terça-feira, 24 de setembro de 2013

50 resenhas mais ou menos curtinhas para quem não tem preguiça de ler

INVOCAÇÃO DO MAL (The Conjuring, 2013, EUA. Dir: James Wan)
Dizer que este é um dos melhores filmes de horror produzidos pelo cinemão norte-americano nos últimos tempos é chover no molhado. Afinal, o cinemão norte-americano está muito preocupando decidindo qual o próximo filme mais ou menos conhecido que será refilmado, e os cada vez mais esparsos lampejos de criatividade vêm do cinema independente. O próprio "Invocação do Mal" não tem absolutamente nada de novo ou de surpreendente, e se apresenta como um compêndio de todas as situações e clichês dos filmes de casa assombrada já produzidos. Baseado em história real (e, nesse caso, sem truque de marketing), o longa acompanha o drama de uma família que se muda para uma casa assombrada, e que precisa recorrer a uma dupla de investigadores do sobrenatural (Ed e Lorraine Warren, personagens reais) para exorcisar o lugar. Clichê ou não, o que importa é que funciona: Wan, diretor de "Jogos Mortais" e "Sobrenatural", é tão bom na manipulação do suspense que consegue criar cenas de medo autêntico usando muito pouco, geralmente sem mostrar nada, apenas brincando com a antecipação do susto - como na belíssima cena da caixa de música em que um fantasma pode ou não aparecer refletido no espelho no momento em que a canção pára de tocar. Outro momento assustadoramente eficiente é aquele em que uma menina enxerga uma assombração num canto escuro atrás de uma porta, e onde aparentemente não há nada visível a olho nu - a expressão aterrorizada da atriz mirim mexe até com o mais casca-grossa dos espectadores. Enfim, isso aqui é o mais perto que os ianques conseguiram chegar de imitar a assustadora sutileza daqueles filmes de horror orientais sobre espíritos endiabrados. Infelizmente, Wan derrapa no ato final, quando manda a sutileza para a casa do carvalho e transforma seu filme num trem-fantasma barulhento para a molecada fã de videogame, apelando para maquiagem carregada, efeitos exagerados e malabarismos diversos, além de uma gratuita cena de exorcismo que podia ter ficado no chão da sala de edição. Se tivesse mantido o nível que vinha apresentando até então, "Invocação do Mal" seria o grande filme de horror dos últimos anos (até pela falta de concorrência à altura). Ainda assim, a derrapagem é perdoável porque há muitos bons sustos e momentos arrepiantes antes da coisa degringolar. Um filme perfeito para ver com todas as luzes da casa apagadas, e que coloca bobagens recentes com o mesmo tema, como "Evocando Espíritos" e o remake "Horror em Amityville", em seu devido lugar - ou seja, a lata do lixo! E a boneca demoníaca Annabelle, que tem papel secundário, merecia um filme inteiro só para ela (clique aqui para ler sobre o caso verídico envolvendo o tétrico brinquedo).


INVASÃO À CASA BRANCA (Olympus Has Fallen, 2013, EUA. Dir: Antoine Fuqua)
Eis aqui um nostálgico retorno àquelas produções descerebradas dos anos 80 (só faltou o logotipo da Cannon Films no início), com um diretor metido a sério no comando (Antoine Fuqua, de "Dia de Treinamento") e um elenco de famosões até entre os figurantes (tipo Ashley Judd, numa participação com menos de cinco minutos). Gerald Butler é o Chuck Norris da vez, Mike Banning, um ex-Forças Especiais (claro!), ex-guarda-costas do presidente dos Estados Unidos, forçado a enfrentar sozinho um pelotão de terroristas coreanos (a ameaça do momento) quando eles tomam a Casa Branca após um atentado explosivo e megalomaníaco (com centenas de vítimas inocentes!). Sua cruzada pessoal não é exatamente por patriotismo, mas sim por amizade, já que o presidente dos EUA (interpretado por Aaron Eckhart) é seu amigo do peito e foi feito refém pelos vilões. Sendo bem franco, o filme é imbecil até o talo, mas tem ação incessante e violência galopante, um herói que não faz prisioneiros, tortura e mata com tiros na cabeça para ter certeza que matou, e que até parece um subproduto da Era Reagan (não por acaso, uma foto do ex-presidente americano é mostrada em destaque no começo do filme). Às vezes fica a impressão de que todo mundo está levando a coisa um pouco mais a sério do que deveria (especialmente Morgan Freeman, em participação que podia ter sido cortada). Mas essa impressão desaparece rapidinho quando, por exemplo, o herói esmaga a cabeça de um dos vilões com um busto de Abraham Lincoln! "Invasão à Casa Branca" é diversão garantida para quem está com saudade de filmes tipo "Invasão USA" ou "Força em Alerta", e forte candidato a campeão de reprises no Domingo Maior num futuro próximo, onde deverá fazer muito mais sucesso do que fez nos cinemas. Recomendo para cinéfilos do tipo "não-xarope", e principalmente para quem acha que os filmes de ação de hoje estão mais esnobes do que deveriam. Confesso, inclusive, que adoraria ver novas aventuras de Mike Banning. Bem que ele poderia ganhar sua própria franquia nos moldes de "Duro de Matar" - até porque as últimas aventuras de Bruce Willis nessa série estão cada vez piores e mais descartáveis. Aliás, já que toquei nesse assunto, passemos diretamente para...


DURO DE MATAR 5 - UM BOM DIA PARA MORRER (A Good Day to Die Hard, 2013, EUA. Dir: John Moore)
Em 1988, John McTiernan revolucionou o cinema de ação com o primeiro "Duro de Matar". Seu herói, John McClane (interpretado por um jovem e ainda razoavelmente desconhecido Bruce Willis), ia na contramão das máquinas de matar indestrutíveis da época, tipo Rambo ou Schwarzenegger em "Comando para Matar": McClane parecia uma pessoa normal, frágil, que sentia medo, questionava os próprios limites e se machucava muito durante a aventura (sangrando aos borbotões, inclusive). Por isso tudo, é irônico que o quinto (!!!) filme da franquia subverta de maneira patética as "regras" do original: agora, o coroa McClane foi transformado justamente numa máquina de matar indestrutível, praticamente um super-herói, capaz de sobreviver a quedas de alturas gigantescas e explosões. O título até poderia ser trocado de "Duro de Matar" para "IMPOSSÍVEL de Matar", algo que soa ainda mais absurdo quando lembramos que os dois primeiros filmes da série enfocavam exatamente a fragilidade do personagem. Mesmo que seja bem menos ruim do que as críticas que recebeu, "Duro de Matar 5" apanha feio quando comparado ao original, e sequer tenta fazer a mínima forcinha para se diferenciar das centenas de produções "direto para DVD" lançadas todo ano. É anos-luz superior àquela bomba que foi o quarto filme (e não tem Justin Long nem Kevin Smith no elenco), mas isso não quer dizer muita coisa. O problema é justamente a falta de criatividade e a impressão de que o filme está uns 20 anos atrasado. Se tivesse saído em 1993, talvez fosse o grande filmaço daquele ano. Mas hoje... Está mais do que batido! O diretor Moore até se esforça, mas não consegue fazer nada memorável após a demolidora perseguição automobilística que acontece logo no começo do filme. E a história sequer traz alguma novidade em relação às aventuras anteriores, além da parceria entre John e seu filho McClane Jr. Nem vou perder tempo mencionando a desinteressante trama envolvendo a máfia russa, que leva o herói ianque para Moscou, mas não consegue nem criar situações interessantes estilo "peixe fora d'água". Nem vou perder tempo, também, mencionando as crateras no roteiro, os grosseiros erros de continuidade e a total falta de lógica e coerência da "trama" (você pode dar boas risadas vendo esse vídeo). E quando você lembra de obras recentes muito superiores, tipo "The Raid" e "Invasão à Casa Branca", McClane parece ainda mais batido e ultrapassado - justo ele, que ajudou a revolucionar o gênero 25 anos atrás! Vale a assistida, mas é tão descartável e esquecível quanto os novos filmes do Van Damme ou do Steven Seagal.


HELLRAISER: REVELATIONS (2011, EUA. Dir: Víctor García)
Se é muito ruim esse NONO (PQP?!?) filme da série "Hellraiser"? Bem, digamos que já fiz tratamentos de canal que foram muito mais divertidos. Consta que foi filmado e lançado às pressas apenas porque os direitos da franquia iriam expirar e a Dimension não queria perdê-los, o que já dá uma bela ideia do que esperar. Nem o ator Doug Bradley, que interpretou o vilão Pinhead nos oito episódios anteriores, quis segurar o rojão e pulou fora da barca furada, sendo substituído por um zé-mané qualquer. "Hellraiser: Revelations" (esqueça o subtítulo, pois não há revelação alguma) acompanha dois jovens babacas que vão para a fronteira com o México em busca de farra e prostitutas, mas desaparecem sem deixar rastros. Algum tempo depois, as famílias dos jovens se reúnem para um jantar e a irmã de um deles encontra uma certa caixinha amaldiçoada. O único mérito do filme é o de manter os efeitos de computação gráfica num nível mínimo: todas as cenas de mutilações são representadas com efeitos práticos, como deveria acontecer sempre no gênero. Infelizmente, as cenas sangrentas apresentadas aqui não passam de um repeteco de tudo que a franquia já mostrou antes e melhor, como ganchos arrancando pele ou abrindo gargantas, rostos arrancados e coisas do gênero. Aliás, o filme todo é um engodo, uma refilmagem disfarçada do "Hellraiser" original, incluindo o personagem que foge do inferno e precisa beber sangue para voltar à velha forma, forçando outro personagem a matar pessoas inocentes. Claro, sem fazer nenhuma justiça à obra de Clive Barker. E se você achava que a coisa não podia piorar depois da abordagem "slasher" do episódio anterior, "Hellworld" (até então o pior da série, agora superado por este), espere só até saber que boa parte da narrativa é composta por imagens gravadas em vídeo, estilo "found footage"! Some a isso péssimos personagens interpretados por péssimos atores e você terá uma atrocidade impossível de assistir sem usar o Fast Foward (embora tenha apenas 75 minutos). Se os Cenobitas de Clive Barker realmente existirem, eles já podem aposentar as facas e ganchos e usar "Hellraiser: Revelations" como tortura em sua antecâmara do inferno.


TRAGAM-ME A CABEÇA DA MULHER METRALHADORA (Tráiganme la Cabeza de la Mujer Metralleta, 2012, Chile. Dir: Ernesto Díaz Espinoza)
Este incrível e divertidíssimo filme chileno me fez lembrar do longínquo ano de 1993, quando assisti "El Mariachi" na tela grande e fiquei apaixonado pela criatividade e amor ao cinema demonstradas pelo jovem Robert Rodriguez. O tempo passou e ele hoje assina filmes sem alma e sem graça como "Machete", mas é bom saber que ainda tem gente que se diverte muito fazendo cinema de gênero e cinema independente, como o chileno Espinoza demonstra mais uma vez aqui. Venho acompanhando sua carreira há alguns filmes e, como o jovem Rodriguez, Espinoza também escreve e dirige filmes de ação auto-referenciais que não se levam tão a sério. Antes, ele já brincou com o universo dos super-heróis (no excelente "Mirageman") e dos espiões estilo James Bond (em "Mandrill"). Seu novo trabalho, "Tragam-me a Cabeça da Mulher Metralhadora", mescla ação desenfreada com humor, regionalismo e personagens declaradamente cinematográficos. A trama é narrada como se fosse um jogo de videogame estilo "GTA", e o protagonista (um DJ covarde que nunca pegou uma arma na mão) passa por diversas missões, identificadas como fases de um jogo, para chegar até a Mulher Metralhadora - uma super-assassina cuja cabeça foi colocada a prêmio pelo maior mafioso da cidade. Claro que a tarefa não será tão fácil e incluirá várias reviravoltas, tiroteios e risadas. Não há nada de brilhante na história, mas sim na forma de contá-la; percebe-se que Espinoza e sua trupe estão se divertindo muito, mas querem que o espectador também se divirta. Assim, os míseros 73 minutos de duração (!!!) passam voando graças a situações bem-humoradas e inúmeras cenas de ação. E a Mulher Metralhadora (interpretada pela deliciosa Fernanda Urrejola) é uma personagem fantástica, parecendo tanto uma heroína de videogame como um fetiche ambulante, sempre com roupinhas curtíssimas de couro e uma metralhadora maior que ela nas mãos. Talvez Espinoza caia nas graças do grande público a partir de agora, já que assinou a montagem do badalado horror "The Green Inferno", dirigido por Eli Roth. De qualquer forma, já espero ansiosamente pelo seu próximo longa, "Santiago Violenta", uma brincadeira com o universo do "polizieschi" italiano. E espero que ele não vire um Robert Rodriguez chileno.


O INCRÍVEL MÁGICO BURT WONDERSTONE (The Incredible Burt Wonderstone, 2013, EUA. Dir: Don Scardino)
Existem várias boas histórias nessa comédia sobre o mundo dos ilusionistas estrelada por Steve Carell e grande elenco. Primeiro, a briga do mágico arrogante Burt Wonderstone (Carell) com seu parceiro desde a juventude (Steve Buscemi); depois, sua relação com a assistente de palco que também quer ser ilusionista (Olivia Wilde); tem ainda o reencontro do protagonista com um velho mágico que foi seu ídolo na infância (Alan Arkin, o melhor do filme), e a concorrência provocada por um asqueroso ilusionista da nova geração, que recorre à mutilação do próprio corpo em suas apresentações (Jim Carrey, satirizando de forma impagável o ilusionista da vida real Criss Angel). Cada uma dessas histórias rende alguns bons momentos no longa. Mas, também, cada uma delas renderia seu próprio longa, e por isso parecem desperdiçadas por estarem todas juntas. É muita história para pouco filme: sempre que parece que uma das subtramas vai engrenar, ela logo é atropelada por outra, deixando tudo meio vago no final. Há momentos bem divertidos, principalmente aqueles que envolvem os escatológicos números de mágica realizados pelo personagem de Carrey (a "piñata humana" é fora de série), ou a realização do "grande truque" de desaparecimento do público na cena final. A tiração de sarro com os grandes shows de mágica de Las Vegas (tipo Siegfried & Roy), e suas superproduções bregas e exageradas, também vale o filme. Pena que tudo fique perdido numa narrativa que parece querer abraçar o mundo inteiro. E embora divirta, fiquei o tempo inteiro com a sensação de que "O Incrível Mágico Burt Wonderstone" podia ser bem melhor e mais divertido se centrasse o foco numa coisa ou em outra, e não em tudo ao mesmo tempo agora.


