quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Felipe M. Guerra entrevista...


Sempre que participo do Fantaspoa - Festival Internacional de Cinema Fantástico de Porto Alegre, eu prefiro investir meu tempo conversando com os diretores participantes ao invés de assistir três ou quatro filmes por dia, como fazem muitos espectadores. No deste ano, resolvi ampliar a experiência da troca de ideias com os cineastas para um público maior, usando minha velha câmera mini-DV para gravar entrevistas com os caras que fizeram os filmes que eu mais gostei.

É uma tentativa de valorizar o trabalho desses cineastas iniciantes e quem sabe torná-los mais conhecidos no Brasil. Até porque alguns deles estavam lançando seu primeiro filme no Fantaspoa, e talvez amanhã sejam grandes nomes do gênero, e aí ficará relativamente mais difícil entrevistá-los.

Nos vídeos abaixo, o leitor do FILMES PARA DOIDOS pode conferir minhas entrevistas com os cineastas norte-americanos Todd E. Freeman ("Cell Count") e Zack Parker ("Scalene"); com o canadense Casey Walker ("A Little Bit Zombie"); o inglês Alex Chandon ("Inbred"); o argentino Nicolás Goldbart ("Fase 7"), e o espanhol Tirso Calero ("Carne Cruda").

Já falei rapidamente aqui no blog sobre o quanto gostei dos seus filmes, e nessas entrevistas o leitor poderá conhecer mais sobre as obras (com cenas dos filmes, inclusive) e sobre os próprios realizadores, que falam sobre suas influências, referências e o cinema fantástico moderno. Para poupá-los do meu inglês horrível e do meu "portunhol", substituí as perguntas que fiz por legendas com os temas discutidos.

Sei que nem todos gostam de ver entrevistas em vídeo, e eu mesmo prefiro as entrevistas transcritas (por escrito). Mas reserve um tempinho para ver e ouvir o que esses caras têm a dizer. Afinal, eles podem ser os Stuart Gordons, John Carpenters e David Cronenbergs de amanhã.


Entrevista com Alex Chandon
 

 
Entrevista com Nicolás Goldbart
 

 
Entrevista com Casey Walker
 

 
Entrevista com Todd E. Freeman
 

 
Entrevista com Tirso Calero
 

 
Entrevista com Zack Parker
 

terça-feira, 18 de setembro de 2012

NINJA THUNDERBOLT (1985)


Como é que um blog pode se chamar FILMES PARA DOIDOS se nenhuma das suas 284 postagens fala sobre Godfrey Ho? Mea culpa. Portanto, a postagem de hoje pretende corrigir esta injustiça e finalmente analisar uma obra de Ho, este célebre mestre oriental da picaretagem que alguns pesquisadores chamam de "Ed Wood de Hong-Kong", e cujo conjunto da obra já seria motivo suficiente para que ele fosse eleito santo padroeiro do blog, e não apenas um simples homenageado.

O IMDB informa que Godfrey Ho dirigiu 121 filmes. Mas não se engane: é bem provável que ele tenha feito o dobro disso, já que muitos dos seus trabalhos mais antigos simplesmente desapareceram, ou então foram assinados com pseudônimos e ninguém consegue provar a "autoria" de Ho. Ainda segundo o IMDB, o diretor usou nada menos de 50 nomes falsos ao longo de sua carreira, assinando tralhas como Bruce Lambert, Kurt Spielberg, Raymond Woo e até o muito apropriado "Ed Woo" (!!!), entre outros.


Uma rápida biografia: depois de ter estudado cinema em Hong-Kong e no Canadá, Ho foi assistente do respeitado cineasta Cheh Chang em diversas das suas obras, incluindo a co-produção Ocidente (Hammer) e Oriente (Shaw Brothers) "The Legend of the 7 Golden Vampires", que foi co-dirigida por Chang.

A partir do final dos anos 70, ele uniu-se aos produtores Tomas Tang e Joseph Lai para dirigir uma cacetada de filmes de artes marciais na Coréia do Sul (onde os custos eram menores).


O ponto de virada na carreira do "Ed Wood oriental" foi na década de 80. Tudo graças a uma aventura produzida pela Cannon Films, "Ninja, A Máquina Assassina", com o italiano Franco Nero no papel de um ninja ocidental. O filme era ruim de doer, mas estava faturando bem até nos cinemas orientais!

O produtor Joseph Lai, velho amigo de Ho, tinha fundado sua própria empresa (IFD Films & Arts), ficou admirado com o sucesso do filme com o ninja italiano e sugeriu a Godfrey que aproveitassem a febre rodando várias aventuras barateiras a preço de banana, e igualmente estreladas por um ninja ocidental. Até segunda ordem (ou seja, até que a filmografia de Godfrey Ho seja devidamente investigada e atualizada), o filme que abriu a bem-sucedida "série ninja" de Ho e Lai foi NINJA THUNDERBOLT, atual objeto de nossa análise.


Para o papel que foi de Franco Nero em "Ninja, A Máquina Assassina", a dupla decidiu chamar outro ator que, apesar de ter nascido nos Estados Unidos, fazia muito mais sucesso em westerns e policiais italianos: Richard Harrison. O motivo da escolha do ator não foi pelos dotes interpretativos (bastante limitados) e muito menos por ele saber lutar ou mover-se como um ninja (não sabia nenhum dos dois), mas apenas porque Harrison era fisicamente parecido com Franco Nero!!!

Harrison e Ho haviam se conhecido anos antes no set de "Marco Polo" (1975), um épico dirigido por Cheh Chang (de quem Godfrey era assistente, lembra?). Consta que o ator ficou impressionado com a animação daquele jovem que sonhava em ser cineasta, e por isso não pensou duas vezes em participar do seu filme de ninja por um cachê bem menor que o usual. Harrison não fazia ideia de como iria se arrepender por isso depois...


