quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

DJANGO X SARTANA - DUELO MORTAL (1970)


DJANGO X SARTANA - DUELO MORTAL é o último dos três "crossovers" produzidos na Itália no começo dos anos 1970 para tentar atrair fãs destes dois mitos do western spaghetti. E se os dois filmes anteriores não passavam de trasheiras que desperdiçavam a presença dos famosões ("Django Desafia Sartana" e "Django e Sartana no Dia da Vingança", ambos dirigidos pelo famigerado Demofilo Fidani), este aqui surpreende por ser uma aventura bem decente.

Além disso, ao contrário daquelas duas produções dirigidas por Fidani, em que Django e Sartana dividiam poucas cenas, e sem mostrar nenhum duelo entre os personagens, aqui ambos aparecem juntos na maior parte do tempo. E, sim, finalmente vemos um confronto entre os heróis, embora a peleja termine empatada - provavelmente para não enfurecer os fãs de um ou de outro personagem.


O filme foi escrito e dirigido por Pasquale Squitieri (com o pseudônimo "William Redford"), e este é o primeiro dos dois únicos westerns assinados por ele. Injustamente esquecido hoje, Squitieri dirigiu vários filmes policiais/políticos entre as décadas de 70 e 80, como "Camorra" (1972), "L'Ambizioso" (1975) e "O Prefeito de Ferro" (1977), com Giuliano Gemma, este último reprisado inúmeras vezes pelo SBT na Sessão das Dez de tempos longínquos.

O cineasta também detém a distinção de ter dirigido a musa Claudia Cardinale nove vezes, além de (dizem as fofocas) ter sido o responsável direto pelo fim do casamento dela com o produtor de cinema Franco Cristaldi em 1975, já que os dois vivem juntos desde então! Conversas de comadres à parte, Squitieri tem uma filmografia muito interessante que merece ser (re)descoberta, especialmente suas obras sobre a máfia napolitana.


Nas resenhas de "O Iluminado", muitos críticos reclamaram que Stanley Kubrick era muito "cerebral" para fazer horror. Bem, o mesmo se aplica a Pasquale Squitieri, que também pode ser considerado muito cerebral para fazer western spaghetti. Por isso, DJANGO X SARTANA - DUELO MORTAL foge um pouco daquele tipo de aventura rápida e simplória produzida na Itália da época, preferindo buscar enquadramentos diferentes, com uma fotografia deslumbrante e longos momentos de silêncio.

Pois é justamente aí que reside o charme do filme: enquanto diversos dos "Sotto-Djangos" (Sub-Djangos) eram produções meia-boca, produzidas e dirigidas de qualquer jeito por cineastas de quinta categoria, com o objetivo único de faturar com o nome do personagem no título, este aqui foi realizado com esmero e cuidado, como se Squitieri tivesse esquecido que dirigia uma aventura não-oficial de Django e Sartana e realmente quisesse mostrar serviço e fazer algo "diferente".


Na trama, Django (nesta encarnação interpretado por Tony Kendall) vive na cidade de Tombstone com seu irmão Steve (John Alvar). Peraí... irmão? Sim, desta vez Django tem um irmão, e este irmão sequer tem um nome tão sofisticado quanto o do herói. Mas não se esqueçam que, num outro "Sotto-Django", ele também teve irmã (isso aconteceu em "Django Não Espera... Mata").

Steve trabalha no banco local, dirigido por Singer (Bernard Farber, de "O Dólar Furado"). E justamente no dia em que Django está fora da cidade, ajudando o xerife e seus homens a caçar uma perigosa quadrilha de bandidos, aparece o misterioso Sartana (George Ardisson), que tem fama de criminoso e ladrão de bancos - embora não seja nem um, nem outro, mas apenas um anti-herói silencioso e meio assustador.


Preocupado com a segurança do dinheiro guardado em seus cofres, Singer convence Steve a oferecer uma propina de alguns milhares de dólares para que Sartana deixe a cidade sem assaltar o banco. Mas, como já sabemos, Sartana não é nenhum assaltante; portanto, ele desdenha da proposta do rapaz e devolve o dinheiro.

