quarta-feira, 27 de junho de 2012

RUAS SELVAGENS (1984)


Existem duas formas de assistir RUAS SELVAGENS...

A primeira é levando a sério e tentando analisar o filme pela sua mensagem sócio-cultural, ou pelos seus méritos enquanto "produto cinematográfico". Se você cair na burrada de fazer isso, prepare-se para sofrer graves danos cerebrais provocados pelo roteiro estúpido, pelas péssimas interpretações, pelos diálogos incrivelmente toscos e pelo excesso de apelação - incluindo nudez gratuita e violência explícita.

A outra forma é justamente desligando o cérebro e curtindo tudo isso que, para cinéfilos "sérios", não presta. Azar o deles, pois o meu ideal de diversão é exatamente ver Linda Blair com os melões de fora num filme sobre estupro, vingança e gangues de delinquentes juvenis. E, nesse contexto, RUAS SELVAGENS dá um brilhante "Filme para Doidos", com tudo aquilo que os assíduos frequentadores do blog tanto gostam, e muito mais!


O velho Guia de Filmes Nova Cultural até dava a dica: "Prato cheio para quem gosta de sadismo, mulheres nuas, sexismo, piadas chulas, palavrões e vingança pelas próprias mãos". Bem, aí eu pergunto: e quem não gosta de tudo isso? Se o crítico que escreveu isso queria que as pessoas ficassem longe do filme, definitivamente escolheu as palavras erradas!

E vamos combinar que a única forma de ver uma tralha como essa é não levá-la a sério. Afinal, você está diante de um dos quatro filmes dirigidos por Danny Steinman, que já foi saudado como um dos piores cineastas de todos os tempos – e, dos outros três filmes que ele dirigiu, um é pornô X-Rated e o outro é "Sexta-feira 13 Parte 5 - Um Novo Começo", que quase enterrou a lucrativa série do nosso amigo Jason.


Na verdade, Steinman entrou na produção como tapa-buraco. RUAS SELVAGENS seria inicialmente dirigido por Tom DeSimone, um nome conhecido para fãs de produções exploitation dos anos 1970-80 (era especialista em pornôs gays e filmes de mulheres na prisão, os populares WIP).

DeSimone começou a dirigir, mas desligou-se do projeto após uma semana de filmagens, e Steinman - que era co-roteirista - entrou no seu lugar alguns meses depois. Por causa disso, diversos integrantes do elenco também desistiram e foram procurar outros projetos, como a linda morena Debra Blee (de "Hamburger - O Filme"), cuja personagem simplesmente desaparece da narrativa ainda na metade do filme!


O roteiro de Steinman e Norman Yonemoto parece prestar homenagem àquelas hilárias produções das décadas de 60 e 70 sobre gangues formadas por garotas, como "As Diabólicas Sobre Rodas" (1968), de Herschell Gordon Lewis, e "Faca na Garganta" (1975), de Jack Hill.

Temos, assim, uma gangue de belas jovens que é liderada por Brenda (Linda Blair!!!), e inclui sua irmã surda-muda Heather (a musa trash Linnea Quigley!!!), e suas amigas Maria (Luisa Leschin), Stella (Ina Romeo) e Francine (Lisa Freeman). Essa última está grávida e irá casar com o namorado dentro de alguns dias.


Todas supostamente são adolescentes ainda estudando no colegial, mas "interpretadas" por atrizes que, à época, já eram bem velhinhas para passar por meninas em idade escolar. A própria Linda Blair estava longe dos seus tempos de menina de "O Exorcista", com 25 anos e um respeitável par de peitões!

Seja como for, as meninas vivem se estranhando com os "Scars", uma gangue rival, só de meninos, formada por Fargo (Sal Landi), Red (Scott Mayer) e Vince (Johnny Venocur), e liderada pelo psicótico Jake (Robert Dryer, fantástico de tão exagerado).


Na cena inicial, o conversível em que estão os Scars quase atropela Heather enquanto ela atravessa a rua. Brenda, assumindo o papel de irmã super-protetora, se vinga em alto estilo: ela e sua gangue de meninas roubam o carro dos garotos e o abandonam a alguns quarteirões, depois de enchê-lo de lixo!

Jake resolve dar o troco de forma violenta. Primeiro, ele e os parceiros atacam Heather no ginásio da escola, e a garota nem pode gritar por ajuda. Violentada e brutalmente agredida, ela acaba em coma no hospital. Depois, Jake mata Francine no dia em que ela tinha ido buscar seu vestido-de-noiva. É a gota d'água, e Brenda sai às "ruas selvagens" sedenta de vingança - armada com arco, flechas e armadilhas para ursos!


