sexta-feira, 29 de novembro de 2013

BLACK DEMONS (1991)


Uma reclamação comum sobre o cinema fantástico brasileiro é o fato de geralmente "importarmos" os monstros estrangeiros, como vampiros e mortos-vivos estilo George Romero, ao invés de usar elementos do nosso riquíssimo folclore. Na verdade não é bem assim: já tivemos vários filmes mostrando caras, criaturas e superstições tipicamente nacionais, e alguns diretores contemporâneos estão investindo ainda mais nisso - tipo Dennison Ramalho (em seu curta "Amor Só de Mãe") e Rodrigo Aragão (com seus zumbis do mangue e chupa-cabras).

Mas, claro, ainda há muita coisa a se explorar nesse universo. Imagine, por exemplo, uma história sobre escravos negros que foram torturados e executados pelos seus feitores no século 19, em pleno Brasil Colônia sob o jugo português, e que nos dias atuais voltam à vida como zumbis para se vingar dos colonizadores. A ressurreição acontece através de um ritual de macumba realizado por um pai-de-santo num terreiro. E aí, não daria um belo filme de horror tupiniquim?


Bem, a má notícia é que este filme já existe. Foi feito no Brasil no começo dos anos 1990, misturando atores brasileiros e estrangeiros. A trama envolve justamente escravos-zumbis, uma velha fazenda do interior carioca e macumba. Só que ele não foi dirigido por um brasileiro, e sim por um italiano bem oportunista e cara-de-pau chamado Umberto Lenzi. Sim, aquele mesmo Lenzi que deu início ao ciclo italiano de produções sobre canibalismo, fez um punhado de policiais e filmes giallo bem legais, e foi o responsável por clássicos do cine-podreira como "Nightmare City" e "Cannibal Ferox".

Pois este mesmo Lenzi foi o visionário que enxergou potencial numa história sobre escravos negros zumbis, e não um cineasta, bem, brasileiro! BLACK DEMONS ("Demônios Negros") é o nome do filme em questão, rodado com uma pequena equipe meio italiana, meio brasileira (parece até sabor de pizza...) no interior do Rio de Janeiro, em 1991, quando a produção cinematográfica italiana já estava muito, mas muito mal das pernas. (Na mesma época, Lenzi também filmou no Brasil a tosquíssima aventura "Caçada ao Escorpião Dourado", aquela com Cecil Thiré como vilão!)


BLACK DEMONS sempre foi aquele filme que todo mundo conhece, mas pouca gente viu. Apesar da trama, do cenário e de parte da equipe serem brasileiros, ele nunca chegou a ganhar exibição em nossos cinemas, nem mesmo distribuição em vídeo, DVD, blu-ray ou qualquer formato doméstico existente - embora exista uma velha lenda urbana de que cópias piratas em vídeo tenham circulado pelas locadoras brasileiras lá pela década de 90.

Logo, sem distribução oficial, o filme de zumbis brasileiros de Umberto Lenzi só foi visto pelos próprios brasileiros graças à antiga emissora CNT/Gazeta, que reprisou-o nada mais nada menos de três vezes (!!!) entre outubro de 1993 e setembro de 1994, rebatizando-o com o nome genérico "Noite Maldita". As críticas mal-humoradas do velho Guia de TV do jornal Folha de São Paulo são uma atração por si só, conforme você pode ver abaixo. Anos depois, em 2002, a obra finalmente ganhou um DVD, lançado nos Estados Unidos pela Shriek Show, e assim ficou mais acessível, graças à internet e aos downloads.

Folha detonando o filme de Lenzi 3 vezes!

O caso é que embora a história seja bem interessante - ainda mais para nós, brasileiros, para quem o drama da escravidão ainda é relativamente recente -, o filme é bem ruinzinho e desperdiça qualquer potencial em situações forçadas, clichês e sustos fáceis.

Perdido em algum lugar entre a produção paupérrima e o elenco sem química, com quem confessadamente odiou trabalhar, Lenzi não pôde exercer plenamente o seu talento para cenas de horror e tensão, e o resultado é um "bom filme ruim", daqueles que você vê sem qualquer pretensão de levar a sério, e que pode até render umas boas gargalhadas caso você assista bêbado ou com os amigos - ou ambos. Porque sempre é engraçado ver atores americanos às voltas com ameaças brasileiras, como a macumba.


Lenzi veio filmar aqui no Brasil com as bênçãos do também italiano Michele Massimo Tarantini (creditado como "diretor de arte" de BLACK DEMONS, sob seu tradicional pseudônimo "Michael E. Lemick"). Tarantini chegou ao Brasil nos anos 80 e rodou alguns engraçadíssimos filmes de baixo orçamento por aqui, mesclando mão-de-obra italiana e brasileira. Os mais populares são "Fêmeas em Fuga" e o meu favorito, "Perdidos no Vale dos Dinossauros".

No final desta década, já estabelecido no Rio, o esperto Tarantini começou a fazer o meio-de-campo para que outros colegas italianos viessem filmar no país. No caso de Lenzi, ele também foi um dos responsáveis pelo já citado "Caça ao Escorpião Dourado". Há um milhão de histórias e fofocas sobre as aventuras brasileiras de Tarantini, mas isso renderia um post à parte, então vamos parar por aqui.


BLACK DEMONS já começa sem perder tempo, com os créditos rolando sobre as tradicionais imagens de cartão-postal do Rio de Janeiro, e apresentando o nosso trio de "heróis" estrangeiros: Jessica (a norte-americana Sonia Curtis), Kevin (o inglês Keith Van Hoven) e Dick (o norte-americano Joe Balogh, também dirigido por Lenzi em "A Passageira", e que é um verdadeiro clone do Kevin Bacon!). Os dois primeiros são namorados, e o último é o irmão mimado da moça.