Pois eis que no dia seguinte o banco realmente é assaltado, e no processo Singer acaba sendo morto pelo criminoso. A população revoltada procura por um culpado, mas Sartana não está mais na cidade. Sobra para o pobre Steve, que é encontrado no bordel local, nos braços de uma dançarina, e ainda com a grana da propina que tinha recebido do diretor do banco na véspera. Furiosos, os moradores o acusam de ser cúmplice de Sartana. E, sem pensar nas consequências dos seus atos, lincham e enforcam o pobre bancário!


É claro que seu irmão Django não vai gostar nada disso. Principalmente quando volta à cidade e encontra Steve ainda pendurado pelo pescoço, balançando na chuva (uma bela cena, por sinal). Quando os assustados moradores lhe explicam a história toda, Django decide limpar o nome do irmão caçando e matando Sartana, que considera o grande culpado. E o encontra. E tenta matá-lo. E os dois se enfrentam numa pancadaria épica (especialmente para quem esperava algo do gênero nos dois "crossovers" dirigidos por Fidani, e ficou chupando o dedo).

Mas, depois de muitas porradas, os heróis resolvem esfriar a cabeça e pensar um pouco. Sartana explica que não tem nada a ver com o entrevero, e Django começa a desconfiar que alguém arquitetou um ousado plano para transformar Steve em bode expiatório do roubo ao banco. Juntas, as duas lendas do western spaghetti começam a investigar o caso - e coitado do verdadeiro responsável pelo crime!


Apesar desse toque de mistério policial (a investigação do verdadeiro criminoso, embora seja algo meio previsível porque não existem tantos personagens na trama), a melhor parte de DJANGO X SARTANA - DUELO MORTAL é, obviamente, o tal "duelo mortal" entre os dois personagens, que na verdade não chega a ser "mortal" como anuncia o título brasileiro, mas é bem decente (nada de propaganda enganosa dessa vez!).

Primeiro, Django e Sartana esporeiam seus cavalos em direção um do outro, e então finalmente trocando golpes com suas winchesters, como se fossem espadas, até caírem ambos das selas! Para o leitor ter uma ideia melhor de como isso é épico, imagine a luta final entre Tom Cruise e Dougray Scott em "Missão Impossível 2", só que trocando as motocicletas velozes por cavalos!


Depois, a dupla rola assustadoramente por um barranco de altura considerável (o que certamente deve ter deixado os dublês com arranhões até nos tímpanos!), e aí decidem deixar os revólveres de lado para sair no braço. Fãs de Django, de Sartana ou dos dois juntos certamente vão curtir muito a troca de sopapos, filmada com violência e ódio, como se os dois protagonistas realmente estivessem se surrando de verdade!

E embora a conclusão do "duelo mortal" seja com o esperado empate técnico, ao invés do óbito de uma das partes, esta pancadaria é o mais perto que Django e Sartana chegaram de um duelo em seus três encontros cinematográficos, o que torna DJANGO X SARTANA - DUELO MORTAL um filme obrigatório para os fãs dos personagens.


Assim que identificam o verdadeiro autor do crime (e o responsável direto pela morte do irmão de Django), os heróis partem para a fortaleza do vilão, acompanhados por um amigo mudo de Django (José Torres), e iniciam um duelo infernal, com larga contagem de cadáveres e muitas cenas legais - digamos apenas que Django começa a punir o grande vilão dando-lhe um tiro na orelha, o que talvez seja uma citação à famosa cena da orelha arrancada no "Django" de Corbucci!

DJANGO X SARTANA - DUELO MORTAL é apenas o segundo filme de Squitieri, que no ano anterior (1969) havia dirigido um dramalhão chamado "Io e Dio". Quem o convidou para estrear no western spaghetti foi o produtor Roberto Bessi, que nos anos 80 se associaria à Empire Pictures de Charles Band, ajudando a produzir famosos filmes de horror daquela década, como "Do Além", de Stuart Gordon, e "Perversão Assassina", de David Schmoeller.


Há relatos de que o processo de filmagem desta aventura foi tão violento quanto a briga de socos entre Django e Sartana. Em seu primeiro western, Squitieri quis fazer algo longo e épico, com muitos tempos-mortos e momentos reflexivos. Em entrevista reproduzida no livro "Dizionario del Western all'italiana", de Marco Giusti, o produtor Bressi explicou o caso: "Squitieri estava tentando fazer um faroeste como os de Sam Peckinpah, e filmou cenas demais. Mas quando entregamos o material a um editor experiente (Amedeo Giomini), ele o deixou muito curto, com apenas uma hora de duração".

