sexta-feira, 5 de abril de 2013

Django em quadrinhos!


Desde o começo de 2013, o FILMES PARA DOIDOS publicou 14 resenhas sobre as aventuras oficiais e não-oficiais de Django, além de uma análise geral do universo deste personagem que apareceu pela primeira vez em "Django" (1966), de Sergio Corbucci. Mas a MARATONA VIVA DJANGO! não estaria completa sem falar de uma página esquecida da trajetória do personagem: a sua breve passagem pelas histórias em quadrinhos, que aconteceu... apenas no Brasil!!!

Até hoje eu acho incrível que os italianos nunca tenham pensado em criar uma revista em quadrinhos com aventuras de Django, sendo eles os pais do western spaghetti e do próprio personagem, além de ávidos criadores e leitores de "fumetti" (nome dado aos quadrinhos por lá). Sem contar que eles são especialistas em HQ de bangue-bangue, e criaram personagens famosos como "Tex", "Zagor" e "Ken Parker". Bem, o caso é que enquanto os carcamanos dormiam no ponto, a honra de transpor Django para os quadrinhos coube aos brasileiros, e mesmo assim durante pouquíssimo tempo (apenas duas edições).


A história das histórias em quadrinhos do Django começa em 1981, quando o desenhista argentino naturalizado brasileiro Rodolfo Zalla fundou a Editora D-Arte (ele teve um estúdio com este nome nos anos 60-70, através do qual desenhava trabalhos para outras editoras, mas sempre sonhou em entrar para o ramo). Rodeado de outros célebres desenhistas, como Eugênio Colonnese, Luís Meri e Rubens Cordeiro, Zalla resolveu investir na publicação de duas revistas com quadrinhos 100% nacionais.

Uma delas dispensa maiores apresentações: era a "Calafrio", clássica revista com histórias de horror que marcou toda uma geração. A outra, para diversificar, era a "Johnny Pecos - O Faroeste Sensacional", que trazia histórias de western, e que acabou ganhando uma atenção muito maior dos editores, inclusive com páginas internas coloridas e em papel de melhor qualidade, algo que nunca aconteceu com a "Calafrio" (que sempre foi em preto-e-branco e em papel mais fino).


Hoje pode até parecer uma aposta arriscada, mas naqueles tempos gibis de bangue-bangue faziam muito sucesso no Brasil. O clássico "Tex", por exemplo, na época era publicado pela Editora Vecchi e chegava às bancas em duas revistas diferentes (1ª a 2ª edição, esta última republicando as histórias antigas). "Tex" vendia cerca de 150 mil exemplares por mês no país, e naquele mesmo ano de 1981 tornou-se quinzenal para atender a grande demanda!

Outra prova de que havia mercado era o gibi "Chet", também publicado pela Vecchi entre 1980 e 1982, e que trazia aventuras de um personagem de western criado pelos irmãos pernambucanos Wilde e Watson Portela, visivelmente inspirados no italiano Tex (inclusive Chet é "Tex" ao contrário, com o "X" substituído por "Ch"!). A tiragem mensal desse bangue-bangue 100% brasileiro era de respeitáveis 25 mil exemplares.

Segundo texto do pesquisador Gonçalo Junior no álbum "Calafrio - 20 Anos Depois", os primeiros números de "Calafrio" e "Johnny Pecos" chegaram às bancas no mesmo dia, na semana anterior ao Natal de 1981, com 40 mil exemplares de tiragem e 48 páginas cada em formato europeu.

Mas só um dos lançamentos acertou o alvo, e ironicamente não foi o de bangue-bangue: enquanto o gibi de horror quase esgotou, "Johnny Pecos" mal vendeu 12 mil exemplares - e isso que Zalla esperava uma saída de pelo menos 30 mil gibis. Mesmo assim, o editor resolveu insistir mais um pouco, para ver se a revista deslanchava.

Em seus dois primeiros números, "Johnny Pecos" trouxe aventuras do personagem-título, um mestiço de índio com mexicano criado por fazendeiros americanos (e declaradamente inspirado no western spaghetti "Meu Nome é Pecos", com Robert Woods), e outras histórias curtas que inclusive flertavam com o horror da "Calafrio", volta-e-meia narrando tramas de vingança com finais surpreendentes e irônicos.

A verdade é que as histórias eram curtas e nada memoráveis (ainda mais para uma revista que se auto-proclamava "O Faroeste Sensacional"!). A pior história de "Tex" e "Chet" ainda era melhor que a mais espetacular aventura de "Johnny Pecos", o que dá uma ideia do nível da revista. O que realmente chamava a atenção nesses dois primeiros números da publicação eram as propagandas de página inteira anunciando: "Breve: Django, o western spaghetti! Aventuras completas e coloridas".