Os gringos estão fazendo turismo de jipe pelo Brasil, mas Dick está aborrecido porque queria ver de perto os rituais de candomblé. Após uma discussão com a irmã e seu namorado, ele sai andando a esmo pelas ruas cariocas até chegar numa vila pobre, onde um grupo de crianças realiza um estranho ritual com tambores e máscaras (!!!).


Atraído pela molecada, Dick encontra um pai-de-santo cego que tem um misterioso amuleto no pescoço. Aí uma mulher (a atriz brasileira Cléa Simões) surge do nada e sai puxando papo com o turista, mas o diálogo não sai em português, e sim num inglês de sotaque carregadíssimo - como se todo mundo no país falasse inglês normalmente no dia-a-dia.

Dick enche o saco da mulher para ver de perto um trabalho de macumba. O diálogo em inglês é hilariante: Balogh, que é americano, fala o idioma fluentemente, mas a atriz que contracena com ele escorrega feio no sotaque. Além disso, palavras em português aparecem nitidamente em meio aos diálogos - e, neste caso, carregadas do sotaque de Balogh.

Ao pedir à mulher se o cego é um pai-de-santo, por exemplo, o ator pronuncia algo como: "He is a péi-de-sénto, right?". Já sua interlocutora enche as frases em inglês com termos brasileiros, e é muito engraçado ouvir sentenças tipo "Let Iemanjá guide you" ou "I will guide you to the terreiro". No fim, só para resumir a história, a mulher concorda em levar Dick até um terreiro escondido na floresta (!!!), para ver de perto um ritual que, supostamente, teria o poder de despertar os mortos!


Sem avisar os amigos, o jovem sai do hotel no meio da noite para ver de perto o tal ritual, que tem de tudo um pouco: o pai-de-santo cego sentado num canto, um mané que fica dançando e esfregando uma tocha bem na frente da câmera, uns mulatos batucando seus tambores, aquela cantoria típica ("Aêêê aêêêêê aêêêê") e uma mulata seminua saracoteando como se fosse abre-alas de alguma escola de samba.

Lenzi aparentemente não esqueceu dos seus tempos de assassino de animais em filmes como "Cannibal Ferox", por isso emenda uma cena real em que uma galinha preta tem a cabeça decepada, só para a dançarina em êxtase beber o sangue que escorre do pescoço da ave. Dick, fascinado, usa um gravador de áudio para registrar todo o ritual. No fim, ganha o amuleto usado pelo pai-de-santo, bebe algo alucinógeno e sai de órbita. Acorda, no dia seguinte, em seu quarto de hotel.


É hora de seguir viagem, e no momento seguinte o trio de turistas aparece a bordo de seu jipe cruzando uma selva (talvez para alimentar aquela ideia equivocada de que, no Brasil, é tudo Floresta Amazônica). O veículo pifa no meio do caminho, mas eles dão sorte de encontrar um casal de brasileiros, José Barros (o ator brasileiro Felipe Murray, usando o pseudônimo "Phillip Murray") e Sonia (a atriz brasileira Juliana Teixeira).

Novamente, apesar de os brasileiros não saberem que o trio em apuros é formado por estrangeiros, eles já aparecem falando inglês carregado de sotaque! José oferece ajuda aos gringos, dizendo que vive em uma casa de fazenda a alguns quilômetros dali, e convida os desafortunados turistas para passarem a noite lá.

Na chegada, eles conhecem a empregada Maria (a atriz brasileira Maria Alves). Como toda doméstica-macumbeira-supersticiosa-cinematográfica brasileira, a moça logo fareja algo demoníaco em um dos visitantes - Dick, que aparentemente foi possuído por algum orixá (!!!) durante a cerimônia no terreiro.


A noite cai e o grupo se retira para seus quartos. Mas enquanto todos dormem - e Maria realiza uns rituais de purificação em seu quarto -, o possuído Dick sai da casa e caminha até um cemitério próximo à fazenda, onde existem algumas covas do século 19, e até um crânio com um dos olhos intactos, sabe-se lá como!

No meio deste cemitério, o gringo liga o gravador e deixa tocar aquela ladainha que gravou no dia da cerimônia de candomblé. Bingo: o encantamento dos macumbeiros incendeia as tumbas e traz os mortos enterrados no cemitério de volta à vida!


No caso, os tais mortos são seis escravos negros que foram enterrados ainda com os grilhões e correntes amarrados aos pulsos e tornozelos (até parece que o feitor não iria tirá-los na hora de sepultar...). E não sei como é que os cadáveres resistiram à decomposição estando sepultados em covas rasas durante um século, mas seus corpos continuam inteirinhos, apresentando apenas sinais de podridão no rosto (claro, senão não seriam zumbis!).

Para completar a balbúrdia, cada um dos mortos-vivos levanta do seu caixão portando uma arma branca: um segura um gancho, outro um machado, outro uma foice, outro um facão, e por aí vai. Quer dizer, os sujeitos foram sepultados com as armas, já pensando numa possível vingança futura! Coisa de louco! Parece até o que faziam com os faraós do Antigo Egito!


A primeira vítima dos "demônio negros" é a pobre Sonia. Ela escuta um barulho vindo do lado de fora da fazenda e vai checar - vestindo apenas blusa e calcinha. É então cercada pelos zumbis, e tem um dos olhos extirpado com o auxílio do gancho metálico - em uma cena bem sangrenta. Mas a reação da atriz é bem engraçada: com o olho para fora da órbita, o que deve doer pra cacete, ela apenas fica repetindo "Please, no!", ao invés de berrar alucinadamente. E claro que ninguém na fazenda escuta os gritos da pobre moça...

A partir de então, a história é aquela de sempre, mas contada de forma bem ruinzinha. Apesar de serem mortos-vivos, os tais "demônios negros" ficam sumindo entre uma morte e outra, ao invés de já atacar todo mundo de uma vez - preferem pegar cada uma das vítimas de surpresa, tipo o Jason, mas não tem lógica alguma, pois onde seis mortos-vivos se esconderiam nos intervalos entre os assassinatos?


