segunda-feira, 29 de outubro de 2012

CASSINO ROYALE (1954)


Fazia um bom tempo que não se falava tanto em James Bond quanto nesses últimos dias e semanas. É um tal de "50 anos de 007" pra cá, novo filme do "James Bourne" Daniel Craig pra lá, e, como sempre, pouquíssimos jornalistas (e blogueiros) foram a fundo e lembraram de citar que a estreia de Bond nas telas na verdade foi há 58 anos, e não 50. Ainda que, nesse caso, as telas fossem as "telinhas" dos televisores norte-americanos, e não as telonas dos cinemas mundiais.

Pois foi com CASSINO ROYALE, adaptação do livro de Ian Fleming para um episódio do seriado de TV "Climax!", que nosso amado espião mulherengo e mortal ganhou sua primeira versão "live action", e isso lá em 1954, quando Sean Connery ainda era um mero figurante no cinema inglês e Daniel Craig sequer tinha nascido (o que aconteceria apenas 14 anos depois, em 1968).


O livro "Cassino Royale" é a primeira aventura literária do espião inglês James Bond, do Serviço Secreto de Inteligência (MI6), cujo nome de código, "007", significa que tem licença para matar. Foi publicado no Reino Unido em abril de 1953 e logo virou um sucesso de vendas. Mas o mesmo não aconteceu nos Estados Unidos, onde a obra foi publicada no ano seguinte, com uma recepção bem tímida e meras 4.000 cópias vendidas em um ano inteiro.

Entretanto, o autor Fleming já pensava grande. Em 1954, Bond já estava em seu segundo livro ("Viva e Deixe Morrer"), e seu criador teve inúmeras reuniões com produtores para tentar levar o personagem ao cinema, onde acreditava que ele teria um grande futuro (pense num visionário).

Infelizmente, ninguém queria bancar um filme de 007 naquela época, e imagine o arrependimento dessas pessoas se pudessem ver o futuro. Os únicos interessados no espião eram os executivos de um canal de TV norte-americano, a CBS. Eles produziam um seriado chamado "Climax Mystery Theater", ou simplesmente "Climax!", que consistia em episódios de no máximo 50 minutos, contando histórias de espionagem e suspense representadas ao vivo (isso mesmo, AO VIVO!).

"Climax!" estreou em 7 de outubro de 1954 com "The Long Goodbye", baseado num livro de Raymond Chandler, e já nesse primeiro episódio aconteceu um furo que entrou para os anais da história da TV ao vivo mundial: no meio da trama, o ator Tristram Coffin, que interpretava um cadáver, simplesmente levantou-se e caminhou para fora do cenário, ignorando que ainda estava dentro do ângulo da câmera, para a surpresa dos telespectadores!


Duas semanas depois, em 24 de outubro de 1954, seria exibido o terceiro episódio do seriado e a primeira aventura de James Bond fora dos livros de Ian Fleming (além, é claro, da primeira das três adaptações de "Cassino Royale", que depois foi transformado em comédia em 1967 e em "reboot" da franquia 007 em 2006).

Diz a lenda que Fleming recebeu apenas mil dólares pelos direitos de adaptação de James Bond para a TV, e nem podia reclamar porque o agente secreto sequer era um personagem popular nos Estados Unidos, onde o livro "Cassino Royale" não foi um sucesso de vendas como na Inglaterra - ironicamente, na abertura do episódio, o apresentador William Lundigan mentia que a aventura era baseada num "grande best-seller"!


Coube a dois roteiristas, Anthony Ellis e Charles Bennett, a honra de ser os primeiros a adaptar os feitos de 007. Enquanto Ellis era, à época, um nome de pouca expressão (e nem alçou maiores voos depois), Bennett era um veterano (nascido em 1899!) especializado em histórias de mistério e suspense, tendo escrito vários roteiros para os primeiros filmes de Alfred Hitchcock (como "Os 39 Degraus" e a primeira versão de "O Homem que Sabia Demais").

Já a direção de CASSINO ROYALE ficou a cargo de William H. Brown Jr., que havia dirigido o episódio de estreia do seriado "Climax!" e também não tem grandes créditos depois deste.


Quando se fala em CASSINO ROYALE, convém não pensar naquele "Duro de Matar no Cassino Royale" dirigido por Martin Campbell em 2006. O livro de Fleming, com aquele ar de pulp fiction de rodoviária, conta uma história bastante simples de espionagem, bem diferente da adaptação à la "Jason Bourne" feita no século 21.