RUAS SELVAGENS é um daqueles filmes que exalam um brilhantismo "às avessas". Em outras palavras, funcionam justamente pelos motivos errados: você se diverte com as interpretações ruins e/ou exageradas do elenco todo, ao invés de ficar entretido com boas atuações; você ri com as forçadas de barra da narrativa - como o assassinato de Francine, cometido em plena luz do dia, numa avenida movimentada, sem que nenhum dos envolvidos tenha qualquer receio em relação a possíveis testemunhas ou à chegada da polícia -; mas, principalmente, você fica surpreso com a quantidade de apelação dos realizadores, que entregam desde uma longa e detalhada sequência de estupro de uma garota com deficiência até as tradicionais cenas de nudez frontal das garotas tomando banho de chuveiro no banheiro da escola.


Mais do que isso, é impossível ficar sério diante da quantidade de diálogos exageradamente desbocados, que parecem ter sido escritos por garotos da 7ª série - aqueles que adoram mostrar para os amiguinhos que aprenderam palavrões novos e mais cabeludos.

Numa cena, Brenda se refere a um garoto bunda-mole que é apaixonado por ela: "I wouldn't fuck him if he had the last dick on Earth!" (necessita de tradução?). Em outra, a gangue de Jake encara o diretor da escola, que, claro, é interpretado por John Vernon (o grande arquiinimigo dos adolescentes cinematográficos desde "Clube dos Cafajestes"). Lá pelas tantas, um dos garotos dispara algo como "I'm hot, baby", e o diretor valentão responde na lata: "Go fuck an iceberg!". Impossível não rir.


Como RUAS SELVAGENS é aquele típico filme de uma ideia só, e seus realizadores não conseguiriam esticá-la durante 1h30min (o estupro de Heather acontece ainda no primeiro ato), a solução é enrolar o máximo possível com subtramas que nada acrescentam à narrativa, mas que são tão ou mais divertidas do que a situação principal.

Uma dessas subtramas envolve o tal garoto bunda-mole anteriormente citado (aquele para quem Linda Blair não daria nem se fosse o último pinto da Terra) e sua paixão nunca explicada por Brenda. Acontece que o cara já é comprometido, e namora uma loira cheerleader muito mais gatinha que a Linda Blair, Cindy (Rebecca Perle). Como a mocinha acha que é Brenda que está tentando roubar seu namorado, as duas vivem se pegando durante o filme, rendendo as tradicionais cenas de "cat-fight" no chuveiro e no meio da sala de aula, e sempre com direito a muitos peitos de fora.


Outra forma encontrada para matar tempo é mostrar as aulas da meninada rebelde. Uma das cenas mais hilárias do filme é a aula de literatura, quando uma professora gente boa (Judy Walton) tenta ensinar os alunos na marra, nem que seja analisando os poemas cheios de palavrões que eles escrevem.

Claro que tudo isso fica em segundo plano quando Brenda resolve finalmente arregaçar as mangas e partir para o "olho por olho, dente por dente", vingando-se brutalmente dos rapazes que estupraram sua irmã e mataram sua amiga. Aí é aquela típica guerra dos sexos na marra, com uma garota valentona enfrentando caras de igual para igual, fugindo daquele estereótipo de "menininha indefesa" que o cinema adora exibir (hoje menos do que antigamente).


E todo mundo, mas todo mundo MESMO, super-representa, rendendo algumas "interpretações" hilárias. Linda Blair nunca foi reconhecida por ser uma excelente atriz, mas suas caras de zangada são de rolar de rir. E o cara que interpreta Jake, o mais violento dos punks, parece ter saído diretamente da figuração de "The Toxic Avenger" ou algum outro filme da Troma, exagerando nas expressões de insanidade e risadas maléficas à la Dr. Evil, da série "Austin Powers" - é um vilão impossível de levar a sério.

(Não por acaso, em 1986 Linda Blair ganhou o Framboesa de Ouro, aquele prêmio para os piores do mundo do cinema, pela sua péssima interpretação em três filmes da época: este e mais "Prisioneiras da Ilha Selvagem" e "Patrulha Noturna". E olha que o páreo era duro: Linda concorreu com Brigitte Nielsen em "Guerreiros de Fogo" e Tanya Roberts em "007 Na Mira dos Assassinos"!!!)