BLOODRAYNE 3 - O TERCEIRO REICH (Bloodrayne: The Third Reich, 2010, EUA/Canadá/Alemanha. Dir: Uwe Boll)
Chegará o dia em que a crítica francesa vai redimir o odiado Uwe Boll, argumentando que ele é um gênio incompreendido que faz filmes ruins de propósito para protestar contra "o vazio dos blockbusters atuais". Até lá, entretanto, não tem como não lamentar o desperdício de potencial da maioria dos filmes do alemão, mas principalmente deste terceiro filme da sua franquia de estimação, "Bloodrayne". Se o primeiro era bem legal, com diversos atores conhecidos pagando mico, e o segundo já era fraquinho, desperdiçando a mistura vampiros e western, esta nova aventura da vampira Rayne chafurda com vontade no lodaçal da falta de criatividade. Quem em sã consciência conseguiria estragar um filme sobre vampiros combatendo nazistas durante a Segunda Guerra Mundial? Uwe Boll, é claro! O diretor simplesmente não consegue criar nenhuma cena ou situação interessante. Seja no confronto entre a heroína vampira e os soldados alemães, seja nas cenas de ação e violência, seja na participação de atores conhecidos, como Michael Paré e Clint Howard, tudo é burocrático, amador e desinteressante. Isso de certa forma justifica a duração pífia da aventura (pouco mais de 50 minutos, se descontarmos os créditos iniciais e finais), porque é como se Boll estivesse tão pouco entusiasmado com o material que foi empurrando para frente de qualquer jeito. Percebe-se, também, que ele perdeu completamente a vergonha na cara, deixando de lado o sangue e a pancadaria tradicionais da franquia para investir em sacanagem (!!!), aproximando a obra mais daqueles erotic thrillers rasteiros tipo "Night Eyes" do que das tradicionais adaptações de videogame feitas para a molecada. A gostosa da Natassia Malthe (que interpreta Rayne desde o segundo filme, substituindo a igualmente gostosa Kristanna Loken do original) aparece pelada várias vezes, inclusive numa longa e gratuitíssima cena de sexo LÉSBICO, gerando assim um mínimo de interesse no espectador - caso contrário, confesso que eu teria desistido do filme ainda nos primeiros 15 minutos. Pela sacanagem, e pelo clima de pobreza/insanidade geral da produção, eu até recomendo "Bloodrayne 3" a todos os fãs de cinema-bosta desse mundo. Mas é difícil não pensar no grande filme B que poderia ter saído caso o projeto tivesse caído em mãos mais criativas e menos desinteressadas...


THE LORDS OF SALEM (2013, EUA. Dir: Rob Zombie)
Lá pelos 45 minutos de "The Lords of Salem", uma dúvida me assombrava: afinal, SOBRE O QUÊ EXATAMENTE era o filme que eu estava vendo? Quando os créditos finais começaram a subir, a dúvida persistia. Tá, tudo bem, este provavelmente é o trabalho mais bem dirigido do Rob Zombie - o que não quer dizer pouca coisa quando estamos falando daquele que considero um dos piores "novos talentos" do cinema de horror atual. Infelizmente, Zombie continua escrevendo os seus roteiros, e estes continuam prolixos e sem chegar a lugar nenhum. Confesso que estava gostando de "The Lords of Salem" na sua, digamos, primeira meia hora, que não tem aquele ritmo tresloucado de videoclipe dos outros filmes do Zombie, nem aquela fotografia chinelona tentando imitar cinema grindhouse dos anos 70 (já deu, né?). Pasmem: o filme tinha até um personagem HUMANO e INTERESSANTE (o escritor de livros de ocultismo interpretado por Bruce Davison), algo incomum entre os estereótipos ambulantes de cine-podreira que o diretor-roteirista geralmente concebe. Enfim, tirando uma ou outra Zombizada básica (como o namoradinho da heroína, cabeludo e com 2 kg de barba), eu estava gostando bastante porque nem parecia um filme dele. Infelizmente, a coisa degringola rapidamente depois da promissora meia hora inicial. Sobre o que é "The Lords of Salem"? Boa pergunta. Lá pelas tantas, Zombie pega a trama razoavelmente interessante (uma música satânica composta por bruxas da Velha Salem é executada por uma DJ nos tempos modernos, com resultados tenebrosos) e joga para as cucuias, preferindo preencher os 70 minutos restantes da sua obra com delírios, pesadelos, sustinhos falsos, muita enrolação, plágio descarado de "O Bebê de Rosemary" e todos os chavões possíveis e imagináveis sobre bruxaria e satanismo. A narrativa logo se torna repetitiva, saltando de uma cena de delírio para outra até a conclusão preguiçosa, apressada e completamente insatisfatória. Tá, algumas imagens dos delírios da protagonista são ótimas e lembram um sub-Ken Russell, tipo os padres-demônios se masturbando; outras são constrangedoras (o que é a Sheri-Moon Zombie cavalgando um bode, gente?), e outras ainda parecem ter saído do trem-fantasma de um parque de diversões de quinta categoria. Resultado: embora tente parecer classudo, com uma fotografia bonitona e usando até Mozart na trilha sonora (!!!), Rob Zombie continua o mesmo moleque punheteiro de sempre, que acha que basta falar umas coisas feias sobre Jesus e mostrar meia-dúzia de imagens satânicas para fazer um terror pesadão. Não, não basta. E "The Lords of Salem" pode até ser mais bem-filmado que, digamos, "A Casa dos Mil Corpos" ou "Halloween 2", mas é tão desconexo e ruim quanto ambos.


O LADO BOM DA VIDA (Silver Linings Playbook, 2012, EUA. Dir: David O. Russell)
Um filme meia-boca como "O Lado Bom da Vida" ser indicado a nada menos que 8 Oscars é a prova de que a qualidade do cinemão norte-americano está em queda livre. Enquanto me contorcia na poltrona do cinema tentando aguentar as quase insuportáveis duas horas da coisa, fiquei me perguntando qual o motivo para o exagerado hype em cima da obra, talvez por causa da assinatura do diretor cult David O. Russell. Em linhas gerais, a trama enfoca o encontro e subsequente caso de amor entre um rapaz que acabou de sair do manicômio e sofre de transtorno bipolar (Bradley Cooper) e uma garota com seus próprios problemas no departamento dos distúrbios mentais (a estrelinha do momento Jennifer Lawrence). Num daqueles clichês mais rasteiros do gênero, ele está com a ideia fixa de voltar para a ex-esposa e não percebe o amor logo ao lado, o que eventualmente acontecerá na apoteótica cena final. O problema é que rapaz e garota são tão insuportáveis que fico imaginando se alguém realmente torceu para que ficassem juntos, ou se alguém realmente acreditou que haveria futuro nesse relacionamento depois do "The End". A história se desenrola como uma típica comédia romântica (embora não tenha a menor graça), e inclui até um momento em que os dois protagonistas precisam superar seus próprios limites ao participar de uma competição de dança de salão. Mas tudo é tão desprovido de emoção que fica difícil se sensibilizar com os personagens. Especialmente Bradley Cooper, cuja atuação na primeira meia hora é tão afetada e irritante, sempre berrando sem parar e agindo como um completo idiota, que por pouco não desisti e saí do cinema. Some-se a tudo isso a participação de Robert De Niro no mesmo papel que vem fazendo nos últimos 15 ou 20 anos - ele parece estar numa nova continuação da série "Entrando Numa Fria". Para mim, é um completo mistério que um filme supérfluo e simplório como este atraia tanta atenção e tantas críticas positivas e apaixonadas, ainda mais com um roteiro tão raso. Pode parecer até piada pronta, mas se a irritante jornada entre os dois irritantes protagonistas representa "o lado bom da vida", conforme o título brasileiro, eu nem quero imaginar como seria o lado RUIM da vida...


FAROESTE CABOCLO (2013, Brasil. Dir: René Sampaio)
Fui ver "Faroeste Caboclo" com uma má vontade tão grande, e tão preparado para a bomba atômica do ano, que até nem achei essa ruindade toda. Trata-se de um filme divertidinho, correto visualmente e narrativamente. Mas como tem problemas! Li várias resenhas rasgando seda, e percebe-se que foram escritas por grandes fãs da música que deu origem ao filme e do Legião Urbana. Gosto da canção e gosto da banda, mas desde o começo questionei a imbecilidade de se fazer um filme inteiro baseado Ipsis litteris numa música, ao invés de apenas tomá-la como base para criar algo original. Dito e feito: René Sampaio, o diretor, não apenas adapta literalmente a música do Legião para o cinema, mas o faz com uma reverência que incomoda. Para não ser injusto, o roteiro muda algumas coisinhas e acrescenta alguns novos elementos inexistentes na letra de Renato Russo, mas a emenda quase sempre sai pior que o soneto. Por exemplo, o filme tenta transformar João do Santo Cristo numa figura mais humana e "boazinha". Ao contrário do que narrava a música, no filme ele não rouba dinheiro da Igreja, não come todas as meninas da cidade, não é o terror da sertania onde mora e nem começa a roubar sob a má influência dos boyzinhos da cidade. Tá, ele mata um montão de gente, mas sempre com "motivo", o que é altamente questionável. A Maria Lúcia de Ísis Valverde, então, é o suprassumo da obviedade: não bastava cair no clichê da "menina branca com pai racista que se apaixona por um negro", tinha que colocar no mesmo balaio também o "menina branca E RICA com pai racista E FIGURÃO (senador) que se apaixona por um negro E POBRE E MARGINAL"!!! Já Jeremias deixa de ser o maconheiro sem-vergonha e covarde que atira pelas costas para virar um traficante playboy que peita Santo Cristo de igual para igual no duelo final que dá título ao filme (e que é tão desprovido de emoção quanto a própria obra). Os três personagens principais se envolvem num triângulo amoroso que é bem sutil na canção, mas que na tela grande não convence em momento algum; não torci pelo João do Santo Cristo, e nem o amor dele por Maria Lúcia me convenceu. Como a música de Renato Russo não dá muitas pistas sobre a relação entre os dois, o filme também não tenta inventar nada, e basicamente apenas preenche os tempos-mortos entre os grandes acontecimentos da letra da canção mostrando João e Maria Lúcia fumando maconha e/ou trepando. No fim, a melhor coisa de "Faroeste Caboclo", o filme, é um personagem que nem existia na música, o policial corrupto interpretado por Antonio Calloni - e não deixa de ser curioso quando a MELHOR COISA de um filme baseado numa música é justamente algo que NEM EXISTIA NA MÚSICA! Por isso, "Faroeste Caboclo", a música de Renato Russo, ainda é um filme bem melhor que essa sua adaptação cinematográfica oficial. E só tem 10 minutinhos.


HOMEM DE FERRO 3 (Iron Man 3, 2013, EUA. Dir: Shane Black)
Mesmo sendo o mais fraco da (até agora) trilogia, "Homem de Ferro 3" encerra decentemente (pelo menos por enquanto) o ciclo de aventuras de Tony Stark/Iron Man. Saiu Jon Favreau, o responsável pelos dois primeiros filmes, e entrou Shane Black, o legendário roteirista de "Máquina Mortífera", e que foi praticamente sinônimo de "cinema de ação" nos anos 80-90. Percebe-se claramente a mudança de comando graças ao curioso fato de Stark agora passar a maior parte do filme fora da armadura, e não como Homem de Ferro. No final, quando Robert Downey Jr. e Don Cheadle, sem armaduras, saem distribuindo tiros nos bandidos, parecia até que Shane Black estava voltando aos seus tempos de "Máquina Mortífera"! Esses são os melhores momentos do longa, que também está repleto do senso de humor e dos diálogos afiados típicos do roteirista. Mas também há algumas pisadas na bola, como a reviravolta à la "Batman Begins" envolvendo o vilão Mandarim (interpretado por Ben Kingsley), ou o fato de a I.M.A., grande arquiinimiga do Homem de Ferro nos quadrinhos, ser completamente desperdiçada. Shane Black disse que seu objetivo era fazer uma trama mais realista e focada em espionagem, só que fica meio difícil quando você adapta justamente o arco "Extremis", escrito por Warren Ellis, e que trata de uma fórmula que cria supersoldados indestrutíveis e com poderes quase sobrenaturais, tipo cuspir fogo pela boca (!!!), capazes de fazer frente aos do próprio Homem de Ferro. O caso é que é tanta ação e explosões que fica até difícil colocar uma história ali, então o melhor é desligar o cérebro e curtir momentos nonsense como a batalha final, quando Stark usa todas as suas armaduras (e não são poucas!) contra os vilões. O saldo é positivo e, tudo considerado, os três "Homem de Ferro" ainda correspondem, na minha humilde opinião, à melhor trilogia de filmes baseada num herói dos quadrinhos, onde todos os episódios conseguiram manter um padrão de qualidade quase impecável e com o tom correto para agradar tanto ao público infanto-juvenil que nunca leu uma HQ do Homem de Ferro quanto aos fãs mais "antigos" do personagem. Sem contar que, além de serem filmes divertidos pra caramba, eles não duram três horas cada, e nem tentam transformar um material pseudo-infantil em Shakespeare, como um certo Christopher Nolan...


SHARKNADO (2013, EUA. Dir: Anthony C. Ferrante)
Esses filmes de monstros assassinos produzidos por The Asylum e SyFy nunca me decepcionam: são SEMPRE ruins, e geralmente intragáveis. "Sharknado" pode até ser o mais assistível entres os que eu vi até hoje, mais divertido e engraçado que bombas tipo "Sand Sharks"; ainda assim, precisava de muito mais para ser bom. É óbvio que quando você vai assistir um filme sobre um tornado de tubarões (???), já sabe desde o começo o que lhe espera. Por isso, tentei assisti-lo sem nenhum preconceito e sem levar a sério. Mas o que fazer quando os próprios realizadores, os primeiros que deviam tocar a coisa no "Foda-se!", parecem levá-la mais a sério do que deveriam? Por exemplo: por que perder tempo tentando criar cenas "dramáticas", tipo o trauma do passado envolvendo tubarões de uma das personagens? Os defensores desse tipo de tranqueira dirão que faz parte da brincadeira, mas duvido. Por que não partir direto para a porra-louquice, simplesmente mostrando os personagens tentando se defender dos "tubarões voadores" no meio da cidade? Até porque essas são as melhores cenas do filme, principalmente as que envolvem serras elétricas sendo usadas contra os bichos que caem do céu. Infelizmente são poucas, e ficam perdidas no meio de um montão de momentos inúteis que não acrescentam nada, e que desperdiçam atores conhecidos como Tara Reid e o veterano John Heard (esse tão sub-aproveitado que chega a dar dó). Não deu outra: como sempre faço com esse tipo de produção, acabei acionando o FF para passar as cenas inúteis da metade para o fim. E as mortes de "humanos" são todas rápidas e pouco violentas - o último prego no caixão desse tipo de produção, que deveria pelo menos investir em mortes sangrentas e criativas para garantir o interesse. Ainda estou esperando o dia em que esses caras da Asylum, SyFy e etc. vão aprender a fazer filmes realmente divertidos (com mais sangue, mortes exageradas e um pouquinho que fosse de mulher pelada), e não apenas títulos e pôsteres divertidos. Quatro ou cinco cenas legais não fazem um filme legal. Há filmes ruins que são engraçados, mas também há filmes que são apenas ruins. Esse aqui quase chegou lá, mas acabou no meio do caminho entre os dois tipos. Seja como for, seu sucesso na internet garantiu-lhe uma continuação, e pode ser que os envolvidos tenham aprendido uma coisa ou outra para fazer bonito na Parte 2 (tá, eu duvido disso, mas sou um eterno otimista!).