Na trama do livro, o agente 007 James Bond recebe a aparentemente simples missão de jogar bacará contra Le Chiffre, o contador de uma organização terrorista conhecida como Smersh, que é viciado em jogo, mas aposta usando o dinheiro dos seus empregadores. Se Bond ganhar de Le Chiffre, o vilão será automaticamente eliminado pela sua própria organização por ter perdido o dinheiro destinado a operações terroristas e compra de armas.


O espião vai até o Cassino Royale-Les-Eaux, no norte da França, acompanhado pela agente Vesper Lynd. Após uma dramática partida, Bond consegue limpar os 8 milhões de francos de Le Chiffre, mas o vilão reage sequestrando Vesper e torturando 007 de maneira brutal, batendo inúmeras vezes em seus testículos (num trecho que chega a doer no leitor, muito bem representado no filme de 2006). O herói é salvo na hora H por um assassino da Smersh, que foi enviado justamente para eliminar o falido Le Chiffre.

Na conclusão do livro, Bond se apaixonava por Vesper e cogitava até abandonar o Serviço Secreto para casar-se com a agente e levar uma vida normal. Só que a moça cometia suicídio, deixando um bilhete em que explica que estava sendo chantageada e fazia jogo duplo para a Smersh. O último parágrafo da aventura é genial e mostra um 007 muito menos apaixonadinho do que aquele do filme com Daniel Craig: após contar aos seus superiores sobre a traição de Vesper, Bond completa, friamente: "Mas tudo bem, a vagabunda já está morta".


Como o leitor pode perceber, o livro de Fleming não tem nenhum 007 pedreiro fazendo "le parkour" e explodindo tudo que encontra pelo caminho, e é esse mesmo clima do livro que se vê nessa primeira adaptação de Bond para a TV norte-americana. Embora, claro, com uma série de modificações e simplificações, até para adequar a violenta trama de espionagem de Fleming para o formato televisivo (pior: formato televisivo AO VIVO).

Mas a maior das liberdades poéticas tomadas pelos roteiristas Ellis e Bennett foi que, para tornar James Bond mais simpático aos olhos do espectador norte-americano, ele deixou de ser um espião do Serviço Secreto Britânico para transformar-se num agente ianque (!!!) da fictícia Combined Intelligence Agency (uma alusão nada sutil à CIA), e interpretado por um ator californiano, Barry Nelson ("O Iluminado").


Como o formato de TV ao vivo não permitia muita movimentação ou cenas de ação elaboradas, CASSINO ROYALE se passa unicamente no interior do hotel-cassino que dá nome ao filme, e a narrativa é dividida em três atos separados por intervalos comerciais.

No primeiro ato, o agente norte-americano (hehehe) James Bond chega ao Cassino Royale e encontra seu contato, Clarence Leiter (Michael Pate). Clarence é a versão televisiva de Felix Leiter, que nos livros é um agente da CIA (e nos filme seguintes também). O irônico é que, aqui, ele trocou de papéis com o herói: Bond passa a ser o americano da CIA, e Leiter o agente inglês! Os dois conversam sobre a missão do herói (vencer Le Chiffre na mesa de jogo) e sobre as regras do bacará, até para que os espectadores não ficassem boiando, já que o jogo não é tão popular nas Américas quanto é na Europa.


No segundo ato transcorre o jogo de bacará propriamente dito, mas a adaptação para a TV falha em passar a sensação de urgência e de tensão do livro, melhor representada no filme de 2006. Após um início desanimador, Bond vence a partida e limpa Le Chiffre, ganhando um cheque milionário da direção do cassino.

Finalmente, no terceiro e último ato, o herói é aprisionado pelo vilão e por seus homens, que o torturam para descobrir onde ele escondeu o tal cheque. Como o esmagamento de testículos não iria ficar muito bem na TV, Bond sofre outra tortura nada agradável: as unhas dos seus pés são arrancadas com alicate - off-screen, é lógico. Le Chiffre acaba encontrando o cheque, mas a essa altura o agente já conseguiu se soltar e pode tranquilamente atirar em seus agressores. Fim do episódio.


Com um James Bond despido de suas principais características e pouco atuante na maior parte da história, a melhor coisa de CASSINO ROYALE é o vilão Le Chiffre, interpretado pelo sempre eficiente Peter Lorre. Por coincidência, isso de o vilão roubar a cena do herói é algo que se repetiria em várias aventuras posteriores da série 007 no cinema.

Eternamente marcado por seu papel no clássico "M, O Vampiro de Dusseldorf", Lorre compõe um vilão ameaçador de voz irritante e olhar psicótico. Curioso é que Le Chiffre, o primeiro vilão de uma aventura literária de Bond, também foi o primeiro inimigo de 007 nas telas, e Lorre o primeiro ator a interpretá-lo (Orson Welles e Mads Mikkelsen fariam o mesmo vilão em 1967 e 2006). Para não confundir o espectador com excesso de informação, Le Chiffre aqui é simplesmente um espião inimigo russo, sem que seja feita nenhuma referência à organização Smersh.