Ho e Lai agora tinham um "astro" parecido com Franco Nero e a ideia de uma aventura com ninjas. Só faltava um, digamos, pequeno detalhe: Joseph Lai não tinha dinheiro para produzir UM FILME INTEIRO. Resolveram, então, usar uma estratégia que já era comum nas suas velhas produções de artes marciais: comprar os negativos de filmes incompletos, ou de filmes antigos que não fizeram muito sucesso por lá, e reeditar essas obras, inserindo na narrativa as novas cenas com ninjas filmadas por Godfrey Ho!

E não importava se o filme em questão era um drama, um horror, uma comédia ou um policial: eles sempre davam um jeito de encaixar cenas com ninjas, geralmente no começo e no final, só para justificar os novos títulos estapafúrdios com que rebatizavam as produções - coisas como "Ninja Terminator", "Diamond Ninja Force", "Golden Ninja Warrior" e este NINJA THUNDERBOLT.


A essa altura, o leitor do FILMES PARA DOIDOS deve estar se perguntando como é que os sujeitos faziam tamanha picaretagem sem sofrer nenhum processo judicial. A resposta é simples: antes de tudo, vamos lembrar que os tempos eram outros e esse tipo de "liberdade poética" era bem comum.

Tomemos como exemplo o lendário produtor norte-americano Roger Corman. Nos anos 60, ele adquiriu os direitos de um filme russo de ficção científica chamado "Planeta Bur" (1962), de Pavel Klushantsev. Como não pegava bem lançar um filme russo nos cinemas americanos em plena Guerra Fria, Corman simplesmente dublou os atores em inglês, batizou-os com pseudônimos norte-americanos e chamou dois jovens diretores para filmar cenas adicionais. Assim, a partir de um único filme ("Planeta Bur") ele lançou dois, "O Planeta Pré-Histórico" (1965) e "Viagem ao Planeta das Mulheres Selvagens" (1968). Como curiosidade, os "jovens diretores" que filmaram cenas adicionais para ambos foram, respectivamente, Curtis Harrington e Peter Bogdanovich, que passariam a ser cineastas respeitados anos depois!


Além disso, é preciso lembrar que tanto essa malandragem de Corman quanto as picaretagens de Ho (e outros tantos caras-de-pau) eram feitas a partir de pequenas produções praticamente desconhecidas mesmo no seu país de origem, então imagine no mercado ocidental.

E as aventuras com ninjas da IFD Films & Arts eram feitas exclusivamente para os cinemas e videolocadoras dos Estados Unidos, e não para exibição no Oriente, onde algum espertinho poderia reconhecer o filme "remontado" pela dupla.


Claro que ninguém podia imaginar que, no futuro, existiria internet, DVD e gente com muito tempo nas mãos para ficar pesquisando essas coisas. Se antes os filmes de ninja de Ho eram assistidos apenas por frequentadores de cinemas baratos, que não costumavam perceber a diferença entre uma aventura oriental e outra, hoje existem fãs que pesquisam as obras e as assistem várias vezes para perceber os enxertos e montagens - como este que vos escreve!

NINJA THUNDERBOLT, a aventura que teve a "honra" de abrir o pacote ninja da IFD Films & Arts, foi montado a partir de uma pequena co-produção Hong Kong/Taiwan/Japão chamada "Zhi Zun Shen Tou", também conhecida como "The Ninja and the Thief" e "To Catch a Thief", e dirigida por Tommy Lee Gam Ming em 1984.


Embora Ho tenha produzido muitos filmes a partir de obras inacabadas, "The Ninja and the Thief" estava pronto e tinha começo, meio e fim. Contava a história de Shima (Yasuaki Kurata), um mestre ninja contratado para roubar uma valiosa estátua de jade com forma de cavalo. Um detetive da polícia (Don Wong) e uma investigadora da agência de seguros (Yin Su-li) unem-se para descobrir o paradeiro da relíquia e descobrem que o roubo foi planejado pelo seu próprio dono da estátua, que estava tentando embolsar a grana do seguro.

"The Ninja and the Thief" era uma aventura barata, mas bem divertida e repleta de cenas de ação malucas, incluindo a formidável perseguição do herói por ninjas brandindo espadas e equilibrando-se sobre... patins?!? Sim, patins. Pare tudo que estiver fazendo agora e assista esse momento mágico da sétima arte (um dia você ainda vai me agradecer por isso):

Rollerskating Ninjas!!!


E, caso você não tenha ligado o nome à pessoa, o protagonista Don Wong é o mesmo que, dez anos antes, teve a honra incomensurável de dar um cacete em ninguém menos que CHUCK NORRIS quando eles interpretaram herói e vilão, respectivamente, em "Massacre em São Francisco"!!!

(Sempre lembrando que Don Wong e um tal de Bruce Lee foram os únicos heróis cinematográficos a dar um cacete no mito Chuck Norris, o que desde já coloca o menos célebre Wong no mesmo patamar de lenda do falecido Lee.)


Tudo muito bom, tudo muito bem, mas Godfrey Ho ainda precisava transformar "The Ninja and the Thief" num veículo para o ninja ocidental interpretado por Richard Harrison. E a maneira encontrada por ele foi hilária, e bem típica de Ed Wood: simplesmente filmou uns 10 minutos de cenas adicionais em que Richard Harrison interpreta um sujeito chamado... hã... "Richard". No caso, Richard Lohman, um super-mestre ninja que também é o "superintendente da Divisão de Crimes Graves" da polícia.