Aí José surge com a tradicional "história do passado para justificar a trama", explicando que, no século 19, quando a fazenda pertencia a um rico proprietário de terras, seis escravos que tentaram fugir passaram por longas torturas antes de ser enforcados, mas juraram voltar para se vingar. Por isso, o sexteto agora voltou para acertar o placar, e precisam matar seis pessoas para fechar a fatura e poder descansar em paz.

Não que a coisa tenha muita lógica, considerando que eles deviam ter voltado para se vingar do fazendeiro que os matou 100 anos atrás, e não dos pobres inocentes que nada têm a ver com a história - incluindo três gringos que só estão ali por pura casualidade. Aliás, é até engraçado que a tal vingança anunciada um século antes só tenha acontecido um século depois porque um bocó ianque fez a burrada de gravar um ritual de macumba e reproduzi-lo no tal cemitério; caso contrário, a vingança dos seis escravos ficaria só na ameaça!


BLACK DEMONS é uma salada de frutas que mistura elementos de vários outros filmes. Por exemplo: assim como os mortos cegos da famosa série espanhola de Amando de Ossorio, os escravos aqui também foram cegados pelo feitor (acima), mas isso acaba não fazendo nenhuma diferença no fim das contas!

O título em inglês nunca se justifica (por que chamar os vilões de demônios se eles são, claramente, zumbis?), e nem sei se a obra pode ser classificada rigorosamente como "filme de zumbis", já que é mais uma trama de vingança, com mortos-vivos que têm alvos bem específicos e não matam qualquer ser vivo em busca de comida, como acontece nos filmes de George A. Romero e suas imitações italianas.


Curiosamente, na Itália a obra foi lançada com outro título, "Demoni 3" (como você deve ter visto no pôster no início da postagem), tentando forçar uma conexão inexistente entre uma história independente como esta e os bem-sucedidos "Demons" 1 e 2, dirigidos por Lamberto Bava em 1985 e 1986. (Veja abaixo os créditos da versão internacional e da versão italiana, para comprovar a picaretagem.)

Numa entrevista, o próprio Lenzi queixou-se do uso do título: "'Demoni 3'? Isso é uma estupidez, um absurdo! Eu nunca vi os filmes de Bava! A produção acabou se chamando 'Demoni 3' por causa do produtor [Giuseppe Gargiulo], que queria faturar em cima do título. Mas a história, claramente, não tem nada a ver com os filmes de Lamberto Bava".

Créditos iniciais da versão internacional

Créditos iniciais da versão italiana

No fim, o melhor é encarar BLACK DEMONS como comédia involuntária. O filme tem vários momentos de rolar de rir, como o fato de as vítimas serem mortas mesmo quando é virtualmente impossível ser apanhado pelos zumbis. Nunca vou conseguir entender como é que as criaturas sempre conseguem atacar suas vítimas de surpresa se as correntes em seus tornozelos arrastam pelo chão, fazendo o maior barulhão. Também queria saber qual deles carrega a máquina de gelo-seco, considerando que cada aparição dos mortos-vivos é precedida por uma névoa espessa!

Já o roteiro de Olga Pehar coloca alguns diálogos engraçadíssimos na boca dos seus personagens. Tipo quando Sonia solta um comentário depreciativo ao nosso pobre país: "Não se assustem se a água tiver cara de chá. Aqui é o Brasil, não Nova York!". Ou o duplo sentido involuntário dos diálogos envolvendo o pobre Dick, já que "dick", nos EUA, também é uma famosa gíria para o órgão sexual masculino. Nesse sentido, é engraçadíssimo quando Kevin larga um "I can't find Dick". Bem, se ele não consegue achar, eu é que não vou ajudá-lo a procurar...


Porém o mais engraçado do filme é o fato de o inglês ter se transformado na língua oficial do Brasil - e como dói ouvir a maioria dos atores brasileiros falando um inglês quase ininteligível de tanto sotaque. Por exemplo, o diálogo da empregada Maria, "There isn't enough sheets for them all", sai como "Dérisen enáf shits for demól". Mais adiante, "Now I see it all clearly" vira "Nau ai si étol clirli". Por fim, "What's happened to her?" soa como "Uats répen tchu ãr?".

E mais: que o casal brasileiro José e Sonia fale em inglês com os turistas gringos, tudo bem; mas qual a real necessidade de eles se comunicarem com a empregada da fazenda também em inglês? Pois é...


Apesar de ter sido filmado aqui, e de contar uma história tipicamente brasileira, BLACK DEMONS ironicamente é uma produção bem obscura em nosso país. E não só porque não teve distribuição "oficial", mas também porque faltam fontes sobre a produção (não saiu nada nos jornais e revistas de cinema da época, apesar de um filme de zumbis rodado no Brasil parecer um assuto bem curioso, pelo menos para mim!).

Para tentar saber mais sobre os bastidores, entrei em contato com uma das atrizes principais do elenco brasileiro, a baiana radicada no Rio de Janeiro Juliana Teixeira (é ela na foto abaixo), que há anos abandonou a carreira de vítima em filmes baratos de horror e hoje pode ser vista principalmente em peças de teatro - embora também já tenha feito algumas novelas da Globo.


Pelo telefone, a atriz primeiro estranhou minha curiosidade por uma produção obscura como BLACK DEMONS, mas logo começou a falar animadamente sobre o assunto. Ela lembrou que, na época, participou de várias produções estrangeiras filmadas no Brasil por causa do seu inglês fluente. Além do trashão do Lenzi, ela pode ser vista em obras tão díspares quanto o norte-americano "O Quinto Macaco" (1990, de Éric Rochat) e os italianos "Lambada" (1990, de Giandomenico Curi) e "Butterfly" (uma minissérie de TV filmada no Rio em 1995, e dirigida por Tonino Cervi).