Além do James Bond ianque e do "Clarence Leiter" inglês, uma outra personagem bastante modificada em relação à sua contraparte literária é Vesper Lynd, primeiro interesse romântico de 007 no livro, e que aqui foi substituída por uma agente do Serviço Secreto Francês chamada Valerie Mathis - talvez uma referência a René Mathis, que no livro era um agente francês que não aparece nessa adaptação para a TV.

A honra de ser a primeira Bond Girl coube à mexicana Linda Christian, mas sua personagem tem pouco ou nada em comum com a Vesper Lynd do livro, sendo representada apenas como uma ex-namorada de Bond que agora é amante de Le Chiffre (na verdade, uma agente infiltrada para monitorar os passos do vilão). Bond e Valerie ficam juntos no final, ignorando a conclusão trágica do livro.


CASSINO ROYALE não é, nem com muita boa vontade, um bom filme, e nem sequer uma apresentação digna de James Bond como "herói de ação". A julgar por essa sua estreia televisiva, ninguém jamais poderia imaginar que em apenas oito anos (com "007 Contra o Satânico Dr. No", de 1962) teria origem uma das franquias mais famosas e lucrativas da história do cinema.

E é claro que, por não ser um episódio "oficial" da série iniciada com "O Satânico Dr. No", esse aqui também não tem nenhum dos elementos que tornaram 007 famoso no cinema: o imortal tema musical de John Barry, a vinheta animada com Bond disparando contra o espectador, a famosa apresentação "Bond, James Bond", os gadgets que o espião usa para se safar das enrascadas, e nem sequer o "martini mexido, mas não batido".

Mas o curioso é que a abertura do seriado "Climax!" lembra um pouco a famosa vinheta do "cano de revólver apontado contra Bond", quando o ponto de vista da câmera "entra" por dentro da lente de uma câmera de TV para apresentar o elenco e o título da série (imagens abaixo). Parece que a qualquer momento vai aparecer Barry Nelson caminhando e atirar contra o espectador, como fariam os Bonds depois dele! Vai ser visionário assim lá na PQP!


Mesmo com as inúmeras limitações narrativas impostas pelo formato televisivo (AO VIVO, lembrando mais uma vez), CASSINO ROYALE até tenta criar algumas situações de suspense e perigo - esporádicas, é verdade, mas ainda assim presentes. O episódio já começa, vejam só, com Bond escapando por pouco de um atentado a tiros na entrada do Cassino Royale. Parece que a história toda será nessa pegada, mas infelizmente o foco logo recai sobre a chatíssima partida de bacará.

O máximo de "excitação" que o espectador vê a partir de então é o herói sendo ameaçado por uma "bengala-espingarda" pressionada nas suas costas por um dos capangas de Le Chiffre, e depois apenas a conclusão com a tortura e vingança de Bond. A narrativa é ancorada nos diálogos entre os personagens, que tentam passar urgência e tensão através de telefonemas e ordens dadas sem muita convicção. É pouco para o personagem que viraria praticamente um exemplo de ação e emoção nos filmes posteriores, mas vamos combinar que o livro de Ian Fleming também não era exatamente movimentado e emocionante.


Fechando um olho para a narrativa televisiva típica da época, o grande defeito de CASSINO ROYALE, ainda mais considerando o que viria depois, é o Bond de Barry Nelson. Ele em nada, mas nada mesmo, lembra o personagem literário ou suas futuras encarnações cinematográficas. Com cabelo escovinha e um smoking barato, falta-lhe o charme, a ousadia e até a ironia ao enfrentar o perigo. Nelson representa Bond como se fosse um cowboy, ou mesmo um detetive daqueles filmes classe B da época, disparando frases prontas e engraçadinhas ao invés de tiros - quando Leiter pergunta se ele era o sujeito em quem atiraram na entrada do cassino, Bond responde: "Não, eu sou o sujeito que erraram".

Também não ajuda o fato de o roteiro dar mais destaque às supostas habilidades de Bond como jogador de cartas do que à sua "licença para matar" (que sequer é citada). Não que habilidades específicas sejam importantes nesse caso (e não eram no livro ou na adaptação de 2006), pois o bacará é um jogo mais de sorte do que de técnica - o próprio herói explica que "é como qualquer jogo: você não pode perder". Para piorar, Bond é várias vezes chamado de "Jimmy" Bond, porque os americanos adoram esses apelidos diminutivos engraçadinhos!