Mas a verdade é que RUAS SELVAGENS é um daqueles filmes sobre os quais não adianta falar muito. Saia já do FILMES PARA DOIDOS e procure essa preciosidade para ver por conta própria, pois as imagens falam mais do que mil palavras.

É diversão garantida, e duvido que você terá alguma outra sessão de cinema mais engraçada do que esta com qualquer filme lançado em 2012. Com direito a cenas em que você não sabe se ri ou se chora, como esses 15 segundo aqui embaixo:

"Somos apenas bons amigos"



Nesses tempos politicamente corretos até encher o saco, em que uma simples piadinha com as "minorias" provoca a Terceira Guerra Mundial, um filme como RUAS SELVAGENS deixaria muito defensor da moral e dos bons costumes de cabelos em pé.

Afinal, ele prega que o "cool" é ser rebelde, arruaceiro, não levar desaforo pra casa e usar palavrões o tempo inteiro. As "mocinhas" da gangue de Brenda são umas verdadeiras vagabas que só falam em sacanagem o tempo todo, e os estudantes "comportados" e estudiosos da escola são mostrados como bundões e vítimas em potencial, não como exemplos a ser seguidos.


Além disso, todos os adultos - especialmente figuras de autoridade, como professores e o diretor da escola - devem ser combatidos, desrespeitados e humilhados, segundo a "mensagem" passada pelo filme!

E quer saber? É justamente por isso, e pelas apelações inerentes a todo bom filme exploitation, que RUAS SELVAGENS é tão legal. Porque os filmes de hoje estão tão certinhos, tão limpinhos e tão bobos que é impossível não ficar maravilhado vendo Linda Blair disparando uma flechada certeira na garganta de um punk numa produção de quinta categoria como esta.


O relativo sucesso do filme abriu as portas para que o diretor Danny Steinman fosse comandar uma produção maior, o quinto "Sexta-feira 13" - que, como já comentei, é lembrado como um dos piores da longa franquia. Consta que, na época das filmagens de "Sexta-feira 13 Parte 5", ele até já havia assinado um contrato para dirigir outras cinco produções, incluindo, acredite se quiser, um nunca filmado "Last House on the Left 2"!!!

Mas Steinman se desentendeu com os produtores durante as gravações de "Sexta-feira 13 Parte 5" e acabou queimado no meio cinematográfico. Esta aventura bastarda do Jason (ou não-Jason, como sabem os que já viram o filme) acabou sendo também a sua despedida dos sets de filmagem, pois logo depois Danny sofreu um grave acidente de trânsito e nunca mais trabalhou com cinema. Para a sorte dos espectadores, talvez.


Seja como for, RUAS SELVAGENS é o grande filme de Danny Steinman - embora com o devido bom humor e muito álcool na cabeça eu até me divirta com o "Sexta-feira 13 Parte 5". Claro que isso não quer dizer absolutamente nada, e apenas espectadores com um (mau) gosto muito peculiar irão curtir.

Por isso... tente! E se não gostar, e quiser amaldiçoar o FILMES PARA DOIDOS pela sugestão e pelo tempo perdido, bem, só tenho uma coisa para dizer: "Go fuck an iceberg!".


PS 1: O filme saiu em VHS no Brasil em tempos imemoriáveis pela Mundial Filmes. Lá fora, ganhou uma edição simplesmente sensacional em dois discos, uma daquelas coisas que jamais vai sair por aqui e que dá até gosto de comprar para incentivar o lançamento de outras pérolas com a mesma qualidade. Portanto, se você baixar RUAS SELVAGENS, curtir e tiver uns trocos sobrando, não deixe de comprar essa edição especial imperdível para a sua coleção.

PS 2: Duas pessoas já me cobraram sobre a falta de comentários a respeito da trilha sonora, que é muito boa. Não sou especialista em música e confesso que nunca tinha reparado muito nos rockzinhos anos 80 que tocam no filme, ocupado que estava prestando atenção na overdose de peitos de fora. Mas vale fazer uma busca por "Savage Streets Soundtrack" no YouTube, pois realmente tem umas pérolas na trilha sonora - especialmente "Justice for One" e "Quiet Ones You Gotta Watch", ambas de John Farnham. Perdoem a nossa falha!