É claro que Joseph Lai não ia gastar dinheiro contratando Don Wong ou algum dos outros atores de "The Ninja and the Thief" para filmar cenas adicionais com Harrison. Portanto, o galã só "interage" com os outros atores graças ao milagre da montagem. Por exemplo, nós nunca vemos Don Wong e Richard Harrison dividindo o mesmo quadro, apenas um frame de um "falando" com o outro, e então o frame do outro "respondendo" ao primeiro. Dê uma olhada nas imagens abaixo para entender melhor como funciona:

Cena original de "The Ninja and the Thief"



Cena remontada de NINJA THUNDERBOLT


Simples, não? É picaretagem? Sim, e da grossa. Por outro lado, esse tipo de montagem exige um sujeito bastante criativo (e cara-de-pau, claro), para fazer com que as cenas adicionais casem com o material pré-gravado e já finalizado. E a redublagem dos diálogos também precisa fazer sentido, óbvio.

O interessante é que NINJA THUNDERBOLT traz um dos melhores trabalhos de edição da dupla Ho/Lai (a montagem foi assinada por Wong Ming-Lam). O espectador desavisado nem percebe à primeira vista que, na verdade, está assistindo a dois filmes diferentes cujos atores nunca interagem no mesmo quadro, algo que outras produções posteriores de Ho e Lai já deixam bem mais evidente.


Se "The Ninja and the Thief" já iniciava com Shima realizando o roubo, em NINJA THUNDERBOLT temos uma nova introdução filmada por Ho, uma cerimônia do "Império Ninja" (não tente entender) em que é repassada a filosofia e o rígido código de honra dos guerreiros mascarados.

Richard Harrison está ali no meio, em traje de ninja e com rímel debaixo do olho para deixá-lo "puxadinho" (assim as pessoas não vão estranhar quando mais tarde ele for substituído por um dublê oriental que SABE LUTAR, mas tem olho puxado natural, nas cenas de ação). Na mesma cerimônia está o personagem de Yasuaki Kurata em "The Ninja and the Thief". Como? Ora, Ho simplesmente pegou uns takes dele em primeiro plano no outro filme e inseriu na montagem como se ele estivesse participando da reunião!


Segue-se a trama usual de "The Ninja and the Thief", com participações pontuais de Harrison aqui e ali, só para justificar seu nome enorme no pôster do filme e o fato de os créditos iniciais trazerem um "Estrelando Richard Harrison". Os nomes dos personagens também foram mudados: o herói Wang Lee virou apenas Wong, e o vilão, que se chamava Chen, foi rebatizado "Jackal Chan"!!!

Descontando o momento em que, como superior de Don Wong, ele encarrega o herói de investigar o roubo da estátua, e alguns telefonemas dele para Wong, Harrison nunca participa diretamente da trama de "The Ninja and the Thief", mas volta na conclusão enfrentando um outro ninja, uma mulher, que não tem nada a ver com o resto da história!


Ainda entre as cenas adicionais filmadas por Ho e enxertadas em "The Ninja and the Thief", existe um momento completamente aleatório em que um dos amigos de Harrison (com o qual ele tinha enchido a cara momentos antes) é morto pela ninja-mulher com, acredite se quiser, uma fita cassete arremessada no seu peito como se fosse shuriken!!!

A fita contém uma gravação, uma mensagem para Harrison que tenta dar algum sentido à trama, dizendo que ele traiu o "Império Ninja" (por estar caçando Shima, um dos seus "irmãos") e por isso irá morrer. Bravo!


NINJA THUNDERBOLT até pode ter certo interesse para quem gosta do cinema de ação oriental, principalmente pelas cenas originais de "The Ninja and the Thief", que incluem diversas lutas entre Don Wong e uma cacetada de figurantes (e uma luta final muito boa entre Wong, Yin Su-li e o vilão Kurata). As cenas com ninjas filmadas por Ho e incluídas na montagem não são tãooooo marcantes assim, mas, vá lá, quebram o galho.

Na verdade, o filme será muito mais apreciado por admiradores de cinema ruim e de trash movies, e não só pela montagem picareta de Ho e pelas cenas sem sentido com Richard Harrison, mas também porque "The Ninja and the Thief", originalmente, já era um trashão daqueles!


Além da hilária cena com os ninjas de patins perseguindo o herói, que virou hit no YouTube, "The Ninja and the Thief" provoca algumas boas gargalhadas graças à pobreza mais do que visível da produção. A "casa" do herói Wong, por exemplo, é um quarto de motel, e dos mais vagabundos, já que a porta da frente dá diretamente para o banheiro e para o quarto, e ninguém fez muita questão de esconder o painel cheio de botões (para ligar o som, para ligar o ar condicionado) na cabeceira da cama!

Também há umas cenas completamente sem-noção QUE JÁ ESTAVAM LÁ antes de Ho meter a mão no filme. Minha preferida é aquela em que o herói assusta sua esposa usando uma máscara de monstro; posteriormente, quando um vilão igualmente mascarado invade a "casa", a moça acredita ser seu marido zoando e se dá mal - num hilário reaproveitamento da velha fábula do menino que gritava "Lobo! Lobo!".


Tommy Lee Gam Ming, o diretor original dessa bagaça, também não era o mais inteligente dos cineastas. Pois eis que o sujeito filma uma perseguição de carros em que heróis e vilões dirigem carros brancos praticamente iguais (!!!), e você nunca sabe quem é quem no meio do corre-corre! Aliás, "corre-corre" em partes, porque todas as cenas de perseguição são filmadas em velocidade normal e depois "aceleradas" na montagem, o que fica absurdamente falso.

E o que dizer do momento em que a mocinha da companhia de seguros está numa cabine telefônica que é atravessada por um carro em alta velocidade dirigido pelos caras maus? Quando você pensa que a garota morreu, eis que na cena seguinte ela aparece pendurada no capô do veículo em alta velocidade, ainda segurando o telefone na mão e sem um único arranhão (tá, para não ser injusto, uma das meias-calças dela está furada, assim não fica tão absurdo).