Enfim, eu sempre achei bastante curioso o argumento do livro de Fleming, que coloca um super-espião para enfrentar um vilão perigosíssimo não com a força bruta, nem com a astúcia, mas sim com a pura sorte num jogo de cartas! O problema é que CASSINO ROYALE nunca consegue convencer o espectador da importância desta partida (a adaptação de 2006 foi muito mais eficiente nesse sentido), e a dita cuja acaba sendo só isso mesmo, uma enfadonha partida de cartas cujas regras o espectador sequer entende direito.

Se Jimmy Bond e Le Chiffre parecem tensos na mesa, essa tensão nunca se estende ao espectador, e por isso é questionável o porquê de uma história dessas ter sido adaptada para um seriado supostamente especializado em tramas de suspense!


Mesmo assim, parece que CASSINO ROYALE teve audiência e repercussão suficientes para que a CBS contratasse Ian Fleming para escrever outras histórias do agente "Jimmy" Bond para o seriado. Só que, apesar de o autor ter escrito uns 30 roteiros, eles acabaram nunca sendo filmados, e o próprio Fleming reutilizou os argumentos em alguns dos seus livros posteriores.

Um tanto insatisfeito com o tratamento dado ao personagem pela TV norte-americana, e pelo pouco-caso com as outras aventuras que escreveu, Fleming continuou batendo de porta em porta de produtores, até finalmente conseguir vender seu peixe para Albert R. Broccoli e Harry Saltzman, que fizeram "O Satânico Dr. No" oito anos depois. O sucesso estrondoso desse "novo" 007, interpretado com muito mais charme e cinismo pelo escocês Sean Connery, mandou o Jimmy Bond de Barry Nelson direto para a obscuridade.


Mas antes de enfrentar o Dr. No no cinema, James Bond atacou também nos quadrinhos, mais especificamente em aventuras divididas em tiras diárias publicadas no jornal Daily Express (imagem acima). E a primeira aventura adaptada para este formato foi novamente "Cassino Royale", cujas tiras foram publicadas entre julho e dezembro de 1958, com texto de Anthony Hern e desenhos de John McLusky.

Entre essa pioneira e a estreia de "O Satânico Dr. No" nos cinemas em 1962, outras dez aventuras de 007 viraram tiras de quadrinhos (inclusive "Dr. No", publicada em 1960), e mais seriam produzidas até o final da década de 70.


Já o seriado "Climax!" teve vida longa e chegou a quatro temporadas, encerrando em junho de 1958. Pelo menos dois cineastas famosos tiveram suas primeiras experiências nesta série: John Frankenheimer, que dirigiu 26 episódios entre 1955 e 56, e Arthur Hiller ("Love Story"), responsável por dois episódios.

Se nenhum dos outros roteiros de Fleming chegou a ser adaptado, "Climax!" pelo menos contou com roteiristas como Rod Serling e Gore Vidal no seu quadro de roteiristas, e com a participação de atores do calibre de Vincent Price, Lon Chaney Jr., John Carradine, Lee Marvin, Boris Karloff, Charlton Heston, John Cassavetes, Henry Silva, Vera Miles e até uma jovem Betsy Palmer, que décadas depois ficaria imortalizada como a mãe de um certo Jason na série "Sexta-feira 13".


Infelizmente, como aconteceu com boa parte do material dos primórdios da TV, os episódios de "Climax!" foram considerados perdidos, e CASSINO ROYALE é um dos poucos que foi salvo da obscuridade após anos de investigações feitas por colecionadores - uma missão tão complexa que seria digna do próprio 007, mas não do fracotão Jimmy Bond!

No fim, das três versões já produzidas para o livro de Ian Fleming, confesso que a minha preferida é a comédia débil mental de 1967. Talvez pelo elenco de astros, talvez pela zona total que é aquele filme, talvez pela quantidade de musas do cinema de outra época, talvez pelo clima de gozação geral com a franquia, talvez simplesmente porque eu seja um débil mental. Eu até gostei do "Cassino Royale" de 2006, mas o filme cai muito nas revisões.


Até porque já torrou o saco essa onda de "hiper-realismo" no cinema, com Batman realista, Bond realista e o caralho a quatro. A graça de 007 é justamente o absurdo, o exagero e o clima de história em quadrinhos das suas aventuras (algo exclusivo do cinema, que não existia nos livros de Ian Fleming). Transformá-lo num espião "mais humano" e sem os absurdos é o mesmo que fazer um novo "Porky's" sem mulher pelada, ou um novo "Sexta-feira 13" sem mortes.

E vale registrar que o maior beneficiado com a existência desse CASSINO ROYALE de 1954 é o Daniel Craig. Afinal, graças ao descaracterizado e sem graça Bond de Barry Nelson, o dele passa a ser apenas o segundo pior 007 do cinema, e não "o" pior.