Trailer de RUAS SELVAGENS



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Savage Streets (1984, EUA)
Direção: Danny Steinman
Elenco: Linda Blair, Linnea Quigley, Robert Dryer,
John Vernon, Johnny Venocur, Lisa Freeman, Luisa
Leschin, Bob DeSimone e Sal Landi.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

HAMBURGER - O FILME (1986)


Na aurora desse nosso século 21, alguns cineastas miraram suas câmeras e dedos acusadores para uma instituição norte-americana por excelência: o hambúrguer. Os riscos do consumo de fast food para a saúde e suas implicações sociais e sanitárias (como o uso de mão-de-obra barata e a falta de higiene na manipulação dos alimentos) foram dissecados em filmes como "Super Size Me" (2004), de Morgan Spurlock, e "Nação Fast Food" (2006), de Richard Linklater.

Ironicamente, na inconsequente década de 80, a indústria da fast food não era acusada e nem analisada criticamente; pelo contrário, era motivo de escárnio em comédias debilóides como "O Segredo Está no Molho" e este inacreditável HAMBURGER - O FILME - uma comédia tão escrota que faz os filmes atuais do Adam Sandler e do Rob Schneider parecerem algo escrito pela Jane Austen!


HAMBURGER - O FILME se encaixa dentro de um subgênero bem popular nos anos 1980: os "filmes de escolinha", em que um grupo de alunos desajustados ingressava em algum curso temático e enfrentava situações absurdas envolvendo sexo, drogas e alguma autoridade que eles combatiam e ridicularizavam.

Tivemos "filmes de escolinha" sobre academias de polícia (a franquia "Loucademia de Polícia" e sua cópia genérica, "Esquadrão de Recrutas"), sobre escolas militares ("Rebeldes da Academia", "Loucademia de Combate"), sobre auto-escolas ("Trânsito Muito Louco", "Loucademia de Trânsito"), e tudo mais que pudesse gerar piadas imbecis: "Loucademia de Bombeiros", "Loucademia de Ninjas" (!!!), "Loucademia de Esqui" e, a cereja do bolo, "Loucademia Funerária"!!!


Era questão de tempo para que algum cabeça-de-bagre pensasse em tirar sarro das cadeias de fast food adotando o formato "loucademia", e assim surgiu HAMBURGER - O FILME e sua inacreditável "Universidade Buster Burger", onde os alunos são iniciados nos segredos da produção e comercialização de hambúrgueres!

O filme começa com uma sequência de créditos muito divertida, que sintetiza a paixão nacional dos ianques por fast food de maneira apaixonada e sem a crítica ácida dos tempos atuais (chegando ao ponto de mostrar uma mãe alimentando seu bebê de colo com um sanduíche!), ao som de uma música grudenta que celebra o consumo desse tipo de alimento. O refrão diz: "Sliced tomatoes, cheese and bacon / Soda pop, and shakes a shakin' / And while you're listening and lookin' / It makes them proud, that they're a-cookin' / Hamburgers, for America!".


Logo em seguida, sem perda de tempo, HAMBURGER - O FILME nos transporta diretamente para o terreno da comédia grosseira e sexista típica da década de 80: somos apresentados ao nosso protagonista, Russell, enquanto ele está transando com uma gatinha no chuveiro da sua faculdade.

Pego no flagra, é enviado direto à psiquiatra da escola (a deliciosa Karen Mayo-Chandler, já falecida), que lembra o fato de o rapaz ter sido expulso de quatro universidades porque prefere transar com as colegas do que frequentar as aulas. Russell é diagnosticado como viciado em sexo, e, surpreendentemente, a própria psiquiatra tenta seduzi-lo, até que o reitor chega, pega o rapaz novamente no flagra e o expulsa da sua quinta faculdade!


Um rápido parêntese: Russell, um jovem universitário, é interpretado por Leigh McCloskey, que muitos devem lembrar como o protagonista de "Mansão do Inferno" (1980), de Dario Argento. Em 1986, quando HAMBURGER - O FILME foi feito, McCloskey já tinha 31 anos (!!!), e não convence nem minha vó míope como "jovem universitário"!

De todo jeito, nosso herói é estrangulado pelo pai após a quinta expulsão, pois está para ganhar uma polpuda herança, só que o dinheiro será liberado apenas se ele tiver um diploma de ensino superior. Como seus pais não têm mais dinheiro para mandá-lo a uma sexta faculdade, Russell vê uma única saída: ingressar na tal Universidade Buster Burger, administrada por uma famosa cadeia de fast food, e que oferece um curso superior gratuito para a formação de gerentes de lanchonetes!