Se Godfrey Ho era o "Ed Wood de Hong-Kong", então Tommy Lee era o Bruno Mattei de lá, pois seu filme original está repleto de bobagens e erros de continuidade. Embora Shima roube a estátua de jade à noite, por exemplo, no momento em que ele sai do prédio já é dia com sol a pino (e não, ele não levou mais de 10 minutos para abrir o cofre).

O diretor também parece meio na dúvida entre o tipo de filme que quer fazer, pois há uma quantidade considerável de nudez (feminina e também masculina, com direito a pinto mole balançando), e umas loooooongas cenas de sexo simulado completamente deslocadas da narrativa (incluindo uma ameaça de 69!), como se alguém tivesse gravado putaria da extinta Sexta Sexy numa fita onde já havia um filme de ninja gravado três dias antes na Sessão Kickboxer.

(Que fique registrado: o original "The Ninja and the Thief" tinha ainda mais cenas de sacanagem, que foram cortadas para acomodar as novas cenas de ninjas com Richard Harrison. Tanto a obra de Tommy Lee quanto a remontagem de Godfrey Ho duram 88 minutos.)


O interessante é que Godfrey Ho manteve esse estilo sem-noção, e os cerca de 10 minutos adicionais que filmou para fazer NINJA THUNDERBOLT estão imbuídos do mesmo espírito "Que se foda!" do original "The Ninja and the Thief". Há, por exemplo, uma cena em que Harrison prende um traficante num parque, e que não tem nada a ver com a trama principal - lembre-se, ele não podia participar diretamente da outra trama porque ela faz parte de um filme já pronto, mas precisava aparecer fazendo alguma coisa!

Pois eis que o traficante guarda uns 15 baseados dentro da boca (!!!), de onde só os retira quando aparece algum comprador. É um negócio tão inacreditável que só vendo para acreditar, além de um verdadeiro desrespeito ao consumidor: não é porque seu negócio é ilegal que você deve agir com tamanha falta de higiene, vendendo baseados molhados e babados!


Continuando nessa linha "tão ruim que fica bom", o mestre ninja Harrison tem uma espécie de armário mágico em sua casa, pois toda vez que abre a porta do dito-cujo uma luz branca super-forte sai de lá de dentro. A luz parece emanar da espada ninja mágica usada pelo personagem.

Por sinal, os ninjas de Godfrey Ho fazem aquele estilo "magos cheios de truques", pois além da super-habilidade na espada, eles também vestem seus trajes ninjas magicamente em um segundo, bastando para isso jogar uma bomba de fumaça no chão!


NINJA THUNDERBOLT pode não convencer muito como filme de ação, mas é hilário como comédia involuntária, e ainda melhor para você assistir agora, depois de ler essa resenha, pois irá prestar mais atenção nas cenas adicionais enxertadas e em como o "mestre ninja Richard Harrison" jamais interage com os personagens da trama principal.

Curioso é que a cópia lançada em DVD no Brasil, pela Califórnia Filmes, faz jus à ruindade da obra e torna tudo ainda mais trash: além da qualidade ruim da imagem (obviamente ripada de VHS) e da capinha com uma imagem feia super-ampliada até ficar quadriculada, a Califórnia lançou uma versão DUBLADA EM ITALIANO! E poucas coisas são mais esquisitas do que ver ninjas falando italiano num filme produzido em Hong-Kong e com legendas em português - parece até aquela música dos Titãs!


Quando NINJA THUNDERBOLT começou a dar certo retorno financeiro nos cinemas ocidentais, o produtor Joseph Lai percebeu que seu insólito "jeitinho" de fazer filmes podia render ainda mais. Sempre com Godfrey Ho na direção (embora Lai assumisse o cargo às vezes para desafogar o parceiro), a IFD Films & Arts lançou mais umas 20 aventuras com ninjas produzidas a partir de material de terceiros, muitas delas com Richard Harrison repetindo seu papel de mestre ninja ocidental.

Aí veio a malandragem-mor, sobre a qual pretendo me aprofundar em futuras postagens: Lai contratou Harrison para fazer apenas três filmes (já contando NINJA THUNDERBOLT), mas pediu que Ho gravasse o maior número possível de cenas aleatórias com o ator vestido de ninja e interagindo com personagens inexistentes.

Dessa maneira, os "três filmes" acabaram se transformando em nada mais nada menos que 25 FILMES, e sempre reaproveitando as mesmas "cenas aleatórias" com Harrison! Isso levou o ator norte-americano a abandonar o cinema, desiludido por ter seu nome associado a tamanha quantidade de podreiras (embora volta-e-meia ele reapareça em pequenas participações).


Já Godfrey Ho, quem diria, aposentou-se do ramo para virar professor de cinema (!!!) na Hong Kong Film Academy! Exato: o "Ed Wood de Hong-Kong" hoje ensina seus segredos e divide suas habilidades com a nova geração do cinema oriental. Talvez em breve tenhamos uma nova febre de filmes de ninja direto para locação.

E, se bobear, com aquelas mesmas velhas cenas filmadas com Richard Harrison...

PS: Os créditos iniciais informam que Jackie Chan foi coadjuvante no filme. Não vi ninguém sequer parecido com o astro mesmo entre os figurantes, mas a Califórnia Filmes comprou a ideia e tascou o nome "Jackie Chan" em letras garrafais na capinha do DVD nacional. O máximo que NINJA THUNDERBOLT traz é o personagem chamado "Jackal Chan", então deve ser mais uma picaretagem da dupla Ho/Lai, já que outras obras deles, como "Ninja - O Protetor", também anunciam enganosamente a presença de Jackie Chan.