"Me indicaram para um teste, por saber falar inglês, e passei. Mas confesso que, no começo, fiquei com medo por ser um filme de terror e de zumbis, eu realmente não sabia o que esperar. E só fui ver o filme pronto recentemente, faz uns cinco anos. As pessoas falavam muito dele, e soube que passou na televisão, mas eu nunca tinha visto", lembrou ela.


Sobre o filme, Juliana é sincera: "Achei muito tosco, é uma produção bem classe C". As filmagens, contou ela, aconteceram em Vassouras, uma pequena cidade a 120 km e cerca de duas horas do Rio de Janeiro. "Passamos três semanas ali. Tinha uma equipe reduzida formada por alguns italianos e alguns brasileiros. Lembro que o maquiador [de efeitos] era muito bom e veio da Itália".

Ela provavelmente está se referindo ao responsável por arrancar seu olho em cena (abaixo), o italiano Franco Cosagni, que trabalhou em vários filmes de Dario Argento - entre eles, "Terror na Ópera" e "Síndrome Mortal". Mas a equipe de efeitos especiais também contou com um mestre brasileiro na área, Sérgio Farjala, creditado como "Serge Farjala" aqui.


Juliana continua lembrando dos bastidores de BLACK DEMONS: "O chefe de produção se chamava Massimo, e era muito legal [ela se refere a Michele Massimo Tarantini]. Mas os outros produtores italianos eram bem grosseiros, bem difíceis de lidar. A equipe brasileira era a que fazia o trabalho pesado, e os figurantes eram todos daqui, inclusive os zumbis. Foi um trabalho árduo, mas achei bem divertido. E o elenco era ótimo, eu já conhecia o Felipe Murray e adorei a Sonia e os dois atores, o inglês [Keith] e o americano [Joe]".

A atriz brasileira só não guarda boas recordações do diretor Lenzi: "Era um homem difícil, que não falava muito com a gente e não dava muita abertura para que falássemos com ele. O pessoal do elenco brasileiro nunca sugeria nada por causa disso. Era muito mal-humorado, sempre bem seco. E eu fiquei magoada porque ele falou muito mal de nós numa entrevista, como se a culpa pelo resultado do filme fosse apenas dos atores brasileiros".


A entrevista em questão está nos extras do DVD importado de BLACK DEMONS, em que Lenzi declarou o seguinte: "Eu preciso admitir que o filme não ficou muito bom. Não fiquei completamente satisfeito com ele, porque o elenco era bem fraco. Somente o protagonista, Joe Balogh, era um ótimo ator, mas neste filme ele não atuou tão bem porque nós filmamos no Brasil, em condições muito difíceis, nessa fazenda onde só era possível chegar de jipe, onde não havia estradas e passávamos o dia muito longe da cidade. E os outros atores do elenco são todos do Brasil, mas eram atores medíocres, somente a atriz que interpretava a feiticeira era talentosa".

(Eu, particularmente, não acho que os atores brasileiros se saíram tão mal, mas a careta com direito a língua de fora que Felipe Murray faz ao tomar uma punhalada do pescoço é muito engraçada!)


Mas, justiça seja feita, o diretor também sentou as patas na pobre atriz norte-americana Sonia Curtis (foto abaixo) nessa mesma entrevista: "Ela não foi a atriz escolhida para o papel. Eu tinha escolhido uma outra atriz, muito bonita, de Los Angeles. Só que, no último minuto, ela desistiu do projeto, e quando o avião dos Estados Unidos chegou e fui recepcionar minha atriz, encontrei uma outra diferente da que eu esperava!".

Na opinião do italiano, Sonia era uma péssima atriz, e ele só não foi atrás de uma substituta porque não poderia parar a produção por vários dias. "Além de ser uma péssima atriz, ainda era baixinha e nem um pouco atraente", detonou Lenzi, que foi bastante deselegante (como diria a Sandra Annenberg) ao citar um fato ocorrido nos bastidores, quando a americana tomou leite recém-ordenhado na fazenda e ficou doente; nos dias posteriores, segundo o diretor, todos começaram a pensar que ela estava com Aids!!!


O segundo principal ator brasileiro do longa, Felipe Murray, confirmou o clima difícil no set, em contato feito pelo Facebook depois de ler esta resenha: "Não considero que fiz um bom trabalho, mas acho que grande parte foi devido ao péssimo clima com o diretor. Ficamos travados, sem liberdade e criatividade. Aquela minha cara de nojo com a língua para fora - hilária! - ao levar a facada no pescoço reflete o que estávamos sentindo", justificou.

Segundo ele, a coisa foi complicada desde o início: "Fiz o teste e fui informado que eu tinha passado. O cachê já estava combinado desde antes do teste, mas no dia de assinar o contrato chamaram o outro ator que tinha ficado para a final e colocaram na sala de espera comigo. Na hora que entrei, ficaram me pressionando a aceitar um cachê menor ou iriam fechar com o outro ator! Isso é de um profundo mau caráter, e foi tramoia do Massimo, que era o produtor. Acabei fechando porque estava em um intervalo entre um trabalho e uma peça de teatro, e teria este mês disponível, mas ficou aquele clima de tapeação no ar".


Meu xará - esse rapaz prestes a ser pego por trás na foto acima - também confirmou que não foi fácil trabalhar com o diretor: "O que a Juliana falou foi o que aconteceu, mas ela foi gentil ou não quis falar que o Lenzi era mesmo muito grosso! Ele só vivia aos gritos com a sua equipe e com os brasileiros, não dava espaço nenhum para nada, e o clima no set ficou insustentável. Todos se sentiam presos para criar e foi todo mundo se fechando. A Sonia sofreu muito com ele, e eu também. Você já deve ter reparado, pela maneira que ele fala dela ou de várias outras coisas, que ele é muito deselegante".