Diante da recusa do diretor de filmar mais cenas adicionais para fechar um longa-metragem, Bressi teria chamado Sergio Garrone (diretor de "Django, O Bastardo") para rodar cenas adicionais, o que talvez justifique uma certa indefinição da obra entre a seriedade e o humor em alguns momentos.


De qualquer forma, hoje ninguém sabe dizer o que foi filmado por Squitieri e o que foi refeito por Garrone, e nem mesmo o IMDB traz a informação de que o segundo teria participado da equipe como diretor não-creditado. Na dúvida, deixo a hipótese em aberto: acredita no produtor quem quiser! O autor Marco Giusti também falhou em resolver o mistério: em entrevistas que conduziu, um dos astros do filme, Kendall, confirmou que Garrone esteve no set, enquanto o outro, Ardisson, garantiu que foi Squitieri quem filmou tudo.

O próprio Squitieri não tem boas recordações da época, e disse, em entrevista ao mesmo livro, que só fez seus dois westerns spaghetti "pelo dinheiro e para ganhar experiência, porque nunca frequentei uma escola de cinema". Mas releve a opinião ranzinza do sujeito, porque tanto DJANGO X SARTANA - DUELO MORTAL, quando o seu faroeste posterior - "A Vingança é um Prato que Se Serve Frio" (1971) - são dois belos filmes, recomendadíssimos para fãs do gênero.


Os dois atores principais não são figuras tão comuns no gênero (ao contrário de, por exemplo, Gianni Garko em "10.000 Dólares para Django" ou Anthony Steffen em "Django, O Bastardo"), o que torna a coisa toda ainda mais curiosa. O italiano Tony Kendall (nome de batismo: Luciano Stella) era mais conhecido na época por ter interpretado o personagem de romances policiais 'Kommissar X" em sete co-produções ítalo-alemãs. Anos depois, ele faria o papel principal em "O Retorno dos Mortos-Vivos" (1973), do espanhol Amando de Ossorio.

Embora diversos outros atores já tivessem interpretado o personagem até então, Kendall consegue compor um Django só seu, menos calado e violento, e mais humano e emotivo (talvez seguindo os passos de Gianni Garko em "10.000 Dólares para Django"). A bem da verdade, pouco ou nada nele lembra o Django de Franco Nero, nem sequer as roupas, já que aqui o herói tem preferência por trajes mais claros e menos soturnos, e no início usa até um poncho!


Aliás, é incrível como Kendall está idêntico ao Armand Assante neste filme, e no ano seguinte (1971), graças ao "milagre" das redublagens em outros países, voltou a interpretar "Django" em "Sartana - Uma Pistola e 100 Cruzes", de Carlo Croccolo. Na verdade, seu personagem originalmente chamava-se "Santana", mas em alguns países ele foi rebatizado como Django, e em outros (tipo o Brasil) como Sartana!

Por falar nele, George Ardisson (nome de batismo: Giorgio Ardisson) interpreta um Sartana bem parecido com o personagem oficial de Gianni Garko. Bem, pelo menos no figurino. Seu comportamento, entretanto, se assemelha mais ao Django de Sergio Corbucci, fazendo aquele tipo calado e perigoso, ao contrário do Sartana fanfarrão da série oficial.


Antes de Sartana, Ardisson já tinha interpretado Zorro numa série de aventuras não-oficiais do personagem (como "Zorro, O Justiceiro Mascarado", de Guido Zurli), e também uma cópia italiana de James Bond, o agente 3S3, em duas produções baratas dirigidas por Sergio Sollima.

Além do elenco, o que realmente diferencia esta obra de tantos outros "Sotto-Djangos" produzidos no período é o cuidado visual e os ângulos de câmera inusitados buscados por Squitieri e por seu diretor de fotografia Eugenio Bentivoglio (com quem o cineasta trabalharia quase sempre a partir de então).


É um contraste muito grande quando você compara o filme com outras aventuras picaretas de Django dirigidas por Edoardo Mulargia ou Demofilo Fidani; eu até diria que este aqui é sofisticado demais para ser apenas uma aventura picareta de Django, e que com certeza o diretor tinha maiores pretensões do que apenas fazer um produto descartável para consumo rápido.