É óbvio que os seus colegas de turma na "universidade" são aqueles escrachados estereótipos típicos dos filmes estilo "loucademia": tem uma freira, um gordão que controla seu apetite através de violentos choques elétricos, um nerd apaixonado por fast food, uma guerrilheira latina, um sósia de Michael Jackson e um outro viciado em sexo, Fred (Sandy Hackett), que, obviamente, acaba se tornando colega de quarto de Russell.

A universidade é radicalmente contra drogas, sexo e o consumo de outros alimentos que não a fast food servida pela cadeia Buster Burger, e quem garante a disciplina é o Sargento Drootin (Dick Butkus, o cara que batia em Jerry Lewis sempre que ele acendia um cigarro em "Cracking Up - As Loucuras de Jerry Lewis"). Vestido como militar e sempre levando uma espátula na mão, Drootin é a versão "fast food" do Capitão Harris, da série "Loucademia de Polícia".


As confusões começam quando Russell se apaixona por Mia, a filha do proprietário da cadeia de lanchonetes (interpretada pela gracinha Debra Blee, de "Ruas Selvagens"); já seu colega de quarto Fred começa a ter uma relação assanhada com a própria esposa do dono do lugar, a voluptuosa e ninfomaníaca Sra. Vunk (Randi Brooks).

OK, antes de mais nada, vou ser sincero: caso não tenha dado para perceber até agora, HAMBURGER - O FILME é uma comédia pavorosamente ridícula sobre fast food e que, para piorar, vem embalada nesse ridículo formato de "escolinha" - os alunos da Universidade Buster Burger têm aulas de "oniologia" (às lágrimas por causa da cebola), sobre cortes de carne, "medicina" do picles (uma cena tão estúpida que fiquei com medo de ter um derrame), e por aí vai.


E o motivo pelo qual essa tralha é um autêntico "Filme Para Doidos" é justamente a sua ruindade: HAMBURGER - O FILME é tão estúpido e tão grosseiro que se torna realmente divertido. Você provavelmente vai sentir a maior vergonha alheia se assisti-lo sozinho em casa num sábado à noite; mas tente colocar o filme para rodar quando tiver um grupo de amigos bêbados em casa, e prepare-se para gargalhar alto até o estômago doer.

Se as piadinhas prontas raramente são engraçadas, é possível cavocar algumas pérolas como a da velhinha que tem um ataque cardíaco no drive-thru da lanchonete. Apavorada, uma das meninas do caixa procura o gerente avisando sobre a mulher morta no estacionamento, e o rapaz apenas comenta despreocupadamente: "Bem, então cancele o pedido dela".


A Universidade Buster Burger também é um caso tão grotesco de vergonha alheia que rende algumas boas gargalhadas: os alunos precisam usar uniforme vermelho e boné com chifrinhos imitando boi (a freira, claro, usará um hábito vermelho!), e dormem em quartos decorados com motivos de fast food, inclusive as camas são gigantescos hambúrgueres!

O lugar ainda tem uma igreja com uma variação bem particular da pintura da Santa Ceia, onde o coro canta "Burgerluia" ao invés de "Aleluia", e o padre (o próprio dono da cadeia de lanchonetes) usa uma bíblia própria para dar sermões sobre a "sagrada fast food". Aí não tem erro: ou você bate a cabeça na parede, por vergonha de estar vendo uma coisa tão imbecil, ou abre mais uma cervejinha e rola de rir justamente com a imbecilidade do negócio.


Mas o mais engraçado de HAMBURGER - O FILME é justamente o excesso de mau gosto, com algumas piadas pesadas que podem até chocar espectadores mais sensíveis - se brincadeiras com sexo e escatologia não são a sua praia, FIQUE LONGE DESSE FILME!

Um dos momentos mais grosseiros e sem-noção (e nada engraçado, a não ser que você esteja REALMENTE alcoolizado) é quando um grupo de gordões invade a lanchonete onde os alunos estão estagiando. Eles fazem pedidos estrambólicos, como 50 hambúrgueres, e ainda roubam a comida dos outros clientes, tudo enquanto grunhem como porcos! Para liberar a lanchonete dos glutões, os alunos têm a fantástica ideia de misturar laxante industrial nos milk-shakes (!!!), fazendo os sujeitos saírem correndo da lanchonete em busca de um banheiro livre (tudo ao som daquela sonoplastia tenebrosa de "peidos molhados" e nojentos ruídos estomacais).


Algumas piadas sobre sexo também pegam pesado nesse mesmo (baixo) nível. Além de mulheres peladas desfilando com frequência pelo filme, há um momento espantoso em que Russell e Fred estão num "double data" às escondidas com Mia e Sra. Vunk, num restaurante de comida chinesa. Quando o Sargento Drootin aparece de repente, os rapazes precisam se esconder embaixo da mesa.