O que será que Zalla e cia. estavam armando? Uma quadrinização do filme com Franco Nero ou de alguma das suas imitações, a exemplo das fotonovelas produzidas a partir de filmes para a revista "Ringo", da Editora Rio Gráfica?


O mistério acabou em "Johnny Pecos" nº 3, que trouxe a primeira história em quadrinhos de Django. Na verdade, Zalla resolveu criar suas próprias aventuras do personagem, sem nenhum vínculo com as adaptações cinematográficas - e provavelmente sem pagar nada de direitos autorais, também.

A aventura, chamada apenas "Django", era roteirizada por Luis Meri e desenhada por Zalla, em 10 páginas coloridas. Mostrava o herói enfrentando a quadrilha de bandidos mexicanos liderada por Pancho. Django só aparece a partir da quarta página, e lembra pouco o pistoleiro interpretado por Franco Nero (embora fique claro que o ator foi a inspiração para o traço do personagem).

O curioso é que o texto insinua que Django e o mexicano Pancho já se conheciam, e que o herói quer vingar-se dele. Talvez "Pancho" tenha sido inspirado no General Hugo Rodriguez, interpretado por José Bódalo no filme de Corbucci (a roupa, pelo menos, é bem parecida).

Abaixo você confere as 10 páginas da estreia de Django nos quadrinhos (clique para ampliar e ler):











Na edição seguinte, a quarta (publicada em março de 1982), "Johnny Pecos" trouxe uma curiosa chamada na capa: "Em cores: Django enfrenta Pancho!". Mas peraí... a história anterior tinha terminado com o herói matando seu arquiinimigo mexicano! Bem, como todo leitor de gibis da DC ou da Marvel deve saber, heróis e vilões raramente permanecem mortos nos quadrinhos, e portanto Pancho voltou, ferido, para um segundo round.

Esta nova aventura, também intitulada simplesmente "Django", foi desenhada e dessa vez roteirizada por Zalla (o roteiro ele assinou com seu tradicional pseudônimo "Jota Laerte"). Com 11 páginas, novamente coloridas, traz o herói ouvindo notícias sobre o retorno de Pancho e eliminando o que restou de sua quadrilha, até chegar ao grande vilão... que está agonizando num cemitério (uma ambientação que lembra muito o final do filme de Corbucci).

Abaixo, as 11 páginas da segunda história brasileira de Django:









 


Esta segunda história termina com Django virando as costas e indo embora sem terminar com o sofrimento do rival moribundo ("Valente ou não, não me bato com candidatos a cadáver!", justifica), o que deixava um gancho mais do que evidente para um futuro retorno do mexicano duro de matar numa próxima aventura.

Mas o Django dos quadrinhos jamais chegaria à sua terceira aventura: por causa da baixa vendagem, a Editora D-Arte resolveu cancelar "Johnny Pecos" no número 4, substituindo o título por uma segunda revista de horror (para aproveitar as boas vendas de "Calafrio"), chamada "Mestres do Terror", e que foi igualmente bem-sucedida.

O pobre Zalla acabou sofrendo um grande prejuízo no fim das contas, pois acreditava tanto em "Johnny Pecos" que já tinha preparado material antecipado para mais seis números da revista, incluindo - provavelmente - novas aventuras de Django. Todo esse material segue inédito. Anos depois, outras editoras de pequeno porte (Ninja e Noblet) compraram as histórias já publicadas da "Johnny Pecos" e tentaram ressuscitar a revista, mas sempre sem sucesso e sem passar do primeiro número.

Django só voltaria aos quadrinhos (e aos cinemas) 30 anos depois, em 2013: desde o começo do ano, a DC Comics vem publicando nos Estados Unidos, através do seu selo Vertigo, a quadrinização do filme "Django Livre", de Quentin Tarantino, dividida em cinco números (o último está agendado para sair em junho), e com arte de R.M. Guera e Jason Latour (abaixo, uma amostra).


Não seria uma boa oportunidade para alguma editora brasileira resgatar todo aquele material do Django produzido pelo Zalla nos anos 1980, quem sabe até as tais aventuras inéditas que nunca foram publicadas, e fazer um álbum de luxo para colecionadores? Sabe como é, sonhar não custa nada...