Por exemplo, a montagem faz belo uso de "freeze frames" em momentos importantes, como a chegada de Sartana na cidade e o linchamento de Steve, além de curiosas associações entre cenas diferentes: quando o grande vilão é molhado pelo vinho que vaza de um barril furado a tiros por Django, a montagem imediatamente alterna este momento com a cena anterior do cadáver enforcado de Steve balançando na chuva!


DJANGO X SARTANA - DUELO MORTAL também tem um belo elenco feminino, composto pela péssima atriz, mas gracinha Adler Gray, como a moça boazinha, e por Mirella Pamphili ("Boot Hill") como a malvada assecla do vilão. Esta última tem direito a uma cena pavorosa, quando morre pisoteada por cavalos, mas percebe-se claramente que as patas dos animais estão a metros de distância da atriz enquanto ela se contorce exageradamente pelo chão!

Falando em cavalos, uma curiosidade dos bastidores é que a produção economizou uma graninha alugando cavalos NÃO-ADESTRADOS para os atores, o que nem sempre funcionou bem. Isso é perceptível em várias cenas, mas principalmente naquela em que os dois heróis se encaram antes da sua luta, pois o animal cavalgado por Django simplesmente não pára quieto!


Outra curiosidade é que a trilha sonora de Piero Umiliani reaproveita algumas (se não todas) as músicas compostas por ele para outro "Sotto-Django", o ruinzinho "O Filho de Django", incluindo a música-tema deste, o que simplesmente não faz sentido. Afinal, a letra da canção cita diretamente a morte de Django e a busca de vingança de seu filho ("They call him Django / A coward gun him down / I won't rest easy / Until that coward is found. / I kill for Django / And for his memory / He was my father / A man of high degree"), mas aqui Django não morre e sequer tem filho (e a letra da música nunca cita Sartana)!

Ao lado de filmaços como "Viva Django!" e "10.000 Dólares para Django", DJANGO X SARTANA - DUELO MORTAL é a prova de que você pode demonstrar esmero e sofisticação mesmo numa aventura não-oficial (picareta, dirão alguns) de um personagem famoso, entregando um produto final que se sobressaia e que pode ser visto como um ótimo filme independente da inevitável comparação com o original. Não por acaso, eu o colocaria tranquilamente num Top 5 dos "Sotto-Djangos".


Infelizmente, outros realizadores não pensavam da mesma forma e nem seguiram este exemplo, optando por continuar fazendo aventuras medíocres apenas para faturar uns trocos com o nome do famoso personagem, conforme veremos nos capítulos finais da MARATONA VIVA DJANGO!.

E se você acha que juntar Django e Sartana numa mesma aventura foi o auge da picaretagem da italianada, saiba que em 1963 um certo Umberto Lenzi (aquele mesmo dos filmes sobre canibais) dirigiu "Zorro Contra Maciste", um absurdo "crossover" que reúne personagens DE ÉPOCAS DIFERENTES (Maciste é dos tempos dos gladiadores, Zorro do século 19!). Perto disso, Django x Sartana é fichinha, e podiam até colocar o Trinity e o Ringo no bolo também!

PS: Este filme foi vítima da dança dos títulos, bastante comum aqui no Brasil. Embora ele tenha sido lançado em VHS como "Django x Sartana - Duelo Mortal" (e optei por este para a resenha), nos cinemas e em DVD o nome adotado foi "Django Desafia Sartana", uma tradução literal do original italiano. O problema é que este foi o mesmo título dado para "Quel Maledetto Giorno d'inverno... Django e Sartana all'ultimo Sangue", de Fidani, em VHS e DVD (embora nos cinemas o filme tenha sido lançado com uma tradução mais apropriada, "Django e Sartana - Até o Último Sangue").


Trailer de DJANGO X SARTANA - DUELO MORTAL



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Django Sfida Sartana (1970, Itália)
Direção: Pasquale Squitieri
Elenco: Tony Kendall, George Ardisson, José Torres,
Bernard Farber, Adler Gray, Mirella Pamphili, John Alvar,
Teodoro Corrà e Fulvio Mingozzi.