O MASSACRE DA SERRA ELÉTRICA 3D - A LENDA CONTINUA (Texas Chainsaw 3D, 2013, EUA. Dir: John Luessenhop)
Tenho uma relação muito generosa com filmes de horror: a história pode ser a mesma que já vi dezenas de vezes, os atores podem ser horríveis, os efeitos especiais podem ser meia-boca... Enfim, vale quase tudo: só não aceito ser tratado como idiota! E é basicamente isso que "O Massacre da Serra Elétrica 3D" faz o tempo inteiro. Considero admirável a ambição dos realizadores de tentar fazer uma sequência direta do clássico dirigido por Tobe Hooper em 1974, e há dois momentos que são fantásticos para todo fã do original. Um é a cena inicial, que recria a conclusão lá de 1974 como se estivéssemos no mesmo dia (e isso num filme produzido 40 anos depois!), com direito à participação de atores do original (Gunnar Hansen, John Dugan e Marilyn Burns). O outro é uma citação da famosa cena da menina no freezer, também do original, mas aqui com uma conclusão diferente e inesperada. Mas fica nisso. O resto é mais um terrorzinho banal para uma geração burra e sem referências, tão ruim, mal-escrito e mal-dirigido que dá vontade de arrancar os olhos. Não basta os personagens serem horrorosos e superficiais, é preciso testar a paciência do espectador colocando-os para fazer as coisas mais imbecis. Por exemplo: a turminha de jovens que dá carona a um completo desconhecido e depois deixa o sujeito sozinho em sua casa, sem suspeitar de que ele possa roubá-los; pessoas que vão investigar corredores longos, escuros e sinistros sem avisar os amigos ou pedir a ajuda deles; a menina que, com toda uma floresta para correr e se esconder, busca abrigo dentro de um caixão num cemitério (é sério!); a mesma menina que, fugindo de Leatherface pelo meio de um parque de diversões lotado, acredita que a melhor solução é pendurar-se numa roda gigante pelo lado de fora (!!!); o bocó que tenta se proteger de um maníaco com uma motosserra trancando-se num celeiro com porta de madeira (!!!), e por aí vai. A cada minuto, o roteiro enfileira uma nova bobagem para tirar qualquer espectador do sério (uma longa cena envolvendo transmissão em vídeo via celular é particularmente irritante), culminando com uma reviravolta final que transforma um simples "massacre da serra elétrica" em história de busca de vingança, e ainda tenta fazer com que o espectador se compadeça do "coitadinho" do Leatherface, ao estilo Rob Zombie. Bom, sem querer soltar Spoilers, pelo menos com a heroína do filme esse papinho funcionou! Enfim, "O Massacre da Serra Elétrica 3D" é um insulto à inteligência e mais uma contribuição grotesca à franquia (só não é pior que "O Massacre da Serra Elétrica: O Início", de 2006). Só serve mesmo para tornar o clássico de 1974 cada vez melhor - eterno, inclusive.


À BEIRA DO CAMINHO (2012, Brasil. Dir: Breno Silveira)
Da primeira à última cena, "À Beira do Caminho" é um melodrama dos mais típicos, apresentando todas as situações e clichês do formato: o homem amargo marcado por uma tragédia do passado, o pequeno órfão em busca do pai que nunca conheceu, famílias desfeitas, amantes abandonadas, cartas nunca enviadas, etc etc. Pessoalmente, eu não tenho nada contra dramalhões desde que eles sejam bem feitos, e esse aqui é um desses. Consegue ser popular sem ser cafona; emocionante sem recorrer à pieguice exacerbada e forçar as lágrimas do espectador a fórceps; simples sem ser simplista. Trata-se de um "road movie" sobre um caminhoneiro solitário (João Miguel, ótimo) que, numa de suas intermináveis viagens pelo Brasil, arruma a "companhia forçada" de Duda, um moleque cuja mãe morreu e que precisa de uma carona até São Paulo para encontrar o pai que nunca conheceu. A trama se desenrola quase que inteiramente na estrada e à beira dela, em cidadezinhas e postos de gasolina, e às vezes parece "Central do Brasil" ao contrário, começando numa pequena cidade e indo para uma grande metrópole (tem até cena numa quermesse!). Não há nada (ou muito pouco) de novo na história e na forma como ela é contada, mas elenco e diretor conseguem segurar as pontas com muito talento. Como bônus, a narrativa um tanto introspectiva é sublinhada por belíssimas canções popularescas, incluindo diversos sucessos do Rei Roberto Carlos (com destaque para "O Portão"). Desconheço como foi a trajetória do filme nos cinemas brasileiros, mas merecia ter feito mais público e mais sucesso, como o trabalho anterior do diretor Breno Silveira, "2 Filhos de Francisco" - do qual não tenho vergonha de dizer que gosto muito, mesmo tendo pouca ou nenhuma simpatia pela dupla Zezé Di Camargo e Luciano, o que é mais uma prova do talento do cineasta. Silveira pode não ser Walter Salles (já que citei "Central do Brasil"), mas isso, acredite, é um elogio nesse caso. Se você também não tem vergonha de assumir que gosta de dramalhões e de "música popular", essa é uma bela recomendação. E eu ainda prefiro um "À Beira do Caminho" do que 20 "Faroeste Caboclo" ou 50 dessas comédias com Fabio Porchat e Bruno Mazzeo.


PLANO DE FUGA (Get the Gringo, 2012, EUA. Dir: Adrian Grunberg)
Não vou mentir: loquei este filme já esperando pelo pior, graças à falta de referências, ao diretor desconhecido (esse é seu primeiro e até agora único trabalho) e à própria capinha do filme. Tudo isso me fez imaginar que Mel Gibson havia despencado para o inferno do "direct to DVD" junto com outros astros da sua época. (Depois descobri que "Plano de Fuga" chegou a ser lançado nos cinemas também aqui no Brasil, mas passou totalmente em branco). Não sei se foi por causa da minha baixa expectativa, mas o resultado não poderia ser mais surpreendente. E, ao que parece, a idade está fazendo bem ao eterno Mad Max: quanto mais velho, mais filhas-da-puta são os personagens que ele interpreta, a exemplo do que demonstrou no anterior "O Fim da Escuridão" (2010). Aqui Gibson encarna um ladrão sem escrúpulos e sem nome (creditado apenas como "Driver", ou Motorista), que acaba indo parar numa cadeia barra-pesada no México depois de uma fuga frustrada. Lá dentro, precisa ser mais casca-grossa que os seus colegas de contravenção para conseguir sobreviver. Ou seja: Gibson vai na contramão daquele bom-mocismo típico dos heróis ianques em situações parecidas (tipo, digamos, Stallone em "Condenação Brutal"). Ele não é um bandido em busca da redenção ou querendo se regenerar, mas apenas um filha-da-puta capaz de tudo para se dar bem e, quem sabe, fugir para aproveitar a renda do seu último roubo. Por isso, "Plano de Fuga" não é para todos os paladares: de crianças fumando a tiroteios que deixam dezenas de vítimas por balas perdidas, o filme foge o tempo todo do "politicamente correto" que infesta Hollywood há anos, e entrega uma aventura suja, violenta e com humor negríssimo, não recomendada a moleques de shopping center ou fãs de filmes com lição de moral e heróis sem defeitos. Só a cena em que Mel faz-se passar por Clint Eastwood já vale os 90 minutos da obra, mas ainda tem uma rápida participação especial do "luchador" Blue Demon Jr. e muitas outras surpresas! Tudo isso me deixou ansioso para ver o que o malucão australiano fará como vilão em "Machete Kills", produção para a qual eu não dava nem 10 centavos até lembrar que Mel Gibson estará nela!


CAÇA AOS GÂNGSTERES (Gangster Squad, 2013, EUA. Dir: Ruben Fleischer)
Curto e grosso: "Caça aos Gângsteres" é ou uma refilmagem não-declarada, ou uma cópia bem sem-vergonha de "Os Intocáveis" (1987), de Brian DePalma. O vilão Mickey Cohen, interpretado por Sean Penn, é o Al Capone de Robert DeNiro, e o Sargento O'Mara, interpretado por Josh Brolin, é o Eliott Ness de Kevin Costner. Em ambos os filmes, os heróis são policiais incorruptíveis com esposa grávida e que recebem a missão de criar um esquadrão com outros oficiais acima de qualquer suspeita para combater os bandidos que dominaram a cidade (Los Angeles aqui, Chicago em "Os Intocáveis"). Até mesmo os "intocáveis" de O'Mara são cópias-xerox: Ryan Gosling é Andy Garcia, o veterano durão interpretado por Robert Patrick é Sean Connery, e o bunda-mole interpretado por Giovanni Ribisi é o bunda-mole interpretado por Charles Martin Smith lá em 1987 (e com mais dois personagens novos, um negro e outro mexicano, que devem ter entrado graças ao sistema de cotas). A cópia é tão descarada que até mesmo os heróis que morrem ao longo da aventura são os mesmos cujas contrapartes morreram em "Os Intocáveis"! Aí, lá pelas tantas, Brolin leva a esposa para uma estação de trem, e eu jurava que teríamos um tiroteio em câmera lenta pelas escadarias do lugar, tipo a famosa cena do filme do DePalma (tá, dessa vez não teve, mas em compensação tem um tiroteio com câmera lentíssima no final). Por tudo isso, "Caça aos Gângsteres" soará tão redundante e descartável para quem já viu "Os Intocáveis" que é melhor evitá-lo. E mesmo analisado como filme "independente", não passa do mediano: o vilão de Penn é vergonhosamente caricatural, o herói de Brolin é inexpressivo, e o personagem de Ryan Gosling passa pelo filme dando seus famosos sorrisinhos, mas sem que saibamos absolutamente nada sobre quem ele é ou porque age daquela maneira. Há também furos constrangedores no roteiro, como quando Gosling sai com a amante do vilão de um restaurante lotado e ninguém vê, nem sequer o próprio bandidão percebe a ausência da garota, que só volta para casa no dia seguinte! O diretor Ruben Fleischer até começa bem, com bastante violência e cenas de ação bem dirigidas (em especial uma pancadaria com tiroteio dentro de um elevador). Mas logo esquece que deveria contar uma história para entregar-se às firulas, como já havia feito em "Zombieland" (a bola de Natal explodida em câmera lenta por um tiro é digno dos piores momentos do firuleiro Zack Snyder). Menos mal que o desfecho dá ao herói a chance de quebrar a cara do vilão, algo que não aconteceu no caso Eliott Ness x Al Capone em "Os Intocáveis". Se como passatempo até engana, fica difícil não lamentar o envolvimento de tanta gente talentosa num filme tão meia-boca. Como curiosidade, há uma participação especial de Carmen Miranda (interpretada por Yvette Tucker).


ROOM 237 (2012, EUA. Dir: Rodney Ascher)
Curiosa, mas de certa maneira decepcionante "multi-análise" sobre as diversas interpretações possíveis para o clássico "O Iluminado", dirigido por Stanley Kubrick em 1980. Como sou apaixonado por esta obra-prima do cinema de horror, achei interessantíssima a proposta do documentário de esmiuçar o filme de Kubrick em busca de possíveis significados e mensagens ocultas. Só que o resultado final do trabalho é de um amadorismo acachapante. Por exemplo, um montão de gente fala e dá sua análise pessoal sobre a obra, mas em nenhum momento o documentário se preocupa em identificar os analistas ou explicar porque exatamente eles estão sendo entrevistados. Ao mesmo tempo, algumas informações bem curiosas sobre o filme de Kubrick (a repetição do número 42, os misteriosos erros de continuidade que parecem propositais) acabam perdidas no meio de uma tonelada de abobrinhas (um dos "analistas" chega a enxergar uma inexistente face de Kubrick desenhada nas nuvens na cena da abertura do filme!!!) e "teorias da conspiração" simplesmente estapafúrdias, como quando um dos anônimos entrevistados tenta criar uma relação super-ultra-hiper vaga entre "O Iluminado" e a Segunda Guerra Mundial. Às vezes, "Room 237" parece menos um documentário sério e mais uma conversa de bêbados no boteco, cada um querendo chamar mais a atenção para o seu argumento esdrúxulo, arruinando qualquer possibilidade de que isso possa ser encarado como um estudo verossímil sobre "O Iluminado". Até porque os sujeitos falam, falam, falam e não chegam a lugar nenhum - a teoria de que "O Iluminado" esconde a confissão de Kubrick de que teria "dirigido" a falsa chegada do homem à Lua, por exemplo, está muito melhor embasada num documentário amador chamado "The Shining Code", disponível no YouTube. Para piorar, "Room 237" também passa batido em vários detalhes muito legais do filme (como o uso das cores e espelhos em cenas-chave) para dar voz às análises fantasiosas dos pretensos especialistas. O resultado pode até ser legalzinho para cinéfilos e fãs da obra, mas não traz nada de novo sobre os "mistérios" do filme de Kubrick, nem se preocupa em explicá-los devidamente. Entretanto, é bem melhor que um outro documentário sobre o mundo do cinema chamado...