Trailer de NINJA THUNDERBOLT



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Ninja Thunderbolt (1985, Hong-Kong / Taiwan)
Direção: Godfrey Ho (e Tommy Lee Gam Ming)
Elenco: Richard Harrison, Don Wong, Yasuaki Kurata,
Yin Su-li, Cheng Fu-Hung, Lee Fat-Yuen, Wong Chi-Wai
e mais um monte de desconhecidos.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

DESEJO DE MATAR 5 (1994)


No ano 2000, Charles Bronson foi diagnosticado como portador do Mal de Alzheimer. Como se sabe, o sintoma principal desta doença é a perda de memória. Apesar de ter seu óbvio lado trágico, o Alzheimer também deve ter sido um alívio para o astro. Afinal, ele finalmente poderia esquecer que fez DESEJO DE MATAR 5...

Humor negro à parte, a humanidade precisava de um quinto "Desejo de Matar" tanto quanto de um pedaço de bambu enfiado debaixo da unha, ou de uma colonoscopia com arame farpado. Ainda mais depois da fraquinha Parte 4, lançada em 1987, que já demonstrava claramente a falta de história para contar e uma repetição constrangedora nas peripécias do vigilante Paul Kersey. Mas eis que em 1994 (vinte anos depois do original) surgiu esta calamidade chamada DESEJO DE MATAR 5, o filme mais preguiçoso, precário e esquemático da série, e o verdadeiro fundo do poço de uma franquia já capenga.


A gênese da bomba remonta a 1987, quando a Cannon Films lançou "Desejo de Matar 4 - Operação Crackdown". Mal o quarto filme chegou aos cinemas, e os produtores Golan e Globus já davam sinal verde para a pré-produção de uma quinta aventura de Kersey, tentando faturar uns trocados em cima daquela que era uma de suas franquias mais lucrativas - espremendo a laranja até o bagaço, se me permitem a metáfora hortifrutigranjeira.

Na mesma época, Gail Morgan Hickman, que escrevera a Parte 4, estava tentando vender seu novo roteiro chamado "The Four Horsemen". Era uma trama ambiciosa sobre terroristas que tomavam o controle de Alcatraz e ameaçavam o governo com armas nucleares - algo bem parecido com a superprodução "A Rocha", que Michael Bay dirigiu 10 anos depois, em 1996.


Os produtores da Cannon gostaram do roteiro, mas pediram que Hickman e o diretor inglês J. Lee Thompson reescrevessem a história para transformá-la numa quinta aventura de Paul Kersey. A dupla até fez as alterações necessárias, mas o projeto acabou não saindo do papel por causa das dificuldades financeiras que a produtora enfrentava no final da década de 80.

Logo aconteceu o inevitável: a Cannon Films pediu falência e seus sócios Golan e Globus separaram-se brigados. Parecia que Paul Kersey finalmente teria tempo para descansar, depois de três sequências num curto espaço de tempo (a Parte 2 saiu em 1982, a Parte 3 em 1985 e a Parte 4 em 1987!). Enquanto Kersey repousava, Charles Bronson vivia momentos difíceis: sua esposa Jill Ireland morreu em 1990, após um longo tratamento de câncer.


Finalmente, no começo dos anos 90, Menahem Golan fundou uma nova produtora, a 21st Century Pictures, e tentou tirar do papel alguns projetos que não deram certo nos tempos da Cannon, como as adaptações cinematográficas do Homem-Aranha (que nunca saiu do papel), do Capitão América (que virou um trashão dirigido por Albert Pyun) e, claro, DESEJO DE MATAR 5.

Golan ainda guardava aquele roteiro adaptado de "The Four Horsemen", mas continuava achando que seria muito caro produzi-lo. Preferiu criar um novo, e contratou Michael Colleary para escrever uma trama sobre Kersey voltando ao trabalho de vigilante quando sua nova namorada é ameaçada por gângsters. Eu até consigo imaginar o brainstorming dos caras: "O Bronson está meio velho, mas usaremos um dublê em todas as suas cenas. Acho que a mulher dele tem que ser morta por bandidos no começo do filme. O quê, já matamos três interesses românticos de Bronson nos outros filmes? Tudo bem, vamos fazer de novo, aposto que ninguém vai notar".


Inicialmente, o produtor israelense pensava em dirigir o filme ele mesmo, mas acabou trocando DESEJO DE MATAR 5 por outro dos seus projetos dos sonhos, uma adaptação moderna do livro "Crime & Castigo", de Fiódor Dostoiévski. Além disso, reza a lenda que Bronson não morria de amores por Golan, e já tinha recusado ser dirigido por ele em "Desejo de Matar 2".

Enquanto Golan filmava "Crime e Castigo", Steve Carver foi contratado como diretor. Para quem não lembra, ele dirigiu alguns dos melhores filmes de Chuck Norris ("McQuade, O Lobo Solitário" e "Ajuste de Contas"), e talvez pudesse ter agregado algo de interessante à quinta aventura de Paul Kersey.


Carver chegou a se encontrar várias vezes com Golan e Bronson para discutir o projeto, e começou a escrever o novo filme a quatro mãos com o roteirista Stephen Peters, seguindo as orientações do astro, que queria um Kersey "mais simpático e bem humorado". No total, Carver e Peters trabalharam na pré-produção de DESEJO DE MATAR 5 por dois meses, até serem subitamente demitidos.

O motivo: o produtor Golan resolveu transferir o projeto todo para o Canadá, onde era mais barato para filmar, desde que fossem empregados atores e técnicos canadenses! "No começo fiquei desapontado, mas depois fiquei feliz porque eles cortaram o orçamento ainda mais, e na minha época já era um orçamento ridículo!", comentou o demitido Carver no livro "Bronson's Loose! The Making of the 'Death Wish' Films", escrito pelo pesquisador Paul Talbot.


O substituto foi o canadense Allan A. Goldstein, que não tinha nenhuma experiência prévia com filmes de ação e sequer havia visto algum dos outros "Desejo de Matar". Ele era um diretor pouco expressivo que só havia feito alguns dramas e filmes para a TV, e que anos depois seria responsável por outra atrocidade chamada "2000.1 - Um Maluco Perdido no Espaço", com Leslie Nielsen.