É quando Fred descobre que a Sra. Vunk não usa calcinha, e, sem a menor cerimônia, se atira no meio das pernas da moça para uma ruidosa sessão de sexo oral. Enquanto "acima" da mesa a mulher se contorce num ruidoso orgasmo, embaixo Fred comenta com Russell: "Ah, como eu adoro comer fora!". E tem gente que acha "American Pie" grosseiro e ofensivo...


O culpado por HAMBURGER - O FILME é o roteirista Donald Ross, também co-produtor. Este é o único crédito cinematográfico do sujeito, que, vejam só, especializou-se em escrever roteiros para inocentes seriados de TV como "Arnold", "Casal 20" e "Super Vicky"! Pelo jeito, Ross foi guardando dentro de si toda essa grosseria que liberou sem censura na sua única comédia sexista adolescente!

Já o diretor é Mike Marvin, também em sua estréia no cinema. Ele dirige o filme com mão pesada (há sérios problemas de ritmo), e às vezes as cenas são mais caóticas e bagunçadas do que propriamente engraçadas. Mas se o intuito era ser grosseirão, pode-se dizer que ele cumpriu o objetivo com louvor. Logo em seguida, Marvin dirigiu um clássico das videolocadoras brasileiras: "The Wraith - A Aparição", com Charlie Sheen.


É curioso constatar que um negócio obscuro como HAMBURGER - O FILME tem uma legião de fãs apaixonados, não só nos Estados Unidos (onde essa paixão faz mais sentido), mas também aqui no Brasil.

Particularmente, já vi o filme umas três vezes e o considero um "guilty pleasure": como já deixei bem claro, uma comédia pavorosamente ruim e mal-dirigida, que os próprios atores devem morrer de vergonha de ter feito, mas divertida justamente pelos seus excessos e por não ter medo de pegar pesado quando precisa. E as mulheres são todas lindas e frequentemente peladas (menos Debra Blee, que só mostrou os peitinhos em outros filmes, mas aqui está comportada).


Recentemente, o filme foi de certa forma homenageado pelo decadente Kevin Smith em "O Balconista 2": os personagens principais trabalham numa lanchonete com figurino bem parecido (inclusive o bonézinho com chifres imitando boi), que também vira cenário de inúmeras piadas grosseiras e escatológicas. Mas "O Balconista 2" não é nem de longe tão divertido quanto HAMBURGER - O FILME: pelo contrário, é apenas ruim e de mau gosto mesmo.

Portanto, se você tem saudade daquelas comédias estúpidas e sem-noção dos anos 80, e, como eu, acha que hoje os caras desaprenderam a fazer filmes assim, corra atrás dessa pérola esquecida, que espantosamente só está disponível em VHS, tanto aqui no Brasil quanto lá fora (nunca foi relançado em DVD ou blu-ray, apesar dos fãs apaixonados que tem nos EUA).


E, como nota de rodapé, vale destacar que o diretor Mike Marvin também atuou, anos antes, numa outra comédia adolescente sexista e grosseira chamada... "Hot Dog - The Movie", dirigida por Peter Markle!!!

Ou seja: se ele não tivesse sumido do mapa, provavelmente já teria dirigido ou produzido todo o cardápio de uma lanchonete - talvez seus próximos projetos fossem "French Fries - The Motion Picture", "Onion Rings - The Movie" e uma continuação de HAMBURGER chamada "Cheeseburger - The Sequel"!

Trailer de HAMBURGER - O FILME



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Hamburger - The Motion Picture (1986, EUA)
Direção: Mike Marvin
Elenco: Leigh McCloskey, Debra Blee, Dick Butkus, Randi Brooks,
Charles Tyner, Sandy Hackett, Barbara Whinnery, Maria Richwine,
Karen Mayo-Chandler e Chuck McCann.

sábado, 16 de junho de 2012

SOL VERMELHO (1971)


Quantos argumentos você precisa para largar essa resenha agora mesmo e sair da frente do computador para ver ou rever SOL VERMELHO?

Um só? Bem, este é o único western da história em que Toshiro Mifune, um dos "Sete Samurais", faz parceria com Charles Bronson, um dos "Sete Homens e um Destino"!

Dois? O filme é dirigido pelo Terence Young, o cara que começou a série James Bond e dirigiu algumas das suas melhores aventuras, e o vilão é interpretado pelo galã francês Alain Delon!