DIRECTED BY ALAN SMITHEE (2002, EUA. Dir: Lesli Klainberg)
Quando um assunto interessante cai em mãos despreparadas, o resultado é um documentário preguiçoso como esse "Directed by Alan Smithee", originalmente produzido para a televisão. Como todo mundo sabe, "Alan Smithee" é o nome fictício usado por diretores para assinar seus filmes quando eles acreditam que o trabalho foi comprometido por interferências externas (dos produtores, do astro, etc etc.). Existem dezenas de produções problemáticas creditadas ao inexistente Smithee, inclusive algumas originalmente dirigidas por gente talentosa, como John Frankenheimer e David Lynch. Mas ao invés de dar um panorama geral dessas obras turbulentas e explicar o porquê da opção dos realizadores pelo pseudônimo "Alan Smithee", a diretora do documentário preferiu partir para a fofoca pura e simples, gastando a maior parte do tempo com histórias de briguinhas entre diretores e astros em superproduções que nem sequer foram assinadas com o famoso nome falso (tipo o remake de "Shaft" e o "Missão Impossível" de Brian DePalma). Inclusive gasta-se um tempão precioso só com a história da briga do diretor inglês Tony Kaye com o astro (Edward Norton) e os produtores do seu filme "A Outra História Americana". Considerando que Kaye assinou o filme com seu próprio nome no corte final, é questionável o porquê dessa história ter sido abordada tão detalhadamente aqui - quando se encaixaria muito melhor como um extra no DVD do próprio "A Outra História Americana"! Somente dois filmes creditados ao fictício Smithee ("Morte de um Pistoleiro" e "Hollywood - Muito Além das Câmeras") são enfocados por Klainberg, e ambos bem superficialmente. Assim, quem quiser saber o que levou os verdadeiros diretores de produções como "Os Pássaros 2" (Rick Rosenthal) e "Hellraiser 4" (Kevin Yagher) a esconderem seus nomes atrás de "Alan Smithee" vai ter que pesquisar em outro lugar. Em resumo, uma decepção tão grande, como pesquisa e como desculpa para fazer um documentário, que a diretora deveria ter ela própria assinado como "Alana Smithee" para não passar vergonha!


RESIDENT EVIL 5 - RETRIBUIÇÃO (Resident Evil: Retribution, 2012, EUA. Dir: Paul W.S. Anderson)
O quinto filme (!!!) da franquia "Resident Evil" continua tendo pouca ou nenhuma relação com a trama dos jogos que deram o nome à série: a história segue de onde a Parte 4 parou, com o ataque da Umbrella Corporation ao navio em que Alice e seus amigos estavam, e revela que vários fatos mostrados nas aventuras anteriores na verdade aconteceram num laboratório gigantesco que simula grandes cidades do mundo (!!!), e não no "mundo real". Este toque meio "Matrix" não é mera coincidência, considerando que o diretor-roteirista Paul W.S. Anderson está imitando o filme dos Irmãos Wachowski (e suas lutinhas, e seus figurinos) desde o primeiro "Resident Evil" - pelo jeito ele foi o único que ainda não percebeu o quanto copiar "Matrix" é "demodê" nos dias atuais. Agora, o mais irônico desde quinto filme é constatar como sua estrutura e "narrativa" se aproximam muito mais de um game do que de cinema, e isso apesar de os realizadores terem optado por criar histórias independentes para os filmes ao invés de seguir a trama dos videogames. Praticamente não há roteiro, apenas uma sequência de desafios que os personagens devem seguir, passando por cenários diferentes (como se fossem fases), e enfrentando um "chefão de fim de fase" ou desafio mais cabeludo ao final de cada etapa. Não bastasse isso, todos os personagens principais têm clones, permitindo que morram e voltem sempre que necessário, o que lembra muito as vidas de um jogo de videogame - tipo Michelle Rodriguez, cuja personagem morreu no final do primeiro "Resident Evil", mas retorna aqui como clone; ou a própria Alice de Milla Jovovich, que já teve inúmeros clones assassinados ao longo da série e neste aqui mais uma vez. Pena que é o tipo de filme-pipoca para ver no cinema, porque os ótimos efeitos em 3-D perdem o impacto na telinha da TV ou na versão normal em duas dimensões. Tão bobo e esquecível quanto os episódios anteriores, vale pela 1h30min de ação estúpida e sem enrolação. Já para fãs de filmes de mortos-vivos, fica o aviso: este tem ainda menos zumbis que os anteriores. E a conclusão deixa as portas literalmente escancaradas para "Resident Evil 6", a prometida conclusão da "saga" (já não era sem tempo!).


A CASA DE TOLERÂNCIA (The Seasoning House, 2012, Reino Unido. Dir: Paul Hyett)
A estreia do técnico de efeitos especiais Hyett na direção tem a força de um soco no estômago do espectador - a mesma sensação que produções como "A Centopeia Humana 2" e "A Serbian Film" buscaram, mas caindo na vala comum do exagero e da escatologia, tornando-se inclusive involuntariamente engraçadas. Aqui é o contrário: embora não poupe o espectador mais sensível da sua cota de atrocidades e violência gráfica, o diretor nunca se rende ao escatológico nem ao gratuito; em vários momentos até se percebe que ele poderia ter passado dos limites (e fanfarrões tipo Tom Six ou Spasojevic certamente o fariam), mas prefere manter-se nos trilhos, buscando uma abordagem mais séria e realista. O próprio tema já é pesado: o filme trata dos puteiros improvisados para militares durante a Guerra dos Balcãs, quando jovens eram sequestradas e mantidas à força nas tais "casas de tolerância" para serem brutalmente estupradas pelos soldados. Um diretor tipo Joe D'Amato ou Jess Franco iria deitar e rolar com o mesmo argumento, mas Hyett preferiu uma abordagem menos sensacionalista, ou "exploitation". As cenas de estupro não são tão gráficas, e a quantidade de nudez é mantida num mínimo necessário para a trama fazer sentido. Assim, o foco recai sobre uma garota muda que atua como enfermeira no lugar, tratando (e drogando) as garotas para que elas possam sobreviver ao abuso de cada dia. A protagonista cria um elo de amizade com uma das internas, e lentamente a trama se encaminha para a tradicional vingança pelas próprias mãos. Embora busque uma abordagem positiva sobre um tema tão pesado (a relação de amizade que surge num lugar onde não existe esperança, apenas podridão), "A Casa de Tolerância" tem vários momentos de embrulhar o estômago, e pelo menos uma cena de violência que coloca o "Serbian Film" inteiro no chinelo, quando um truculento soldado é esfaqueado e demora um tempão para morrer. Muitos elementos lembram "Thriller - A Cruel Picture", que, em comum com este, tem a menina muda forçada a se prostituir e sua busca por vingança. Mas a abordagem é bem diferente, mais centrada no jogo de gato e rato entre a protagonista e seus perseguidores, com momentos bastante claustrofóbicos no interior das paredes do casarão. O resultado é um filmaço, e não só tecnicamente (o elenco também está fantástico). Vale a pena ficar de olho nos próximos trabalhos de Hyett.


SE BEBER, NÃO CASE! PARTE 3 (The Hangover Part III, 2013, EUA. Dir: Todd Phillips)
É possível que o diretor Todd Phillips tenha ficado chateado com as críticas que diziam que "Se Beber, Não Case! Parte 2" era uma refilmagem mal-disfarçada do original. Sua resposta foi um terceiro filme com tom completamente diferente dos outros dois, e que, ao contrário dos títulos original e brasileiro, não traz ressaca, bebedeira e nem festa de casamento (quer dizer, somente numa cena rápida durante os créditos finais). A coragem do diretor é louvável, principalmente porque piada repetida nem sempre funciona. Por outro lado, Phillips deu um tiro no pé ao centrar o foco deste terceiro (e último?) filme justamente nos personagens mais insuportáveis dos outros dois, o gordinho bobalhão interpretado por Zach Galifianakis e o bandidão oriental Mr. Chow (Ken Jeong). O primeiro era engraçado roubando cenas como coadjuvante, mas não consegue segurar um filme inteiro tendo os holofotes o tempo todo sobre ele; o segundo nunca foi engraçado (talvez apenas para o diretor Phillips), nem mesmo quando aparecia pouco. A trama do novo filme começa mostrando a fuga de Chow da prisão (para onde ele tinha sido enviado no final da Parte 2), e depois arruma uma desculpa esfarrapada para reunir os amigos trapalhões das aventuras anteriores e então colocá-los no encalço do criminoso foragido. No percurso, faltam momentos realmente engraçados e sobram risadas amarelas. A coisa começa a melhorar na meia hora final, quando todos os personagens retornam para a Las Vegas do primeiro filme, mas sem conseguir criar nada tão caótico ou surreal quanto o que já foi mostrado nas duas histórias anteriores (se fosse que comparar com outra trilogia cômica cuja terceira parte decaiu monstruosamente, então este aqui seria o "Porky's Contra-Ataca" da série "The Hangover"!). O original era engraçado por mostrar personagens adultos em trapalhadas e aventuras eróticas que geralmente são exclusividade de adolescentes nesse tipo de comédia, e o segundo seguiu mais ou menos esta mesma linha. Já "Se Beber, Não Case! Parte 3" tenta uma abordagem totalmente diferente que raras vezes funciona, chegando a lembrar mais aqueles filmes de ação que Shane Black escrevia nos anos 80-90. E considerando que a parte mais engraçada é justamente a tal cena depois dos créditos, que remete aos "apagões" retratados nos outros filmes, talvez fosse melhor ouvir a mesma piada pela terceira vez...


A EXPERIÊNCIA 2 - A MUTAÇÃO (Species II, 1998, EUA. Dir: Peter Medak)
Demolida pelos críticos na época do seu lançamento, esta sequência do razoável "A Experiência" é a prova de que certos argumentos e ideias deviam ficar restritos ao cinema classe B. Afinal, como levar a sério a trama do astronauta que vai a Marte, é contaminado por um organismo alienígena, se transforma num monstrengo mutante e, de volta à Terra, sai comendo (no sentido sexual) e matando toda mulher que cruza seu caminho? Digamos que produtores como Roger Corman e Charles Band iriam deitar e rolar (sem malícia) com o mesmo argumento - já imaginou Stuart Gordon filmando esse roteiro com monstros feitos pela mesma equipe de "Do Além"? Infelizmente, com tratamento de superprodução de Hollywood, o roteiro trashão perde a maior parte da graça, pois todos, do diretor Medak ao elenco, estão levando um absurdo desses a sério! O único consciente da bomba em que está é Michael Madsen, herói do primeiro filme trazido de volta para caçar mais um alien à solta, e que passa o tempo todo soltando piadinhas infames, como se quisesse piscar um olho para o espectador. A bela Natasha Henstridge, que interpretara a alienígena assassina no original, também volta à carga, aqui como um clone da monstrenga - e nem pergunte porque os cientistas seriam tão idiotas a ponto de criar um clone da criatura que quase destruiu o mundo no filme anterior. O desfecho inclui uma inacreditável cena de sexo entre os dois monstros extraterrestres, mas, novamente, esse é o tipo de coisa que não faz sentido fora de uma produção classe B ou C (até porque o excesso de efeitos em computação gráfica, nesse caso computação gráfica já ultrapassada, incomoda bastante). No cômputo geral, "A Experiência 2" é absurdamente ruim quando visto numa sessão particular, mas deve se tornar muito engraçado numa revisão com amigos cinéfilos, onde todos poderão rir muito da quantidade de furos e baboseiras do filme. Sem contar que é uma bela oportunidade para ver atores "sérios", tipo James Cromwell, pagando o maior micão. Teve mais dois sequências, feitas direto para o mercado de vídeo, e que eu não tenho o menor interesse em conhecer.


CARTA PARA A MORTE (The Gravedancers, 2006, EUA. Dir: Mike Mendez)
"The Gravedancers" ("Os Dançarinos de Túmulos" em tradução literal, e, acredite, o título faz bem mais sentido do que este que foi adotado no Brasil) é um pequeno horror independente com uma daquelas ideias tão originais, e ao mesmo tempo tão simples e eficientes, que é de se admirar que ninguém nunca tenha pensado nisso antes. Após um funeral, três amigos resolvem fazer uma noite de bebedeira no cemitério e, no auge do festerê, dançam sobre alguns túmulos. A partir disso, começam a ser aterrorizados pelos espíritos dos ocupantes daquelas sepulturas (tipo os nossos populares "encostos"). E os três fantasmas em questão pertencem a finados que não tinham um histórico muito positivo em vida - um garoto piromaníaco, uma mulher que matou o marido a machadadas e um assassino-estuprador -, o que garantirá que a experiência seja bem tortuosa para os nossos protagonistas. O diretor-roteirista Mendez começa com o que parece um típico filme de casa assombrada (incluindo portas que abrem de repente, ruídos esquisitos e pianos que tocam sozinhos), até subverter esses clichês do gênero ao revelar que não são as casas, mas sim os personagens que estão sendo assombrados, e isso acontecerá em qualquer lugar para onde tentem fugir! O resultado é um terror à moda antiga, que em certos momentos lembra muito o que os japoneses estavam fazendo nesse gênero na mesma época - uma sensação reforçada pelos rostos das assombrações, que são apavorantes, mas criados com efeitos práticos e maquiagem, e não computação gráfica. Há vários momentos arrepiantes (tipo quando um dos protagonistas descobre a verdade sobre quem está deitado ao seu lado na cama), boas doses de humor negro e até alguns sustos de pular da poltrona. Embora tenha sido feito sete anos antes, o clima geral lembra o recente e badalado "Invocação do Mal"; por coincidência, lá pelas tantas os jovens assombrados resolvem pedir a ajuda de uma dupla de investigadores do sobrenatural (um deles interpretado por Tchéky Karyo), o que deixa a história ainda mais parecida com a da obra de James Wan. E embora Mendez dê umas leves derrapadas na parte final, quando o filme vira uma espécie de comédia de ação dirigida por Sam Raimi, "The Gravedancers" merecia ser mais conhecido pelos fãs do gênero (até porque é melhor e mais eficiente que todos os "Atividade Paranormal" juntos). Ironicamente, Mike Mendez só voltaria a dirigir outro filme em 2013, uma bobagem divertidíssima chamada...


BIG ASS SPIDER! (2013, EUA. Dir: Mike Mendez)
Recomendo "Big Ass Spider!" (título genial!) para qualquer fã de filmes com monstros gigantes que queira se desintoxicar depois de anos vendo essas bobajadas produzidas pelo Canal SyFy ou pela The Asylum, tipo "Sharktopus" ou "Sharknado". Isso porque, diferente das bombas citadas, essa nova produção de Mike Mendez jamais se leva a sério e pende muito mais para o lado da avacalhação e da comédia de humor negro, enquanto a "concorrência" quebra a cara levando-se a sério demais. Não há muito que contar sobre a história: uma aranha mutante alienígena foge de um laboratório de pesquisas do Exército e é perseguida por Alex, um exterminador de insetos em busca da fama, e José, um imigrante mexicano que trabalha como segurança num hospital, e se torna parceiro do protagonista por acidente. Enquanto isso, a aranha mutante vai crescendo a cada nova vítima, até se transformar numa ameaça gigantesca que escala prédios, no mesmo nível de um King Kong aracnídeo! Só pelo fato de ir na contramão da "seriedade" dos filmes baratos sobre animais gigantes, "Big Ass Spider!" já valeria a assistida. Mas tem mais um ponto ao seu favor: a química da dupla Alex e José é incrível, e todas as cenas com os dois personagens são hilárias, algo inexistente nesses filmes do gênero. Tanto que, se alguém reeditar o filme excluindo Alex e José da trama, o que sobrar vai ser aquele típico material clichê e soporífero do SyFy Channel. Porque esses dois personagens são a verdadeira razão de ser do filme, e não a "aranha da bunda grande" do título, que é, no máximo, uma coadjuvante de luxo. Para coroar o clima geral de bobageira, eis que lá pelas tantas aparece em cena até o hilário presidente da Troma, Lloyd Kaufman, fazendo uma ponta! "Big Ass Spider!" é, portanto, o filme perfeito para uma Sessão da Tarde trash, além de fortemente recomendado para todos aqueles que também acham que filmes com monstros gigantes não deveriam se levar tão a sério. Quem sabe sirva de lição para os coiós responsáveis pelas atrocidades de SyFy/The Asylum. Fico só imaginando como "Sharknado" poderia ter ficado realmente divertido nas mãos de Mike Mendez - que, vejam só, sonha com novas aventuras para a dupla Alex e José num futuro próximo!