A situação chegou num ponto tão crítico que, segundo Murray, os atores estrangeiros acabaram tomando as dores da equipe brasileira: "O Joe e o Keith eram bem legais, e teve um dia em que o Lenzi estava atacado, berrando um monte de grosserias, e os dois foram para o Massimo e falaram que não iriam filmar mais nada enquanto o Lenzi não falasse direito comigo e com os outros brasileiros. Foi a gota d'água para mais um dos ataques fenomenais e aos gritos do Lenzi. O clima era péssimo, mas deu a hora do almoço, os ânimos foram se acalmando, o Massimo conversou com ele e ele ficou mais calmo e tentou explicar de uma maneira mais entendível o que queria. Mas era muito perturbado".


Pelo menos a pancadaria no set serviu para fortalecer a amizade entre os brasileiros e os atores gringos. Segundo Felipe, "na mesma noite, depois da 'greve' dos atores americanos, como o dia seguinte era folga, fomos os cinco que falavam inglês bem para passear na cidade. Fomos em alguns bares, jogamos sinuca e acabamos voltando para o hotel todos bêbados. Foi a maior farra, e uma válvula de escape para tanta pressão. Acabei ficando muito amigo do Joe e trocamos correspondências por alguns anos (naquela época não havia internet). Ele morava em Los Angeles, e quando fui morar lá, em 1998, procurei por ele, mas sem sucesso".

A exemplo de Juliana, Felipe Murray também abandonou a vida de vítima em filmes classe C: ele parou de atuar em 1995, passou por diferentes empregos no Brasil e no exterior, e há alguns anos preside uma ONG de voluntariado internacional, que recebe estrangeiros para trabalhar como voluntários em projetos sociais no Brasil. Para finalizar, ele defendeu o seu inglês: "Apesar de você ter criticado a fluência dos brasileiros, vale citar que eu e Juliana falamos bem. Eu aprendi quando criança em casa - meu pai era inglês, meu sobrenome é Murray -, e fiquei totalmente fluente quando fui estudar teatro em NYC com a Juliana, de 1986 a 87".


O mais curioso é que o mesmo Lenzi que disse não gostar do filme (nos extras do DVD importado) mais tarde declarou que considera BLACK DEMONS a sua obra-prima (!!!). Isso aconteceu numa outra entrevista, publicada nas páginas do livro "Spaghetti Nightmares", de Luca Palmerini e Gaetano Mistretta, em atitude digna de transtorno bipolar!

Pior: nas páginas do mesmo livro, o diretor alega que o ritual de macumba visto no filme é "totalmente real", numa daquelas declarações fantasiosas típicas do nosso querido José Mojica Marins. "
Na verdade, esta parte da filmagem foi muito perigosa e coisas esquisitas começaram a acontecer no set", declarou o fanfarrão. (Obrigado pela transcrição desse impagável trecho do livro, Carlos Primati!)


Mágoas, fofocas, críticas e abobrinhas à parte, é preciso destacar que o filme pelo menos captura com fidelidade, em vários momentos, alguns costumes e tradições bem brasileiras. Quando Maria se desespera com vultos fantasmagóricos cercando a fazenda, por exemplo, ela se agarra numa imagem de Nossa Senhora Aparecida, a padroeira do Brasil - um detalhe simples, porém eficaz para o espectador brasileiro.

A mesma Maria, mais adiante, faz a popular "figa" com os dedos para tentar afastar os maus espíritos, em outro costume bem tradicional da nossa gente. E as cenas filmadas na favela, no início do filme, mostram um Brasil pobre sem maquiagem, com atores que, segundo Lenzi, foram recrutados na rua mesmo, poucas horas antes das gravações!


O resultado, entretanto, está anos-luz distante do satisfatório, e só pode ser visto ou como comédia involuntária, ou pela nobre tentativa de se fazer um horror com história "100% nacional" - ainda que uma equipe italiana tenha vindo até o Brasil para fazer algo que deveria ter sido uma iniciativa dos nossos realizadores!

Na mesma entrevista dos extras do DVD importado, Lenzi dá uma de suas tradicionais viajadas ao tentar buscar uma "mensagem sociológica" em BLACK DEMONS: "É o conflito entre a chamada civilização dos homens brancos e os nativos, ou os negros que foram capturados na África e trazidos para a América como escravos", delira o cineasta.


Segundo ele, "esse elemento não está claramente inserido no roteiro, mas serve como background. Os escravos fugiram e foram mortos, torturados, pelos donos da fazenda, que eram brancos de origem portuguesa. E então essa vingança, que acontece um ou dois séculos depois, pode ser considerada a vingança do terceiro mundo contra o mundo civilizado dos brancos".

Opa, mas peraí: dos três mortos pelos zumbis, apenas um é legítimo representante do "Primeiro Mundo", os outros são todos pobres cidadãos terceiro-mundistas! Pior: os "opressores" norte-americanos escapam praticamente ilesos do conflito!


Por tudo isso, eu continuo esperando um bom filme de horror envolvendo todas essas superstições brasileiras, seja a macumba, sejam os zumbis de escravos negros voltando para dar o troco nos descendentes dos seus feitores.

Mas não só meia dúzia, como vimos aqui. Afinal, se o cadáver de todo escravo africano que foi explorado, torturado e morto por aqui no Brasil Colônia voltasse à vida, teríamos um apocalipse zumbi tupiniquim digno do "Guerra Mundial Z"!

Quanto a BLACK DEMONS... Bem, esse obviamente não conta, já que de terror tem muito pouco e hoje só serve para tirar onda. O tema certamente merece um outro olhar, quem sabe de um brasileiro desta vez. E de preferência com atores locais falando em português, para ninguém provocar risadas involuntárias ao derrapar no inglês!