Ah, quer três argumentos? Então saiba que a linda musa suíça Ursula Andress não apenas faz parte do elenco, mas ainda aparece PELADA lá pelas tantas!
 
(Como depois desses três argumentos não deve ter ficado mais ninguém por aqui para ler, vou continuar minha explanação para ninguém, mas feliz por saber que esse filmaço chamado SOL VERMELHO estará recebendo a devida atenção dos distintos leitores do FILMES PARA DOIDOS!)


Se existe algo que pode ser chamado de "produção internacional", este algo é SOL VERMELHO. Dá só uma sacada: é um legítimo western spaghetti (ou pelo menos segue de perto as "regras" da coisa), mas foi produzido por americanos. O elenco tem um ianque (Bronson), um chinês que ficou famoso no cinema japonês (Mifune), um francês e uma francesa (Delon e a musa Capucine), uma suíça (Ursula) e mais uns atores italianos conhecidos (Luc Merenda, Guido Lollobrigida...). Foi dirigido por um inglês (Young) nascido na China, e filmado em Andalucía, na Espanha!

O resultado dessa reunião de nacionalidades e talentos não é apenas eficiente, mas imperdível - uma daquelas pérolas que, sabe-se lá porque, acabou caindo na obscuridade sem merecer.


O roteiro foi escrito a seis mãos por Denne Bart Petitclerc, William Roberts e Lawrence Roman, baseados num livro de Laird Koenig que, supostamente, narra uma história verdadeira ocorrida nos Estados Unidos do final do século 19.

Bronson interpreta Link Stuart, líder de um grupo de assaltantes de banco. Seu braço direito é o francês bon-vivant Gauche (Delon). Quando o filme começa, o bando de Link e Gauche ataca um trem para roubar uma fortuna levada no vagão de carga. 

Por coincidência, o mesmo trem está transportando o embaixador japonês em sua primeira visita aos Estados Unidos, para um encontro com o presidente Ulysses S. Grant. E como o ilustre visitante leva uma espada samurai folheada em ouro para dar de presente a Grant, dois samurais o acompanham para garantir sua segurança e a do tesouro.


Rudes foras-da-lei do empoirado Velho Oeste, Link e Gauche não entendem nada da cultura oriental, mas sabem que balas de revólver são mais eficientes que espadas. Portanto, o francês mata um dos samurais e rouba a espada de ouro. Depois, tenta se livrar do parceiro Link com uma banana de dinamite, fugindo com todo o produto do roubo e o que restou da quadrilha.

Quem já viu um filme de faroeste sabe que pistoleiro traído não deixa passar barato. E é claro que Link sobrevive ao atentado e resolve sair atrás de Gauche e da fortuna roubada. Mas terá que fazê-lo com um parceiro inesperado: o segundo samurai, Kuroda Jubie (Mifune), que pretende vingar a morte do companheiro e recuperar a espada roubada.

E, como todo bom samurai, ele tem um prazo apertado para cumprir as duas missões; se não conseguir, deverá praticar harakiri - aquele suicídio em que o sujeito rasga o próprio bucho com a própria espada!


Aí começa aquela típica história de parceiros que não se bicam, que são completamente diferentes, que brigam e discutem o tempo todo, mas que, ao longo de sua jornada, descobrem ser mais parecidos do que imaginavam.

A parceria forçada entre Link, o fora-da-lei ocidental, e Kuroda, o guerreiro oriental, rende alguns belíssimos momentos. O pistoleiro quer livrar-se do samurai com truques sujos porque sabe que ele matará Gauche antes que este revele onde escondeu a fortuna roubada; já o samurai age movido pela honra e tenta entender as motivações do "companheiro". Eles irão aprender muito sobre suas diferenças, e dessa união nascerá uma grande amizade.


Já as belas Ursula Andress e Capucine aparecem como prostitutas de um bordel onde a dupla acaba parando, já que Cristina (Ursula) é a amada de Gauche e ele terá que passar pelo local para buscá-la. Em pelo menos duas cenas, a linda loira suíça mostra tudo que não pôde mostrar para James Bond no clássico "007 Contra o Satânico Dr. No", como você pode ver nas fotos abaixo.

(Um outro ator de "Dr. No", o inglês Anthony Dawson, também aparece no filme como um dos homens de Gauche, demonstrando que o diretor Terence Young gostava de trabalhar várias vezes com o mesmo time.)