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

DJANGO E SARTANA NO DIA DA VINGANÇA (1970)


Em minha resenha sobre "Django Desafia Sartana", apresentei aos nobres leitores do FILMES PARA DOIDOS o diretor italiano Demofilo Fidani (1914-1994), um profissional tão picareta que faz com que outros notórios picaretas do mundo do cinema, como Al Adamson, Bruno Mattei e Godfrey Ho, pareçam cineastas de verdade. Mas se "Django Desafia Sartana" era uma produção mais normalzinha do homem, agora chegou a hora de pegar pesado e falar/escrever sobre DJANGO E SARTANA NO DIA DA VINGANÇA, uma obra que pode tanto provocar ataques histéricos de riso quanto incontroláveis rompantes de fúria em cinéfilos mais "sérios".

Por isso, o filme é uma ótima maneira de conhecer o cinema Fidaniano, visto que está repleto do "melhor" e do pior do homem. Sua gênese é, por si só, uma piada pronta: reza a lenda que Fidani estava dirigindo outro western ("Homens Mortos não Fazem Sombra"), quando percebeu que acabaria o serviço e ainda sobrariam algumas diárias com o elenco principal (Jack Betts, Franco Borelli e Gordon Mitchell). Por isso, resolveu rodar um segundo filme, às pressas e de qualquer jeito, sem dinheiro e (praticamente) sem roteiro, reaproveitando o elenco ocioso do outro projeto e também os figurinos, cenários e cavalos!


Devido a questões burocráticas (um único profissional não podia dirigir dois filmes ao mesmo tempo, ou coisa que o valha), Fidani fez com que seu gerente de produção Diego Spataro assinasse como diretor, utilizando o impagável pseudônimo "Dick Spitfire" (que cairia como uma luva para um astro de filmes pornográficos). Mas todos os pesquisadores do gênero concordam que Spataro só colocou seu nomezinho ali: quem dirigiu toda a bagaça foi Fidani, conforme é perceptível pela falta de qualidade geral do negócio.

Àquela altura, o diretor já tinha lançado um "crossover" anterior entre os dois famosões do western spaghetti, Django e Sartana, que foi o já comentado "Django Desafia Sartana", filmado em 1969 e lançado nos cinemas italianos em 1970.


Não há informações sobre a recepção de "Django Desafia Sartana" na época, mas os espectadores devem ter saído putos do cinema ao constatar que "Sartana" na verdade era um outro personagem chamado "Jack Ronson", que somente aos 45 do segundo tempo se identifica uma única vez como Sartana! (Não duvide que esse diálogo foi adicionado de última hora num roteiro SEM Sartana para subitamente transformá-lo num filme COM Sartana...)

Enfim, com DJANGO E SARTANA NO DIA DA VINGANÇA Fidani resolveu corrigir este lamentável equívoco e realmente fazer uma aventura estrelada por Django e Sartana, conforme anuncia o título. Ou pelo menos tentou. Bem, vamos aos fatos e vocês entenderão melhor o que eu quero dizer - e também saberão porque o diretor recebeu a alcunha de "Ed Wood do Western Spaghetti".


O "roteiro" escrito por Fidani e por sua esposa Mila Vitelli Valenza começa no covil da quadrilha liderada pelo bandidão Burt Kelly (Gordon Mitchell). Eles acabaram de roubar o ouro do pagamento das tropas de Fort Bellamy, e Burt quer garantir uma travessia tranquila para o México com a fortuna. E como ninguém sugere alguma ideia melhor, ele manda seus homens sequestrarem a bela Jessica Brewster (Simonetta Vitelli), filha de um rico fazendeiro da região, para mantê-la como refém e garantir o salvo-conduto até cruzar a fronteira.

Só que o tiro sai pela culatra: a população da cidade resolve contratar dois famosos caçadores de recompensas para caçar Burt e seus homens. E é claro que estamos falando de Django (interpretado pelo norte-americano Jack Betts, com o nome artístico "Hunt Powers") e de Sartana (Franco Borelli, assinando com o pseudônimo "Chet Davis"). Ao saber da chegada da dupla à cidade, Burt manda seus capangas para resolver a situação, e aí começam as pancadarias e tiroteios de praxe.