Trailer de BLACK DEMONS



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Black Demons (1991, Itália)
Direção: Umberto Lenzi
Elenco: Keith Van Hoven, Joe Balogh, Sonia Curtis,
Felipe Murray, Juliana Teixeira, Maria Alves, 

Cléa Simões e Rita Monteiro.

terça-feira, 26 de novembro de 2013

THE EVIL CLERGYMAN (1987)


(Esta postagem é dedicada ao Leo Dias, um dos maiores fãs de H.P. Lovecraft que eu conheço - se não o maior!)

Qual adaptação para o cinema de um conto de H.P. Lovecraft reúne os atores Jeffrey Combs, Barbara Crampton e David Gale, num roteiro de Dennis Paoli produzido pela Empire Pictures, de Charles Band? Bem, até 2012 só havia uma resposta possível: o clássico “Reanimator” (1985), de Stuart Gordon. Mas de 2012 em diante, a pergunta também pode ser respondida citando-se THE EVIL CLERGYMAN, um curta-metragem que reúne a mesma equipe talentosa de “Reanimator” já citada, apenas substituindo Stuart Gordon pelo produtor Charles Band na cadeira de diretor.

THE EVIL CLERGYMAN foi filmado entre 1987 e 88, mas só foi oficialmente finalizado e lançado 25 anos depois (!!!). Mais precisamente em 11 de agosto de 2012, quando o curta teve uma concorridíssima premiére na mostra Chicago Flashback Weekend, sendo depois lançado em DVD, em outubro do mesmo ano.


Para entender porque esta adaptação esquecida de H.P. Lovecraft passou 25 anos no limbo, é preciso fazer uma pequena viagem no tempo, de volta à década de 1980. Naqueles tempos, a Empire Pictures, de Charles Band, era garantia de produções divertidas feitas com pouco dinheiro, como o já citado “Reanimator”, e também “Do Além” (1986, também de Stuart Gordon), “Puppet Master / Bonecos da Morte” (1989, de David Schmoeller) e "Duro de Prender" (1988, de Renny Harlin), entre outros.

Embora sempre tenha investido uma merreca em seus filmes, a Empire enfrentava sérias dificuldades financeiras lá por 1987, quando THE EVIL CLERGYMAN começou a ser filmado. Assim, o produtor Band surgiu com um projeto arriscado: diminuir futuros longas que produziria para segmentos de meia hora, que iriam compor uma coletânea em longa-metragem chamada “Pulse Pounders”!

Anúncio da época destaca fim das filmagens de "Pulse Pounders"

Eu desconheço se realmente era mais barato filmar três curtas de meia hora, cada um com sua história e elenco independentes, do que três longas inteiros. Seja como for, o próprio Charles Band dirigiu os três segmentos sem relação entre si, sendo que apenas um deles era original (a adaptação de Lovecraft sobre a qual estamos falando), e os outros dois eram continuações de filmes populares da Empire, “Trancers” (que Band dirigiu em 1985) e “The Dungeonmaster” (1984, de vários diretores).

Dessa forma, “Pulse Pounders” era composto por THE EVIL CLERGYMAN, “Trancers 2 – The Return of Jack Deth” (com Tim Thomerson, Helen Hunt e Grace Zabriskie) e “The Dungeonmaster 2 - A Sorcerer's Nightmare” (com Jeffrey Byron e Richard Moll). A ideia em si é bem curiosa, e você pode pensar nesta coletânea como uma espécie de “Grindhouse”, aquele projeto fracassado de Quentin Tarantino e Robert Rodriguez, só que 20 anos antes (chupa, Tarantino! chupa, Rodriguez!).

Assim seria o pôster da coletânea "Pulse Pounders"

Enfim, os três filminhos de meia hora foram completados e Band já começava a divulgar sua antologia com o título “Pulse Pounders Volume 1”, comprovando que havia a intenção de produzir mais coletâneas no futuro, quem sabe até trazendo mini-sequências de meia hora para outros belos filmes da Empire Pictures, como “Metalstorm” ou “Patrulheiros do Espaço”, e quem sabe mais adaptações curtinhas de contos de Lovecraft.

Mas embora “Pulse Pounders” tenha sido anunciado e divulgado, inclusive com trailer em fitas da produtora (veja abaixo), a crise financeira da Empire Pictures decretou seu sepultamento: não demorou para a pequena empresa de Band ir à falência, e a prometida antologia acabou nunca sendo lançada. Pior: os negativos em 35mm foram extraviados no inferno que se desencadeia sempre que uma companhia fecha, e o projeto parecia perdido para sempre.


Trailer do nunca lançado "Pulse Pounders"



Pouco tempo depois, Charles Band abriu uma nova empresa, a Full Moon, e retomou diversos projetos antigos, com ainda menos grana e direto para o mercado de vídeo. Com “Pulse Pounders” perdido para sempre (ou ao menos assim se imaginava), o produtor resolveu dirigir até um novo “Trancers 2” em 1991, descartando completamente aquele curta filmado alguns anos antes.

Já “The Dungeonmaster 2” ficou perdido no limbo, enquanto outras adaptações baratas de contos de H.P. Lovecraft (como “Aprisionados pelo Medo”, de 1994, e “O Castelo Maldito”, de 1995) ajudaram a manter THE EVIL CLERGYMAN devidamente esquecido durante décadas.


Mas esta é uma história com final feliz, apesar de demorado: em 2011, Charles Band anunciou aos quatro ventos que encontrou uma velha fita VHS contendo a “workprint” (cópia de trabalho) de “Pulse Pounders”. Os negativos originais continuam perdidos, mas já era alguma coisa, considerando que muita gente aguardava para ver pelo menos um dos segmentos da coletânea há vinte e poucos anos!

Como bom espertalhão e comerciante que é, Band resolveu desmembrar “Pulse Pounders” e lançar os três curtas separadamente, um por ano, fazendo o possível e o impossível para dar-lhes um mínimo de restauração – já que, lembre-se, estamos falando de imagens capturadas de uma velha fita de vídeo, e sem música nem efeitos sonoros!