NOROI - THE CURSE (Noroi, 2005, Japão. Dir: Kôji Shiraishi)
Imagine se aqueles arrepiantes filmes de horror orientais, tipo "O Chamado" ou "Shutter", fossem filmados em estilo "falso documentário", com câmera na mão e longos takes sem cortes. Pois assim é "Noroi", uma enigmática e assustadora produção japonesa que investe com criatividade neste já desgastado formato narrativo. Antes que alguém possa resmungar "Não aguento mais filmes 'found footage'!", saiba que aqui o estilo realmente funciona e é usado com criatividade, e não para incomodar e enrolar o espectador, como fazem os produtos norte-americanos (tipo aquele engodo chamado "Atividade Paranormal"). O que vemos são imagens de um "documentário" gravado por um especialista em fenômenos sobrenaturais. Ele começa investigando o misterioso choro de bebê vindo de uma casa onde não mora nenhuma criança pequena. A partir desse ponto de partida relativamente simples, pessoas desaparecem misteriosamente, outras morrem, e o documentarista acaba se envolvendo numa trama complexa, cheia de pistas falsas, enigmas e acontecimentos horripilantes. A câmera na mão é bem utilizada, e trechos de programas de TV e noticiários também são costurados na edição, ajudando a explicar a história - e, principalmente, evitando aqueles longos períodos de enrolação em que nada acontece, tão comuns na série "Atividade Paranormal". O diretor Shiraishi é muito hábil em criar um clima de horror e de desgraça iminente desde as primeiras cenas. Pena que "Noroi" tenha alguns defeitos difíceis de relevar, como um chatíssimo alívio cômico (um médium meio maluco que vive coberto de papel-alumínio para se proteger dos ataques de "vermes ectoplásmicos"). Para quem gosta de horror japonês, imagens tipo a revelação da "filmagem noturna" na cena final já valem o filme; para quem não gosta, este é apenas mais um filme oriental a ser evitado.


PARKER (2013, EUA. Dir: Taylor Hackford)
Justamente quando eu pensava que Jason Statham se transformaria no novo galã da ação descerebrada direct to DVD, graças a filmes como "Os Mercenários" e "Carga Explosiva", eis que o sujeito surpreende estrelando dois filmes em que tenta fugir da alcunha de "brucutu do momento". Um é este "Parker", e o outro você pode ver logo abaixo. "Parker" é a terceira versão do mesmo livro de Donald E. Westlake que já tinha dado origem aos ótimos "À Queima-Roupa", com Lee Marvin, e "O Troco", com Mel Gibson. Ou seja: Statham estava pisando em terreno bem delicado. Mas ele se sai muito bem como o criminoso com código de honra que, após um grande assalto, é traído pelos comparsas, baleado e deixado para morrer, mas sobrevive e sai em busca de vingança. Muitos críticos torceram o nariz para a direção do irregular Taylor Hackford, que preferiu fazer um filme mais lento e climático, a exemplo daqueles policiais dos anos 1970, ao invés de colocar o galã Statham para esmurrar a fuça de alguém a cada dez minutos. Tudo bem que a duração de quase duas horas não se justifica, mas confesso que em nenhum momento olhei para o relógio; pelo contrário, o filme passou voando. A única coisa que realmente me incomodou foi a inclusão de Jennifer Lopez em papel descartável, uma corretora de imóveis xarope que se alia a Parker, mas, ao contrário do que reza a cartilha do gênero, sequer se envolve romanticamente com ele. Há alguns anti-clichês muito bem-vindos (um deles envolvendo o destino da namorada de Parker) e cenas de violência bem encenadas e brutais, sem aquela comicidade do cinema de ação moderno, com destaque para a luta entre Statham e um assassino profissional em seu quarto de hotel. Quando os créditos finais começarem a subir, você vai perceber que já viu "Parker" antes, uma porção de vezes e de uma porção de outras maneiras. Mesmo assim, dificilmente irá se lamentar pelo tempo perdido.


REDENÇÃO (Redemption, 2013, EUA/Reino Unido. Dir: Steven Knight)
Mais até que "Parker", esta é uma bela surpresa na carreira de "herói de ação" de Jason Statham. Quem espera vê-lo arrebentando fuças vai se decepcionar, já que o foco de "Redenção" é mais no drama e na transformação do personagem vivido pelo astro do que na ação e na pancadaria. Statham interpreta (isso mesmo, INTERPRETA) um soldado das Forças Especiais que vive escondido como mendigo, pois é procurado por crimes de guerra no Afeganistão. Um dia, enquanto foge de traficantes que querem quebrar sua cara, ele se esconde no interior da cobertura de um fotógrafo ricaço. Logo, resolve usar o local como "porto seguro", pegando emprestado não apenas o apartamento, mas também as roupas, o dinheiro e a própria vida do dono do imóvel, ganhando ele próprio uma segunda chance para fazer a coisa certa - a "redenção" anunciada no título. Mas não fica só nisso: o roteiro do próprio diretor Knight (que antes havia escrito "Senhores do Crime", do Cronenberg) segue surpreendendo o espectador a cada virada, adicionando inúmeros elementos, como o improvável romance com uma freira (!!!) e a caçada a um serial killer de prostitutas. Ainda que alguns desses elementos não convençam (a explicação sobre um certo crime no passado da freira é completamente desnecessária), é incrível como um filme com tantas idas e vindas, voltas e reviravoltas funcione tão bem, tornando imprevisível e inesperada a odisseia de redenção do protagonista. E você sabe que está vendo algo especial quando se compadece do personagem de Statham, aqui demonstrando que pode ser um ator convincente num raro papel sério e complexo. É uma pena que "Redenção" dificilmente encontrará o seu público, pois os fãs de Statham vão torcer o nariz para a falta de ação, enquanto o tipo de espectador que poderia apreciar a obra não vai querer ver justamente pelo nome do astro na capa e pela promessa de mais um filme de ação descerebrado.


ASSASSINO A PREÇO FIXO (The Mechanic, 2011, EUA. Dir: Simon West)
Para não dizerem que só enchi a bola do Jason Statham nas duas resenhas acima, deixo também uma meia dúzia de linhas (talvez mais) sobre este pavoroso remake do filme "The Mechanic", em que o careca mal-encarado assumiu um papel anteriormente feito com toda finésse pelo mito Charles Bronson (você pode ler minha resenha sobre o original clicando aqui). Por sinal, comparar original e remake apenas comprova como o cinema de ação ficou mais burro e covarde num período de 40 anos: tudo que o "Assassino a Preço Fixo" das antigas tinha de sutil, inteligente e ousado, esse novo tem de brucutu, imbecil e genérico. Começa que o matador profissional frio e calculista interpretado por Bronson não fazia juízo de valor, apenas "realizava os trabalhos", enquanto o remake prefere deixar bem claro que Statham só mata gente "malvada", tipo o líder de um cartel das drogas ou um famoso pregador religioso acusado de pedofilia. A química muito suspeita entre o matador e seu pupilo no filme de 1972 aqui foi reduzida a um simples "parceiros do crime". Mas a cereja do bolo é a reviravolta forçada no ato final, quando se descobre que Statham foi traído pela própria organização - e lá vai ele dar o troco nos poderosos empregadores, numa disparatada missão de vingança! Tudo bem, o leitor pode argumentar que eu deveria ver este novo "Assassino a Preço Fixo" como filme independente, sem comparar tanto com o original. Embora eu não concorde com isso (se é refilmagem, é claro que vai ser comparada com o original!), confesso que até tentei relaxar e ver essa bomba como um simples filme de ação genérico. Só que aí a coisa piora: as cenas de ação são ruins, o roteiro é fraquíssimo e as reviravoltas forçadas (como o herói encontrar, sem mais nem menos, um personagem que julgava estar morto) tomam o espectador por completo imbecil. Sem contar que eles jamais teriam coragem de manter aquela conclusão irônica do filme original, não é? O resultado é patético, como filme e como refilmagem, e nem mesmo as patadas de Jason Statham são capazes de salvar o espetáculo. Charles Bronson deve ter se revirado no túmulo.


CHILDREN OF THE CORN: GENESIS (2011, EUA. Dir: Joel Soisson)
Duas perguntas me assombravam enquanto eu me entregava à tortuosa tarefa de assistir ao OITAVO episódio da franquia "Colheita Maldita" (ou nono, se contarmos também o remake de 2009): por que diabos continuam fazendo novos "Colheita Maldita" em pleno século 21 e, principalmente, por que diabos eu continuo assistindo essas merdas? Não sei exatamente que tipo de público os realizadores dessas presepadas estão querendo atingir, já que o original saiu em 1984 e a última sequência até então foi feita uma década antes, em 2001 - ou seja, duvido que alguém ainda esteja acompanhando a série além do imbecil aqui. Seja como for, "Genesis" tenta se distanciar dos episódios anteriores e contar uma história original, com pouca ou nenhuma relação com o conto de Stephen King que deu origem à franquia. Tão diferente, diga-se de passagem, que sequer traz as "crianças do milharal" do título em inglês; aliás, sequer tem um milharal na trama! O roteiro do próprio diretor Joel Soisson até começa bem, na década de 1970, quando um soldado volta do Vietnã para sua cidade-natal, Gatlin, justamente no dia do massacre dos adultos pelas crianças do lugar. Mas logo a narativa dá um salto no tempo e a qualidade despenca: a trama principal acompanha um jovem casal cujo carro quebra bem no meio do nada (óbvio!). Quando parece que eles vão parar na tal cidadezinha onde as crianças exterminaram todos os adultos, como geralmente acontecia nos filmes anteriores, eis que os personagens cometem a burrada de ir até a casa de... Billy Drago! A partir de então, só os espectadores muito pacientes aguentarão o tranco sem desistir do filme, já que Soisson estica seu fiapo de história até não poder mais (com direito a loooooongos takes de andanças sem rumo pela escuridão). Ah, e sem crianças assassinas armadas com foices e nem milharais; a história "original" contada aqui envolve um molequinho com poderes malignos, mais para "A Profecia" do que para "Colheita Maldita". Mesmo que o filme seja ruim de doer, vale anotar o nome da atriz principal gatinha, Kelen Coleman, pois ela pode virar estrela num futuro próximo. Afinal, Naomi Watts, Eva Mendes e até Charlize Theron começaram sua carreira em filmes da série "Colheita Maldita"!


7 CAIXAS (7 Cajas, 2012, Paraguai. Dir: Juan Carlos Maneglia e Tana Schembori)
Todo cineasta brasileiro deveria ser obrigado a assistir "7 Caixas", pequena obra-prima produzida num país com pouca tradição cinematográfica (o Paraguai), e que mesmo assim ensina nossos diretores tupiniquins como contar uma história sobre personagens miseráveis e marginalizados sem soar pretensioso, chato e muito menos "socialmente engajado". Com inspiração declarada no nosso "Cidade de Deus" (e elementos que lembram uma cacetada de outras produções, de "Corra, Lola, Corra" aos Irmãos Coen), a trama se passa no Mercado Público do Paraguai, onde um jovem carreteiro é contratado por pessoas muito suspeitas para transportar sete caixas de conteúdo misterioso. Ao longo do filme, estas caixas serão disputadas por diferentes personagens - de carreteiros rivais à polícia. Contar mais é estragar as muitas e boas surpresas que o espectador terá ao longo do filme. História, cenários e personagens poderiam ser facilmente transportados para o Brasil. A diferença é que os diretores Juan Carlos e Tana não estão interessados em dar chatíssimos discursos socio-políticos, nem em ser introspectivos e reflexivos em relação à miséria, como os nossos cineastas. Eles preferem emular sucessos de Hollywood (sem a menor vergonha disso), criando uma eficiente montanha-russa de emoções que incluem perseguições, tiroteios e a investigação do conteúdo das caixas, além de toques de humor muito bem-vindos envolvendo a polícia corrupta e a tecnologia dos primeiros telefones celulares com câmera. O roteiro é redondinho, dá um jeito de relacionar todos os personagens (inclusive os secundários), e deixa todas as explicações para o final, sem tratar o espectador como débil-mental e dar-lhe tudo de mão beijada (e sem ser previsível em momento algum). As cenas de ação também funcionam, e parecem ainda melhores quando o diretor Juan Carlos explica as dificuldades que tiveram para filmar, já que usaram o verdadeiro mercado paraguaio e filmaram diversas cenas com câmeras escondidas, sem avisar a multidão sobre o que estava acontecendo. Mas na tela não se vê nenhum improviso: "7 Caixas" é cinema da mais alta qualidade, disparado o melhor filme que vi em 2013 até agora. Não se espante se Juan Carlos Maneglia e Tana Schembori forem "importados" para Hollywood em breve. Enquanto isso, no Brasil...


ROLLING KANSAS (2003, EUA. Dir: Thomas Haden Church)
Esqueça as aventuras de Cheech & Chong e o recente "Segurando as Pontas": esta aqui é uma surpreendente comédia sobre maconha para "caretas", mais um "road movie" sobre a amizade (no estilo de "Fandango", de Kevin Reynolds, um dos meus filmes preferidos) do que uma apologia escancarada ao uso da droga. A história acompanha cinco amigos bocós que atravessam o país de carro em busca de uma lendária plantação de maconha que teria sido cultivada pelo Governo Americano nos anos 1960. Embora fique bem claro que os rapazes são chegados no cigarrinho-do-diabo, eles raramente aparecem sob efeito de maconha, ou mesmo fumando um baseado. Mas isso não faz com que o filme seja pior. Pelo contrário, é o extremo oposto daquelas comédias debilóides que mostram usuários de maconha como completos retardados mentais, tipo os filmes de Harold & Kumar. Eu até diria que "Rolling Kansas" é uma versão juvenil de "Sideways", com a erva maldita no lugar do vinho, mais centrado nas aventuras dos jovens em sua jornada e em como isso fortalece a amizade entre eles - bem melhor do que ver, pela centésima vez, um bando de zé-manés fazendo patetadas enquanto estão chapados. A comparação com "Sideways" não é gratuita: um dos atores principais do filme de Alexander Payne, Thomas Haden Church, aqui assumiu as funções de diretor (seu único trabalho até hoje), co-roteirista e ainda interpretou dois personagens (!!!), comprovando que este é um projeto bem pessoal e que ele levou muito a sério. O resultado é uma comédia diferente, com uma visão humanizada dos maconheiros, mas infelizmente pouco conhecida, e que vale a pena descobrir.