E é só isso! O filme se resume a este argumento de meia dúzia de páginas, que deve ter sido rabiscado em poucas horas, e que basicamente funciona como mera desculpa para que incontáveis figurantes tentem matar Django ou Sartana antes de acabar comendo capim pela raiz! Não duvido que os diálogos tenham sido improvisados no momento da filmagem, e tudo relacionado à parte técnica da produção é simplesmente sofrível.

Mas quer saber? Por isso mesmo, DJANGO E SARTANA NO DIA DA VINGANÇA é simplesmente divertidíssimo! Claro, se você assistir sozinho em casa, num sábado à noite, esperando por algo mais elaborado, provavelmente vai cuspir fogo de raiva e quebrar o DVD em vinte pedaços. Porém experimente reunir uma turma de amigos na sala e colocar o filme para rodar: em menos de 10 minutos, todos estarão rolando de rir com as incontáveis bobagens do filme!


Fidani realmente se superou aqui, e a picaretagem começa já pelos créditos iniciais, que "reaproveitam" a trilha sonora composta por Coriolano Gori para o filme "Execução" (1968), de Domenico Paolella. A seguir, percebe-se desde as primeiras cenas que o roteiro desconjuntado é uma simples desculpa para uma sequência de cenas de ação, e que tentar seguir a "trama", por mais mixuruca que ela seja, é pura perda de tempo.

A produção é tão furreca que a história toda se desenrola em apenas dois ou três cenários, e sempre nas mesmas externas, onde, lá pelas tantas, podemos ver o que parece ser um grande cactus falso (imagem abaixo) para simular uma paisagem do Velho Oeste. Quer dizer, talvez até seja uma planta verdadeira mais feia que a média, mas, conhecendo Fidani, eu não duvidaria nada da probabilidade do cactus falso...


Visivelmente sem dinheiro e filmando "no improviso", Fidani nunca mostra o tal roubo ao ouro de Fort Bellamy cometido por Burt Kelly e seus homens (o crime é apenas comentado entre os bandidos), nem tenta criar reviravoltas ou situações que façam a "história" andar. Quando digo que DJANGO E SARTANA NO DIA DA VINGANÇA se resume a uma sequência de tiroteios envolvendo Django, Sartana e vários figurantes que interpretam os bandidos da quadrilha de Burt, acreditem, não estou sendo injusto nem exagerado.

A coisa funciona mais ou menos assim: vemos Django entrando num saloon e sendo ameaçado por homens de Burt Kelly. Ele toma uns sopapos, dá outros de volta, e termina matando todo mundo. Corta para Sartana em qualquer outro lugar sendo igualmente ameaçado por outros homens de Burt Kelly. Ele toma uns sopapos, dá outros de volta, até finalmente terminar matando todo mundo. E assim sucessivamente até cansar...


O mais hilário é que Django e Sartana nunca se encontram NO MESMO TAKE antes da cena final. Em duas situações diferentes ao longo do filme, um salva o outro das garras dos pistoleiros de Burt. Mas estas cenas são filmadas da seguinte forma: vemos um dos heróis na mira do revólver inimigo, corta para um take dos bandidos caindo fuzilados, corta para um take do herói em perigo olhando para cima ou para o lado, corta para um take do outro herói acenando, tipo "Salvei tua pele!", e então ele vai embora cavalgando, e aí corta de volta para o herói resgatado dando um sorrisinho tipo "Ah, esse Django (ou Sartana), que cara legal!".

A mesma sequência de takes acontece duas vezes: primeiro, Sartana salva Django; depois, Django salva Sartana. Mas os dois personagens só aparecem JUNTOS, dividindo finalmente um mesmo take, no minuto final, quando começam a negociar quais vilões mortos levarão para trocar pelo dinheiro da recompensa. Enfim, é algo inacreditável de tão tosco!


Outros momentos de rolar de rir em DJANGO E SARTANA NO DIA DA VINGANÇA envolvem cenas aleatórias adicionadas na montagem apenas para o filme ficar com a duração de um longa-metragem. Isso envolve INCONTÁVEIS takes com os personages cavalgando, filmados para dar a ideia de que a história está andando e algo está acontecendo (não está, nos dois casos). Se um editor decente limasse todas estas cenas de cavalgadas, a duração do filme cairia tranquilamente para uns 45 minutos!