Veja CASSINO ROYALE na íntegra!


*******************************************************
Climax! Presents Casino Royale (1954, EUA)
Direção: William H. Brown Jr.
Elenco: Barry Nelson, Peter Lorre, Linda Christian,
Michael Pate, Eugene Borden, William Lundigan,
Jean Del Val e Gene Roth.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

ZOMBIETHON - A HORA DOS ZUMBIS (1986)


Naqueles hoje longínquos anos 80, quando você tinha que depender da boa vontade das distribuidoras para que os filmes chegassem aos cinemas e videolocadoras brasileiras, a vida de cinéfilo não era nada fácil. Para fãs de horror, então, era um verdadeiro pesadelo: clássicos essenciais, como "O Massacre da Serra Elétrica" e "Zombie - O Despertar dos Mortos", só saíram em vídeo por aqui quase 20 anos depois de seu lançamento original!

Claro, eram outros tempos, e ninguém imaginava que um dia fosse existir algo como a internet, e com ela a capacidade de poder baixar em poucas horas qualquer filme - inclusive um que acabou de estrear nos cinemas, às vezes meia hora após sua primeira exibição!!! E como na década de 80 isso era ficção científica, muitos cinéfilos (inclusive eu) tiveram seu primeiro contato com obras de Jess Franco, Lucio Fulci, Riccardo Freda e Jean Rollin graças a uma bizarra produção chamada ZOMBIETHON - A HORA DOS ZUMBIS, lançada em nossas locadoras pela extinta Top Tape.


ZOMBIETHON é uma daquelas doideiras que o mercado de VHS de vinte-e-poucos anos atrás permitia: não é exatamente um filme, mas sim uma colagem de imagens de sete produções obscuras, quase todas europeias (italianas e francesas), sobre mortos-vivos. Verdade seja dita, alguns desses filmes sequer têm mortos-vivos, mas foram incluídos na coletânea de qualquer jeito!

O desavisado que fosse seduzido pela (linda) arte da capa nem imaginava o que estava por assistir. O título mais ou menos entrega que se trata de uma maratona de filmes de zumbis (Zombie + Marathon = Zombiethon... Dã!!!), mas a maneira como é apresentada esta "maratona" é simplesmente hilária: as "melhores cenas" dos sete filmes são exibidas no esquema "corte seco", com saltos na trilha sonora e tudo mais, e o editor deixou algumas partes que não são exatamente "melhores cenas" e tampouco têm zumbis, mas mostram bastante mulher pelada (como Olga Karlatos banhando-se em "Zombie", abaixo).


No filme, não há nenhuma informação relevante que identifique para o espectador quem fez, quem produziu ou quem aparece nessas sete produções selecionadas, além da cartela de título de cada uma delas - e, nesse caso, com o título em inglês, o que certamente deve ter dado um nó na cabeça de muito cinéfilo naqueles tempos pré-IMDB, quando as fontes de pesquisa sobre cinema eram escassas e incompletas.

Para tornar tudo ainda mais excêntrico, pequenas vinhetas envolvendo zumbis e garotas gostosas foram filmadas em Super-VHS por Ken Dixon, e esses trechos foram inseridos para separar uma colagem de cenas alheias da outra. Se é difícil de entender lendo, ver a bagaça é uma experiência muito mais surreal!


As produções "homenageadas" com a reutilização de suas melhores cenas são, em ordem de exibição: "Zombie" (Itália, 1979), de Lucio Fulci; "Zombie Lake" (França, 1981), de Jean Rollin; "Oasis of the Zombies" (França, 1982), de Jess Franco; "Murder Obsession / Follia Omicida" (Itália/França, 1981), de Riccardo Freda; "La Vie Amoureuse de L'Homme Invisible" (França/Espanha, 1970), de Pierre Chevalier; "A Virgin Among the Living Dead" (França/Itália, 1973), de Jess Franco, e "The Astro-Zombies" (EUA, 1968), de Ted V. Mikels.

O IMDB informa que também aparecem cenas do clássico "White Zombie", de 1932, mas não vi nada nem remotamente parecido com "White Zombie" nessa colagem, então deve ter sido delírio do site.


Analisando a seleção, o digníssimo leitor do FILMES PARA DOIDOS pode até questionar os critérios para a escolha. Seriam essas as obras mais representativas da cinematografia morta-vivente? Cadê os filmes de George A. Romero? Ou, para ficar só nos europeus, cadê os mortos cegos do espanhol Amando de Ossorio? E os outros filmes de zumbis dirigidos pelo Fulci ("Pavor na Cidade dos Zumbis", "A Casa do Cemitério" e "The Beyond")? E "Let The Sleeping Corpses Lie", de Jorge Grau? E as trasheiras tipo "Hell of the Living Dead", do Bruno Mattei, e "Nightmare City", do Umberto Lenzi? E por que pegaram o pior filme de zumbis do Rollin ao invés do seu muito superior "The Grapes of Death"?