SOL VERMELHO é um western definitivamente diferente, pois não é todo dia que você vê Charles Bronson e Toshiro Mifune combatendo bandidos com tiros e espadadas, em cenas muito bem filmadas por Young e belissimamente sublinhadas pela música de Maurice Jarre. E também não é todo dia que você vê Alain Delon como vilão filho da puta e Ursula Andress pelada.

O terceiro ato traz uma bem-vinda reviravolta, pois quando parece que teremos um duelo triplo à la "Três Homens em Conflito" (lançado cinco anos antes), Link, Kuroda e Gauche precisam unir suas forças (e revólveres) contra uma ameaça maior: o ataque de índios renegados em busca de escalpos.


Contempla-se, assim, quase todos os elementos característicos de um faroeste tipicamente norte-americano (os heróis rechaçando um ataque de índios) e de um western spaghetti (o fora-da-lei gente boa em busca do parceiro traíra), com a bem-vinda adição do elemento oriental (o samurai).

Por isso, SOL VERMELHO não funciona apenas como uma aventura acima da média, mas também como uma homenagem às três vertentes básicas do faroeste moderno. Afinal, vários clássicos do western europeu e norte-americano beberam da fonte do cinema oriental: "Por um Punhado de Dólares" foi inspirado em "Yojimbo"; "Sete Homens e um Destino" é remake de "Os Sete Samurais", e "Quatro Confissões" tem estrutura bem semelhante a "Rashomon". SOL VERMELHO talvez seja o primeiro filme que busca uma ponte com o cinema oriental (através de um de seus personagens mais característicos, o samurai) ao invés de simplesmente refilmar a história com elementos ocidentais, como aconteceu nas produções já citadas.


Isso dá um tom épico ao filme: é o encontro de três mundos (EUA, Europa e Japão) e três culturas, mas não num pretensioso dramalhão de época, e sim numa aventura divertida, barulhenta e violenta, repleta de tiroteios e sangrentos golpes de espada desferidos pelo samurai.

Infelizmente, hoje é difícil encontrar uma versão decente de SOL VERMELHO para que o filme possa ser devidamente apreciado. O formato original de tela é widescreen, mas quase todos os DVDs existentes pelo mundo trazem uma copiagem porca ampliada para tela cheia, com as laterais da imagem criminosamente cortadas. 

Uma verdadeiro crime para com uma obra de relevante importância cultural, ALÉM de ser um western bem decente. E poderia muito bem sucitar pesquisas e discussões sobre este aspecto que eu citei por cima, do amálgama das três referências do faroeste moderno.



Não obtive informações confiáveis para saber se SOL VERMELHO foi sucesso ou fracasso de bilheteria na época do seu lançamento. Seja como for, abriu as portas para vários outros westerns na linha "Ocidente encontra Oriente", como "Ouro Sangrento" (1974), do italiano Antonio Margheritti, com Lee Van Cleef e Lo Lieh, ou o recente "Bater ou Correr" (2000), de Tom Day, com Owen Wilson e Jackie Chan.

Também recentemente, tivemos alguns casos de "SOL VERMELHO às avessas", com cineastas orientais prestando homenagens abertas e apaixonadas ao faroeste (seja ianque ou europeu).

Um deles é "Era Uma Vez na China e na América" (1997), de Sammo Hung, que coloca Jet Li para lutar com pistoleiros do Velho Oeste, explorando o episódio verídico dos imigrantes chineses que foram trabalhar na construção das rodovias nos Estados Unidos no final do século 19. 


Outro caso é uma brincadeira feita pelo diretor japonês e doidão-mor Takashi Miike, que em 2007 filmou um legítimo western spaghetti só que no Japão e com japoneses no elenco - o divertido "Sukiyaki Western Django".

Uma prova de que ainda há muito a explorar, e muitas histórias a contar, nesse filão do "Ocidente encontra Oriente no Velho Oeste". Mais um motivo para (re)descobrir SOL VERMELHO.

PS: O italiano Alberto De Rossi assina a maquiagem das cenas de violência. Adivinha só: ele era pai do Giannetto De Rossi, o mestre responsável pela sangueira nos filmes do Lucio Fulci e de tantos outros diretores do cinema fantástico italiano!


Trailer de SOL VERMELHO


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Soleil Rouge / Red Sun 
(1971, Itália/França/Espanha)
Direção: Terence Young
Elenco: Charles Bronson, Toshiro Mifune, Alain Delon,
Ursula Andress, Capucine, Anthony Dawson, Barta Barri,
Guido Lollobrigida, Luc Merenda e Mónica Randall.