Mantendo o "padrão de qualidade" de outras produções de Fidani, esta também não tem um mínimo de cuidado nem com a mais básica continuidade: o sobrenome do vilão, por exemplo, é "Kelly". Mas em dois momentos, aparece com grafias diferentes: "Kelly" no bilhete escrito após o sequestro da filha do fazendeiro, e "Keller" num cartaz de recompensa!


Já as cenas de apresentação dos dois personagens principais são tão gratuitas, e tão visivelmente filmadas apenas para enrolar, que muitos espectadores provavelmente desistirão do filme ainda nos primeiros 15 minutos.

Django, por exemplo, aparece visitando uma cidade-fantasma. Ele desce do cavalo, pega um alforje e um cantil, e começa a caminhar pelas ruas centrais da vila abandonada, como se estivesse procurando alguém ou alguma coisa. Encontra um sujeito vestindo farrapos e tenta conversar com ele: "Ninguém mais vive aqui?". Não recebe nenhuma resposta, e decide ir embora. A cena não tem qualquer nexo: nunca sabemos o que Django procurava na cidade-fantasma, quem esperava encontrar, ou que diabos de cidade era aquela; mas a "visita" rendeu a Fidani cinco minutos no tempo de duração do filme!


O mesmo acontece na cena de apresentação de Sartana. Contrariando totalmente as características do personagem imortalizado por Gianni Garko na série oficial (iniciada em 1968, e com quatro filmes), Fidani apresenta Sartana como o grande herói e defensor de um vilarejo de mineradores. Por quê? Boa pergunta, que Fidani não se preocupa em responder - a situação toda é apenas uma desculpa para ganhar mais cinco minutos de tempo corrido na narrativa! Ele até inventou um brilhante diálogo entre dois personagens secundários, que de certa forma sintetiza a inexistência de tudo no filme (principalmente motivações para os personagens):

- Quem é aquele?
- Aquele é Sartana. Nós devemos tudo a ele. Durante anos, a vila era pobre e o nosso povo passava fome. Ele nos mostrou como trabalhar nesta mina abandonada. Nós devemos tudo a Sartana.
- Mas por quê?
- Por quê? Porque ele é Sartana!




E a cereja do bolo é a inacreditável performance de Gordon Mitchell como o psicótico vilão Burt Kelly. Eu não duvidaria se alguém me dissesse que Mitchell filmou todas as suas cenas sob efeito de álcool, ou mesmo drogas pesadas. Num autêntico "one-man show" digno dos melhores momentos de Klaus Kinski, o ator grita, recita frases sem sentido, brinca colocando copos sobre os olhos para simular um binóculo DURANTE UM DIÁLOGO SÉRIO com seus homens, e ri exageradamente como se estivesse numa comédia da série "Austin Powers".

Por tudo isso, o vilão é a melhor coisa do filme e rouba a cena dos apagados heróis toda vez que aparece. Digamos apenas que Burt Kelly é tão doido que joga pôquer e conversa com SEU PRÓPRIO REFLEXO NO ESPELHO - e ainda o acusa de estar trapaceando! É como se o personagem tivesse fugido de uma comédia de Mel Brooks, caindo bem no meio do set de filmagem de um western de quinta categoria!


Se Sartana não tem absolutamente nada em comum com o personagem da série oficial, o Django de Jack Betts sofre do mesmo problema, mais uma vez sendo representado como um caçador de recompensas (a exemplo do anterior "Django Desafia Sartana"). Mas pelo menos ele veste roupas parecidas com as do Django de Franco Nero, enquanto o Sartana de Franco Borelli passa longe disso e parece um pistoleiro genérico qualquer. E tudo bem que o Django de Sergio Corbucci não era exatamente um cavalheiro em relação às mulheres, mas o personagem de Betts exagera no tratamento do sexo oposto, e lá pelas tantas joga uma bacia de água suja no rosto de uma prostituta que está lhe "incomodando"!

Além do elenco reaproveitado de "Homens Mortos Não Fazem Sombra", vários outros atores habituais do cinema Fidaniano dão as caras na narrativa episódica de DJANGO E A SARTANA NO DIA DA VINGANÇA, entre eles o brasileiro Celso Faria, que na época era figurinha carimbada nos westerns de baixo orçamento feitos na Itália. Também é possível rever a linda Simonetta, filha de Fidani na vida real, e mais uma vez creditada como "Simone Blondell".