A verdade é que não houve seleção alguma, muito menos um mínimo de bom senso. ZOMBIETHON foi produzido para lançamento em VHS pela Wizard Video, uma pequena distribuidora norte-americana que pertencia, veja você, ao mítico produtor classe B Charles Band! A Wizard começou suas atividades em 1981, e foi a responsável por colocar no mercado dos Estados Unidos as fitas seladas de "O Massacre da Serra Elétrica", "A Vingança de Jennifer", "Zombie" e muitos outros clássicos do horror.


Assim, esta "coletânea" simplesmente traz cenas de filmes cujos direitos de distribuição pertenciam a Band e sua pequena companhia, e não exatamente as obras mais famosas ou representativas envolvendo mortos-vivos, como o espectador desavisado pode ser levado a crer pela proposta. E não, eu não sei se os direitos de distribuição autorizavam a empresa a remontar filmes alheios.

O que sei é que a Wizard Video foi responsável por diversas outras picaretagens do mesmo nível. Em 1985, por exemplo, a empresa lançou um "filme" chamado "Prisioneiras da Ilha Selvagem", que nada mais é do que uma remontagem de duas produções ítalo-espanholas obscuras do começo da década ("Escape From Hell" e "Orinoco: Prigioniere del Sesso", ambas dirigidas por Edoardo Mulargia), com mais cinco minutos de cenas originais no começo e no final, filmadas nos Estados Unidos e sem relação alguma com o resto, onde aparecem atores conhecidos como Linda Blair e o mágico-humorista Penn Jillette!


Enfim, Band e a Wizard Video logo perceberam que era rápido e lucrativo investir em "coletâneas temáticas" contendo as supostas melhores cenas dos filmes que distribuía (no juízo deles mesmos, é claro). Desse jeito, era muito fácil ter um novo longa-metragem completinho para vender às locadoras, geralmente filmando uns cinco minutinhos de cenas novas para costurar as outras já prontas.

E isso também acabava funcionando como marketing: quem assistia uma dessas coletâneas e gostava das cenas de algum dos filmes apresentados, depois voltava à locadora em busca da fita deste filme, e Band e cia. lucravam ainda mais! Simples e eficiente, não? Ah, se essas pessoas soubessem que um dia teríamos YouTube para conferir as melhores cenas dos filmes...


Além de ZOMBIETHON, a Wizard Video produziu outras três coletâneas: "The Best of Sex and Violence", de 1981, com cenas de "Armadilha Para Turistas", "A Vingança de Jennifer" e filmes eróticos softcore; "Famous T & A", de 1982, um suposto "documentário" mostrando cenas com atrizes famosas nuas (como Ursula Andress em "A Montanha dos Canibais", Claudia Cardinale, Nastassja Kinski e outras musas), e finalmente "Filmgore", de 1983, dessa vez compilando mortes sangrentas tiradas de "Banquete de Sangue", "O Massacre da Serra Elétrica", "O Assassino da Furadeira" e outras produções alheias.

ZOMBIETHON foi a última aposta da Wizard nesse estilo, já em 1986, quando a companhia ia mal das pernas (ela encerrou suas atividades no final daquela década). Não é nenhuma surpresa o fato de as quatro coletâneas serem creditadas ao mesmo responsável: Ken Dixon.


Em sua filmografia como diretor, Dixon tem apenas duas produções bem obscuras feitas nos anos 70, antes de jogar-se de cabeça na realização dessas antologias de melhores cenas para a Wizard Video. Talvez como uma espécie de compensação, Charles Band depois foi produtor executivo do último longa dirigido por Dixon, o inacreditável "Rebelião nas Galáxias", de 1987 - esse totalmente filmado por ele, sem cenas alheias costuradas no meio. Desde então, Ken Dixon mergulhou de volta na obscuridade.

O curioso é que o sujeito demonstra certo talento nas vinhetas que filmou para ZOMBIETHON. Percebe-se, inclusive, que Dixon se inspirou na obra de alguns dos diretores "homenageados", como Franco e Rollin, já que suas cenas se resumem a belas garotas em trajes sumários ou fetichistas (tipo roupinha de colegial) sendo perseguidas por zumbis e correndo para buscar abrigo num cinema, igualmente povoado por mortos-vivos, e onde está sendo exibida a tal maratona de filmes de gênero.


