas que reclamam do ritmo arrastado, da repetição de cenas e do fato de praticamente nada acontecer até a revelação final, confesso que tenho certa admiração por A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES. Quem sabe até pela sua extrema ruindade, ou talvez pelo seu título fenomenal somado ao cartaz fora de série (desenhado pelo mestre Benício), uma obra de arte que eu adoraria ter na minha coleção.

Ou, quem sabe, pela presença da belíssima Marizeth Baumgartem (abaixo), uma promessa de estrelinha da Boca do Lixo que não vingou e sumiu do mapa logo depois (antes ela tinha feito pequenas participações em pornochanchadas, como "Cada Um Dá o que Tem" e "Pesadelo Sexual de um Virgem", mas seu papel de maior destaque foi aqui).


E se Marcelo Motta foi escanteado por Mojica nessa sua estreia como diretor, depois ele pôde demonstrar plenamente o seu "talento" na pornochanchada "Chapeuzinho Vermelho - A Gula do Sexo" (em que novamente dirigiu seu mestre Mojica numa ponta, como Zé do Caixão!) e no pornô "O Império do Sexo Explícito".

Este, por sinal, parece ter sido o seu último trabalho como diretor, e depois Motta também sumiu do mapa. A informação que rolava era que ele trabalhava bem longe do mundo do cinema, como integrante da diretoria do Jockey Club de São Paulo, mas parece que o Marcelo Motta em questão é apenas um homônimo. Assim, o "original" permanece sumido. Quem tiver informações sobre o seu paradeiro, escreva para o FILMES PARA DOIDOS!


A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES circulou durante anos no universo da pirataria em cópias ripadas do velho VHS da América Vídeo, que foi lançado no Brasil nos anos 1990, naquela época em que Mojica tinha virado "cult" nos Estados Unidos e nossas distribuidoras começaram a correr atrás do atraso.

Recentemente, a Focus Filmes relançou o filme numa desastrosa edição em DVD, com qualidade de imagem muito pior que a do velho VHS, incluindo um "falso widescreen" que corta o topo e a parte de baixo da imagem. Essa versão é tão escura que algumas cenas ficaram simplesmente incompreensíveis, e não vale nem os R$ 12,90 que a distribuidora está pedindo - é melhor ficar com o VHS-Rip mesmo, por incrível que pareça!


Depois de A ESTRANHA HOSPEDARIA..., Mojica dirigiu uma série de filmes bem fracos, e tão baratos quanto este, que também passam a ideia de serem curtas desnecessariamente esticados para longas. São eles, na ordem, "Inferno Carnal", "Perversão" e "Mundo - Mercado do Sexo".

Também lançou "Delírios de um Anormal", que é mais uma montagem dos melhores momentos de seus outros filmes do que uma trama independente. Dessa série toda de produções inexpressivas, acho que A ESTRANHA HOSPEDARIA... ainda é o meu preferido - mesmo, repito, com todos os seus defeitos.


Depois de "Delírios de um Anormal", Mojica teve que abandonar à força o cinema de horror por "exigências de mercado", e mergulhou fundo no universo do cinema pornô, dirigindo produções asquerosas como "A Quinta Dimensão do Sexo" e "48 Horas de Sexo Alucinante" - onde filmou algumas cenas mais horripilantes do que as dos seus filmes de horror OFICIAIS!

Em 1987, após mais um pornô hoje considerado perdido ("Dr. Frank na Clínica das Taras"), o velho Zé do Caixão retirou-se para um exílio forçado longe da cadeira de diretor, que durou até 2006, quando ele comandou sua segunda (e provavelmente última) superprodução, "Encarnação do Demônio".

"As emoções não fazem sentido", nos lembra o dono da Hospedaria dos Prazeres. Mas tudo bem: para aproveitar a deixa, tampouco faz sentido o que aconteceu com a carreira e a filmografia de José Mojica Marins a partir desse filme...


Trailer de A ESTRANHA HOSPEDARIA DOS PRAZERES



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A Estranha Hospedaria dos Prazeres 

(1976, Brasil)
Direção: Marcelo Motta (e José Mojica Marins)
Elenco: Mojica, Marizeth Baumgartem, Caçador
Guerreiro,  Luzia Zaracausca, David Hungaro,
Francisco Tomé e José Peres Ortega.