Na parte técnica, vale destacar a direção de fotografia do notório (e ainda desconhecido à época) Aristide Massaccesi. Alguns anos depois, já usando o pseudônimo "Joe D'Amato", ele se tornaria um dos grandes nomes do exploitation italiano, dirigindo produções polêmicas como "Emanuelle na América", "Buio Omega" e "Anthropophagus", além de uma cacetada de filmes pornográficos.

Este aqui foi um dos seus primeiros trabalhos como diretor de fotografia, e ele repetiria a dose em outros filmes posteriores de Fidani, como "Por um Caixão Cheio de Dólares" e o próprio "Homens Mortos Não Fazem Sombra". O início de carreira ao lado do "Ed Wood do Western Spaghetti" certamente deve ter sido uma grande escola para Massaccesi/D'Amato, que depois dirigiria ele mesmo diversas produções rápidas e baratas no estilo de Fidani!


Muito mais poderia ser dito/escrito sobre a ruindade de DJANGO E SARTANA NO DIA DA VINGANÇA, mas esse é o tipo de clássico trash que deve ser visto, e não discutido (ou pelo menos não discutido longe de uma mesa de bar e diante de várias garrafas de cerveja). Tenho certeza que o público médio fã de westerns não encontrou um único defeito entre os inúmeros existentes na produção, até porque a contagem de cadáveres é mantida nas alturas, com tiroteios a cada 10 ou 15 minutos.

Mas, para cinéfilos mais experientes e/ou fãs de podreiras, é impossível não gargalhar com a trama episódica que não leva a lugar nenhum, com as interpretações afetadas, com a péssima direção e com as tentativas desesperadas de Fidani de esticar o tempo de duração, incluindo um interminável jogo de pôquer que dura uns 10 minutos, e que é um convite ao uso do botão Fast Foward - até porque termina com Django passando fogo nos colegas trapaceiros de mesa e pegando para si todo o dinheiro das apostas!


Este é o segundo de três "crossovers" envolvendo a famosa dupla de personagens. Dois anos depois, em 1972, o cada vez mais picareta Fidani lançou um filme chamado "Uma Balada para Django", que não passa dos "melhores momentos" (cof, cof, cof!) de "Django Desafia Sartana" e DJANGO E SARTANA NO DIA DA VINGANÇA colados numa outra trama com apenas 20 minutos de cenas novas. Como se vê, não havia limites para a cara-de-pau para o diretor...

É claro que DJANGO E SARTANA NO DIA DA VINGANÇA não pode ser visto como um bom filme, sequer como um bom western spaghetti. Fidani e sua trupe não estão tentando criar nada de novo ou de original, regurgitando velhos clichês e até velhos personagens já conhecidos do público, e sem esconder que o fazem unicamente em busca de dinheiro fácil - sem nada de artístico ou relevante, digamos.


Por isso mesmo, a obra é pura diversão para quem gosta de cinema ruim, com tantos erros, defeitos e problemas por minuto que é impossível não se pegar rindo, ou pelo menos com muita vergonha alheia de todos os envolvidos nessa bagaça. É o "Sotto-Django" perfeito para assistir embalado por boas doses de álcool e/ou rodeado pelos amigos fãs de trash - além de uma bela introdução para o cinema sem-noção e absurdamente ruim do "mestre" Demofilo Fidani.

PS 1: Como havia acontecido com o filme anterior de Fidani, que no Brasil ganhou o título "Django Desafia Sartana" mesmo que não exista nenhum desafio ou duelo entre os personagens, este aqui também recebeu títulos enganosos nos EUA, como "Final Conflict... Django Against Sartana" e "Django and Sartana's Showdown in the West", levando o espectador a acreditar que verá um grande duelo entre Django e Sartana, quando na verdade eles são "amigos" na história.

PS 2: O IMDB trocou as bolas e creditou Jack Betts como Sartana e Franco Borelli como Django, quando na verdade é o contrário.


Trailer de DJANGO E SARTANA NO DIA DA VINGANÇA



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Arrivano Django e Sartana... È la Fine
(1970, Itália)

Direção: Demofilo Fidani
Elenco: Jack Betts, Franco Borelli, Gordon Mitchell,
Simonetta Vitelli, Attilio Dottesio, Benito Pacifico,
Krista Nell, Ettore Manni e Celso Faria.