THE EVIL CLERGYMAN foi o primeiro episódio a ser lançado, considerando o grande culto que existe às velhas adaptações de Lovecraft produzidas pela Empire. E para este ano (2013) estava programada a estréia do “Trancers 2” bastardo, agora rebatizado “Trancers 1.5 – City of Lost Angels” por causa da existência da outra Parte 2! Já “The Dungeonmaster 2” deve ficar para 2014, a não ser que Band invente alguma das suas...

Bem, encerrada a aula de história, vamos ao que interessa: o que se pode dizer do mítico THE EVIL CLERGYMAN? Valeu a pena esperar 25 anos, ou seria melhor que o curta tivesse ficado perdido para sempre?


A resposta é simples: é óbvio que o que temos aqui não chega nem aos pés das adaptações mais clássicas de Lovecraft produzidas por Charles Band, como “Reanimator” e “Do Além”. Até porque o velho Charles não é nenhum Stuart Gordon. Mesmo assim, o resultado é bem acima da média. Talvez pela nostalgia de rever quase todo o time de “Reanimator” junto num outro filme inspirado em Lovecraft. Ou talvez pelo fato de as produções assinadas por Band hoje serem tão ruins que até os trabalhos menos expressivos da antiga Empire parecem bem melhores em comparação.

O conto homônimo que inspirou THE EVIL CLERGYMAN foi publicado no Brasil como “O Clérigo Diabólico” numa velha antologia de contos do autor chamada “A Tumba e Outras Histórias", lançada pela Francisco Alves Editora em 1991 (e republicado em 2007 no formato pocket pela  L&PM). Trata-se de um conto bem curto (apenas cinco páginas) que Lovecraft escreveu em 1933, mas só foi publicado em 1939, depois da morte do autor (que foi em 1937), na revista “Weird Talers”. (Você pode ler o conto completo, em inglês, clicando aqui)


A história original é até bem inexpressiva, narrada por um homem que visita uma velha casa e é atraído até o sótão. Ali, encontra um clérigo queimando velhos livros de magia negra na lareira. Outros religiosos, incluindo um bispo, aparecem para confrontar o “clérigo diabólico”, mas ele os confronta usando um objeto mágico que estava sobre a mesa.

Quando o próprio narrador é ameaçado pela diabólica figura, ele resolve utilizar o mesmo objeto para se livrar do clérigo. Mas, ao tentar fugir da casa, se olha num espelho e percebe que está diferente: o reflexo não é dele, mas sim do “clérigo diabólico”. E o conto termina assim: “Pelo resto da minha vida, exteriormente, eu seria aquele homem!”.


Nada muito inspirador, certo? Assim, não é de se espantar que o roteirista Dennis Paoli, o mesmo que escreveu diversas adaptações de Lovecraft para Stuart Gordon dirigir (de “Reanimator” a “Dagon”), tenha aproveitado bem pouco do conto ao escrever THE EVIL CLERGYMAN. E, mais uma vez, sexo e perversão são a mola-mestra da trama, a exemplo do que já havia acontecido em “Reanimator” e “Do Além”.

O narrador anônimo (e homem) do conto aqui foi transformado numa bela mulher, Said Brady, que obviamente é interpretada pela delícia da época Barbara Crampton (aquela mesma que quase foi estuprada por uma cabeça decepada em “Reanimator”). Ela vai visitar um velho castelo onde viveu e morreu um clérigo chamado Jonathan (Jeffrey Combs, o Dr. Herbert West de "Reanimator"), que não era exatamente um exemplo de pureza - lembre-se: ele é o “clérigo diabólico” do título!


Ocorre que Said e Jonathan foram amantes no passado. Ao saber da morte misteriosa do religioso, ocorrida há alguns dias, a garota resolve visitar o quarto onde ele vivia e onde ambos dividiram momentos de intimidade. Porém, no momento em que a moça fica sozinha no local, Jonathan reaparece. E não se trata de uma assombração, conforme ela irá confirmar por conta própria. No momento seguinte, os dois estão na cama “tirando o atraso”.

Pelos próximos vinte e poucos minutos, aparecem ainda um misterioso bispo (interpretado pelo excelente David Warner), que acusa Jonathan de assassinato, e uma bizarra criatura meio homem, meio rato (“interpretada” por David Gale, o Dr. Hill de “Reanimator”, aqui debaixo de carregada maquiagem). É quando Said começa a desconfiar das boas intenções do clérigo por quem se apaixonou...


Como se trata de um curta-metragem de 27 minutos, não dá para falar muito mais sobre THE EVIL CLERGYMAN para não estragar a surpresa. Mas, para quem já leu o conto original de Lovecraft, é bom salientar que quase tudo que se vê na tela saiu da mente do roteirista Paoli, e a única coisa que realmente lembra a história em que o filme se inspira é a conclusão - mesmo que (infelizmente) sem usar o recurso do reflexo no espelho.

A exemplo do que já havia feito em seus roteiros de “Reanimator” e “Do Além”, Dennis Paoli escapa da armadilha de tentar adaptar Lovecraft com muita fidelidade, descartando a narrativa em primeira pessoa e buscando uma abordagem que mistura horror e erotismo – aqui, como acontecia em “Reanimator”, a pobre Barbara também leva umas lambidas em lugar estratégico do vilão interpretado por David Gale!


Aliás, é impossível não lembrar de “Reanimator” quando THE EVIL CLERGYMAN parece uma reunião da equipe técnica daquele filme. Se não existisse um intervalo de tempo de pelo menos dois anos entre as duas produções, eu poderia até jurar que o curta tinha sido filmado nos intervalos das gravações de “Reanimator”. Além de dividir o mesmo elenco e o mesmo roteirista, o curta traz ainda o diretor de fotografia Mac Ahlberg e o técnico de efeitos especiais John Carl Buechler, que também trabalharam naquele filme.