PS 1: Eu mesmo escaneei as páginas e capas da minha coleção particular de "Johnny Pecos" para essa postagem, e deu o maior trabalho. Assim, por favor citem a fonte caso queiram compartilhar esse material em qualquer outro site ou blog. Caso contrário, o Django do Rodolfo Zalla sairá atrás de vocês em busca de vingança...

PS 2: Com esse último capítulo, encerra-se - finalmente - a MARATONA VIVA DJANGO!. Em breve voltaremos à nossa programação normal.

10 comentários:

Macedo disse...

Realmente, esse Johhny Pecos era muito fraco e os desenhos do Rodolfo Zalla também não ajudavam muito. Esse Pancho está parecidíssimo com o Sargento Garcia, talvez pelo fato de que o Zalla desenhava o Zorro para a Disney. Inclusive teve até um crossover bizarro dele com o Mickey e Pateta, hahaha!

O melhor quadrinho-spaghetti era o Durango, da VHD Diffusion, que teve as mãos furadas a tiro e mesmo assim, matou seus adversários.

Jonathan Ribeiro disse...

Eu curto muito quadrinhos de faroeste(na verdade gosto mais dos quadrinhos,que dos filmes.)
Adoro Tex e gostei de saber desse Django nacional,belo post.

laurindo big boss disse...

Laurindo Big Boss, disse: É de lamentar que alguns anos atraz, creio que no inicio da decada de 90, em um sebo, no centro do Rio, chamado Império, vi, esta revista, mas sem nenhum interesse...que pena, pois se arrependimento matasse...Abraços Laurindo Big Boss.

spektro72 disse...

eu tinha varias ediçoes da revista "CALAFRIO " & " MESTRES DO TERROR " dentre outras revistas lançadas por esta editora mas como moramos em um casa pequena depois na metade da decada de 90 doei tudo por falta de espaço de te-las ... meu pai tinha esta revista com as aventuras de DJANGO mas emprestava para o pessoal do trabalho e revista nunca mas voltava para as maõs dele ,ele nem esquentava pois como ele dizia era só papel desenhado..alias ele tambem tinha gibis do TEX,CHET,RINGO & HISTORIAS DO FAROESTE ( este da Editora Vecchi ) meu pai era um sujeito tanto,pena que morreu e com ele morreu um pouco a vontade de rever estes filmes de Western Spaghetti, da muita saudade de quando assisti um, o tempo é cruel.
Nosso Mestre Felipe cada vez nos surpreendendo com os seus post inclusive colocando historias de gibis para encerrar suas materiais
ou como muita gente diz :Encerrou com Chave de Ouro " e encerrou mesmo,Parabens! Viva El Guerra !!!
abraços de Spektro 72

laurindo big boss disse...

Laurindo Big Boss: Ao amigo Spektro 72, minha solidariedade, por um todo, pois quanta falta faz um Pai, com o meu via a saudosa SESSÃO MISTERIO, da GLOBO, COMBATE, OS GUERRILHEIROS, CHAPARRAL, entre outros. Mas a vida continua e com ela temos o nosso amigo e mentor Felipe Guerra, que com suas resenhas e comentários sempre de forma direta e bem humorada, nos faz também voltar a um tempo, onde realmente tudo era diferente, e aqui entre nós, bem melhor. Foi com emoção que li seu comentário...Forte Abraço, Laurindo Big Boss.

spektro72 disse...

Muito Obrigado,Laurindo Big Boss ! por suas gentis palavras eu já me conformei com a morte dele ( meu pai) como você disse, o nosso mestre nos remete á uma outra epoca outro tempo melhor do que esse como você disse tambem.. era melhor mesmo , tanto em TV quanto a educação das pessoas era outro tempo,bons tempos que não voltam mais !! mas a vida segue ,bem! mesmo por que não existe uma maquina do tempo para voltarmos para aquela epoca e então vida segue o seu curso natural.
muito obrigado de coração mesmo, nós não nos conhecemos pessoalmente mas já o considero como um amigo bom e respeitavel.
um grande abraço de Spektro 72

Oz disse...

Excelente post Felipe, muchas gracias por compartirlo, felicitaciones por el Blog. Te quiero invitar a mi nuevo Blog de Cine de Terror que seguramente te gustará, espero tus comentarios en:
http://terror-en-el-cine.blogspot.com/

Un gran saludo, Oz.

Anônimo disse...

Eu não sabia que o Django também tinha aventuras na mídia HQ. Valeu pela divulgação.

Fernando

Anônimo disse...

Nossa! Sensacional! A arte é muito parecida com Tex! Valeu!

James

Leonardo Peixoto disse...

Outros cowboys de filmes italianos ganharam HQs ?