Enfim, quando Goldstein comentou com Bronson e Golan que talvez não fosse a pessoa mais indicada para dirigir DESEJO DE MATAR 5, pois não entendia bulhufas de ação, foi tranquilizado pelo astro: "Fazer as cenas de ação é fácil, difícil é a parte do drama". Assim, o canadense pôs mãos à obra e começou ele mesmo a escrever um novo roteiro, aproveitando pouco ou nada do material escrito por Carver e Peters, mantendo apenas a ideia de Kersey contra gângsters que ameaçavam sua nova namorada, e o fato de a trama se passar no mundo da moda.


Toda esta longa introdução da odisseia que foi a pré-produção de DESEJO DE MATAR 5 é necessária para que o leitor tenha uma ideia mais apurada de como um desastre pode ser anunciado desde o começo. É como uma frase que um ex-chefe meu sempre repetia: "O que começa errado, termina errado".

Qualquer débil mental percebe que a coisa está feia ao ver que praticamente todos os envolvidos nos filmes anteriores (Michael Winner, J. Lee Thompson, Gail Morgan Hickman) pularam fora, restando apenas o astro e um dos produtores. Para completar a tragédia, DESEJO DE MATAR 5 teve um orçamento tão insignificante que o salário de Bronson era maior que a grana para realizar o filme inteiro!


Mas recapitulemos: após iniciar uma onda de assassinatos de bandidos em Nova York motivada pela morte da esposa (Parte 1) e de matar os responsáveis diretos pela morte da sua filha adolescente em Los Angeles (Parte 2), Paul Kersey varreu um bairro pobre de Nova York de uma gangue violenta (Parte 3) e aniquilou totalmente três quadrilhas de traficantes de cocaína em Los Angeles (Parte 4).

No processo, ele perdeu a esposa, a filha, a empregada (!!!), um velho amigo dos tempos da guerra, uma namorada advogada, uma namorada jornalista e sua enteada, filha desta última. Ou seja, o cara é um dos maiores azarados do mundo do cinema, além de autêntico "grupo de risco": envolveu-se com ele, nem que seja dando "bom dia" na rua, e você morre! Se bem que o próprio Kersey não aprende e continua acumulando interesses românticos, que nunca desconfiam de sua vida dupla como vigilante assassino.


Neste DESEJO DE MATAR 5 (que tem o subtítulo original "The Face of Death"), Kersey está de volta a Nova York, mas uma Nova York filmada em Toronto, no Canadá (!!!). Esta seria a sua terceira aventura na Big Apple, mas não se esqueça que, teoricamente, a trama de "Desejo de Matar 4" é continuação direta do segundo filme e passando a borracha no terceiro, então a volta do vigilante a Nova York mostrada em "Desejo de Matar 3" nunca aconteceu (arre, essas coisas são complicadas!). Sendo assim, DESEJO DE MATAR 5 representa o retorno "oficial" de Kersey a Nova York depois de anos vivendo em Los Angeles.

O herói agora está escondido através do programa de proteção a testemunhas, e adotou a identidade falsa do pacato professor de arquitetura Paul Stewart (pena que o diretor-roteirista Goldstein não foi malandro o suficiente para resgatar o nome falso "Kimball", usado pelo vigilante nas Partes 2, 3 e 4). Ninguém sabe a real identidade do velhinho matador além dos policiais que cuidam de sua nova vida.


E tudo vai bem na nova vida de Kersey: além de ter aposentado as armas e de lecionar numa universidade, ele arrumou novamente uma namorada bonitona e muitos anos mais nova que ele, Olivia (a bonita Lesley Anne-Down, na época com 40 anos, 30 a menos que Bronson), confirmando a máxima popular de que "cavalo velho gosta de capim novo"!

Olivia é uma estilista com uma filhinha pequena, Chelsea, fruto do primeiro casamento da moça. E se ex-marido já enche o saco por si só, imagine quando o dito cujo é um sanguinário gângster irlandês, Tommy O’Shea (o malvadão Michael Parks, compondo um vilão exagerado que parece saído de história em quadrinhos).


O’Shea e sua quadrilha usam a butique da ex-esposa para lavar o dinheiro de suas ações criminosas. Só que a moça já não quer mais colaborar com o esquema sujo do ex. E isso, claro, significa problemas. Kersey insiste para que ela testemunhe contra O'Shea. Só que o gângster tem um contato na Corregedoria e fica sabendo das intenções da ex-mulher. Para "gentilmente convencê-la" de não procurar a polícia, ele manda um assassino psicótico chamado Freddie Flakes (Robert Joy) para "assustar" a moça.

Numa cena grostesca, Freddie invade o banheiro feminino de um restaurante, travestido, e esmaga o rosto de Olivia contra o espelho - numa das cenas mais violentas e cruéis de toda a série, o que não significa pouca coisa! Mais tarde, Olivia será assassinada para fechar o bico definitivamente. Adivinhem quem vai desenterrar a machadinha da guerra e fazer justiça com as próprias mãos pela quinta vez?


DESEJO DE MATAR 5 é vergonhosamente vagabundo e nem ao menos respeita o que vimos nos filmes anteriores. Por exemplo: se nas Partes 3 e 4 precisou de muito pouco para Paul Kersey sair metendo bala na bandidagem, neste quinto episódio o justiceiro virou um mané cansado e medroso, que prefere engolir as ameaças de O’Shea durante mais de meia hora de filme e ainda acreditar no trabalho da Justiça, resolvendo encarar por conta própria os criminosos somente quando Olivia é morta - algo que ele poderia ter evitado se sacasse a arma mais cedo.