É uma pena que Stuart Gordon também não tenha voltado para assinar a direção e deixar o clima ainda próximo do universo dos seus “Reanimator” e “Do Além”. Band até que se sai bem ao tentar emular esse clima, mas é impossível não ficar imaginando como o curta ficaria caso Gordon estivesse no comando, ainda mais conhecendo sua paixão pelos contos e pelo universo de Lovecraft.


Curiosamente, apesar do reencontro da turma de “Reanimator”, para mim a melhor coisa do curta é a pequena participação do lendário David Warner, que deve ter gravado todas as suas cenas em algumas poucas horas. Seu personagem, o bispo misterioso, aparece para reforçar as verdadeiras intenções de Jonathan, e justificar o porquê de ele ser o “clérigo diabólico” do título original.

O restante da turma manda muito bem, e, além dos quatro já citados, completa o reduzido elenco a veterana Una Brandon-Jones, no papel da proprietária do castelo. Eu só lamento o pouco tempo em cena de David Gale e seu homem-rato, já que, depois de anos lendo sobre o curta em minhas pesquisas sobre a antologia “Pulse Pounders”, eu sempre imaginei que o monstrinho teria um papel muito maior na trama. (O curta é dedicado ao ator, que faleceu em 1991.)


Irmão de Charles, o compositor Richard Band (que, vejam só, também é o responsável pela antológica trilha de “Reanimator”, aquela chupada do tema de “Psicose”!) foi convidado para compor a música de THE EVIL CLERGYMAN mais de vinte anos depois do fim das filmagens. A trilha tem seu charme e lembra os melhores momentos do músico; se eu não soubesse que é coisa nova, juraria que ele tinha composto a música lá em 1987!

Claro que, como o curta foi resgatado de uma cópia em VHS de quase 30 anos atrás, a qualidade da imagem não é das melhores, um problema que é ainda mais perceptível nas cenas escuras. Infelizmente, não há muito o que fazer nesse departamento, a não ser que os negativos originais reapareçam e permitam fazer uma nova montagem – quem sabe até com cenas que não foram aproveitadas na “workprint” daquela época.


Considerando o nível das podreiras que Charles Band produz e dirige hoje, repletas de CGI de quinta categoria e roteiros tosquíssimos sobre bongs e biscoitos assassinos, THE EVIL CLERGYMAN promove um autêntico retorno ao passado, a uma época não tão distante em que mesmo os filmes de horror mais baratos tentavam buscar um mínimo de sofisticação, e dependiam bastante do talento e criatividade do técnico em efeitos especiais, e não do computador.

É interessante constatar que os efeitos da criatura “homem-rato” não foram produzidos em stop-motion, como era comum naquela época nas produções da Empire. Pelo contrário, o pobre David Gale vestiu uma roupa de rato em tamanho natural e foi obrigado a zanzar de quatro por um cenário repleto de estruturas aumentadas, para dar a ideia de que o monstrinho é bem menor do que realmente era.


Isso exigiu bastante criatividade do time dos efeitos especiais, principalmente para a cena em que o homem-rato aparece dando umas lambidas na bunda da mocinha. Mesmo com pouco dinheiro em caixa, Band dispensou truques fotográficos ou montagens porcas e mandou construir uma réplica da bunda de Barbara Crampton em dimensões gigantes (!!!) só para poder filmar essa cena.

No bate-papo realizado na premiére do filme, em agosto do ano passado, a atriz inclusive lembrou com surpresa da réplica gigante dessa bela parte da sua anatomia, e questionou Band sobre o destino do “bundão”; segundo o diretor-produtor, alguém da equipe deve ter guardado de recordação, sabe-se lá com que propósito!


No mesmo bate-papo, Band lembrou que a equipe dos efeitos tentou fazer uma complicada trucagem em que o rosto de Jeffrey Combs se transformava no de Barbara Crampton; porém, após alguns testes, eles abandonaram a ideia e preferiram deixar a “transição” para a imaginação do espectador. Confesso que fiquei curioso para ver como resolveram algo tão complicado tecnicamente com os efeitos práticos da época...

Por falar em DVD, THE EVIL CLERGYMAN está disponível no formato desde outubro de 2012, mas o material é a típica picaretagem do mercenário Charles Band: ao invés de esperar para finalmente lançar o tão sonhado “Pulse Pounders” num único DVD, o maquiavélico produtor optou por lançar discos separados com cada um dos curtas. Assim, você é obrigado a desembolsar o preço de um longa para ter o DVD com um curta e alguns extras mixurucas que foram gravados hoje. Bem, é justamente nesses casos que o download de filmes funciona como uma espécie de justiça poética, já que Band definitivamente não merece o dinheiro que está cobrando pelo material.


Picaretagens à parte, THE EVIL CLERGYMAN é muito divertido e vale principalmente pelo fator nostalgia, já que todo fã das produções da extinta Empire, e de suas clássicas adaptações de Lovecraft, passou os últimos anos sonhando com esse curta-metragem. Vê-lo hoje, nesses tristes tempos em que o gênero parece dominado por refilmagens e overdose de CGI, é como fazer uma viagem no tempo até uma época que transpirava simplicidade e criatividade.

E, confesso, dá a maior saudade daquelas adaptações classe B de Lovecraft que a turma da Empire/Full Moon adorava produzir. Porque se hoje boa parte dos cinéfilos sonha com a tão comentada adaptação de “Nas Montanhas da Loucura” por Guillermo Del Toro, a única coisa que realmente me deixaria animado seria um retorno do velho Stuart Gordon aos textos de Lovecraft.

Mas como isso parece um sonho cada vez mais distante, o que nos resta são esses 27 minutos de THE EVIL CLERGYMAN para quebrar o galho...


Cena de THE EVIL CLERGYMAN



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The Evil Clergyman (1987-88, EUA)
Direção: Charles Band
Elenco: Barbara Crampton, Jeffrey Combs,
David Gale, David Warner e Una Brandon-Jones.