MAKING-OFF SANGRENTO (Making off Sangriento: Masacre en el Set de Filmación, 2012, Argentina. Dir: Gonzalo e Hernán Quintana)
Embora não seja tão original na proposta (é a milésima sátira aos filmes slasher), esta engraçada produção vinda da Argentina acerta no alvo com seu clima geral de porra-louquice e alguns momentos inspiradíssimos. Produzida, dirigida e escrita pelos Irmãos Quintana (um deles também aparece como ator), conta a história de um grupo de estudantes de cinema que precisam fazer um filme de horror em pouquíssimo tempo e com pouquíssimo dinheiro, e acabam contratando (sem saber) um serial killer verdadeiro para "interpretar" o assassino da obra! É claro que o vilão fará a festa, eliminando os intragáveis personagens baseados naquele estereótipo de estudante de cinema chato e pretensioso (o que torna as mortes ainda mais "agradáveis" de se ver). Um dos diretores, Hernán, está fantástico no filme, justamente satirizando aqueles diretores cult-mequetrefes que saem às dúzias das faculdades de cinema; e a justificativa dos crimes do assassino é simplesmente hilária. O filme tem ainda uma participação bastante curiosa de Valentín Javier Diment como um policial truculento chamado Caligari (e como co-roteirista); pois Valentín também é cineasta, e dirigiu o ótimo horror argentino "A Memória do Morto". Apesar de vários bons momentos, e de algumas garotas peladas, "Making-Off Sangrento" fica devendo no quesito "criatividade das mortes", pois, tirando uma ou outra mais elaborada, o vilão acaba despachando quase todas as suas vítimas com facadas pouco originais, em efeitos qualquer nota. Nesse departamento, os Irmãos Quintana perdem feio para o excelente "Massacre Esta Noite", outro horror auto-paródico vindo da Argentina e assinado pelos irmãos Adrián e Ramiro García Bogliano. Mas a diversão é garantida - especialmente por sacanear com o universo dos estudantes de cinema!


A MALDIÇÃO DA CAVEIRA (The Skull, 1965, Reino Unido. Dir: Freddie Francis)
Nostálgica produção da Amicus (que era considerada "a Hammer dos pobres"), esta é uma daquelas obras com uma única ideia bem simples, e que fica enrolando essa única ideia durante muito tempo. Trata de um colecionador de relíquias malditas (Peter Cushing) que adquire o crânio do lendário Marquês de Sade, e descobre, tarde demais, que a relíquia está possuída por um espírito maligno que força seus proprietários a matar. Óbvio que é preciso dar um desconto, por ser um terror de outra época e com a narrativa lenta típica daquela época. Neste caso específico, é o excesso de encheção de linguiça que incomoda, porque o diretor sequer consegue criar um clima de medo, de horror ou de ameaça - e convenhamos que um crânio flutuante não é o mais assustador dos monstros. Mesmo com a presença de lendas e/ou nomes conhecidos do horror britânico, como Cushing, Christopher Lee, Patrick Magee, Michael Gough e Patrick Wymark, a coisa se arrasta sonolenta até a conclusão previsível, sem conseguir criar momentos memoráveis ou mesmo relacionar decentemente o Marquês de Sade com a trama sobrenatural (fico imaginando o que um especialista em sexploitation, como Jess Franco, faria com o mesmo argumento). Na verdade, acho que este é um daqueles casos em que a ideia funcionaria muito melhor como historinha curta numa das antologias de episódios que a própria Amicus adorava produzir, tipo "A Casa que Pingava Sangue" ou "Vozes do Além".


O EXÉRCITO DE FRANKENSTEIN (Frankenstein's Army, 2013, Holanda/EUA/República Checa. Dir: Richard Raaphorst)
Durante anos, o diretor Raaphorst tentou tirar do papel um ambicioso projeto sobre zumbis nazistas na Segunda Guerra Mundial chamado "Worst Case Scenario" (trailers ainda existem no YouTube e dão uma bela ideia do filmaço que poderia ter saído disso). Como o mundo é injusto, "Worst Case Scenario" não deu certo e Raaphorst descarregou sua frustração em "O Exército de Frankenstein", uma produção mais modesta, mas que recicla esta ideia de zumbis em plena Segunda Guerra. Tem muita coisa boa e muita coisa ruim no filme. A pior é a opção pelo estilo narrativo mais do que batido do "found footage", o que acarreta em incontáveis erros históricos (filme colorido, imagem em alta definição em widescreen e som direto em 1945?). No caso, um grupo de soldados russos acompanha um documentarista da União Soviética em plena Alemanha nazista em guerra. Pela câmera do sujeito é que os fatos se desenrolam. Os primeiros 20 minutos são pouco promissores, arrastados e sem trazer nada de muito emocionante. Mas aí, de repente, o grupo de soldados e seu câmera entram num infernal laboratório subterrâneo e o clima muda da água para o vinho, como se fosse outro filme. Incríveis monstros começam a pipocar de cada esquina, de cada canto escuro, numa mistura de zumbis e robôs, todos com aquele aspecto retrô da primeira metade do século 20. São criações de um descendente do Dr. Frankenstein, que está produzindo super-soldados com partes de cadáveres e a robótica primitiva do período. A partir daí, o filme não dá mais sossego para o espectador e vira um inferno de imagens e sons, com a "sutileza" de um elefante furioso dentro de uma loja de cristais. O clima lembra muito aqueles trem-fantasmas de parques de diversões: está tudo escuro, de repente a câmera dobra uma esquina e PIMBA!, surge um zumbi-robô do nada para dar o maior cagaço nos personagens e no espectador. A direção de arte é um show à parte, e só o design retrô dos monstrengos, cada um diferente do outro, já vale o filme inteiro. Mesmo longe de ser uma obra-prima, e com defeitos inegáveis (o início e o formato narrativo, por exemplo), "O Exército de Frankenstein" tem tudo para agradar fãs de horror com seus monstros criativos, bem diferentes dos zumbis-clichê do momento, e com as doses cavalares de ação e violência explícita da metade em diante. Sem contar que, vendo o filme, podemos ter uma boa ideia do que Raaphorst estava preparando para o seu (infelizmente) adiado "Worst Case Scenario"...


BUSCA IMPLACÁVEL 2 (Taken 2, 2012, França. Dir: Olivier Megaton)
A julgar por estes dois filmes da série "Taken", Liam Neeson perdeu a vergonha na cara e parece determinado a virar o Charles Bronson do século 21 (quase consigo imaginá-lo estrelando produções da Cannon Films, caso a produtora ainda existisse). Gosto muito do primeiro filme, que mostrava Neeson como um agente que sai da aposentadoria para caçar os sequestradores da filha em Paris. Esse segundo é mais do mesmo, mas infelizmente um mais do mesmo bem ruim. Tudo que funcionava no original não funciona uma segunda vez aqui, e a direção de Olivier Megaton (o mesmo cara que estragou a série "Carga Explosiva", com Jason Statham) entrega aquele típico caos de cortes rápidos e câmera tremendo, que não permite entender nenhuma das cenas de ação. O que é uma pena, porque o ponto de partida do filme é bem bolado: agora são os familiares dos vilões mortos por Neeson no original que voltam para dar o troco, o que passa aquela ideia do círculo de vingança sem fim. O herói e sua ex-esposa (Famke Janssen) são sequestrados quando estão passeando na Turquia, e sobra para a filha resgatada no primeiro filme salvar a pátria com a ajuda do pai. Se no original o herói avançava em suas investigações usando a inteligência e eventualmente a força bruta (com direito à tortura de um suspeito e até tiro na esposa de um amigo!), aqui só tem espaço para a força bruta. Mas, como a censura do filme é PG-13, somos privados até da truculência do primeiro filme. Para piorar, o roteiro parece ter sido escrito por uma criança de 12 anos, com inúmeras bobagens impossíveis de engolir. Com destaque para a cena em que a filha detona três granadas de mão (!!!) no topo de um edifício, em pleno centro de Istambul, para que Neeson possa localizá-la pelo som das explosões - e o irônico é que o herói consegue chegar até a garota, mas a polícia não! De idiotice em idiotice, e de uma cena de ação tremida à outra, é um verdadeiro alívio quando o filme termina. Mas, segundo o IMDB, o astro de 61 anos já está confirmado para "Busca Implacável 3". Esperemos que este pelo menos seja tão divertido quanto as bobagens que Charles Bronson fazia depois de velho.


O TESTAMENTO E ÚLTIMO DESEJO DE ROSALIND LEIGH (The Last Will and Testament of Rosalind Leigh, 2012, Canadá. Dir: Rodrigo Gudiño)
Um caso clássico de "muito enfeite para pouco conteúdo", e uma verdadeira prova de fogo para o espectador: o filme tem uma ideia simples que não se sustenta por mais de 15 ou 20 minutos (um rapaz que herda uma casa repleta de imagens sacras e potencialmente assombrada), mas que mesmo assim foi arrastada durante 1h20min. Percebe-se claramente que boa parte desses 80 minutos não passam de punheteação estética ou de encheção de linguiça (cenografia e direção de arte são realmente deslumbrantes, mas isso não justifica a duração). Duas cenas em particular são de chorar, de rir ou de raiva: a primeira mostra o protagonista passando por todo um procedimento burocrático com a empresa que administra as câmeras de vigilância de sua casa para checar a imagem que pode ser de uma assombração (o tempo perdido no contato com a empresa estraga qualquer suspense que a cena pode ter); a outra envolve uma sessão de terapia por telefone que acontece justamente num momento que deveria ser tenso (e eu me pergunto quem seria idiota o suficiente para ligar para a sua psiquiatra na iminência do ataque de uma criatura desconhecida, ao invés de sair correndo do recinto?). "O Testamento e Último Desejo de Rosalind Leigh" (reparem que até o título é longo e redundante!) ainda consegue a façanha de desperdiçar a veterana Vanessa Redgrave, que faz a personagem-título, e a ambientação sinistra da casa, com suas imagens religiosas espalhadas por toda parte. Como curta-metragem, poderia ter passado o recado de maneira muito mais eficiente; já como longa, é um engodo e um convite ao sono, com um desfecho medíocre que não justifica os 80 minutos de lenga-lenga. Ao que parece, o chatíssimo Ty West fez escola!


EU DECLARO GUERRA (I Declare War, 2012, Canadá. Dir: Jason Lapeyre e Robert Wilson)
Todo mundo que não foi "criança de apartamento" deve ter brincado de "polícia e ladrão" pelo menos uma vez na vida. E aposto que todos que o fizeram também tinham aquele amigo que representava seu papel (seja polícia, seja ladrão) com um pouquinho mais de dedicação do que devia. É mais ou menos esse o foco de "Eu Declaro Guerra", uma curiosa mistura de ideias tiradas do livro "O Senhor das Moscas" e dos filmes "Os Heróis Não Têm Idade" e "A Guerra dos Botões". A história acompanha um grupo de crianças que brinca de guerra numa floresta da vizinhança, divididas em dois exércitos cuja missão é conquistar a "base" dos rivais. Mas o que começa como uma brincadeira inocente logo evolui para um autêntica guerra verdadeira, quando alguns dos garotos não conseguem separar brincadeira de realidade. Seguem-se traições, agressões e até a covarde tortura de "prisioneiros de guerra". Num toque bastante criativo, que lembra o citado "Os Heróis Não Têm Idade", vemos a maior parte da brincadeira pelo ponto de vista das crianças, cuja imaginação transforma pedaços de pau e bexigas cheias de água em armas de verdade! E há algo de sinistro em ver garotinhos levando metralhadoras, pistolas e até bazucas, principalmente nesses tempos de massacres em escolas. Embora mantenha-se num nível praticamente inofensivo, "Eu Declaro Guerra" não é exatamente um filme infantil, mas sim uma fábula sobre a guerra para adultos (certamente será bem nostálgico para a geração que ainda lembra como era bom ir brincar "lá fora", ao invés de passar o dia todo no computador ou videogame). Pena que a ideia é melhor no papel do que na prática: como o filme inteiro se passa na floresta e durante a brincadeira da molecada, o ritmo acaba caindo bastante da metade para o final, quando a guerrinha se torna repetitiva. Também faltou um pouco mais de coragem dos realizadores em relação ao argumento (não há nada sequer parecido com a crueldade infantil retratada em "O Senhor das Moscas", por exemplo). O resultado é um filme morno, mas que vale pela originalidade da proposta e principalmente pelas boas lembranças que trará aos marmanjos.


JONAH HEX - CAÇADOR DE RECOMPENSAS (Jonah Hex, 2010, EUA. Dir: Jimmy Hayward)
Se algum dia um professor de cinema quiser explicar aos seus alunos como TUDO pode dar errado numa adaptação de histórias em quadrinhos para o cinema, basta exibir "Jonah Hex". É muito difícil saber onde os produtores e realizadores dessa autêntica bomba atômica estavam com a cabeça. Afinal, qual é a lógica de pegar um personagem notoriamente violento (imagine Hex como o personagem de Clint Eastwood em "Por um Punhado de Dólares", só que dez vezes mais brutal e com metade da cara deformada) e fazer um filme PG-13 com o material? Será que os imbecis que dirigem os grandes estúdios realmente acreditavam que a molecada do século 21 iria ao cinema ver um western, e ainda mais um estrelado por um sujeito com a cara deformada? Provavelmente acreditavam, já que tentaram "infantilizar" ainda mais o negócio colocando Megan Fox, a estrelinha da molecada graças à franquia "Transformers", como PARCEIRA do herói (quando o mais perto disso que ele já teve nas HQs foi uma prostituta com o rosto mutilado à faca). E se já não estava bom o suficiente para descaracterizar a coisa toda, eis que os gênios ainda deram a Hex PODERES SOBRENATURAIS (ele agora pode ressuscitar os mortos para conversar com eles!!!), quando a melhor coisa do personagem nos quadrinhos é o fato de ele ser um caçador de recompensas valentão sem nenhum superpoder! Enfim, era a crônica de um desastre anunciado desde o começo, mas a adaptação ainda sofreu com todo tipo de problema, como um diretor inexpressivo contratado apenas para ser capacho do estúdio, mudanças desenfreadas no roteiro e até a refilmagem de algumas cenas na pós-produção para dar uma cara ainda mais "comercial" ao projeto todo. Nem vale a pena perder tempo falando sobre a história, já que o resultado é simplesmente abaixo da crítica e um verdadeiro micão para seu elenco estelar (Josh Brolin no papel-título, mais John Malkovich como vilão, Michael Fassbender e Aidan Quinn). O próprio Brolin chegou a dar entrevistas falando mal do filme depois do lançamento fracassado. Fez bem: mesmo com uma duração irrisória (80 minutos visivelmente cortados a facão), "Jonah Hex" é chato, arrastado, totalmente descaracterizado e com uma historinha clichê que sequer consegue envolver o espectador. Que sirva de lição: fazer um filme sobre Jonah Hex para a molecada é a mesma coisa que adaptar o game "Mortal Kombat" para o cinema sem os fatalities. Opa, mas espere aí... já fizeram isso TAMBÉM!!! Vale ressaltar, porém, que o roteiro original da dupla Mark Neveldine e Brian Taylor (os diretores dos dois "Adrenalina", com Jason Statham) era "Rated-R", e nem 20% dele chegou a ser filmado, como você pode ler clicando aqui.