Não há nenhum desenvolvimento de personagens ou de suas ações nessas vinhetas e elas só servem mesmo como uma maneira criativa de dividir as cenas dos outros filmes para não virar bagunça, já que estas são a grande atração de ZOMBIETHON. Logo, as garotas perseguidas sequer têm nomes (nos créditos, são identificadas simplesmente como "Zombie Magnets"), e os mortos-vivos também pipocam do nada, sem muita justificativa.

Mesmo assim, alguns momentos são bem divertidos, principalmente os que se passam no cinema - como aquele em que o projecionista zumbi corta o próprio dedo ao invés do pedaço do rolo de filme; ou o morto-vivo que arranca a cabeça do cadáver muito mais alto sentado na sua frente, que está atrapalhando a sua visão!


As maquiagens de Joe Reader e David Lady se resumem a umas máscaras imóveis e inexpressivas, que parecem ter sido compradas numa loja de fantasias de Halloween. Lá pelas tantas, aparece até um absurdo e injustificável "zumbi futurista" (!!!), mais para robô do que para morto-vivo, e cujo traje deve ser sobra de algum filme bagaceiro de ficção científica, reaproveitado aqui para cortar despesas.

Posso estar sendo generoso demais, mas Dixon às vezes até mostra um pouco de potencial para fazer seu próprio filme de zumbis, como no momento em que um morto-vivo emerge da areia da praia (cena provavelmente inspirada em "Oasis of the Zombies", de Jess Franco). Os efeitos bagaceiros não ajudam, mas mesmo assim o diretor tentou criar algum clima. Será que ele tinha pretensões de fazer o seu próprio zombie movie? Ficou só no sonho mesmo.


O bizarro da coisa toda é que como ZOMBIETHON não traz nenhuma informação sobre as pessoas responsáveis pelas cenas dos filmes exibidos, e foi lançado numa época em que fontes de pesquisa eram bem limitadas, muita gente pode ter pensado que o próprio Ken Dixon foi o responsável por tudo. Até porque o único crédito que aparece é "Produced and directed by Ken Dixon", tirando o mérito de Fulci, Franco, Rollin e dos outros!

Outro detalhe que prejudicava a pesquisa posterior: foram usadas as cenas dubladas em inglês (escondendo a língua original e a procedência dos filmes), e as cartelas com títulos norte-americanos, alguns bem alternativos. Muita gente deve ter suado para encontrar "Murder Obsession / Follia Omicida", pois aqui o filme de Freda foi rebatizado apenas como "Fear"; já "La Vie Amoureuse de L'Homme Invisible" aparece como "The Invisible Dead"!


Como já escrevi lá em cima, o maior problema da bagaça é que, num filme chamado ZOMBIETHON, pouquíssimas das obras "homenageadas" realmente são sobre zumbis e mortos-vivos. Inclusive algumas só aparecem porque eram distribuídas pela Wizard Video e a empresa queria divulgá-las, mesmo penando para forçar uma ligação mínima com o tema da coletânea.

Mortos-vivos MESMO, só em "Zombie", "Zombie Lake" e "Oasis of the Zombies". Nas cenas de "Murder Obsession" vemos um único zumbi perseguindo uma moça seminua no que parece ser uma cena de pesadelo, mas a falta de cadáveres ambulantes é compensada por violentos assassinatos com machado e motosserra. "La Vie Amoureuse de L'Homme Invisible" é sobre um homem-gorila invisível (fotos abaixo), e o mais perto de um morto-vivo aparece quando um casal vai roubar uma sepultura. Já "The Astro-Zombies" é sobre um alienígena assassino e um cientista louco interpretado por John Carradine, e totalmente "zumbi free".


Porém o caso mais curioso é o de "A Virgin Among the Living Dead": o filme original, dirigido por Franco, chamava-se "Christina, Princesse de L'Érotisme" e não tinha zumbis, puxando mais para o terror gótico e para o erotismo softcore. Alguns anos depois, o produtor Marius Lesoeur, da Eurociné (que detinha os direitos sobre a obra), pagou uma graninha para que Jean Rollin filmasse, num único dia, 20 minutos de cenas com mortos-vivos, que foram incluídas na montagem original para que o filme pudesse ser relançado nos cinemas com o nome "A Virgin Among the Living Dead"!!!

Como são essas cenas (tosquíssimas) filmadas por Rollin que aparecem em ZOMBIETHON, cabe ao diretor francês, e não a Jess Franco, a "honra" de estar representado por duas obras diferentes na coletânea da Wizard Video (suas cenas bastardas para "A Virgin Among the Living Dead" e suas cenas oficiais para "Zombie Lake").