Além disso, numa estratégia que lembra muito o tom de "Desejo de Matar 4", Kersey prefere criar armadilhas para seus desafetos a encará-los diretamente. Primeiro ele despacha um dos capangas de O'Shea envenenando seu canolli; depois, compra um ridículo brinquedo de controle remoto, enche ele com explosivos e faz Freddie Flakes voar em pedacinhos (esta morte já dá o tom da pobreza do filme, graças ao ridículo boneco que substitui o ator Robert Joy), e por aí vai. Ah, o diretor faz uma ponta como o vendedor da loja de brinquedos.


Para piorar, há um número ínfimo de bandidos para Kersey matar, o que não deixa de ser frustrante, ainda mais considerando que ele matou mais do que isso em seu primeiro filme 20 ANOS ANTES, ou então comparando com a absurda contagem de cadáveres das Partes 3 e 4.

Dessa forma, DESEJO DE MATAR 5 simplesmente se arrasta sem qualquer suspense, sem nenhuma surpresa e sem a menor emoção, simplesmente pulando de uma morte para a outra. O espectador já percebe nos primeiros 15 minutos que não encontrará nenhuma novidade ou a menor tentativa de criar algo novo, então a tentação de dar stop ou desligar a TV é muito grande.

Até porque é brochante ver Kersey usando um mísero revólvinho o tempo inteiro contra seus inimigos, depois que ele detonou marginais com metralhadoras, lançadores de granadas e até bazucas nas aventuras anteriores!


Algumas coisas precisam ser destacadas. Em primeiro lugar, os aspectos involuntariamente cômicos do filme. Claro que você não podia esperar que Bronson fizesse muita coisa como herói aos 72 anos de idade. Mesmo assim, o diretor-roteirista concebeu inúmeros malabarismos para Kersey ao longo do filme, inclusive saltar de cabeça do segundo andar de um prédio e aterrissar confortavelmente sobre uma pilha de sacos de lixo! Porque, ao contrário da vida real, ninguém coloca vidro, metais e outros materiais cortantes dentro dos sacos de lixo cinematográficos...

Em outra cena, os bandidos invadem a casa de Olivia com metralhadoras e Kersey corre desviando-se agilmente das rajadas de metralhadora como se fosse o Neo da série "Matrix". Lembra quando Ed Wood escalou um dublê para Bela Lugosi em "Plan 9 From Outer Space", mas ele era tão diferente do ator que precisava esconder o rosto com uma capa? Pois aqui é a mesma coisa: para esconder a juventude do substituto de Bronson nas cenas de ação, Goldstein fez o dublê correr o tempo todo com as mãos escondendo o rosto!!! Como se, durante um tiroteio, você se preocupasse mais em proteger a cara do que o resto do corpo... Aliás, como se adiantasse proteger alguma parte do corpo contra tiros USANDO AS MÃOS!



Esses detalhes poderiam transformar DESEJO DE MATAR 5 num daqueles filmes divertidos de tão ruins, mas, infelizmente, a ruindade aqui rende mais raiva do que diversão.

É impossível engolir a extrema previsibilidade do roteiro e da narrativa de Goldstein: nos 10 minutos iniciais, quando o filme mostra uma piscina de ácido (hã?!?) no interior da fábrica de confecções de Olivia, até um macaco percebe que Kersey vai atirar alguém ali dentro mais adiante. Já a identidade do policial traidor que ajuda O’Shea salta aos olhos no momento em que o sujeito aparece no filme, mas o roteiro insiste em tratar a revelação do rato como se fosse uma grande surpresa!


Goldstein piora tudo ao nunca se decidir entre levar a coisa a sério ou na brincadeira, pois o tom muda radicalmente ao longo do filme como se dois diretores estivessem no comando da bagaça. Anos depois, em entrevistas, o canadense jurou que esculhambou de propósito, mas eu não caio nessas balelas.

Cenas engraçadinhas como os gângsters sacando suas armas durante o funeral de um deles, quando alguém entra correndo na igreja, e os próprios vilões caricaturais que o herói enfrenta, soam deslocadas e fora de lugar diante do tom de seriedade do resto da trama (especialmente o conflito interno de Kersey para voltar a empunhar armas, ou o violento ataque a Olivia).


E a história ainda está repleta de incongruências. Lá pelas tantas, um amargurado policial revela a Kersey que está tentando colocar O’Shea na cadeia há 16 anos (!!!), mas não consegue provas para incriminá-lo, nem aos seus capangas.

Em seguida, durante dois dias em que segue a trupe para "conhecer melhor o inimigo", o vigilante testemunha pelo menos meia dúzia de atos de violência perpetrados pelos bandidos, incluindo extorsão, agressão e tentativa de homicídio, sem nenhuma discrição! Mas o sujeito que investiga o caso nunca conseguiu provas para incriminá-los em 16 anos de trabalho! Santa ineficiência policial, Batman!


Para piorar, a afetação reina nas cenas de ação filmadas pelo diretor. Quando ele disse que não sabia filmar ação, não estava brincando! Imitando tudo que era modinha nas produções do gênero daquela época (quando a febre John Woo estava no auge), Goldstein encheu o filme de câmeras lentas exageradas durante tiroteios que nem são lá essas coisas, como se isso tornasse as coisas mais emocionantes - só faltaram mesmo as pombas voando, mas deve ter sido porque a produção não tinha dinheiro para pagar o cachê das aves!

Como não gosto de ser injusto, o diretor-roteirista pelo menos criou algumas belas frases de efeito para Kersey neste filme. Quando um capanga de O'Shea aponta uma arma para o herói e ele se mostra desconfortável, o vilão pergunta: "O que foi? Armas te deixam nervoso?". A resposta de Kersey é genial: "Armas podem ser úteis. Idiotas com armas é que me deixam nervoso!". Antes de explodir Freddie Flakes, que tem esse apelido ("Flocos") por causa de um problema crônico de caspa, o vigilante anuncia: "Ei Freddie, vou resolver definitivamente o seu problema de caspa!". Quem diria, Paul Kersey parece mais eficiente como humorista de stand-up do que como justiceiro nesta quinta aventura!