A RAÇA HUMANA (The Human Race, 2013, EUA. Dir: Paul Hough)
Lembrando um tresloucado cruzamento entre "Battle Royale" e "Cubo" (!!!), este filme do inglês Paul Hough não perde muito tempo com explicações ou justificativas, e já começa jogando 80 personagens anônimos numa área desconhecida, onde eles serão forçados a participar de uma cruel maratona com um único objetivo (corra ou morra), e onde apenas um dos 80 irá sobreviver! Eles não sabem porque estão ali nem porque foram escolhidos, mas logo percebem que quem não entrar na brincadeira terá uma morte violenta - com direito a cabeça explodida por forças sobrenaturais! É uma pena que o título em inglês se perca na tradução, já que "human race" significa tanto "raça humana" quanto "corrida humana", e o filme lança um olhar bastante crítico sobre nossa sociedade. Por exemplo, existem algumas regrinhas que os competidores devem observar, tipo não pisar fora do caminho, e não demora para a face mais sórdida do ser humano aflorar, quando alguns espertinhos começam a eliminar seus concorrentes simplesmente jogando-os para fora da pista! Ao mesmo tempo, a maratona tem três áreas seguras que representam o ideal de segurança da nossa própria sociedade: uma escola, uma casa de classe média e uma prisão. O diretor-roteirista é filho do veterano John Hough, de "A Casa da Noite Eterna", e demonstra que não está para brincadeira: seu filme é um autêntico banho de sangue, que não poupa nem os personagens simpáticos, nem aqueles que parecem ser os protagonistas (há uma brincadeira muito divertida com isso, inclusive), e nem mesmo uma mulher grávida! Pena que, ao contrário de "Battle Royale" e "Cubo", as mortes logo se tornem repetitivas (geralmente com a explosão da cabeça da vítima). Mas o filme mantém um ritmo acelerado e tenso, sem nunca parar para dar grandes explicações sobre a corrida em si ou sobre os personagens. Recomenda-se apenas não levar a coisa muito a sério, pois o próprio desfecho da competição (e do filme) comprovam que Hough e cia. estavam com o "Foda-se!" ligado ao fazer o filme. Original, acelerado e sanguinolento, "The Human Race" é uma boa opção para quem acha que o gênero já não tem mais nenhuma história nova para contar.


VINGADOR (The Stranger, 2010, Canadá/EUA. Dir: Robert Lieberman)
O que você espera de um filme com a capinha acima e a presença do brucutu careca "Stone Cold" Steve Austin? No mínimo muita ação, tiros e cabeças rachadas ao meio a socos, confere? Bem, infelizmente os realizadores de "Vingador" estavam muito ocupados tentando fazer seu filme parecer "cool" para lembrar que ele deveria ser, antes de tudo, um veículo para transformar o ex-lutador de luta livre em um novo herói do cinema de ação. E o resultado é um filme que tenta lançar um novo herói de ação... sem ação!!! Austin interpreta um sujeito sem memória que viaja pelo país sendo perseguido pelo FBI, pela Máfia russa e pela sua psiquiatra gatinha. Acontece que o brucutu é uma espécie de Jason Bourne dos pobres, um super-agente que teve a memória apagada e agora não sabe quem é, embora passe o filme inteiro sendo bombardeado por fragmentos de flashbacks de sua vida pregressa (memórias da esposa e da filha). A primeira metade do filme limita-se a Austin fugindo ou apanhando; na segunda metade ele finalmente resolve dar o troco, mas não sobra mais tempo para muita coisa e as cenas de ação podem ser contadas nos dedos. Não há nada original, criativo ou digno de menção nos tiroteios e pancadarias, como se os envolvidos na produção não tivessem visto nenhum filme de ação desde, sei lá, 1985. O diretor Lieberman parece mais preocupado em esticar a trama para fechar um longa-metragem, e para isso repete OS MESMOS FLASHBACKS umas 200 vezes ao longo de 91 minutos. Austin teve melhor sorte como coadjuvante em "Os Mercenários", embora depois tenha estrelado mais algumas aventuras direto para o mercado de DVD que eu não tive a menor coragem de encarar depois dessa aqui. Mais recentemente, foi promovido a parceiro de luxo nas últimas aventuras de Steven Seagal e Dolph Lundgren. Aposto que mostrou muito mais serviço do que nesse seu filme solo.


TULPA (Tulpa - Perdizioni Mortali, 2012, Itália. Dir: Federico Zampaglione)
Um site gringo escreveu que este novo longa do rockstar italiano Zampaglione é um cruzamento de "Terror na Ópera" com "De Olhos Bem Fechados". Não faço a menor ideia do que foi que esse infeliz tomou antes de ir ao cinema, mas ele definitivamente não viu o mesmo filme que eu. Na verdade, "Tulpa" é um dos maiores abacaxis produzidos pelo cinema fantástico italiano desde a morte do "gênio" Bruno Mattei. A diferença é que as porqueiras de Mattei pelo menos eram divertidas, enquanto essa bobagem aqui é de estragar o dia de qualquer um. Zampaglione parece querer homenagear o ciclo dos filmes "giallo", contando a história de um assassino misterioso, com luvas de couro e tudo mais, que mata violentamente as pessoas ligadas a um clube de sexo para ricaços, onde os frequentadores dão asas às suas fantasias transando com desconhecidos. Só que o diretor deve ter se inspirado nos "giallos" errados: ao invés de imitar os bons lá dos anos 70, pegou como referência as bobagens que Dario Argento vem fazendo nos últimos tempos. "Tulpa" também se perde nessa subtrama erótica que não apenas é desinteressante, mas também uns 20 anos deslocada no tempo, já que lembra aqueles patéticos "erotic thrillers" produzidos às baciadas no início dos anos 90, logo depois do sucesso de "Instinto Selvagem". Por sinal, a fotografia qualquer nota e a música inexpressiva remetem diretamente às produções classe Z que eram exibidas na Sexta Sexy! Sobram, claro, os assassinatos violentíssimos, em que Zampaglione ora tenta criar algo criativo (tipo a vítima amarrada a um carrossel e forçada a passar raspando por arame farpado), ora copia na cara-dura tudo que já foi feito antes e melhor. Mesmo com uma mãozinha do veterano Dardano Sacchetti no argumento, "Tulpa" é tão ruim que, em alguns festivais onde foi exibido, o público ria escandalosamente nas horas erradas. Curioso é que o filme anterior de Zampaglione, "Shadow", era muito melhor e inclusive mais bem-feito. Teria sido apenas sorte de principiante, ou o rockstar italiano ainda irá nos surpreender no futuro?


COCKNEYS VS. ZOMBIES (2012, Reino Unido. Dir: Matthias Hoene)
Em meio aos incontáveis filmes independentes de zumbis produzidos todo ano, está cada vez mais difícil encontrar tramas originais, ou que pelo menos tentem fazer algo diferente de tudo que já foi feito antes e melhor. Esta comédia de horror dirigida por Matthias Hoene pelo menos se esforça para ser diferente: seus protagonistas são simpáticos velhinhos e velhinhas de um asilo de Londres, forçados a enfrentar os mortos-vivos que infestam a cidade com armas de grosso calibre, cadeiras-de-rodas e bengaladas (?!?). Geralmente, idosos são as primeiras vítimas nesse tipo de história, o que torna a resistência geriátrica do filme de Hoene ainda mais original. E com direito a momentos hilários que exploram a dificuldade dos coroas para lidar com os zumbis. Numa cena de rolar de rir, que também brinca com a modinha dos "zumbis velocistas", um idoso foge de um daqueles mortos super-lentos, que parecem se arrastar, usando um andador, o que limita bastante sua velocidade. Mesmo assim, ele olha desesperado para o zumbi que se aproxima e questiona, desesperado: "Por que eles são tão rápidos?". Infelizmente, o roteiro não centra seu foco na turma da terceira idade: há uma outra trama paralela em que os netos de alguns desses idosos tentam assaltar um banco para conseguir a grana necessária para evitar o fechamento do tal asilo. Mas essa não cola e nem tem a mesma criatividade e graça da outra, parecendo mais uma cópia fuleira dos filmes do Guy Ritchie que subitamente é invadida por zumbis. Não por acaso, o melhor em cena é o veterano Alan Ford, que apareceu em dois filmes de Ritchie ("Snatch" e "Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes"), aqui repetindo seu papel de coroa valentão e boca-suja. "Cockneys vs. Zombies" está mais para o também inglês "Shaun of the Dead" do que para os filmes de zumbis tradicionais, dando mais destaque para o humor, para os personagens e para a interação entre eles do que para os sangrentos ataques dos mortos-vivos (embora eles também existam). Perde um pouco sua força quando passa dos velhinhos para os ladrões de banco, mas ainda assim fica acima da média, nesses tempos tenebrosos em que filmes ruins com mortos-vivos são tão abundantes quanto os próprios monstros nessas produções.


SOLDADO UNIVERSAL 4 - JUÍZO FINAL (Universal Soldier: Day of Reckoning, 2012, EUA. Dir: John Hyams)
A nova incursão do diretor John Hyams na franquia "Soldado Universal" (ele também dirigiu a Parte 3) sofre do mesmo problema da anterior: é ambicioso demais para a aventura "direct-to-DVD" que se espera. Enquanto no anterior Hyams manteve os personagens centrais da série, Van Damme e Dolph Lundgren, como coadjuvantes de luxo até o ato final, neste quarto filme ele vai ainda mais longe e investe numa trama mirabolante envolvendo clones, memórias implantadas, conspirações e até citações escancaradas a "Apocalypse Now" e o livro que o inspirou, "O Coração das Trevas", de Joseph Conrad. Ou seja, algo muito mais sofisticado e profundo do que o típico festival de tiros e porradas da série. A trama agora acompanha um novo "soldado universal" (o astro do cinema B de ação Scott Adkins) em sua busca de vingança contra o vilão responsável pela chacina da sua família, que é ninguém menos que... Luc Deveraux (Van Damme), o herói dos outros três filmes da franquia! O resultado é uma produção híbrida que nem sempre funciona direito, com cenas de ação e pancadaria melhores do que qualquer coisa vista nos blockbusters de Hollywood nos últimos anos (tipo o falso plano-sequência na cena final), mas com uma trama desnecessariamente complicada e cheia de reviravoltas questionáveis, (SPOILER) que transforma o personagem de Van Damme em vilão, ou pelo menos manipula o herói para acreditar que ele é o vilão e matá-lo! (FIM DO SPOILER) Sem brincadeira, a trama é tão ambiciosa, confusa e deixada no ar sem explicações importantes, que tive que debater vários pontos com o Ronald Perrone, do blog Dementia 13, para ver se chegávamos a uma conclusão - e até hoje não tenho certeza se entendi direito o que aconteceu. Também não gostei do que fizeram com os personagens de Lundgren (ressuscitado pela segunda vez na série) e do próprio Van Damme, que foram completamente descaracterizados. Hyams ainda tem muito que aprender, já que seus dois "Soldado Universal" têm diversas cenas boas perdidas em roteiros caóticos e desconexos. Como escrevi acima sobre Todd Phillips e "Se Beber, Não Case! Parte 3", pode-se até elogiar a coragem do diretor por pegar um material qualquer nota e tentar transformá-lo em algo completamente diferente e mais ousado. Mas aprovar 100% o resultado final dessa ousadia... bem, aí são outros quinhentos. Acho que ainda prefiro a aventura anterior, mesmo com seus defeitos, do que esse "samba do Coronel Kurtz doido". E agora é esperar para ver o que Hyams vai aprontar em "Soldado Universal 5".


THE BATTERY (2012, EUA. Dir: Jeremy Gardner)
Num mundo dominado por mortos-vivos, não demora para que os dias comecem a ficar longos, arrastados e sem surpresas para as poucas pessoas ainda vivas. Que o digam Ben e Mickey, os amigos interpretados pelo próprio diretor Gardner e por Adam Cronheim nesta introspectiva história de zumbis "quase sem zumbis", que é uma boa surpresa neste subgênero. A dupla passa seus dias vagando pelas florestas do interior do país, evitando as cidades e procurando suprimentos e meios de transporte. Ben até se diverte matando os esporádicos mortos-vivos que encontram pelo caminho, mas a prioridade de ambos é sobreviver neste mundo devastado e, principalmente, não perder sua humanidade. Produzido com baixíssimo orçamento, "The Battery" dispensa aquelas cenas mais complexas envolvendo multidões de zumbis, ou mesmo grandes momentos de ação e violência, em prol de uma narrativa mais lenta e contemplativa, repleta de takes longos e cenas em que pouco ou nada acontece. Numa entrevista que fiz com o diretor, ele citou Terrence Malick como uma de suas inspirações. Guardadas as devidas proporções, o clima é parecido (e um dos pôsteres de "The Battery" até faz uma homenagem ao clássico de Malick "Terra de Ninguém"). Nem todos vão conseguir encarar o ritmo lento e introspectivo do filme, principalmente depois que os protagonistas têm sua mobilidade reduzida numa cena que não pode ser detalhada sem soltar Spoilers. Mas descontando alguns exageros (como a interminável cena de 11 minutos, em um único take sem cortes, do rosto de um dos personagens), é muito fácil simpatizar e deixar-se levar pelo clima de "The Battery", principalmente pela originalidade da sua abordagem numa época em que os filmes de zumbis estão cada vez mais acelerados e megalomaníacos (vide "Guerra Mundial Z"). É raro quando alguém consegue extrair dramaticidade e - principalmente - personalidade de um subgênero já mais do que batido, fugindo do comodismo de regurgitar os clichês dos filmes de George Romero para buscar novas e bem-vindas abordagens. E considerando a segurança demonstrada nesse longa em que faz praticamente tudo (direção, roteiro, produção E o personagem principal), Jeremy Gardner é outro nome cujos futuros trabalhos devem ser acompanhados bem de perto.