Se nos Estados Unidos estas antologias da Wizard funcionavam para atiçar a curiosidade do espectador e levá-lo às videolocadoras em busca dos filmes completos, aqui no Brasil ZOMBIETHON teve um papel ainda mais importante e fundamental: durante uns 15 anos, pelo menos, essa seleção de melhores cenas era a única maneira de os fãs de horror conhecerem as produções apresentadas, pois nenhuma delas foi lançada em vídeo no país - e a maioria permanece inédita até hoje, em DVD.

Tenho um carinho especial por ZOMBIETHON justamente por causa disso: foi graças a ele que vi, pela primeira vez, as fantásticas imagens do "Zombie" de Fulci, especialmente a luta aquática do zumbi com o tubarão e a violenta imagem do olho de Olga Karlatos sendo perfurado num pedaço de madeira (fotos abaixo). Aí depois você saía atrás dos filmes completos e não os encontrava, o que era bastante frustrante. Por outro lado, quem poderia prever que logo teríamos internet e download de alta velocidade à nossa disposição?


Hoje, produções tipo ZOMBIETHON valem somente pela nostalgia. Se em 1986 era muito difícil você encontrar os filmes "homenageados", hoje você pode comprar ou baixar tranquilamente edições luxuosas em DVD e blu-ray, com imagem e som remasterizados e em widescreen. Alguns dos filmes inclusive foram lançados em DVD no Brasil ("Zombie" pela Works e "Oasis of the Zombies" e "Zombie Lake" pela Vinny Filmes, todos em edições bem pobrinhas e indignas).

Assim, não tem mais muito propósito você ver uma bagaça como essa, que além de não trazer os filmes na íntegra, ainda traz versões porcas, com imagem ruim, dublagem em inglês e formato em tela cheia que corta as laterais. Sem contar que os FINAIS de alguns dos filmes são mostrados, estragando a surpresa de quem não viu as obras completas. Se em 1986 você não tinha muita opção além disso, hoje já tem - e muitas. Portanto, ZOMBIETHON só serve mesmo para aliviar aqueles ataques de saudosismo, quando você quer se lembrar de como eram os tempos do VHS.


Por outro lado, se em teoria o que vemos aqui são as "grandes cenas" dos filmes escolhidos (algo em torno de 5 a 15 minutos por obra homenageada, dependendo da quantidade de zumbis em cada uma delas), ZOMBIETHON pode ser uma boa alternativa para você sacar as melhores partes de bombas como "Zombie Lake" e "The Astro-Zombies", poupando seus neurônios da triste experiência de encarar os filmes inteiros!

PS: Além dessas antologias de "melhores cenas" e das remontagens picaretas de filmes alheios, a Wizard Video também foi uma das primeiras companhias a se aventurar no desenvolvimento de jogos para Atari baseados em filmes - nesse caso, filmes de horror! Inclusive foi a Wizard que fez os clássicos jogos inspirados em "Halloween" e em "O Massacre da Serra Elétrica", e que na época eram proibidos para menores de 18 anos! Mas isso é assunto para outra postagem...


*******************************************************
Zombiethon (1986, EUA)
Direção: Ken Dixon (e, não-creditados, Lucio Fulci,
Jean Rollin, Jess Franco, Riccardo Freda, Pierre
Chevalier e Ted V. Mikels)
Elenco: Karrene Janyl Caudle, Tracy Burton, Paula
Singleton, Janelle Lewis, Randolph Roehbling e
Chuck Spero (além do elenco original dos sete filmes
apresentados).


*****

Essa postagem foi uma justa e tardia forma para divulgar a Mostra Spaghetti Zombies 2.0, que desde a semana passada está apresentando os mortos-vivos do cinema de horror italiano aqui em São Paulo (cartaz genial ao lado, criado por Leopoldo Tauffenbach).

O evento foi realizado pela primeira vez em Recife pelo meu amigo Osvaldo Neto, do blog Vá e Veja, e recebeu uma edição "revista e ampliada" aqui em São Paulo com a colaboração de Eduardo Santana, diretor do CineFantasy.

Boa parte do filé mignon já foi servida, mas ainda serão exibidas maravilhas como "A Terceira Porta do Inferno", de Claudio Fragasso (sexta, 26/10, 16 horas), "Nightmare City", de Umberto Lenzi (sexta, 26/10, 18 horas), "Hell of the Living Dead", de Bruno Mattei (sábado, 27/10, 16 horas), e o inacreditável e hilário "Le Notti del Terrore", de Andrea Bianchi, lançado em VHS no Brasil como "A Noite dos Mortos-Vivos" (sábado, 27/10, 18 horas). Tudo com entrada franca, na Biblioteca Viriato Corrêa (Rua Sena Madureira, 298 / Perto do Metrô Vila Mariana).