O próprio Bronson deve ter percebido, no meio do caminho, a furada em que se meteu, e interpreta seu papel pela quinta vez sem qualquer convicção, vontade ou mesmo tesão, visivelmente de saco cheio. Tanto que sua relação com o produtor Menahem Golan, que já não era das melhores, evoluiu para ódio mortal durante as filmagens. Consta que depois de algumas semanas, o astro só se comunicava com o produtor através do diretor Goldstein, e nunca diretamente.

Uma crítica publicada na Variety na época do lançamento dizia que Bronson estava tão acostumado ao personagem Paul Kersey que podia interpretá-lo dormindo. Bem, em diversos momentos o astro realmente parece estar adormecido, ou em coma, ou prestes a ter um infarto, diante da ruindade reinante e da falta de novidades desse quinto filme.


No fim, o subtítulo em inglês de DESEJO DE MATAR 5, "A Face da Morte", cai como uma luva para o próprio Charles Bronson: ele está literalmente com a face da morte, como se fosse cair duro a qualquer momento, e mesmo assim o filme insiste em representá-lo como um super-herói capaz de pular do topo de um prédio, desviar de balas e enfrentar dezenas de bandidos ao mesmo tempo.

Não por acaso, em sua última cena, Bronson/Kersey sai caminhando por uma porta iluminada, parecendo que morreu e está "indo em direção à luz" rumo ao Paraíso (imagem abaixo). E mesmo que sua última fala em DESEJO DE MATAR 5 seja "Se precisarem de alguma coisa é só me chamar", deixando um gancho para uma sexta parte nunca realizada, todos sabemos que Paul Kersey (e Charles Bronson) nunca mais vão voltar, pois o astro morreu em 30 de agosto de 2003, em decorrência de pneumonia e do Mal de Alzheimer.


Porém, a julgar pela qualidade deste filme e de vários outros que Bronson vinha fazendo na época, talvez o descanso eterno não tenha sido tão ruim assim, e a foice da Morte poupou-o de continuar pagando mico em futuras continuações de "Desejo de Matar".

Quase consigo visualizar Paul Kersey aos 90 anos, de cadeira de rodas e ligado a um tanque de oxigênio, mas ainda matando vagabundos que ocupam sua vaga de idoso no estacionamento, ou furam a fila do bingo. Já foi tarde, Paul Kersey! Descanse em paz ao lado da sua família e do seu harém de namoradas mortas por bandidos nesses cinco "Desejo de Matar"!


PS 1: Como a relação com o astro da franquia azedou durante as filmagens, o produtor Menahem Golan anunciou como novo projeto "Death Wish 6: The New Vigilante", que teria um novo justiceiro no lugar de Paul Kersey e de Charles Bronson. Só que sua 21st Century Pictures foi à falência antes que pudesse profanar o título da série. Teimoso, Golan criou anos depois uma nova empresa, a New Cannon Inc. (!!!), e produziu e dirigiu ele mesmo o pavoroso "Death Game" (1991), outra aventura sobre justiça com as próprias mãos.

PS 2: A adaptação de "Crime & Castigo" que Golan dirigiu enquanto Goldstein filmava DESEJO DE MATAR 5 também foi um tiro no pé, e de bazuca: o produtor gastou uma fortuna para filmar em Moscou e contratou um elenco de astros (Crispin Glover, Vanessa Redgrave, John Hurt, Margot Kidder, John Neville...), mas o resultado ficou tão ruim que, embora as filmagens tenham acontecido em 1993, o filme ficou na geladeira até 2002, quando estreou como uma piada ao estilo do "Chatô" de Guilherme Fontes aqui no Brasil!

PS 3: Em 2006, um tal de Sylvester Stallone anunciou que gostaria de dirigir e estrelar um remake de "Desejo de Matar", mas praticamente mudando a história toda: o personagem principal seria um policial honesto levado ao vigilantismo quando sua família é morta por bandidos. Após vários boatos e pistas falsas, Stallone pulou fora do projeto. No começo deste ano (2012), Joe Carnahan foi anunciado como provável diretor do remake, mas nenhuma nova informação apareceu desde então.


PS 4: Enquanto nada se sabe sobre um remake oficial, Allan Goldstein recentemente produziu um filme chamado "The Next Vigilante", originalmente batizado como "Return of the New York Vigilante" para tentar associá-lo à série "Desejo de Matar". O filme, dirigido por Marc Vorlander, será lançado em 2013, e sabe-se lá se os sujeitos vão tentar criar alguma relação com as velhas aventuras de Paul Kersey além do título picareta...

PS 5: Aqui termina a MARATONA DESEJO DE MATAR, e agora o blog entra em recesso por uns 10 dias para que todos possam ler e reler os cinco capítulos sobre os filmes da série. Considerando os números da nossa "ficha criminal", 171 pessoas perderam a vida em cinco filmes, sendo que só o justiceiro Kersey foi responsável por 113 dos cadáveres (66%)!!! Isso, meus amigos, é que é desejo de matar... (Clique no número de "pontos" de Kersey no placar das resenhas para ser redirecionado a um vídeo no YouTube que ilustra todas as mortes da série!)


FICHA CRIMINAL:
* Pessoas ligadas a Kersey agredidas: namorada (morta)
* Armas usadas pelo vigilante: revólver Smith & Wesson 629 .44, brinquedo de controle remoto explosivo, cannoli envenenado, piscina de ácido
* Contagem de cadáveres: 11 (Kersey 7 x 4 Marginais)

Trailer de DESEJO DE MATAR 5



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Death Wish V - The Face of Death (1994, EUA)
Direção: Allan A. Goldstein
Elenco: Charles Bronson, Lesley-Anne Down, Michael Parks,
Kevin Lund, Chuck Shamata, Robert Joy, Saul Rubinek, Miguel
Sandoval, Kenneth Welsh e Claire Rankin.