O ÚLTIMO DESAFIO (The Last Stand, 2013, EUA. Dir: Kim Jee-Woon)
Muito se falou, nesses últimos tempos, sobre como "Os Mercenários" Partes 1 e 2 resgataram aquele climão do cinema de ação norte-americano dos anos 1980. Balela: cinco minutos deste "The Last Stand" (estupidamente rebatizado "O Último Desafio" no Brasil) valem pelas duas aventuras d'"Os Mercenários" inteirinhas! Claro que um diretor de verdade, não um pelego tipo Simon West, ajuda bastante: quem comanda a ação aqui é o sul-coreano Kim Jee-Woon, responsável por maravilhas como "O Gosto da Vingança" e "Eu Vi o Diabo" lá do outro lado do mundo. Este seu debut no cinema ianque pode não ter o mais genial dos roteiros (a exemplo da estreia de John Woo em Hollywood com "O Alvo"), mas você esquece desse "pequeno detalhe" rapidinho quando a ação começa. A trama mostra um chefão do tráfico (Eduardo Noriega) fugindo em direção à fronteira com o México. A única coisa que o separa da liberdade é uma pequena cidadezinha no meio do nada e seu xerife coroa, porém valentão, interpretado por Schwarzenegger (em seu retorno ao cinema como protagonista depois da experiência como governador). A ambientação numa cidadezinha empoirada e a história do xerifão que precisa comandar um pequeno time de desajustados (entre eles, o brasileiro Rodrigo Santoro!) contra um exército de malvados lembram os melhores momentos dos filmes de faroeste, e "The Last Stand" não faz feio na comparação. Opta, porém, por um tom menos sério e pesado, bem ao estilo daquelas aventuras do final dos anos 80-começo dos 90, onde o herói sempre tem uma piadinha na ponta da língua para soltar depois de matar algum bandido. Tá, às vezes o tom de pastelão é mais exagerado do que deveria, em grande parte por causa da participação (maior do que o necessário) do eterno Jackass Johnny Knoxville, "interpretando" pela milésima vez um idiota sem-noção (ou seja, ele mesmo!). Já o restante do elenco está muito bem, incluindo Santoro, e o velho Arnoldão chega a suar a camisa numa luta final pesada com Noriega. O resultado é um passatempo de primeira não só para quem cresceu vendo "Comando para Matar" e "Inferno Vermelho", mas principalmente para quem já está cansado de filmes de ação pretensiosos ou mal-dirigidos. Pena que foi um injusto fracasso de bilheteria, o que deve limitar as chances do pobre Jee-Woon nos EUA.


O BOM VIZINHO (Unter Nachbarn, 2011, Alemanha. Dir: Stephan Rick)
Este suspense correto vindo da Alemanha já foi comparado a Hitchcock por alguns críticos. Não é para tanto, mas o velho Alfred provavelmente iria se refestelar com o mesmo argumento: David é um jornalista que se muda para uma nova cidade e faz amizade com Robert, o sujeito solitário e tímido que vive na casa ao lado. Na primeira saída dos dois para "sociabilizar", David atropela e mata uma garota. O vizinho insiste para que fujam do local e, nos dias que se seguem, passa a exercer uma influência doentia sobre David. Enquanto o jornalista passa por uma crise de consciência e parece pronto a confessar o crime, o "bom vizinho" surge disposto a tudo para manter a "amizade" entre os dois. O diretor Rick desenvolve esta trama razoavelmente original sem apelar para aqueles truques desonestos, situações absurdas e sustos fáceis do cinema hollywoodiano, mantendo um tom mais frio e realista. A melhor coisa do filme é a transformação gradual do "bom vizinho" de um sujeito inofensivo, por quem o espectador chega a sentir até uma certa vergonha-alheia no início, em um vilão terrível e assustador. O jogo de gato e rato entre os dois personagens, praticamente os únicos do longa, garante ótimos momentos de suspense. E o bicho pega nos 15 minutos finais, cuja tensão mantém o espectador na ponta da poltrona, e sem precisar apelar para aquelas pirotecnias ou cenas de ação absurdas comuns nos filmes norte-americanos (fico só imaginando como seria o remake hollywoodiano disso). Não é nenhuma obra-prima, mas funciona muito bem para quem curte o gênero.


O SUBSTITUTO 2 (The Substitute 2: School's Out, 1998, EUA. Dir: Steven Pearl)
Você percebe que um filme está te chamando de idiota quando o herói, cercado por diversos rivais armados e em óbvia desvantagem numérica, explode um tanque de gás para atordoar os vilões. Depois, sai tranquilamente até a área atingida, vê seus perseguidores rolando semi-inconscientes pelo chão, e simplesmente VAI EMBORA, ao invés de terminar o serviço matando-os de uma vez - o que dá garante que os vilões logo irão se recuperar, se levantar do chão e continuar perseguindo o herói! E essa, acredite, nem é a maior das bobagens que "O Substituto 2" empurra para cima do pobre espectador. Sempre me impressionou o fato de "O Substituto", um filme de ação eficiente mas praticamente desconhecido, ter dado origem a nada menos de TRÊS sequências. O original, para quem não lembra, trazia Tom Berenger no papel de um mercenário que se passava por professor numa escola barra-pesada para pôr ordem no lugar e acabar com a bandidagem. Esta primeira continuação é exatamente a mesma coisa, mas com Treat Williams no lugar de Berenger e um nível muito mais baixo, que não me deixou com a menor curiosidade para conferir as Partes 3 e 4 (também estreladas por Williams). Nada contra o ator, mas é que nem o personagem e nem o filme lhe dão qualquer oportunidade de fazer algo interessante ou diferente, quem dirá memorável. As artimanhas do professor-mercenário para colocar ordem em sala de aula são basicamente as mesmas já vistas no primeiro filme, e a desinteressante trama policial (o herói "substitui" seu irmão, que era professor e foi morto pela gangue que domina a escola) é qualquer nota, chegando ao cúmulo de colocar uma operação de desmanche de carros dentro da área da escola, e sob supervisão de um dos professores! Daí pra frente, não bastasse a típica enxurrada de clichês, o roteiro ofende a inteligência do espectador a cada nova cena, com direito a um zelador veterano do Vietnã que guarda um verdadeiro arsenal de destruição em massa como "souvenir da guerra" (e também na área da escola, claro!). Quando o nível do negócio é esse, nem um cara legal como Treat Williams no papel-título consegue salvar a pátria!


JOBS (2013, EUA. Dir: Joshua Michael Stern)
Não sou lá muito fã de cinebiografias, mas fui ver "Jobs" com a cabeça aberta e sem saber praticamente nada sobre o personagem biografado, o visionário Steve Jobs, além do que todo mundo sabe. Bem, digamos que quando saí do cinema não estava sabendo muito mais sobre a vida (pessoal e profissional) do criador da Apple do que aquele pouco que eu já sabia, pois o filme de Joshua Michael Stern atira para todos os lados, mas não se preocupa em EXPLICAR os acontecimentos ao espectador. É tipo um resumão de preparação para prova de vestibular, ou um "melhores momentos" da vida de Steve Jobs - inclusive começa com o envelhecido gênio no lançamento do IPod. É preciso fazer uma pesquisa rápida pós-filme para entender fatos que o filme analisa bem por cima, como sua relação com a filha que ele não quis assumir, a relação de amor e ódio com Bill Gates (apresentada superficialmente numa única cena) e o fato de que as geniais criações de Jobs e cia. não surgiam do nada, como o roteiro da cinebiografia parece declarar, mas sim de pesquisas e até de questionável espionagem industrial (Jobs chegou a copiar ideias importantíssimas da Xerox, algo que sequer é mencionado no filme). Fechando-se um olho para tudo isso, "Jobs" é um passatempo razoável e bem convencional, lembrando até um telefilme desses do Supercine que alguém resolveu lançar nos cinemas. Pode ser recomendado para quem quer ter um primeiro contato com a vida e a obra de Steve Jobs, como eu fiz, desde que o espectador não confie muito na abordagem extremamente parcial do roteiro e depois saia do cinema em busca de outras fontes de pesquisa para saber mais. Pois mesmo que o filme aborde (bem de leve) o lado déspota e tirânico do seu biografado (quando ele corta relações com os amigos que começaram a Apple ao seu lado, por exemplo), na maior parte do tempo a abordagem é extremamente favorável a Jobs e chega até a endeusá-lo, como se os fatos negativos em sua trajetória fossem apenas lapsos perdoáveis porque o homem era um gênio bem-sucedido. Não é por aí. Apesar dos pesares, vale mencionar que Ashton Kutcher, ator que considero limitadíssimo, está ótimo no papel-título.


ARMADILHA DO TERROR (Trapped Ashes, 2006, EUA/Japão. Dir: Joe Dante, Ken Russell, Monte Hellman, Sean S. Cunningham e John Gaeta)
Dante, Russell, Hellman, Cunningham... Caramba, mas como é que tanta gente boa se envolve numa bomba tipo "Trapped Ashes"? Na concepção, esta deveria ser uma antologia de histórias assustadoras dos "cinco grandes nomes do terror", segundo diz o cartaz, embora nenhum dos supracitados seja exatamente uma grande referência no gênero (e o quinto, John Gaeta, é um técnico de efeitos especiais que apenas estreou na função). Mas o resultado passa longe de qualquer coisa digna de "grandes nomes do terror": é uma autêntica bobajada, com historinhas rasteiras de nível Troma Filmes (incluindo uma sobre mamilos sugadores de sangue!) levadas muito mais a sério do que deveriam. No cômputo geral, Joe Dante é o que se sai "menos pior" porque dirigiu apenas a história principal que liga os episódios, tendo a oportunidade de pelo menos fazer uma bela homenagem aos filmes B de antigamente - incluindo participações de seus atores-fetiche Henry Gibson e Dick Miller. Mas os episódios em si são de chorar. Todos foram escritos por um sujeito sem grandes referências chamado Dennis Bartok, que não sabe sequer como terminar os contos. Apenas dois deles têm boas ideias: o episódio dirigido por Monte Hellman, que traz um jovem Stanley Kubrick como personagem (!!!), e o do estreante Gaeta, sobre uma gestante obrigada a ver crescer ao mesmo tempo no seu ventre um bebê e um verme (a popular "solitária"). Só que mesmo essas poucas boas ideas são sub-aproveitadas, já que a história de Hellman é a mais fraca, e a do verme tem uma conclusão ridícula. Enfim, "Trapped Ashes" é um autêntico desperdício de tempo e de talento, e confesso que fiquei sentindo um misto de pena e de vergonha-alheia por alguns dos diretores, como o esquecido Cunningham ou o pobre Russell, aqui num dos seus últimos trabalhos (e ele merecia ser lembrado por coisa melhor no fim da vida).


DJANGO LIVRE (Django Unchained, 2013, EUA. Dir: Quentin Tarantino)
Estou até agora tentando entender onde está a obra-prima que muitos críticos e alguns amigos viram em "Django Livre", uma caótica reunião de ideias sem coesão que jamais seria sequer levada a sério se não tivesse o nome "Quentin Tarantino" (que já virou grife) nos créditos. Embora eu tenha me divertido bastante com algumas partes do filme, ele ficou bem aquém da minha expectativa - ainda mais por ter sido lançado depois de "Bastardos Inglórios", esta sim a obra-prima do diretor. Na teoria, "Django Livre" deveria ser a grande homenagem de Tarantino ao western spaghetti; na prática, seu roteiro é um autêntico desastre, episódico e preguiçoso, e seu filme tem pelo menos 45 minutos a mais do que o necessário. Parece até que ele ficou jogando ideias ao léu ao invés de aprofundá-las e dar-lhes coerência. Por exemplo, o filme começa com um caçador de recompensas, o Dr. Schultz, recrutando Django para encontrar três irmãos que está caçando. Quando você pensa que esse será o grande plot do filme, eis que o episódio se resolve ainda nos primeiros 15 ou 20 minutos. A partir de então, acompanhamos a busca de Django pela sua esposa, Broomhilda, escrava na fazenda de um almofadinha chamado Calvin Candie. Este que é o verdadeiro fio condutor do filme, mas Tarantino continuará atirando diversas situações aleatórias para desviar a atenção, como o encontro de Schultz e Django com uma Ku Klux Klan ainda em formação (quando desperdiça o que poderia ser um ótimo vilão racista interpretado por Don Johnson) e a exploração da luta de mandingos, escravos forçados a brigar até a morte (quando desperdiça uma participação pequena do Django original, Franco Nero). Até pensei que o protagonista Jamie Foxx iria acabar no meio de uma luta dessas, mas foi apenas outra ideia desperdiçada por Tarantino, só para poder fazer uma citação a "Mandingo", um clássico esquecido dirigido por Richard Fleischer. Você percebe que há algo de muito errado quando Christopher Waltz, no papel do Dr. Schultz, rouba todas as cenas do Jamie Foxx de Django, que deveria ser o protagonista. Aliás, o filme praticamente desmorona em qualidade quando Waltz sai de cena e Foxx precisa segurá-lo sozinho. Para piorar, Tarantino está mais prolixo do que nunca, lembrando o péssimo "À Prova de Morte": quando os heróis finalmente chegam à fazenda de Candie (interpretado por Leonardo DiCaprio), o filme demora mais uma eternidade para deslanchar. E ainda tem um anti-clímax bem primário para coroar a bagunça toda - o que me leva a questionar como é que um troço desses ganha Oscar de Melhor Roteiro! Porque, para um sujeito conhecido justamente pelas qualidades dos seus roteiros, Tarantino pisou feio na bola aqui. Tirando as referências e as gracinhas com citações que só 10% do público vai entender, não sobra nada além da repetição de tudo que o diretor já fez na vida (Waltz, por exemplo, interpreta praticamente o mesmo personagem que fez em "Bastardos Inglórios"), e sendo que a homenagem ao western spaghetti ficou muito melhor em "Kill Bill" do que aqui. Se "Django Livre" deveria ser a grande homenagem de Tarantino ao western spaghetti, vai ver que na verdade ele quis homenagear não os grandes mestres, tipo Leone ou Corbucci, mas sim os picaretas, como Demofilo Fidani e Paolo Solvay. Mesmo assim, esses caras não faziam faroestes intermináveis com três horas de duração...